O pecado é uma desobediência à lei de Deus… Que coisa é o pecado? pergunta o Crisóstomo, e responde: é o abandono espontâneo de nossa vontade ao demônio, é uma loucura voluntária. ― Que coisa é o pecado? É a completa degradação do homem, a sua suma miséria, o seu mal supremo; porque é plenamente oposto ao bem supremo… O pecado não é uma substância, não é um ser, porque todo ser é bom. O pecado é a privação do ser, é um não ser, como se exprime Santo Agostinho, um nada (Sentent.). Daí se compreende por que o profeta Amós diz aos pecadores que eles se alegram no nada (6, 14).
O pecado é chamado negação do ser, o nada: 1° porque, em si mesmo, é um não sei quê de desprezível, de vil; 2° porque o deleite do pecado passa num relâmpago e desaparece; 3° porque conduz quem o comete a uma espécie de nada, isto é, à morte presente e à eterna; 4° porque é a negação do ser no que diz respeito à virtude, ou seja, ao bem moral; 5° porque é uma privação do bem; ora, uma privação não é coisa real e positiva, mas nominal e negativa, isto é, um nada; 6° o pecado mortal separa o homem de Deus, que é o ser por excelência, o criador de tudo, sem o qual nada foi feito e nada viveria; daí resulta que o pecado conduz ao nada.
Senhor, diz Santo Agostinho, uma vez que nada foi feito sem vós, ao cometermos o pecado, que é o nada, tornamo-nos um nada; fora de vós, por quem tudo foi feito e sem o qual nada foi feito, somos nada. Miserável de mim, que tantas vezes me tornei um verdadeiro nada por causa do pecado! Tornei-me miserável, fui reduzido a nada, e não o soube! Minhas iniquidades me conduziram ao nada. Não há nada de bom fora do sumo bem; assim como a cegueira não consiste senão na privação da luz. Portanto, o pecado é nada porque não foi feito. Mas, se não foi feito, como pode ser um mal? Porque o mal é a privação do Bem para o qual o bem foi feito. Ser sem o Verbo é mal; é um não ser; sem o Verbo não há nada. Estar separado do Verbo quer dizer estar sem caminho, sem verdade, sem vida. Eis por que, sem ele, há o nada, e esse nada é o mal, porque está separado do Verbo, pelo qual tudo o que foi feito é ótimo. Mas estar separado do Verbo, pelo qual todas as coisas foram feitas, não é outra coisa senão faltar e, do feito, passar ao não feito, pois sem o Verbo não há nada (In Evang. S. Ioann.).
Em si mesmo e por sua natureza, o pecado é nada, porque, ao cometê-lo, o homem se apega às criaturas e põe nelas a sua felicidade, opondo-as ao Criador e preferindo-as a ele; mas, comparadas ao Criador, as criaturas não são senão a sombra do ser e, por consequência, o nada. Eis, com efeito, a essência e o nome de Deus: «Eu sou aquele que sou» (Ex 3, 14). Eu sou aquele que possuo sozinho o ser verdadeiro, inteiro, imenso, infinito, eterno; as criaturas participam de mim como uma sombra, porque tão pobre, tão instável, tão fugaz é o seu ser que, comparado ao meu, deve ser chamado nada, antes que ser. Ora, dado que as criaturas não têm o verdadeiro ser, também não têm o verdadeiro bem, mas somente a sombra do bem; porque o ser real e o bem estão unidos, e, segundo o ser e o grau de ser, encontram-se o bem e o grau do bem; de fato, o bem é a propriedade íntima do ser. O verdadeiro bem, assim como o verdadeiro ser, pertence somente a Deus e não ao homem; por isso, Deus é chamado, na Escritura, o único sábio, o único poderoso, o único Senhor, o único imortal, o único bom, o único grande, o único justo, o único piedoso, o único glorioso, porque somente ele possui a sabedoria, o poder, a imortalidade, o domínio, a bondade, a grandeza, a justiça, a santidade e a glória verdadeiras, infinitas e incriadas.
Quando, portanto, o pecador põe a sua felicidade nas criaturas, e não no Criador, goza de uma sombra, alegra-se com o nada. ― Mas como parecem grandes ao homem as sombras das criaturas nas trevas desta vida! Ao pôr do sol, as sombras projetadas pelos montes se alongam e cobrem toda a terra; assim também, quando Deus se põe para uma alma, as sombras das coisas terrenas se estendem sobre ela e a envolvem por inteiro; o mundano admira-as e segue-as, mas o seu desejo permanece faminto. Ah! surja, ó Senhor, o vosso dia, o dia da vossa eterna claridade, e dissipem-se as sombras do dia tenebroso deste século, deste dia de vaidade e de morte. Dissipai a névoa que nos envolve, para que abandonemos as criaturas e o pecado e nos apeguemos a vós, que sois o ser infinito e o verdadeiro bem…
Que coisa é o pecado? É um doce veneno que mata o pecador com morte angustiosíssima…; é uma gota de mel pestilento que se transforma num mar de fel…; é uma ferida à qual não se pode sobreviver…; é uma febre acompanhada de delírio, que causa morte súbita…; é o mais formidável inimigo do homem, que o separa de Deus e o torna escravo de Satanás… «O pecado, diz Santo Agostinho, é a causa de todos os nossos males» (De Morib.). «O morto, diz Santo Ambrósio, deve ser preferido ao vivo, porque cessou de pecar; e quem não nasceu deve ser preferido a quem morreu, porque nunca soube pecar (1)».
O livre-arbítrio pode ser chamado o pai do pecado, e a concupiscência habitual, sua mãe; reunidos, dão origem a todo delito. Quando o pecado está apenas em embrião ou meio formado, chama-se pecado venial; quando está inteiramente formado, isto é, cometido com pleno consentimento e perfeita advertência, então chama-se pecado mortal. O primogênito do pecado é a morte, tanto presente como futura e eterna; porque o pecado gerou aquela que deveria puni-lo; deu à luz a sua pena… Sob outro aspecto, o primeiro pai do pecado foi Lúcifer no céu, e a serpente no paraíso terrestre. Seus primogênitos são o pecado dos Anjos e o pecado original.
Adão cometeu oito pecados em um só: 1° pecado de orgulho, querendo ser senhor de si mesmo, em vez de permanecer sujeito ao poder divino; 2° pecado de excessiva condescendência para com sua mulher, a quem não teve coragem de contrariar quando ela lhe ofereceu o fruto proibido; 3° pecado de curiosidade; 4° pecado de incredulidade, não dando crédito às ameaças do Criador; 5° pecado de presunção, fazendo pouco caso do preceito que lhe fora dado de não tocar no fruto proibido; 6° pecado de gula; 7° pecado de desobediência; 8° pecado de insolência, procurando desculpas em vez de confessar humildemente a própria culpa… Eis a origem de todos os males que inundam a terra há cerca de seis mil anos.
«Tão necessário é ao pecado o concurso da vontade que, se esta falta, já não há pecado», diz Santo Agostinho (2). Tudo depende da vontade, tanto o bem como o mal. Sem a vontade, não há pecado nem virtude…, sem a vontade, não há mérito; nem salvação, nem céu… Daí aquela sentença de São Bernardo: «Cesse a vontade própria, e já não haverá inferno (3)».
«Renunciamos aos esconderijos da torpeza», escrevia São Paulo aos Coríntios (II, 4,2). A torpeza ama as trevas… Por isso, o remédio do pecado está no próprio pecado, isto é, na consideração de sua sordidez, da mancha que ele imprime na alma e de suas funestas consequências… Com efeito, o pecado contém muitas afrontas e muitos males; ou melhor, pode-se dizer que os compreende todos; cinco, porém, lhe são particularmente próprios: 1° Ele vai contra a sã razão, que por ele é desonrada. 2° Todo pecado se opõe a alguma virtude particular: o orgulho, por exemplo, ataca a humildade; a luxúria destrói a continência, e assim por diante; sob outro aspecto, todo pecado ataca simultaneamente todas as virtudes. Ora, nas virtudes está o bem e a perfeição dos homens e dos anjos… 3° Ainda aqui na terra, o pecado atrai sobre aquele que o comete uma multidão de males: a desonra, as doenças, os castigos etc…. 4° É uma ofensa feita a Deus, é o mal supremo contra a divindade, que ele ultraja e provoca. Com efeito, pelo pecado o homem adere às criaturas, aos prazeres, ao ouro etc.; prefere-os ao Criador e neles coloca, em sua intenção, o seu sumo bem; nega, por conseguinte, quanto está em si, a suma bondade e excelência de Deus… 5° O pecado nos priva da vida eterna. Os teólogos demonstram que, consumado o ato do pecado, permanece na alma uma mancha repugnante e habitual, que a torna infame e abominável aos olhos de Deus.
Oh! Se os cristãos tivessem do pecado a ideia que tinha o pagão Sêneca, o qual assim escreve: «Ainda que soubesse que os homens haveriam de ignorar, e Deus haveria de perdoar-me o pecado, eu contudo não o cometeria, considerando unicamente a sua torpeza (4)».
Em muitas coisas o pecado se assemelha à febre: 1° a febre enfraquece o corpo; o pecado enfraquece a alma; 2° a febre agita o sangue e os humores; o pecado perturba os pensamentos e os afetos; 3° a febre se conhece pela desordem do pulso; o estado de pecado manifesta-se pelas solicitudes e preocupações que se apoderam do homem…; 4° a febre causa uma sede ardente; a alma pecadora arde de desejos de concupiscência e é consumida pelo fogo das paixões…; 5° a febre começa com calafrios e termina em intenso calor; a febre da alma começa com a tibieza, a negligência, a acídia, a inércia, e termina no desenvolvimento e no ardor das paixões: soberba, gula, luxúria, cólera etc…; 6° a febre deprava o paladar; o pecado provoca náusea da oração, da mortificação, dos sacramentos etc…; 7° a febre tira ao homem a força, a beleza, a razão etc…; os mesmos efeitos produz o pecado em sentido espiritual; 8° a febre causa penas, dores e mal-estar em todo o corpo; não de outro modo age o pecado na alma; 9° na febre, um acesso sucede a outro acesso; a alma atormentada pela febre do pecado vai de queda em queda, de culpa em culpa.
