«O escândalo é definido por São Tomás como uma palavra ou um ato menos reto, que dá ocasião à ruína do próximo» (De Peccat.). O escandaloso é retratado pelo Espírito Santo como um homem cheio de vaidade, cujo olho cintila, o pé incendeia, a mão dilacera; tem na boca palavras pérfidas, no coração a tempestade; medita o mal e semeia a iniquidade (Pr 6, 12-14). O escandaloso, diz Santo Efrém, perde a fé, cai nos vícios, despreza os Sacramentos, zomba do inferno e jamais pensa no céu (Serm. IV).
O divino Salvador disse um dia, falando do escândalo: «Se alguém escandalizar um destes pequeninos que creem em mim, seria melhor para ele que lhe pendurassem ao pescoço uma mó de moinho e o lançassem ao mar. Ai do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele por quem vem o escândalo!» (Mt 18, 6-7). Bastam estas palavras do Divino Mestre para nos fazer compreender o juízo que ele fazia da gravidade do escândalo. A Sagrada Escritura emprega estas expressões somente quando se trata de pecados verdadeiramente enormes.
Aos que causam escândalo aplicam-se de modo particular estas palavras de São Paulo: «Os maus e os sedutores precipitam-se cada dia mais no mal; eles desencaminham e fazem desencaminhar os outros» (2Tm 3,13). Pode-se afirmar deles que «se venderam para fazer o mal» (1Rs 21,20); ou, como diz o Apóstolo: «Estão vendidos e entregues à escravidão do pecado» (Rm 7,14). O escandaloso é, para os outros, um princípio de ruína; come e bebe a iniquidade e avança tanto pelo caminho do pecado que chega a tocar-lhe os extremos confins, de modo que seu nome é «termo da iniquidade» (Ml 1,4).
O escândalo é um pecado monstruoso que investe contra Deus, o próximo e o próprio escandaloso. A Deus tira a glória; ao próximo, a alma; ao escandaloso, o céu. É um crime enorme; com efeito, pode haver malefício mais atroz que o assassinato de uma alma? … Crime diabólico: Satanás foi homicida desde o princípio (Jo 8,14); tal é o escandaloso. Crime contra o Espírito Santo, porque se opõe diretamente à caridade; e o Espírito Santo é a própria caridade… Crime essencialmente contrário à redenção: Jesus Cristo morreu para salvar as almas, ao passo que o escandaloso vive para matá-las… Portanto, o escândalo é um pecado contra o próprio Jesus Cristo, como precisamente afirma São Paulo: «Pecando contra os vossos irmãos e ferindo-lhes a consciência, pecais contra Cristo» (1Cor 8,12).
Pode-se dirigir ao escandaloso aquela invectiva que São Paulo já lançou contra o mago Elimas: «Ó homem cheio de malícia e de fraude, filho do diabo, inimigo de toda a justiça, não cessarás jamais de perverter os retos caminhos do Senhor?» (At 13,10). O escandaloso é a antiga serpente que seduz com falsas promessas; é a serpente escondida na relva, é o leão que arrebata a presa. Dos escandalosos fala o Salmista quando diz que os ímpios conspiraram contra ele e combinaram apoderar-se de sua alma (Sl 30,14); que, para fazer cair os outros, passam toda a vida meditando a iniquidade e estendendo, às ocultas, armadilhas pelo caminho que seus irmãos percorrem (Sl 63,7). ― In via qua ambulabam, absconderunt laqueum mihi (Sl 141,4).
Aos escandalosos aplicam-se estas palavras de Isaías: «A sua malícia encheu a medida; vigiam para cometer o mal e arrastar os homens ao pecado» (Is 40,2; 29,20-21); e estas outras do Sábio: «Alegram-se em fazer o mal e exultam no meio dos piores crimes» (Pr 2,14). O escandaloso fica de emboscada nas encruzilhadas, esperando os viajantes como ladrão e bandido, para roubá-los e matá-los… Procede fraudulentamente e não pensa senão em suplantar (Jr 3,2; 9,4). À imitação da serpente que enganou Eva, o escandaloso emprega, com satânica astúcia, a mesma linguagem. «Por que não provas tu deste prazer?», diz o pérfido. «É proibido; se dele comer, morrerei.» «Fica certo de que não morrerás; pelo contrário, tornar-te-ás feliz» (Gn 3,1-5).
