É artigo de fé, constantemente professado em todos os tempos e em todos os lugares da Igreja católica, que existe um purgatório… Se alguém ousar afirmar — diz o Concílio de Trento, sessão 6, cân. 30 — que, pela graça da justificação, a culpa e a pena eterna são tão plenamente perdoadas ao penitente que não lhe resta parte alguma da pena temporal a sofrer, seja neste mundo, seja no purgatório, antes de entrar no reino dos céus, seja anátema.
A Sagrada Escritura ensina que é preciso rezar pelos mortos. E, como, segundo o juízo da mesma Escritura, não há perdão para os que estão no inferno, e os eleitos no céu não têm necessidade alguma de orações, segue-se necessariamente que existe um terceiro lugar para onde vão as almas que não morrem em pecado mortal, mas partem desta vida sem ter satisfeito plenamente à justiça divina. O purgatório é um lugar de penas, onde as almas que saíram desta vida antes de terem satisfeito suficientemente à justiça divina por suas culpas terminam de expiá-las antes de serem admitidas à felicidade eterna.
Não é artigo de fé que no purgatório haja fogo verdadeiro e real. Cada um pode, sobre este ponto, crer como lhe parecer melhor, pois entre os Doutores e os católicos há quem sustente a existência do fogo, e quem a impugne. Entre as duas sentenças, porém, embora a Igreja não se tenha pronunciado, parece que o senso comum e universal do povo católico se inclina mais à primeira do que à segunda. De qualquer modo, todos concordam em crer e ensinar que são gravíssimas as penas que se sofrem no Purgatório.
«O fogo do Purgatório (ou os sofrimentos que ali se padecem), diz Santo Agostinho, é mais ardente do que toda pena que se possa sofrer nesta vida (In Psalm. XXXVII)». Assim deve ser, se é verdadeiro o que afirma São Bernardo: que deveremos pagar cem vezes mais no purgatório aquilo que tivermos negligenciado aqui na terra (De Obitu Umb.). Ora, se, para evitar os castigos, nos dispomos a obedecer ao rei, direi com Santo Anselmo: tenhamos muito maior empenho em obedecer a Deus, para escapar aos sofrimentos do purgatório, muito mais acerbos e terríveis do que todos os tormentos desta vida (De poena purgat)… Façamos penitência, derramemos lágrimas de compunção e de emenda… Ah! certamente é coisa mais doce ser lavado na água do que no fogo; vale mais passar a vida inteira no purgatório da penitência do que permanecer sequer um só ano no purgatório do outro mundo.
Além da pena dos sentidos, há ainda no purgatório a pena do dano, que consiste na privação da visão de Deus; e esta pena se torna acerba ao extremo para as almas ali encerradas: 1° porque elas conhecem muito mais claramente do que nós as perfeições de Deus; 2° pelo imenso desejo que as impele a ir para Deus; 3° pelo grande amor que têm a Deus; 4° porque não são, como nós, jamais distraídas do pensamento de Deus…
Pode haver talvez, naquelas penas, há anos e anos, um pai, uma mãe, um filho querido, uma esposa, um marido, um amigo, um vizinho e assim por diante, alguma pessoa que na terra nos foi caríssima e à qual nos ligam mil títulos de dever, de gratidão, de reconhecimento, de afeto… E, o que é mais, pode ser que ali gemam, há longo tempo martirizados por nossa causa… Daquela prisão tenebrosa e horrenda, pedem, imploram com lágrimas e gemidos o socorro de nossas orações e de nossas boas obras… Ah! não vos façais surdos aos lamentos daquelas infelizes que vão clamando: «Nós, desventuradas! Ai, quanto se prolonga o nosso exílio!» (Sl 119,5); e, com Jó, cansam-se de suplicar: «Tende piedade de nós, tende piedade ao menos vós, ó nossos amigos; porque a mão de Deus se agravou sobre nós» (19, 21).
«Estende a tua liberalidade até os defuntos», diz o Espírito Santo (Eclo 7, 37). Cumprimos isso aliviando as almas do purgatório: 1° pelo santo sacrifício da Missa; 2° pelas orações; 3° pelos jejuns; 4° pela esmola; 5° por toda outra espécie de boas obras… Ó quais úteis e preciosos amigos adquirimos para nós ao aliviar aquelas santas almas, abreviando o tempo de seus sofrimentos, apressando a hora de sua entrada no céu!