É clara e formal a sentença de Jesus Cristo: «Ninguém pode servir a dois senhores» (Mt 6,24); São Paulo pergunta: «Que aliança pode haver entre Cristo e Belial?» (2Cor 6,15). É preciso dizer com São Cipriano que o pecador e Deus, e a sua graça, podem estar juntos tanto quanto o amargo com o doce; as trevas com a luz; a chuva com o tempo sereno; a guerra com a paz; a esterilidade com a fecundidade; a seca com a umidade; a tempestade com a bonança (Lib. 1, Epist. VIIl).
O pecador é o primeiro a romper toda comunicação com Deus; somente depois desse abandono é que Deus se afasta do homem: «O pecador diz a Deus: ― Afasta-te de mim, porque não quero conhecer os teus caminhos» (Jó 21,14). Ele brada, enfurecido, com os judeus: «Não queremos que este reine sobre nós: Não Jesus, mas Satanás queremos» (Lc 19,14; Jo 18,40). «Deus não abandona ninguém, diz Santo Agostinho, a menos que veja que ele próprio o abandonou primeiro; e reconduz a si muitos fugitivos» (In Psalm.). «Quem abandona a Deus, diz São Fulgêncio, é justamente abandonado por ele» (Epl. VI).
Depois que Oseias, por expresso mandamento de Deus, tomou uma esposa, foi-lhe ordenado que impusesse nomes proféticos a cada um dos filhos que lhe nascessem; e o terceiro foi chamado: «Não meu povo», porque Deus diz: «Vós não sereis mais o meu povo, e eu não serei mais o vosso Deus» (Os 1,9). Aquilo que Deus diz do povo de Israel deve ser dito do numeroso e infeliz povo dos pecadores.
No céu, os anjos e os santos; aqui embaixo, o sol, a lua, as estrelas, a terra, os mares e todas as criaturas; no inferno, os réprobos e os próprios demônios obedecem e obedecerão eternamente a Deus; somente o pecador lhe resiste. As criaturas irracionais obedecem, e o pecador, dotado de razão, nega obediência; ó detestável rebelião!… Santo Agostinho diz: «Tu, ó homem, que mandas na criatura, recusas-te a servir o Criador! Tu, que exerces domínio, não queres reconhecer o Senhor de todas as coisas! Teme a paciência do Senhor, se não queres experimentar a severidade dos seus juízos (1)».
Aos pecadores podem aplicar-se as palavras de Deus ao povo hebreu: «Vós quebrastes o meu jugo, rompestes as minhas correntes e dissestes: Não servirei» (Jr 2,20). «Não quiseram ouvir as minhas palavras, seguiram deuses estrangeiros para servi-los» (Jr 11,10).
São João Crisóstomo, comentando o fato de Jonas, que procurou fugir da presença do Senhor (Jn 1,3), vê em Jonas a figura dos pecadores que, semelhantes a embriagados, não prestam atenção para onde vão; mas, seguindo as suas paixões, perdem-se por sua própria loucura e desobediência (Homil. ad pop.).
«Eu nutri filhos, diz o Senhor, e os fiz crescer; e eles me voltaram as costas» (Is 1,2). Pecadores! Preferis a criatura ao Criador, o nada a Deus, o vício à virtude, o inferno ao céu; poderíeis demonstrar maior desprezo pelo Senhor!… Ele é o vosso rei, o vosso senhor, o vosso pai, e vós o desprezais! Ah! Não o desprezareis mais quando for juiz! …
Considerai, ó pecadores, e aplicai a vós mesmos as palavras de Jesus a Saulo, perseguidor de Cristo e de sua Igreja: «Ó Saulo, por que me persegues?» (At 9,4). Por que vós me perseguis e procurais matar a mim, que venho atrás de vós para dar-vos a vida? Eu sou manso, bom, misericordioso; não vos fiz mal algum; jamais vos ofendi; por que me tratais como inimigo? Eu, vosso pai…, vosso amigo…, vosso benfeitor…, trago-vos esculpidos nas minhas mãos e no meu coração…; por que me perseguis? ― Por vós desci do céu e me fiz homem; por vós nasci numa estrebaria; por vós sofri e trabalhei durante trinta e três anos; por vós agonizei no jardim das oliveiras, tolerei ultrajes e afrontas em Jerusalém, subi ao Calvário e expirei numa cruz… Por que me perseguis? ― Por acaso não vos cumulei de benefícios temporais e espirituais? … Não vos prometi o meu reino eterno e a minha glória? Por que me perseguis? O filho pródigo