O escandaloso, observa Santo Agostinho, cora da vergonha e se gloria de não ter vergonha (In Psalm.); pertence verdadeiramente ao número daqueles que se perverteram e se entregam a desígnios abomináveis (Sl 13,1). Seu coração é um abismo de corrupção, uma cloaca de imundícies, uma morada de répteis repugnantes (Sl 103,25). Os escandalosos assemelham-se àquelas vinhas de Sodoma e Gomorra, cuja uva é de fel e cujos bagos são amarguíssimos. Seu vinho é baba de dragões, veneno mortal como o da víbora (Dt 32,32-33). A vida dos escandalosos é dissoluta; depravados são seus costumes e suas ações; não pensam senão no mal, não querem senão o mal, não fazem senão o mal, para si e para os outros. São vasos envenenados e transbordantes de podridão, esgotos imundos por onde escorre tudo o que há de mais infeccionado e repugnante. Os olhos, os ouvidos, a língua, as mãos, os pés, o espírito, a alma, o coração, a memória, a vontade, o intelecto, tudo, enfim, neles está pervertido e corrompido. São um cadáver em putrefação, que infecta todas as coisas e espalha por toda parte miasmas de morte certa…
A Sagrada Escritura, com expressões terríveis, fala das carnificinas e dos danos causados pelos escandalosos. Eles pactuaram com a morte e fizeram aliança com o inferno para causar dano (Is 28,15); meditam o crime e estudam sempre novos assaltos e batalhas contra as almas de seus irmãos. Aguçam a língua como serpentes e, ao falar, esguicham veneno de víboras (Sl 139,4). «Não haja ninguém», dizem eles, «ao nosso redor que não fique manchado pela baba de nossas iniquidades; deixemos por toda parte vestígios de nossas orgias; esta é a nossa tarefa. Calquemos aos pés o justo miserável, não poupemos a viúva, afrontemos o velho encanecido. Armemos ciladas aos simples, provemo-los com o ultraje» (Sb II). Os escandalosos tingem suas flechas no sangue inocente; embriagam-se com o sangue daqueles que mataram (Dt 32,42). Seus pés se apressam a correr para onde há sangue a derramar e, em seus rastros, deixam a pilhagem e a desolação (Is 59,7); criam leões e aprendem a espreitar a presa e a despedaçar os homens (Ez 19,3); mais ainda: atormentam inúmeras almas somente com sua presença (Jl 2,6).
Porventura nos espantaremos nós se o Papa São Gregório os chama de lobos que todos os dias despedaçam não corpos, mas almas (1)? Se o Crisóstomo os chama de feras cruéis e devoradoras (2) e no-los apresenta como outros tantos Herodes, empenhados em acrescentar homicídios a homicídios, em acumular ruínas, precipitando-se, furiosos e como possessos, em todos os excessos; bufando cólera, inveja e ira, que depois desafogam em prejuízo dos inocentes? (Homil. 9, in Matth.). Também São Leão compara os escandalosos a Herodes, que não se contenta em matar algumas crianças, mas ordena uma carnificina geral (Serm. 1, in Epiph.). A eles se aplica muito bem esta invectiva do Profeta: «E até quando, ó pecadores escandalosos, vos lançareis contra os homens e fareis deles uma carnificina, matando não os corpos, mas as almas?» (Sl 61,4).
