Deus não se engana, nem pode enganar-se. Ora, ele declara formalmente que os ricos vão ao encontro da desgraça, da infelicidade (Lc 6, 24); ao contrário, assegura que a bênção, a felicidade, o reino dos céus são a porção, a herança dos pobres (Mt 5, 3). A Verdade fala, escreve São Bernardo, aquela verdade que não pode enganar-se nem ser induzida ao erro; fala e clama: Bem-aventurados os pobres! Insensatos filhos de Adão, vós buscais, vós desejais ardentemente as riquezas, enquanto a felicidade dos pobres é proclamada por Deus, anunciada ao mundo, crida pelas almas sobre as quais descem as luzes da graça. Que o pagão, que vive sem Deus, deseje as riquezas; que as procure o judeu, que recebeu as promessas terrenas, é algo compreensível; mas como ousa o cristão desejá-las, procurá-las, depois que Jesus Cristo declarou felizes e bem-aventurados os pobres? (Serm. in Fest. Omn. Sanct.). O ouro e as riquezas são um pesado fardo que oprime quem os carrega.
«Bem-aventurados os pobres de espírito!» (Mt 5, 3); isto é, segundo a interpretação dos santos — Jerônimo, Basílio e Bernardo —: Bem-aventurados os pobres que o são por uma vontade inspirada neles pelo Espírito Santo. A expressão pobre de espírito indica a finalidade da pobreza; significa que o espírito deve desprezar as riquezas terrenas, amar somente os bens espirituais, desejá-los e procurá-los. «Lázaro, o mendigo, morreu e foi levado pelos Anjos ao seio de Abraão, disse Jesus Cristo. Morreu também o rico e foi sepultado no inferno» (Lc 16, 22). Dizei-me agora: onde se encontra a felicidade, segundo estas palavras do divino Mestre? … «O pobre, diz Santo Agostinho, comprou a felicidade mendigando; o rico conquistou para si um eterno suplício, possuindo» (Serm. CCXXVII). Vós vistes Lázaro no vestíbulo do rico, diz São João Crisóstomo; vede-o agora no seio de Abraão; vós o observastes quando os cães lhe lambiam as chagas, observai-o agora rodeado pelos Anjos; vós o vistes em sua imensa miséria, contemplai-o agora na abundância de todos os bens; vós o vistes definhar de fome, vede-o agora entre as delícias; vós o vistes na luta, vede-o agora cingido com a coroa dos vencedores; vós o vistes no sofrimento, vede-o agora exultar pela recompensa. Porque Lázaro foi pobríssimo e desprezadíssimo na terra, por isso é riquíssimo e honradíssimo no céu (Conc. II de Lazaro).
Desejais vós, ó ricos, ser felizes? Escutai o Profeta que canta: «Feliz e afortunado o homem que se compadece do infeliz e o socorre! jamais sofrerá desgraça» (Sl 111, 5). «Ele distribuiu os seus dons ao miserável; sua justiça será lembrada por todos os séculos, sua virtude será coroada de glória» (Ib. 9). Eis o caminho que os ricos devem seguir para chegar à felicidade. Jamais serão felizes senão por meio dos pobres… Consolai-vos, ó pobres, diz Santo Agostinho, vós que andais mendigando; alegrai-vos: vossa tribulação será transformada em alegria, e vossa dor, em júbilo. Não considereis a vossa pobreza uma desgraça, nem murmureis contra o Senhor, porque Deus é justo e misericordioso em todas as suas obras. Ele fez o pobre para que, suportando uma indigência de poucos dias, possa alcançar a vida eterna; fez o rico para que distribua abundantes esmolas e obtenha por esse meio o perdão de suas culpas. Por isso, tende paciência e esperai no Senhor (Serm. VII).
O pobre bebe em pequenos goles o cálice da amargura que lhe é servido; mas beberá em abundância e eternamente do rio da vida. Sua pobreza se transformará em riqueza eterna. Em lugar da alegria que o rico experimenta ao possuir terras, ouro e casas, o pobre receberá, diz Cassiano, já neste mundo, bens que nada têm a invejar, mas que superam grandemente todas as alegrias dos ricos. Adotado como filho de Deus, possuirá tudo o que o Pai possui, tanto em amor como em força; à imitação de Jesus Cristo, Filho de Deus, poderá dizer: «Tudo o que pertence ao Pai pertence a mim» (Jo 16, 15). Cheio de alegria e segurança, terá as próprias riquezas de Deus, que o Apóstolo enumera quando diz: «Tudo vos pertence, seja o mundo, seja a vida, seja a morte, sejam as coisas presentes, sejam as futuras: tudo é vosso; e vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (Collect.). Ah! o pobre que se submete à vontade de Deus é verdadeiramente feliz!
