Tesouro n.º 184 · Volume III

SACRILÉGIO SACRILEGIO

3 seções · 14 parágrafos · pp. 2130–2135 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O SACRILÉGIO É O MAIS ENORME DOS DELITOS

São peremptórias, a esse respeito, as sentenças de São Paulo aos Coríntios e aos Hebreus: «Quem quer que, escrevia ele àqueles, comer este pão (eucarístico) ou beber o cálice do Senhor indignamente, tornar-se-á réu do corpo e do sangue do Senhor… ele come e bebe a sua própria condenação…» (1Cor 11, 27-29). Aos Hebreus, depois de ter dito que o profanador crucifica novamente em si o Filho de Deus (Hb 6, 6), raciocina assim: «Se aquele que, pela deposição de duas ou três testemunhas, é convencido de ter transgredido a lei de Deus é condenado à morte sem piedade, pensais quanto mais acerbo suplício merece aquele que pisou o Filho de Deus, maculou o sangue da aliança pelo qual havia sido santificado e ultrajou o espírito da graça» (Id. 10, 28-29).

Com toda razão, portanto, São Vicente Ferrer pregava que aquele que comunga indignamente comete pecado mais enorme do que aquele que lançasse o Santíssimo Sacramento numa cloaca (1); e São Bernardo chama os profanadores do corpo de Jesus Cristo de «piores que Judas, porque este entregou o Salvador às mãos dos judeus, ao passo que aqueles o entregam ao demônio, pois colocam o seu corpo adorável num lugar sujeito ao poder do demônio, sendo tal o corpo e o coração deles (2)». «Não é tão indigno de receber o corpo de Jesus Cristo o lodo, diz Teofilacto, quanto o coração impuro do profanador (3)». De que horrendo crime não se tornaria réu aquele que profanasse uma igreja, um altar, um tabernáculo, os vasos sagrados! Ora, que pensar do delito daquele que comunga indignamente?

«Quem será tão ímpio, pergunta Santo Agostinho, que ouse tocar o santíssimo sacramento com mãos enlameadas? (4). Mas aquele que trata indignamente o corpo de Cristo reinante nos céus peca muito mais gravemente do que aqueles que o pregaram na cruz, quando ele estava nesta terra (5)». Porque, como observa Tertuliano, os judeus capturaram, maltrataram e crucificaram Cristo apenas uma vez; enquanto o sacrílego o toma, o amarra, o maltrata e o crucifica todas as vezes que comunga indignamente. De que crime se torna culpado aquele que transforma a redenção em perdição, a comunhão em veneno, a vida em instrumento de morte! … «Ah! queira Deus impedir — exclama São Pedro Damião — que aquele que adora ídolos de carne ouse acolher, no templo de Vênus, o Filho da Virgem! (6)»; «E, se quereis pecar, diz São Bernardo, procurai outra língua que ainda não esteja rubra do sangue de Jesus Cristo (7)».

2. IMPIEDADE DO SACRILÉGIO

O Evangelho narra que Judas, tendo ido aos príncipes dos sacerdotes, disse-lhes: Que quereis dar-me, e eu vos entregarei Cristo? Eles lhe prometeram trinta moedas de prata, e, a partir daquele momento, Judas procurou a ocasião de trair Jesus Cristo (Mt 26, 14-16). O sacrílego também faz um pacto com Satanás e lhe diz: Que queres dar-me, e eu te entregarei Jesus? Dá-me aquele prazer impuro, aquelas riquezas, aquela satisfação da vingança, e eu te darei em troca o meu Deus! … Os sacrílegos vendem e traem Jesus à imitação de Judas, com esta diferença: a traição de Judas se transformou em bem para a salvação universal, mas o pecado do profanador sacrílego não serve senão para ultrajar Jesus e alegrar o inferno.

Deus é nosso pai, e o melhor dos pais… E que faz o sacrílego? Ele se levanta contra Deus, flagela-o, crucifica-o, aniquila-o quanto lhe é possível… Não é, portanto, um parricida? … Deus o cumulou e ainda o cumula de benefícios, e ele o insulta, despreza-o e persegue-o como seu mortal inimigo… Não se deve chamá-lo de monstro de ingratidão? … Ouvi como ele se queixa disso: «Se fosse meu inimigo aquele que me insulta, eu o suportaria; se contra mim se tivesse levantado quem me odeia, talvez eu me tivesse furtado às suas perseguições: mas revoltar-te contra mim, combater-me, insultar-me, tu, a quem eu considerava como outro eu mesmo; tu, que vivias familiarmente comigo; tu, confidente dos meus segredos, que te alimentavas à minha mesa; tu, com quem eu caminhava em acordo na casa do Senhor?» (Sl 54, 12-15); ah! isto é um excesso de ingratidão que supera a malícia do homem… Há nesse proceder uma impostura tão monstruosa que tem algo de diabólico. Judas trai o mestre com um beijo fingido… O profanador sacrílego, com as mãos juntas sobre o peito, os olhos fixos no chão, os joelhos dobrados, em atitude de respeito e oração, vende o Salvador a Satanás.

