Tesouro n.º 156 · Volume III

PERSEVERANÇA PERSEVERANZA

8 seções · 41 parágrafos · pp. 1839–1852 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DA PERSEVERANÇA

Depois que Jesus Cristo já havia dito particularmente acerca da oração que «é necessário rezar sempre, isto é, perseverar na oração e nunca se cansar de rezar» (Lc 18, 1), passou a uma sentença mais geral e declarou peremptoriamente que «somente será salvo aquele que perseverar até o fim da vida na fé, na piedade, na religião e, enfim, no cumprimento de tudo o que constitui a vida do cristão» (Mt 24, 13). Porque «quem põe a mão no arado e olha para trás não é apto para o reino dos céus» (Lc 9, 62). E com razão: porventura não está o homem obrigado a progredir sempre na perfeição? Certamente (Veja Perfeição); e como poderá alcançá-la sem perseverança? Lembrai-vos, diz São Bernardo, de que o cristão não se obriga a servir a Deus por um ano ou por determinado tempo, como um mercenário, mas por toda a vida, como um filho; e, portanto, por mais que corra, jamais receberá o prêmio se não correr até a morte: e disso tem o exemplo em Jesus Cristo, que foi obediente até a morte (1).

Ouçamos os salutares ensinamentos que os Apóstolos nos oferecem sobre este ponto. São Paulo, para animar os romanos a não recaírem no pecado depois de terem sido purificados pelo batismo e pela penitência, mas a perseverarem no bem, propõe-lhes o exemplo de Jesus Cristo, o qual, uma vez ressuscitado dentre os mortos, já não morre (Rm 6, 9); e encorajava os coríntios a permanecerem firmes e inabaláveis, ou antes, a prosseguirem ainda mais diligentemente nas obras do Senhor, lembrando-lhes que, de tudo quanto fizessem, Deus nada deixaria sem recompensa (1Cor 15, 58). Advertia os gálatas que permanecessem na liberdade recebida de Cristo e não se deixassem novamente sujeitar ao jugo da servidão do demônio; que não praticassem o bem somente em sua presença, nem se cansassem algumas vezes de fazê-lo, mas fossem sempre zelosos por tudo o que é bom (Gl 5,1; 6,9; 4,18).

Suplicava aos efésios, por causa de suas cadeias, que se conduzissem de maneira digna da sua vocação, isto é, como filhos da luz, porque, se outrora haviam sido trevas, uma vez feitos cristãos tinham-se tornado luz no Senhor (Ef 4,1; 5,8). Sim, a vocação do cristão é perseverar no bem que começou a praticar desde o momento em que pôs os pés nos caminhos espirituais. Mas quem caminha multiplica os passos e avança para chegar à meta; vós, portanto, que recebestes Jesus Cristo, dir-vos-ei com o mesmo Apóstolo: caminhai em seus passos, unidos a Ele, edificados sobre Ele e firmes na fé que vos foi ensinada, mas firmes de tal modo que ela cresça a cada dia em vossa gratidão (Cl 2, 6-7). Cuidai para que nenhum de vós se afaste da graça de Deus; não permitais que o cansaço vos proste nem que a tristeza vos abata (Hb 12,15-3).

Creiamos dirigida a cada um de nós em particular aquela ordem de São Paulo a Timóteo: «Ordeno-te diante de Deus, que vivifica todas as coisas, e diante de Jesus Cristo, que observes este preceito imaculado e irrepreensível até a vinda do Senhor; porque aquele que combate na arena não é coroado senão se tiver combatido como deve» (1Tm 6, 13-14; 2Tm 2, 5).

«Vós, portanto, ó meus irmãos, dir-vos-ei com São Pedro, que conhecestes o bem, guardai-o zelosamente, para que não vos aconteça decair da vossa firmeza; mas crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo» (2Pd 3, 17-18). «Conservai-vos no amor de Deus», dir-vos-ei com São Judas (21). «Permanecei fiéis até a morte», repetir-vos-ei com São João (Ap 2, 10). «Lembrai-vos do que ouvistes e recebestes, e observai-o, para que aquele que é justo se torne ainda mais justo, e aquele que é santo se torne ainda mais santo» (Id. 3,3; 22,11).