Aqueles que não têm casas, nem propriedades, nem dinheiro, aos olhos cegos do mundo parecem pobres, mas, aos olhos límpidos e claros de Deus, são ricos… São pobres dos bens do século, mas ricos dos bens de Jesus Cristo… As verdadeiras riquezas não consistem nos tesouros desta terra…, mas, sim, na graça, na virtude e na amizade de Deus… Quem deve ser chamado pobre? «Aquele é verdadeiramente pobre, responde o Papa São Gregório, que necessita daquilo que lhe falta, pois é rico aquele que, não possuindo nada, nada deseja. A pobreza consiste mais na indigência da alma do que na falta de posses. Com efeito, não se pode chamar pobre aquele que se conforma alegremente com a pobreza» (Lib. 16, epist. CXC). Riquíssimo é o mendigo que tem a fé e as obras; ao contrário, pobríssimo é o rico que procede mal, que é avarento, ímpio, escandaloso e assim por diante.
De quantos bens, de quantos tesouros contém a terra, Jesus Cristo tomou para si apenas duas coisas: uma manjedoura ao nascer e uma cruz ao morrer! … Nasceu pobre numa manjedoura, numa choupana em ruínas, e passou toda a sua vida em absoluta nudez; como ele mesmo disse: «As raposas têm suas tocas e as aves do céu, seus ninhos; mas o Filho do homem não tem onde reclinar a cabeça» (Lc 9, 58). Pobre é sua santíssima Mãe; miserável é a casa que habita, e não quer ricos como seus apóstolos. Aquilo que o mundo tem de insensato, escrevia São Paulo, Deus escolheu para confundir aquilo que há de sábio na terra; e aquilo que o mundo tem de fraco, para abater aquilo que há de forte; e aquilo que o mundo tem de vil e que não é nada, para destruir aquilo que há de elevado e que é alguma coisa; a fim de que ninguém se glorie diante dele (1Cor 1, 27-29). O Redentor, os Apóstolos e os primeiros cristãos praticavam a pobreza no sentido mais estrito: «Quando temos com que nos alimentar e vestir, estejamos contentes» — escrevia o Apóstolo das gentes a Timóteo (1Tm 1, 6, 8). E os Atos dos Apóstolos dizem, a respeito da conduta dos primeiros cristãos: «Ninguém considerava sua coisa alguma do que possuía, mas tudo punham em comum» (At 4, 32).
Vede os príncipes da santidade — um Santo Antônio, um São Francisco de Assis, um Santo Inácio de Loyola, um São Francisco de Borja, uma Santa Isabel da Hungria e mil outros —: quão grande estima tinham pela pobreza e como não a preferiram a todos os bens da terra! Vede as ordens religiosas em seu nascimento; acaso se encontra pobreza mais absoluta que a delas? E quando algum de seus membros caiu, por permissão de Deus, no relaxamento, a causa foi sempre o amor das riquezas, insinuado neles… No mesmo instante em que a prata e o ouro entram num claustro, dele saem banidos o amor de Deus, os bens da graça e da vocação celeste… Observai o bom cristão: quantas esmolas distribui.
«Jesus Cristo subiu nu à cruz, escreve Santo Ambrósio; portanto, aquele que se prepara para combater o mundo, que também se despoje e não procure as vestimentas, isto é, os bens do século. Adão, que procurou vestir-se, foi vencido; José, que soube abandonar o seu manto, saiu vitorioso (Offic. lib. 1, c. IV)». «Vós conheceis, escrevia São Paulo aos Coríntios, vós conheceis a ternura de nosso Senhor Jesus Cristo, o qual, sendo rico, se fez pobre por vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos» (2Cor. 8, 9). «Ora, que riquezas serão jamais, exclama Santo Agostinho, as daquele cuja própria pobreza nos enriqueceu? (In Epist. II Corinth.)». Os homens mundanos, diz o mesmo Padre, desejam as riquezas que lhes são perniciosas; Jesus Cristo, ao contrário, quis ser pobre (De vera relig. c. XV).
Mas, para resumir tudo numa só coisa, eis o retrato que São Justino esboçou dos bons cristãos de seus dias: «Toda terra estrangeira é também sua pátria, e toda pátria é para eles como terra estrangeira. Têm um corpo de carne, mas não vivem segundo a carne; habitam na terra, mas sua mente habita nos céus; são pobres e enriquecem grande número de pessoas; carecem de tudo e abundam em tudo (Epist.)».
Que mais? Até mesmo alguns pagãos conheceram o valor da pobreza e deram exemplo dela. Tendo o inimigo tomado Priene de assalto, pátria de Bíon, esse filósofo retirou-se sem levar consigo coisa alguma; tendo alguém lhe observado isso, respondeu: «Levo comigo todos os meus bens» (DIOG. LAERZ. Vit. filosof.). Alexandre da Macedônia enviou a Fócion, que vivia pobremente, um presente de cem talentos. Tendo este perguntado a razão e a finalidade daquilo, responderam-lhe que o rei o fizera porque o considerava o único homem honrado e virtuoso entre os atenienses. Se é assim, replicou Fócion, dizei ao rei que me permita ser tido como tal e sê-lo de fato; e gentilmente recusou o presente (Eliano, lib. II). Também Epaminondas vivia pobremente; narra-se que, tendo Artaxerxes, rei da Pérsia, enviado-lhe ricos donativos para obter a aliança dos tebanos, não permitiu sequer que lhos apresentassem e respondeu ao embaixador: Se o vosso senhor não pede senão coisas úteis à minha pátria, é inútil que me lisonjeie com presentes; se, porém, suas intenções são contrárias aos meus deveres, dizei-lhe que não é suficientemente rico para comprar o meu voto (PLUT.). O célebre Aristides não deixou sequer com que pagar seus funerais (Id).