Narra o texto sagrado que Judas Macabeu, tendo vestido a couraça e coberto com sua armadura, levantou-se em defesa de seu povo e, ajudado por seus irmãos, que combatiam com alegria pela causa de Israel, protegia todo o acampamento com sua espada. Semelhante a um leão que ruge à vista de sua presa, perseguiu os ímpios, procurando-os por toda parte, e condenou às chamas os perturbadores do povo. O terror de seu nome pôs em fuga seus inimigos, lançou o espanto entre os partidários da iniquidade e foi a salvação da nação. Percorreu as cidades de Judá, libertando-as dos ímpios, e afastou de Israel a cólera de Deus. Alegrava Jacó com seus feitos, e sua memória será bendita eternamente (1Mc III). O que Judas Macabeu fez para o bem, o escandaloso o faz para o mal. Vendo e não podendo suportar a piedade e a devoção do povo cristão, ele se levanta e, com outros seus semelhantes, veste a couraça do crime, empunha as armas que lhe foram fornecidas pelo inferno, armas afiadas e temperadas no sangue dos irmãos; depois assalta com força — que é antes furor misturado com satânica alegria — o campo do Senhor, para reduzi-lo a ferro e fogo. Semelhante a um leão em suas obras de morte, ruge, procurando almas para devorar. Persegue os bons e, com o terror de seu nome, põe em fuga as almas piedosas. A morte está em suas mãos; espalha tristeza e desolação. O rumor de seus escândalos ressoa ao longe, e seu nome pesa como uma maldição sobre a terra que habita. «Passai e golpeai», clama Ezequiel, «ó escandalosos: vosso olhar não poupe ninguém, vosso coração não sinta piedade. Ferí o velho, o jovem, a donzela, as crianças e as mães; feri-os de morte. Ai! ai!! ai! Fareis perecer todas as almas!» (Ez 9,5-8).
Conta-se do cruel Antíoco que fez uma horrível carnificina, entregou a cidade às chamas, profanou o templo, despojou o Santo dos Santos, colocou um ídolo no lugar do verdadeiro Deus, levou embora multidões de escravos e substituiu o povo de Deus por bandos de homens perversos (1Mc I). Eis a imagem do que faz o escandaloso! Não é acaso um novo Caim, que mata seu irmão Abel? Mas também a ele se faz ouvir a voz que clama: «Miserável! Onde está teu inocente irmão? Eis que o seu sangue, derramado por ti, e a sua alma, por ti traída, clamam por vingança» (Gn 4,8-10).
Lê-se que o imperador Constante, depois do assassinato de seu irmão Teodósio, via-o sempre diante de si em seus sonhos, oferecendo-lhe uma taça cheia de sangue, enquanto ouvia uma voz que lhe gritava: «Bebe, bebe o sangue de teu irmão!» (Storia Eccles.). Ó escandaloso, vê este sangue inocente derramado por ti! A taça está cheia; bebe o sangue deste irmão que assassinaste com teus infames exemplos!
O carrasco, dado o lúgubre sinal, dirige-se à praça pública, repleta de uma multidão silenciosa e palpitante; abraça sua vítima, estende-a e amarra-a ao instrumento do suplício; levanta o braço e, naquele instante, em meio a um silêncio geral e espantoso, ouve-se o estalar dos ossos no patíbulo e o estertor da vítima. Terminou; seu coração palpita, mas de alegria e, aplaudindo sua perícia, diz a si mesmo: «Que hábil sou eu em enforcar! Ninguém me vence.» Não vedes neste quadro do carrasco corporal os traços do escandaloso, verdadeiro carrasco das almas? Um lúgubre sinal é dado ao escandaloso pelo inferno; seu coração corrompido e cruel compreende esse sinal e parte para seduzir e assassinar. Encontra um inocente e faz dele um criminoso; encontra um filho dócil e o transforma em parricida. Como o carrasco, agarra e amarra sua vítima ao palco de seu escândalo, levanta o braço para degolá-la, e já não se ouvem senão os gritos e os urros desesperados da vítima e de uma família desonrada. Terminou de matar essa alma; tirou-lhe a inocência, a salvação, o céu, a coroa, a glória, Deus; seu coração bate no peito, não de pesar ou remorso, mas de alegria, da alegria maligna dos demônios; aplaude a si mesmo e às vezes diz também publicamente: «Ninguém pode competir comigo em apanhar os simples e assassinar as almas.»
