A justiça de Deus não deixa nenhum pecado sem punição, assim como não deixa nenhuma boa ação sem recompensa. A alma culpada provoca por si mesma o seu castigo… «Vós assim ordenastes, diz Santo Agostinho a Deus, e assim deve ser: que toda alma desregrada seja tormento para si mesma (1)». Daí aquela sentença de Santo Ambrósio: «O ímpio é castigo para si mesmo» (De offic.); e aqueloutra de São Jerônimo: «Quantos são os vícios numa alma, tantos são os remorsos e os tormentos» (Lib. sup. Genes.), repetida depois por São Bernardo nestas palavras: «Tantos duros tormentos se encontram na pena quantos foram os prazeres culpáveis; porque somos punidos naquilo em que pecamos (2)». Com efeito, lemos que os irmãos de José, quando foram ao Egito para escapar da fome, viram-se ameaçados, tratados como espiões e encerrados na prisão por três dias; e diziam uns aos outros: «Bem merecemos estes ultrajes, pois pecamos contra nosso irmão» (Gn 42, 21).
A consciência foi dada ao homem para que procure o bem e fuja do mal; por isso, aquele que pratica o mal fere a consciência e necessariamente deve sentir-lhe o remorso. Este é o cálice de absinto, este o fel que o Senhor declarou que daria de beber ao seu povo, quando este abandonasse a sua lei, não escutasse a sua voz e seguisse a perversidade do seu coração (Jr 9, 13-15). O remorso é aquele jugo de iniquidade que o mesmo Profeta chama, com expressiva figura, de jugo vigilante (Lm 1, 14); é aquele salário que o Senhor, pela boca de Isaías, diz que lançaria no seio dos malvados por causa de seus crimes (Is 65, 7).
Quando a serpente quis induzir Eva ao pecado, ocultou-lhe o remorso e fez-lhe ver somente a beleza e a bondade do fruto proibido. «Não morrereis», disse-lhe, «ao contrário, sereis como deuses, conhecedores do bem e do mal». Ela cai; Adão a segue na queda, e eis que logo o remorso se apodera deles e lhes dilacera as entranhas, de tal modo que correm a esconder-se nas sombras… Ah! Se o demônio e as paixões não nos ocultassem o remorso antes que caíssemos no pecado, ouso dizer que jamais pecaríamos. É, portanto, uma infernal astúcia do demônio e das paixões impedir-nos de pensar no remorso que seguirá a culpa, antes que nos decidamos pelo mal. «O pecado, diz São João Crisóstomo, antes de ser consumado, obscurece a mente e a envolve como em densa neblina; mas, cometida a culpa, surge o remorso da consciência que, apresentando à alma a enormidade do fato, a atormenta e rói mais do que qualquer acusador (3)». Aqui acontece como com a água de um rio, que, enquanto corre em seu leito, é doce, mas, chegando ao mar, torna-se salobra e amarga: «O pecador, observa Santo Agostinho, entrega-se à culpa para provar um gole de prazer; o prazer passa, o pecado permanece; aquilo que acariciava foi embora, aquilo que fere ficou (4)».
É veríssima aquela sentença de São Basílio: «Os pecados seguem a alma como a sombra segue o corpo, e representam vivamente, por meio dos remorsos, as imagens dos crimes cometidos (5)». Por mais que Davi procurasse distrair-se, o seu pecado sempre lhe estava diante dos olhos, observa aqui Santo Ambrósio: qualquer ação que empreendesse, qualquer discurso que proferisse ou ouvisse, o remorso sempre lhe mantinha o peito sobressaltado; qualquer objeto que visse lhe recordava a sua culpa; à mesa, no leito, de noite, de dia, nas orações, nas diversões, sempre a lembrança de sua queda lhe ocupava a mente, e o remorso da culpa não cessava um só instante de pungir-lhe o lado. «O meu pecado, diz ele mesmo, está sempre diante de mim» (Sl 50,5 — De Offic.).