Ser pobre, diz Minúcio Félix, não é infâmia, mas glória. Quem nada deseja não é pobre, mas rico em Deus (OCTAV.). É verdade, diz o Damasceno, que ele estende a mão para mendigar, mas é Deus quem recebe (Parallel. 3, c. XXXVII). É também verdade aquilo que observa Santo Ambrósio, isto é, que nem todos os pobres são santos e nem todos os ricos são maus; todavia, assim como ordinariamente o vício desonra as riquezas, também a santidade frequentemente acompanha a pobreza e a torna digna de louvor (In Matth). Oh! quão sublime é a dignidade do mendigo! exclama São João Crisóstomo: Deus se escondeu sob as vestes do pobre! (Ap. Maxim. serm. XII).
Aos olhos dos sábios, aos olhos da Igreja, os pobres revestem-se de uma dignidade especial; podem-se aplicar-lhes as palavras do Evangelho: «Os últimos serão os primeiros» (Mt 19,30). A Igreja dá aos pobres a preeminência, pois admite os ricos em seu seio somente sob a condição de que sirvam aos pobres. A estes reserva os seus favores mais insignes, a estes as bênçãos mais escolhidas. A Igreja é a cidade dos pobres, a pátria dos libertos. A indigência e as tribulações, quando suportadas religiosamente, tornam o homem verdadeiramente grande e honrado; por isso Jesus Cristo disse aos seus enviados: «Fazei entrar em minha casa os pobres e os aleijados, os cegos e os enfermos» (Lc 14,21). É uma cegueira deplorável não honrar os pobres, aos quais o próprio Deus concedeu esta honra de dar-lhes a preeminência em sua Igreja… Assim fez Abraão, o qual, segundo diz o Crisóstomo, ao ver os pobres, esquece que é senhor e faz-se servo deles. Já esse grande patriarca respeita Jesus Cristo na pessoa deles (Serm. VII).
Os pobres são os porteiros do paraíso; a eles pertence o privilégio de abri-lo e fechá-lo aos ricos… Jesus Cristo desposou a pobreza e, por isso, a enobreceu. Escolhendo a pobreza como sua herança, o Salvador tornou-a digna de louvor, reverência e honra; quando, portanto, honramos os pobres, honramos neles o Redentor dos homens. Santo Ambrósio apresenta várias razões para demonstrar que se devem conceder favores e benefícios aos pobres antes que aos ricos: 1º Jesus Cristo, observa este Padre, quer que convidemos para as bodas os pobres, e não os ricos. 2º Quando se convidam os ricos, eles retribuem o convite; mas os pobres, não tendo com que retribuir, encarregam Deus de nos recompensar, esse Deus que se fez seu fiador e devedor. 3º Muitas vezes o rico despreza o benefício e não se preocupa em demonstrar gratidão; o pobre, ao contrário, recebe com reconhecimento o menor favor. 4º O pobre retribui mais do que recebe, porque reza por seus benfeitores e obtém para eles a remissão dos pecados que cometeram, múltiplas graças e a glória eterna (Offic. 1, II, c. III).
O pobre é onipotente; vede a prova em São Pedro: «Não tenho nem ouro nem prata — diz ele ao coxo que lhe pede esmola —, mas o que tenho, isto te dou: em nome de Jesus Cristo, levanta-te e caminha» (At 3,6).
«Não escolheu Deus, porventura, os pobres — escreve São Tiago — para que sejam ricos na fé e herdeiros do reino que Deus prometeu aos que o amam?» (Tg 2,5). Deus escolheu aqueles que estavam despojados dos bens deste mundo e prodigalizou-lhes os tesouros da fé; aqueles que não tinham com que pagar o tributo, e deu-lhes a inteligência das coisas divinas. Recolhe-se das palavras do Apóstolo que o ouro e a prata não são verdadeiros bens, mas somente a fé e as virtudes que ela faz nascer; como também que não a falta das riquezas perecíveis, mas a cobiça e a impiedade constituem a pobreza e os pobres. Ó, quantos ricos são mendigos e quantos pobres são riquíssimos! …
Os pobres são, segundo a sentença de Jesus Cristo, os herdeiros do reino de Deus… «Ora, se o reino de Deus pertence aos pobres, quem será mais rico do que eles? — exclama Santo Ambrósio (Serm. X).» As razões pelas quais Deus quis assegurar antes aos pobres que aos ricos os bens da fé e a herança de seu reino são evidentes. A primeira consiste em que a conveniente distribuição dos dons exige que aqueles a quem faltam as riquezas terrenas tenham as do céu como compensação; e que, ao contrário, aqueles que abundam nas riquezas deste mundo sejam privados das futuras…
A segunda é que as riquezas geram com demasiada facilidade a ambição, a avareza, a luxúria, o orgulho, a vaidade e todos os vícios que arrastam ao inferno; ao passo que a pobreza inspira a humildade, a sobriedade, a continência, a castidade, a modéstia e todas as virtudes que conduzem ao céu… A pobreza, diz São Bernardo, é provida de grandes asas com as quais se eleva rapidamente até a casa dos Santos (Serm. 4, de Advent.).
