Tesouro n.º 179 · Volume III

AGRADECIMENTO RINGRAZIAMENTO

5 seções · 13 parágrafos · pp. 2105–2110 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE E MOTIVOS PARA AGRADECER A DEUS

Não encontramos acaso coisa alguma tão frequentemente repetida pelos escritores sagrados e tão inculcada a nós quanto a necessidade de dar graças a Deus: «A ação de graças é sobretudo necessária», escrevia São Paulo aos Efésios (5, 4). «Perseverai na ação de graças em todas as coisas», repetia aos Colossenses (4, 2); «e, em tudo quanto fizerdes, seja em palavras, seja em obras, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças por meio dele a Deus Pai» (Ib. 3, 17); «e cuidai de crescer cada dia mais em Jesus Cristo, por meio de contínuas ações de graças» (Ib. 2, 7). A Timóteo fazia calorosa exortação, para que tivesse no ápice de seus pensamentos oferecer ações de graças a Deus por todos os homens (I, 2, 1). E, quanto a si mesmo, atestava aos Romanos que um dos seus primeiros cuidados era dar graças a Deus, por meio de Jesus Cristo, por todos eles (1, 8); e, escrevendo aos Coríntios, ora diz: «Dou graças a Deus, que sempre nos faz triunfar em Jesus Cristo» (2, 2, 14); ora exclama: «Deus seja louvado e agradecido pelo seu dom inefável» (Ib. 9, 15).

«Exaltarei o Senhor, cantava o Salmista, porque me acolheu junto de si» (Sl 29, 2). «Nós somos o vosso povo, ó Senhor, e as ovelhas dos vossos pastos; nós vos louvaremos pelos séculos, e a nossa posteridade publicará os vossos benefícios» (Sl 78,13). «As vossas obras difundirão a lembrança dos vossos inumeráveis benefícios; e eu vos agradecerei todos os dias; e celebrarei o vosso nome pelos séculos dos séculos eternamente» (Sl 144,7, 2).

Onde encontrar motivo mais poderoso para nos levar a agradecer continuamente a Deus, senão nos seus contínuos, inumeráveis e grandíssimos benefícios? Eles nos impõem um sagrado dever de reconhecimento. «Rios de graças descem sobre nós do céu, diz São Bernardo; rios de ações de graças devem brotar de nós e subir ao céu: que esta água divina retorne à sua fonte, para que desça novamente sobre nós, mais copiosa. Dai graças a Deus em tudo, atribuindo a Jesus, que é a virtude e a sabedoria de Deus, tudo aquilo que julgais possuir de virtude e de sabedoria (1)». «Vós quebrastes as minhas cadeias, ó Senhor, cantava o rei Profeta, e eu vos oferecerei um sacrifício de ação de graças» (Sl 115, 16-17). «Recordarei as obras do Senhor, diz o Eclesiástico, e anunciarei aquilo que vi» (Sl 42, 15).

A conservação do mundo, que é senão uma criação contínua? Tal conservação equivale a uma criação de todos os instantes; porque, assim como, apenas posto o sol, desaparecem os raios que vibravam ao seu redor, assim também, se Deus cessasse de agir por um só momento, o mundo recairia no nada. Não é este um grande e contínuo motivo de ação de graças a Deus, um poderosíssimo motivo para nos obrigar a isso? Tanto mais quando se trata do cristão, o qual, considerando a especial condição de salvação em que foi colocado por Deus, assim como tem razão de dizer com o Salmista: «O Senhor não procedeu assim com todas as outras nações, não manifestou a todos os seus juízos» (Sl 147, 20), assim tem o dever de exclamar com o mesmo: «Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e tudo o que há em mim louve o seu santo nome. Agradece, ó minha alma, ao Senhor e não esqueças nenhum dos seus benefícios… E que darei eu ao Senhor em troca de tudo o que ele me deu?» (Sl 102, 1-2; 115,3).

