Senhor, dizia o Profeta Habacuc, salvai o vosso povo no meio dos anos. No meio de nossos dias, fazei resplandecer o vosso poder; no tempo de vossa cólera, lembrai-vos de vossa misericórdia. O Santo veio; sua glória cobriu os céus, e a terra ressoa, de um extremo ao outro, com seus louvores. Seu esplendor brilha como o sol; da nuvem partem raios que velam sua majestade. Vós saístes para a salvação de vosso povo. Eu me alegrarei no Senhor, exultarei de alegria no Deus de minha salvação. Ele é minha força; conduzir-me-á às alturas, enquanto eu canto louvores à sua glória (III).
«Ó homem, diz São Bernardo, reconhece quão graves são as tuas feridas, para curar as quais Cristo teve de receber ele mesmo feridas acerbas e profundas. Se as tuas chagas não fossem mortais, e mortais para sempre, o Filho de Deus não teria morrido para curá-las (1)». O pecado mortal é, por sua natureza, irreparável. Quando cometemos um pecado mortal, damos tal morte à nossa alma que, quanto depende de nós, tornamos eternos o pecado, a morte e a nossa condenação; porque extinguimos em nós a possibilidade da vida. Quem uma vez renuncia a Deus, renuncia a ele eternamente, porque está na natureza do pecado fazer, quanto depende dele, uma separação eterna; e, como o homem nada possui em si para poder unir-se novamente a Deus, não pode, por conseguinte, retornar por si mesmo à vida. Ora, a redenção faz aquilo que o homem não pode fazer… O objetivo da redenção é libertar o homem do inferno, da morte, do pecado, da maldição… «Fostes resgatados por grande preço, diz o Apóstolo São Paulo; não vos torneis, pois, escravos dos homens» (1Cor 7,23). «Para conhecer o preço do homem redimido por Jesus Cristo, considerai, observa oportunamente Santo Agostinho, aquilo que ele deu. O sangue de Jesus Cristo é o nosso preço: qual é, portanto, o nosso valor? (2)».
A bondade de Jesus Cristo na obra da redenção resplandece de modo claríssimo e inefável, porque: 1° Jesus Cristo, na cruz, nos dá provas de amor infinito, para conquistar-nos para si por meio desse amor. Jesus não foi constrangido por necessidade alguma, nem atraído pela esperança de alguma utilidade própria; somente seu amor de benevolência e de complacência o leva a subir à cruz. Ele sobe a ela e, com tanta sabedoria, dispõe todas as coisas que, por meio dessa morte, nada subtrai à grandeza e à glória de sua divindade e nos torna sumamente felizes… 2° Na cruz, resgata o homem não pelo poder de sua divindade, mas, segundo a expressão de Santo Agostinho, pela justiça e pela humildade de sua paixão (De Civit. Dei). 3° Na cruz, oferece o exemplo mais completo da mais perfeita obediência, da constância, da penitência, da paciência, da fortaleza, da mortificação dos vícios; numa palavra, o exemplo de todas as virtudes.
«Deus amou o mundo a tal ponto que por ele sacrificou seu Unigênito» (Jo 3,16). «Que coisa se pode imaginar de mais misericordioso, exclama Santo Anselmo, do que Deus Pai, que diz ao pecador condenado aos tormentos eternos e privado de meios para resgatar-se: Toma o meu Unigênito e dá-o em teu lugar? Que coisa mais misericordiosa do que o Filho, que por sua vez acrescenta: Toma-me e resgata-te? (3)». São Bernardo observa que Jesus Cristo não se contentou com as lágrimas dos olhos, mas quis chorar e lavar nossas culpas com as lágrimas de sangue que suaram por todos os poros de seu corpo e escorreram em torrentes de seus membros lacerados (Serm. in Pass.). «Ah! Senhor!, clamemos também nós com Santo Agostinho, vós me resgatastes por inteiro, para possuir-me por inteiro (4)».
«Não é tal o dom como o delito», diz São Paulo (Rm 5,15). O dom da redenção supera infinitamente a gravidade do pecado. Com efeito: 1° Adão era um homem; Jesus Cristo é Deus… 2° Jesus resgatou não somente Adão, mas toda a humanidade… 3° Adão não cometeu senão um pecado; Jesus expiou todos os pecados, inclusive os atuais… 4° O delito de Adão não é infinito; a morte de Jesus é de valor infinito. Jesus Cristo trouxe-nos, por meio da redenção, as graças mais excelentes, os sacramentos, a salvação, o paraíso. Fez-nos seus irmãos, constituiu-nos seus filhos, herdeiros e coerdeiros… Transformou-nos em deuses, tornando-nos participantes da natureza divina.
