Segundo São Tomás, a predestinação é o modo pelo qual Deus conduz a criatura racional ao seu fim, que é a vida eterna (1-1 q. 23 art. 1). Santo Agostinho, no livro Do dom da perseverança, cap. 7, define a predestinação como a presciência e a preparação de todos os benefícios de Deus, por meio dos quais se salvam certamente todos os que se salvam. No mesmo capítulo, o santo Doutor ensina que tudo o que Deus dá, estabeleceu dá-lo desde toda a eternidade; tudo o que realiza na dispensação de sua graça no tempo, previu-o e predestinou-o antes de todos os tempos. Nesta dispensação e distribuição de sua graça no tempo, há uma preferência gratuita por todos os Santos, isto é, por todos aqueles que vivem e agem santamente. Esta preferência é, portanto, prevista, querida e ordenada desde toda a eternidade; e nisso precisamente consiste a predestinação. No capítulo XVII escreve: Deus dispõe aquilo que ele mesmo fará segundo a sua infalível presciência; isto, e nada mais que isto, significa predestinar. No livro Da predestinação, cap. X, observa que toda a diferença entre a graça e a predestinação consiste em que a predestinação é a preparação da graça, ao passo que a graça é o próprio dom que Deus nos faz; daí conclui: «A predestinação é uma presciência pela qual Deus previu o que fará (1)».
São Paulo, em sua Epístola aos Romanos, diz: «Deus se compadece de quem quer e endurece a quem quer» (Rm 9,18). Estas palavras devem ser entendidas e explicadas assim, segundo o sentido do Apóstolo: os judeus incrédulos, e todos os demais não crentes, foram rejeitados pela justiça, mas os cristãos crentes receberam a justiça. Os cristãos foram escolhidos, predestinados à justiça, e os judeus dela foram repelidos; porque os cristãos abraçaram a fé em Jesus Cristo, rejeitada pelos judeus. Esta explicação elimina toda dificuldade e, além disso, está de acordo com as outras sentenças do Apóstolo.
A razão pela qual os judeus não foram predestinados, ao passo que os gentios o foram, está em que os judeus buscaram a justiça e a salvação onde não deviam, isto é, nas obras da lei, e não na fé em Jesus Cristo, em quem Deus estabeleceu a justificação e a salvação. Os gentios, ao contrário, buscaram a justiça e a salvação na fé em Jesus Cristo, conforme diz o mesmo São Paulo pouco depois do trecho acima citado: «As nações que não buscavam a justiça alcançaram a justiça, mas a justiça que vem da fé. Israel, ao contrário, buscando a lei da justiça, não chegou a essa lei. Por quê? Não pela fé, mas, de certo modo, pelas obras; pois tropeçaram na pedra de tropeço; segundo está escrito: Eis que ponho em Sião uma pedra de tropeço, uma pedra de escândalo, e todo aquele que nela crê não será confundido» (Rm 9,30-33).
Jesus Cristo foi para os judeus uma pedra de tropeço, porque, vendo a sua humildade, a sua pobreza e a sua morte, ofendidos por sua abjeção, não quiseram reconhecê-lo como o Messias, pois esperavam um Messias rico e poderoso… Não foi porque Deus tivesse previsto que os judeus seriam rejeitados que eles foram rejeitados; «mas eles saíram por própria vontade, caíram por sua própria decisão, diz Santo Agostinho; e, porque Deus previu que cairiam, por isso não foram predestinados; tê-lo-iam sido, se houvessem de retornar e permanecer na verdade e na santidade; e, por isso mesmo, a predestinação de Deus é para muitos um motivo de viver santamente. A predestinação não é para ninguém causa de cair (2)».
O homem não cai porque Deus previu a sua queda; mas Deus previu a queda do homem porque ela haveria de acontecer. Deus predestina os eleitos à vida eterna porque vê que corresponderão às suas graças; os que são reprovados, o são porque resistem à graça; e essa resistência é voluntária. Deus não criou ninguém para o inferno; quem para lá vai, vai por sua própria culpa, por efeito de sua vontade depravada. Deus não salva nem condena ninguém necessariamente, pois, do contrário, o homem não seria livre e, portanto, não poderia merecer nem desmerecer…
Há muitos decretos de Deus que não são absolutos, mas condicionais; a estes últimos pertence a predestinação, a qual, embora indubitavelmente exista, não acontece senão condicionalmente. Deus, por exemplo, envia uma peste que extermina todos os habitantes de um país; mas esse extermínio depende da condição de que os habitantes permaneçam no lugar atingido pela peste ou não se sirvam de nenhum remédio que esteja à sua disposição… Aquilo que chamamos em Deus de presciência não é senão ciência, porque em Deus não há passado nem futuro, mas tudo é presente para Ele. A eternidade não tem passado nem futuro; o passado e o futuro pertencem somente ao tempo.
