A pureza consiste numa vontade firme e imutável de jamais dar lugar na alma a qualquer coisa que tenha aparência de incontinência… Seja o que for que nos possa acontecer, é preciso que permaneçamos firmes no propósito de não querer nada daquilo que os sentidos e a carne querem… As revoltas involuntárias e não consentidas pela alma não são pecados… Muitas vezes a alma não é senhora absoluta do corpo corrompido; mas, negando-lhe todo o seu concurso e subjugando-o quanto lhe é possível, não somente não cai em pecado, como ainda tira disso ocasião de virtude e de mérito… Não está o mal em sentir a concupiscência, mas em consentir nela…
Para nos tranquilizar e confortar, temos o exemplo de São Paulo, daquele vaso de eleição que, embora arrebatado ao terceiro céu, não se envergonha de confessar que os estímulos da carne, que não podia fazer calar, lhe faziam áspera guerra. Ouvi as suas próprias palavras: «Sinto em meus membros outra lei que combate a lei do meu espírito e me subjuga à inclinação do pecado que está em meus membros. Infeliz de mim! Quem me livrará deste corpo de morte?» (Rm 7,23-24). Mas ele se consola depois, advertindo que, se faz aquilo que não quer e que lhe repugna, não é ele quem o faz, mas o pecado, isto é, a concupiscência, que nele se encontra (Ib. 7,20). O eu em mim não é o corpo, mas a vontade; ora, eu não quero esses movimentos desordenados, não consinto neles; portanto, não sou culpado. Estas misérias do corpo nos humilham, e a humildade nos abre o céu.
E é precisamente isto que o mesmo Apóstolo nos revela em outro lugar, onde faz uma confissão semelhante à que ouvimos acima: «Para que a grandeza das operações não me enchesse de soberba, foi dado à minha carne um espinho, um anjo de Satanás que me esbofeteasse» (2Cor 12,7). Este anjo de Satanás que maltratava São Paulo era a revolta da carne, os movimentos impuros. O Apóstolo suplicava ao Senhor que o livrasse de semelhante tirania da carne, e o Senhor respondia que lhe devia bastar a sua graça, porque a força se aperfeiçoa na fraqueza da carne. Por isso, cheio de alegria, o Apóstolo concluía que se gloriaria em suas fraquezas, para que a força de Cristo habitasse nele (Ib. 8-9). Os maiores Santos estiveram sujeitos a tais provas; mas seu coração jamais consentia nos apetites da carne. Não nos perturbemos, portanto, não desanimemos; façamos o que faziam os Santos, e permaneceremos puros, aconteça o que acontecer fora de nós.
Mas de que modo, dirá alguém de consciência tímida e fortemente tentado, de que modo saberei se consenti ou não? Eis a resposta dos teólogos. Quando uma pessoa se afasta, com todo o seu poder, das ocasiões próximas, vigia os seus sentidos e não se permite certas imodéstias exteriores, pode estar segura de que, apesar do desregramento de sua imaginação e dos assaltos de tentações violentíssimas, seu coração e sua vontade não têm parte nas sensações carnais; ela é inocente, e disso se pode concluir que não deu o seu consentimento. Nesse caso, pode repetir com toda a razão, com São Paulo: Se faço o que não quero, não sou eu quem o faz, mas a concupiscência que habita em mim; e então se tranquilize, se serene e se reconforte; porque, se cedesse à melancolia e ao desânimo, o demônio poderia aproveitar-se disso para fazê-la cair; Satanás nada procura mais do que perturbar as consciências; e, quando não pode vencer, procura fazer o tentado acreditar que consentiu no mal… Mas, ao contrário, dizem os teólogos, se uma pessoa não se mantém afastada das ocasiões próximas de pecado, não vigia sobre si mesma e permite exteriormente alguma imodéstia, como, por exemplo, olhares indiscretos e voluntários, então, se duvida de ter consentido no coração, sua dúvida é um erro: existe o consentimento da vontade, e ela é culpada. À luz destes princípios práticos e positivos, torna-se fácil, em muitos casos, saber se houve consentimento ou não.
Que a virtude da pureza, entendida no sentido acima expresso, seja necessária para pertencer ao reino de Jesus Cristo, é dito claramente por São João que, falando do céu, afirma: «Nada de impuro poderá entrar nele» (Ap 21,27). De modo que Clemente de Alexandria não considera verdadeiros cristãos senão aqueles que são castos (Strom. lib. I); São Jerônimo exige que a pureza regule todas as nossas ações e os nossos olhares (Epist.), e Orígenes sentencia que é preciso ser puro para quem pretende salvar-se (In Cant).
«Vivamos em toda continência e honestidade, escrevia o Apóstolo das gentes aos Romanos, não em meio a festins e embriaguezes, não entre orgias e impudicícias; revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não afagueis a carne em seus desejos» (Rm 13,13-14); e aos Coríntios inculcava que se purificassem do velho fermento, para que fossem uma massa nova (1Cor 5,7). Em outro lugar, dizia-lhes claramente que nem os adúlteros, nem os fornicadores, nem os efeminados, nem os pederastas, nem os outros dessa espécie jamais possuiriam o reino de Deus, e queria que, sobre este ponto, não se iludissem (Ib. VI 3-10); e mais adiante repetia: «Nem a carne nem o sangue poderão jamais tomar posse do reino de Deus; e a corrupção jamais adquirirá a incorruptibilidade» (Ib. 15,50). E não somente exclui do reino de Deus aquele que de algum modo se macula com a impureza, mas ameaça de morte todo aquele que afaga a carne (Rm 8,13).