Quer Deus vos conceda bênçãos, favores e sensíveis consolações; quer lhe agrade provar-vos com tribulações, bendizei-o e agradecei-lhe. Ele vos acaricia para vos impedir de cair; golpeia-vos para vos levantar. Agradecer-lhe quando nos fere é remédio eficaz para a ferida. «Não há palavras mais santas, diz São João Crisóstomo, do que aquelas com que se agradece a Deus nas contrariedades; é uma linguagem que certamente não é inferior à dos mártires; tanto umas como as outras são igualmente coroadas (2). Assim fazia Davi, a respeito de quem o Eclesiástico nos testemunha que «em todas as coisas agradecia ao Deus Altíssimo, louvando-o com palavras de glória» (Eclo 47, 9). Aprendamos dele a devolver inteiramente a Deus a glória das obras que fazemos, exclamando com as suas palavras: «Não a nós, ó Senhor, não a nós, mas ao vosso nome, à vossa misericórdia e à vossa verdade se deve tributar a glória por tudo quanto fazemos» (Sl 113, 9). Repitamos com Isaías: «Sois vós, ó Senhor, que realizastes em nós todas as nossas ações» (Is 26, 12).

2. VANTAGENS DO AGRADECIMENTO

Graças a Deus! que coisa melhor pode a nossa alma conceber, a língua expressar e a pena escrever do que estas palavras — Graças a Deus! «Nada, observa Santo Agostinho, pode ser dito de mais breve, mas nada pode ser ouvido com maior alegria; nada pode ser imaginado de maior, nada pode ser feito de mais vantajoso (3)». Coisa alguma, segundo o parecer de São João Crisóstomo, faz crescer tanto na virtude e coloca o homem em relação e conversação mais íntimas com Deus quanto mostrar-se agradecido a ele, tributando-lhe contínuas ações de graças (4).

Outro benefício reconhece Santo Agostinho na ação de graças, e é este: «Na adversidade, os maus amaldiçoam a Deus; os cristãos lhe dão graças. Vede que sublime filosofia é esta! enquanto dais prazer a Deus, envergonhais o demônio (5)». Um terceiro benefício é indicado por São João Crisóstomo, quando diz: «Deus exige de nós testemunhos de gratidão, não porque deles necessite, mas para que todo o mérito redunde em nosso favor e nos tornemos dignos de favores cada vez mais insignes (6)». Finalmente, o mesmo doutor nos aponta um quarto, quando afirma que a ação de graças nas adversidades é uma linguagem que tem o mérito da profissão de fé do mártir. Davi agradeceu e louvou a Deus de todo o coração; e, como recompensa, Deus o fez vencedor dos seus inimigos (Eclo 47, 10).

3. O QUE SE PODE OFERECER A DEUS EM AGRADECIMENTO

A quem pergunta: Que posso eu oferecer ao Senhor que seja digno dele? Santo Agostinho responde: «Procurais saber que dom podeis oferecer a Deus para lhe agradecer e torná-lo sempre mais favorável? Oferecei-vos a vós mesmos; pois que outra coisa pode o Senhor exigir de vós senão a vós mesmos, não havendo entre as criaturas terrestres nenhuma outra criatura melhor do que vós? Ele vos pede, portanto, a vós mesmos, que vos havíeis perdido (7)). Sabeis o que respondia o rei Profeta a semelhante pergunta? «Receberei, respondia ele, o cálice da salvação (conformar-me-ei em tragá-lo, por mais amargo que possa ser), invocarei e agradecerei o nome do Senhor» (Sl 115, 3-4). É preciso dar a Deus o nosso coração sem reserva.

4. A GRATIDÃO É RARA E FREQUENTE A INGRATIDÃO

«A maior parte dos homens, dizia Tomás More, escreve os benefícios na areia e grava as ofensas no mármore (8)». E com razão, porque, se há coisa rara entre os homens, é o reconhecimento, enquanto a ingratidão é frequentíssima. A experiência o demonstra, e a Sagrada Escritura está cheia das queixas que Deus faz da ingratidão dos homens. Oh! quantas vezes se verificam também no povo cristão aquelas palavras que o rei Profeta dizia ao povo hebreu: «Esqueceu-se dos benefícios de Deus e dos milagres por ele realizados» (Sl 77, 11). Esqueceram-se de Deus, que os havia libertado, que havia enchido o Egito com os seus prodígios e a terra de Cam com as suas maravilhas (Sl 105, 21). E oxalá não fosse verdade que se repetisse, para vergonha de muitíssimos fiéis, o fato dos dez leprosos curados por Jesus Cristo, dos quais somente um voltou para lhe agradecer, e nove lhe pagaram com ingratidão! (Lc 17, 17).