do Evangelho partiu para uma terra distante e ali dissipou todos os seus bens em festins (Lc 15,13). Eis a conduta do pecador! Desperdiça todos os dons da natureza e da graça que lhe foram confiados…; perde a graça de Deus, a caridade e todas as demais virtudes…; a sua alma e as nobres faculdades da mesma… O seu intelecto se torna tão obtuso que já nada compreende: nem Deus, nem a beleza e o valor da virtude, nem a feiura e a infâmia do vício. A sua memória se enfraquece; já não se recorda da lei divina, nem dos benefícios recebidos do Criador, nem dos seus próprios deveres… A sua vontade se corrompe a tal ponto que prefere o mal ao bem, a criatura ao Criador, o demônio a Deus, o inferno ao céu. Em vez de revestir-se de Jesus Cristo, reveste-se de Satanás; daí uma incrível pobreza de bom senso, de razão, de coragem, de boas obras etc.… Ele se avilta a serviço da criatura, das paixões, todas as forças da alma e do corpo que deveria consagrar ao serviço do Criador… Abusa todos os dias dos preciosos dons recebidos no santo batismo; profana a nobreza da alma; arruína a sua aptidão para a virtude…
Depois que o filho pródigo dissipou os seus bens, sobreveio uma grande fome naquela região, e ele se encontrou na miséria. Para sair dela, pôs-se a serviço de um senhor, que o enviou ao campo para guardar os porcos. Ele teria querido comer as bolotas que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava (Lc 15,14-16). Justo castigo do pródigo e do pecador! Ele dissipou loucamente os seus bens com companheiros tão dissolutos quanto ele; e, como punição, quando está definhando de fome, não encontra quem queira repartir com ele as provisões destinadas a animais vis… Diz São João Crisóstomo: «O fausto esbanjador do filho pródigo teve como castigo a fome, de modo que a pena vingadora se fez sentir onde a culpa havia sido cometida. Mas quão cruel não é o serviço ao qual ele é reduzido! Aquele que guarda um rebanho de porcos não pode comer o alimento dos porcos! (2)». O que acontece ao filho pródigo é figura do triste estado ao qual se reduzem todos os pecadores, e especialmente os impudicos… São despojados do manto das virtudes e da graça; perdem a glória e a herança do céu, que delas deveriam receber.
Além disso, o filho pródigo, de livre, tornou-se servo; nobre de nascimento, tornou-se infame por sua própria culpa: não de outro modo acontece com o pecador, tendo Deus declarado que haveria de abater os pecadores até o pó (Sl 140,6,6); a ele se aplicam precisamente aquelas palavras do Salmista: «Afundei-me em lodo profundíssimo, que não tem consistência; naveguei no mar envenenado do mal, e a tempestade das paixões me tragou» (Sl 68,2-3).
«Considerai, escrevia São Paulino de Nola a Severo, a existência dos pecadores, e os vereis semelhantes ao jumento cego que gira a mó de um moinho. Cegos pela impureza de sua vida e pelas desordens dos seus sentidos, já não veem coisa alguma e giram sem cessar, horrivelmente angustiados, no círculo dos seus vícios, arrastando a mó do pecado, sem jamais romper a cadeia que os prende a essa roda, com a qual trituram a inocência, a alma, o coração; e as virtudes e a coroa que lhes estavam prometidas na eternidade. De peso enorme, incalculável, é essa mó, porque formada de suas perversidades… Os pecadores também podem ser comparados a cavalos pelos quais Satanás, e com ele todo o inferno, se fazem arrastar» (Epist.). São Jerônimo, por sua vez, chama os pecadores de cadáveres animados pelos demônios (Epl.).
A Sagrada Escritura fala frequentemente da horrenda escravidão dos pecadores: «O ímpio, lemos nos Provérbios, está enredado em suas iniquidades como numa rede, está amarrado por seus pecados como por cordas» (Pr 5,22). «Quem se entrega ao prazer ignora que é conduzido à servidão» (Pr 7,22). «Todos os pecadores, diz o Sábio, estavam presos por uma cadeia de trevas» (Sb 7,17).
