Tesouro n.º 188 · Volume III

SABEDORIA SAPIENZA

7 seções · 22 parágrafos · pp. 2170–2178 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É A SABEDORIA

A palavra sabedoria, sagacidade, sapientia, deriva do vocábulo latino sapere, que quer dizer ter gosto, ter saber; no sentido espiritual, ela é o conhecimento de Deus, dos fins últimos e dos meios que a eles conduzem… Santo Agostinho diz que a sabedoria é a contemplação da verdade, pela qual o homem todo se compõe em paz e recebe em si a semelhança de Deus (1). Segundo a definição de Gaetano, a sabedoria é a razão e a norma das ações humanas, formada segundo o modelo da causa suprema, que é Deus (2).

2. DEUS É A SUPREMA SABEDORIA

«Ó como são elevadas — exclamava São Paulo —, como são imensas as riquezas da sabedoria e da ciência de Deus! Como são incompreensíveis os seus juízos e impenetráveis os seus caminhos! Quem jamais penetrou o pensamento do Senhor? Quem lhe deu conselhos? Todas as coisas são dele, por ele e nele» (Rm 11, 33, 36). Deus é a sabedoria incriada; desta sabedoria nasce toda outra sabedoria… Somente nele está a sabedoria… e, portanto, somente dele se recebe a sabedoria… A sabedoria de Deus resplandece em todas as suas obras… Na providência, ela se demonstra de modo admirável e manifesto.

E de Jesus Cristo pregava o Apóstolo que nele estão todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2, 3). «Nós pregamos — escrevia depois aos Coríntios — o Cristo crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios; mas, para os eleitos, tanto judeus como gregos, ele é a força e a sabedoria de Deus» (1Cor 1, 23-24).

3. NECESSIDADE DA SABEDORIA E EM QUE ELA CONSISTE

É tão evidente a necessidade da sabedoria para o homem, que até os filósofos pagãos a reconheceram; entre eles, Sêneca, por exemplo, diz que «sem o estudo e o amor da sabedoria não pode haver para a alma nem verdadeira nem sólida bem-aventurança (3)», e Fílon observa que a sabedoria é para o homem como o piloto para o navio, o magistrado para a cidade, o general para o exército, a alma para o corpo, o espírito para a alma (Lib. de Abraham).

Por isso, o Senhor diz nos Provérbios: «Meu filho, aplica-te à sabedoria e alegra o teu coração» (27, 11); e no livro II das Crônicas encontramos que, tendo Deus proposto a Salomão que lhe pedisse aquilo que mais desejasse, e que lho daria, e tendo Salomão pedido a sabedoria, esta escolha que Salomão fez, preferindo-a a qualquer outro dom, agradou tanto a Deus que ele lhe respondeu: Porque nisto está o teu amor, e não me pediste nem riquezas, nem glória, nem longos anos de vida, nem a morte daqueles que te odeiam, mas a sabedoria e a ciência, estas coisas te serão concedidas, e acrescentarei ainda tantos bens, riquezas e glória, que nenhum rei, nem antes nem depois de ti, poderá comparar-se contigo (I, 7, 11-12).

Qual seja, pois, a verdadeira sabedoria, diz-no-lo o Doutor das Gentes. Ele escreve aos Coríntios: «Quanto a mim, vim anunciar-vos o testemunho de Jesus Cristo, mas não com eloquência de palavras nem com os artifícios da sabedoria humana, pois não quis ter entre vós outra ciência senão a de Jesus crucificado» (1Cor 2, 1-2). Eis onde o grande Apóstolo coloca a verdadeira sabedoria: ele a faz consistir toda no conhecimento de Jesus crucificado… A ciência, pois, de Jesus e de sua cruz constitui a verdadeira sabedoria do homem.

Prossegue dizendo que a sua pregação não se apoiava na persuasão da sabedoria humana, mas na manifestação do espírito e do poder divino, para que a fé deles não tivesse por fundamento a sabedoria dos homens, mas o poder de Deus. Nós pregamos a sabedoria entre os perfeitos; não a sabedoria deste século, nem a dos príncipes deste mundo, que se destroem mutuamente; mas pregamos a sabedoria de Deus no mistério, a sabedoria que foi ocultada, que Deus predestinou antes dos séculos para nossa glória, que nenhum dos príncipes deste mundo conheceu, porque, se a tivessem conhecido, jamais teriam crucificado o Senhor da glória (1Cor II). Ninguém, portanto, se iluda; se alguém parece sábio segundo o século, torne-se insensato, se quiser ser verdadeiramente sábio. Porque a sabedoria deste século é loucura diante de Deus, segundo aquilo que está escrito: «Enredarei os sábios na sua astúcia» (1Cor 3, 18-19). Os Apóstolos pregavam a sabedoria entre os perfeitos; a sabedoria cristã, a ciência da cruz de Jesus Cristo…, de sua graça…, da encarnação…, da salvação…, da redenção…, da glória eterna…