«Se fizeres o bem, disse Deus a Caim, não receberás dele a recompensa? Se, ao contrário, fizeres o mal, o pecado não está acaso ali para logo aparecer diante de ti?» (Gn 4, 7). A esse respeito, Santo Ambrósio assim fala a Caim: Não, não é a voz de Abel, não é a sua alma, ó desgraçado, que te acusa, mas a voz do sangue que derramaste; é o teu crime, não o teu irmão, que te chama a juízo; entretanto, a terra que bebeu o seu sangue dá testemunho contra ti. Se teu irmão te poupa, a terra não te poupa; se teu irmão se cala, a terra grita e te condena; ela é para ti testemunha e juíza. Não há dúvida de que as criaturas superiores — o céu, o sol, a lua, as estrelas, os tronos, as dominações, os principados, as potestades, os querubins e os serafins — também tenham condenado esse réu que as criaturas inferiores colocavam em estado de acusação. Como poderia o céu poupar aquele que a terra acusa? (De Caino l. 2, c. IX).
A sorte de Abel coube também a São Venceslau, rei da Boêmia e mártir, assassinado na soleira do templo em que rezava, pelo irmão Boleslau, por instigação da mãe, Draomira; mas a sorte de Caim coube igualmente ao irmão ímpio e bárbaro. Com efeito, quase como protesto contra o horrendo crime, as paredes do templo, manchadas com aquele sangue inocente, jamais perderam a sua marca, apesar de todas as tentativas feitas para apagá-la; quanto mais se lavavam e limpavam os muros, mais vivas se mostravam as manchas de sangue. Aquele sangue não pôde ser removido; permaneceu como testemunho contra os autores do horrível ato e, como o sangue de Abel, clamava vingança ao céu; e vingança obteve. Com efeito, a terra tragou viva Draomira, encerrada na fortaleza de Praga. Boleslau, atormentado, como outro Caim, por terrores e visões assustadoras, atacado pelo imperador Otão, que se armara para vingar a morte de Venceslau, debilitado por horríveis males, perdeu o trono e morreu em estado miserável. Dos outros culpados, uns, agitados pelo demônio, lançaram-se ao rio para se afogar; um, tendo enlouquecido, fugiu e não deixou mais vestígio de si; outro, atormentado por doenças incuráveis, tornado um peso para si e para os demais, terminou por uma morte espantosa (Annales Bohemiae ― Enea Silvio ― Storia della Boemia ― Vita di S. Venceslao).
Ninguém pode escapar do remorso, desse flagelo da consciência…; o remorso é inseparável da culpa…; o castigo caminha passo a passo com o réu… «O ímpio foge sem que ninguém o persiga», lemos nos Provérbios (28, 1). De tal natureza é o pecado, diz São João Crisóstomo, que aquele que o comete o conserva no coração, teme, treme e foge, ainda que não haja pessoa alguma que o repreenda, ou o descubra, ou o condene, ou o acuse, ou saiba da sua falta. Ah! o remorso habita no interior de sua consciência; de lá ele o acusa e o dilacera; e, assim como o pecador não pode fugir de si mesmo, também não pode evitar este acusador interior e secreto (Apud. Maxim. Serm. XXVI). Aquele que era condenado à crucifixão levava ele mesmo a cruz, instrumento de seu suplício; sua cruz é o remorso. Assim como dois condenados às galés, acorrentados juntos, não podem mover-se, levantar-se nem caminhar um sem o outro, assim também o remorso, companheiro inseparável do delito, segue por toda parte e sempre o pecador.