Os pecadores são escravos do demônio…, escravos de suas paixões…, escravos de seus maus hábitos, escravos da morte… Pecando, o homem que pouco antes exercia sobre o próprio Deus certo império, torna-se escravo do inferno e de todas as criaturas mais fracas e mais vis…
Não há nada mais fraco que o pecador, nem nada mais forte que o justo. Eis as razões: 1° A concupiscência e as paixões que conduzem ao pecado enfraquecem o espírito e tornam efeminado o coração; mas, triunfando sobre elas, a virtude revigora os ânimos e torna enérgicos os corações. 2° Os remorsos corroem o pecador e o abatem; a tranquilidade de consciência do justo o sustenta e fortalece. 3° O pecador não possui a graça de Deus, ao passo que o justo a possui; ora, a graça é onipotente; por meio dela podem realizar-se os empreendimentos mais difíceis: disso dão prova os apóstolos, os mártires, os missionários e as virgens. Sem a graça, ao contrário, nada de bom se pode fazer. O justo é magnânimo e cheio de confiança; o pecador é tímido, vacilante e pusilânime. Temendo pôr em risco a fortuna, a fama e a vida, o pecador torna-se infiel à sua crença e comete pecados que o fazem perder o céu e a felicidade eterna; o justo não teme senão aquilo que verdadeiramente se deve temer, e de todo o resto zomba.
É conhecida por todos a fraqueza dos judeus; tão logo Deus os provava com alguma adversidade, imediatamente murmuravam contra ele e o blasfemavam… Assim ocorre com todos os pecadores… Onde encontrarão eles, com efeito, a força necessária para realizar grandes e santas obras?
Neles, diz Hugo de São Vítor, não se encontra nem mortificação da carne, nem lágrimas de compunção, nem serenidade de consciência. Em vão procurais neles o conhecimento de si mesmos, o zelo da justiça, o fervor da sabedoria, o bom odor da misericórdia, a doçura da contemplação, a suavidade dos bens eternos, a prática da penitência, o desprezo das coisas terrenas, a consolação da caridade fraterna, a sede das recompensas celestes, o amor ao bem (De Anim.). Abandonados às próprias forças, que não são senão fraqueza, mostram-se incapazes de toda ação sobrenatural. Assemelham-se às folhas de outono, que a seiva já não alimenta e que o vento facilmente desprende dos ramos e espalha aqui e ali.
Disse uma grande verdade o Profeta ao afirmar que odeia a própria alma aquele que ama a iniquidade (Sl 10,5); com efeito, como se pode dizer que a ama, ou ao menos que a suporta, quando nunca pensa nela nem a alimenta, não a veste, não a visita, não lhe fala, jamais emprega médico ou remédio para curá-la, embora esteja doente e agonizante? … É preciso dizer que ele a detesta, pois a vende por nada, por um prazer vil, por uma coisa vergonhosa… É preciso dizer que ele a abomina, se a priva de toda liberdade, de toda consolação, de todo brilho, a abandona aos seus inimigos e lhe dá a morte…
Santo Agostinho escreve: «Quando foi dito à serpente: Tu comerás a terra, também foi dito ao pecador: Tu és terra e à terra hás de voltar». Não somos, pois, terra, se não queremos ser devorados pela serpente que seduziu Eva (3)». O demônio alimenta-se dos pecadores, como de um manjar requintado… O homem que, por cegueira, imprudência ou furor, deseja, procura e abraça coisas de nada em vez das grandes e essenciais; que prefere os bens fúteis aos sólidos, o que passa àquilo que dura eternamente, a volúpia à pureza, a terra ao céu, a carne ao espírito etc.…, esse já não tem coração. Vênus, Plutão, Baco e semelhantes, isto é, o demônio da luxúria, da avareza ou da gula, devoraram-lhe o coração…
Mas, se o coração foi devorado pelo demônio, em que se transforma o pecador senão num demônio? É isto que São João quer indicar quando, falando dos pecadores, os chama de Anticristos (1Jo 2,18). Com efeito, que faz o pecador? O Salmista o diz em duas palavras: «Irrita a Deus» (Sl 9,24). E opor-se, combater contra o Senhor não é porventura esta a empresa do Anticristo? … Eis por que Santo Agostinho vê no Anticristo não somente o grande adversário que lutará contra Deus no fim do mundo, mas também toda a multidão dos ímpios oposta a Jesus Cristo (In Epl. S. Ioann.).
Há pecadores tão corrompidos e culpados que parecem não ser outra coisa senão um instrumento do pecado; quase não há iniquidade que não tenham cometido; estão sepultados nas perversidades como o rico no inferno, e deles se pode dizer aquela frase de São Paulo: «Vendidos ao pecado» (Rm 7,14). O Apóstolo assim os descreve: «Haverá homens cheios de si mesmos, ávidos, arrogantes, soberbos, blasfemadores, rebeldes contra seus pais, ingratos, perversos, insensíveis, implacáveis, detratores, dissolutos, cruéis inimigos dos bons, traidores, insolentes, amantes do prazer e avessos à virtude» (2Tm 3,2-5).