A terceira é que, desprezando o mundo, os pobres compram de Deus a eternidade bem-aventurada. Como, por amor dele, renunciam a tudo e especialmente ao desejo de possuir, ele se constitui seu devedor e concede-lhes o reino dos céus. Eis por que São Gregório Nazianzeno diz: «Bem-aventurado aquele que gasta toda a sua fortuna para comprar Jesus Cristo! (Carm. de Beatit.)» E pode-se dar ao homem ação mais gloriosa do que vender os seus bens e conquistar para si Jesus Cristo? (Serm. S. Augustin. ult. de Divers.).
A quarta é que Deus procura um coração vazio das coisas da terra, para entrar nele e possuí-lo inteiramente. Ora, o rico que pensa somente no ouro e na prata pouco se importa com os bens eternos; mas o pobre, que não pode ocupar-se dos bens deste mundo, porque não os possui, volta o pensamento e a ação para os do céu, que espera.
Assim o Profeta exprime a situação do pobre diante de Deus: «O Senhor não se esqueceu dos clamores dos pobres» (Sl 9,13). «O pobre não será jamais esquecido; para sempre, a paciência demonstrada pelos pobres não será perdida» (Sl 9,19). «O Senhor é o refúgio do pobre, o seu auxílio nas necessidades, nos dias de tribulação. A ele foi confiado o mendigo; ele será o amparo do órfão. Ele ouviu o voto do pobre; o seu ouvido escutou a oração do coração deles» (Sl 10,10,14,17). «O Senhor levanta o pobre do pó e ergue-o do lodo, para colocá-lo entre os príncipes de seu povo» (Sl 112,7-8).
«Oprimir o indigente é insultar aquele que o criou, diz o Espírito Santo; ter piedade do pobre é honrar a Deus» (Pr 14,31). Deus toma sob sua tutela os pobres que o mundo rejeita e oprime, e cuida deles como uma mãe cuida dos filhos. Os pobres têm por tutor e administrador esse Deus que governa os céus e diante do qual se prostram os senhores do mundo. Por isso Jesus Cristo diz: «Asseguro-vos, em verdade, que tudo o que fizerdes em benefício de um dos mais miseráveis entre os meus irmãos, tê-lo-eis feito a mim mesmo» (Mt 25,40). Portanto, no dia do juízo, pronunciará sentença de bênção sobre aqueles que tiverem cuidado dos pobres, e sentença de maldição sobre os ricos avarentos que não tiverem cuidado deles… Ao encarnar-se e vir ao mundo, o Verbo eterno honrou, consagrou e quase divinizou a pobreza, unindo-a hipostaticamente a si em sua humanidade. O pobre é, portanto, como diz São Francisco de Assis, a viva e genuína imagem de Jesus Cristo pobre (Regul. c. VI).
Deus, que basta a si mesmo, está infinitamente acima de todas as criaturas; o pobre, que é humilde, que despreza as coisas da terra, que deseja somente as do céu e repousa em Deus, é superior à maior parte dos homens, miseravelmente escravos das posses terrenas… A boca do pobre é a boca de Deus, e o ouvido de Deus é o ouvido do pobre: Deus o escuta e o atende sempre, e isso o torna onipotente diante dele. Jesus Cristo promete o seu reino aos pobres, a consolação aos que gemem, o alimento aos que têm fome, a alegria eterna aos que sofrem. Todos os direitos, todos os favores, todas as graças, todos os privilégios do Evangelho são para os fracos, para os indigentes, para aqueles que sofrem.
São João Crisóstomo chama a pobreza de porto seguro e tranquilo (Homil. Ultim. in Matth.), enquanto São Bernardo nos adverte a não fixar o nosso coração em bens cuja posse é um peso, cujo amor mancha e cuja perda nos aflige (Epist.). O Papa São Gregório nos adverte de que nos cabe lutar nus contra demônios que estão nus. Com efeito, acrescenta o Santo, se um homem vestido luta com um nu, logo é lançado por terra, dando ao adversário a oportunidade de agarrá-lo. Ora, todos os bens da terra não são outra coisa senão uma espécie de vestimenta do corpo (Hom. 1. 22, in Evang.).
A pobreza livra o homem de um mundo de pensamentos e inquietações… Afasta-o das criaturas, para levá-lo a entregar-se ao Criador, no qual está a suma felicidade. Então ele pode dizer com o Salmista: «O Senhor é a porção da minha herança e do meu cálice. Sois vós, ó Senhor, que me dareis a minha herança» (Sl 15, 5). «Que espero eu no céu, e que desejei de vós sobre a terra? Senão a vós, ó Deus do meu coração, que sois a minha porção para sempre» (Sl 72, 25-26). A pobreza voluntária é o caminho da salvação, a nutriz da humildade, a raiz da perfeição… Quando não se contemplam os bens da terra, alcançam-se os do céu… O pobre voluntário é livre…, senhor…, vencedor…, rei…, feliz…, infinitamente rico…, repousando em Deus, está isento de toda solicitude… A pobreza é uma rainha que caminha juntamente com Jesus Cristo.