1° Adão perdeu todos os homens. Jesus Cristo redimiu todos… 2° Um só pecado Adão transmitiu a seus descendentes; Jesus Cristo liberta de todos os pecados… 3° Adão não manchou a terra senão com um só pecado; Jesus Cristo derramou todas as graças, e graças muito maiores e mais poderosas do que havia sido a culpa grave; como precisamente diz o Apóstolo aos Romanos: «Onde abundou o delito, superabundou a graça» (Rm 5,20). 4° Por Adão veio a concupiscência; por Jesus Cristo, essa concupiscência tornou-se matéria de glorioso combate, de rica vitória, de esplêndido triunfo; e é aniquilada para sempre no céu. 5° Por Adão, a graça foi perdida; por Jesus Cristo, foi-nos dada uma graça mais frequente, mais abundante, mais eficaz. 6° A graça de Jesus Cristo derramou-se sobre Maria e sobre os Anjos, que não haviam sido infectados pelo pecado de Adão. 7° Por Adão, a morte temporal; por Jesus Cristo, a ressurreição imortal. 8° Por Adão, fomos, de certo modo, reduzidos ao estado de pura natureza; por Jesus Cristo, somos elevados a um estado mais espiritual e mais sublime do que aquele em que Adão foi criado, e destinados a uma vida inteiramente celeste. 9° Por Adão, tornamo-nos semelhantes às feras; por Jesus Cristo, tornamo-nos semelhantes aos Anjos. Mais ainda: em Jesus Cristo e na Bem-aventurada Virgem Maria, nossa natureza se encontra elevada acima dos coros angélicos. 10° Adão privou-nos da árvore da vida; Jesus Cristo deu-nos o pão que desceu do céu e que dá a vida eterna; dá-se inteiramente a nós. 11° Adão despojou-nos da graça da justiça original; Jesus Cristo enriquece-nos com a abundância das graças e das virtudes; porque, em primeiro lugar, nos dá virtudes que não teriam existido na condição da primitiva inocência, tais como a paciência, a penitência, o martírio, a virgindade, o apostolado, a esmola etc.; em segundo lugar, confere a estas e a todas as demais virtudes uma abundância maior, uma perfeição e um crescimento contínuo que não poderiam ter no estado de inocência. Com toda razão, portanto, São Paulo afirma que «onde abundara o pecado, aí superabundou a graça» (Rm 5,20); e com pleno direito a Igreja canta no Exultet: «Ó feliz culpa, que nos mereceu tão grande e tão sublime Redentor!»
Assim como todos pecamos em Adão, assim também todos somos justificados em Jesus Cristo; isto é, satisfizemos justamente por nossos pecados e merecemos a justiça. Mas, assim como, para contrair o pecado original, é necessário que nasçamos naturalmente de Adão, assim, para ter parte na justiça de Jesus Cristo, é necessário que nasçamos dele espiritualmente, por meio do batismo. Pratiquemos, pois, aquilo que o Apóstolo recomendava aos Romanos: «Nenhum de nós vive para si, e nenhum morre para si; mas, quer vivamos, quer morramos, vivemos e morremos para o Senhor. Para isso Cristo morreu e ressuscitou, para que tenha império sobre os vivos e sobre os mortos» (Rm 14,7-9). Aos Colossenses escrevia: «Quando jacíeis mortos no pecado, Jesus Cristo vos fez reviver com ele, perdoando-vos todas as vossas culpas e apagando a sentença de condenação lançada contra vós; ele a aboliu, pregando-a na cruz; e, despojando os principados e as potestades, conduziu-os cativos, triunfando visivelmente deles em sua pessoa» (Cl 2,13-15). Este texto de São Paulo é assim comentado por Orígenes: «Este escrito serve de caução por nossos pecados; porque cada um de nós, naquilo em que falta, torna-se devedor, e lavra escritos que constatam o seu pecado e a dívida do mesmo (5)».
Sete coisas excelentes tornavam belo e precioso o estado de inocência: a sabedoria; a graça e a amizade de Deus; a justiça original; a imortalidade e a impassibilidade da alma e do corpo; a habitação no paraíso terrestre e o uso do fruto da árvore da vida; o cuidado especial que Deus tinha do homem; do qual nascia a sétima, que consistia, segundo São Tomás, em que o homem não teria a concupiscência, não pecaria sequer venialmente, nem erraria, sendo sustentado e protegido por Deus (De Peccat.). Todavia, uma graça ainda mais excelente, maior do que aquela concedida a Adão, foi-nos alcançada por Jesus Cristo; por isso possuímos sete virtudes admiráveis que não teríamos tido no estado de inocência. A primeira delas é a virgindade; porque, no estado de inocência, a geração teria lugar como depois da queda, mas sem concupiscência. Daí se segue que a virgindade não teria lugar, porque nessa condição não haveria virtude. Hoje a virgindade é virtude sublime e de grandíssimo mérito, porque põe freio à concupiscência do prazer; mas então não haveria nem concupiscência, nem paixão a refrear. A segunda virtude é a paciência… A terceira, a penitência… A quarta, o martírio… A quinta, o jejum, a abstinência e toda espécie de mortificação corporal… A sexta, a pobreza e a obediência voluntária e religiosa… A sétima, a misericórdia e a esmola; porque, no estado de inocência, não haveria nem infelizes a compadecer, nem pobres a socorrer, e, portanto, faltaria o objeto sobre o qual exercer a preciosa virtude da misericórdia e da caridade… Finalmente, Deus concede ao homem decaído uma graça muito mais insigne e eficaz do que aquela com que muniu Adão, como se vê nos mártires e nos outros santos ilustres; por isso, no estado presente, o homem possui maiores meios de adquirir mérito, tanto em razão de uma graça maior, como em razão da dificuldade de praticar a virtude.