São Pedro dá aos pecadores o nome de porcos que se revolvem na lama (2Pd 2,22). E com razão assim os chama, porque 1° assim como os porcos procuram e amam as coisas sujas e repugnantes, assim o pecador procura e ama as paixões que reduzem o homem ao estado de bruto… 2° O pecado é algo de imundo, repugnante e infecto, como os lugares onde os porcos gostam de estar… 3° O alimento do pecador é semelhante ao desses animais… 4° O porco não se ocupa de outra coisa senão de seu ventre, não olha senão para a terra e deita-se na lama; em suma, não passa de uma massa de carne; em que difere dele o pecador? 5° O porco não tem sentimento algum, não conhece seu dono e, algumas vezes, o morde; assim faz o pecador obstinado; não conhece a Deus, crucifica Jesus Cristo… 6° O porco engorda para ser morto e comido; o pecador imola a si mesmo e serve de alimento a Satanás.
Os pecadores, dizem os Provérbios, desviam-se do caminho reto e enveredam por sendas tenebrosas. Alegram-se por terem feito o mal e exultam em meio às perversidades. Sua conduta é perversa, seu comportamento é infame (Pr 2,14-15). Não é de admirar, pois que outra coisa pode querer um coração corrompido, depravado e habitado pelos demônios, senão o mal e a infâmia? Uma fonte cuja água seja amarga acaso produz outra coisa senão amargura?
A via perversa do pecador é chamada pelo Sábio de caminho estranho (Pr 21,8); e o profeta Baruc diz: «Pecador, habitas numa terra inimiga e estrangeira; maculaste-te com os mortos; tornaste-te semelhante àqueles que descem ao abismo. Abandonaste a fonte da sabedoria» (Br 3,10-12). O caminho dos pecadores é estranho: 1° à justiça, isto é, àquilo que a sã razão sugere ser reto, probo e honesto. 2° É, consequentemente, estranho à dignidade do homem, que consiste na retidão da razão e na pureza da consciência. O homem verdadeiramente digno desse nome consulta esses dois guias; guarda-se de viver e agir como um bruto; foge do mal, que não é outra coisa senão uma dissonância entre a ação e o ditame da natureza racional. Fazer o mal é próprio do jumento, da besta, que não é dirigida pela razão, mas pela fantasia e pelo apetite. 3° É estranho a Deus; porque Deus estabeleceu no homem o juízo e a reta razão, para que ele siga em tudo o impulso de ambos. 4° É estranho à sociedade e ao modo de viver das pessoas racionais, que obedecem à retidão e à equidade; 5° É estranho ao próprio homem; porque o homem que peca afasta-se de si mesmo e entra em luta com as leis de sua existência. Com efeito, viver segundo Deus e a razão é próprio do homem; e quem vive segundo Deus vive sempre segundo a razão e a consciência. Ao contrário, quem vive em oposição à razão iluminada por Deus toma um caminho estranho à natureza humana.
«Há três coisas péssimas, escreve Santo Agostinho: a alma do pecador que se obstina no pecado, os anjos decaídos que a impelem para ele, o inferno para onde ela vai. Nada há que iguale esses males. Mas há três coisas incomparavelmente boas: a alma fiel que persevera no bem, os santos anjos que a encaminham para ele, o céu para o qual ela tende» (De Salut. docum., c. XLIX).
Depois de uma vida abominável, o pecador morrerá, deixando de si uma memória infame e execrada; pois infalível é a palavra do Senhor: «Aqueles que me desprezam cairão na abjeção e na infâmia» (1Sm 2,30). Por isso o Salmista diz que a memória dos pecadores perecerá com estrondo (Sl 9,7).
São João Crisóstomo, comentando aquela passagem da parábola do filho pródigo, que narra como o senhor o mandou para o campo a guardar porcos, exclama: «Eis aqui a espantosa metamorfose que acontece ao pecador e a justa pena da louca liberdade que ele se tomou! Aquele que recusou obediência ao melhor dos pais é obrigado a tornar-se escravo de um estrangeiro; quem não quis servir a Deus é obrigado a servir ao demônio; aquele que não quis permanecer na casa paterna vê-se relegado a um país estrangeiro, para ali ser atormentado pela fome; aquele que desdenhou permanecer na companhia de seus irmãos e de seus príncipes, seus iguais, é reduzido a fazer-se companheiro e servo dos porcos; aquele que teve horror de alimentar-se com o pão dos anjos pede, impelido pela fome, que o deixem saciar-se com as sobras daqueles vis animais» (In Luc. C. XV).