O pecado também pode ser comparado à paralisia. Com efeito: 1° a paralisia prende, por assim dizer, o membro por ela atingido; o pecado acorrenta a alma… 2° A paralisia impede todo movimento dos nervos e dos músculos; o pecado põe obstáculo aos movimentos da graça e da vontade… 3° A paralisia é consequência da apoplexia; a imobilidade da alma no mal é consequência da queda no pecado, que se pode chamar a apoplexia da alma… 4° Pela paralisia, o corpo se torna um peso inerte; pelo pecado, a alma fica submetida a um fardo que a oprime… 5° A paralisia é uma doença quase incurável; muitas vezes também acontece que o estado a que o pecado reduz a alma se torna como que incurável por causa da má vontade do pecador, de sua obstinação em não se corrigir e da privação das graças.
Também ao fogo se pode comparar o pecado por estes dois efeitos: 1° O fogo endurece certos corpos e queima, liquefaz e consome outros; assim, o pecado queima, endurece e consome a alma: o pecado mortal é como um ferro em brasa que, onde toca, deixa profunda chaga… 2° O fogo produz chamas; o pecado desenvolve as chamas da luxúria, da cólera, do ódio etc.; acende as labaredas da ira e da vingança divina; fornece combustível ao fogo do inferno: «Acendestes o fogo, exclama Isaías, e eis-vos cercados de chamas; caminhai à luz do incêndio que vós mesmos suscitastes, em meio às labaredas que mantivestes» (Is 50,11).
Ao cometer o pecado, a alma que era e devia permanecer esposa de Jesus Cristo rejeita-o, cede às sugestões do demônio, torna-se adúltera e se prostitui ao inimigo capital de Deus e dos homens, ele próprio adúltero desde o princípio. Ó céu, que abominação! Arrebatar a própria alma a Jesus Cristo, essa alma que ele resgatou ao preço de todo o seu sangue, e entregá-la nos braços do diabo! Prometê-la ao inferno! Que demência! Que frenesi!
O homem que vive em pecado mortal abandona o verdadeiro Deus e escolhe para si outra divindade; e essa divindade é ele próprio, é a sua vontade, são as criaturas. O avarento adora o ouro e a prata; o impudico adora a carne; o glutão, os alimentos etc…. O pecador se faz escravo das paixões mais ignóbeis e degradantes… E não é isto uma idolatria?
«Contaminastes a minha terra, diz Deus pela boca de Jeremias aos pecadores, convertestes a minha herança em lugar de abominação» (2, 7); mudastes em ídolo aquilo que constituía a vossa glória. Espantai-vos, ó céus, enlutai-vos, ó portas do céu! «Dois males cometeu o meu povo: abandonou a mim, fonte de água viva, e cavou para si cisternas gretadas que não podem reter a água» (Ib. 11-13).
Abandonando a Deus, fonte da vida, todo pecador procura águas lamacentas e corrompidas; com efeito, em todo pecado mortal há: 1° afastamento de Deus, bem incriado e infinito, e aproximação dos bens perecíveis e vis…; 2° desprezo por Deus e amor às criaturas…; 3° renúncia a Deus como fim último e substituição das criaturas ao Criador, para que sejam o nosso fim e o nosso sumo bem. E não é esta a mais insolente, a mais culpável das idolatrias? … «Israel se aviltou até Baal, diz Oseias, e morreu» (13, 1).
O pecado mortal é o sumo mal de Deus, do anjo, do homem, de todas as criaturas e até do inferno e dos condenados, diz Belarmino; porque cada novo condenado aumenta os sofrimentos e o castigo daqueles que o precederam nas chamas eternas, sendo uns para os outros causa de recíproco tormento (In Psalm.). «Pecando mortalmente, diz Santo Anselmo, não somente merecemos incorrer na cólera de Deus, mas ultrajamos todas as criaturas e as levantamos contra nós. A terra pode dizer: Em vez de vos sustentar, eu deveria engolir-vos, porque vós me manchais. Os alimentos e as bebidas podem dizer: Em vez de conservar-vos a vida, deveríamos converter-nos para vós em veneno, porque nos profanais pecando contra aquele que vos criou. O sol pode dizer: Eu não devo iluminar-vos para formar a vossa felicidade, mas antes para chamar sobre vós a vingança do meu Deus, que é a luz das luzes e está obrigado a punir-vos» (Lib. de Simil. c. VI). Por isso diz a Escritura que, no grande dia das vinganças, o universo combaterá com Deus contra os insensatos (Sb 5, 21).
«Enquanto não pecamos, diz o Sábio, sabemos, ó Senhor, que somos contados entre os vossos» (Sb 15, 2). Mas, se pecais, diz Isaías, as vossas culpas erguem uma barreira entre Deus e vós, ocultam-vos a sua face e impedem que sejais atendidos (Is 59, 2). Os pecadores afastam-se de Deus, e Deus afasta-se deles. E aqueles que se afastam de Deus perecerão, diz o Salmista (Sl 72, 26). A mão do Senhor lança-os para longe de si, como aqueles feridos que dormem nos sepulcros, dos quais apagou toda lembrança de sua mente (Sl 87, 5). Jeremias, falando do povo de Israel que havia pecado, dizia: «Pobres de nós! a tua ira, ó Senhor, caiu sobre nós, rejeitou-nos e lançou-nos para longe de ti» (Lm 5, 22).
Assim como a luz se opõe às trevas, o belo ao feio, a pureza à imundície, a verdade à mentira, a sinceridade à duplicidade, a vida à morte, a bondade à maldade, assim a santidade se opõe ao pecado, e Deus, santidade por essência, o tem em horror. Ele ama a santidade com amor infinito e, por consequência, detesta o pecado mortal com ódio infinito. Diz o Crisóstomo que o pecado é um grande suplício, ainda que não fôssemos por ele punidos; porque o pecado nos separa de Deus. Quem peca é o mais infeliz dos homens; mas é principalmente então mais infeliz, quando não é punido e nada tem de penoso para sofrer (5).
O caráter da rebelião do pecador contra Deus revela-se nas seguintes palavras de Jeremias: «Ouvi o que diz o Senhor: Parai no vosso caminho, observai e interrogai as veredas antigas, para conhecer qual é a boa, e caminhai por ela, e encontrareis descanso para as vossas almas. Mas vós respondestes: Não caminharemos. Estabeleci sobre vós sentinelas e vos disse: escutai o som da trombeta, e vós: Não escutaremos… Já desde o princípio quebrastes o meu jugo, rompestes os meus laços e dissestes: Não serviremos» (6,16-17; 2,20).
A lei vos proíbe esta ou aquela ação, e vós, pecando, dizeis: Eu a farei; ordena-vos esta ou aquela obra, e vós respondeis: Não quero fazê-la: Não servimos. O vosso Criador vos ordena viver segundo os seus preceitos, e vós respondeis: Não quero: Não servimos. Ele insiste ainda: Ouvi a minha voz, e vós respondeis: Não a escuto.
O Senhor diz: Adorarás um só Deus e o amarás de todo o coração; o pecador obstinado responde: Não quero adorá-lo nem amá-lo, mas dar meu coração e meus pensamentos às criaturas. Não pronunciarás o nome de Deus em vão: Gosto de blasfemar: Não servirei. Guardarás os dias festivos: Minha liberdade ficaria tolhida pela assistência aos ofícios divinos: Não servirei. Honrarás teu pai e tua mãe, obedecer-lhes-ás e os ajudarás: Já não sou menino; minha razão reclama os seus direitos; cada um cuide de si: Não servirei. Pais, educai vossos filhos no temor de Deus, guardai-os, corrigi-os, edificai-os: Oh! isto é grave demais; e os nossos negócios, e os nossos prazeres? Pagaremos a estranhos e os entregaremos às suas mãos: Não serviremos. Respeitai o corpo e a alma do vosso próximo: nada de rixas, ódios, vinganças, escândalos: Oh! minha honra exige uma reparação; tanto pior para aqueles que se escandalizam: Não serviremos. Conservai-vos castos de corpo e de mente: Ah! isto supera as forças da natureza. A paixão é demasiado impetuosa para que eu tente sequer reprimi-la: Não servirei. Respeitai o que não vos pertence: Cada um cuida do que é seu da melhor maneira possível; a vida é uma guerra em que somente os tímidos e escrupulosos estão errados: Não serviremos
Pecadores, Jesus Cristo quer reinar sobre vós com a sua lei, a sua graça e a sua glória; mas vós, semelhantes aos judeus, respondeis: «Não queremos que este reine sobre nós» (Lc 19, 14).
Deus é nosso criador, nosso redentor, nossa providência, nosso pai; cumula-nos de bens temporais e espirituais; promete-nos uma glória e uma felicidade que jamais terão fim. Ora, não é a pior ingratidão servir-se dos dons de Deus para ultrajá-lo e, em vez de testemunhar-lhe reconhecimento, virar-lhe as costas?
Que faz o homem ao pecar? Toma a lei de Deus, responde Habacuc, e a faz em pedaços (Ab 1, 4); desconhece-a, despreza-a, zomba dela, calca-a aos pés; zomba das ameaças e das promessas de Deus. E não é isto uma enorme afronta à divindade, um desprezo formal do próprio Deus?
Com a preferência que o pecador dá às criaturas, mostra a Deus um sumo desprezo e renova o delito de que os judeus se tornaram culpados, preferindo Barrabás a Jesus Cristo (Jo 18, 40). Preferir o mal ao bem, o vício à virtude, a terra ao céu, uma volúpia torpe às puras delícias da graça, o nada a Deus, é tal desvario e tal insulto que não se pode imaginar maior. Deus se queixa amargamente disso: «A quem me haveis comparado e a quem me haveis tornado semelhante?» (Is 40, 25). «Ouvi, ó céus, e tu, ó terra, escuta: Eu criei e eduquei filhos, e eles me voltaram as costas. O boi conhece o seu dono, e o jumento reconhece a manjedoura do seu senhor; mas Israel não me conheceu» (Is 1, 2-3).
«Quando nós, escreve Santo Agostinho, cometemos pecado, seja de pensamentos, seja de palavras, seja de obras, destruímos o templo de Deus e fazemos injúria àquele que habita em nós (6).» Mas ai de vós, diz ele, «ai de vós que me desprezais. Não sereis também vós desprezados por vossa vez?» (Is 33, 1). «Quem despreza traz consigo aquele que o julgará» (Jo 12, 48).
Mas não somente contra a lei divina, e sim contra o próprio Deus é que o pecador se lança; ele afia a espada, retesa o arco, dispara as suas flechas contra o Onipotente… Insensato! soldado culpado de Satanás, também o teu chefe quis combater contra Deus. Ora, qual foi a sua sorte? Vencido, prostrado, amaldiçoado, foi lançado para sempre no inferno? Ah! não imiteis o demônio, se não quereis compartilhar a sua ruína irreparável…
O pecado mortal é uma espécie de deicídio; se Deus pudesse ser morto, sê-lo-ia pela flecha envenenada do pecado. O Crisóstomo afirma que, ao menos pelo desejo, o pecador mata a Deus (Homil. ad pop.), e São Tomás vê no pecado mortal o aniquilamento de Deus (De Peccat.).
