Tesouro n.º 152 · Volume III

PENITÊNCIA PENITENZA

9 seções · 33 parágrafos · pp. 1790–1800 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É A PENITÊNCIA

A palavra penitência, derivada dos dois vocábulos pena e ter, denota, propriamente falando, a ação pela qual alguém toma, isto é, aplica a si mesmo a pena, poenae tenentia… A penitência, portanto, pode ser definida com Santo Ambrósio como «dor do coração e amargura da alma pelos pecados cometidos» (De Poenit.) … A penitência é a reforma de uma vida desregrada, a inteira mudança dos maus costumes… A penitência é uma morte que não nos priva da vida; ela mata o homem do pecado, imola as concupiscências da carne e as sacrifica a Deus.

2. NECESSIDADE DA PENITÊNCIA

Narra-nos o Evangelho que, para preparar o caminho do Senhor, «veio João ao deserto da Judeia, dizendo em alta voz: Produzi frutos dignos de penitência; porque o machado já está posto à raiz da árvore; e toda árvore que não produz bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mt 3, 1, 2, 8, 10).

Jesus Cristo confirmou depois a pregação de João, dizendo claramente: «Se não fizerdes penitência, todos perecereis» (Lc 13, 3); e pouco depois reiterou a mesma advertência com as mesmas palavras (Id. 5). Poderia inculcar-nos a necessidade da penitência com expressões mais claras e fortes? Afirmou ainda ter vindo chamar os pecadores à penitência (Lc 5, 32). Comentando estas palavras, Santo Ambrósio observa que, se a graça depende da penitência, quem se recusa a fazer penitência renuncia à graça (De Poenit.).

Por isso, diante da repreensão feita por São Pedro aos judeus, por terem crucificado o Filho de Deus, Jesus Cristo, o verdadeiro Messias, muitos deles, tocados pelo arrependimento, perguntaram-lhe o que deveriam fazer; e ele lhes respondeu: «Fazei penitência» (At 2, 38). São Paulo, cumprindo esta ordem natural e divina, confessa de si mesmo que mortificava o corpo e o mantinha escravo da alma por meio da penitência, para que, depois de ter pregado aos outros, não tivesse a desgraça de tornar-se ele próprio réprobo (1Cor. 9, 27). Aquilo que fazia, recomendava-o também aos outros: «Mortificai os vossos membros», escrevia, por exemplo, aos colossenses (3, 5).

O alimento que não é temperado com sal corrompe-se; sem o sal da penitência, os costumes corrompem-se e o corpo entrega-se à desordem, ou, pelo menos, ao relaxamento. Além disso, como observa excelentemente São Gregório, Deus jamais poupa o culpado, porque jamais deixa o delito impune. Ou o pecador pune a si mesmo com a penitência, ou Deus, entrando em juízo com ele, o castiga (Moral. lib. 9, c. XXVII). Ouvi, com efeito, o que disse o Senhor na Apocalipse ao anjo de Éfeso: «Tu te afastaste do teu primeiro fervor. Lembra-te, pois, de onde caíste, e faze penitência; do contrário, não tardarei a vir a ti e, se não te moveres à penitência, retirarei o teu candelabro de seu lugar» (Ap. 2, 4-5).

Esteja sempre em nossa mente aquela sentença do Sábio: «Se não fizermos penitência, cairemos nas mãos do Senhor, e não nas dos homens» (Eclo 2, 22). Salutarmente aterrorizado por este pensamento, o Salmista dizia: «Porque me destes este preceito, caminhei pelas espinhosas veredas da penitência» (Sl 16, 4).

3. EXEMPLOS DE PENITÊNCIA

Jesus Cristo não se contentou em recomendar que se fizesse penitência, mas, desde o momento de sua encarnação, de seu nascimento numa estrebaria, até sua morte na cruz, sofre continuamente para expiar os pecados do mundo…

São João Batista prega a penitência e ele mesmo, desde a mais tenra idade até o martírio, dá dela o mais luminoso exemplo.

Os apóstolos anunciam a penitência, e toda a sua vida é uma contínua mortificação da carne, uma penitência cotidiana…

Santa Maria Madalena, Santa Maria Egipcíaca, Santa Taís, Santa Margarida de Cortona, os mártires, os confessores, as virgens, as ordens religiosas; todos os santos de todos os séculos, inclusive aqueles que levaram uma vida pura e imaculada, fizeram penitência… Sirva-nos de estímulo a todos o exemplo dos ninivitas (Jn III), os quais, à palavra de Jonas, que pregava a penitência ou o extermínio, ficaram tão compungidos de dor por seus crimes, que todos, desde o rei até o último plebeu, fizeram penitência na cinza, no jejum e no cilício, e até mesmo obrigaram os animais a jejuar.