O grande Apóstolo diz que Jesus Cristo apagou o decreto de condenação contra nós (Cl 2,14). Esse sinal de condenação, diz Orígenes, é a assinatura que o pecador apõe ao escrito de seus crimes e que os comprova; porque aquele que peca escreve ele mesmo o seu pecado e dele se faz garantia (Homil. XIll, in Gen.). Quantos pecados cometemos, tantas cartas endereçamos à justiça de Deus, munidas de nossa assinatura e marcadas com o nosso selo, para que ela deles tome conhecimento e o nosso castigo seja certo…
«Não houve, dizia já Santo Agostinho, nada mais infeliz que a felicidade dos pecadores, a qual alimenta a sua impiedade, princípio do castigo, e fortalece o seu inimigo interior, que é a má vontade (4).» Por isso, em sua caridade ilimitada, São Paulo não cessava de deplorar essa funesta condição dos pecadores: «Já várias vezes vo-lo disse, escrevia aos Filipenses, e agora o repito com lágrimas nos olhos: há muitos que vivem como inimigos da cruz de Cristo, cujo fim é a perdição, cujo deus é o ventre e cuja glória está na própria ignomínia, os quais não apreciam senão as coisas terrenas» (Fl 3,18-19).
É verdade que todos os homens nascem na infelicidade; mas somente os pecadores vivem e morrem infelizes. Diz o Espírito Santo: «Miserável é aquele que despreza a regra e a sabedoria; vã é a sua esperança, infrutuosos os seus trabalhos, inúteis as suas obras» (Sb 3,11). A própria prosperidade, diz o Sábio, transforma-se em dano e miséria para eles, porque os cega e os perde (Pr 1,32).
Quanto é infeliz, escreve São Bernardo, quanto é infeliz o pecador quando olha para o céu, para aquela morada da luz incriada, dos louvores divinos, das sublimes glórias e das graças infinitas! Quanto mais miserável é ele quando fixa os olhos na terra e nela contempla as almas fervorosas, firmes na fé, grandes na esperança, belas pela caridade, fecundas em virtudes e em boas obras, sobre as quais caem o orvalho do céu e a bênção do Senhor! Com que amargura, dor e remorso ele, tão ávido de glória e de vaidade, vê aquelas almas tão puras, tão honradas, tão ricas, tão felizes, enquanto, gemendo na pobreza, na esterilidade e nas trevas, ele e aqueles que o imitam sabem que são o opróbrio dos homens, dos anjos e de Deus! (Serm. in Cant.).
«O pecado, diz São Tomás, é afastamento do bem supremo e incriado, e apego ao bem caduco e criado. Certamente, aquele que se afasta de Deus e, contudo, prospera, está tanto mais à beira de sua ruína quanto mais se afastou do amor da disciplina» (De Peccat.). Sim, os pecadores perdem-se por causa da tranquilidade; pois, como gozam de certa paz, mergulham cada vez mais, com furor e perseverança, nos excessos. A paz e a prosperidade dos pecadores conduzem a uma felicidade espantosa e irremediável. O pecador, como observa Salviano, afunda-se numa corrupção dos costumes tanto mais incrível quanto mais é lisonjeado pela prosperidade; esquece inteiramente a Deus e a si mesmo. Se sai de tal repouso, é para abandonar-se com maior furor aos excessos da glutonaria e da devassidão, e não vive de outra coisa senão de rapinas, crimes e infâmias. Serve-se da tranquilidade e da prosperidade de que goza para cobrir-se de ignomínia e abandonar-se ao mal com maior desenfreamento e segurança; agindo assim, torna-se indigno de todos os dons celestes (Lib. 2, ad Eccli.).
Quando o pecador está em paz, observa também São Paulino de Nola, e se põe a misturar tudo, Deus não tarda a feri-lo. A prosperidade transtorna o juízo e faz esquecer a fragilidade humana. A adversidade reprime e humilha; a prosperidade infla e ensoberbece. Oh! como é raro que, nesse estado, se manifeste a prudência! Quão fácil é, ao contrário, abandonar o caminho reto e seguir caminhos tenebrosos. Os pecadores triunfam especialmente quando correm pelo caminho do mal, dizem os Provérbios (Lib. 2, c. 14, Ep. V).
Diz Santo Agostinho: «Mesmo quando riem, os pecadores são atormentados pela consciência do mal que cometeram; rindo, morrem». «Rindo e exultando, diz São Gregório, os pecadores assemelham-se a bois que vão para o matadouro, a ébrios que correm para o precipício, a frenéticos que batem a cabeça contra a parede. Isaías diz, falando deles: A impudência de seu rosto os encobre; proclamaram os seus crimes como Sodoma e nem sequer cuidaram de escondê-los. Ai deles! Os males que sofrem são-lhes devidos» (Com. in Isai. lib. 2, c. IX).