Sim, se o poder do pecador correspondesse à sua perversa vontade, ele destruiria a Deus… Mas, não podendo aniquilá-lo nem em sua essência, nem no céu, nem em suas obras, aniquila-o ao menos em seu próprio coração. E o homem que assim procede não suportaria a Deus em lugar algum… Se tivesse algum poder sobre ele, desejaria que Deus não existisse, porque não quereria que houvesse nem lei que o obrigasse a obedecer, nem justiça que o punisse; ora, esse desejo traz consigo o desejo do aniquilamento de Deus…
Quando o Filho de Deus veio à terra, não o crucificaram? Se viesse outra vez entre nós, os pecadores o fariam sofrer novamente todas as dores da paixão; e, se Jesus ainda pudesse morrer, o pecado mortal lhe daria a morte… Pensais nisso, miseráveis pecadores? Do estado em que jazeis em culpa grave, vosso coração é um patíbulo no qual imolais o vosso Salvador.
Sim, o pecado mortal foi a verdadeira e única causa da morte de Jesus Cristo. Ah! reconhecei, ó pecadores, quão graves são as feridas do pecado, se Jesus, para curá-las, teve de ser crivado de feridas e derramar todo o seu sangue! Ah! se não fosse mortal a chaga que o pecado causa à alma, o Filho de Deus não teria morrido para curá-la. Reconhece, ó homem, diz Santo Agostinho, o que vales e o que deves. Considerando a alta dignidade que te conferiu a redenção, aprende a temer e a fugir do pecado. Vê como a Piedade é flagelada em lugar do ímpio; a Sabedoria é escarnecida em lugar do insensato; a Verdade é imolada em lugar do mentiroso; a Justiça é condenada no lugar do culpado; a Misericórdia é atormentada em lugar do insensível; a Pureza é regada com vinagre, e a doçura, saciada de fel, em lugar do malvado e do iracundo; a Inocência toma o lugar do verdadeiro culpado; a Vida morre para ressuscitar aquele que estava morto (De Passione).
Tão enorme é a malícia de um só pecado mortal, tão grande é o ultraje que ele faz à Majestade divina, que todas as orações, as humilhações, as austeridades, os louvores e as adorações dos santos e dos anjos não seriam suficientes para expiar um só pecado mortal. Tudo o que eles pudessem fazer de belo e de maravilhoso não poderia de modo algum ocultar o que há de feio e abominável numa só culpa grave. Em suma, por sua natureza, o pecado mortal é um mal irreparável. Um exemplo no-lo fará compreender: — Quando Nabucodonosor mandou lançar na fornalha acesa os três jovens hebreus, ele, tanto quanto dependia dele, os queimou, embora Deus os tenha salvo. Assim também, quando pecamos gravemente, matamos a nossa alma; e, embora Deus possa ressuscitar-nos, apagamos, tanto quanto depende de nós, até a última centelha de vida que há em nós e asseguramos para nós a condenação eterna. É preciso considerar o que o pecado produz, não aquilo que a onipotência de Deus pode fazer. Quem renuncia uma vez a Deus renuncia a ele para sempre, porque está na natureza do pecado tornar eterna, quanto está em si, a nossa separação de Deus.
Além disso, ninguém deseja ver o fim da própria felicidade; ora, como o pecador põe no pecado a sua felicidade, jamais desejaria separar-se dele e, portanto, jamais remediar essa situação, mas afundar-se sempre mais nela, como observa São Gregório: «Os pecadores desejariam, se pudessem, viver sempre para pecar sempre. Com efeito, mostram que querem viver sempre no pecado, não cessando jamais de pecar enquanto vivem. Não digam, portanto, estes: Por que um inferno eterno? Pertence à justiça do Supremo Juiz não pôr jamais termo ao suplício daqueles que, enquanto puderam, jamais quiseram cessar de pecar (7)».
Caído em pecado mortal, o homem não podia esperar nem de si mesmo nem dos anjos qualquer remédio que o restituísse ao estado de inocência e lhe devolvesse os bens que havia perdido. Então, em sua misericórdia, o Filho de Deus, a Sabedoria incriada, por quem tudo foi feito, tomou uma resolução admirável, inefável, incompreensível aos anjos e aos homens; uniu-se à nossa natureza e, nela e por ela, reparou o gênero humano, que havia caído inteiramente na degradação.
Considerado em seu verdadeiro aspecto, o pecado é pior que a morte, a reprovação e o inferno; porque o pecado é em si mesmo uma mancha, um mal; ao passo que a morte, a reprovação e o inferno não são senão a pena do pecado. O inferno não é um mal, mas o seu justo castigo; aquilo que é um mal é o que conduz ao inferno, isto é, o pecado: «Se eu visse, diz Santo Anselmo, de um lado o pecado mortal, de outro o inferno, e tivesse de escolher entre os dois, preferiria lançar-me no inferno a cometer o pecado (8)».
«Foge, meu filho, do pecado, diz o Sábio, como fugiria ao avistar uma serpente; porque, se te aproximares dela, ela te apanhará. Suas presas são como dentes de leão, que despedaçam as almas» (Eclo 21, 1-3). O Espírito Santo compara o pecado à serpente armada de veneno, cujas mordidas são ocultas e mortíferas; para indicar os seus terríveis efeitos, recorre à semelhança com os dentes do leão, que dilaceram e trituram a vítima…
De um homem caído em pecado grave pode-se dizer o que exclamou o patriarca Jacó ao ver a túnica ensanguentada de José: «Uma fera ferocíssima o devorou» (Gn 37, 33); ou ainda, com o Salmista: «Um javali da floresta devastou a vossa vinha, ó Senhor, uma fera selvagem a desolou» (Sl 79, 14).
«Toda iniquidade é uma espada de dois gumes, cujas feridas não têm remédio» (Eclo 21, 4). O Espírito Santo, depois de comparar o pecado à serpente, ao leão e ao javali, assemelha-o a uma espada de dois gumes… Aprendamos disso quão grave e funesto é o pecado mortal; pois ele prejudica infinitamente mais a alma do que uma serpente, um leão ou uma espada prejudicam o corpo, ou um javali, uma vinha. O pecado mortal mata para sempre a alma e, às vezes, também o corpo.
Assim que a alma, companheira dos santos e dos anjos, esposa de Jesus Cristo, comete um pecado mortal, já desceu das alturas do céu e, precipitando-se numa cloaca, vive entre animais imundos e répteis venenosos; revolve-se no lodo e dele se alimenta. Ao contrário, a alma isenta de culpa grave é um céu no qual a inteligência é o sol; a fé e a continência, a lua; as outras virtudes são as estrelas. Todas as virtudes brilham em meio às adversidades deste século, como os astros no firmamento durante a noite, diz São Bernardo (Serm. in Psalm.).
O pecado é o mal supremo da natureza, do homem e da sociedade. Nem o homem, nem o demônio, nem o próprio Deus podem fazer a um homem tanto mal quanto ele mesmo se faz quando peca mortalmente. Aqui verdadeiramente cabe dizer, com o Crisóstomo: «Ninguém se fere senão a si mesmo» (Hom. ad pop.); pois a sabedoria de Deus, como observa Santo Agostinho, ordenou de tal modo ‘as coisas relativas ao pecado, que aquilo que constituiu o deleite do pecador se torne, nas mãos do Senhor, instrumento de punição (9).
«Cada um é atormentado naquilo em que pecou» (Sb 11,17), diz o Sábio; isto é, todo vício traz consigo uma pena que lhe é própria; e de onde vem o pecado, daí deriva o suplício que o espera (CRYSOST. Homil ad pop.). Ah! Vós, ó Senhor, estabelecestes que toda alma desregrada seja suplício para si mesma, e assim é (10). As coisas de que abusamos pecando transformam-se ordinariamente em varas que nos açoitam, diz Ruperto Abade; e São Paulino de Nola, com expressiva imagem, representa a vida daquele que peca como um moinho onde ele mói o trigo de seu inimigo, o demônio, que dele se alimenta como de pão (11).
«As iniquidades do ímpio, lemos nos Provérbios, são armadilhas estendidas aos seus pés; seus pecados são cordas que o prendem» (Pr 5,22). «Aqueles que se entregam ao mal são inimigos de sua própria alma», diz Tobias (Tb 12,10). Quando se vive no pecado, desaparece a vida repleta da nobreza da virtude, que é a verdadeira vida; a espécie de vida que resta não é outra coisa senão uma verdadeira morte com aparência de vida. Com efeito, diz o Damasceno, o pecado é a morte da alma imortal (SURIUS. In Vita). O pecador leva continuamente consigo o pesado fardo de seu pecado; e onde encontrar jugo mais opressor? Por isso São Gregório adverte que o pecador perde a felicidade tanto por causa do vício como pelas penas que estão ligadas ao vício (12).
«O pecado, escreve São Tomás, é chamado vaidade: 1° porque aquele que o comete escolhe um bem imaginário; 2° pedir duração a esse bem é pedi-la a algo essencialmente transitório e fantástico; 3° esperar dele algum feliz resultado é iludir-se; 4° apegar-se a ele é coisa infrutífera; de modo que cai bem na boca do pecador aquele dito de Isaías: «Em vão e sem finalidade trabalhei; consumi minhas forças correndo atrás de um fantasma (13)». Todo aquele que comete a iniquidade pode repetir com Jeremias: «O pecado conduziu-me por um deserto, em meio a uma terra inóspita e selvagem, sobre a qual não está impressa pegada de pé humano, nem corre fio de água» (Jr 2,6). O pecador que abandona a Deus e vive no pecado, 1° verá dissipar-se toda a sua esperança de bem-estar; 2° não produzirá fruto; 3° será privado do orvalho celeste da graça e da sabedoria; 4° será abandonado por Deus e pelos homens; 5° será exposto à venda como um escravo e comprado pelos demônios e pelas paixões tirânicas.
«O pecador, diz Jeremias, terá a sorte do arbusto do deserto; jamais verá uma gota que o refresque, mas habitará na secura do deserto, num solo semeado de sal e inabitável» (Jr 17,6). Notai os três efeitos do pecado aqui apontados pelo Profeta: 1° o deserto, isto é, o afastamento de Deus e de sua graça, dos Anjos e dos Santos; 2° a secura, isto é, a falta de graças, de virtudes e de força; 3° a esterilidade, porque o pecador já não produz boas obras.