4. EXCELÊNCIA DA PENITÊNCIA

«As lágrimas dos penitentes são o vinho dos Anjos» — diz São Bernardo (Serm. III in Cant.); e uma lágrima de penitência queima mais os demônios, diz Santo Anselmo, do que todo o fogo (Monolog.). Sobre o fato de Pedro que, depois de ter negado o Divino Mestre, chora amargamente, Santo Ambrósio diz as seguintes palavras: «As lágrimas da penitência lavam os pecados. As lágrimas do arrependimento não imploram, mas merecem o perdão. E bem o sabes tu, ó Pedro, que, antes de chorar, caíste; apenas choraste, levantaste-te (In Evang.)». A penitência é um sacrifício pelo pecado; nela se oferece a Deus a maceração da carne em expiação das culpas cometidas.

O Eclesiástico, falando do rei Josias, diz que sua memória exala como suave perfume preparado por mão hábil. Sua lembrança será doce para todos os homens, como o mel ao paladar, como os cantos em meio a um festim; porque «foi guiado do alto para conduzir o povo pelos caminhos da penitência e para afastar as abominações da época ímpia» (Eclo 49, 1-3).

São Bernardo diz: «Haverá espetáculo mais maravilhoso de se ver ou martírio mais rigoroso de suportar do que o de uma vontade firme e constante em sofrer fome em meio às iguarias, padecer frio tendo abundância de preciosas vestes, permanecer pobre em meio às riquezas que o mundo oferece, que Satanás exalta e que nosso apetite deseja? Não será justamente coroado aquele que tiver combatido assim, fechando os ouvidos às promessas do mundo, rindo-se das tentações do inimigo dos homens e, o que é ainda mais glorioso, triunfando das próprias inclinações e crucificando a concupiscência que as estimula? (In fest. om. Sanct)».

5. VANTAGENS DA PENITÊNCIA

Maria Madalena, da qual haviam saído sete demônios, foi a primeira a quem coube a honra e a felicidade de ver Jesus ressuscitado; mas ela o merecera fazendo penitência. A este propósito aplica-se aquele dito de Santo Agostinho: o homem foi vitorioso sobre uma esterqueira (na pessoa de Jó); foi vencido no paraíso (na pessoa de Adão) (Homil.). Aquele que encontra seu alimento no jejum, seu repouso na oração, seu pão na palavra de Deus, sua veste nos andrajos, seu leito num simples manto, seu sono sobre a terra nua, enquanto a alma conversa com o Senhor em santas vigílias; este, no parecer de São Paulino, encontrou o verdadeiro repouso (Epist.).

Há duas coisas que nos defendem contra o pecado: a confissão frequente e a penitência… Ouvi São João Crisóstomo: «A penitência é o remédio mais eficaz que podemos ter para curar nossas feridas; ela cura tão radicalmente e faz desaparecer de tal modo as úlceras da alma, que não deixa nelas cicatriz nem vestígio algum; coisa impossível nas feridas do corpo (Serm. de Poenitentia)». Santo Isidoro escreve: «A penitência é bálsamo para as feridas, âncora de salvação; por ela provoca-se a misericórdia de Deus; por ela reprime-se e castiga-se a carne corrompida (De Summo Bono, lib. III)». Com efeito, o Senhor, diz o Sábio, compadece-se de todos os homens porque pode tudo e se esquece dos pecados deles quando fazem penitência (Sb 11, 24). «Por isso Tertuliano exorta o pecador a apoderar-se da penitência, a abraçá-la, a agarrar-se a ela, como o náufrago a uma tábua de salvação; ela o tirará das ondas perigosas do pecado e o conduzirá ao porto da clemência divina (Lib. 1, de Poenit.)».

«Ó penitência — exclama São João Crisóstomo —, ó penitência que, pela misericórdia de Deus, perdoas os pecados e abres o paraíso, que fortaleces o abatido, alegras o melancólico, reconduzes os mortos à vida, restabeleces o pecador na graça, restituis-lhe sua dignidade primitiva, inspiras-lhe confiança, reparas-lhe as forças e fazes chover em sua alma uma graça mais abundante! Ó penitência, como narrarei as tuas maravilhas? Tu quebras as cadeias, reprimes todo relaxamento, alivias toda adversidade, curas toda ferida, dissip as trevas, reanimas aquele que estava desesperado! Ó penitência, mais resplandecente que o ouro, mais brilhante que o sol, jamais vencida pelo pecado, jamais abatida pela defecção, jamais expulsa pelo desespero! Ó penitência, mãe da misericórdia e mestra das virtudes! Grandes são as tuas obras; essas obras pelas quais absolves os culpados, restauras os que desfalecem, reergues os caídos, encorajas os desesperados! Por ti Jesus Cristo, num instante, apoderou-se do bom ladrão e o colocou em seu reino; por ti Davi, restituído à felicidade depois do delito, recuperou o Espírito Santo (Serm. de Poenit.)».