«Permanecei firmes diante do Senhor», inculcava Samuel ao povo judeu (1Sm 10,19). «Permanece firme em teu lugar, diz o Sábio a cada homem, e persevera na invocação do Deus Altíssimo» (Eclo 17,24). Compreendia muito bem esta necessidade da perseverança o Salmista, que dizia a Deus: «Firma os meus passos no caminho que conduz a vós, para que não me aconteça vacilar» (Sl 16,5).

2. PARA PERSEVERAR É PRECISO CORAGEM

Todas as expressões de que o Espírito Santo se serve na Sagrada Escritura, quando fala da perseverança no bem, aludem à fortaleza, à coragem, à luta, ao combate, aos esforços e aos trabalhos: «Esforçamo-nos por agradar a Cristo», confessava de si o Apóstolo das gentes (2Cor 5, 9); e, escrevendo a Timóteo, exortava-o a combater o bom combate da fé e a apoderar-se da vida eterna, para a qual fora chamado (1Tm 6, 12); em outra ocasião, exortava-o a fortalecer-se na graça da perseverança que está em Cristo Jesus (2Tm 2, 1).

«Uma pedra quadrada, escreve Santo Agostinho, seja qual for o lado para o qual se volte, permanece firme e estável; assim deve ser o cristão; deve temperar-se e adaptar-se a toda tentação, de modo que não caia por nenhum choque, não vacile por nenhum assalto, mas se encontre firme em todas as circunstâncias (2)». O galgo, ao avistar a lebre, persegue-a por matas, espinhos e barrancos, e não cessa de correr até alcançá-la. Eis a imagem do cristão que aspira à vida eterna…

Meus irmãos, escrevia São Paulo aos Filipenses, caminho para a meta que me foi assinalada pelo Senhor Jesus Cristo. Não penso de modo algum tê-la alcançado, mas, esquecendo o que fica para trás e lançando-me ao que está à minha frente, tendo para o termo, para a recompensa celeste que Deus me destina em Cristo Jesus. Portanto, todos nós que queremos ser perfeitos, tenhamos este mesmo sentimento (Fl 3, 12-15). O Apóstolo examina não aonde chegou, mas o que ainda lhe resta de caminho a percorrer para chegar ao céu. E esforça-se e sua para tender à vida eterna, esquecendo todo o resto… «Felizes aqueles, diz a este propósito São Jerônimo, que, não se apoiando nas obras de justiça anteriormente realizadas, renovam-se e progridem todos os dias na virtude, à imitação do Apóstolo; pois a justiça não aproveita ao justo a partir do dia em que ele deixa de ser justo. Santidade é não começar, mas terminar (3)». Por isso São Cipriano, escrevendo aos mártires, assim os exortava: «Se o combate vos chama, se chegou o dia da batalha, combatei valorosamente, lutai com perseverança, sabendo bem que combateis sob os olhos do Senhor, que considera os vossos generosos esforços (4)».

A mulher de Lot transformou-se numa estátua de sal assim que firmou o pé e olhou para trás: para significar-vos que a verdadeira sabedoria consiste em progredir, e que deter-se ou retroceder é loucura prejudicial… Sirva este exemplo para incutir em nós um salutar temor, ao mesmo tempo que nos oferece uma útil instrução. O cristão é figurado naquele cavaleiro que São João viu no Apocalipse montar um cavalo branco e partir vitorioso, tendo na mão direita um arco e na cabeça uma coroa, para vencer ainda (Ap 6, 1-2). Ele deve, como a Esposa dos Cânticos, levantar-se durante a noite, percorrer a cidade, procurar aquele que é o amor de sua alma; procurá-lo pelas ruas e pelas praças; e, tendo-o encontrado, agarrá-lo, apertá-lo, abraçá-lo tão estreitamente que jamais o abandone (Ct 3, 2-4).