«Jerusalém, diz o mesmo Profeta, mergulhou no pecado e, por isso, tornou-se instável; todos os que a louvavam a desprezaram, porque viram a sua ignomínia» (Lm 1,8). A primeira causa da instabilidade do pecador provém de seu afastamento de Deus… A segunda está na inconstância natural ao coração do homem que, sendo vastíssimo e capaz de muitos objetos, nutre uma multidão interminável de desejos. Mas, precisamente por isso, nenhuma criatura, nem paixão, nem prazer, coisas todas finitas e limitadas, podem preenchê-lo ou saciá-lo; ele precisa de Deus, e o pecador não o possui… «A alma racional, diz São Bernardo, pode muito bem ocupar-se de qualquer outra coisa que não seja Deus, mas não pode ser preenchida por outra coisa senão por Deus (14)». A terceira causa deriva de que todos os prazeres criados que o homem busca são inconstantes, fugitivos e misturados com muita amargura, e terminam em tormento, sendo o desgosto e as lágrimas o termo de toda alegria. Por isso o pecador busca, depois de uma satisfação enganosa, uma nova alegria; e, quando também esta passa e se lhe torna nauseante, vai à procura de outra, da qual se cansa quase imediatamente. Eis de que modo, passando do desejo à saciedade e da saciedade ao desejo, ele erra, infeliz e vagabundo, em busca da felicidade ou, ao menos, do repouso, sem encontrar nem uma nem outro. A quarta causa é que, assim como uma virtude traz consigo outra, também um vício conduz a outro vício. A quinta provém dos remorsos da consciência, que não dão trégua à alma. Dilacerado pelos remorsos da consciência, Caim anda errante e vagabundo pela terra. A sétima tem origem numa multidão de pensamentos perversos que atormentam o pecador; de modo que o pecado, diz Santo Ambrósio, pode ser considerado como um ardor desordenado e uma febre ardente da alma (Serm. XIV). A sétima causa é que, pelo pecado, a alma justa perde a sua inocência e se torna uma prostituta; por isso, vai em busca de amantes tão vãos e enganadores quanto ela. Consequentemente, o inimigo mais mortal do pecador é o próprio pecador.
1° Tira-lhe a graça. ― O pecado mortal faz a alma perder a graça santificante, que é o mais precioso dos tesouros…
A graça é o princípio da glória… Diz Jesus Cristo: «Quem beber da água que eu lhe der nunca mais terá sede eternamente; mas a água que eu lhe der se fará nele uma fonte de água viva que jorra para a vida eterna» (Jo 4,13-14). Jesus dá à sua graça o nome de água corrente, de água viva, porque ela vem do céu, que é a vida, e para lá conduz. Tanto por sua natureza como por sua destinação e pela promessa de Deus, a graça é a semente que produz a glória. Deus comunica-se à alma por meio da graça e, mediante essa comunicação, eleva a alma até si mesmo, transforma-a em si, diviniza-a.
Jesus Cristo caminha sobre as ondas, sustenta Pedro, acalma a tempestade e, num instante, faz a barca chegar à praia. Com a sua graça, o Salvador opera em nós semelhantes prodígios: ajuda-nos a renunciar ao mundo, acalma as tempestades da concupiscência e das tentações, conduz-nos ao porto da salvação eterna. Quando Deus desce a uma alma com a luz de sua graça, essa alma se derrete como a neve ao sol, chora os seus desvios, inflama-se de zelo, torna-se dócil e abandona-se inteiramente nos braços do Esposo celeste. Então, nela, as montanhas do orgulho são niveladas, desaparecem as colinas da ambição e da vaidade, e não resta nela vestígio dos vales sombrios da baixeza, do temor, da tibieza e da acídia… A graça torna meritórias as boas obras.
Ah, se conhecêssemos o preço da graça e todas as suas vantagens! Com que ardor a desejaríamos e como, em vez de nos expormos a perdê-la, trabalharíamos para obtê-la, conservá-la e aumentá-la! Como qualquer outra coisa, grandeza e riqueza nos pareceriam vil e desprezível em comparação com ela! … A graça 1) expulsa todo pecado mortal; 2) torna o homem agradável a Deus; 3) confere-lhe a retidão e a santidade; sua mente, sua vontade e todas as suas faculdades ficam sujeitas a Deus e à sua lei; numa palavra, ela torna o homem semelhante a Deus e tal como era Adão antes de sua queda; 4) faz de nós outros tantos filhos de Deus, seus herdeiros, coerdeiros e membros de Jesus Cristo; 5) traz consigo todas as virtudes e os dons do Espírito Santo; 6) assegura a posse da glória; 7) é o princípio e a causa da satisfação pelas culpas cometidas e nos previne contra as quedas…
A graça tem como fruto a paz…, a esperança da glória…, a grandeza de alma e a alegria nas adversidades… Comparados com a graça, todos os diamantes do Oriente, todas as coroas dos reis, todos os tesouros dos ricos, todo o dinheiro do mundo nada valem, diz o Sábio (Sb 7,9). Ora, um só pecado mortal basta para macular, destruir e aniquilar essa graça de valor tão inestimável!… Ó Deus, que perda! … Que desgraça! …
2° Desfigura a beleza da alma. ― O que fez no céu o pecado mortal do mais feliz, do mais esplêndido e do mais ricamente dotado dos Anjos? Fez dele o mais miserável, o mais repugnante e o mais pobre dos demônios. Qual será, pois, o estado a que ele reduz a alma do homem! É preciso exclamar, chorando, com Jeremias: «Desapareceu toda a beleza da filha de Sião» (Lm 1,6).
Que há de mais belo do que a alma criada à imagem de Deus, capaz de conhecer, amar e servir o seu Criador e de possuir a glória eterna? Enquanto se mantém no estado de graça habitual, é mais esplêndida que o sol. Se pudéssemos ver a sua incomparável beleza, ficaríamos arrebatados e a julgaríamos uma divindade, porque está revestida da própria beleza de Deus. Mas, quando tem a desgraça de cair num pecado mortal, que espantosa mudança ocorre nela! … Toda a sua beleza desaparece num piscar de olhos; ela se torna, aos olhos de Deus, mais imunda e mais repugnante do que pode ser, aos olhos do homem civilizado, o mais repugnante e bárbaro selvagem. Mas que digo? Mil vezes mais horrível de se ver do que um cadáver corroído pelos vermes. Se pudesse ser vista, faria morrer de espanto.
3° Despoja a alma da sabedoria e da vida. ― O Espírito Santo nos adverte de que a sabedoria não entra numa alma dedicada ao mal, não habita num corpo escravo do pecado, e o Espírito do Senhor se afasta quando chega a iniquidade (Sb 1, 4-5) … Se a sabedoria reina numa alma isenta de pecado mortal, é preciso dizer que a loucura, a insensatez domina aquele que se entrega a ele.
O que é o corpo privado da alma e reduzido a cadáver? É a coisa mais vil e repugnante do mundo. Tal é a alma que perdeu, pelo pecado mortal, a vida… Deus é para a alma aquilo que a alma é para o corpo; assim como a alma é a vida do corpo, assim a graça é a vida da alma. Quando a alma se separa do corpo, a vida cessa; quando Deus se separa da alma, esta morre e já não conserva calor algum de vida. Ora, somente o pecado mortal produz essa funesta separação… Ó pecado mortal, quanto és danoso!
4° Priva de todos os méritos. ― Suponde que uma pessoa esteja adornada de todas as virtudes; que durante vinte, trinta, cinquenta anos tenha crescido em perfeição; que, em suma, tenha atingido o ápice da santidade; um só pecado mortal lhe arrebata o mérito de todas as orações, esmolas, mortificações, confissões e comunhões, numa palavra, de todos os atos de virtude; de modo que, se morresse em tal estado, nada de tudo isso lhe aproveitaria absolutamente; seria excluída do céu e condenada ao inferno. E esta é uma verdade claramente exposta nos Livros santos: «Se o justo se afastar do caminho da justiça e cometer o pecado, diz Deus pela boca de Ezequiel, abrirei diante dele uma cova; ele morrerá em seu pecado, e de todas as obras santas que tiver feito não ficará memória» (Ez 3, 20).
Além disso, todo o bem que o homem faz em estado de culpa grave se perde inteiramente e não lhe será computado para o céu. Permaneça o pecador dez, vinte, cinquenta anos nesse estado: todas as suas orações e qualquer outra obra santa que faça não lhe servirão absolutamente de mérito para a vida eterna. Para merecer a glória e um aumento de glória, é preciso ter a graça santificante. Ouve, pecador que não te deténs diante do pecado mortal e ousas vangloriar-te de que és rico e de que nada te falta, ouve o que te responde o Senhor: «Tu não percebes que és miserável, infeliz, pobre, cego e nu» (Ap 3, 17).
Se é assim, dirá talvez alguém, tanto vale, depois de cometido um pecado mortal, abandonar inteiramente a oração, a mortificação, a esmola, a confissão, e entregar-se ao desespero. Pelo contrário, convém dedicar-se a elas com mais empenho; porque, embora tais obras feitas em pecado mortal não recebam recompensa no céu, terão, contudo, a insigne vantagem de dispor o pecador à conversão e de lhe obter misericórdia; bens imensos que ele certamente não obterá se permanecer no pecado e nada fizer para dele sair, e muito menos ainda se desesperar.
Quanto aos méritos adquiridos em estado de graça e perdidos em consequência de um pecado mortal, eles nos serão restituídos inteiramente quando tivermos retornado à graça e à amizade de Deus. Importa, pois, sobremaneira ao justo que caiu levantar-se prontamente e não cessar das boas obras mesmo em estado de pecado, para manter aberta a porta da reconciliação com Deus e voltar à posse de tantos tesouros por ele acumulados, os quais, de outro modo, se perderiam eternamente para ele.
A tudo isso, se acrescentarmos que um só pecado mortal basta para fazer ruir as virtudes e as riquezas espirituais; para romper o amor de Deus, tirar a felicidade e a inocência, impedir uma boa morte; para fechar a porta do céu; para privar do trono, da coroa, da glória celeste, da visão, da posse e do gozo de Deus por toda a eternidade, vês que ladrão e assassino é o pecado mortal, que, depois de te roubar toda a riqueza mais invejável, te oprime com males e te precipita num abismo de desgraça.