Vê-se quanto a penitência é vantajosa pelo fato de apagar todos os delitos, obter misericórdia, triunfar sobre Deus e sobre a vingança do juiz supremo, ligando, por assim dizer, o próprio Onipotente, que já declarou que, quando seus filhos voltassem para ele pela penitência, curaria e perdoaria todas as suas transgressões (Jr 3, 22). Vede o que é a penitência e como ela transforma um pecador em um homem inteiramente diferente. A penitência repara todos os erros, todas as faltas da vida; aplaca a Deus e o torna propício; remove os escândalos, muda o espírito e o coração; numa palavra, renova todas as coisas… «A penitência — escreve Santo Agostinho — cura os enfermos, trata os leprosos, ressuscita os mortos, aumenta a saúde, conserva a graça, endireita o coxo, restitui a vista ao cego, expulsa os vícios, embeleza as virtudes, arma e fortalece a alma (De poenit.)». «Quem, no mundo, pecou mais do que Paulo? — diz São Pedro Crisólogo — quem, na religião, faltou mais gravemente do que Pedro? No entanto, eis que, em virtude da penitência, ambos mereceram não somente tornar-se santos, mas mestres elevadíssimos de santidade (De Miseric.)».

Para nos fazer compreender o imenso poder da penitência, Deus nos assegurou que, quando um pecador se arrepende do mal com que provocou contra si as suas ameaças, também ele se retrata do mal que havia ameaçado fazer-lhe (Jr 18, 8). A penitência é uma virtude de tal força que obriga Deus não somente a mostrar-se misericordioso para com o pecador convertido e a amá-lo, mas também a obedecer-lhe, a velar por ele, a protegê-lo, a combater em seu favor. Hugo de São Vítor diz: «Ó penitência, cheia de fruto e vigor; ó virtude poderosa, que ninguém saberá jamais amar suficientemente; mediadora fidelíssima entre Deus e o pecador! Ó segunda tábua depois do naufrágio! Ó refúgio dos indignos, auxílio dos miseráveis, esperança dos exilados, apoio dos fracos, luz dos cegos, bastão que detém a inclinação para a volúpia, viveiro de virtudes! Ó penitência, somente tu enterneces o juiz supremo, somente tu justificas o homem diante do Criador, somente tu triunfas do Onipotente! Tu és vitoriosa quando pareces vencida; imolas os vícios quando te submetes aos santos rigores da expiação; curas ferindo e começas um reino glorioso no mesmo instante em que a morte vem interromper tua obra salutar. Diante de ti, toda outra virtude silencia; somente tu sobes segura e altiva até o trono de Deus. Tu conduzes Davi à reconciliação, reergues Pedro, iluminas Paulo, introduzes o publicano no colégio dos Apóstolos; tu elevas a Madalena, da prostituição ao mais alto grau de santidade; tu inscreves no número dos eleitos o ladrão que pende de um patíbulo. Que felizes efeitos ainda não produzes! A corte celeste te pertence por direito; por ti reina a abundância onde se encontrava a mais desoladora miséria; tu aplacas a fome; substituis a glória ao opróbrio; tornas vãos os assaltos e os cruéis desejos dos demônios, revelando a fealdade deles, o fedor que espalham e a morte eterna que os acompanha; banes a fome e a sede, conduzindo à fonte da vida; tornas férteis e ubérrimos os campos antes áridos e incultos; dissip as a tristeza e inspiras a alegria; apagas a vergonha e fazes que lhe sucedam a consolação e a glória; fazes esquecer as injúrias e dás a paz; ressuscitas os mortos e, por um pouco de cinza, concedes uma coroa (De Poenit.).»

De tal valor é a penitência, segundo São Jerônimo, que restitui ao pecador todas as suas antigas virtudes e todos os méritos por ele adquiridos antes de cair (Epl.). Este é também o sentimento de São Tomás e de todos os teólogos. Por meio da penitência, aquele que pecou retorna à vida sobrenatural para gozar de uma graça maior; pois, às graças antigas, acrescenta a graça da ressurreição espiritual, que é a graça das graças… Nínive recebe da própria boca de Deus a sentença de sua ruína; faz penitência e é salva. «Deus — observa Santo Agostinho —, querendo assustar essa cidade, corrige-a provando-a; muda-a, ameaçando-a. Nínive recorre à penitência, e Deus lhe perdoa (In Ion. proph.). «A iniquidade de Nínive — diz São Gaudêncio — foi destruída porque ela fez penitência» (In Ion. proph.).