Acerca da besta do Apocalipse lê-se que de suas fauces saía uma espada de dois gumes (Ap 1,16). Essa besta se assemelha ao escandaloso, de cuja boca sai uma língua que é espada de dois gumes, para matar a si mesmo e aos outros, segundo também diz dele o Salmista: «Brandindo a espada, retesa e prepara o arco, tem a aljava cheia de flechas, lança dardos inflamados. Concebeu a injustiça, gera a dor, dá à luz a iniquidade. Abre e cava um abismo e precipita-se primeiro no abismo que ele mesmo abriu» (Sl 7,13-16).
São João viu ainda certos cavalos com cabeças de leões, de cuja boca saíam fogo, fumaça e enxofre; e a terça parte dos homens pereceu, ferida por essas três pragas (Ap 9,18). Eis outro símbolo dos escandalosos, que também podem ser comparados àqueles monstros de espécie jamais vista, dos quais dá notícia a Escritura, cheios de ira, lançando chamas pelos olhos e fumaça pelas narinas; que empestam com o hálito e não somente matam com a mordida, mas fazem estremecer de espanto só de vê-los (Sb 11,19-20). Eles são aqueles obreiros da iniquidade de quem o Senhor diz, pela boca do Salmista, que devoram o seu povo como um bocado de pão (Sl 13,4). «Ai de vós, clama Isaías, que alimentais o fogo das paixões e da desordem: cercados de chamas, caminhareis ao clarão do incêndio que vós mesmos suscitastes» (Is 51,11). Eis o incêndio que tudo reduz a cinzas: vós sois os seus autores… De todas as partes espalhais centelhas que caem sobre a palha e formam um vasto incêndio no qual perdeis eternamente a vós mesmos e aos outros.
O escândalo é a guerra mais funesta que se possa fazer aos homens; é a peste mais terrível e mais espantosa; peste que se apega à virtude, à graça, à saúde e à glória. É a mais horrenda carestia, que priva de todos os bens… O escandaloso é aquele fedor de morte que, como diz São Paulo, dá a morte (2Cor 11,16). Os escandalosos, diz Plutarco, não espremem o veneno num copo, mas na fonte pública da qual todo o país tira água (3). Os escandalosos, como observa São Bernardo, fazem, com os seus maus exemplos, aquilo que os hereges fazem com as suas doutrinas perversas; antes, o mal causado pelos escandalosos é tanto mais grave quanto maior é a força e a atratividade que as ações têm sobre as palavras (4). «Os escandalosos, diz São João Crisóstomo, fazem blasfemar o verdadeiro Deus, porque os pagãos, vendo as suas obras, vão dizendo: Ora, qual é o Deus desses tais que assim vivem? Poderia ele tolerar tais malandros, se não desse apoio às suas ações? (5)».
Ó céu! Que delito perder uma alma feita à imagem de Deus, criada para a imortalidade bem-aventurada, resgatada com o sangue de um Deus! E, no entanto, esta é a obra, ou pelo menos uma parte da obra, do escandaloso! … Tendo Jesus Cristo dado o próprio sangue como preço da redenção dos homens, não vos parece evidente, exclama São Bernardo, que sofre injúria mais grave e pena maior daquele que, com malignas sugestões, com exemplos nocivos e com atos escandalosos, lhe rouba as almas por ele redimidas, do que dos judeus que derramaram o seu sangue? O escândalo é um sacrilégio horrendo que parece superar em malícia o crime daqueles que levantaram as suas mãos sacrílegas contra o Senhor da majestade (Serm. de Converso S. Pauli).
O escandaloso diz, como outrora Caim: «Sou eu, porventura, o guarda de meu irmão?» (Gn 4,9). Sim, ó desgraçado, tu és o guarda de teu irmão; tu o és por mandato de Deus, que impôs esse estreito dever a todo homem (Eclo 17,12). O quinto mandamento traz escrito: «Não matarás» (Ex 20,13). Mas, se é delito merecedor de morte matar o corpo, que afinal é mortal, qual será a enormidade da culpa de quem mata a alma imortal, e quão terrível deverá ser o seu castigo!