«Permanece no lugar, no ofício que te coube, e persevera na oração», diz-nos o Espírito Santo (Eclo 17, 24). Esta palavra permanece, habita, fica firme, significa: 1° a luta que se deve sustentar contra os inimigos para perseverar…; 2° a coragem, a energia com que se deve combater para obter a perseverança… Permanece firme; mantém-te sólido; resiste generosamente; não cedas, não retrocedas; somente assim perseverarás… Os soldados, no campo de batalha, resistem e combatem com heroico valor; contudo, algumas vezes são vencidos pelos inimigos. Mas os soldados de Jesus Cristo, se permanecem firmes, são sempre vitoriosos; pois ninguém pode arrebatar-lhes a virtude e a perseverança na virtude; ninguém, exceto a própria vontade deles… Mostram-se tais como os pinta São Cipriano: irremovíveis em meio às torturas, mais fortes que os carrascos; e seus membros dilacerados, deslocados, golpeados, resistem às varas, aos ganchos, às lâminas ardentes. O suplício mais longo e atroz não pode vencer a sua fé; e, quando já não podem servir a Deus com seus corpos, porque estão exânimes, não cessam de servi-lo com suas feridas (De Martyr.) … Permanece invencível e perseverante contra o demônio, as tentações, o mundo e a carne.

Entrai na posse da felicidade dos Santos, dir-vos-ei com o Eclesiástico, por meio das boas obras; empenhai-vos em progredir todos os dias na virtude, para que entreis no número daqueles que vivem e dão glória a Deus; ide para o céu, vivei para a eternidade (Eclo 17, 25). Frutificai como roseiras plantadas junto a um riacho (Eclo XXXIX, 17). Crescei, multiplicai as vossas virtudes, manifestai-as; sede fecundos em folhas, flores e frutos de caridade, paciência, humildade, submissão, modéstia, pureza e toda virtude… «Esforçai-vos por tornar-vos melhores dia após dia, diz São Basílio; progredi nas virtudes, para que vos aproximeis cada vez mais dos anjos e vos torneis semelhantes a eles (5)».

3. MOTIVOS PARA BUSCAR A PERSEVERANÇA

«Eu prossigo, diz o Apóstolo, para chegar ao objetivo» (Fl 3, 12). Assim explica o Crisóstomo estas palavras: Ainda tenho uma vida cheia de combates; encontro-me ainda longe da meta, avancei pouco na corrida. O grande Apóstolo usa o verbo persigo em vez de corro; porque aquele que anseia por um objeto, se o faz com ardor, não olha para pessoa alguma, supera corajosamente todo obstáculo, concentra nele os olhos, o coração, o corpo, as forças, toda a alma; não pensa em outra coisa, mas tudo se volta para alcançar o seu fim (In Verbo Apost.).

«Eis que venho em breve, diz o Senhor no Apocalipse; e trago comigo a recompensa, para retribuir a cada um segundo as suas obras» (Ap 22, 12). «Permanecei, portanto, fiéis até a morte, e eu vos cingirei com a coroa da vida» (Ap 2, 10). «Cuidai de conservar bem o que tendes, para que a vossa coroa não seja dada a outro» (Id. 3, 11).

Procedamos de tal modo, segundo a recomendação de São Paulo, que sempre melhoremos cada vez mais (1Ts 4, 1). Pois esta palavra é certa e digna de fé: se morrermos com Jesus Cristo, viveremos com ele; se perseverarmos com ele nos sofrimentos, com ele reinaremos (2Tm 2, 11-12). Conservaremos admiravelmente a conquista realizada, se nos empenharmos continuamente em adquirir; ao contrário, veremos diminuir e dissipar-se aquilo que possuímos, se deixarmos de acrescentar-lhe algo. Como assentam bem nos lábios do cristão aquelas palavras da Esposa dos Cânticos: «Tirei a minha túnica; porventura voltarei a vesti-la? Lavei os meus pés; como poderei sujá-los novamente?» (Ct 5, 3).

«Perseveremos, portanto, se quisermos ser coroados, concluirei com o Crisóstomo; pois uma nobre recompensa não pode faltar àquele que segue o Senhor» (In Verbo Apost.; Homil. VIII); e com Fausto, bispo de Reims: sejamos perseverantes no serviço de Deus, tendo em vista a recompensa eterna, e empenhemo-nos em fazer sempre melhor a cada dia. O desejo de alcançar a coroa e o hábito do bem nos levem a crescer sempre em méritos (In Viva).