«Assim como num espelho embaciado a imagem dos objetos não pode nem refletir-se nem ser vista, do mesmo modo, diz São Basílio, de maneira alguma o homem, se não for puro, pode receber ou ver as luzes do Espírito Santo (1).» Santo Agostinho, depois de afirmar que o coração deve ser tão puro como os raios do sol, observa que, assim como a luz solar só pode ser vista por olhos puros, também Deus só pode ser visto por uma alma pura (2). Por isso, Jesus Cristo promete a visão de Deus não a outros senão aos puros de coração (Mt 5,8). E no Apocalipse Deus diz: Fora do meu templo, fora da minha casa, fora do meu reino, todo tipo de impuros (22,15).
Não nos causará, portanto, admiração ouvir o Crisóstomo dizer-nos que é preciso ser puros como os Anjos, porque somos chamados a habitar com eles (In Moral.); se Santo Ambrósio afirma que aquele que conserva a castidade é um Anjo, e demônio aquele que a perde (3); se Santo Atanásio, reconhecendo na pureza uma joia preciosíssima, afirma, contudo, que ela é absolutamente necessária (Tract. de Virg.).
«Bem-aventurada a esterilidade voluntária e imaculada! exclama o Sábio; ela terá a sua recompensa quando Deus vier para recompensar as almas santas. Um dom especial será dado à sua fidelidade e uma sorte luminosíssima na casa de Deus» (Sb 3,13-14). «E, de fato, que há de mais esplêndido, diz São Bernardo, que há de mais belo do que a castidade, que torna puro o homem concebido na imundície, faz de um inimigo um familiar de Deus e de um homem um Anjo? Somente a castidade, neste lugar e neste tempo de mortalidade, representa, de certo modo, o estado de imortalidade e de glória. Os puros são o ornamento da corte de Deus, formam o palácio do Rei celeste e constituem a nobreza da Igreja (4).» Tertuliano já havia chamado a pureza de flor dos costumes, honra dos corpos, ornamento de ambos os sexos e fundamento da santidade (5).
E, de modo mais amplo, São Cipriano: «A pudicidade constitui a glória dos nossos corpos, o ornamento dos costumes, a santidade dos sexos, o vínculo do pudor, a fonte da castidade, a paz dos lares e a base da concórdia. A pudicidade não busca agradar senão a si mesma; mantém-se sempre reservada e é sempre bela em sua reserva; é a mãe da inocência e jamais conhece melhor a própria beleza do que quando desagrada aos impuros. Ninguém jamais pode acusá-la, nem mesmo aqueles que não a possuem, e mostra-se venerável aos seus próprios inimigos, que tanto mais a admiram quanto menos podem combatê-la e triunfar sobre ela. Não busca outros ornamentos, pois é para si mesma um esplêndido ornamento. Esta virtude nos torna agradáveis a Deus e unidos a Cristo; combate continuamente contra todos os movimentos ilícitos dos desejos carnais e leva a paz aos nossos corpos: feliz em si mesma, torna felizes aqueles que a hospedam (6).» Exclamemos, pois, com Santo Efrém: «Ó mãe da dileção e verdadeira distinção da vida angélica! Ó pureza, herança dos corações imaculados, de boca suave e aspecto agradável! Ó castidade, tu tornas os homens semelhantes aos Anjos! Ó castidade, dom de Deus! Ó pureza, porto tranquilo, situado na mais elevada região da segurança e da paz! (7).» Ah, sim, certamente, porque, segundo São Leão, «o homem só goza da verdadeira paz e da verdadeira liberdade quando submete a carne ao espírito e o espírito a Deus (8)»; e isso se obtém com a pureza.
São Jerônimo não hesita em afirmar que a pureza tem o mérito e a glória do martírio. Mesmo quando não há perseguição alguma dos tiranos, escreve este Padre, e o cristão não derrama o sangue por Jesus Cristo, a paz tem, contudo, o seu martírio; pois, embora não estenda o pescoço sob o cutelo do carrasco, abate, todavia, com a espada da pureza, os desejos carnais; isso equivale ao martírio e é um verdadeiro martírio (Homil. 3, in Evang.). Nisso concorda São Bernardo, o qual, depois de dizer que mortificar pelo espírito as obras da carne é um martírio e que a castidade, principalmente na juventude, reveste-se da glória do martírio, como no casto José, observa que, embora o martírio do sangue por meio do ferro pareça mais cruel, é, contudo, menos doloroso em sua duração que o martírio da castidade (Serm. 30, in Cant.).
A pureza é a cidadela inexpugnável da santidade; ela defende o homem de toda desonra e de toda infâmia, é a base da força, o aniquilamento da luxúria, o sustentáculo da probidade, a morte da maldade; a vitória da alma, o freio do corpo; a abundância das glórias, torna estéreis as ignomínias; a guia da virtude, o flagelo do vício; a liberdade do bem, a escravidão do mal; o porto da honestidade, o naufrágio de todos os crimes; a mãe da virgindade. A adversária de tudo o que é imundo; a couraça do pudor, o muro da força, a ruína da desonra, a morte da corrupção. Ela gera a sinceridade, abole os escândalos; afasta toda falsidade; modera os instintos; doma as más inclinações; calca aos pés e reina sobre as tendências perversas; proporciona toda espécie de triunfo, abate toda espécie de excessos. Ela é a espada da disciplina, com a qual se mata a dissolução; é a armadura dos valorosos, que desarma aquilo que é vil e transitório; é a honradez dos costumes, o caminho da luz, o abismo em que desaparece toda degradação; é o refrigério do coração, no qual extingue toda chama desregrada; é o repouso da saúde, o refúgio contra a perdição, a vida do espírito, a morte da carne (Auct. lib. De Singularitate clericor. apud S. Cyprian.). Diante deste magnífico quadro, quem não exclamará com Santo Efrém: Ó pureza, freio dos olhos, tu dissipais as trevas e tornais o homem todo luz! Ó pureza, tu crucificas a carne, redu-la à escravidão e te lanças num instante ao céu! Ó castidade, tu moderas as paixões, redu-las à impotência e libertas a alma de suas cruéis agitações! Ó pureza, tu iluminas os justos e acorrentas Satanás em seus cavernosos abismos! Ó pureza, tu banes a preguiça e concedes a paciência! Ó castidade, carro espiritual, tu levas o homem à morada celeste! Ó pureza, rainha das flores, tanto pelo esplendor como pela beleza e pelo perfume! Ó castidade, tu és a arauta do Espírito Santo e habitas com ele (Serm. de Castit.).