São Paulo advertia os romanos de que não se deixassem levar pela necessidade de comer a destruir a obra de Deus: tudo é puro, mas quem, comendo, escandaliza o seu irmão, faz mal. É melhor não comer carne, nem provar vinho, nem tocar em coisa alguma que possa ser motivo de escândalo, de queda ou de fraqueza para os irmãos (Rm 14,20-21). «Quanto a mim, escrevia depois aos coríntios, se aquilo de que me alimento escandaliza algum de meus irmãos, jamais comerei carne, para não lhe dar escândalo» (1Cor 8,13). Se São Paulo procedia com tanta cautela para não dar sequer aparência de escândalo, vejamos em que devemos imitá-lo; cada um de nós está obrigado a isso em algum ponto.
«Conheço as tuas obras, diz o Senhor no Apocalipse ao pecador escandaloso, e sei onde habitas; habitas onde está o trono de Satanás» (Ap 2,13). A besta vista por São João no Apocalipse assemelhava-se a um leopardo, e a sua boca parecia a boca de um leão; e o dragão deu-lhe a sua força, o seu trono e grande poder (Ibid. 13,2). Quem não reconhece nessa horrível fera o escandaloso, que forma uma só coisa com o dragão e recebe do próprio demônio o poder de fazer o mal e de matar as almas? Em que se ocupam os demônios? Em guerrear contra Deus, devastar e destruir o reino de Jesus Cristo, que é a sua Igreja; seduzir as almas e arrastá-las à perdição; andar ao redor delas, como leão em busca de presa (1Pd 5,8). Não é esta, porventura, a ocupação de certas pessoas notoriamente entregues ao pecado e à irreligião? Não são elas os inimigos acérrimos de Deus, da Igreja, das almas, da virtude e da salvação? O escandaloso é, portanto, um demônio em carne e realiza as obras dos demônios. A ele convêm as palavras de Jesus, dirigidas aos fariseus: «Vós tendes o diabo por pai e quereis cumprir os desejos de vosso pai» (Jo 8,44).
O escandaloso torna-se réu, diante de Deus e dos homens, não somente do pecado particular que comete ao escandalizar, mas, em geral, de todos os pecados que comete e cometerá aquele a quem escandaliza… Ora, quem poderá medir a profundidade deste abismo de culpas? … Ó Deus, que juízo para o escandaloso! … Mas os pecados são pessoais, exceto o pecado de escândalo… Mas será preciso responder por tais pecados quando nem sequer se sabe que foram cometidos? ― Conhecidos ou não, responde São Jerônimo, uma vez que o vosso delito foi a origem deles, as culpas dos outros se tornaram vossas próprias. Admitamos que não as tenhais conhecido; mas devíeis conhecê-las, temê-las e preveni-las; e foi precisamente isso que deixastes de fazer (Epist.). Basta esta vossa culpável negligência para que sejais responsabilizados por elas e suporteis toda a pena… Pode-se dar escândalo sem ter a intenção de escandalizar e ser realmente culpado; com efeito, não é necessário, para escandalizar as almas, querer formalmente a sua danação; talvez somente o demônio seja capaz de tamanha malícia; basta que tenhais tal conduta que, por si mesma, conduza o vosso irmão à ruína. Mas eu não desejaria que ele perecesse. Seja como for, não quereis isso; mas querer que ele não pereça e querer, ao mesmo tempo, aquilo que o arrasta à perdição são duas vontades contraditórias; a primeira não passa de uma veleidade, enquanto a segunda é uma vontade absoluta e eficaz… Assim, por exemplo, uma mulher vaidosa e mundana, que segue as modas indecentes, não se propõe a perder as almas; mas, entretanto, ela as perde, porque lhes apresenta uma ocasião próxima de sedução, que sabe, e deve saber, quão eficaz é para induzir ao pecado.