«Aquele que peca mata a sua alma», lemos nos Provérbios (8,36). O pecador insulta a própria alma, maltrata-a, tiraniza-a, rouba-a à sabedoria, a si mesma e a Deus; entrega-a ao demônio e ao inferno. Torna-se carrasco de si mesmo, despe-se da paz, da graça, da glória e de todo bem, cobre-se da infâmia do vício, atrai sobre si os remorsos, a ira de Deus, as chamas do inferno e todos os males por toda a eternidade. «O erro e as trevas foram criados para os pecadores», diz a Sagrada Escritura (Eclo 11,16); e ainda: «O caminho dos pecadores parece calçado e plano; mas conduz ao inferno, às trevas e ao castigo» (Ib. 21,11). Ah, sim! O caminho da concupiscência, por onde andam os pecadores, apresenta-se na entrada fácil, plano, agradável, deleitoso; mas pouco a pouco se torna desigual, tortuoso, íngreme, espinhoso e melancólico; cansa e desemboca no inferno eterno. Bem diferente é o caminho da virtude.
Quem fala a um pecador endurecido faz como aquele que fala a um homem profundamente adormecido ou, como diz a Sagrada Bíblia, assemelha-se a uma pessoa que explica a um insensato as regras da sabedoria e que, ao fim de seu discurso, diz: Quem é este? Chorai o morto, porque perdeu a luz; chorai o insensato, porque perdeu a razão. O luto pela morte dura alguns dias; mas pelo insensato e pelo pecador é preciso gemer todos os dias (Eclo 22,8-13). O Espírito Santo compara o pecador ao homem que dorme; porque, 1° o homem está nos braços do sono ordinário, e o outro, no sono do delito. 2° Assim como a inteligência é impedida pelo sono, assim a razão e a prudência do pecador são impedidas pela concupiscência. 3° Quem dorme vive uma vida animal, não racional; o mesmo acontece com o pecador. 4° Quem dorme é joguete dos sonhos e dos fantasmas; ora, não é o pecador o ludíbrio das vãs aparências que lhe oferecem as criaturas, os bens da terra e as paixões? O próprio Platão dizia: «Que são todos os atrativos desta vida? Que são todos os bens e as esperanças dos mortais? Nada mais que sonhos de pessoas despertas (5)».
«Pecadores, diz o Sábio, não entregueis vossa honra a estrangeiros, nem vossos anos a um senhor cruel» (Pr 5, 9). Todo aquele que comete um pecado mortal abandona sua honra, a nobreza, a graça, o título de filho e herdeiro de Deus a estrangeiros, isto é, aos demônios; e os anos de sua vida a um cruel, que é Satanás. «Quem são aqueles que nos são estrangeiros, comenta São Gregório? Ninguém mais senão os espíritos malignos, que foram afastados para sempre da pátria celeste. E quem é o cruel, senão o apóstata que, por seu orgulho, se feriu de morte eterna e que, perdido, faz todo esforço para arrastar o gênero humano à sua ruína? O pecador, criado à imagem e semelhança de Deus, abandona, pois, sua honra a estranhos; consagra sua vida a fazer a vontade de espíritos malignos e cruéis» (In haec verba Prov.). O pecado e o demônio são os inimigos implacáveis do pecador, seus tiranos, seus algozes.
«Eis que, diz o Salmista, o ímpio cometeu a injustiça, concebeu a dor e deu à luz a iniquidade» (Sl 7, 15). Sobre estas palavras, assim fala o Crisóstomo: o pecador concebe a dor do pecado, não o arrependimento, e por isso gera a morte. A criança, antes de sair do seio da mãe, faze-a sofrer; mas, quando dele sai, torna-se sua alegria. O pecado, porém, uma vez concebido, é uma serpente nas entranhas do homem, e dá-lhe a morte, se o pecador não se livra dele pelo arrependimento e pela penitência. A concepção do pecado importa o nascimento da serpente no coração; quando o pecado é consumado, essa serpente espalha seu veneno e produz uma doença mortal. Quem dá à luz o pecado cai sob o açoite do juízo e da condenação; e, se persistir obstinado, será eternamente reprovado. A mãe amamenta de bom grado o filho, mas o pecado mata aquele que o gerou; pior que o demônio é o pecado (Homil. ad pop.). Em outro lugar, o mesmo santo chama o pecado de fera selvagem: somente ele prejudica o homem; quando é destruído, tudo é fácil e tranquilo; enquanto habita numa alma, tudo é sofrimento, agitação e perdição.