Todo doçura é o fruto da pureza, escreve São Cirilo; incomparável é a sua beleza, suavíssimo o seu odor, inestimável o seu valor. Ela é o mais precioso diamante da natureza e da virtude; é a suprema temperança, a vitória mais completa; nela se reúne toda a glória. É uma rosa que exala suavíssimo perfume. Ó virtude angélica da pureza, tu és a rainha do homem! Ó safira admirável! Ó pérola lucidíssima! (Homil.). Quão grande, quão excelente é a pureza!, exclama Santo Atanásio: como é esplêndida a sua glória! Ó castidade, tesouro incompreensível! Ó continência, amiga de Deus e tema dos louvores angélicos! Ó pureza, que foges da morte e do inferno e te unes à imortalidade! Ó continência, alegria dos Profetas, lustre dos Apóstolos, vida dos Anjos, coroa dos Santos (Tract. de Virgin.). Digamos, pois, com Santo Agostinho: «Ordenais-me, ó Senhor, a pureza; dai-me a força para conservá-la e ordenai o que quiserdes (9)».
O Espírito Santo diz que todos os tesouros do mundo não são preço digno de uma alma casta (Eclo 26, 20). Com efeito, que tesouro bastaria para comprar um Anjo? Pois bem, tal é, segundo o sentir de todos os Padres, uma alma pura. O homem puro é um Anjo, escreve Santo Ambrósio (De Virgin.), do qual, acrescenta São Bernardo, difere não na felicidade, mas na coragem (10). «Pelo mérito desta virtude, diz Cassiano, os homens se tornam iguais aos Anjos (11); ou melhor, segundo a expressão de Santo Efrém, são transformados em verdadeiros Anjos» (In Vita S. Abrahae). Com efeito, o Anjo é um espírito puro, e a pureza é, segundo o mesmo Padre, «a vida do espírito» (Serm. de Castit.); o Anjo vê a Deus; a pureza, purificando as almas, torna-as aptas a ver a Deus, diz Santo Agostinho (Confess.). São Pedro Damião chama-a a rainha das virtudes (Epist.), e São Basílio nos assegura que ela torna o homem extremamente semelhante a Deus (Epist.). Com toda a razão, portanto, o Venerável Beda compara-a ao sal, que impede os vermes, e chama-a o sal do cristão (In Sentent.). São Cipriano chama-a a conquista dos triunfos (De Bono Pudic.); São Jerônimo vê nela o ornamento da Igreja de Deus, o mais rico e nobre diadema dos sacerdotes (12); Santo Atanásio exclama: Ó pureza, morada do Espírito Santo, vida dos Anjos, ornamento dos eleitos! (Tract. de Virg.); e São Tomás de Vilanova conclui que o homem, ainda que humilde, ainda que devoto, se não é puro, é nada (Epist.).
Considerando a excelência, as riquezas e as maravilhas da pureza, quem de nós não se sente estimulado e decidido a praticá-la a todo custo? «Nenhuma condenação resta àqueles que vivem em Cristo Jesus e não caminham segundo a carne», escreve São Paulo (Rm 8, 1). «Se vivermos segundo a carne, morreremos; mas, se pelo espírito mortificarmos as obras da carne, viveremos» (Ib. 13). «O homem colherá aquilo que semeia», diz aos Gálatas; «quem semeia na carne colherá corrupção, e quem semeia na pureza do espírito colherá a vida eterna» (Gl 6, 8). Finalmente, diz a Timóteo que o homem que se mantém puro será um vaso de honra, santificado, útil ao Senhor e apto para toda boa obra (Tm 2,21).
Tão grande é a proteção de Deus e dos Anjos sobre as almas puras, que elas sempre foram preservadas e conservadas imaculadas em meio a todas as solicitações, ameaças e furores dos mais cruéis tiranos. Ilustre exemplo disso nos oferece, entre outros, a vida de Santa Teófila, martirizada sob o imperador Máximo. Exposta aos insultos de vários jovens dissolutos, ela começou a rezar assim: Meu Jesus, meu amor, minha luz, meu espírito, guardião da minha castidade e da minha vida, olhai para aquela que é vossa esposa; apressai-vos em socorrer-me, para que os lobos não devorem a vossa ovelha. Ó meu Esposo celeste, salvai a vossa esposa; ó fonte de castidade, guardai a minha. Tendo a Santa sido arrastada para um lupanar, eis que aparece um Anjo, o qual fere mortalmente o primeiro libertino que ousa aproximar-se dela; cega o segundo e pune todos os demais com outros diversos castigos. Quem pode enfrentar o Deus dos cristãos? Semelhantes exemplos nos apresentam Santa Inês, Santa Cecília, Santa Lúcia… Santa Clara, vendo o mosteiro cercado por uma soldadesca desenfreada e furiosa, sobe às muralhas e exclama: Não queirais, ó Senhor, abandonar às feras as almas que se entregam a vós. — E imediatamente o mosteiro e a cidade de Assis se veem livres dos soldados e salvos. Nenhuma virgem, pela visível proteção de Deus, jamais foi, nem jamais pôde ser vencida por qualquer dos mais impuros tiranos; jamais puderam seduzir alguma, por mais que se tenham empenhado nisso com artifícios e violência. Ó milagre dos milagres, que em nenhum outro lugar senão em nossa santa religião nos é dado ver, e que prova luminosamente como Deus ama e protege as almas puras e castas! Basta este milagre para provar a divindade da religião.
