Tesouro n.º 149 · Volume III

PECADO ORIGINAL PECCATO ORIGINALE

4 seções · 13 parágrafos · pp. 1765–1769 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A EXISTÊNCIA DO PECADO ORIGINAL É CERTA

Deus prescreveu a circuncisão a Abraão por causa do pecado original e para apagar a mancha que ele imprime na alma (Gn 17,10). A mesma lei renovou por meio de Moisés; o próprio Jesus Cristo, embora isento de toda mancha e sem pecado, quis, por humildade e espírito de obediência, submeter-se a ela. Abolida depois a circuncisão, Deus estabeleceu o sacramento do batismo em seu lugar e com o mesmo fim.

«Por um homem, escreve São Paulo, o pecado entrou no mundo e, pelo pecado, a morte; e assim a morte passou a todos os homens, por meio daquele em quem todos pecaram» (Rm 5, 12). Todos, sem excluir as crianças, pecaram, portanto; mas as crianças não podem ter um pecado atual; resta, pois, que nasçam com um pecado de origem, contraído por elas em Adão.

É uma clara confissão da existência e da transmissão do pecado original aquela que faz o Salmista: «Considerai, ó Senhor, que na iniquidade fui gerado, e que no pecado me concebeu minha mãe» (Sl 50, 6) … Linguagem semelhante emprega Jó; e não é de admirar, porque, até mesmo entre os povos antigos, embora inteiramente separados da nação judaica, encontramos conservada alguma lembrança da queda do primeiro homem e da maldição divina, por ele provocada sobre si mesmo e sobre toda a sua descendência.

2. CAUSAS DO PECADO ORIGINAL

«Pela inveja de Satanás, diz o livro da Sabedoria, a morte entrou no mundo» (Sb 2,24). Embora a desobediência de Eva tenha precedido a de Adão, este, contudo, na qualidade de nossa cabeça e como aquele em quem haviam sido depositadas a inocência e a justiça originais, é verdadeiramente a causa primeira do pecado original, de suas consequências e de sua transmissão, assim como é a causa primeira da geração. Esta consideração dá grande peso de probabilidade à opinião de São Tomás, seguida por vários teólogos, de que, apesar da queda de Eva, se Adão não tivesse pecado, não teria havido a transmissão do pecado original.

3. DE QUE MODO SE CONTRAI O PECADO ORIGINAL

«Todos os homens, segundo a palavra de São Paulo (Rm 5, 12), pecaram em Adão, porque todos os homens, observa Santo Agostinho, foram aquele único homem, isto é, Adão» (De peccat. merit. c. X). Todos os homens foram aquele único homem por sua origem; ele representava e continha a todos em germe… Assim como o pecado atual, isto é, o ato do pecado, passa, mas deixa atrás de si o pecado habitual, ou seja, uma mancha na alma, assim também o pecado original, enquanto foi ato de desobediência de Adão, passou, mas deixou em todos os homens, por serem parte daquele Adão, uma mancha que cada um deles traz consigo ao nascer. Ele é, ao mesmo tempo, pecado atual e habitual. Não se vê acaso muitas vezes passar aos filhos a desordem e a infâmia do pai? Não é o delito de um príncipe algumas vezes imputado a toda a nação?

Todos veem que pesa sobre nós a pena de Adão, estando sujeitos à ignorância, à concupiscência, às doenças, à morte etc. Nascemos, portanto, culpados, porque o homem não saiu das mãos do Criador na condição miserável em que atualmente o vemos, pois todas as criaturas feitas por Deus eram muito boas (Gn 1, 31). O sangue de Adão havia sido infectado por seu delito; ora, todos os homens procedem desse sangue impuro; nascem, portanto, todos manchados pelo pecado original.

A exceção feita em favor da Virgem Imaculada não enfraquece a lei geral; antes, a confirma, pois não há lei tão geral que não possa admitir exceções. O supremo legislador tem sempre o direito de dispensar. Em virtude do supremo senhorio que tem sobre todas as criaturas, Deus colocou a vontade de todos os homens na vontade de Adão, para que sua posteridade fosse considerada como fazendo aquilo mesmo que ele fizesse, de bem ou de mal. A vontade de Adão foi, portanto, a vontade de toda a sua descendência. Assim dispôs Deus para que Adão fosse o tipo, ou, se assim se pode dizer, o antítipo de Jesus Cristo, cuja vontade, satisfação e méritos devem ser nossos. Porque, como diz São Paulo, Jesus Cristo se fez para nós sabedoria vinda de Deus, justiça, santificação e redenção (1Cor 1, 30).