POR QUE NOS FIZESTE ASSIM? Santo Agostinho ensina que os réprobos jamais podem dizer ao Senhor: por que nos fizeste vasos de desonra e de desprezo? Porque, depois da prevaricação de Adão, eles já são um monte de lama, isto é, de pecado. E conclui com esta exortação: «Se quereis poder dizer a Deus: por que me fizeste? cessai de ser lama e tornai-vos filhos de Deus, por sua misericórdia (3)». Os endurecidos fizeram-se assim a si mesmos, positivamente; eis por que são vasos de ira. Deus não os fez, mas os tolera; isto é, em sua paciência, permite que pequem, adiando por longo tempo o castigo; nesse sentido se diz que os endurece. Deus não fez vasos de ira; mas eles mesmos se fizeram tais por sua própria culpa e por causa de sua impenitência. Além disso, Deus está sempre disposto a conceder o perdão àquele que lho pede. O bem e a predestinação vêm de Deus; mas o mal e a reprovação vêm do homem. Somente o homem pode pecar e peca, mas somente Deus liberta do pecado. Tudo obedece a Deus, exceto o pecador.
Os que desesperam, os indiferentes e os ímpios vivem dizendo: Por que hei de inquietar-me? Se estou predestinado à glória, não posso perder-me; se, porém, não estou predestinado, jamais poderei, por mais que faça, chegar ao paraíso. Esse raciocínio é falso, porque supõe um destino inevitável. Eis como se deve raciocinar: Se me mantenho longe do mal e pratico o bem, serei escolhido e predestinado à glória; e depende de mim agir assim. Se viver mal, serei reprovado, predestinado ao inferno. Procurarei, portanto, conduzir-me bem, para não ser condenado, mas ser predestinado à glória e salvar a minha alma. Com efeito, da vida boa depende a eleição e a predestinação à glória; assim como da vida má dependem a reprovação e o inferno. Portanto, a boa conduta é causa da eleição para o céu, assim como a vida perversa é causa da reprovação. Mas a vida boa ou má está no livre-arbítrio e no poder de cada um; pois cada um pode, com a graça de Deus, viver retamente, se quiser, assim como pode viver de modo dissoluto. Logo, a eleição para a glória e a reprovação estão na livre escolha do homem: quem é senhor da causa também é senhor dos efeitos dessa causa. Por isso, o Apóstolo São Pedro escreve: «Meus irmãos, empenhai-vos em tornar cada vez mais segura a vossa vocação e eleição por meio das boas obras; porque, fazendo isso, jamais caireis. E desse modo vos será amplamente concedida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo» (1, 10-11).
O langrave Luís, censurado por personagens santíssimos por seus costumes dissolutos, respondeu: Se estou predestinado para o céu, nenhum crime me impedirá de chegar lá; se estou destinado ao inferno, nenhuma virtude me servirá para dele escapar; e, por isso, não cessou de modo algum de suas infames desordens. Ora, aconteceu que, tendo adoecido, mandou chamar o médico, o qual, aproveitando a boa ocasião para curar a alma do enfermo ainda mais que o corpo, disse-lhe: Senhor, se vós deveis morrer, os meus cuidados não vos arrancarão à morte; se, porém, não deveis morrer, os meus remédios são inúteis. E o langrave lhe respondeu: Que modo de falar é esse? Se eu não receber auxílio, poderei morrer antes do tempo. Então o sábio médico acrescentou: Senhor, se vedes que a vossa vida pode ser protegida e prolongada pela medicina, por que recusais crer o mesmo da penitência e das obras de justiça, que são os remédios da alma? Sem tais remédios, a alma morre; sem eles, ninguém alcança a saúde que está na vida futura. Convencido por esse sensato raciocínio, o langrave acabou dizendo: Vós não sois somente o médico do corpo, mas também da minha alma; pois, por vossa palavra medicinal, o Senhor me libertou de um erro pernicioso (CAESARIUS, lib. 1, Hist. c. XXIII).
