A pureza de intenção consiste em não buscar senão a Deus em nossos pensamentos, em nossos desígnios, em nossas ações; em não ver senão a Ele e a sua santíssima vontade; em esforçar-nos por agradar somente a Ele em tudo e em toda parte; em olhar sempre e em cada coisa para Deus, como nosso único fim… Devemos imitar o pedreiro, que não assenta pedra alguma sem ter à mão o esquadro e o prumo… Enquanto cumprimos as funções de Marta, não esqueçamos as de Maria… Nossa intenção deve manter-se fixa em Deus, enquanto os pés e as mãos realizam a sua obra… «Não atenteis demasiado para a ação do homem, escreve Santo Agostinho, mas estudai antes a intenção com que ele a realiza (1)». E São Bernardo reconhece como verdadeiro e fiel servo de Deus aquele que absolutamente nada atribui a si mesmo daquelas obras maravilhosas que Deus às vezes realiza por seu intermédio, mas remete toda a glória àquele de quem procede e a quem pertence todo bem (2).
Nossa intenção é boa, se evitamos o pecado e praticamos o bem para escapar às penas do inferno. É melhor, se nos aplicamos ao bem, esperando dele a recompensa eterna. É ótima e perfeita, porém, se agimos por amor à virtude, por exemplo, por obediência e para cumprir a lei; por reconhecimento, para dar graças a Deus; por penitência, para satisfazer por nossos pecados; por justiça, para dar ao próximo aquilo que lhe é devido; pela virtude da religião, para servir a Deus; e sobretudo por caridade, para agradar a Deus e fazer unicamente por Ele uma coisa que Lhe agrada. Com efeito, a caridade ocupa o lugar de rainha entre as virtudes; por isso, os atos que dela procedem e que ela governa com a intenção tornam-se nobilíssimos e de mérito imenso diante de Deus.
«Se fazemos o bem por temor do inferno, estamos na condição de escravos, diz um autor; se o fazemos para obter a recompensa, estamos no estado de servos; se o fazemos unicamente para agradar a Deus, entramos no número e revestimos a dignidade dos filhos de Deus (3)». Quem trabalha para Deus pense que o bom êxito pertence a Deus e, portanto, não se aflija, quer tenha êxito, quer não o tenha. Mesmo salvando o mundo inteiro, podemos condenar-nos; e, ao contrário, podemos salvar-nos e conquistar uma coroa riquíssima no céu sem ter convertido ninguém, contanto que tenhamos feito tudo o que podíamos com intenção pura.
«Estejas bem persuadido, escrevia São Euchério a alguém, de que não viveste bem para Deus senão no dia em que renunciaste à própria vontade, resististe aos maus desejos e não incorreste em nenhuma transgressão da lei; pensa ter vivido somente aquele dia que foi testemunha de tua pureza de intenção e que empregaste na santa meditação (4)». Ricardo de São Vítor compara a obra não acompanhada de pureza de intenção a um corpo privado de vida (5). Por isso, Santo Inácio de Loyola recomenda a todos que procurem, quanto puderem, ter uma intenção reta, não somente na orientação geral de sua vida, mas também em todas as coisas particulares (In Vita).
A pureza de intenção torna meritória uma ação indiferente em si mesma; e quanto mais perfeita é essa intenção, tanto mais aumenta o valor da obra. «Os méritos de uma boa ação, diz São Gregório, resplandecem pelos raios da boa intenção; aquele que é guiado pela reta intenção, ao realizar a obra de Deus, eleva uma coluna no edifício da casa espiritual; e, colocada no templo de Deus, que é a Igreja, ela lhe é útil e ornamental (6)». Em suma, tanto valor atribui este Santo à pureza de intenção que a chama a base, o fundamento de todo o edifício espiritual. A intenção é, segundo Santo Ambrósio, o juiz de todas as ações dos homens; ela imprime o selo em todas as suas obras (7). Pois, assim como o tronco, os ramos e os frutos de uma árvore extraem sua seiva das raízes, assim as boas obras extraem seu valor e mérito da boa intenção.
Santo Inácio de Loyola nos sugere que, em todas as coisas, tenhamos em vista o beneplácito de Deus e a bondade divina; que ajamos antes por ela, por amor e em reconhecimento dos grandes benefícios com que ela nos previne e acompanha, do que por temor das penas ou pela esperança do paraíso, embora estas últimas considerações possam ajudar-nos a buscar a Deus. Importa sumamente despojarmo-nos, quanto possível, de todo afeto às criaturas, para dirigi-lo e fixá-lo inteiramente e unicamente em Deus, seu Criador, amando n’Ele todas as coisas criadas e amando todas as coisas n’Ele, segundo a sua santíssima e divina vontade. Digamos, em suma, com o Santo: «Seja tudo para maior glória de Deus»; e com o Profeta: «Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao vosso nome seja dada a glória» (Sl 113, 1). Nunca esqueçamos aquela exortação do Apóstolo das Gentes: «Quer comais, quer bebais, quer façais qualquer outra coisa, fazei tudo para a glória de Deus» (1Cor 10,31).
«Revela ao Senhor as tuas obras, diz-nos o Sábio, e os teus pensamentos serão dirigidos a ele» (Pr 14,3). O Cardeal Caetano diz que estas palavras devem ser entendidas da intenção, do fim, como se a Escritura dissesse: Voltai-vos para o Senhor e a ele, como ao vosso último fim, referi as vossas ações; e assim acontecerá que os vossos pensamentos serão bem dirigidos ao seu objetivo (Ex Delrio). Referi todas as vossas ações a Deus e os vossos pensamentos serão retos. Fazei tudo por Deus, manifestai-lhe todas as coisas, oferecei-lhe tudo, recomendai-lhe e confiai-lhe tudo, e ficai certos de que ele dirigirá, fortalecerá e confirmará tudo para a sua glória, para a vossa salvação e a do próximo. É preciso buscar unicamente a glória de Deus e nada mais; este é o modo de chegar a uma perfeita submissão, a uma grande tranquilidade de espírito… Importa esquecer não somente as coisas exteriores, mas também a nós mesmos, amando-nos somente em Deus, por Deus e com Deus; agindo somente em Deus, por Deus e com Deus.