O escravo do homem, segundo a bela observação de Santo Agostinho, tem ao menos alguns instantes de repouso; mas o escravo do pecado, onde poderá jamais repousar? Para qualquer lado que se volte, o pecado o arrasta consigo. Uma consciência culpada não pode escapar de si mesma; não há lugar para onde possa refugiar-se; ela segue continuamente a si mesma, jamais se afasta de si, porque nela mesma está o pecado cometido (6). Santo Ambrósio nos adverte de que o pecador, ainda que possua tesouros em abundância e nade nos prazeres, passa, todavia, seus dias na amargura e no pranto. A vida do malvado é como um sonho: ao despertar, seu repouso terminou, seu prazer desapareceu; a própria tranquilidade de que parece gozar o culpado é um inferno; ele desce vivo ao inferno. Vós contemplais a alegria do pecador, mas interrogai sua consciência: não é ela mais fétida que um sepulcro? Vedes suas imensas riquezas e seu regozijo, mas procurai também suas feridas e as chagas purulentas da alma, e o fel que lhe enche o coração. Ah! não há suplício comparável à escravidão do pecado, ao remorso que segue a queda na culpa. Este remorso, que é a pena da consciência culpada, pune o pecador que pecou em segredo; ele procura ocultar-se, mas está nu na presença de Deus (Offic. lib. 2, c. XII). Também Santo Agostinho é dessa opinião: entre todas as tribulações da alma humana, não há pior que aquela proveniente do remorso dos pecados (7). «Não há suplício mais atroz, escreve Santo Isidoro, que o remorso da consciência; a alma do réu está sempre angustiada; uma consciência culpada jamais está tranquila nem em paz; o remorso a devora (8)».
Abri-me, diz eloquentemente São João Crisóstomo, abri-me a consciência daquele réu, e vereis um tumulto espantoso, um terror contínuo, a perturbação e a tempestade dos pecados. Vereis a alma arrastada ao supremo tribunal da consciência; e esta, como juiz, pendurar a alma no patíbulo da ignomínia, empregar os remorsos como algozes, condená-la em alta voz e na presença de nenhuma outra testemunha senão Deus. Quem comete o pecado, ainda que fosse o mais rico do mundo, não tenha testemunhas nem acusadores, nem por isso deixa de ser perseguido e acusado dentro de si mesmo. Seu prazer logo se dissipou; seu tormento dura perpetuamente. De todos os lados, temor e espanto, ansiedade e suspeita; ele se assusta nos lugares mais solitários, teme até as sombras; empalidece diante dos criados, ainda que estes não tenham sequer notícia de seu pecado; a lembrança e a visão do cúmplice o abatem, cobrem-no de confusão e vergonha; enchem-no de amargura e suscitam em seu coração dilacerantes remorsos. Ele leva
consigo o seu acusador, condena-se a si mesmo, não tem um instante de trégua nem de repouso (Homil. 1, de Lazaro). «Todo malvado está mal consigo mesmo, escreve Santo Agostinho; necessariamente é atormentado, afligido, dilacerado. Com efeito, é um suplício para si mesmo aquele que é torturado pela própria consciência. Foge-se de um inimigo; mas como fugir de si mesmo? (9)».
O remorso é como um guarda, um cão postado à soleira do mal para fazer justiça ao pecado. Assim que tiverdes cometido a culpa, ele latirá, vos morderá e vos dilacerará sem vos dar trégua; o remorso é o verme roedor da consciência; ele se ergue furioso contra a alma culpada e, de mil maneiras, a dilacera, dando-lhe uma amostra da cólera de Deus, que se prepara para golpeá-la; ele é a tribulação, a angústia, e equivale a todas as dores presentes e futuras. A consciência é um verdadeiro tribunal doméstico, diz São Gregório de Nazianzo; sozinha, vale mais que mil testemunhas (10). Saulo, o perseguidor, ouve uma voz que lhe grita: Saulo, Saulo, por que me persegues? Dura coisa te é recalcitrar contra o aguilhão do remorso (At 9, 4-5). O próprio Nero confessa que a imagem de sua mãe, por ele assassinada, estava sempre diante dele para atormentá-lo e dilacerá-lo; que se sentia continuamente açoitado pelas Fúrias e queimado por tochas ardentes (DION. In Nerone). Ah! como é verdade que o olho que se fecha à culpa se abre à pena! (S. GREG. In Genes.) e que, assim como aqueles que foram condenados à morte aguardam na prisão a hora da execução fatal, passando o tempo entre angústias, aflições e tormentos por vezes mais acerbos que a própria morte, assim também aqueles que têm a alma manchada de culpas são devorados sem cessar, em meio a todos os deleites terrenos, pelo verme do remorso (Gv.CHRYSOST. Hom. 42, de Nequitia deput.).