«Aos que amam combater e não querem aquietar-se diante da verdade, mas adormecem na injustiça, estão reservadas a cólera e a indignação, escreve o grande Apóstolo. Tribulação e angústia são o destino da alma que pratica o mal; glória, honra e paz terá aquela que pratica o bem» (Rm 2, 8-10).
«A salvação está longe dos pecadores» (Sl 118, 154), diz o Salmista; antes, são feridos por muitos flagelos (31, 10). «O Senhor fará chover sobre eles ciladas e laços; dar-lhes-á como porção fogo, enxofre e turbilhão de tempestade» (10, 6). «Nas mãos de Deus há uma taça de vinho turvo; ele a vai derramando ora aqui, ora ali, mas a borra que há dentro dela não se esgota; dela beberão todos os pecadores da terra» (74, 7-8); eles perecerão «e os inimigos de Deus desaparecerão, dissipados como a fumaça por uma rajada de vento» (38, 20). Então, voltado para o Senhor, dizia em nome de todos os pecadores: «Vossa indignação não deixou nada de são em meu corpo, e meus pecados levaram a desordem até dentro de meus ossos. Minhas iniquidades se elevaram acima de minha cabeça e se tornaram um peso insuportável. De minhas chagas brotaram tísica e podridão, por causa de meus desvarios. Miserável de mim, caminho curvado até o chão, na angústia, o dia inteiro. Meu coração está em tempestade; minha força me abandonou, apagou-se a luz de meus olhos; estou cego» (37, 6-10).
«Se te comportas bem, disse Deus a Caim, não receberás recompensa? Mas, se ages mal, teu pecado não tardará a mostrar-se à porta de tua casa» (Gn 4, 7). Permanecendo à porta do pecador, como um dragão vigilante, o pecado — ou, melhor dizendo, a pena do pecado — assalta-o e dele se vinga; apenas cometida a culpa, lança-se sobre ele, tortura-o e dilacera-o. Esse dragão é o remorso da consciência, a perturbação do espírito, a revolta da razão; é a cólera de Deus suspensa sobre a cabeça do pecador; é a angústia e todas as calamidades presentes e futuras com que a justiça eterna o pune. A consciência é, ao mesmo tempo, vingadora da divindade, juiz e algoz do réu; como já observava Horácio: «Raramente a pena deixou de alcançar o malvado, ao qual segue com passo claudicante, e cujo destino é levar noite e dia no peito uma testemunha invisível, e suportar os golpes de vara que lhe aplica a consciência, algoz infatigável (6)».
«Não há torturas mais horrendas que aquelas que a consciência de ter cometido o mal faz sofrer, escreve Santo Agostinho: não tendo mais Deus dentro de si, o pecador já não encontra conforto nem consolação (7)». E pode-se dizer, de certo modo, que o pecador é atingido pelas dez pragas do Egito e corre a sorte dos soldados do Faraó, afogados nas ondas do Mar Vermelho. Notai, a este respeito: 1° que os egípcios foram castigados por meio de quase todas as criaturas: a terra, o ar, a água, o fogo; as nuvens, o granizo, o raio; por meio dos animais, rãs, moscas, gafanhotos; pelo sol e pelos astros; pelos homens, Moisés e Aarão; pelos anjos e pelo próprio Deus. 2° Foram feridos em todas as suas riquezas: nos frutos que colhiam da terra, em seus rebanhos, no ouro e na prata; em seu corpo, com úlceras; em sua família, com a morte dos primogênitos. 3° Foram também feridos em todos os seus sentidos: na visão, com as trevas e os espectros; na audição, com os mugidos do trovão; no paladar, com uma sede devoradora, que não podiam extinguir senão com sangue; no olfato, com a putrefação dos insetos mortos e com a infecção que dela se originava e se espalhava também ao longe; no tato, com a dor produzida pelas úlceras e pelas picadas dos mosquitos; finalmente, no entendimento e na imaginação, com contínuas aflições e terrores de toda espécie. Eis a sorte dos pecadores e um esboço do inferno.
«Como tudo se volta para o bem dos santos, assim, diz o Sábio, tudo se converte em dano dos maus e dos pecadores» (Eclo 39, 32). «Ai, diz Isaías, ai da nação culpada, do povo manchado de crimes, da raça perversa, dos filhos sacrílegos!» (Is 1, 4). «Os rebeldes e os pecadores serão esmagados uns com os outros; os que abandonaram o Senhor serão consumidos» (Id. 28). «Pecador, sobre ti cairão todos os flagelos, a devastação, a ruína, a fome e a espada; quem te consolará?» (Id. 51, 19).
