Tesouro n.º 174 · Volume III

PRESENTES REGALI

1 seção · 4 parágrafos · pp. 2058–2060 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. PERIGOS DOS PRESENTES

A Sagrada Escritura diz que é melhor dar do que receber (At 20,35); e em outro lugar nos faz saber que aquele que não se deixa comprar por presentes viverá (Pr 15,27). São Cirilo considera os presentes como um anzol dourado que captura o avarento; como o preço pelo qual se conclui a venda daquele que os recebe; considera-os peste, veneno, dívida perigosíssima, fermento de iniquidade, escola de males e causa de discórdias (Homil.). Quem acolhe bem os presentes põe preço à própria liberdade…

Por isso o Senhor havia dado no Deuteronômio este preceito: «Não recebereis presentes de espécie alguma, porque eles cegam os sábios e pervertem as palavras na boca dos justos» (Dt 16,19). Vê-se daí que os presentes produzem dois efeitos funestos: 1º cegam o espírito; 2º mudam a linguagem e a sentença dos juízes; porque geram afeto em seu coração; e oh! quão fácil é que o afeto ponha um véu sobre o juízo e turve a razão! E então, quem é tão forte que não se incline a julgar em favor daquele que apresentou presentes? Convenhamos também com o Sábio, que «os presentes e as dádivas cegam o ânimo dos juízes e detêm suas repreensões, tornando-os como mudos» (Eclo 20,31). Ainda que tivésseis olhos de águia, os presentes bastariam para vos cegar… aceitar presentes é como dar caução de servidão.

«Os presentes cegam, diz o Crisóstomo; e, como um freio que aperta a boca, impedem e transtornam os testemunhos (1)». Por isso, diz São Gregório Nazianzeno, os presentes são perigosos e maus, porque cegam também os sensatos. Os homens deixam-se apanhar pelo ouro como os pássaros pela visco; quando o ouro fala, todo raciocínio se cala; ele persuade até permanecendo mudo (2). Com razão, portanto, o Cardeal Caetano afirma que os presentes mudam o coração, apagam, desculpam e fazem perdoar as ofensas (Ex Delrio adag. 86); e São Pedro Damião escrevia a propósito de certos homens que acolhiam bem os presentes: «Quando querem erguer a voz em nome da justiça, a palavra lhes sai fraca da garganta, como que sufocada pelos presentes. Estes, quando são aceitos, enfraquecem o vigor da censura, tiram toda a liberdade à eloquência e, embora não corrompam toda a equidade do juízo, debilitam a autoridade do juiz. Rejeitemo-los, e conservaremos inteira a liberdade de condenar ou absolver segundo as normas da justiça, e deixaremos de ser escravos do dinheiro» (Lib. 2, epist. II).

E, de fato, a Sagrada Escritura, falando dos filhos de Samuel, depois de dizer que se deixaram corromper pela avareza e receberam presentes, acrescenta imediatamente que proferiram sentenças injustas (1Sm 8,3). Nunca lestes, dizia São Hilarião aos anacoretas, quanto os presentes custaram a Giezi e a Simão Mago? A Giezi, que os havia recebido; a Simão, que os havia oferecido? (Vit. Patr.). Ao contrário, lemos que Samuel convocou o povo a declarar diante de Deus se alguma vez havia recebido de algum deles qualquer presente: nesse caso, ele se condenaria a si mesmo imediatamente e devolveria tudo quanto lhes tivesse vindo deles (1Sm 12,3). Daniel disse ao rei Baltazar, que lhe prometia grandes presentes caso decifrasse as misteriosas letras escritas por mão invisível na parede, entre pesaroso e cortês: «Fica com teus presentes, ó rei, e guarda para outros os tesouros de tua casa; eu te lerei a inscrição e te explicarei o seu sentido, mas não aceitarei presente algum» (Dn 5,17). Santo Ambrósio não se cansa de elogiar a conduta de Abraão, que não quis tomar nada do despojo, fruto da vitória que alcançara, e generosamente recusou o que lhe era oferecido. Fazer-se pagar por um triunfo é diminuir-lhe o valor, é obscurecer a beleza do combate; pois imensa é a diferença entre agir desinteressadamente pela glória e agir por amor ao lucro. Por isso Abraão mereceu ouvir do Senhor estas preciosas palavras: «Eu sou o teu protetor e serei a tua recompensa incomparável» (Gn 15,1). «Porque não pediu seu pagamento aos homens, recebeu-o de Deus» (Serm.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.