«Bem-aventurados os puros de coração, diz Jesus Cristo, porque verão a Deus» (Mt 5, 8). Hão de vê-lo aqui embaixo, por sua graça; hão de vê-lo no céu, pela visão beatífica, pela posse e pelo gozo da glória eterna… «Vencer a volúpia é a maior e mais doce volúpia, observa São Cipriano; é o prazer mais saboroso, porque nada alegra e enche tanto a alma de felicidade quanto uma consciência pura (13)». À pureza podem aplicar-se aqueles louvores que o escritor inspirado dirige à Sabedoria: «Todo o ouro, comparado com ela, é um pouco de areia, e a prata é como lodo. Ela é mais bela que o sol e que todas as estrelas; comparada com a luz, é mais bela que ela. Com ela vêm todos os outros bens, e riquezas inumeráveis ela nos traz; além disso, ela mesma é um tesouro imenso, pelo qual aquele que recorreu a ela se tornou amigo de Deus» (Sb 7, 9-11, 14, 29). À imitação, pois, do Sábio, amemo-la mais do que a saúde e a beleza, prefiramo-la à luz, porque o seu brilho jamais se apagará (Ib. 10).
A pureza é glorificada pela nobreza de sua origem; ela habita com Deus. Se as riquezas são desejáveis nesta vida, que há de mais rico do que a pureza? Devemos, pois, resolver-nos a fazê-la habitar conosco, sabendo que ela nos fará participar de seus bens e nos elevará em nossas angústias. Por meio dela adquiriremos respeito entre as pessoas, obteremos um nome imortal e deixaremos atrás de nós uma memória imperecível. Quando entrarmos em nossa casa, repousaremos com ela, porque sua companhia não traz amargura nem tédio, mas alegria e suavidade. Sabendo, porém, que não podemos possuir por nós mesmos esta virtude celeste, se Deus não no-la concede, e que é grande sabedoria conhecer a excelência deste dom e quem o concede, devemos dirigir-nos ao Senhor e pedir-lho (Sb VIII).
«Que fruto mais requintado, que alimento mais doce do que a pureza do coração?», exclama Santo Ambrósio (De Virg.). Feliz em si mesma, a pureza torna o homem feliz… Proporciona paz, alegria, honra, reputação, saúde, beleza, graça; uma vida longa, uma morte tranquila e santa, Deus na vida, na morte e na eternidade… Uma alma pura é semelhante à Igreja de Jesus Cristo. A Igreja, esposa do Verbo divino, é imaculada na concepção de seus filhos; é fecunda, porque dá à luz, para o Evangelho, uma multidão incontável de filhos; é virgem pela castidade e mãe pela fecundidade. Esta mãe virgem nos concebe não por obra de homem, mas do Espírito Santo; dá-nos à luz não entre dores, mas em meio à alegria dos Anjos; alimenta-nos não com leite corporal, mas com o leite da doutrina divina e da sã moral. Ela é nossa mãe por meio dos sacramentos e das virtudes. Assim, a alma pura só concebe bons pensamentos e piedosos desejos. Esta concepção gera ações nobres e grandes. A alma pura concebe por meio do Espírito Santo e dá à luz para Jesus Cristo uma numerosa família de virtudes. Em vez de sentir dor ao gerar as virtudes, ela se embriaga de alegria; alimenta-se do santo Evangelho e nutre, veste e educa sua grande família de virtudes com o pão vivificado pela palavra de Deus, pela divina Eucaristia, pela veste de Jesus Cristo… A pureza faz de nós outros tantos templos, tabernáculos e vasos da divindade. Por ela somos filhos de Deus, membros de Jesus Cristo, seus herdeiros e coerdeiros…
«Eu vos dou a minha palavra, dizia Jesus Cristo, que aquele que crê em mim fará as mesmas obras que eu faço e fará ainda maiores» (Jo 14, 12). Quais são essas obras tão portentosas, tão admiráveis e mais estupendas que as de Jesus Cristo, que fará aquele que crê nele? Orígenes é de opinião que esses fatos tão miraculosos consistem, considerando-se a fragilidade da natureza humana, em vencer a carne, o demônio e o mundo; em conservar-se puro em meio à corrupção da carne e do mundo; pois aquilo que Jesus Cristo conquista em nós, por meio da pureza, é algo maior do que aquilo que venceu em si mesmo (In Cantic). Passar a própria juventude na modéstia, na castidade, na pureza e na continência, como praticou José, é obra mais difícil que a criação do mundo. Um jovem recolhido, que foge voluntariamente do mundo para não ser seduzido; uma jovem que, a exemplo da Virgem Maria, não conhece outro lugar senão a igreja e a própria casa, que vigia sobre o corpo, os sentidos, o espírito, a alma e o coração; que os domina e governa, não obstante sua forte e tenaz resistência: um jovem assim é maior, mais belo, mais rico e mais precioso aos olhos de Deus que os próprios Anjos. Com efeito, os Anjos são puros, mas não lhes custa sê-lo, por não terem corpo: não estão expostos à tentação; longe do demônio e do mundo, não encontram inimigos encarniçados que os persigam; não sabem o que é a concupiscência; são impecáveis, por estarem confirmados na graça. Mas um jovem está exposto a mil inimigos, a contínuos perigos…
Os Anjos não têm mérito se se mantêm puros; são assim por natureza, pela bondade de Deus; mas um jovem casto e puro o é por mérito, em meio a múltiplas e arriscadíssimas provas. O soldado que se torna capitão porque é nobre tem menor mérito e é menos honrado do que aquele que chega ao mesmo posto por sua bravura e coragem em meio às batalhas… Uma vida casta e pura é a obra mais excelente de Deus e do homem. A alma pura pode dizer com Maria: «Aquele que é onipotente fez em mim grandes coisas… E nisso Deus manifestou o poder de seu braço» (Lc 1, 49-51).