Mas não basta dizer que na conduta do sacrílego há algo de diabólico; é preciso dizer que ele mesmo é um demônio em carne e osso. Com efeito, não foi esse acaso o nome com que o próprio Jesus Cristo chamou Judas quando este se preparava para traí-lo? (Jo 6, 71). E São Paulo também não deixa claramente entender essa verdade, isto é, que o sacrílego se torna um demônio, quando escreve aos Coríntios: «Não quero que tenhais sociedade alguma com os demônios. Não podeis beber o cálice do Senhor e o cálice dos demônios; nem participar da mesa do Senhor e da mesa dos demônios» (1Cor 10, 20-21). «Aquele que comunga, consciente de ter pecado mortal, é pior que um diabo», diz São João Crisóstomo (8). E Santo Isidoro diz que «nesse traidor sacrílego o demônio entra por inteiro (9)».

Não obstante isso, ou como poderia frequentemente Jesus Cristo dizer àquelas multidões de pessoas que se aglomeram junto ao sagrado altar: «Vós estais limpos, mas não todos» (Jo 13,10), «e há entre vós quem come o pão comigo, o qual levantará contra mim o calcanhar» (Ib. 18). «Em verdade vos digo que aqui se encontra aquele que me trairá» (Ib. 21). Responderíeis talvez com Judas: sou eu, Senhor? Sim, sois vós, o sacrílego, o traidor, se ocultastes na confissão algum pecado mortal…; sois vós o traidor, se vos aproximastes do tribunal da penitência sem contrição…; sois vós, se não fizestes o firme propósito de não pecar, se conservais algum apego culpável a coisa pecaminosa… As vossas comunhões fazem-vos perder os vossos maus hábitos?, pergunta São Boaventura, e responde que, se assim não é, tendes razão para vos julgardes sacrílegos profanadores.

3. CASTIGO DOS PROFANADORES DOS SACRAMENTOS

«Ai daquele que trair o Filho do homem! Melhor seria para ele não ter jamais nascido» (Mt 26,24), disse o Divino Mestre, aludindo não somente a Judas, mas a todos aqueles que, imitadores de Judas, o receberiam sacrilegamente. E quereis ver o cumprimento desta ameaça? Ouvi-o da boca de São João: «Depois que Judas comungou, Satanás apoderou-se dele» (Jo 13,27). Terrível castigo: tornar-se escravo e corpo de Satanás! E que outro castigo se segue ao primeiro? Diz São João Crisóstomo: «O primeiro traidor, o primeiro sacrílego perde a sua alma; encontra-se agora no inferno, submetido a suplício inevitável (10)». Com toda razão, pois, exclama, apavorado, São Bernardo: «Ai, e mil vezes ai daquele que, com a alma imunda, se aproxima do santo altar! (11)».

Como vimos, São Paulo diz abertamente que aquele que come e bebe indignamente o corpo e o sangue de Jesus Cristo come e bebe a própria condenação (1Cor 2,29), e que, se era condenado à morte quem violava a lei de Moisés, suplícios muito mais acerbos aguardam aquele que calca aos pés o Filho de Deus, profana o seu sangue e ultraja o seu espírito (Hb 10,29); e aos Coríntios revela que, se há entre eles muitos enfermos e fracos e muitos atingidos pela morte, a culpa deve ser atribuída às suas comunhões indignas e sacrílegas (1Cor 11,30). Ah! Como é verdade que sobre os sacrílegos profanadores chovem aquelas terríveis imprecações de Davi: «Sobre eles desça a morte, e desçam vivos ao inferno» (Sl 54,16). «Seja para eles esta mesa um laço; obscureçam-se os seus olhos, para que não vejam» (Sl 68,23-24). «Derramai, ó Senhor, sobre eles a vossa ira, e o fogo da vossa cólera os alcance; sejam para sempre esquecidos pela vossa clemência e apagados do livro da vida» (Sl 68,25,28-29). Oza estende imprudentemente a mão sobre a arca do Senhor, e ei-lo morto, ferido pela ira do Senhor (2Sm 6,6-7). Oh! A quantos cristãos sucede invisivelmente aquilo que o Salmista diz dos judeus murmuradores e rebeldes contra Deus no deserto: «Tinham ainda na boca os seus alimentos, e já a vingança de Deus os havia ferido de morte» (Sl 67,34-35).