4. CONSEQUÊNCIAS DO PECADO ORIGINAL

«Vejo, confessava de si mesmo São Paulo, em meus membros outra lei que se opõe à lei do meu espírito e me sujeita à lei do pecado que está em meus membros. Homem infeliz! Quem me livrará deste corpo de morte?» (Rm 7, 23-24). «Não compreendo o que faço, diz o mesmo Apóstolo, pois não faço o bem que quero e cometo o mal que odeio» (Rm 7,15).

Tertuliano reconhece que aquele langor, aquela fraqueza que nos torna entorpecidos para o bem, não nos vem da natureza, mas da culpa (De Poenit. n. 5): Pelo pecado original, diz São Próspero, o homem perdeu a ciência do bem; a iniquidade expulsou a justiça; o orgulho destruiu a humildade; a concupiscência desonrou a continência; a infidelidade baniu a fé; a escravidão substituiu a liberdade; a virtude não pôde resistir nem manter-se firme onde irrompeu tamanha multidão de vícios (Sentent.).

«Vi, narra São João no Apocalipse, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito e fechado com sete selos» (Ap 5, 1). Muitos doutores pensam que esse livro era o emblema da culpa e da pena do pecado de Adão; pecado pelo qual ele ligou a si mesmo e a nós à vingança de Deus. Os sete selos denotam os sete males nascidos desse pecado, a saber: 1° a ofensa a Deus; 2° a pena do dano; 3° a pena do fogo infernal e das aflições desta vida; 4° a necessidade de morrer; 5° o jugo de Satanás; 6° um sentimento de afastamento de Deus e uma violenta inclinação para as criaturas; 7° a concupiscência e a ignorância. Somente Jesus Cristo pôde romper aqueles sete selos, isto é, destruir esses sete males.

Dez misérias ou penas enumera o Cardeal Belarmino, infligidas à natureza humana por causa do pecado original: 1° a ignorância do espírito; 2° a perversidade da vontade; 3° a concupiscência; 4° o trabalho e as dores do corpo; 5° a morte; 6° a ira de Deus; 7° a escravidão sob o jugo do demônio; 8° as disputas, as rixas, as rebeliões, as guerras; 9° a revolta dos animais contra o homem; 10° todas as desgraças previstas e imprevistas que sobrevêm ao homem, provenientes do céu, da terra ou do mar (In Eccles.).

Daqui se compreende o que é o pecado; quão terrível e quão malicioso ele é. O único pecado de Adão atraiu, atrai e atrairá até o fim do mundo, sobre Adão e sua inumerável descendência, todos os males de que fizemos menção… Por causa do pecado de Adão, a alma foi degradada em sua inteligência, abandonada à cegueira e à ignorância…; degradada em sua vontade, que se afasta de Deus e é arrastada para os bens perecíveis; degradada em sua memória, que esquece o bem e só se lembra do mal; degradada em sua sensibilidade, joguete de diversos temores e espantos; degradada em seu apetite irascível, por sua fraqueza e por uma turba de concupiscências (1).

Mas, se Deus pune desse modo nas crianças o pecado de Adão, que se pode dizer que lhes é estranho, como punirá as culpas das quais cada um de nós se torna réu por sua própria vontade? Se castiga tão severamente nesta vida, em crianças inocentes ou em almas justas e santas, uma desobediência de Adão, como castigará tantas impurezas, invejas, blasfêmias, escândalos, homicídios, fraudes e heresias que todos os dias os grandes pecadores acumulam para o inferno?

Notas

  1. O apetite irascível é a faculdade pela qual a alma se inclina a superar as dificuldades que encontra ao seguir o bem ou ao fugir do mal. Ele é ordinariamente oposto ao apetite concupiscível, que é aquele pelo qual a alma se inclina para um bem sensível ou para um objeto que lhe agrada.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.