Nós somos pobres, escrevia São Paulo, e contudo enriquecemos os outros; nada temos, e contudo possuímos tudo (2Cor 6, 10). A pobreza é, segundo a sentença de São Francisco de Assis, um tesouro escondido, para comprar o qual vale a pena vender todo o resto e desprezar aquilo que não se pode vender (Reg. c. VI); conforme disse o próprio Jesus Cristo àquele jovem: «Se queres ser perfeito, vai, vende todos os teus bens, distribui o preço aos pobres e terás tesouros no céu; depois vem e segue-me» (Mt 19, 21). «Ó como é grande, diz Santo Agostinho, a felicidade daqueles cristãos aos quais é dado adquirir o reino dos céus ao preço da pobreza! Ah! não vos seja odiosa a pobreza, se sois pobres, porque nada se pode encontrar de mais precioso. Quereis saber quanto ela vale? Pensai que compra o céu (Serm. 28, de verbo Apost.)». Que loucura é, pois, a nossa, exclama o Crisóstomo, colocar os nossos tesouros onde não permanecemos senão de passagem, e não depositá-los onde habitaremos para sempre! Ah! coloquemos e empreguemos os nossos bens na nossa pátria, que é o céu! (Homil. XLVIII).
Notai que Jesus Cristo não disse: Bem-aventurados os pobres, porque lhes será dado o reino dos céus, mas: «Bem-aventurados os pobres, porque deles é o reino dos céus» (Mt 5, 3). O céu lhes pertence desde o presente, é-lhes devido, e eles têm dele a certeza. Jesus Cristo coloca a pobreza entre as oito bem-aventuranças e lhe atribui o primeiro lugar. A alma do pobre que voluntariamente se submete à pobreza resplandece como o ouro; brilha como o diamante, exala o perfume da rosa… A pobreza não teme nem a traça nem os ladrões; não geme escrava do demônio; não se alinha entre os cortesãos dos poderosos; mas toma lugar entre os servos de Deus e coloca o seu tesouro não na terra, mas no céu… O mendigo não tem, é verdade, nem carruagens, nem cavalos, nem lacaios, nem aduladores; mas acaso precisa de tudo isso aquele que se eleva acima das nuvens e que deve subir ao céu, levado por mãos angélicas? Ele deve habitar com Jesus Cristo; que outra coisa lhe é necessária? Nem o Salvador nem os Apóstolos tiveram qualquer dessas coisas e, entretanto, a Igreja resplandeceu de viva luz, o mundo pagão quebrou os seus ídolos, derrubou os seus santuários e converteu-se ao Cristianismo; porque os primeiros cristãos se impregnaram do espírito de pobreza, renunciaram aos bens da terra e os distribuíram aos pobres, o mundo viu tantas e tão maravilhosas transformações.
A pobreza conduz à perfeição e ao paraíso, assim como a avareza leva a todo mal e ao inferno. A pobreza, 1º, guarda-nos das riquezas, das honras e dos prazeres, fontes e alimento de todos os vícios; 2º, gera a humildade, princípio e fonte da santidade; 3º, é o caminho para a salvação, a mãe de toda virtude, a raiz de todas as árvores que produzem bons frutos; 4º, não conhece cuidados nem inquietações, estando inteiramente ocupada com a prática do bem, como a abelha entregue somente à preparação do mel; 5º, a perfeição está no amor de Deus e do próximo; ora, nada conduz melhor à aquisição dessas duas virtudes do que a pobreza, pois, de um lado, elimina o meu e o teu, de onde provêm as rixas, os ódios, as inimizades, as contendas, as fraudes, as injustiças e as guerras; de outro lado, afastando o homem da busca e do amor dos bens terrenos, prende-o somente a Deus e leva-o a não querer outra coisa senão a ele; e, quando se tem Deus, nada falta, nada resta a desejar, nada de que se queixar.
Talvez alguém objetará que, para ter o mérito da pobreza voluntária, não é de modo algum necessário renunciar aos bens, mas basta não lhes apegar o coração. Isso é verdade; conservar as riquezas da terra e não lhes prender o coração é uma espécie de pobreza que tem o seu mérito; mas permanece sempre inferior à pobreza real, que sacrifica o amor das riquezas e a própria riqueza. Com efeito, é muito difícil não ter certa afeição por uma coisa que se conserva. O homem que é amarrado enquanto está mergulhado no sono só ao despertar percebe o estado em que se encontra; assim, aqueles que estão ligados por uma afeição secreta às suas riquezas só se dão conta disso no momento em que as perdem ou abandonam.