«Farei de Jerusalém, ameaça Deus, um monte de areia, convertê-la-ei em covis de dragões; entregarei as cidades de Judá à desolação, e ninguém mais habitará nelas» (Jr 9, 11). Por quê, pergunta o Senhor, por que vossa terra se tornou desolada, árida e solitária como um deserto? E responde: porque transgrediram a lei que eu lhes havia dado, não escutaram minha voz e não caminharam segundo meus preceitos; porque seguiram a perversidade de seus corações e Baal. Por isso, alimentarei este povo com absinto e lhe darei de beber fel. A espada os ceifará até que todos sejam exterminados. A morte entrará em suas casas pelas janelas e fará carnificina de seus jovens e de suas crianças (Id. 13, 16, 21). Em suma, afogá-los-ei num mar de tantos males, do qual já não poderão sair. — E o que é pior: nem sequer permite mais que o profeta ore por eles (Id. 11, 11-14). Tais são os castigos que Deus envia aos pecadores: «Semeiam vento e recolhem tempestade» (OSEAE. 8, 7); «cultivaram a impiedade e colheram o crime, comeram o fruto da mentira» (Id. 10, 13).
Saibam os orgulhosos, os ladrões, os bêbados, os impudicos, os avarentos, todos os pecadores, que, pecando, nada mais fazem senão preparar para si varas que os açoitarão nesta e na outra vida: «Quem semeia a iniquidade, lemos nos Provérbios, colherá males e fará amadurecer a vara que deverá castigá-lo» (Pr 22, 8). «Não vos enganeis, diz o Apóstolo: de Deus não se zomba. O homem colherá aquilo que semeou. Quem semeia na carne colherá da carne corrupção» (Gl 6, 7-8). «Vi, dizia Jó, o sopro de Deus varrer os obreiros da iniquidade, aqueles que semeiam dores e as colhem; o vento abrasador de sua cólera os consumiu» (Jó 4, 8-9). «Também eu, diz o Salmista, vi o ímpio exaltado em seu orgulho e elevando-se como o cedro do Líbano; passei, e ele já não existia; procurei-o, e não encontrei mais o seu lugar» (Sl 36, 35-36).
Digamos, pois, com Jeremias: «Sabe e vê, ó pecador, quão funesta e amarga coisa é para ti teres abandonado o Senhor teu Deus e já não nutrires temor dele em teu coração» (Jr 2, 19).
São Pedro, falando de Judas, diz que esse traidor deixou o apostolado para ir ao seu lugar (At 1, 25). Foi para a forca, e da forca para o inferno; eis o seu lugar. Por causa de seus vícios, não se encontrava em seu lugar quando era apóstolo. Não estava em seu lugar sobre a terra, e abandonou-a; não estava em seu lugar no ar, e o ar lhe faltou; muito menos estaria em seu lugar no céu, e para lá não foi; seu lugar era o inferno, e no inferno precipitou-se. Para o homem digno do inferno, é preciso o inferno… «Quanto aos covardes, aos incrédulos, aos execráveis, aos homicidas, aos fornicadores, aos envenenadores, aos idólatras e aos mentirosos, sua porção, diz o Senhor no Apocalipse, será no lago de fogo ardente e de enxofre, que é a segunda morte» (Ap 21, 8).
«As nações pecadoras, diz o Salmista, foram sepultadas na morte que elas mesmas prepararam» (Sl 9, 15). «E que os pecadores retornem ao inferno» (Id. 17). O inferno os vomitou; que o inferno os retome… O escritor sagrado diz que os pecadores devem retornar ao inferno, porque, como pecadores, vieram do inferno. Deus fez o homem reto e inocente; o inferno, isto é, Satanás, fez dele um pecador… A chama das paixões e do pecado primeiro queimou os pecadores; depois, a chama do Inferno os devora (Sl 105, 19). Sim, Deus precipitará os pecadores no poço da morte (Sl 54, 23).
«Embora, como observa São Bernardo, o pecador tenha pecado no tempo, é, contudo, punido num inferno eterno, por causa de sua obstinação no mal. Com efeito, é certo que aquilo que foi breve, considerado no tempo e na ação, é longo na vontade perversa, de tal modo que, se o pecador não morresse, jamais quereria cessar de pecar, ou antes, quereria viver para sempre, para poder pecar sempre. A ele podem aplicar-se, mas num sentido inteiramente diverso do verdadeiro, aquelas palavras: Consumido em breve tempo, completou uma longa carreira. Pois, uma vez que não quis mudar de intenção, é justíssimo que o pecador veja ser-lhe imputado o curso, não digo de alguns, mas de todos os séculos (8)».