Em outro lugar, o mesmo Apóstolo diz: «Cristo não me enviou para pregar com a sabedoria da palavra, para que a sua cruz não se tornasse inútil. Porque a palavra da cruz é loucura para aqueles que se perdem; mas, para nós, que somos salvos, é o poder de Deus; pois está escrito: Confundirei a sabedoria dos sábios e rejeitarei a prudência dos prudentes. Onde está o sábio? Onde o letrado? Onde o amigo deste século? Porventura Deus não tornou louca a sabedoria deste mundo? Como o mundo não conheceu a Deus por meio da sabedoria, aprouve a Deus salvar os que creem por meio da loucura da pregação. Os judeus pedem prodígios, os gregos procuram a sabedoria, e nós anunciamos Jesus Cristo crucificado, porque a loucura de Deus é mais sábia que a sabedoria dos homens, e a fraqueza de Deus é mais forte que a força dos homens. Poucos há entre vós que sejam sábios, poucos poderosos, poucos grandes segundo a carne; mas consolai-vos, porque Deus escolheu o que o mundo tem de humilde para abater os grandes, o que tem de fraco para derrubar os fortes, a fim de que ninguém se ensoberbeça diante dele. É por ele que vós estais em Cristo Jesus, o qual Deus fez e constituiu para nós sabedoria, justiça, santificação e redenção, para que, segundo aquilo que está escrito, quem se gloria, glorie-se no Senhor» (1Cor I).

Ah! A sabedoria do mundo não é a verdadeira sabedoria, porque não desce do alto, mas é terrena, animal e diabólica, como a chama São Tiago (Tg 3,15). Toda a única verdadeira sabedoria do homem consiste nisto, diz Lactâncio: que conheça e adore a Deus (Lib. 3, cap. XXX). Aprender a sabedoria quer dizer aprender a conhecer, amar e servir a Deus, tender ao fim para o qual o homem foi criado e resgatado… A verdadeira e salutar sabedoria consiste em conhecer Jesus e aquilo que ele fez por nós…; em conhecer e observar a religião, a lei divina; em praticar a virtude, em fugir do vício… Fora disso, toda outra sabedoria é insensatez, é loucura… A mulher de Lot, transformada numa estátua de sal, ensina-nos ainda que a sabedoria consiste em não olhar para trás quando se caminha pela estrada da salvação e mostra-nos que, julgando-se sábia, foi insensata ao voltar-se para trás.

«A primeira e verdadeira sabedoria — escreve o Nazianzeno — é uma conduta louvável, uma alma pura diante de Deus; por esta pureza, os homens puros se unem àquele que é puro, e os Santos se unem ao Santo dos Santos (4)». Verdadeiramente sábio é aquele, diz São Bernardo, que vê as coisas tais como são em si mesmas» (In Prov.), isto é, que vê as coisas divinas como divinas, as humanas como humanas, as eternas como eternas, as transitórias como transitórias… Também Cícero diz: «A sabedoria consiste em dominar a cólera, em vencer a si mesmo. O homem sóbrio, constante, intrépido, afável e continente é verdadeiramente sábio (5)».

4. EXCELÊNCIA E PRECIOSOS FRUTOS DA SABEDORIA

1° A sabedoria é poderosa. «Eu vos darei — disse Jesus Cristo aos Apóstolos — tais palavras e tal sabedoria, contra as quais lutarão em vão os vossos adversários» (Lc 21, 15). E o Espírito Santo nos exorta a aplicar-nos à sabedoria, para que possamos responder àquele que nos desacredita (Pr 27, 11). «O sábio — escreve Santo Ambrósio — não se deixa abalar pelo temor nem se demover pelo poder; nas prosperidades não se ensoberbece, nas contrariedades não desanima, porque onde há sabedoria, há força de ânimo, coragem e constância. O sábio permanece perfeito em Jesus Cristo, fundado na caridade, arraigado na fé (6)».