A castidade, a mortificação da carne, é uma morte viva; é preciso viver da morte; é preciso matar-se mil vezes por dia para evitar a morte. A castidade dá morte à concupiscência no corpo, no coração, na alma; abate as más tendências, mata-as e imola-as a Deus. Onde há sacrifício mais heroico e mais agradável aos olhos de Deus? Se subjugais o orgulho de vosso corpo, diz Orígenes, imolais a Deus um touro; se reprimis os movimentos da carne, imolais um carneiro; se resistis à luxúria, imolais um bode; se mortificais os pensamentos carnais, se impedis que os desejos culpáveis se manifestem, imolais a Deus uma pomba e uma rola (In Levit.).
O impudico serve-se de suas paixões para descer ao inferno e tornar-se escravo de Satanás; o homem casto e puro serve-se de suas paixões para subir ao céu e tornar-se filho livre de Deus, pondo-lhes um freio que as doma… Vencer a volúpia é a mais insigne das vitórias; não há triunfo igual àquele que se alcança sobre as próprias paixões. Com efeito, aquele que derruba um inimigo é, na verdade, mais forte do que ele, mas este é um estranho, ao passo que quem vence a paixão da carne é mais forte do que si mesmo. Cortar o braço de outro demonstra ardor e coragem, mas dá prova de valor bem maior aquele que o corta a si mesmo. Com razão, portanto, Agesilau, rei dos Lacedemônios, compreendeu todos os bens proporcionados aos Espartanos pelas leis de Licurgo naquele único bem que é o desprezo das volúpias (Ant. in Meliss.), e merecidamente admirada é aquela sentença que se lia no sepulcro de Cipião: «A maior das vitórias é vencer a volúpia (14)».
Santo Agostinho deveu sua conversão aos exemplos de força e de coragem no combate e na vitória sobre os prazeres ilícitos, que observou nas pessoas com quem convivia. Disse a si mesmo: «Ó Agostinho, não poderás fazer o que fazem estes homens e estas mulheres? Ou será que estes que se mantêm puros e castos o fazem por sua própria virtude, e não pelo auxílio de Deus?». Então ouviu a castidade sugerir-lhe: «Lança-te, Agostinho, nos braços de Deus e não temas; ele não os retirará para deixar-te estatelar» (15). A coroa do generoso atleta pertence ao vencedor da volúpia. O homem puro é, com efeito, o domador do mais terrível dos inimigos. Eis por que São Cirilo chama à mortificação da carne o fortalecimento e o vigor da virtude (Catech. lib. III). Ao homem puro se aplica o retrato que a Sagrada Escritura traçou de Judas Macabeu: Judas vestiu a couraça como um gigante, cobriu-se com suas armas nos combates e protegia todo o acampamento com sua espada. Tornou-se semelhante a um leão que ruge à vista de sua presa: perseguia os ímpios, descobrindo-os por toda parte. O terror de seu nome pôs em fuga os inimigos; todos os obreiros da iniquidade empalideceram de espanto, e a salvação do povo foi obra de seu braço. Ele alegrava Jacó com seus feitos, e sua memória será bendita eternamente (1Mc c.3).
Observai a admirável coragem do casto José. Seu manto é agarrado, mas seu espírito não pode ser agarrado, diz Santo Ambrósio; deixa o manto e sacode de si um delito (16). Ele saiu vitorioso; desprezou os olhares e a chama da impudica esposa de Putifar; teve em desprezo as cadeias, as prisões e as ameaças; preferiu expor-se à morte, livre do vício impuro, a alcançar o poder por uma ação culpável. «Esforcemo-nos, diz São Gregório, por resistir e triunfar dos atrativos da carne. Recordemos o exemplo de José que, tentado pela mulher de seu senhor, conservou a castidade com perigo de sua vida. Daí resultou que aquele que soubera governar bem o próprio corpo se tornou governador de todo o Egito (17)». E Santo Agostinho, falando do mesmo José, assim se exprime: «José, ardente de amor por seu Deus, sumamente amável, não é vencido pelo amor de uma mulher; não bastam para abalá-lo nem a juventude nem a autoridade daquela que o convida e impele ao pecado. Grande é verdadeiramente José; vendido, não sabe ser escravo; amado, desdenha amar; rogado e suplicado, recusa; agarrado, desvencilha-se e foge (18)».
A pureza é a fortaleza insuperável da santidade da vida; é o mais firme baluarte contra a mais vigorosa das tentações, a tentação do vício impuro… Considerai a força heroica da casta Susana: ela resiste e prefere morrer a consentir nos desejos culpáveis de dois anciãos. Por isso Deus lhe salva a vida com um milagre, para recompensá-la por ter ela mesma salvado sua virtude e sua honra. Observai, diz São Jerônimo, a coragem de Judite para conservar sua castidade; mas observai, ao mesmo tempo, como seus louvores se perpetuam pelos séculos. Exemplo admirável dado a todos! Aquele que recompensa a castidade deu-lhe tal força que ela prostrou Holofernes, venceu aquele que até então todos julgavam invencível, superou aquele que jamais fora superado por ninguém (De Iudith.).