Entre todos os escandalosos, porém, aqueles aos quais será pedida conta mais rigorosa de seus escândalos são os ricos, os poderosos, os que exercem algum magistrado, ofício ou cargo público, porque os seus escândalos são mais culpáveis e mais perigosos. «É pelo exemplo do rei que todos os súditos se modelam», diz Claudiano (6): «O reino dos ímpios é a ruína do mundo», diz o Sábio (Pr 28,12). Os maus exemplos dos grandes excitam e encorajam as plebes ao mal, as quais então imaginam ter certo direito ou licença para cometê-lo… Ai das pessoas encarregadas do governo dos outros, se dão escândalo! Os magistrados, os juízes, os pastores, os pais, as mães, os patrões, as patroas, os mestres, os chefes de oficina devem, de modo especial, guardar-se de tudo o que é escandaloso, sob pena de responder pelas almas que deles dependem… Os superiores escandalosos prestarão contas de todos os crimes cometidos por seus inferiores…
Há duas espécies de escândalo: o escândalo dado e o escândalo recebido. Quem recebe o escândalo, acolhe-o favoravelmente, associa-se a ele, coopera com ele, aprovando-o, amparando-o etc., torna-se culpabilíssimo… Desempenha o ofício de receptador…; sem receptadores não haveria ladrões…
Dá-se também escândalo por palavras, olhares, escritos, ações e omissões.
1° Escândalo por palavras. Assim como um vaso de imundícies espalha ao redor o mau cheiro, assim a alma corrompida exala, com os seus discursos, a corrupção que há em seu interior; mancha aqueles que estão perto dela e lhe dão ouvidos: «A sua boca é um sepulcro aberto!» (Sl 5,11); «a sua língua é uma flecha que fere!» (Jr 9,8). «Veneno de víbora destila dos seus lábios!» (Sl 139,4).
2° Escândalo por olhares. Todas as paixões se pintam nos olhos e se comunicam por meio deles… Milhões de almas ardem no inferno por causa dos seus olhares culpáveis, que foram causa de queda para aqueles que os viram…
3º Escândalo de escritos e de impressos. Os livros maus, quer contra a religião, quer contra os costumes; as canções obscenas, os folhetos imorais, blasfemos, mentirosos, caluniadores; as estátuas indecentes, as pinturas desonestas etc.; eis tantos deploráveis escândalos.
4º Escândalo de atos. Maus exemplos dados por atos de cólera, de embriaguez, de furto, de gula, de vingança, e assim por diante.
5º Escândalo de omissão. Orações negligenciadas, funções religiosas desatendidas, sacramentos esquecidos e semelhantes negligências no cumprimento dos próprios deveres religiosos, civis e morais abrem outra larga fonte de escândalos. Há escândalo de indiferença, de acídia etc.
Vê-se, pois, que não é pequeno nem restrito o número dos que causam escândalo; antes, o mundo está tão cheio deles que se pode dizer com São João (2,7)… Grandes escândalos são as perseguições contra a religião… Os blasfemadores, os profanadores do domingo, os pais indolentes, os vingativos, os dissolutos, os maldizentes, os caluniadores, os avarentos, os coléricos, os bêbados, os indolentes em geral são todos escandalosos… E quem dirá que não há um grande número deles?… Os teatros licenciosos, as más leituras, a maneira como se celebram as festas, as rodas de conversa nas quais se fala do próximo, a excessiva assiduidade entre pessoas de sexos diferentes: eis uma multidão de escândalos, e às vezes gravíssimos e perniciosíssimos.
«Nunca deis a ninguém ocasião de tropeço», dizia o grande Apóstolo (2Cor 6,3). E, escrevendo aos Efésios, adverte-os de que cuidem para não lhes sair da boca nenhuma palavra que não seja boa; mas que todos os seus discursos sejam tais que contribuam para aumentar a fé e comunicar a graça aos que os escutam (Ef 4,29). É preciso proceder de tal modo que toda a nossa conduta se torne para os outros um exemplo contínuo… No que diz respeito ao trato com os outros, lembremo-nos de que basta um pouco de fermento para fazer fermentar uma grande massa de farinha (1Cor 5,6); que o ar empestado infecta a multidão; que uma doença contagiosa é contraída sem que o percebamos; portanto, guardemo-nos com cautela dos escândalos e evitemos os escandalosos. O escândalo é um mau cheiro que se espalha para longe.