«Todo aquele, diz Jesus Cristo, que abandonar a casa, ou os irmãos, ou as irmãs, ou o pai, ou a esposa, ou os filhos, ou os campos, por causa do meu nome, receberá cem vezes mais e terá a vida eterna» (Mt 19, 29). Por cem vezes mais, Santo Ambrósio entende Deus; porque Deus se faz pai, mãe, irmão e irmã daquele que renuncia ao mundo; e o homem que tem Deus por sua herança possui toda a natureza. Deus é o seu campo, e tal campo que não se encontra outro nem mais vasto, nem mais fértil, nem mais rico; somente ele lhe basta para toda necessidade, porque produz sempre frutos abundantes, deliciosíssimos e imperecíveis; Deus é a sua morada, e lhe basta, porque é o palácio da eternidade. Que tesouro há mais precioso do que Deus? Que habitação mais esplêndida do que o céu? Que felicidade é comparável àquela que traz a posse do céu? (In Matth. C. XIX).
Eis por que Santo Agostinho sentencia que aquele que é rico segundo Deus é pobre de ouro (Serm.XXVIII, de Verb. Apost.), e o Venerável Beda nos admoesta que, se nos importa ser ricos em Deus, não devemos entesourar, mas distribuir aos pobres quanto possuímos (In Evang. Luc. c. XII). O céu pertence aos pobres, e eles para lá enviam os seus benfeitores… «Quem nada tem na terra é rico no céu; é um ser celeste, angélico, divino, escreve São Cipriano. Com efeito, os Anjos e os Santos contemplam do alto dos céus, com olhar indiferente, este pequeno ponto que chamamos terra, e riem-se de todos os seus bens, de todas as suas riquezas, pois é próprio de uma alma grande e generosa não admirar senão a Deus (Epist. ad Martyr.)».
Isto nos explica os magníficos elogios que, em todos os tempos, os santos Padres e os Doutores fizeram da pobreza, e as calorosas exortações com que sempre animaram os fiéis a abraçá-la.
A pobreza, diz São João Clímaco, é uma renúncia aos cuidados do século, um caminho sem obstáculos para Deus, a expulsão de toda tristeza, o fundamento da paz, a pureza da vida; ela nos isenta do cuidado das coisas terrenas e nos conduz à perfeita obediência dos mandamentos de Deus (Grad. XVII). A pobreza, acrescenta São Francisco de Assis, é o caminho para a salvação, o fundamento da humildade e da perfeição. O ouro não é outra coisa senão uma serpente cheia de veneno; é o próprio demônio (Reg. c. VI). «Por meio da pobreza, observa São Jerônimo, renunciamos a objetos de nenhum valor e entramos na posse de bens de preço infinito» (Lib. sup. Matth.). Por ela voamos para Deus, sem tocar a terra, uma vez que nada desejamos nela (S. GREGOR., Homil. 18, in Ezech). Abandonemos, pois, direi com Santo Agostinho, abandonemos as coisas terrenas e receberemos as celestes: porque a pobreza compra o reino dos céus (Serm. CCXXXIII, de Temp.). E, se possuímos pouco ou nada, direi com São Jerônimo, alegremo-nos disso, pois estamos livres de um peso enorme; sigamos, despojados de tudo, o Jesus nu (Epist. ad Rusticum). Digamos com o Salmista: «Eu sou pobre e mendigo, mas o Senhor cuida de mim» (Sl 39, 18). «Na vossa doçura, ó Senhor, preparastes para o pobre aquilo de que necessita» (Sl 67,11).
Deus dispôs que a maior parte dos homens seja pobre, seja para que adquiram o mérito da paciência e uma plena confiança em Deus, seja para que sejam obrigados a trabalhar, a cultivar os campos, a exercer os ofícios mecânicos, sem os quais a vida humana e a ordem do universo não poderiam subsistir. Com efeito, como já observava São João Crisóstomo, se a pobreza desaparecesse da terra, a ordem social seria destruída e todo gênero de vida seria transtornado; não haveria mais nem piloto, nem marinheiro, nem tecelão, nem lavrador, nem pedreiro, nem sapateiro, nem carpinteiro, nem alfaiate, nem pintor, nem trabalhador de qualquer espécie; e, faltando esses diversos trabalhadores, todo o edifício social pereceria. A pobreza é uma senhora necessária para convidar e, quando preciso, obrigar cada um a cumprir a obra que lhe foi confiada. Quando todos os homens fossem ricos, viveriam todos no ócio e na preguiça e, por isso, todos se corromperiam e pereceriam. Sucederiam uma pobreza, uma fome, uma ruína completa e universal (Homil. antepen. t. V).