No ano de 870, os dinamarqueses, tendo-se apoderado da Inglaterra, aproximavam-se de um mosteiro habitado por vinte religiosas. Tendo-se espalhado a notícia de sua chegada iminente, a virtuosa superiora do convento, chamada Ebba, para salvar sua castidade e a de suas queridas religiosas, cortou o nariz e o lábio superior e sugeriu às irmãs que cada uma fizesse o mesmo; e todas imediatamente a imitaram. Chegando os dinamarqueses e vendo-se assim enganados, atearam fogo à casa e queimaram dentro dela as religiosas, que morreram mártires da castidade. Que sublime heroísmo! (RIBADEN.). São Casimiro, rei da Polônia, tendo caído gravemente enfermo, preferiu morrer a violar o voto de virgindade que havia emitido; e às insistências dos médicos respondia apenas com estas três palavras: «Prefiro morrer virgem» (SURIUS In Vita). Ouvi também o belo exemplo de um pagão. Plutarco narra, na vida de Demétrio, que Demócles, ainda menino, lançou-se na água fervente para escapar às infames propostas de Demétrio; escolheu morrer em vez de manchar-se.
É sentimento de São Basílio que, por causa da tremenda luta que a pureza sustenta aqui embaixo e da vitória que alcança, as almas puras são anjos, e não dos de ordem inferior, mas dos mais ilustres e elevados (Tract. de Virg. c. LXXIX); e São Bernardo afirma que a diferença entre o Anjo e o homem puro não está na felicidade, mas na força e na coragem. A castidade do Anjo é mais serena; a do homem, mais heroica (Epist. 52, ad Henr. Senon. Archiep.). Esse poder, essa coragem, em uma palavra, esse heroísmo para vencer a volúpia, para conservar a pureza e a castidade, é coisa de todos os séculos, de todos os dias, de todos os lugares e de todas as idades na Igreja católica. Sem falar daqueles sagrados asilos nos quais continuamente milhares de virgens se encerram para viver e morrer sem mácula, encontramos também, em meio à corrupção do século, em todos os sexos, em todas as idades, em todos os estados e em todas as condições, legiões de anjos pela pureza e pela castidade. Louvado e agradecido seja Deus!
«Não sabeis que sois o templo de Deus e que o espírito de Deus habita em vós?», dizia o Apóstolo aos Coríntios (1Cor 3,16). Nós somos o templo não do homem, mas de Deus; somos, portanto, um templo santo, não profano; templo no qual Deus habita pela fé, pela graça, pela caridade e pelos seus outros dons… Agora ouvi o que acrescenta São Paulo: «Se, portanto, alguém profana o templo do Senhor, Deus o destruirá; porque o templo de Deus é santo, e vós sois esse templo» (Ib. 17). Depois prossegue e continua: «Porventura ignorais que os vossos membros são membros de Cristo? Arrancando, portanto, a Jesus Cristo os seus membros, farei deles membros de uma prostituta? Deus me livre!» (Ib. 6, 15). E ainda: «Não sabeis porventura que os vossos corpos são o templo do Espírito Santo, que vos foi dado por Deus, e que não pertenceis a vós mesmos? Com efeito, fostes resgatados por alto preço; glorificai e levai Deus em vosso corpo» (Ib. 19-20). Fomos comprados, não pertencemos a nós mesmos; e estas sentenças querem dizer que não somos senhores de nossos corpos; que eles pertencem a Jesus Cristo; que nossos membros não são nossos, mas membros do corpo de Jesus Cristo; que nosso corpo custou o sangue do Redentor; que a impureza o suja e desonra; que a castidade o enobrece e honra; que, se for casto e puro, ressuscitará para a glória. Se, portanto, alguém nos incita ao mal, respondamos-lhe: Meu corpo não é meu, mas de Jesus Cristo; é o corpo de um Deus, eu sou de Deus; ora, Deus é sem mácula, não se mancha nem pode manchar-se…
Segundo São Paulo, somos templos do Deus vivo (2Cor 6, 16); ora, cinco coisas, diz São Bernardo, acontecem na consagração de um templo: a aspersão, a inscrição, a unção, a iluminação e a bênção (Serm. 1, de Dedicat.); e por todos esses mistérios são consagrados a Deus nossos corpos, nossos corações e nossas almas… Um templo deve ser respeitado; entretanto, que coisa é um templo material comparado ao templo de nossos corpos? 1° Nossas igrejas não são construídas pela mão de Deus; nossos corpos são formados por seus dedos. 2° Nossas igrejas não são membros de Jesus Cristo, ao passo que nossos corpos o são. 3° As igrejas não são o templo vivo do Espírito Santo, como nossos corpos. 4° Nossos templos não são feitos à imagem de Deus, nem são dotados de inteligência e amor, como nós. 5° Nossas igrejas são templos materiais, são um símbolo, uma figura do céu, verdadeiro templo de Deus; nossos corpos são feitos para alcançar a aquisição verdadeira e real do céu. 7° Nossas igrejas não são filhos de Deus, herdeiros e coerdeiros de Jesus Cristo, nem vivem e se alimentam, como nós, da substância divina. «Saiba, pois, cada um, concluamos com São Paulo, possuir o próprio corpo em santificação e honra» (Ts.4,4).