Saí e vede, diz o Senhor, os cadáveres dos violadores da minha lei; o verme que os rói não morrerá, e o fogo que os devora não se apagará; eles serão para sempre objeto de terror para os que os contemplarem (Is. 66, 24). O mesmo repete Jesus Cristo no Evangelho: «O verme deles não morre» (Mc. 9, 47). Ouvi a confirmação da boca do ímpio Antíoco: Sinto-me abatido, o sono fugiu dos meus olhos, falta-me o coração no peito, tantos são os sofrimentos que sinto! Eu disse a mim mesmo: Em que aflição estou mergulhado, em que abismo de tristeza caí, eu que outrora era tão feliz e cortejado em meu poder! Ah, agora me lembro dos males que fiz em Jerusalém, onde roubei todo o ouro e a prata e reduzi os habitantes à escravidão. Reconheço que foi por isso que todas estas desgraças caíram sobre mim; e eis que morro, consumido por grande melancolia, em terra estrangeira (1Mc 6, 12-13). As mesmas penas vemos em Adão, em Caim, nos irmãos de José, no traidor Judas, porque o remorso aperta a consciência, traz à memória a culpa e, com suas violentas repreensões, pune, flagela e não dá trégua. Cumpre-se o que diz São Bernardo: «Na minha própria casa, no meio da minha família, tenho acusadores, testemunhas, juízes e algozes. A consciência me acusa, a memória testemunha, a razão faz as vezes de juiz, a vontade ocupa o lugar de prisão, o remorso é o algoz, o tormento, o suplício (11)».
«O mal persegue os pecadores», lemos nos Provérbios (13, 21); porque a culpa cometida persegue aquele que a praticou: perturba-lhe a consciência, oprime-a e agita-a, para que o réu se lembre por toda parte de seu delito, trema e espere a vingança divina… «Uma alma manchada pelo pecado encerra em si não sei que algozes interiores; ou melhor, semelhante consciência é algoz de si mesma», dizia Pácato (12). Sim, o remorso se agarra ao culpado como o abutre à sua presa; e que devastação não faz nele! Não há tormento, observa São Gregório, que se possa comparar ao tormento que dilacera uma alma pecadora, porque, quando o homem sofre exteriormente, refugia-se em Deus; mas uma consciência desregrada não encontra Deus dentro de si mesma; e então onde poderá encontrar consolações? Onde buscar repouso, conforto, paz? (In Psalm. CXLII). Que dor é mais acerba que aquela causada pela ferida interior da consciência? pergunta Santo Ambrósio; que juízo é mais severo que esse juízo doméstico, pelo qual o réu vê o seu delito e o reprova em si mesmo? (Offic. 1. 3, c. IV).
A mordida do pecado é a mordida da serpente; é uma fúria que persegue, agita e assusta; para qualquer lado que vos volteis, aonde quer que vades, o vosso pecado está convosco, enrosca-se à vossa consciência; é um mal inquieto que não vos deixa um momento de repouso, de modo que, com toda a razão, estão em vossos lábios aqueles lamentos de Sião: «Meu pecado lançou-me na desolação e me fez beber dores» (Lam. 1,13). Santo Ambrósio, comentando aquela enérgica frase de Miqueias: o remorso vos dilacerará como uma mulher em doloroso parto (4, 9), diz: por que tais dores surpreendem o pecador? Porque ele concebe e dá à luz a iniquidade; não havendo dor tão grande como o remorso que dilacera a consciência, não há peso mais grave que o peso dos pecados. Ele abate a alma, prostra-a, de tal modo que ela quase já não pode levantar-se, e certamente não o poderia, se a graça de Deus não viesse em seu auxílio. Ó meu filho, quão opressivo é o fardo da culpa! (De Offic. 1. III). Quem o carrega vai repetindo com Jó: meus dias se foram, meus pensamentos se dispersaram, atormentando-me o coração; para mim, o dia se tornou noite escura, a luz se transformou em densa treva (17, 11-12).