São João Clímaco diz que um monge pobre, em sua grande pobreza, é de algum modo o senhor do mundo; e que, tendo depositado somente em Deus toda a sua esperança, pode considerar as nações como suas escravas. O santo abade acrescenta que, como verdadeiro servo de Deus, o pobre não ama seriamente coisa alguma do mundo. Com efeito, aquilo que tem e aquilo que pode ter, por assim dizer, não existe para ele; e, se o perde, não se perturba (Grad. XVII). Neste sentido, São Bernardo, explicando aquela palavra do Salvador: «Quando eu for elevado da terra, atrairei tudo a mim» (Jo 12, 32), afirma com razão que os verdadeiros cristãos fazem o mesmo quando se desprendem de todas as coisas perecíveis. É certo, diz ele, que quanto menos alguém deseja as riquezas, tanto mais é livre, senhor de si mesmo e verdadeiramente rico. O homem desprendido de tudo possui tudo e o possui plenamente, pois tanto a adversidade como a prosperidade dependem dele e cooperam para o seu bem. O avarento tem fome das coisas terrenas exatamente como um mendigo; ao passo que o fiel as despreza como um senhor. Possuindo-as, o primeiro as mendiga; desprezando-as, o segundo as possui (Serm. 21, in Cantic.). «Vale mais», lemos nos Provérbios, uma fortuna modesta com o temor de Deus do que riquezas transbordantes com o desejo de aumentá-las» (Pr 15, 16). Uma condição humilde conserva o homem modesto, humilde, sóbrio, casto e laborioso; grandes posses tornam-no arrogante, insolente, ciumento, impudico e indolente. Por isso, o Sábio pedia a Deus que não lhe desse nem miséria nem riqueza, mas somente uma condição em que não lhe faltasse o necessário (Pr 30, 8). «A pobreza, diz São João Crisóstomo, é refúgio seguro, porto tranquilo, segurança perpétua, felicidade isenta de perigos, verdadeiro deleite; proporciona uma vida sem perturbação e não exposta a naufrágios (Homil. de recipiendo Sever.)». Para Hugo de São Vítor, a pobreza voluntária é uma espécie de martírio; com efeito, diz ele, que espetáculo mais maravilhoso e que suplício mais acerbo do que sofrer a fome diante de uma mesa ricamente posta, tremer de frio tendo facilmente com que se vestir, permanecer pobre em meio às riquezas que o mundo apresenta, que o demônio oferece e que a nossa concupiscência deseja? É coisa portentosa tocar o fogo e não se queimar, manusear espinhos e não se ferir, carregar pedras e não se machucar. Ora, as riquezas são, ao mesmo tempo, fogo, espinhos e pedras (Instit. monast.). Ó pobreza voluntária e paciente, como és preciosa, como és rara! Os pobres são preservados dos males mais graves, deixou escrito um pagão; porque não têm de temer nem as ciladas, nem a inveja, nem o ódio, coisas de que os ricos não podem estar isentos (Anton. in Meliss. part. 1, serm.).
«Buscai antes de tudo o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será dado por acréscimo», disse Jesus Cristo (Mt 6,33); e o profeta Davi diz: «Entrega ao Senhor o cuidado de ti mesmo, e ele te sustentará» (Sl 54,23). «Os ricos padeceram miséria e fome, enquanto aos que buscam o Senhor jamais faltarão bens em abundância» (Sl 33,11). Por isso, o Salvador nos adverte a não acumular tesouros na terra, onde a ferrugem e a traça os consomem, ou os ladrões os roubam; mas a ajuntá-los no céu, onde estão seguros tanto dos ladrões quanto das traças (Mt 6,19-20). São Jerônimo diz: «Cuidai para que a vossa alma não seja enterrada no ouro, mas elevai-a ao céu» (Epist.).
Esta lição do divino Mestre haviam aprendido muito bem os Apóstolos, a cujo elogio o Nazianzeno dizia que «a vida deles era a riqueza na indigência, a posse no peregrinar, a glória no desprezo, a paciência nas provações (Orat. XII)». E, a propósito destas palavras de São Paulo: «Somos considerados pobres, e enriquecemos a outros; nada temos, e possuímos tudo» (2Cor 6,10), o Venerável Beda escreve: «Todos os fiéis bons são ricos: ninguém se considere menos do que vale. O fiel é pobre de dinheiro, mas rico de virtudes; dorme mais tranquilo deitado sobre a terra nua do que o rico, envolto em púrpura (In II Epistola ad Corinth.)». São Gregório nos prega: «Não saiais à caça de honras e riquezas, que um dia teremos de abandonar; se temos fome de bens, busquemos aqueles que possuiremos eternamente (Moral.)».
«As riquezas são um bem para aquele cuja consciência está limpa de culpa; a pobreza é coisa péssima para o ímpio que murmura», sentencia o Espírito Santo (Eclo 13,30); Tobias dizia a seu filho: «É verdade que levamos uma vida pobre, mas teremos grandes riquezas se temermos a Deus, nos abstivermos de todo pecado e procurarmos fazer o bem» (Tb 4,23). Não somente na vida futura, mas também na presente, teremos a honra e o mérito de haver praticado a virtude e de não nos termos afastado do caminho do bem… Tanto no sentido material como no espiritual se realizam aquelas palavras do rei Profeta: «Os pobres comerão até se saciarem e louvarão o Senhor» (Sl 21,27).
Assim como Deus é rico em graça e em força, também o pobre o é em inteligência sobrenatural… Ó quão rico é, exclama Santo Ambrósio, aquele que conhece a Deus, que se ocupa da eternidade, que ajunta tesouros, não de ouro, prata ou coisas preciosas, mas de virtudes! Não vos parece rico aquele que possui a paz da alma, a tranquilidade, o repouso? Aquele que nada deseja, por nada se perturba, não se enfada daquilo que possui há muito tempo e não vive procurando coisas novas? (Serm. X). O pobre, diz São João Crisóstomo, não teme nada e goza da mais plena segurança; ao contrário, o rico e o poderoso sempre temem algum perigo (Homil. 30, in Matth.). O mendigo humilde inveja aquilo que é lícito invejar: a pureza, a santidade, a perfeição que tornam o homem agradável a Deus; procura conformar a sua vontade à vontade divina; quer aquilo que quer o seu Criador, como se fosse uma só coisa com ele; e, agindo assim, imita a estabilidade e a eternidade de Deus.