4. EXEMPLOS DE PERSEVERANÇA

Jesus Cristo permanecia noites inteiras em oração (Lc 6, 12). São Paulo não cessava, noite e dia, de admoestar com lágrimas cada um dos fiéis em particular (At 20, 31); e já então via tantos exemplos de cristãos firmes e constantes na prática do bem, que podia dizer aos Hebreus: «Cercados por tão grande nuvem de testemunhas, depusemos todo peso e todo pecado, e corramos com paciência a corrida pela arena que nos está aberta» (Hb 12, 1). A respeito de São Barnabé, observa o texto sagrado que «exortava todos os fiéis a perseverarem de coração firme no Senhor» (At 11, 23). — E tanto valiam entre aqueles fervorosos cristãos as exortações apostólicas, que São Lucas pode atestar, falando deles em geral, que «perseveravam na doutrina dos Apóstolos, na participação do pão que lhes era distribuído e na oração» (At 2, 42).

É preciso fazer, para a conservação e aquisição da graça e da virtude, o que faz o avarento pelo ouro, e imitar-lhe a perseverança. Ó felizes de nós! Feliz o mundo, se fosse possível dar de cada cristão o mesmo testemunho que Afrodisio dava de Santa Ágata ao tirano Quintiano: «Seria mais fácil amolecer os rochedos e o jaspe áspero, transformar o ferro em chumbo, do que mudar o ânimo de Ágata e desviá-la do amor de Jesus Cristo e do propósito da castidade» (In Vita); se sobre o túmulo de cada fiel fosse possível gravar o elogio que o Espírito Santo fez de Tobias: «Permaneceu imóvel no temor de Deus, dando-lhe graças todos os dias de sua vida» (Tb 2, 14).

Assim era Davi, que podia dizer: «Senhor, não abandonei a vossa lei; mas perseverava entre os meus na inocência do meu coração» (Sl 113, 87). — Tal era Jó, que exclamava: Enquanto eu tiver um fio de vida, meus lábios não proferirão palavra menos que reta, minha língua não pronunciará mentira; praticarei a inocência, jamais me desviarei um passo da justiça (Jó 27, 3-6).

5. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA PERSEVERANÇA

São Bernardo faz este elogio da perseverança: «A perseverança é o vigor das forças, o aperfeiçoamento da virtude, a nutriz dos méritos, a mediadora das recompensas, a irmã da paciência, a filha da constância, a amiga da paz, o vínculo da caridade, o laço da concórdia, a cidadela da santidade. Tirai a perseverança, e a obediência já não recebe recompensa, o benefício perde a sua graça, a coragem já não merece louvor. Somente à perseverança se concede a eternidade; melhor dizendo, é ela que restitui o homem à eternidade, pois diz o Senhor: Quem perseverar até o fim será salvo (6)». «A perseverança, escreve o mesmo Doutor, é a filha predileta do grande rei, o fruto e o cumprimento das virtudes, a arca que contém todo bem. E tal virtude, sem a qual ninguém verá a Deus nem será visto por Deus, é o termo da justiça para todo crente: com efeito, de que vale correr e depois cansar-se e deter-se antes de alcançar a meta? Corramos de modo a chegarmos ao prêmio! (7)».

As fortalezas mais bem guarnecidas cedem aos esforços de um cerco perseverante… A perseverança é mais poderosa que a força; ou melhor, ela é uma força e um poder irresistíveis… Sem a perseverança, diz São Lourenço Justiniani, nem vence aquele que combate, nem aquele que vence obtém a palma. Somente a perseverança merece a coroa da felicidade eterna; mais ainda: essa coroa lhe pertence…

Basta recordar, a este propósito, o fato da mulher cananeia e a parábola daquele que vai, durante a noite, pedir três pães a um amigo. Aquela suplica ao Redentor, com lágrimas ardentes, que tenha piedade dela, e Jesus não se digna dirigir-lhe uma palavra; prostra-se por terra e clama: Senhor, socorrei-me!, e Jesus a repreende, dizendo-lhe que não convém lançar aos cães o pão dos filhos. A mulher não perde a coragem, mas, com perseverança na oração, volta a seu favor a comparação, fazendo observar ao Redentor que, se aos cães não se dá o pão, certamente se lançam a eles as migalhas e os restos da mesa. E essa perseverança lhe vale, além de uma perfeita cura, um magnífico elogio da boca do divino Mestre: Grande é a tua fé, ó mulher! (Mt 15, 22-28). E aquele que vê chegar, no coração da noite, quando está deitado, com as portas fechadas à tranca, um amigo que lhe pede pão, não é verdade que, se depois de tê-lo mandado embora duas ou três vezes com Deus, o outro não se retira, mas continua a pedir e a bater, ele acaba por se levantar e, se não por consideração à amizade, ao menos para livrar-se do incômodo, dá ao importuno o que lhe é necessário? (Lc 11, 5-8). Poderia a Sabedoria encarnada pôr-nos diante dos olhos, de modo mais vivo, a excelência e a humildade da perseverança?