Se a vossa mão ou o vosso pé vos escandaliza, diz Jesus, cortai-o e lançai-o para longe de vós; porque é melhor entrar no céu coxos ou mutilados do que ser lançados no fogo eterno com ambas as mãos e ambos os pés. Mais ainda: deveis arrancar também o olho, quando ele vos der ocasião de escândalo, porque é melhor entrar no céu com um só olho do que ser precipitados, com ambos os olhos, no abismo do fogo (Mt 18,8-9). Isto quer dizer: afastai-vos de um amigo, de qualquer pessoa, enfim, que vos escandalize; rompei todo vínculo e todo trato com eles, ainda que essas pessoas vos fossem tão caras quanto o olho, a mão ou o pé…
Se alguém dissesse que, sendo necessário, segundo a palavra do próprio Jesus Cristo, que aconteçam escândalos (Mt 18,7), não há modo de evitar o escândalo, de maneira que às vezes não se dê nem se receba, eu lhe responderei que os escândalos de que fala Jesus são as perseguições, as zombarias, as calúnias contra os justos… Além disso, o escândalo não é absolutamente necessário em si mesmo, mas por suposição, porquanto, considerando-se a multidão dos seres corrompidos, torna-se impossível que não haja maus exemplos…
É preciso repreender e envergonhar o escandaloso, fugindo dele…, mostrando-lhe a nossa desaprovação ao menos pelo modo de tratá-lo…, dando-lhe bom exemplo…, repreendendo-o quando se apresentar a ocasião…; e principalmente não convivendo mais com ele, tão logo se tenha conhecido a sua índole perversa… «Feliz o homem, exclama o Salmista, que não pôs os pés nas rodas dos ímpios, nem se deteve no caminho dos pecadores!» (Sl 1,1).
Lemos no IV livro dos Reis que Eliseu, tendo visto Hazael, servo de Benadad, rei da Síria, perturbou-se a tal ponto que a sua perturbação se lhe estampou no rosto e lágrimas brotaram de seus olhos. Interrogado por Hazael: Por que, ó Senhor, choras? — Porque, respondeu o Profeta, vejo os males que hás de fazer aos filhos de Israel: lançarás às chamas as suas fortalezas, passarás à espada os seus jovens, esmagarás os seus meninos e matarás até as crianças no seio de suas mães (2Rs 8,10-12). Hazael tornou-se rei da Síria. É preciso imitar Eliseu, derramar lágrimas e rezar, porque hoje o mundo está cheio de imitadores de Hazael. É preciso chorar amargamente a desgraça dos escandalosos, o mal que fazem a si mesmos e aquele que causam aos outros… É preciso rezar pela conversão dos escandalosos, pela cessação ou reparação dos escândalos…
«Malditos os lábios criminosos, malditas as mãos malfeitoras!», exclama (Eclo 2,14). «Ai do mundo por causa dos escândalos, exclama Jesus Cristo; desgraçado aquele por quem vem o escândalo!» (Mt 18,7).
Primeiro castigo do escandaloso: o remorso. A consciência do escandaloso ergue a voz e grita para ele, como outrora o Senhor para Caim: Onde está o teu irmão Abel? Onde está aquela alma que perdeste com os teus escândalos? Que fizeste dela? A voz do sangue dessa alma faz-se ouvir de mim desde a terra; serás maldito (Gn 4,9-11). Não é a voz de Abel que acusa Caim, observa Santo Ambrósio, não é a sua alma; mas é a voz do sangue por ele derramado; é o seu delito que o acusa. Se Abel lhe perdoa, a terra não lhe perdoa; se seu irmão se cala, a terra o condena (Offic. l. III). Bebe, bebe o sangue do teu irmão, assassinado por ti com os teus escândalos!, diz o remorso… Ó escandalosos! Que vos diz a vossa consciência à vista dos males horrendos e muitas vezes irreparáveis que causastes? A vossa consciência é, dentro de vós, vossa testemunha, e acusadora, e juíza, e executora, e algoz…
Segundo castigo do escandaloso: nenhuma paz. A eles se aplica particularmente aquela palavra de Isaías: «Não há paz para o ímpio» (Is 48,22). Sim, a experiência nos assegura que os escandalosos não conhecem o caminho da paz, e aqueles que se associam a eles perdem-lhe os vestígios (Is 59,8).