«O filho honra o pai, diz o Senhor pela boca de Malaquias; ora, se eu sou o pai de todos os homens, onde está a honra que me é tributada? Se eu sou o Senhor, onde está o meu temor?» (1, 6). Deus é nosso pai, 1° porque é nosso criador; 2° porque nos conserva e nos governa; 3° porque é autor da nossa fé e das graças com que nos justifica e nos adota como filhos seus e herdeiros do seu reino celeste. E nosso Senhor o é pelos mesmos títulos e por outros ainda, como, por exemplo, o de nos ter resgatado com o seu sangue; de ser o rei supremo a quem toda criatura deve obedecer; de nos ter conduzido como servos e operários à sua vinha, propondo-nos como recompensa a vida eterna. E, contudo, não tem ele razão para dizer: «Nutri e elevei filhos, e eles me desprezaram. O boi conhece o seu dono, o jumento a manjedoura do seu senhor, e Israel não me conheceu?» (Is 1, 2), e para repetir com o Salmista: «O homem da minha paz, em quem eu havia posto a minha confiança, que se sentava à minha mesa, traiu-me publicamente; se um inimigo meu me tivesse tratado como ingrato, eu o teria suportado em paz; mas tu, ó cristão, caro ao meu coração, tu que assistias aos meus conselhos e vivias familiarmente comigo, tu negar-me, tu trair-me, tu ser ingrato para comigo?» (Sl 40,10 — 54, 12-13).

Ouçamos ainda outras queixas no Deuteronômio, queixas que, em sentido espiritual, ele tem sempre razão de repetir a propósito da conduta da maior parte dos cristãos: «Introduzirei este povo na terra que prometi com juramento a seus pais, terra onde correm leite e mel. E eles, quando tiverem comido e bebido até se fartarem, quando tiverem engordado, voltar-se-ão para servir a deuses estrangeiros, esquecendo-se de mim e ultrajando-me» (Dt 31,20). «Assim, pois, reconheces os benefícios do Senhor, povo insensato e louco? Não é ele teu pai, não foi ele que te possuiu, que te constituiu e criou? Abandonaste o Deus que te gerou; viraste as costas ao Senhor, teu Criador» (Ib. 32,6,18). «Pasmai, ó céus, e entristecei-vos, diz Deus; duas culpas cometeu o meu povo: abandonou a mim, fonte de água viva, e cavou para si cisternas arenosas, incapazes de conter água» (Jr 2,12-13).

«O ingrato abandonará o seu libertador», diz o Sábio (Eclo 29,22). E, de fato, vede ali o copeiro do rei Faraó; José lhe explica o sonho que tivera na prisão; ele lhe promete que, restituído ao seu primeiro posto e ofício, seu primeiro cuidado seria lembrar-se dele e empenhar-se junto ao rei por sua libertação; mas, alcançado o que desejava, não mais se preocupou com isso neste mundo (Gn 40,23). Quantos ingratos se esquecem de Deus, depois de terem recebido dele mil benefícios! …

5. CASTIGOS DA INGRATIDÃO

«A ingratidão é, segundo São Bernardo, inimiga da alma; dissipa-lhe os méritos, dispersa-lhe as virtudes, impede-a de tirar proveito dos benefícios; a ingratidão é vento ardente que seca a fonte da piedade, o orvalho da misericórdia, os canais da graça. A ingratidão combate a graça, opõe-se à salvação, fecha o caminho aos favores divinos; onde ela se encontra, já não há lugar nem acesso para a graça (9)». Israel esqueceu os benefícios do Altíssimo e não lhe foi grato; e o que lhe aconteceu? «Porque, diz o Salmista, o fogo da cólera celeste se inflamou contra a estirpe de Jacó, e o furor da vingança divina se lançou contra Israel… Deus levantou contra ele a sua mão para exterminá-lo no deserto; abateu-o e dispersou-o» (Sl 77,11,21; 105,26). «A esperança da ingrata se Dissolverá como gelo», diz o Sábio (Sb 16,29).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.