«Observai, diz São Bernardo, quão graves devem ser aquelas feridas das quais é necessário que Jesus Cristo seja ferido! (1)». Detenhamo-nos um instante a contemplar o comovente quadro que Santo Agostinho traça das dores de Jesus Cristo: «Seu peito está ardente; seu lado, barbaramente aberto, goteja sangue; suas entranhas estão dilaceradas e seus ossos, deslocados; suas pupilas, antes tão vivas e doces, permanecem imóveis e desfalecidas; sua boca divina está contraída; seus braços e suas pernas estão gélidos; seu sangue, que escorre de toda veia dilacerada, banha-lhe os pés traspassados pelos cravos. Ó Pai celeste, volvei o olhar para os membros maculados de vossa culpável família; contemplai os suplícios do Redentor e perdoai as iniquidades dos resgatados! Filho divino, que fizestes para provocar sobre vós tal sentença? Qual é o vosso delito? Qual a vossa culpa? Qual a causa da vossa morte? Qual o motivo da vossa condenação? Ah, sou eu a chaga das vossas chagas! Eu, a causa da vossa flagelação! Eu, o instrumento da vossa Paixão! Sou eu quem vos crucificou. Ó admirável condição do réu! Mistério inefável! O culpado peca e o justo é punido. O réu está carregado de iniquidades, e o inocente é carregado de açoites. O ímpio comete a culpa, e a condenação atinge o justo. O bom sofre aquilo que o malvado merece. O senhor paga as dívidas do servo. Deus toma sobre si aquilo que o homem comete. ― Ó até onde se humilha a vossa humildade, ó Filho de Deus?
- Até onde vos conduz o vosso amor? Até onde vos impele a vossa compaixão? Até que ponto cresceu a vossa benignidade? Até que ponto chegou a vossa caridade, a vossa generosa piedade? Eu procedi como iníquo, e vós suportastes o castigo. Eu pratiquei o mal, e sobre vós recai a vingança; eu sou réu do delito, e vós sois submetido à tortura. ― Eu me elevei por tolo orgulho, e vós vos humilhastes. Eu fui desobediente, e vós, obediente, pagais o preço da minha desobediência. Eu cedi à gula, e vós caís, extenuado pelo jejum: a árvore me levou a um mau desejo; uma caridade perfeita vos conduziu à cruz. Eu toquei o fruto proibido, e vós fostes pregado; eu provei a doçura do fruto da árvore; vós fostes dessedentado com fel; eu ri com Eva, Maria chorou convosco. Eis o Rei da glória; eis a minha impiedade, e eis o vosso amor, ó meu Deus!» (Meditat. VI).
«Àquele que lhe disser: Que feridas são estas no meio de tuas mãos? responderá: são as feridas que recebi na casa daqueles que me amavam» (Zc 13,6). E meu coração não se enternecerá de amor? A este Deus, que me mostra as mãos, os pés e o coração traspassados por meu amor, não retribuirei amor com amor? Ser-me-á penoso suportar minhas feridas por amor de suas chagas, minhas adversidades por seus tormentos, a morte por sua morte? … As entranhas da misericórdia de Deus se abrem (Lc 1,78). Ele dá a vida por suas ovelhinhas culpadas… «Ah! os segredos de seu coração — exclama São Bernardo — saem pela abertura de suas chagas» (Serm. LXV). «As chagas de Jesus — diz Santo Agostinho — transbordam de misericórdia, bondade, doçura e caridade (2)».
Às cinco chagas de Jesus Cristo podem aplicar-se estas palavras de Isaías: «Vós haurireis com alegria águas vivas das fontes do Salvador» (Is 12,3). Com efeito, delas brotam todas as graças, delas procedem todos os sacramentos e os tesouros do céu. Sim, elas são precisamente aquela fonte pública e comum de que profetizava Zacarias, que seria aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, a fim de que nela lavassem suas culpas (Zc 13,1).
«Onde, com efeito, encontrar remédio mais eficaz para cicatrizar as feridas da consciência, purificar a alma; onde encontrar cura mais segura para os enfermos, senão na contínua meditação das chagas de Jesus Cristo?», exclama São Bernardo (3); pois, como afirma São Boaventura, quem se aplica com diligência e devoção a meditar sobre a paixão do Senhor encontra nela, em abundância, tudo o que lhe é útil e necessário; nada lhe resta procurar em outro lugar, pois aqui encontra a abundância de todas as coisas (Collat. III). Há um seguro repouso, escreve Santo Agostinho, para os enfermos e pecadores nas chagas do Salvador. Eu habito nelas com plena confiança; suas entranhas se me abrem por meio de suas feridas; nelas encontro e tomo tudo o que me falta; elas abundam em misericórdia. Traspassaram seus pés, suas mãos e seu lado, e a mim é dado saborear nestas chagas quão doce é o Senhor. Por elas nos é concedida abundante redenção (Manual. c. XXI).
As chagas de Jesus Cristo oferecem a todos os fiéis um asilo seguro, um refúgio certo nas tribulações e perseguições do mundo e do demônio. Ó vós que gemeis entre as aflições, as adversidades e a tristeza, correi para elas, refugiai-vos nelas… Dizei, com terna piedade, seguindo Santo Agostinho: Senhor, estou em vossas mãos, aquelas que me plasmaram, as mesmas mãos que foram pregadas por mim na cruz. Ah, Senhor! Não rejeiteis a obra de vossas mãos; peço às chagas de vossas mãos que me obtenham de vós um olhar; vós me marcastes, esculpistes nas palmas de vossas mãos; lede esta inscrição e salvai-me. Vossa criatura suspira por vós; vós sois seu Criador, recriai-me de novo. Vossa obra clama por vós; vós sois a vida, vivificai-me; sou vossa imagem, ó divino modelo, restaurai-me (Soliloq.).