O pobre que tem aversão à pobreza vive miserável e infeliz; ao contrário, aquele que não somente a tolera com resignação, mas dela se mostra contente, vive feliz. O pobre tem a condição que ele mesmo se faz: se se entristece, se impacienta e se rebela, arrasta dias trabalhosos, miseráveis e infelizes; mas, se se resigna, tem paciência e se adapta de bom grado às necessidades, seus males se aliviam e desaparecem… O pobre que tem a consciência pura é infinitamente mais rico do que aquele que não a tem… Ouvimos muitos queixarem-se da pobreza, murmurar contra Deus e voltar-se contra os que possuem bens: certamente, enquanto se procede assim, a pobreza se torna um peso insuportável e opressivo, e não tem mérito… Por outro lado, quantos não encontramos que devem culpar a si mesmos pela própria pobreza? Vós desperdiçais no jogo e nas farras aquilo que ides ganhando na flor da idade; nada poupais e esgotais tudo; mais tarde definhais na indigência e na miséria: não é obra inteiramente vossa?… Tendes uma família; em vez de cuidar dela e fazer economias, esbanjais todos os vossos rendimentos em despesas inúteis e luxuosas; em pouco tempo vos encontrais na miséria, com vossos filhos vestidos de farrapos; não sois vós os artífices da vossa infeliz condição? … Ó quantos pobres viveriam confortavelmente, se tivessem sido educados cristãmente! Mas, em vez de ser abençoada por Deus, esta pobreza é por ele amaldiçoada. A graça se afasta daqueles que voluntariamente nela caíram; sofrem sem consolação e sem mérito, porque não foi a vontade de Deus, mas suas paixões perversas que os conduziram a tão miserável situação…
Isso também compreenderam alguns sábios pagãos, entre os quais Sêneca, que, escrevendo a Lucílio, diz que é digna de honra e reverência a pobreza tolerada com ânimo alegre; esta, porém, não se deve chamar pobreza, mas antes riqueza de coração. O verdadeiro pobre não é aquele que tem pouco, mas aquele que desejaria ter mais do que tem. Que importa que os cofres do avarento estejam cheios, que seus celeiros transbordem, que acumule todos os dias mais, com usura, se ele deseja os bens alheios, se, não satisfeito com o que possui, desejaria aquilo que lhe falta? Perguntas-me como enriquecer? Isto consiste, primeiramente, em ter o necessário e, depois, em considerá-lo suficiente (Epist. ad Lucil. II). E em outro lugar observa que o mal da pobreza não consiste na pobreza, mas no pobre, isto é, no espírito do homem. Aquele que aceita de bom grado a pobreza é rico; aquele que torna a pobreza penosa e dura tira também das riquezas todo o seu encanto. Assim como pouco importa a um enfermo, e em nada lhe aproveita, estar deitado num leito de ouro em vez de num de madeira, e, onde quer que o deitem, leva consigo o seu mal, assim pouco importa que um espírito enfermo de avareza nade entre riquezas ou definhe em meio à pobreza; o seu mal não o abandona (De Remed. fortunae, lib. I).
Quem quiser ter o mérito da pobreza: 1° renuncie ao amor-próprio e à vaidade; 2° não confie no próprio entendimento nem se atenha exclusivamente ao seu juízo e à sua vontade; 3° fixe na mente que nada tem por si mesmo, mas que tudo lhe vem de Deus; 4° medite sobre o nada dos bens mundanos; 5° persuada-se de que merece penas muito mais graves do que a pobreza; 6° mantenha os olhos na recompensa prometida aos pobres voluntários e resignados; 7° não se apegue a outra coisa senão a Deus; 8° pense frequentemente na morte; 9° ofereça a Deus as privações e os sofrimentos a que está sujeito… É necessário que o pobre seja paciente, não murmure, não desconfie da Providência, não desanime…
São João Crisóstomo, falando daquele mendigo chamado Lázaro, de quem o Evangelho conta que estava, coberto de úlceras, deitado à porta de um rico avarento, observa nele nove cruéis aflições: 1° a pobreza; 2° uma grave enfermidade; 3° o abandono; 4° estar deitado à porta de um rico que se vestia esplendidamente e banqueteava suntuosamente; 5° a crueldade daquele rico; 6° a falta de qualquer pessoa amiga; 7° a esperança dos bens que a ressurreição deve trazer, menos firme do que viria a ser depois de Jesus Cristo; 8° a longa duração de seus males; 9° a fome, a sede, a nudez, o frio (Homil. 1, de Lazzaro). Dificilmente se encontra outro mendigo mais desamparado, mais miserável do que Lázaro; e, contudo, quem mais resignado e tranquilo do que ele? … Seja ele, pois, o modelo dos pobres…