Terceiro castigo do escandaloso: vida estéril. Já não há bons pensamentos, mas todos impuros e malvados…; já não há desejos pios, mas todos corrompidos e nefandos…; já não há ações santas, mas todas perversas…; já não há virtude, nem méritos; vive-se somente de pecados…
Quarto castigo: já não há para o escandaloso nenhuma verdadeira satisfação na terra. «Quem semeia a iniquidade, sentencia o Sábio, colherá males e será consumido pelo açoite de seu furor» (Pr 22, 8).
Quinto castigo: cegueira. «Ó homem, cloaca de toda malícia e de toda fraude, não cessas de pôr tropeços aos outros, diz São Paulo a Elimas. Pois bem, eis que a mão do Senhor te toca neste instante e tu ficarás cego: e, imediatamente, uma névoa e trevas lhe obscureceram a vista» (At 13, 10-11). Elimas perdeu somente os olhos do corpo e apenas por algum tempo; mas o escandaloso perde os olhos da alma e, ó quantas vezes!, para sempre.
Sexto castigo: cai na fossa, isto é, no lodo e na lama. «Cavaram sob os meus pés um precipício, diz o Salmista, e nele caíram eles primeiro» (Sl 56,7). Aqui é o caso de dizer com o Sábio: «Quem cava uma fossa nela cairá» (Eclo 10, 8); cava-a para os outros, mas ela serve para sepultá-lo primeiro.
Sétimo castigo: perde-se. Quem maneja uma serpente é mordido; quem leva fogo nas mãos queima-se antes de causar dano e assassinar o próximo. É como a abelha que se mata ao querer picar. «Os ímpios, diz o Salmista, desembainharam a espada, retesaram o arco para lançar por terra o pobre e o miserável e degolar os que têm o coração reto. Quebre-se o arco deles, e a espada atravesse o próprio coração» (Sl 36, 14-15). «Os escandalosos que não poupam os outros, escreve São Bernardo, não se perdoam a si mesmos; matam e matam-se: e são merecedores de tantas mortes quantos são os maus exemplos que dão (7)».
Oitavo castigo: o opróbrio diante de Deus e diante dos homens… Sim, ó escandaloso, a ignomínia, a degradação seguem-te, cercam-te, enchem-te. Toma esta bebida, bebe-a, embriaga-te e dorme (Ab 2,16). Todas as vossas infâmias, todas as vossas torpezas vos serão lançadas em rosto, e caireis sob o peso de um supremo e universal desprezo. «Entregar-vos-ei a um opróbrio eterno, diz o Senhor pela boca de Jeremias, e a uma ignomínia que jamais será apagada pelo esquecimento» (Jr 23, 40).
Nono castigo: uma morte espantosa aguarda o escandaloso. «Quem engana os simples enquanto vive, acabará de má morte» (Pr 28, 10). Porque, diz o profeta Habacuc ao escandaloso, tu despojaste os outros de suas virtudes com teus escândalos; todos se lançarão a despojar-te e a deixar-te nu (2, 8). Os escandalosos, como provam mil exemplos espantosos, morrem ordinariamente desesperados e impenitentes.
Décimo castigo: um juízo terrível. «Quem semeia a perturbação no meio de vós levará a pena, escrevia São Paulo aos Gálatas, será verdadeiramente julgado» (Gl 5, 10). «Quem faz o mal, continue, diz o Senhor no Apocalipse, e quem está manchado, manche-se ainda mais: eis que já venho; e trago comigo a recompensa, para dar a cada um segundo as suas obras» (Ap 22, 11-12).
Undécimo castigo: o inferno, e um inferno inteiramente especial para o escandaloso. «Os escandalosos, diz o Profeta, tramaram contra mim ciladas ocultas, estenderam aos meus pés laços escondidos, cavaram em meu caminho armadilhas disfarçadas; pois bem, cairão sobre a cabeça deles carvões ardentes; tu, ó Senhor, sepultá-los-ás nas chamas, condená-los-ás a misérias incríveis e eternas» (Sl 139, 6-11). No inferno, os escandalosos sofrerão tantas vezes os tormentos daquele lugar de desespero quantas são as almas que ali foram precipitadas por culpa de seus escândalos… Eternamente, essas almas atormentarão o escandaloso que as levou à perdição.