Esta é a ideia que o Apóstolo das gentes apresenta da redenção em suas Epístolas, todas as vezes que dela fala: «Jesus Cristo, escrevia, por exemplo, a Timóteo, veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro; e entregou-se a si mesmo pela redenção de todos» (1Tm 1,15; 2,6). A Tito repete que Jesus Cristo se entregou a si mesmo em nosso lugar, para nos resgatar de toda iniquidade e formar para si um povo puro, que lhe fosse agradável e zeloso de boas obras; e conclui ordenando-lhe que ensinasse tais maravilhas aos homens e os exortasse a aproveitar-se de tantas graças (Tt 2,14-15). Aos Hebreus faz notar que somos santificados pela oblação do corpo de Jesus Cristo, feita uma vez; e que, por essa única oblação, consumou para sempre a nossa santificação (Hb 10-14).
Santo Agostinho diz que veio do céu um grande médico, porque sobre toda a face do globo jazia estendido um grande enfermo (6). Em outro lugar observa que, como a luz incriada não podia ser compreendida pelas trevas, a própria luz assumiu a mortalidade das trevas e, por meio da carne do pecado, comunicou a verdadeira luz (7). «Jesus Cristo, escreve Santo Ambrósio, vem ao mundo e nos resgata, para quebrar o aguilhão da morte, fechar o seu abismo devorador e dar aos vivos a eternidade da graça e aos mortos a ressurreição. Por isso Jesus Cristo é suspenso à cruz entre o céu e a terra, como mediador para reconciliar o homem com Deus: para receber em si as flechas da cólera divina, lançadas pelo Senhor contra os homens, a fim de preservá-los, para que ele somente expie em seu próprio corpo os crimes de todos os homens; e, por sua vez, estendendo na cruz os braços à maneira de um arco, lance para Deus, seu Pai, do fundo de seu amoroso coração, as setas de sua oração e de sua caridade, com as quais fira o coração de seu Pai e faça dele brotar a graça e o perdão, e inunde o homem com uma torrente de bênçãos e felicidade (8)».
Jesus Cristo nasceu e morreu por todos os homens, sem exceção; quer a salvação de todos; é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro; eis o que resulta claramente de todos os atos do Redentor e de todos os escritos apostólicos. «Jesus Cristo, diz São Paulo, ofereceu-se uma vez para apagar os pecados de muitos (isto é, de todos)» (Hb 9,28). «É sua vontade que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade» (1Tm 2,4). «Ele morreu por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2Cor 5,15). «O sangue de Jesus Cristo, escreve o Apóstolo São João, purifica-nos de toda culpa» (1Jo 1,7); «e ele é a propiciação pelos nossos pecados, e não somente pelos nossos, mas também pelos de todo o mundo» (1Jo 2,2). Portanto, os que não se salvam são eles mesmos que não querem salvar-se… Ah! digamos com o Salmista: «No Senhor está a misericórdia e abundante redenção» (Sl 129,7).
Sabemos por São Paulo que Jesus Cristo, com sua morte, despojou os principados e as potestades (infernais) e os conduziu cativos consigo, triunfando visivelmente deles em sua própria pessoa (Cl 2,15). Ele os afogou, como outrora os egípcios, no mar vermelho de seu adorável sangue (Sb 10,19). Aludindo ao Redentor, o Profeta Isaías havia predito que, na hora de seu triunfo, ele precipitaria e destruiria para sempre a morte (Is 25,8); e eis o Apóstolo, falando de Jesus Cristo, afirmar que «a morte não terá mais nenhum domínio sobre ele» (Rm 6,9); e depois exclamar, num ímpeto de alegria: «Ó morte, ó morte, onde está a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?» (1Cor 15,59).
«Por meio da redenção, a morte foi morta, diz São João Crisóstomo; os demônios foram acorrentados, os céus foram abertos, o Espírito Santo foi enviado, os escravos tornaram-se livres, os inimigos foram transformados em filhos, os homens tornaram-se anjos; mais ainda, Deus fez-se homem e o homem tornou-se Deus (9)». Pela redenção, o demônio foi vencido e crucificado, diz Orígenes, mas somente para aqueles que são crucificados com Jesus Cristo (10).
Para glória dos redimidos, diz o Apocalipse, que «eles venceram em virtude do Sangue do Cordeiro» (12,11), e foram ouvidos cantar um cântico novo, que dizia: «Vós sois digno, ó Senhor, de tomar o livro e romper os seus sete selos, porque fostes morto e nos resgatastes para Deus com o vosso sangue; e nos fizestes reis e sacerdotes para o nosso Deus; e reinaremos» (Ib. 5,9-10).