A penitência apaga todos os crimes; aplaca a cólera divina; transforma os escravos de Satanás em amigos de Deus; converte homens injustos, ímpios, infiéis e culpados em pessoas justas, piedosas, fiéis e santas. A penitência anula a maldição e lhe substitui a graça e a justificação. Fecha o inferno e abre aos pecadores o seio de Deus. Assim falam São João Crisóstomo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, Tertuliano e outros Padres e Doutores… São Bernardo chama a penitência de vingadora dos crimes e nutriz das virtudes (Serm. de S. Andreae); e em outro lugar escreve assim: «Minha penitência é o alimento de Jesus Cristo. A mortificação me corrige, a maceração me purifica. Demos motivo de alegria aos Anjos quando nos abraçamos à penitência (Serm. LXXXI, in Cant.)».

Consoladoríssima, enfim, é aquela sentença do Crisóstomo: «Aquele que, prudentemente e com habilidade, mostrou frutos de penitência pôde, em pouco tempo, apagar os crimes de uma longa vida (Homil. ad pop.)».

6. QUALIDADE DA PENITÊNCIA

1° A penitência deve ser forte e generosa. «Quem semeia pouco — diz o grande Apóstolo — colherá também pouco; quem semeia com largueza colherá também abundantemente» (2Cor 9, 6). «A largueza do perdão que Deus concedeu a Davi — observa Santo Ambrósio — revela bem quão grande e generosa era a sua penitência (De poenit.).»

2° A penitência deve estar unida à humildade e ao temor de Deus… Assim como uma terra árida e inculta não produz fruto, também sem humildade ninguém pode fazer verdadeira penitência. Com efeito, por que existe a penitência, senão porque somos pecadores? Ora, o pecado é uma revolta que não é perdoada senão na medida em que a pessoa se humilha… Jamais deveríamos esquecer aquele dito do Eclesiastes: «Não estejas sem temor do pecado perdoado» (Ecl 5, 6).

3° A penitência deve mortificar a carne: «Mortificai os vossos membros» (Cl 3, 5), escreve São Paulo aos Colossenses; e aos Romanos dizia que, se vivessem segundo a carne, morreriam; mas, se pelo espírito mortificassem as obras da carne, viveriam (Rm 8, 13). «O corno sai da carne, diz Santo Agostinho, e é necessário que, atravessando-a, seja forte e sólido para resistir. Quem pretende fazer verdadeira penitência deve fazê-la com força, para que possa vencer e triunfar da carne e de seus desejos (De vera et fal. Poenit. c. VIII). Se os soldados de Gedeão, observa o abade Isaías, não tivessem quebrado seus vasos de argila, não teria aparecido a luz das lâmpadas. Se o homem não castigar e quebrar seu corpo com a penitência, não verá a luz de Deus. Se Jael não tivesse tido um prego na mão, não teria abatido o soberbo Sísara. Se a alma quer caminhar para Deus, deve empenhar-se em crucificar todos os vícios da carne (Vit. Patr.).

4° «A penitência sincera consiste, diz São Gregório, em detestar os pecados cometidos e evitá-los no futuro» (Homil. 34, in Evang.). Segundo Santo Agostinho, ela deve ser uma espécie de vingança que aquele que se arrepende exerce contra si mesmo; ele pune em si aquilo que lhe dói ter cometido (De vera et fal. Poenit. c. VIII).

5° A penitência deve abranger todas as faculdades do homem…, estender-se aos olhos, aos ouvidos, às mãos, aos pés, à língua, a todos os atos e a todos os tempos da vida… Seja exterior, mas sobretudo interior; reine sobre os pensamentos, os desejos, os afetos, o intelecto, a memória, a vontade, o espírito e o coração. Ela é para todas as idades e para todas as condições: «A penitência requer, segundo o Crisóstomo, a contrição do coração, a confissão da boca e a humildade das obras (Serm. de Poenit.)». Diz Ricardo de São Vítor: Aquele que, mediante o Espírito Santo, reprime fortemente os desejos da carne e os afetos desordenados do coração faz perfeita penitência. Sem a penitência da alma, de nada vale a do corpo (De Statu inter hom.).