Por que, observa aqui Santo Agostinho, aquele que está deitado se levanta para dar àquele que bate à sua porta? Porque este não cessa de bater; porque, não obtendo nada às primeiras tentativas, persiste em pedir… Aquele que não queria dar acaba por resolver-se, porque o seu amigo continua e não se ofende com a recusa. Ora, como quereis que Deus, que é tão bom, Deus que nos exorta a pedir e se ofende se não pedimos, como quereis, digo, que não nos dê tudo e ainda mais do que pedimos, se perseverarmos! (In Verbo Domini). Essa violência agrada a Deus, assegura-nos Tertuliano (De Orat.).

Jesus, tendo subido à barca de Pedro, ordena-lhe que avance para o alto-mar e lance as redes para a pesca. Simão observa-lhe que já haviam trabalhado em vão durante toda a noite, mas que, todavia, confiando em sua palavra, não se recusava a retomar o ingrato trabalho; e, tendo lançado as redes, puxaram-nas tão cheias de peixes que tiveram de chamar auxílio, e por pouco elas não se rasgaram (Lc 5, 3-6). Por que essa pesca milagrosa? Por duas razões: 1° porque haviam continuado a pescar durante toda a noite, embora não tivessem conseguido apanhar nada; 2° pela pronta obediência de Pedro em retomar o trabalho… Aqui se aplica a sentença de Sêneca: «Não há coisa alguma tão árdua nem tão sublime que uma perseverança diligente, forte e inabalável não consiga conquistar. A vida bem-aventurada está muito acima, mas a perseverança a alcança. É vergonhoso sucumbir vilmente sob o peso e entrar em conflito com o próprio dever. O homem forte e valoroso não evita o trabalho; a dificuldade do empreendimento infunde-lhe coragem, em vez de lha tirar (8)».

O apóstolo São Tiago assegura-nos que aquele que fixa o olhar na lei perfeita da liberdade e nela persevera, sem esquecer o que ouviu, mas praticando segundo a lei, será feliz em suas obras (Tg 1, 25). Também Jesus havia dito: «Se permanecerdes em mim e as minhas palavras permanecerem em vós, pedireis tudo o que desejardes, e vos será concedido» (Jo 15, 7). Aquele que permanece, isto é, que se mantém firme e persevera em Jesus Cristo, não peca, diz o mesmo Apóstolo. Ora, quem é que se mantém firme em Jesus e em quem Jesus permanece? É aquele que observa os seus mandamentos (1Jo 3, 6, 24). Estas palavras sugeriram ao Venerável Beda a seguinte exortação: «Seja Deus a vossa casa, e sede vós a casa de Deus. Permanecei em Deus, e Deus permaneça em vós. Deus habita em vós para vos conservar na perseverança; vós habitais em Deus para não cairdes (9)».

Muitos outros preciosos e nobres benefícios da perseverança Deus assinala no Apocalipse: «Quem vencer, mediante a perseverança, não verá a segunda morte» (Ap 2, 11); isto é, ficará livre do pecado que separa a alma de sua vida, que é a graça de Deus. A primeira morte é aquela que atinge o corpo na vida presente; a segunda morte é aquela que atinge a alma no tempo e, depois, o corpo e a alma na eternidade. Em outro lugar, manda anunciar que ao vencedor dará um maná desconhecido e uma pedrinha branca na qual está gravado um nome novo, que ninguém conhece, exceto aquele que o recebe (Ap 2, 17). Agora assegura que quem tiver vencido será vestido de linho branco, jamais verá o seu nome apagado do livro dos viventes, e ele, Jesus, o reconhecerá como seu diante do Pai e dos seus Anjos; mais ainda, fá-lo-á sentar-se ao seu lado, no seu próprio trono, assim como ele mesmo, tendo vencido, se sentou no trono com seu Pai (Ap 3, 5-21). Em outro lugar diz que fará do vencedor uma coluna que permanecerá eternamente no templo do seu Deus; escreverá sobre ele o nome do seu Deus e o nome da cidade de Deus, da nova Jerusalém que desceu do céu, da parte de Deus, e finalmente o seu próprio nome (Ap 3, 12). Quantos benefícios, quantas riquezas, quanta felicidade, quanta glória para aqueles que triunfam por meio da perseverança! Ela encerra, portanto, tesouros infinitos…