O prefeito do Pretório, tendo perguntado a Santa Serafina, virgem e mártir: «Onde está o templo de Cristo que adoras, e que sacrifício lhe ofereces?», recebeu esta resposta: «Praticando a castidade, sou o templo de Jesus Cristo, a quem ofereço a mim mesma em sacrifício». Então o governador lhe disse: «Se, portanto, alguém te tirasse a castidade, deixarias de ser templo de Deus?». E a Santa respondeu, altiva e indignada, com as palavras de São Paulo: «Se alguém violar o templo de Deus, Deus o destruirá». Tendo, em seguida, aquele monstro tentado violentá-la, ela foi, por um insigne milagre da proteção divina, preservada de toda afronta (SURIO).
«Esperamos, segundo as promessas divinas, novos céus e uma nova terra nos quais habita a justiça», escreve São Pedro. «Por isso, caríssimos, mantendo-vos nessa expectativa, procurai ser encontrados em paz, sem sujeira nem mácula diante do Senhor» (2Pd 3, 13-14). Com efeito, nada manchado entrará no reino dos céus, diz o Apocalipse (21,27). «Quem subirá ao monte do Senhor?», exclama o Profeta; «quem habitará em seu santuário? Aquele que tem mãos e coração puros» (Sl 23, 3-4).
1° «Religião pura e imaculada, diz São Tiago, é a daquele que se mantém incontaminado das imundícies do século» (Tg 1,27). Com efeito, como observa São Tomás da Inglaterra, o mundo não é mundo, porque mancha os corações puros; portanto, aquele que se afeiçoa ao mundo, como poderá ser puro? (19).
«Eu vos conjuro, ó meus irmãos, escrevia o Apóstolo aos Romanos, pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos em hóstia viva, santa e agradável a Deus, prestando-lhe assim um culto racional. E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos por um novo espírito, para que conheçais qual seja a vontade de Deus, aquilo que lhe agrada, o que é bom e perfeito» (Rm 12,1-2). Oferecei a Deus os vossos corpos; considerai-os como estrangeiros; submetei-os ao domínio de Deus, para deles vos servirdes não segundo a vossa vontade, mas para o culto e a honra de Deus… Fazer do próprio corpo uma hóstia viva é, segundo a interpretação do Papa São Gregório, fazer dele uma hóstia consagrada às virtudes, não entregue ao vício, pois esta seria uma hóstia morta (20). Fazer do próprio corpo uma hóstia santa significa separá-lo das coisas imundas; e assim se faz dele uma hóstia agradável a Deus, por meio das boas obras da alma e do corpo…
Notai que São Paulo faz aqui alusão às qualidades das vítimas da antiga lei. 1° A vítima, segundo o sacerdócio de Aarão, devia ser sem mancha, inteira e sã. E nesse sentido o Apóstolo quer que sejamos uma hóstia viva. 2° Pela imolação, a vítima era santificada, de modo que não era permitido aos impuros tocá-la: por isso exige uma vítima santa; isto é, quer que consagremos o nosso corpo a Deus por meio da devoção da alma. 3° A vítima consumida pelo fogo era oferecida a Deus em odor de suavidade; e isso significa que São Paulo nos pede uma hóstia agradável a Deus pela consumação de um amor ardente. 4° Usava-se sal para a vítima: o sal representa a sabedoria espiritual; por isso Jesus Cristo dizia aos seus Apóstolos: «Tende sal em vós» (Mc 9,49). O altar desta hóstia, diz São Gregório, é o coração, no qual o fogo da compunção e da caridade queima e consome a carne (In his verbo Apost.).
O Apóstolo São Judas nos admoesta que é preciso odiar a túnica manchada pela carne (Jd 23). «O casto José, segundo a bela observação de Santo Ambrósio, despojou-se de seu manto, mas nem por isso fugiu nu, porque estava revestido do manto do pudor (21)». A este propósito se aplica aquela advertência de São Pedro: Eu vos suplico, meus caríssimos, que, como estrangeiros e peregrinos, vos abstenhais dos desejos carnais que combatem contra o espírito; levando uma vida pura entre os gentios, para que, em vez de vos difamarem como malfeitores, ao verem as vossas boas obras, glorifiquem a Deus no dia de sua visita (1Pd 2,11-12). A isso visa também aquela recomendação de São Paulo a Timóteo: «Considera as mulheres idosas como mães; as jovens, como irmãs, com toda a pureza» (1Tm 5,2). Digno de um mestre cristão é o preceito que Demétrio Falereu dava aos seus discípulos: 1° que respeitassem em casa os pais; 2° que respeitassem aqueles com quem se encontrassem pelo caminho; 3° quando estivessem sós, respeitassem sempre a si mesmos (Anton. in Meliss.).
«A nossa carne, diz São Bernardo, é o instrumento, ou melhor, o laço do demônio (22); e muito mais perigosas e temíveis são as ciladas da carne do que as de qualquer outro inimigo; por isso é necessário, diz São Basílio, que ela seja refreada, castigada, domada e acorrentada como fera indomável (23). Assim nos ensina a agir São Paulo, que escrevia de si mesmo: «Eu combato contra o meu corpo, não como quem desfere golpes no ar; mas castigo-o e reduzo-o à servidão, para que, depois
de ter pregado aos outros, eu mesmo não me torne réprobo» (1Cor 9,26-27). Tertuliano afirma que a pureza conservará, mesmo em meio ao século, aquele que se deixar guiar pela disciplina e se reprimir pela mortificação. Aqui é forçoso combater, e no combate está toda a vitória. Este grave autor diz que é também utilíssimo para o corpo que a alma resista às suas concupiscências; com isso, a própria carne permanece purificada de seus vícios. A carne, diz ele, não é nossa inimiga; e, quando resistimos às suas tendências, então verdadeiramente a amamos, porque a curamos. A continência vigia e trabalha para reprimir e curar todas as loucuras da concupiscência, opostas à verdadeira sabedoria; a fim de que o homem, não vivendo mais segundo o homem terreno e carnal, possa dizer com o grande Apóstolo: «Vivo, mas já não sou eu; é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20). Porque, continua Tertuliano, quando já não sou eu que vivo, então sou eu mais felizmente. Se vivo de mim mesmo, já não sou eu; vivendo de Jesus Cristo, sou inteiramente eu (24).