6° A penitência deve continuar até a morte… São Clemente, discípulo e sucessor de São Pedro, assegura que tão profunda foi a dor que este Apóstolo sentiu por sua queda, que fez penitência por toda a vida e, todas as noites, ao canto do galo, prostrava-se por terra e a banhava de lágrimas (Storia eccles.). «Aqueles, diz São Gregório, que têm verdadeiramente o espírito voltado para a prática das mortificações, procuram-nas com aquele ardor com que um mineiro escava a terra para encontrar nela o tesouro: quanto mais se aproximam do fim de sua obra, tanto mais se empenham (Homil. 34, in Evang.)». A penitência deve começar com a vida e terminar com ela.

7. A PENITÊNCIA NÃO É PENOSA

A beleza e o suave perfume da rosa compensam fartamente os espinhos que a cercam e ferem aquele que a colhe. A ânsia do lucro e a esperança de rever a pátria tornam leves as penas dos comerciantes que enfrentam os perigos do Oceano… A esperança da cura torna precioso o amargor do remédio… Quem quer a amêndoa quebra a casca… Assim, o cristão que quer gozar da alegria de uma boa consciência acha fácil e doce a penitência… Quão breves e leves devem parecer as expiações desta vida àquele que sabe ter merecido, e talvez cem vezes, o inferno! … Além disso, não vem acaso a graça em socorro do penitente? As consolações que se encontram nos sofrimentos vencem de muito longe todas as suas amarguras: Deus mede as consolações pela régua da penitência… São Paulo, que praticava grandes austeridades, exclama: «Estou cheio de consolação, transbordo de alegria em toda a nossa tribulação» (2Cor 7, 4).

8. A VERDADEIRA PENITÊNCIA É RARA

Oh, como se verifica infelizmente de modo tão universal aquele dito de Jó: «Deus deu ao homem os meios e o tempo para fazer penitência; e ele abusa deles em seu orgulho» (Jó 24, 23). Diz Santo Ambrósio: «Acontece-me encontrar mais facilmente pessoas que conservaram sua inocência do que pecadores que tenham feito uma penitência proporcional às suas culpas (De Poenit., l. 2, c. X)».

Mas o mal não para aí, porque não fazer penitência conduz depois a culpas maiores, segundo o dito de São Gregório: «O pecado não destruído pela penitência, bem depressa, com seu próprio peso, arrasta a outro pecado (Homil. 34, in Evang.)». A penitência é um freio; quem o despreza é pouco a pouco levado para onde querem o demônio, o mundo e a carne… Ó céu! Quais são os costumes daqueles que se furtam à penitência, que fogem da mortificação? Vão de excesso em excesso, de delito em delito, de abismo em abismo; percorrem, em suas quedas, todos os graus do vício e da infelicidade, sem deter-se em nenhum… não pararão senão no inferno…

A sentença já foi pronunciada por Deus pela boca de João Batista: «Toda árvore que não dá bom fruto será cortada e lançada ao fogo» (Mt 3, 10); e pelo próprio Jesus Cristo, que disse: «Se não fizerdes penitência, perecereis irremissivelmente todos» (Lc 13, 5)… O pecado não pode ficar sem castigo; se o pecador não o punir ele mesmo com a penitência, Deus o punirá com as desgraças e com o inferno… Ó penitência, ou morte eterna…

9. MEIOS PARA FAZER PENITÊNCIA

Um bom meio de fazer uma penitência útil e sincera é aquele indicado por São Pedro Damião, que nos sugere erigir um tribunal em nossa consciência e ali instaurar o debate, de modo que o pensamento acuse, a razão julgue, a penitência execute a sentença e castigue, e as lágrimas sulquem o rosto. Por esta imitação do martírio, chegaremos à dignidade daqueles que derramaram o sangue pela fé (Epist.). Imitemos Madalena, sugere São Gregório, a qual, tantos prazeres quantos experimentou, tantos holocaustos encontrou em si mesma para oferecer; quantos delitos havia cometido, tantos atos de virtude praticou, com a intenção de voltar ao serviço de Deus, pela penitência, tudo aquilo de que havia abusado, em desprezo de Deus, pelo pecado (Homil. 33, in Evang.).

Quem quer fazer uma boa e sincera penitência deve ainda: 1° Lembrar-se de seus pecados passados…; 2° temer pelos pecados que cometeu…; 3° não perder de vista o tempo que é concedido ao homem e que se reduz ao tempo presente…; 4° desprezar o mundo…; 5° humilhar-se…; 6° pensar no inferno…; 7° voltar a mente para o céu…; 8° meditar na paixão e morte de Jesus Cristo…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.