Quando Deus vê uma perseverança generosa, imediatamente cumula a alma de favores celestes; e quanto mais vê fidelidade e fervor, tanto mais abunda em graça e glória, segundo estas suas palavras: «Será dado àquele que já tem, e terá em abundância» (Mt 13, 12). Pois, assim como a graça nasce da graça, os progressos favorecem os progressos, os méritos servem de degraus para os méritos, os triunfos produzem triunfos, de modo que, quanto mais alguém se empenha em adquirir e perseverar, tanto mais se enriquece de virtudes; quanto mais bebe da fonte da sabedoria, tanto mais deseja beber dela. Apressai o passo, procuremos, peçamos, desejemos, batamos até o fim, para que nos seja dado alegrar-nos e gozar sem medida e sem fim. Digamos a Deus com o Salmista: «Já não nos afastaremos de vós; vós nos restituireis a vida, e invocaremos o vosso nome; e a nossa alma viverá sempre para vós» (Sl 79, 19; 21, 30). «Feliz o homem que se apoia em vós, que de vós espera o seu socorro! Ele atravessa os vales arenosos da morte; neles encontra fontes de água viva; as chuvas os fecundam; aumenta continuamente a sua força, até chegar à presença do Senhor, no monte de Sião» (Sl 83, 6-8). Digamos-lhe também com Salomão: «Ó Senhor, Deus de Israel, vós conservais a aliança e a misericórdia para com os vossos servos que caminham com perseverança e amor diante de vós» (1Rs 8, 23).

6. FACILIDADE DA PERSEVERANÇA

Certamente, se perseverar no bem dependesse somente dos esforços do homem, seria coisa não apenas difícil, mas superior às suas forças; porém, quando ao bom querer do homem se une o auxílio de Deus, torna-se empreendimento fácil e leve. Ora, não há página da Sagrada Escritura que não nos prometa e assegure esse auxílio: «Fiel é aquele Deus que vos chamou, escrevia São Paulo aos Tessalonicenses, e ele mesmo virá em vosso auxílio, vos fortalecerá, estabelecerá e guardará do mal, contanto que, de vossa parte, não cesseis de vos exercitar no bem. Sim, nós confiamos no Senhor em que cumpris e cumprireis tudo quanto vos ordenamos» (1Ts 5, 24; 2Ts 3, 2; 2Ts 3, 13; 2Ts 3, 4).

Lembremo-nos sempre de que Deus é fiel e não permite que sejamos tentados acima das nossas forças; mas, quando a tentação nos assalta, ele a mantém dentro de limites tais que, para quem quer, torna-se fácil vencê-la (1Cor 10, 13). Fortaleçamo-nos, portanto, na graça que está em Cristo Jesus; trabalhemos, suportemos as fadigas da perseverança, como valorosos soldados de Jesus Cristo (2Tm 2, 1; 2Tm 2, 3).

A respeito daqueles que perseveram, lemos no livro da Sabedoria que receberão o reino da glória e o diadema de honra das mãos do Senhor, o qual os cobrirá com a sua destra e os defenderá com o seu braço onipotente; guardá-los-á dos inimigos, protegê-los-á dos sedutores; submetê-los-á a duras batalhas para torná-los vitoriosos e lhes mostrará qual é o valor da sabedoria; não os abandonará nem mesmo entre as cadeias, até que lhes tenha devolvido o cetro e o poder real; dar-lhes-á o prêmio de seus trabalhos, guiá-los-á por um caminho maravilhoso; durante o dia, fará sombra para eles, e, durante a noite, luz (Sb 5, 17; 10, 12, 14, 17).