2° À mortificação é preciso acrescentar a vigilância; porque, como observa São Paulo, este grande dom da pureza nós o trazemos em frágeis vasos de barro, para que a glória de conservá-lo intacto seja dada a Deus, e não a nós (2Cor 4,7). Dessas palavras aprendemos também que jamais teremos tal vigilância, se não recorrermos a Deus pela oração. Salomão confessa de si mesmo que, tendo conhecido por experiência como lhe era impossível manter-se continente sem que Deus lhe desse a força, e que já era ato de grande sabedoria saber de quem procede tal dom, dirigiu-se ao Senhor e suplicou-lhe com todo o ardor de sua alma (Sb 8,21). Eis por que o Salmista não cessava de clamar ao Senhor: «Criai em mim um coração puro, ó meu Deus» (Sl 50,12). «Livrai-me, ó meu Deus e Salvador, das sugestões da carne e do sangue» (Ib. 16). «Tirai-me do lodo, para que eu não fique nele afogado» (Sl 68,15).
3° Para que depois a oração e a vigilância alcancem seguramente o seu efeito, devem ter por companheiras: 1° a caridade; porque, segundo São Bernardo: «A castidade sem a caridade é a lâmpada sem óleo; tira o óleo, e a lâmpada já não emite luz; tira a caridade, e a castidade já não agrada a Deus (25)». 2° A modéstia, em todos os atos do corpo: «Sê reservado, escreve Santo Efrém (26), no vestuário, na comida, na palavra, no olhar, no porte, no pensamento, no riso». Vós bem sabeis, ó Senhor, dizia Sara, que conservei a minha alma pura de todo desejo mau. Nunca me associei àqueles que amam os divertimentos, e sempre me mantive afastada dos que vivem na dissipação (Tb 3,16-17). 3° O temor de Deus; o qual é, segundo São Leão, o prego que fixa no coração do homem a continência (Serm. de Quadrag.) e, como consequência disso, a observância da lei divina, pois nela está a perfeição da incorruptibilidade, e a incorruptibilidade une a Deus (Sb 6,19-20). O temor de Deus e a observância da lei divina são aquela cruz na qual São Paulo diz que os verdadeiros seguidores de Jesus Cristo crucificaram a sua carne com os seus vícios e concupiscências (Gl 5,24).
4° Entre os meios para conservar-se puro não se deve esquecer a humildade, a qual, segundo o parecer de Santo Agostinho, ocupa junto à castidade o lugar de guardiã (Serm. CCL, in Temp.).
Cassiano assegura-nos que ninguém pode ser casto se não for humilde (Collat.); porque, como acrescenta São Bernardo, «a humildade é aquela que obtém de Deus o dom da castidade» (Serm. in Cant.). E São João Clímaco compara aquele que quer manter-se puro sem humildade a alguém que, remando com uma mão, quisesse com a outra pesar as águas do mar (Gr. V).
5° Remédios poderosos contra as tentações da carne são ainda: 1° o pensamento da presença de Deus. Susana, entre as garras dos dois anciãos, geme e lhes diz: Vejo perigos de todos os lados; porque, se eu ceder, mereço a morte; se resistir, não escaparei de vossas mãos. Mas é muito melhor para mim cair em vossas mãos resistindo do que pecar na presença do Senhor (Dn 13,22-23). 2° A meditação da paixão de Jesus Cristo. Esta é a espada que traspassa mortalmente todo desejo da carne. «Quantas vezes um pensamento impuro me atormenta, logo corro para me refugiar nas chagas de Cristo», dizia de si mesmo Santo Agostinho (27). 3° O culto e a invocação da Mãe de Deus, Maria Santíssima. Com efeito, ela é a Virgem das virgens, o asilo da castidade, a rainha da pureza, a poderosíssima e fidelíssima guardiã da virgindade; ela vinga todos os ultrajes que lhe são feitos: a história de todos os séculos nos serve de fiadora disso.
6° Finalmente, o primeiro e principal de todos os meios, aquele sem o qual todos os outros pouco ou nada aproveitam, consiste em não confiar nas próprias forças, mas fugir, e fugir pronta e corajosamente. «Mata o inimigo enquanto ainda é pequeno», clama São Jerônimo (Epist.). «Contra o ímpeto da libido, toma a fuga, diz Santo Agostinho, se queres alcançar a vitória (28)». Ó quantas pessoas, diz São Jerônimo, notáveis pela doutrina e pela santidade, naufragaram neste escolho da impureza, por causa da demasiada confiança que tinham em si mesmas! Ninguém se julgue, quanto a isso, seguro de todo perigo: ainda que sejais santos, não sois impecáveis (29)». «Porventura somos nós de pedra ou de ferro, e não homens sujeitos à fraqueza da natureza comum? pergunta São João Crisóstomo: Pegais brasas ardentes e pretendeis não vos queimar? Se colocais uma tocha num monte de feno, ousaríeis sustentar que ele não se incendiaria? Pois bem: aquilo que o feno é em relação ao fogo, é a nossa natureza em relação à concupiscência (30)». «O modo mais rápido e mais seguro de vencer a luxúria, dizia também São Filipe Néri, é fugir» (In Vita). Por isso, São Jerônimo sugeria, como primeiro e principal remédio contra este vício, afastar-se daqueles cuja presença convida ao mal (31).