1° Torna-o vil e desprezível. ― O pecado é o cúmulo da degradação do homem, assim como a prostituição é a mais profunda degradação da virgem, tirando-lhe o pudor, a virgindade e a honra; de modo que ao pecador se pode aplicar o dito de Jeremias: «Ó quanto te tornaste vil e desprezível, Jerusalém!» (Jr 2, 36). A esse respeito escreve Santo Agostinho: «A excelência e o bem da natureza manifestam-se principalmente nisto: ter-lhe sido concedido poder apegar-se à natureza do sumo e imutável bem. Mas, se ela o rejeita, priva-se do bem absoluto, e esta é a sua suprema desgraça; porque, pela justiça de Deus, cai rapidamente na ignomínia e nos sofrimentos. Que pode haver de mais horrendo e digno de desprezo do que querer encontrar o bem no abandono do verdadeiro bem? Às vezes acontece que não se sente o mal da perda de um bem superior quando se possui o bem inferior que se ama. Mas é próprio da justiça divina dispor que aquele que, por sua vontade, perde aquilo que deveria ter amado, isto é, Deus, perca também dolorosamente aquilo que amou» (De Civit. Dei). O pecador, todo terra e matéria, não sente quão degradante é o pecado e quanto avilta o homem; e Deus, para que o sinta, envia-lhe as dores do castigo.
2° Cega-o. ― São Paulo diz na pessoa do pecador: «Não compreendo aquilo que faço» ― (Rm 7, 15). Com efeito, o pecador não compreende, em primeiro lugar, toda a malícia do pecado; pois, se a compreendesse, jamais o cometeria… Em segundo lugar, não compreende bem o que faz quando peca, porque age contra o juízo de sua consciência e de sua razão.
«Não participeis, diz o mesmo Apóstolo, das obras infrutíferas das trevas, mas repreendei-as; porque aquilo que eles fazem às escondidas são coisas vergonhosas até de dizer» (Ef 5, 11-12). O pecado é chamado obra das trevas: 1° porque, sendo obra vergonhosa, o pecador odeia a luz e procura as trevas…; 2° porque cega a inteligência e a razão… O pecado tem sempre origem ou no erro, ou na imprudência, ou na falta de exame e de reflexão. É um erro prático, o erro da vida e dos costumes, como se lê nos Provérbios: «Os que praticam o mal estão no erro» (Pr 14, 22). Àquele que o comete, faz desconhecer a lei, que é o guia seguro da consciência e da sabedoria. Depois de conhecido, torna ainda mais densas as trevas nas quais a alma já se encontra submersa.
Ó pecador cego, que dormes em teu estado, continua o Apóstolo, levanta-te e sai do meio dos mortos, e Jesus Cristo te iluminará (Ef 5, 14). «O pecador está ocioso, diz o Crisóstomo, e não pratica ação alguma digna de louvor; não pode apresentar nenhuma e não compreende as coisas da salvação; dir-se-ia um homem que dorme. Mais ainda: um homem que sonha prazeres fantásticos; ele é verdadeiramente um homem adormecido (15)». Dormiram, diz o Salmista, e todos esses pecadores que se julgavam ricos nada encontraram em suas mãos (Sl 75, 5). «Não caiais em pecado, diz Santo Agostinho, e o sol da justiça não se porá para vós; mas, se cairdes, desaparecerá como o sol no ocaso. Se quereis ser iluminados, sede vós mesmos luz: porque, se amais as trevas e as paixões tenebrosas, ficareis cegos por elas (16)».
Grande analogia há entre as trevas e o pecado: 1° Assim como as trevas privam o homem da luz, assim o pecado o priva da graça, que é a luz celeste… 2° Quem caminha no escuro nada vê e frequentemente tropeça; o pecador não vê nada daquilo que deveria ver e cai com frequência… 3° As aves noturnas não podem suportar a claridade do dia; os pecadores fogem da luz da razão e da graça; ela os irrita e cansa, segundo estas palavras de Cristo: «Todo aquele que pratica o mal odeia a luz e não se expõe a ela, para que suas obras não sejam repreendidas» (Jo 3, 20)… 4° Os pecados são obras do demônio, príncipe das trevas… 5° A maior parte das culpas é cometida nas sombras… 6° Os pecados têm por causa as trevas; provêm da cegueira voluntária que leva o pecador a entregar-se a uma paixão passageira em detrimento de seu repouso, da paz de sua consciência, da felicidade eterna e da posse de Deus: o que é certamente a maior e mais nociva das loucuras; e, mais que loucura, é raiva e furor… 7° O pecado cega o espírito de modo portentoso… 8° Conduz às trevas do inferno.
Os grandes pecadores são tão cegos que não encontram em si nada para repreender; quanto mais culpas têm, menos pensam nelas. Ó cegos que são! Deveriam recordar aquelas palavras de São João: «Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós» (1Jo 1, 8), e estas outras de São Tiago: «Todos nós faltamos em muitas coisas» (Tg 3, 2). Recordem ainda aquelas sentenças do Profeta: «Quem pode pesar os desvios do homem? Ah, Senhor! Purificai-me das culpas ocultas» (Sl 18,12). «Meus pecados arrastaram-me a um abismo profundo, a um lugar de trevas, entre as sombras da morte» (87, 6). «O pecado, meu inimigo, lançou-me nas mais horrendas trevas, como os mortos» (142, 3). Se é verdade que aquele que habita em Deus não peca, também é verdade que todo aquele que peca não viu nem jamais conheceu a Deus (1Jo 3, 6).
O homem que quer pecar é tão cego que repete a si mesmo a linguagem outrora empregada pela serpente a Eva. Por que tal proibição? Por que não será permitido desfrutar deste prazer? Essa coisa não é tão gravemente má como dizem; ao julgá-la tão severamente, exagera-se… E quem poderá jamais crer seriamente que, pelo gozo de um instante, haja um inferno eterno? Isso não pode ser (Gn 3, 1, 4). A exemplo de Eva, pensa que este ou aquele fruto deve ser bom ao paladar, belo à vista; colhe-o e dele se alimenta; e, nesse momento, abrem-se-lhe os olhos: encontra-se nu, despojado da graça e da amizade de Deus. O fruto do orgulho, da volúpia, da gula, do amor ao mundo, parece bom e belo ao pecador, porque tem a vista turva, o paladar corrompido, o coração enfermo; alimenta-se dele e tem o mesmo destino de Adão e Eva… «O castigo abre os olhos fechados pelo pecado», diz São Gregório (In Gen.); mas é tarde demais; era preciso abri-los antes da queda…
Que faz o homem ao pecar? Abandona a Deus, fonte de água viva, responde Jeremias (2, 13), para seguir as criaturas, cisternas fendidas que não podem conter a água. Ora, que cegueira, que inaudito obscurecimento não é este: abandonar a Deus, único e sumo bem, por um nada, por aquilo que é menos que nada? «Quão grande e qual seja o bem que é Deus, isso se evidencia também pelo fato de que ninguém daqueles que dele se afastam é feliz; com efeito, os mesmos que se entregam ao prazer não podem furtar-se ao temor de algum sofrimento. E também aqueles que não sentem o mal de haver abandonado a Deus não podem ocultar interiormente sua miséria (17)», diz Santo Agostinho. E, de fato, como somente em Deus se encontra a verdadeira felicidade, o pecador que o expulsa de si expõe-se, por isso mesmo, a toda amargura. Depois de ter abandonado a fonte da vida, apega-se, queira ou não queira, à fonte da morte, da infelicidade, da miséria. Não é este o cúmulo da cegueira…
«Puseste uma nuvem espessa entre ti e Deus, a qual intercepta a tua oração», diz Jeremias (Lm 3,44). Os pecados são chamados nuvens: 1° porque são vapores densos e negros que exalam de um coração corrompido, como de uma poça lamacenta; 2° porque privam a alma da luz e do calor do sol eterno, que a teria tornado bela e fecunda; 3° porque, se das nuvens nos vêm o raio e o granizo, do pecado nos provêm a cólera e os castigos de Deus; 4° porque, assim como as nuvens separam a terra do céu e impedem o olhar de penetrar até o firmamento azul, assim os pecados separam o homem dos Santos, dos Anjos e de Deus, e não lhe permitem ver nem o juízo que o espera, nem o inferno que se abre para tragá-lo.
3° Torna-o escravo. ― O pecador é lançado pelo seu pecado numa prisão escura; ou, para dizer melhor, o próprio pecado se torna uma prisão para o pecador, de modo que este pode aplicar a si mesmo aquelas palavras de Jeremias: «Edificou ao meu redor, para que eu não mais saia; tornou pesadas as minhas correntes» (Lm 3, 7).
«O pecado mortal, diz Santo Agostinho, põe na prisão aquele que o comete; a recaída fecha a porta do cárcere; o hábito a mura» (De Morib. Ecclesiae). E que diremos depois da prisão do inferno, na qual o pecado mortal precipita aquele que o comete? Mas não há de que se admirar, pois não é acaso efeito do pecado transformar a alma de templo de Deus em morada de Satanás? O demônio, como nos assegura o grande Apóstolo, mantém os pecadores em seus laços, à sua vontade (2Tm 2, 26). Eles se assemelham a um pássaro que um menino mantém preso por um fio; voa, mas não é livre.
«Os pecadores, escreve Bossuet, são escravos daquele que se declarou antagonista de Deus; escravos de Satanás, desse espírito negro, tenebroso, furioso e desesperado, que não respira senão ódio, dissensão, inveja; escravos desse espírito soberbo, enganador, ciumento, que, tendo-se precipitado no abismo sem esperança de sair dele, já não é capaz de outra coisa senão daquela alegria sinistra que experimenta um malfeitor ao ter cúmplices, um invejoso ao ter companheiros de infortúnio, um orgulhoso abatido ao arrastar outros consigo para a ruína; escravos do demônio, cujo ódio é implacável. E notai que tal é o ódio do diabo contra os pecadores, que ele se compraz não somente em atormentá-los, mas em manchar-lhes e degradar-lhes a alma. Gosta mais de corromper do que de atormentar; de tirar a inocência do que o repouso; mais de tornar alguém mau do que infeliz. Quando esse vencedor cruel se assenhoreia de uma alma, entra nela enfurecido, saqueia-a, maltrata-a, devasta-a, viola-a; e a viola não tanto para satisfazer a si mesmo, quanto para desonrá-la e aviltá-la. Leva-a a entregar-se a ele, enlameia-a e depois zomba dela; trata-a como são tratadas aquelas mulheres que se tornam objeto de escárnio daqueles a quem se prostituíram indigna e vilmente».