Para que perseverem nos caminhos da justiça, Deus vela por aqueles que o amam, dizem os Provérbios (Pr 2, 8), e o próprio Senhor nos exorta, pela boca do Sábio, a combater pela justiça, por causa de nossa alma; mas a combater até a morte; e Deus dispersará por nós os nossos inimigos (Eclo 4, 33). À perseverança pode aplicar-se aquilo que a Sabedoria afirma de si mesma: «Quem se alimenta de mim terá ainda fome; quem bebe da minha fonte terá ainda sede» (Eclo 24, 29); porque a pena que, no princípio, experimenta aquele que se entrega ao bem transforma-se, se persevera, em facilidade, alegria, felicidade e júbilo… Quando um cristão começa a viver bem e a consagrar-se com fervor às boas obras, a calcar aos pés o século, os cristãos tíbios e relaxados zombam dele, diz Santo Agostinho; mas, se ele persevera, se se mostra superior a eles pela paciência, acaba por ver aqueles mesmos que o ridicularizavam colocarem-se pouco a pouco atrás dele e segui-lo (In Psalm).

Conhecia bem esta consoladora verdade o profeta Habacuc, que exclamava: «Deus é a minha força; ele dará aos meus pés a ligeireza do cervo; e me conduzirá, triunfando por meu intermédio, às alturas, enquanto eu cantarei hinos à sua glória» (Hab 3,19). «Graças sejam dadas a Deus, diz São Paulo, que sempre nos faz triunfar em Jesus Cristo» (2Cor 2,14).

7. DESGRAÇADOS OS QUE NÃO PERSEVERAM

A quantos cristãos se pode aplicar a palavra de Jesus: «Este homem começou a construir, mas não pôde terminar» (Lc 14,30). Quem começa a servir a Deus e não persevera, quem volta o olhar para trás, é como um edifício começado e não terminado, sobre o qual não foi posto o teto; desfaz-se pouco a pouco, desmorona, e acaba por cair inteiramente em ruínas. Por isso, quando Jesus curava alguma doença, corporal ou espiritual, sempre dizia aos que haviam sido curados: Ide, não pequeis mais, mas perseverai na saúde da alma, para que não vos aconteça algo pior (Jo 5,14). Absolveu a mulher adúltera quando soube que nenhum de seus acusadores a havia condenado, mas recomendou-lhe que não pecasse mais (Jo 8,10-11).

Quando um espírito imundo é expulso de um homem, vai errando por lugares áridos em busca de repouso e, não o encontrando, diz consigo: Voltarei para onde saí; e, chegando, encontra a casa varrida, limpa, desocupada e ornada. Então vai buscar outros sete espíritos piores do que ele e, com estes, entra na casa; e o último estado daquele homem torna-se muito pior do que o primeiro (Mt 12,43-45).

Haverá porventura desgraça mais terrível e mais grave do que ser declarado inepto para o reino dos céus? Ora, foi precisamente isso que o Verbo divino afirmou, em termos formais, acerca daquele que não persevera no bem, que não continua no caminho reto: «Ninguém que põe a mão no arado e olha para trás, disse Jesus, é apto para o reino dos céus» (Lc 9,62). Considerai o que aconteceu à mulher de Lot, para que não tenhais de experimentar o efeito daquela terrível sentença do Senhor: «Maldito aquele que não permanece firme nos preceitos da minha lei e não cumpre as suas obras!» (Dt 26,26).

Saul havia começado bem, mas não perseverou e perdeu-se… Salomão havia começado com excelentes princípios, não se manteve firme, e a Escritura deixa terrível dúvida sobre a sua salvação… Sansão havia começado bem, mas não perseverou, e os filisteus o cegam, obrigam-no a girar, como um animal de carga, uma mó; fazem dele objeto de seu escárnio, alvo de suas zombarias… A Escritura diz que o justo é imutável como o sol, enquanto o insensato é como a lua (Eclo 27,12).

São Bernardo deplora a mísera condição de um jovem que havia começado magnificamente, mas depois se havia tornado tíbio, olhara para trás e caíra em graves excessos (10). «Amargamente me entristeço por ti… meu filho; indizível é a dor que por tua causa experimento, ó Godofredo. E quem, de fato, não se entristecerá ao ver a flor da tua juventude, já por ti oferecida a Deus em odor de suavidade, na presença dos Anjos que exultaram de alegria, agora pisoteada pelos demônios, manchada pelas imundícies do século corrompido? Como é que tu, que eras chamado por Deus, agora segues o demônio que te chama para si? Como pudeste, depois de haveres acabado de te entregar à sequência de Cristo, voltar para trás os passos e retirar o pé do limiar da verdadeira glória?».