«Quem quer que, diz São Pedro Damião, ouse aproximar-se dos santos altares com o fogo da concupiscência carnal nas entranhas, esse é sem dúvida consumido pelo fogo da vingança divina (12)». «Ai das mãos sacrílegas! exclama São Tomás de Vilanova; ai dos corações imundos que indignamente recebem o seu Deus! Não há suplício nem tormento que baste para punir o ultraje que o sacrílego profanador do Sacramento faz a Jesus Cristo (13)». São Cipriano, falando de uma mulher que, tendo comungado sacrilegamente, caiu morta no mesmo instante aos pés da sagrada mesa, diz: «Ela recebeu não um alimento, mas uma espada; caiu por terra como se tivesse ingerido um veneno; e aquela que havia enganado o homem encontrou em Deus o seu vingador (14)».

Muitos outros exemplos de castigos repentinos e visíveis infligidos aos sacrílegos estão registrados pela história. Santo Optato, bispo de Milevo, na África, narra, coisa incrível e horrenda!, que, tendo alguns bispos donatistas (hereges) ordenado que as espécies eucarísticas fossem lançadas aos cães, viram-se então sinais sensíveis da cólera divina, pois aqueles animais, tendo-se tornado subitamente raivosos, lançaram-se contra os seus donos e, com os dentes, dilaceraram-lhes os corpos (15). Aconteceu, no tempo de São João Crisóstomo, que muitos, depois de receberem a hóstia sagrada, ficavam possuídos pelo demônio. São Gregório Magno recorda um exemplar castigo infligido a oitenta profanadores do corpo de Jesus Cristo, os quais, no próprio ato da comunhão sacrílega, foram atacados por uma repugnante peste que em pouco tempo os levou a uma morte espantosa. Santo Anselmo atesta ter visto, depois da Páscoa, doenças gravíssimas causadas pelos sacrilégios (In Monol.).

Quem ignora a terrível vingança que o céu exerceu contra Lotário, rei da França, e contra vários outros senhores de sua corte, por causa de um sacrilégio? Com efeito, tendo este rei ousado, acrescentando o sacrilégio ao perjúrio, receber das mãos do Papa Adriano II o sagrado corpo de Cristo em confirmação do juramento que fizera de, depois da excomunhão do Papa Nicolau, abster-se de toda relação com a adúltera Valdrada, não obstante o Sumo Pontífice o ter advertido da condenação em que incorreria se ousasse profanar o sangue do Senhor com uma comunhão sacrílega, não tardou a pagar o preço do duplo delito. Retornava ao seu reino, todo alegre e contente por ter conseguido enganar o Papa, quando eis que, apenas chegado a Lucca, ele e o seu séquito são atacados por uma febre maligna, com sintomas e consequências jamais vistas. Os cabelos, as unhas e a própria pele caíam-lhes em escamas, enquanto um fogo interno os devorava. O rei, transportado para Piacenza, perdeu a fala e a consciência e morreu sem dar sinal de arrependimento. Quanto à sua gente, observou-se que aqueles que, ao mandato do Papa — de que se aproximassem da sagrada mesa somente os que pudessem jurar não ter consentido nem cooperado nos adultérios de seu senhor com Valdrada —, haviam ousado profanar com ele o corpo de Jesus Cristo, morreram do mesmo modo que ele; enquanto aqueles que, temendo tão grande sacrilégio, se haviam abstido da santa comunhão, ou não foram atingidos pela febre ou dela se curaram (Storia della Chiesa di Francia). Inumeráveis outros fatos certos e autênticos poderiam ser citados para provar que Deus pune os sacrílegos muitas vezes já nesta vida, com castigos temporais.

Tremei, ó profanadores do corpo e do sangue de Jesus Cristo! Tremei vós que comeis e bebeis o vosso julgamento e a vossa condenação! Pois coisa horrenda é, diz o Apóstolo, cair nas mãos do Deus vivo! (Hb X,31). Tremei, porque Deus não se deixa escarnecer impunemente (Gl 6,7); e os sacrílegos profanadores dos seus sacramentos serão submergidos, diz Santa Brígida, no fogo do inferno, abaixo dos próprios demônios.

«Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e depois coma desse pão e beba desse cálice» (1Cor 11,28). Estas palavras do Apóstolo São Paulo encontram sua explicação nestas outras de Santo Agostinho: «Quem quer receber a vida, mude de vida, porque, se não mudar de vida, receberá a vida para sua condenação; e, recebendo indignamente aquela vida que é Jesus, cai mais profundamente na corrupção; em vez de haurir dela a saúde da alma, nela encontra a morte (16)». Mais adiante vai São Pedro Damião e diz: «Guardai-vos de aproximar-vos do altar com excessiva tibieza; pois comungais mal se não vos aproximais com profundo respeito e muita atenção (17)». Examinar-se implica, pois: 1° fazer uma boa confissão; 2° arrepender-se sinceramente; 3° corrigir-se; 4° instruir-se; 5° colocar-se em estado de graça; 6° ter sentimentos de fé, esperança, amor, humildade, desejo e semelhantes…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.