Mas ouçamos também, sobre este assunto, a voz da filosofia pagã: «A consciência culpada é para a alma como uma úlcera para o corpo», sentencia Plutarco (13), que também nos transmite este dito de Epicteto: «Nossos pais, quando crianças, nos confiam aos pedagogos; Deus, quando adultos, nos entrega à nossa consciência, para que ela nos guarde (14)»; e este outro de Isócrates: «Não espereis ocultar-vos quando cometerdes uma ação vergonhosa, porque, ainda que a escondais dos homens, sempre a vereis claramente diante de vós (15)». Sêneca escrevia que o primeiro e mais atroz suplício dos que pecam consiste em haver pecado; nenhum delito permanece impune; o tormento do crime está no próprio crime (16). «Ó triste lembrança, exclama Quintiliano, ó terribilíssima entre os tormentos, é a de uma alma culpada! (17)». E de onde provieram, diz Filóstrato, os furores de Orestes, senão do fato de ele se ter levantado contra a mãe? A consciência é que pune quando se pratica o mal (Vita Apoll. c. VII).
Está perdido o enfermo que já não sente o seu mal; assim também o pecador que já não sente o remorso da consciência, porque o sufocou… Cessando o pulso, cessa a vida; para o pecador, o pulso é o remorso; enquanto este se faz sentir, há esperança de cura; mas, cessando ele, a saúde do pecador está perdida. O sinal mais certo e mais terrível do abandono de Deus e da eterna reprovação é a cessação do remorso. Quando um culpado já não sente remorsos e se alegra por não ser mais perturbado em seus prazeres, então chega a ponto de vangloriar-se de seus crimes; já não pensa em arrepender-se nem em cessar; persevera neles com toda segurança; ah! para ele tudo está perdido! está amaldiçoado no tempo e na eternidade… Uma alma culpada que, dilacerada pelos remorsos, sente sua culpa, pode, mais cedo ou mais tarde, voltar a si e mudar de vida; mas, silenciando o remorso, já não percebe a sua culpa; e como, então, se converterá?
O remorso é uma graça assinalada de Deus para o pecador, diz Santo Ambrósio. Sentir, escutar o remorso prova que a consciência ainda não está inteiramente pervertida; quem sente o ardor da ferida deseja a sua cura e toma os remédios convenientes. Quando ele é sentido, há esperança de vida (Offic. lib. 2, c. V) … Deus envia os remorsos para perturbar a tranquilidade nas paixões; para fazer compreender a desgraça que é o pecado; e para levar o culpado a voltar a si, emendar-se, pedir perdão e conduzir uma vida nova.
«Se as nossas iniquidades, ó Senhor, clamava Jeremias, depõem contra nós, agi por causa do vosso nome, porque as nossas iniquidades são inumeráveis; pecamos contra vós» (Jr 14,7). Observai aqui, como nos adverte Orígenes, o poder do remorso, que é o censor e o guia da alma (In Gen.). Por isso, 1° o remorso é um freio antes do pecado, porque gera em nós o horror ao pecado… 2° é um castigo salutar depois do pecado, porque mostra a sua enormidade e a sua desordem… «Fecharei o caminho da culpa com espinhos, diz Deus, e o homem dirá: irei e voltarei para o meu esposo, para Deus; porque eu era mais feliz então do que agora» (Os 2, 6-7). Deus fecha o caminho do pecado com os espinhos dos remorsos… Assim como um menino é açoitado com varas para que se corrija, assim o pecador é flagelado pelos remorsos, para que pare e mude de caminho…
Vós perecereis entre as nações, e a terra inimiga vos consumirá, disse Deus no Levítico ao povo de Israel. E, se algum de vós sobreviver, definhará na terra dos seus inimigos, por causa das suas iniquidades, e será afligido pelos seus pecados, até que confesse as suas faltas; caminharei contra ele, até que o seu coração incircunciso se humilhe (26, 38-61). Destas palavras se conclui que o meio de evitar o remorso consiste em evitar o pecado, que é o único que o gera; e o meio de acalmá-lo, atenuá-lo e expulsá-lo consiste em arrepender-se dos pecados cometidos, corrigir-se deles e fazer penitência. «Quereis nunca sentir remorsos? diz Santo Isidoro: vivei santamente; a vida santa está sempre na alegria e na paz (Soliloq. lib. II)».