A reprovação, assim como a predestinação, depende de nós: ela depende da previsão de nossa futura cooperação, e a cooperação depende do livre-arbítrio, da liberdade de cada um. Com efeito, Deus não se propõe escolher algumas graças e fazer com que se tornem úteis e eficazes para dá-las aos réprobos; mas concede a uns e a outros uma graça com a qual podem, se quiserem, fazer o bem e salvar-se. Além disso, quer, ordena e sinceramente deseja que todos cooperem com ela e se salvem. Portanto, quem trabalha com energia e coragem para cooperar com a graça tornará a graça eficaz e será salvo; quem, ao contrário, não coopera com ela, ainda que tenha qualquer graça, será condenado. Que faríeis vós se Deus quisesse condenar-vos ao inferno? Respondei com um santo: Eu o abraçaria com ambos os braços, isto é, com a humildade e com o amor, e o apertaria tão fortemente que o obrigaria a descer comigo ao inferno; e então o inferno seria para mim um paraíso, tendo Deus comigo.
Mas por que querer compreender o mistério da predestinação, como tantos outros mistérios? … «Quem és tu, ó homem, diz São Paulo, para responder a Deus? Porventura já viste a vasilha dizer ao oleiro: Por que me deste esta forma?» (Rm 9, 20). «Quem traz o nome de homem, observa São Gregório, é obrigado a confessar que não pode pedir contas a Deus de sua conduta; pelo próprio fato de ter sido tirado da terra, não é digno de discutir os juízos divinos (4)».
Aqueles a quem Deus não concede aquelas graças particulares que conduzem infalivelmente à fé, ou mesmo à salvação e à perseverança final, não têm razão, diz Bossuet, para se lamentarem disso, porque, segundo a observação de Santo Agostinho (De Dono persev., c. VIII), o pai de família, que não tem obrigação alguma para com ninguém, teria o direito, segundo o Evangelho, de responder àqueles que se queixassem: Meu amigo, não te faço injustiça alguma; porventura não me é permitido dispor dos meus bens como me agrada? Ora, por que o teu olhar será mau somente porque eu sou bom? E se esses murmuradores respondem ainda que nesta parábola se trata de ter mais ou menos, e não, porém, de ser privado de tudo, como o são os réprobos, o pai de família não terá menos razão para responder-lhes ainda: Não faço injustiça alguma, pois, se vos deixo na massa justamente condenada da qual saís, ninguém vos dá direito de vos queixardes da justiça que exerço para convosco; e, se vos tirei, por minha simples graça, daquela massa corrompida, e vós nela novamente vos precipitastes, seguindo a concupiscência, tanto menos vos faço injustiça, porque não vos recusei as graças absolutamente necessárias para conservar a justiça que vos havia dado; portanto, não deveis culpar ninguém além de vós mesmos pela vossa perdição. E se esses murmuradores acrescentam ainda que tudo isso é difícil de conciliar com a preferência gratuita, será preciso finalmente tapar-lhes a boca com aquela sentença de Santo Agostinho (De Dono persev., c. 14, n. 37): Que belo procedimento! Negar aquilo que é certo e evidente porque não se consegue compreender aquilo que é obscuro e oculto. Ou será preciso afirmar que aquilo que se vê claramente não existe, porque ignoramos a causa de sua existência? E, se a autoridade e a razão de Santo Agostinho não lhes bastam, que responderão ao Apóstolo quando lhes diz (Rm 9,20; 11,34): Quem conhece os desígnios de Deus, ou quem penetra os seus conselhos? Ó homem, quem és tu para te medires com Deus? Não sabeis que impenetráveis são os seus segredos e incompreensíveis os seus desígnios? (Defense de la Tradit., l. 12, c. XVIII). Ah! Deixemos o nosso destino nas mãos da misericórdia divina; estará muito melhor colocado do que entre as nossas. Trabalhemos para alcançar a nossa salvação e esperemos; não ficaremos decepcionados…
Lemos no livro 1, capítulo XXV, da Imitação de Jesus Cristo: Um homem, hesitante entre a esperança e o temor da própria salvação, encontrava-se certo dia oprimido por uma angústia mortal junto a um altar e dizia a si mesmo: Oh! Se eu soubesse que haveria de perseverar! Nesse momento, fez-se ouvir uma voz divina que lhe dizia: E que quererias fazer, se o soubesses? Faze agora o que quererias fazer então e estarás na verdadeira segurança. Diante dessas palavras, inteiramente serenado, entregou-se por completo à vontade divina. Façamos nós o mesmo… Aprendei daí quão importante é aplicar-se à virtude e às boas obras. Quem assim procede tem um sinal seguro de que é predestinado por Deus à glória… Preservar-se do pecado e produzir dignos frutos de penitência equivale a evitar o inferno e ir para o paraíso…