«Eis que, diz Isaías, fostes vendidos em meio às vossas iniquidades, e vendidos por um nada» (50,1; 52,3). Deus vende os pecadores, isto é, abandona-os ao demônio; pois, por si mesmo, o demônio não tem nenhum direito sobre o homem, ainda que pecador; mas Deus o entrega a ele como um ser vil, desprezível, réu de lesa-majestade; entrega-o como a justiça humana entrega um condenado ao carrasco, para que o torture.
O pecador é escravo do demônio, mas também da concupiscência, das paixões e do pecado: «Despojemo-nos, diz São Paulo, de todo peso e do pecado que nos envolve» (Hb 12,1). 1) A concupiscência nos envolve, fazendo-nos guerra contínua e encarniçada e pondo-nos obstáculos para fazer o bem. 2) O pecado nos envolve, isto é, acorrenta-nos e impede a liberdade de nossos movimentos. 3) Envolve-nos, isto é, estreita-se fortissimamente a nós.
O pecador, segundo a expressão de São Paulo, está vendido sob o pecado (Rm 7, 14). A força dessa expressão compreende-se quando se recorda como os antigos romanos costumavam coroar de flores os prisioneiros de guerra que punham à venda, o que se chamava vender, venundare sub corona. Por isso, venundari sub peccato significa literalmente ser vendido ou abandonado por Deus ao demônio, levando na cabeça, como terrível coroa, o peso dos pecados cometidos.
São Bernardo, comentando aquela passagem do Êxodo em que se narra que os hebreus, oprimidos pelo Faraó, eram empregados na fabricação de tijolos com barro, para cuja cozedura o rei lhes fornecia determinada medida de palha (Ex 1 e 5), diz: «Sob o jugo do Faraó fazem-se obras de barro; o Faraó, o demônio, fornece-nos a palha, isto é, os pensamentos dissipados e culpáveis. A palha inflama-se depressa e é consumida num instante; os maus pensamentos sugeridos pelo demônio produzem rapidamente no espírito um fogo que é alimentado pela carne corrompida. Com a palha acesa cozinha-se o barro, ou terra amolecida, para fabricar tijolos; com a palha da complacência, os maus pensamentos, figurados pelo barro, aquecem-se, transformam-se em atos e hábitos, que depois endurecem e se tornam sólidos como a argila cozida na fornalha (In Exod.).
«Ai de vós, diz Isaías, que arrastais atrás de vós a iniquidade com seus laços de vaidade, e o pecado como as barras de um carro» (Is 5, 18). «O Profeta, comenta aqui São Jerônimo, dá ao pecado o nome de laço de vaidade, porque em brevíssimo tempo é tecido e não tem mais consistência que uma teia de aranha; mas, quando tentamos libertar-nos dele, encontramo-nos apertados por laços fortíssimos (18)».
Sansão é apanhado pelas lisonjas de Dalila; perde sua força, torna-se fraco, é vencido e entregue aos filisteus, que lhe arrancam os olhos e o obrigam a girar, como um animal de carga, uma mó. Que é Dalila, senão a concupiscência? E que são os filisteus, senão as paixões desenfreadas da alma? Quando, portanto, o homem se abandona ao pecado, perde suas forças e logo o demônio, a carne e o mundo o agarram; amarram-no, arrancam-lhe os olhos da inteligência e o tornam escravo, como um animal de carga atrelado à mó de um moinho… O pecador torna-se escravo de suas paixões; e fica sujeito a tantos tiranos quantas são as paixões às quais cede… O Evangelho diz do filho pródigo que ele se fez escravo de um senhor avaro e cruel; mais infeliz que o pródigo, o pecador faz-se escravo de uma tropa de senhores cruéis e ferozes além de toda imaginação.
4° Mata o corpo e a alma. ― «O salário do pecado é a morte», diz São Paulo (Rm 6, 23). Salário funesto! «O aguilhão do pecado, escreve o mesmo Apóstolo, é o pecado» (1Cor 15, 56). Estímulo terrível, aguilhão atroz! … Deus havia criado o homem imortal de alma e de corpo, mas o pecado o fez perder essa imortalidade, e o Senhor lho anunciou com estas palavras tremendas: «Tu és pó e ao pó retornarás» (Gn 3, 19). Quem, considerando as horríveis devastações que a morte causa, não compreenderá a enormidade do pecado mortal? … Ele entra no mundo, e a morte o segue! …
«Quem não ama a Deus e a seus irmãos permanece na morte», diz São João (1Jo 3, 14). Ora, quem peca mortalmente deixa de amar a Deus e, portanto, deixa de viver. A morte da alma ocorre pela privação da graça santificante e pelo abandono de Deus. Quando a alma está separada de Deus, encontra o destino que cabe ao corpo quando está separado da alma… Deus é a vida da alma; quando dela se afasta, ela morre. «A alma que peca, diz Ezequiel, morrerá» (Ez 18, 20). «O pecado, uma vez consumado, gera a morte», acrescenta São Tiago (Tg 1, 15); por isso o Senhor diz ao pecador no Apocalipse: «Conheço as tuas obras; pareces vivo, mas na realidade estás morto» (Ap 3, 1), e Santo Agostinho escreve: «Sabe-se que muitos trazem almas mortas em corpos vivos» (De Verbo Domin.). Ah, sim! o pecado é a morte da alma imortal, morte que deixa o homem viver, morte à qual não põem fim nem a morte do corpo nem a eternidade.
5° Atrai a maldição de Deus. ― Jeremias proclama em nome do Senhor que maldito é aquele que confia na criatura e cujo coração se afastou de Deus (17, 5). Davi, por sua vez, exprime em frases enérgicas o modo e a força com que essa maldição divina se apega ao pecador obstinado. Ele amou a maldição, e ela virá sobre ele; não quis a bênção, e ela se afastará dele. Vestiu-se da maldição como de um manto; ela entrou como água em suas entranhas, penetrou como óleo em seus ossos. Torne-se ela para sempre a sua veste e seja o cinturão de seus rins. Esta é a paga que Deus reserva a seus inimigos (Sl 108, 18-19). Se terrível é a maldição de um pai sobre os filhos, que será a maldição de Deus? …
6° Conduz a uma má morte e ao inferno. ― «A morte dos pecadores é péssima», diz o Salmista, e «terribilíssima», acrescenta o Sábio (Eclo 28, 24); porque «naquele momento ele verá e se enfurecerá, rangerá os dentes e se consumirá de raiva; o desejo dos ímpios se dissipará em fumaça» (Sl 111, 9).
A morte no pecado e na impenitência final é uma morte desesperada, uma morte irreparavelmente infeliz; é a morte dos réprobos, que do inferno do remorso os arrasta ao inferno do fogo; pois o pecador, quando peca mortalmente, acende em si mesmo o fogo eterno. Quem peca, diz Santo Ambrósio, trabalha para a segunda morte, isto é, para o inferno (19). «O pecador, lemos no Apocalipse, beberá do vinho da cólera de Deus e será atormentado pelo fogo e pelo enxofre. A fumaça de seus tormentos subirá pelos séculos dos séculos, e não terão repouso nem de dia nem de noite» (Ap 14, 10-11).
Por isso Santo Agostinho diz: «Se não temeis o pecado, temei ao menos a morte eterna. Ó infelicidade dos pecadores! morrendo, deixam o objeto que os impeliu ao pecado e levam consigo os seus pecados, princípio de uma eterna condenação. Não há morte pior que aquela que conduz para onde a morte não morre. Desgraçados pecadores! aquilo que querem não existe, e aquilo que não querem existe; quereriam para sempre o prazer do pecado, e este passa imediatamente; não quereriam a pena do pecado, e esta não somente existe, mas, se não se converterem a tempo, durará eternamente (20)».
7° Faz do homem um demônio. ― Se resistimos ao pecado mortal, derrotamos o poder de Satanás; mas, se cedemos ao pecado, ele chamará sobre nós o demônio, ou melhor, transformar-nos-á em demônios. Quem possui Deus é, de certo modo, transformado em Deus; quem traz o demônio no coração torna-se interiormente ele próprio um demônio e traz sobre si impressa a marca do dragão infernal: «Quando o homem vive a seu bel-prazer, diz Santo Agostinho, e não segundo a lei de Deus, torna-se semelhante ao demônio; pois até mesmo o Anjo, se quis permanecer na verdade, teve de viver não segundo o Anjo, mas segundo Deus (21)».
Por causa do pecado, o Anjo tornou-se diabo; pelo pecado, o homem incorre na mesma sorte… «Quem peca, diz abertamente São João, pertence ao demônio, porque o demônio peca desde o princípio… e os pecadores são filhos do demônio» (1Jo 3, 8-10). E, instruído por ele, Santo Inácio mártir escreve que o pecado mortal é um germe de Satanás, que transforma o homem em demônio (Epist.).
8° Produz por si mesmo todos os males. ― São Cirilo chama o demônio de príncipe do pecado e pai de todos os males (Hom.). Com efeito, de onde vieram todos aqueles infinitos males dos quais o homem é presa neste e no outro mundo? Não vieram acaso da inveja de Satanás e do pecado de Adão? … Para conhecer o que é o pecado, lanceis os olhos sobre a desobediência do primeiro homem e considerai quantas doenças, quantos sofrimentos, quantas angústias e misérias ela trouxe a milhões de homens que, há cerca de seis mil anos, passam dilacerando-se entre os espinhos da terra; e quantos dentre essa multidão desceram, por toda a eternidade, aos abismos do inferno? Considerai que, para expiar essa desobediência, o Filho de Deus teve de morrer crucificado entre dois ladrões, e compreendereis que mal é um só pecado! Então, se a paixão vos lisonjear, respondereis a ela: Não quero, por coisa tão insignificante, fazer nascer em mim remorsos que poderiam ser inúteis e eternos.
Eis as principais enfermidades que o pecado mortal gera em nós e contra as quais o Espírito Santo nos dá força…; 1° As doenças, as adversidades e os diversos gêneros de males infligidos ao corpo e à alma… 2° A ignorância no intelecto… 3° A fraqueza na vontade… 4° O esquecimento da memória… 5° A pouca firmeza e duração de nossos desejos, os quais frequentemente não resistem ao estímulo da carne… 6° O fogo da concupiscência… 7° A pena que sentimos ao empreender obras heroicas… 8° A dificuldade que experimentamos em perseverar no fervor e no serviço de Deus… 9° Os esforços que devemos fazer para orar a Deus.