«Uma infinita abundância de doçuras — diz em outra passagem o mesmo Padre —, a plenitude das graças, a perfeição das virtudes, estão depositadas, para quem as procura, nas sacratíssimas chagas de Jesus Cristo, nosso Salvador. Quando um mau pensamento me assalta, recorro às chagas de Jesus Cristo. Quando a carne me atormenta, a lembrança das chagas de Jesus me tira da luta. Quando Satanás me arma ciladas, refugio-me nas entranhas de meu Senhor, e o inimigo se afasta de mim. Se o ardor da paixão me agita e inflama, corro a extingui-lo com a memória das feridas de meu Senhor, o Filho de Deus. Em toda adversidade, jamais encontrei remédio mais eficaz que as chagas de Jesus Cristo; nelas durmo tranquilo, descanso intrépido e habito em segurança. Jesus Cristo morreu por nós; não há nada tão amargo, nem sequer a própria morte, que não seja adoçado pela morte de Cristo; nela repousa toda a minha esperança (4)». Onde jamais, pergunta São Bernardo, onde jamais encontrarão os pecadores o perdão e a salvação? E responde que não podem encontrá-los senão nas chagas do Salvador. Em seguida acrescenta: Cometi grandes culpas, minha consciência está perturbada e aterrorizada por elas, mas se tranquilizará e se alegrará tão somente ao reluzir diante dela a lembrança das chagas do Senhor. Que há de tão enorme que não seja destruído pela morte de Cristo? Se, portanto, jamais esqueço um remédio tão poderoso, tão seguro e tão infalível, não posso mais desesperar ao ver a enormidade de meu pecado (Serm. XLIII). No dia de sua ressurreição, Jesus Cristo foi ao lugar onde estavam reunidos seus discípulos e, ao dizer-lhes: A paz esteja convosco, mostrou-lhes suas mãos chagadas e seu lado traspassado (Jo 20,19-20). Portanto, é nas chagas de Jesus que se deve buscar a verdadeira paz do espírito, a calma da consciência.
É nosso dever admirar, adorar e amar as cinco chagas do Salvador, das quais saem a luz da fé e a chama do amor. Com efeito, assim que o incrédulo Tomé aproxima a mão do lado ferido do Salvador e vê abertas as cicatrizes das chagas de suas mãos e de seus pés, imediatamente exclama, animado por viva fé e impelido por ardente afeto: «Meu Senhor e meu Deus» (Jo 20,27-28).
«Estou crucificado com Cristo — dizia o grande Apóstolo — e, se parece que ainda vivo, na realidade não sou eu que vivo, mas é Cristo que vive em mim» (Gl 2,19-20); e deleitava-se tanto em pensar em Cristo e contemplar suas chagas que, pela longa meditação que delas fazia, pelo vivo amor com que as venerava, pelo ardente desejo que delas tinha e pela contínua permanência que nelas fazia, chegara a reproduzi-las na própria carne (Id. 6,17).
As chagas do Salvador serviam a Agostinho de seios dos quais sugava o leite da piedade; das feridas de Jesus ele extraía seu alimento (Medit.). E São Boaventura dizia a Jesus chagado: «Ah, não! Ó Senhor, não quero ficar sem sofrimentos, porque vos vejo coberto de feridas» (In Passione Christi). E outra vez: Eu não quero mais separar-me de Jesus Cristo. Junto dele está-se bem; quero estabelecer nele três aposentos: um em suas mãos, outro em seus pés, o terceiro em seu coração, e neste habitarei continuamente. Ali falarei ao seu coração e obterei tudo o que quiser (Collat.).
«Eu vos trago esculpidos nas palmas de minhas mãos», disse Jesus pela boca de Isaías (Is 49,16). Estamos esculpidos em suas chagas, não com tinta, mas com seu sangue; não por meio de uma pena, e tão profundamente que nem o tempo nem a eternidade poderão apagar essa impressão.
Tão preciosas e caras são para Jesus suas chagas, que, mesmo ressuscitado, quis conservá-las e mostrá-las no céu para sempre; e eis as razões: 1° para atestar que revestiu nossa carne…; 2° para recordar as atrocidades de sua paixão…; 3° para mostrar sua vitória sobre a morte e provar sua ressurreição, tendo ressuscitado aquele mesmo corpo que foi crucificado…; 4° para manifestar os sinais de seu ardente amor…; 5° para mostrar os troféus de sua vitória sobre o demônio, o inferno, o pecado e a morte…; 6° para exibir os gloriosos ornamentos de seu corpo e os esplêndidos triunfos…; 7° para ser penhor de nossa redenção…; 8° para atestar sua obediência até a morte…; 9° suas sagradas chagas são preciosos monumentos de seus trabalhos e de suas dores…; 10° provam que são a satisfação por todos os pecados e que, mostrando-as a seu Pai, ele obtém misericórdia para os pecadores…; 11° são a consolação dos aflitos, o exemplo da paciência, o refúgio dos desventurados, o estímulo dos penitentes, o asilo dos tentados, a coragem dos que trabalham, o modelo dos mártires, a alegria dos eleitos, a vergonha dos réprobos no dia do juízo, o assombro e a admiração do céu, o terror do inferno…