Da fonte batismal parte o caminho que conduz ao céu; e, para perseverar nesta via divina, renuncia-se antecipadamente aos obstáculos que se encontram na jornada; renuncia-se solenemente ao demônio, ao mundo, às suas pompas e às suas obras; ali o cristão se obriga, diante do céu e da terra, a viver e morrer por Jesus Cristo; isto é, assume formalmente o compromisso de perseverar no bem e afastar-se do mal. Por isso, aquele que tem a desgraça de não continuar pelo caminho reto esquece, despreza e calca aos pés todas essas resoluções. Então sobrevém uma desordem geral, uma deplorável confusão. Eis aquele que havia renunciado ao demônio e ao mundo, ao vício, às más inclinações, ao pecado, aquele que havia jurado nunca seguir outro nem servir a outro senão a Jesus Cristo, tornar-se infiel a ele, voltar-lhe as costas, desprezá-lo e aborrecê-lo. Renega Jesus, abraça Barrabás. ― E patifes mais insignes que Barrabás, o demônio e o mundo, tiram-lhe tudo o que possui de precioso: a graça, a virtude, o mérito e a glória. Então se grita como os judeus deicidas no tempo da Paixão: «Não queremos que Jesus reine sobre nós» (Lc 19,14). Então se repete a infame ação de Judas, que dizia aos príncipes dos sacerdotes: «Que preço me ofereceis? E eu vo-lo entregarei» (Mt 26,15). Satanás, mundo, paixões, concupiscência, que quereis vós dar-me? E eu vos entrego a inocência do meu batismo, as minhas promessas, os meus votos, a minha alma, a minha salvação, a minha coroa, a minha glória, o meu Deus, a minha eternidade!

Ah! grande demais, infelizmente, é o número daqueles que não perseveram! E pequena é a legião dos que têm a fortuna de chegar ao termo da perfeição! «Muitos são os que começam bem o caminho, mas poucos os que chegam ao cume» (Sup. Matth.). Esta sentença de São Jerônimo serve de comentário àquela outra do Evangelho: «Muitos são os chamados, mas poucos os escolhidos» (Mt 20,16).

8. MEIOS DE PERSEVERAR

1° Quem quer perseverar até o fim precisa ter sempre diante dos olhos o fim. 2° Permanecer vigilante: ― «Vigia sobre ti, para que não caias», diz o Sábio (Eclo 29,27). «E quem julga estar firme, cuide para não cair», diz São Paulo (1Cor 10,12). Quem já avançou pelo caminho do céu caminha carregado de ouro; deve, por isso, guardar-se atentamente dos ladrões (HYERON. Epist.). 3° Aplicar-se às coisas de Deus. Sobre a Virgem Maria, observa o Evangelho que ela recolhia atentamente, conservava e meditava tudo quanto ouvia dizer dos pastores e dos outros testemunhos do nascimento do Menino Jesus (Lc 2,19). 4° Viver todos os dias como se cada dia começasse a obra da salvação, ou como se fosse o último da vida, e como gostaríamos de ter vivido no momento da morte. 5° Trabalhar na presença de Jesus Cristo e em sua companhia. 6° Observar fielmente a lei de Deus: «Se a vossa lei, ó Senhor, confessava o Salmista, não tivesse sido a minha ocupação contínua, eu já teria perecido» (Sl 118,92). 7° Caminhar na presença de Deus e de seus Anjos: «Seja feliz a vossa viagem, disse Tobias; Deus esteja convosco no caminho, e seu anjo vos acompanhe» (Tb 5,31). 8° Lembrar-se de que Deus não muda e imitá-lo (Ml 3,6). 9° Manter-se estreitamente agarrado à rocha inabalável da Igreja católica, apostólica, romana…

Quem deseja verdadeiramente perseverar deve: 1° repousar a sua alma em Deus; 2° amar a Deus com todo o afeto; 3° desejar ardentemente progredir na virtude; 4° considerar quão grandes obras podem ser realizadas por quem tem uma vontade firme e perseverante; 5° nunca esquecer que breves são todas as penas e eterna a recompensa; 6° invocar o arcanjo Gabriel, que é o Anjo da constância e que é chamado: Fortaleza de Deus.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.