Quantas vezes uma alma peca, diz Orígenes, tantas feridas recebe; se o pecado é mortal, também a ferida é mortal. Oh! se pudéssemos ver como o homem interior é continuamente ferido em nós por toda espécie de pecados! As obras que constituem o pecado mortal dilaceram, despedaçam e reduzem a alma a pedaços. Se pudéssemos ver o estado em que então se encontra a alma, resistiríamos ao pecado, ainda que isso nos custasse a vida; mas, desviados pelas cobiças do século e embriagados pelos vícios, não podemos nem sentir nem perceber a gravidade e a multidão dos golpes que, pecando, desferimos contra nossa alma (Hom. 8, in Num.).
Um emblema das desgraças que o pecado mortal semeia no mundo temos naquele cavalo branco, visto por São João no Apocalipse, sobre o qual estava sentado um cavaleiro chamado A Morte, e atrás do qual vinha o inferno; e a ele foi dado poder sobre as quatro partes da terra: poder de matar pela fome, pela peste, pela espada e pelas feras (Ap 5, 8).
Dez pragas afligiram sucessivamente o Egito: a transformação da água em sangue; as rãs; os mosquitos; as moscas; a mortandade dos animais; as úlceras; a saraiva; os gafanhotos; as trevas; a morte dos primogênitos. Ora, essas pragas são figura daquelas que atraem sobre si os pecadores, isto é, a discórdia, as contendas e os tumultos, as aflições que os pungem; a cólera e os ódios que os inflamam, a perda dos bens temporais ou a inveja daqueles de que carecem, os remorsos da consciência, a obstinação no mal, a tirania das paixões que os devoram, a cegueira na qual dormem, a morte e a condenação de sua alma. Sobre seus lábios assentam muito bem aqueles gemidos do Salmista: «Minha alma está saciada de males; e minha vida já está próxima do limiar da morte. Vossa cólera, ó Senhor, agravou-se sobre meus ombros, as ondas de vosso furor se encavalgaram sobre minha cabeça» (Sl 87, 3, 7).
Adão e Eva caem, e eis que vêm a concupiscência, a vergonha, o conhecimento de sua nudez, o temor, o cuidado de se esconderem, a desculpa, a expulsão do paraíso, as dores do parto, a sujeição da mulher ao homem, a maldição da terra e do trabalho, os suores, os espinhos, a esterilidade, a morte, a corrupção, a perda de Deus e da felicidade eterna, o inferno, etc…. Em Adão e Eva culpados, notai ainda cinco funestos efeitos do pecado: 1° o conhecimento do mal…; 2° a perda dos bens que possuíam…; 3° a confusão…; 4° os remorsos da consciência…; 5° a fuga deles para longe de Deus, cujas repreensões temem, bem como a sentença que está para pronunciar… Neles começou a sentença de São Bernardo: «Com o pecado passa a alegria, que não mais retorna, e permanece o remorso, que nunca mais parte» (In Psalm.).
Seis castigos foram decretados por Deus contra Adão e sua descendência; castigos que correspondem aos diversos pecados por ele cometidos. O primeiro pecado foi a desobediência, em pena da qual ele sentiu nascer em si a rebelião da carne e dos sentidos. O segundo foi a gula, e, em punição desta, foi condenado à fadiga e ao trabalho. O terceiro foi o furto do fruto proibido, e, por isso, foi submetido à fome, à sede, ao frio, ao calor, às doenças, etc. O quarto foi a infidelidade que o levou a não dar crédito à palavra do Senhor, para crer na palavra da serpente, e esta foi castigada com a morte. O quinto foi a ingratidão, e, como castigo, recebeu a privação das coisas necessárias à existência e o decreto de dever retornar ao pó. O sexto foi o orgulho, e, em punição deste, foi-lhe tirado o paraíso, a companhia dos anjos, a posse de Deus, e ele se viu condenado ao inferno.
«Deus pôs um sinal em Caim», lemos na Escritura (4, 15). Eis os castigos do segundo pecado cometido no mundo: 1° tremor dos membros; 2° fuga e exílio; 3° temor e consternação; 4° revolta das criaturas contra Caim; 5° vagabundagem… Em punição de pecados novos e mais universais, Deus sepulta o mundo inteiro num dilúvio de águas; aniquila Sodoma e Gomorra sob uma chuva de fogo e enxofre, etc….
«A justiça faz prosperar as nações, havia dito o Sábio, e o pecado as torna miseráveis» (Pr 14, 34); e a verdade desta sentença é provada pela história de todos os povos: «A esterilidade e a viuvez cairão sobre ti de uma só vez», disse Deus ao culpado povo de Judá (47, 9); e eis este povo clamando com Tobias: «Porque não obedecemos às vossas ordens, ó Senhor, fomos entregues ao saque, ao cativeiro, à morte, e nos tornamos o ludíbrio das nações» (Tb. 3, 4).
Instruídos por esta escola, todos os santos Padres veem nas calamidades públicas a justiça de Deus, que pune os pecados dos povos, das cidades e dos reinos; São Jerônimo, entre outros, ao tratar da ruína em que caía o Império Romano, devastado por hordas bárbaras, diz: «São os nossos pecados que dão força aos bárbaros» (Epl. ad Heliod.). Terríveis e numerosas são as desgraças e misérias que o pecado atrai sobre a cabeça das nações: rebeliões, injustiças, fome, peste, guerras, sedições, anarquia, vergonhas, derrotas… Os pecados fazem desaparecer a dignidade, a caridade, a fé, o culto divino, a religião, as virtudes, os reis, os reinos, os povos e as famílias.
Recolhei e ponderai os seguintes axiomas, e podereis compreender a malícia e a gravidade do pecado mortal.
1° O pecado é o pior de todos os males que existem, existiram e existirão sob o sol. Quem transformou um anjo em demônio? O pecado. Quem expulsou Adão e seus descendentes do paraíso terrestre e os dispersou nesta terra de misérias? O pecado.
2° Um só pecado, ainda que venial, é mal maior que todos os outros males tomados em conjunto, porque somente o pecado ataca a Deus. O pecado é o único mal, a única desordem; todos os outros males, castigos do pecado, são um ato de justiça e o restabelecimento da ordem destruída pelo pecado.
3° Comparados ao pecado, os outros males não somente deixam de ser males, mas merecem o nome de bens, como efeito da justiça vingativa, que remedia o pecado com a pena e, desse modo, reconduz a desordem à ordem.
4° O pecado é um deicida; é a única espada que poderia dar morte a Deus, se Ele pudesse morrer.
5º O Filho de Deus consentiu em encarnar-se, padecer e morrer, em vez de deixar o pecado sem expiação. Quem crucificou Jesus, senão o pecado?
6º Se todos os Anjos bons e maus, todas as criaturas e o próprio Criador se unissem para prejudicar um homem e, com todo o seu poder, o atormentassem e o oprimissem, não poderiam fazer-lhe tanto mal quanto ele faz a si mesmo ao cometer um só pecado venial.
7º A malícia do pecado não encontra compensação em bem criado algum; de modo que não seria permitido cometer um só pecado venial para converter o mundo inteiro, ou para libertar do inferno todos os condenados. Pode-se dizer, com toda a verdade, que a malícia do pecado é infinita. Com razão, portanto, os mártires e os santos resistiram ao pecado até o ponto de preferir a morte a uma culpa… Ó filha culpada de Sião! ó alma manchada pelo pecado mortal, a quem te compararei eu? a quem te assemelhas? (Lm 2,13).
Eis uma sentença de Santo Agostinho, digna de ser sempre recordada: «Há um sumo bem, Deus; e um sumo mal, o pecado. Aquele, pelo qual devemos desejar todos os outros bens, mas a Ele por si mesmo; este, por causa do qual devemos evitar todos os outros males, mas a ele por si mesmo (22)».
Os pecadores podem dizer com Jeremias: «Lembra-te, Senhor, do que nos aconteceu: olha e considera o nosso opróbrio. Nossa herança passou para mãos estrangeiras; nossas casas foram ocupadas por estranhos, e nós nos tornamos como órfãos, sem pai… A alegria do nosso coração se extinguiu, nossos cantos se transformaram em soluços; caiu a coroa de nossa cabeça; ai de nós, porque pecamos» (Lm 5,1-2, 15-16).
Pode-se dizer do pecado mortal: «O mistério da iniquidade se cumpre» (2Ts 2,7); em sua fronte traz gravada aquela inscrição que São João Evangelista viu na fronte da prostituta do Apocalipse: Mistério (Ap 17,5). E, de fato, que o homem não se submeta a qualquer sofrimento, antes que se entregue ao pecado, tão abominável em si mesmo, tão detestado por Deus, tão fortemente condenado pela lei divina, pela consciência e pela razão; ao pecado que rouba todo bem e gera todo mal; tal cegueira é algo prodigioso; é verdadeiramente um mistério infernal.
«Por mim, não posso compreender, dizia São Tomás, como um homem que jaz em pecado mortal ainda possa rir e divertir-se» (De Peccat.). Uma virgem de Jesus Cristo confessava, no momento da morte, que jamais pudera compreender como uma criatura feita à imagem de Deus, capaz de conhecê-lo, amá-lo, servi-lo e vê-lo na bem-aventurada eternidade, possa cometer deliberadamente um só pecado mortal contra seu Criador e Redentor.
Para fazerdes uma ideia do estado em que se encontra uma alma manchada pelo pecado mortal, imaginai: 1º Uma cidade tomada de assalto e entregue ao saque, ao ferro e ao fogo. 2º Um vasto incêndio; com esta diferença: num incêndio, pede-se socorro, e a vizinhança se apressa em prestá-lo; ao contrário, a alma em que se ateou o fogo infernal do pecado permanece muda e deixa-se assaltar e devorar sem clamar a Deus nem implorar dele auxílio e proteção. 3º Um naufrágio formidável e espantoso. 4º Os saques e as carnificinas que acompanham uma guerra implacável. 5º Os tormentos causados pela fome e pela peste. 6º Imaginai também uma pessoa que, em lugar solitário, no fundo de uma floresta sombria e interminável, em meio às trevas de uma noite tenebrosa, depara com ladrões e assassinos; 7º ou então um infeliz às voltas com uma fera; 8º ou um prisioneiro fechado numa prisão tenebrosa, infestada de víboras e escorpiões; 9º ou um paciente nas mãos de carrascos enfurecidos; 10º ou, finalmente, um cadáver estendido num sepulcro e abandonado à corrupção e aos vermes.
O pecado nasce de nós mesmos: do intelecto, da vontade, da imaginação, da ignorância, dos maus hábitos e da concupiscência.