2° A sabedoria contém em si e proporciona todos os bens. «A sabedoria que vem do alto — diz São Tiago — é primeiramente pura; depois, pacífica, modesta, dócil, inclinada ao bem, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, sem fingimento» (Tg 3,17). Eis alguns traços do magnífico elogio que o Espírito Santo fez da sabedoria:

«O desejo da sabedoria conduz ao reino eterno… A multidão dos sábios é a salvação do mundo, e o rei sábio, a consolidação do povo… Amai a luz da sabedoria, vós todos que presidis às nações» (Sb 6, 21, 26, 23). «A sabedoria é um tesouro infinito, do qual aquele que fez uso se tornou amigo de Deus. Nela está o espírito de inteligência, santo, único, múltiplo, sutil, eloquente, pronto, incorruptível, seguro, doce, amante do bem, penetrante, infalível, benéfico, amigo dos homens, imutável, indefectível, calmo, provido de toda virtude, previdente de todas as coisas, que compreende todos os espíritos, inteligível, vivo, puro. Ela é um vapor do poder de Deus, uma pura emanação da claridade do Onipotente; nada de maculado se encontra nela. É o candor da luz eterna, o espelho sem mancha da majestade de Deus e a imagem de sua bondade. Ela renova todas as coisas e, difundindo-se entre as nações nas almas santas, forma os amigos de Deus e os profetas. É mais bela que o sol, vence toda constelação e, comparada com a luz, é mais bela. Deus não ama senão aquele que habita com a sabedoria» (Sb 7, 14, 22-23, 25-27, 29, 72). «A sabedoria alcança com força de um extremo ao outro e dispõe todas as coisas com suavidade. Ela ensina a ciência de Deus» (Sb 8, 1, 4).

«Eu antepus, diz Salomão, o espírito de sabedoria aos reinos e aos tronos, e, em comparação com ela, as riquezas me pareceram um nada. Não a comparei aos diamantes e às pedras preciosas, porque todo o ouro do mundo, em comparação com ela, é um grão de areia e lama. Preferi-a à luz, porque o seu esplendor jamais se extinguirá. Todos os bens vieram juntamente com ela, e tesouros imensos me choveram de suas mãos» (Sb 7, 7-11). «Decidi, portanto, conduzi-la para viver comigo, sabendo que ela me fará participar de seus bens e será a consolação de meu pensamento no desalento. Por ela obterei a imortalidade e deixarei uma memória eterna entre aqueles que vierem depois de mim. Entrando em minha casa, repousarei com ela, porque sua companhia não é amarga nem melancólica, mas inspira alegria e júbilo» (Sb 8, 9, 13, 16). «Por meio da sabedoria foram curados todos aqueles que vos agradaram, ó Senhor, desde o princípio» (Sb 9, 18). A sabedoria deu a palavra aos mudos e tornou fecunda a língua das crianças (Sb 10,21). Rica e preciosíssima virtude deve ser a sabedoria, se tantas maravilhas lhe atribui a Sagrada Escritura!

Os antigos figuravam a sabedoria num quadrado, indicando assim sua força, firmeza, utilidade… «A sabedoria, diz Santo Agostinho, faz que o sábio seja, à semelhança de Deus, plácido, sereno, tranquilo, imperturbável, elevado, tanto na prosperidade quanto na adversidade, como se fosse um anjo em carne (7)». E Cícero deixou escrito que o homem sábio, munido e defendido, como por bastiões, pelo poder da prudência, pela paciência em meio às misérias humanas, pela meditação sobre as vicissitudes da fortuna e por todas as virtudes, não pode ser nem conquistado nem vencido (8).

A Sagrada Escritura compara a sabedoria à água, aos rios, ao mar; pois, assim como a água fecunda a terra, rega as plantas e sacia o homem, assim também a sabedoria irriga as almas áridas, dessedenta os que têm sede de justiça, nutre, alegra, fecunda e vivifica. A sabedoria, lemos no Eclesiástico, inspira a vida a seus filhos; atrai aqueles que a procuram; precede-os no caminho da santificação; quem é amado por ela ama a vida, e quem a busca possuirá a paz. Aqueles que a abraçam terão a vida e, onde quer que ela entre, Deus derramará suas bênçãos. Aqueles que a amam serão amados por Deus. A sabedoria caminha com eles na tentação: abre-lhes um caminho reto, enche-os de alegria, firma-os no bem, dá-lhes parte em seus segredos e concede-lhes um tesouro de inteligência, de ciência e de justiça (Eclo IV). A sabedoria, diz o Espírito Santo, guia, alimenta, veste, instrui, guarda, protege, honra, fortalece, eleva e dá a glória eterna…

Ó sabedoria, quanto tornais felizes aqueles que vos praticam!