1º A vontade é a causa imediata do ato culpável, isto é, do pecado mortal: ela o quer… 2º O intelecto o propõe à vontade, aconselhando-a a assegurar para si um pretenso bem sensível, abandonando o bem real e desobedecendo à lei divina, que proíbe amar tal bem… 3º A imaginação representa vivamente à vontade as doçuras desses falsos bens e se esforça por obter o seu consentimento… 4º A ignorância tende ao mesmo fim a que tende a imaginação, ocultando à vontade a fealdade e a malícia do pecado… 5º O mau hábito, apoiando-se na própria frequência do consentimento que a vontade deu ao pecado, arrasta-a a querê-lo novamente… 6º Finalmente, a concupiscência é a causa própria e poderosa da tentação e, por conseguinte, do pecado. Ela move a inteligência, a imaginação e a vontade, e as solicita a pecar. Dá origem à irreflexão, à ignorância e à paixão; causa as recaídas e o mau hábito; oculta a malícia do pecado, prodigalizando promessas de uma felicidade que da felicidade só tem a aparência. Por isso, com toda a razão, é chamada princípio, arsenal e foco do pecado e, segundo a expressão de São Paulo, a lei dos membros que combate a lei do Espírito e sujeita o homem à lei do pecado que está nos membros (Rm 7,23). «A concupiscência, diz São Tiago, quando concebe, dá à luz o pecado; e o pecado, consumado, gera a morte» (Tg 1,15). Por isso, Santo Agostinho escreve: «A concupiscência ergue a cabeça? e tu não lhe dês atenção; convida-te? tu não a sigas: ela é ilegítima, licenciosa, infame, torna o homem inimigo de Deus (23)».
A primeira maneira pela qual se peca é, segundo São Jerônimo, pensar naquilo que é mau; a segunda é deter-se em tal pensamento; a terceira é passar do pensamento à ação; a quarta é não fazer penitência depois do pecado e comprazer-se nele (Epl. VIII). O primeiro passo para o pecado, diz Ruperto Abade, dá-se abrindo-lhe acesso à vontade: então o pecador está morto em sua própria casa; o segundo dá-se passando do querer ao ato: e aqui o pecador já morto é levado a sepultar; o terceiro se consuma contraindo o hábito do mal e, por isso, o pecador é sepultado; o quarto consiste em comprazer-se no pecado e resistir a Deus, que chama à penitência; é lutar por orgulho contra a lei divina, que o repreende, e esse grau pode ser comparado à putrefação. Quem assim procede entrega-se inteiramente ao poder do demônio, mostra que está decidido a permanecer impenitente e rebelde; defende o seu delito. Por isso, semelhante culpa se torna absolutamente indigna de perdão e quase irremissível (In Evang.).
Os Santos João Crisóstomo, Agostinho e Tomás ensinam que é mais difícil e requer maior poder tornar justo um pecador do que criar o céu e a terra… Com efeito, o pecado e a graça, o pecador e Deus, são muito mais distantes, opostos e repugnantes entre si do que o nada e a existência. Deus e o pecado são dois extremos, dois contrários em grau infinito. Além disso, nada resiste a Deus senão a vontade do pecador. Finalmente, a graça e a justificação são de ordem sobrenatural e divina; é necessário um sumo esforço de poder para que o pecador degradado e decaído, por causa de seu pecado, abaixo das criaturas e até mesmo do nada, seja elevado acima de todas as criaturas até a justiça, e se torne amigo de Deus, seu filho adotivo e, de algum modo, participante da natureza divina.
«Os perversos dificilmente se corrigem», lemos no Eclesiastes (Ecl 1,15). A razão é esta: 1º porque pecam; ora, o pecado é a mais insensata das loucuras; pois pecar equivale a preferir os sentidos à razão, a paixão à virtude, a criatura ao Criador, isto é, um centésimo a um milhão, um grão de trigo a uma colheita abundantíssima, uma gota de água ao Oceano, um grão de areia ao universo, a morte à vida, o inferno ao céu, a suma e eterna infelicidade à suma e eterna bem-aventurança: ora, quem se conduz dessa maneira não parece incorrigível?… 2º Os perversos raramente se corrigem, porque permanecem obstinados no pecado, dele se deleitam, nada encontram nele de condenável e, com frequência, louvam a si mesmos, censurando os bons… 3º Dificilmente se corrigem, porque não suportam que outros os repreendam ou corrijam, mas zombam daqueles que lhes ensinam o bem e os convidam a praticá-lo; por isso, a Sagrada Escritura diz que o coração dos ímpios é chumbo vil e que estes morrerão em grande pobreza de coração, isto é, em grande privação de inteligência e de razão (Pr 10,20-21)… 4º Dificilmente se corrigem, porque fogem da luz, e só de pensar em tornar-se melhores sentem arrepios.
«Deus deve punir o pecado, escreve Santo Agostinho, porque o cetro de seu império é cetro de justiça. O pecado deve ser punido; caso contrário, já não seria pecado. Antecipai-vos a Deus, punindo-vos a vós mesmos, se não quereis que ele vos castigue; porque, seja por vós, seja por ele, é necessário que o pecado tenha o seu castigo. Reconhecei e confessai a vossa culpa, para que ele vo-la perdoe. Vós perdoais, ó Senhor, àquele que confessa as suas iniquidades; perdoais, mas somente àquele que se pune. Assim ficam satisfeitos os direitos da misericórdia e da justiça; a misericórdia triunfa, porque o homem é libertado do jugo que o oprime; a justiça é salva, porque o pecado é punido (24)». «Todo pecado, como observa em outro lugar o mesmo Padre, é uma desordem. Sob um Deus justo, toda desordem deve ser reprimida; mas, para isso, é preciso punir o autor: ora, o autor do pecado é o próprio pecador» (In psalm. XLIV).
Por três graus caminha a tentação. Primeiro, a sugestão e o pensamento da coisa má, que ordinariamente não constituem pecado, porque muitas vezes são suscitados pelo demônio sem que haja culpa ou intervenha consentimento de nossa parte. Segundo, a complacência, que se dá quando a alma, deixando de repelir a sugestão, lhe abre assim um pouco a entrada no coração com um prazer imperfeito; então não há senão pecado venial. Terceiro, o consentimento voluntário e deliberado; e, neste caso, se ao consentimento se junta a gravidade da matéria, há pecado mortal… Por isso disse Santo Isidoro: «Por esses estímulos, como por outros tantos degraus, o pecado chega à sua meta; a sugestão produz o deleite; o deleite gera o consentimento; o consentimento dá à luz a ação; desta nasce o hábito; do hábito, a necessidade (25)».
«Como poderemos ainda viver no pecado, diz o Apóstolo, nós que morremos para o pecado?» (Rm 6,2). Morremos para o pecado por meio do batismo, de nossa vocação à vida cristã etc. Devemos, portanto, fazer todo o possível para evitar todo pecado e procurar sair dele, se por desgraça nele caímos… E, contudo, que fazem quase todos os pecadores? Quando deveriam manter-se de pé, caem; e, quando deveriam levantar-se, jazem e apodrecem…
Para não cair em pecado mortal, ou para dele sair, é preciso:
Em primeiro lugar, temer o pecado. Tendo a imperatriz Eudóxia ameaçado o Crisóstomo, os próprios cortesãos lhe disseram: «Em vão vos esforçais, ó princesa, por intimidar o Crisóstomo; ele nada teme, exceto o pecado» (Stor. eccles.). «Já aprendi a conhecer a firmeza de Ambrósio, dizia o imperador Teodósio; o temor da majestade imperial jamais o levará a transgredir a lei divina» (Stor. eccles.). «Se eu visse de um lado o pecado e, do outro, o inferno, e tivesse de escolher entre os dois, preferiria o inferno. Preferiria lançar-me completamente puro nas chamas infernais a entrar no céu manchado pela culpa (26)». Estas palavras de Santo Anselmo deveriam estar nos lábios de todo homem às voltas com a tentação.
Em segundo lugar, é preciso precaver-se de tudo o que tem aparência de pecado: «Fugi, diz o Espírito Santo, do pecado como fugirias à vista de uma serpente; porque, se te aproximares dele, ele te agarrará. Tem dentes como os de um leão; eles matam as almas» (Eclo 21,2-3). «Abstende-vos, diz o Apóstolo, não somente do mal, mas também de tudo o que tem aparência de mal» (1Ts 5,22). Lembremo-nos da advertência de São Bernardo: «Se não pisarmos os pecados, eles nos pisarão; se não os contivermos, eles nos oprimirão» (Serm. in Psalm.).
Em terceiro lugar, é necessária a oração. Devemos exclamar com o Salmista: «Vinde, ó Deus, em meu auxílio; apressai-vos, ó Senhor, em socorrer-me» (Sl 69,1).
Em quarto lugar, devemos preferir a morte a cometer um só pecado mortal. Se o arminho, perseguido pelos caçadores, não vê diante de si outra via de escape senão atravessar um pântano lamacento, deixa-se primeiro capturar e matar a sujar-se, como se dissesse: ― Prefiro ser morto a manchar-me. ― Este deveria ser o lema do cristão.
Desde os seus mais verdes anos, São Luís, rei da França, aprendeu de Branca, sua piedosíssima mãe, a antepor a morte ao pecado mortal. Santo Edmundo, arcebispo de Cantuária, dizia: «Preferiria ser lançado numa fornalha ardente a cometer deliberadamente um só pecado» (In Vita). Observai José, Susana, Daniel, o santo ancião Eleazar e inúmeros outros… Os próprios pagãos nos deixaram, sobre isso, sentenças memoráveis: Diógenes Laércio, por exemplo, atribui a Aristóteles estas palavras: «É melhor morrer antes que violar de algum modo as leis da virtude (27)». «Ainda que eu soubesse, escreveu Sêneca, que os homens ignorariam e Deus me perdoaria alguma culpa, eu não a cometeria, contudo, por causa da intrínseca torpeza que há no pecado (28)». Que é o pecado? Não é ele porventura uma úlcera, uma lepra, uma cloaca envenenada, um monstro das inteligências, um crime de lesa-majestade divina, o lar do fogo infernal, a baba de Satanás, o pai da morte?
Em quinto lugar, é de grande proveito recordar a presença de Deus: «Senhor, exclamava o Salmista, pusestes as nossas iniquidades diante de vosso olhar, e a nossa vida foi iluminada pelo esplendor de vosso rosto» (Sl 89,8). «Para onde irei para subtrair-me ao vosso olhar? Onde fugirei e me esconderei sem que me vejais?» (Sl 138,6). O casto José respondeu com estas palavras à mulher infame que o solicitava ao mal: «Como poderei eu fazer este mal e pecar na presença de Deus?» (Gn 39,9).