5. A SABEDORIA TAMBÉM SE REVELA NO EXTERIOR DO HOMEM

«A sabedoria do homem, sentencia o Eclesiastes, resplandece em seu rosto, e aquele que tudo pode lhe muda a face» (Ecl 8, 1). Ora, de três maneiras a sabedoria se revela no rosto do homem, imprimindo-lhe quase outro aspecto: 1° porque a alma comunica uma simpatia natural ao corpo e pinta principalmente no rosto suas paixões e seus afetos…; 2° a sabedoria compõe e informa não somente a alma, mas também o corpo, e especialmente o rosto, para a honestidade e a modéstia, e faz que a gravidade, a compostura, o pudor, a piedade, a paz e a serenidade se manifestem em toda a pessoa…; 3° porque o Espírito Santo, habitando na alma cheia de sabedoria e iluminando-a com sua graça, espalha sobre o exterior do homem sua luz e sua beleza, como os raios do sol que penetram o vidro.

6. FACILIDADE DE OBTER A SABEDORIA; DESGRAÇA DE QUEM NÃO A POSSUI

A aquisição da sabedoria torna-se tanto mais fácil, diz a Escritura, porque esta admirável virtude vai por toda parte procurando aqueles que dela são dignos; mostra-se a eles pelo caminho, com semblante sorridente, e os previne com mil atenções. A sabedoria é luminosa e sua cor não desbota; é facilmente vista por aqueles que a amam e prontamente encontrada por aqueles que a procuram (Sb 6, 13-17).

Onde há amor, escreve São Bernardo, não há pena, mas contentamento e felicidade. Ora, a sabedoria é tal condimento que faz parecer leves e doces até mesmo as provas mais duras (Serm. in Cant.)… Como Deus é bom! Tudo o que há de mais precioso e suave pode ser adquirido pelo homem sem prata e sem sacrifícios demasiado graves; ao passo que tudo o que não tem valor real, que é vil, que é um nada, custa dores, sacrifícios e tesouros ao homem que o cobiça…

Sim, é fácil adquirir a sabedoria; e, quando se possui esta, tudo se torna leve e doce. Ao contrário, «infelizes, exclama o Sábio, aqueles que rejeitam a sabedoria e desprezam a disciplina! Vã é a esperança deles, infrutuosos os seus trabalhos, inúteis as suas obras» (Sb 3, 11). «Insensatas são suas mulheres, perversos seus filhos: maldita é a sua descendência» (Sb 3, 12-13). «Os insensatos, diz ainda o Espírito Santo, não compreenderão a sabedoria; os néscios não a verão, porque ela é inimiga do orgulho e da fraude: os mentirosos não se lembrarão dela» (Eclo 15, 7-8). «O coração do insensato é como um vaso quebrado; não pode conter a sabedoria» (Eclo 21,17).

7. O QUE É PRECISO FAZER PARA OBTER A SABEDORIA

«Se há entre vós alguém, diz o Apóstolo São Tiago, que necessite de sabedoria, peça-a a Deus, que dá a todos abundantemente e não censura os dons; e ela lhe será dada» (Tg 1, 5). Diga ao Senhor com Salomão: «Enviai-me, ó Senhor, do alto dos céus, onde ela faz cortejo ao vosso trono, a sabedoria, para que esteja comigo e trabalhe comigo, e eu conheça aquilo que vos agrada» (Sb 9, 4). Quanto mais perpendicularmente caem sobre nós os raios solares, tanto menor é a sombra que nossos corpos projetam; e, ao contrário, quanto mais obliquamente nos atinge o sol, tanto mais cresce a sombra de nosso corpo; assim também, quanto mais alguém se dedica à verdadeira sabedoria, menos estima a si mesmo e menos espesso se encontra na sombra dos vícios. Para obter a sabedoria, serve ainda aquele ensinamento de Tales: «Não façais vós aquilo que censurais nos outros» (Ita LAERT. c. I). Aquilo mesmo que é prova de sabedoria, isto é, morrer para o mundo e para si mesmo, observar a lei divina, viver de Deus e para Deus, serve também como meio para obter a sabedoria.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.