«Deus, que é paz por essência, diz São Bernardo, estabelece a paz onde quer que habite; contemplá-lo é estar no seio da paz (1)». São Paulo desejava aos Tessalonicenses que o Senhor da paz lhes concedesse a paz sempre e em todo lugar (2Ts 3,16). O próprio Deus diz: «Eu criei a paz, fruto de minhas palavras, tanto para aquele que está longe quanto para aquele que está perto» (Is 57,19).
Falando do Messias, o profeta Miqueias diz: Ele será a paz (Mq 5,5). Salomão, que era ele próprio uma figura do Messias, chama-o Rei da paz; Isaías chama-o «Príncipe da paz» (Is 9,6). Os Profetas chamam Jesus Cristo de príncipe da paz, 1º porque ele a deu ao mundo e a deixou como testamento antes de morrer: «Eu vos deixo a paz, disse ele; dou-vos a minha paz; dou-vo-la, mas não como o mundo a dá» (Jo 14,27).
2º Porque Jesus Cristo derrubou o muro de separação que existia entre Deus e o homem; uniu o homem a Deus, o céu à terra, o ápice da grandeza ao abismo da miséria. Jesus Cristo, vindo ao mundo, diz São Paulo, trouxe-nos a boa-nova da paz… Por meio dele, todos temos acesso, no mesmo Espírito, junto do Pai (Ef 2,17-18). Quando éramos inimigos, fomos reconciliados com Deus pela morte de seu Filho (Rm 5,10). São Leão comenta assim: «O dia do Natal do Senhor é o dia do nascimento da paz; ofereçam, pois, todos os fiéis ao Pai a concórdia dos filhos pacíficos (2)». 3º Porque Jesus Cristo é o autor da paz interior de que goza a consciência dos justos, e trouxe ao mundo e ao céu uma paz eterna, como indicam aquelas palavras de Isaías: «Seu império se multiplicará e a paz não terá fim» (Is 9,7).
Sob o nome deste reino, desta paz, é preciso entender a paz espiritual, que consiste na tranquilidade e nas consolações interiores da alma: eis por que São Paulo diz: «O reino de Deus não é nem comer nem beber; mas justiça, paz e alegria no Espírito Santo» (Rm 14,17). Quando, com as palavras do Pater Adveniat regnum tuum — pedimos a Deus que seu reino venha, não pedimos ir imediatamente para o céu; mas que o império do demônio e do pecado seja destruído e ceda lugar ao reino de Jesus Cristo; desejamos que o divino Salvador reine em nós e em nossos corações com sua graça. É deste reino que Jesus Cristo fala em São Lucas, onde afirma que «o reino de Deus está dentro de nós» (Lc 17,21).
O reino da paz na alma dos justos não tem fim, como ensinam São Basílio, São Cirilo e principalmente o Crisóstomo, na Homilia sobre aquelas palavras: Quando venit regnum Dei; onde explica esta paz de quatro maneiras: 1º Jesus Cristo nos ensinou a submeter a carne ao espírito; por esse meio, cessa a guerra na alma e ela goza da paz; 2º reconciliou-nos com o Pai e, de inimigos que éramos, fez-nos amigos; não é esta uma grande fonte de paz para o coração?… 3º uniu as nações aos judeus pelos vínculos da paz; 4º concede àqueles que assim uniu a graça de perseverar, para que gozem de uma paz contínua. O reino desta paz não terá fim, porque Jesus age de acordo com seu Pai e agirá até o fim dos séculos para conservá-la e perpetuá-la eternamente. Eu vos deixo a paz, disse ele; dou-vos a minha paz, não porém como o mundo a dá.
«Justificados pela fé, escreve São Paulo aos Romanos, temos paz com Deus, por meio de nosso Senhor Jesus Cristo; por meio do qual temos, em virtude da fé, acesso a esta graça (da paz), na qual estamos firmes, e nos gloriamos na esperança da glória dos filhos de Deus» (Rm 5,1-2). A admirável paz de que aqui se trata é a paz que Jesus Cristo trouxe do céu à terra; aquela paz que os anjos anunciaram aos homens de boa vontade no nascimento do Redentor (Lc 2,14).
«Deus enviou a pregação aos filhos de Israel, dizia também São Pedro, anunciando a paz por Jesus Cristo, que é o Senhor de todos» (At 10,36).
São Bernardo, comentando aquelas palavras do Senhor: «Não comunicarei a outros a minha glória» (Is 62,8), diz: «Que coisa, pois, nos dareis vós, ó Senhor?… Eu vos dou a paz, deixo-vos a minha paz. Ah! isto me basta; alegre e reconhecido, recebo o que me dais e vos deixo, sem pesar, aquilo que retendes para vós. Isto vos agrada, e não duvido de modo algum que seja para meu proveito. Recuso a glória, por temor de que, querendo usurpar aquilo que não me foi dado possuir, perca merecidamente aquilo que me é oferecido. Quero a paz, desejo a paz, e nada mais que a paz. Aquele a quem a paz não basta, tampouco vos basta, porque vós sois a nossa paz. Fique convosco, ó Senhor, toda e inteira a glória; quanto a mim, terei o bastante, se tiver a paz (3)». Que magnífica linguagem! Que tesouro é esta paz que somente Deus pode dar!
Tão precioso e excelente tesouro é a paz, que Jesus, depois de sua ressurreição, a deseja antes de tudo aos seus discípulos. Eles estavam reunidos juntos, quando Jesus apareceu no meio deles e disse: A paz esteja convosco (Jo 20,19). Certamente, se houvesse saudação mais feliz e mais perfeita, o Redentor a teria dirigido aos Apóstolos naquela ocasião.
Tão elevado conceito tem São Paulo da paz que, escrevendo aos Filipenses, diz: «Faça o céu que a paz de Deus, que ultrapassa todo sentimento, guarde os vossos corações e as vossas mentes em Jesus Cristo» (Fl 4,7). Se a paz de Deus supera todo pensamento e sentimento, é fácil concluir que ela é coisa excelente e de valor infinito… E, de fato, a paz de Deus é o próprio Deus; sua natureza é a paz, diz Santo Ambrósio (De Iacob.); a paz de Deus é Deus possuído pela graça aqui na terra e pela glória no céu… Isaías exclama: «Como são belos sobre os montes os pés daquele que anuncia e prega a paz, daquele que anuncia o bem, que prega a salvação e diz a Sião: Reinará o teu Deus!» (Is 52,7).
A paz que Jesus Cristo deseja contém: 1° a amizade de Deus… 2° a tranquilidade e a serenidade da alma nas tentações e perseguições…; 3° a concórdia com todos os homens… «Eu vos dou a paz, diz o Salvador, mas não como o mundo». ― Com efeito, a paz do mundo, em vez de nos conquistar a amizade de Deus, faz-nos seus inimigos; em vez de nos tornar tranquilos nas tentações e perseguições, abandona-nos a elas, leva-nos a murmurar, a sucumbir; em vez de estabelecer a concórdia entre os homens, semeia o ódio e a dissensão…
A paz de Deus é a reconciliação de Deus com os homens; é a união da alma santa com Deus… A verdadeira paz é um escudo impenetrável que protege o cristão contra os dardos do mundo, da carne e dos demônios, os quais conhecem toda a excelência e utilidade da paz de Deus; por isso tentam, por todos os meios, arrebatá-la de nós, impelindo-nos ao pecado, ou ao menos perturbá-la com escrúpulos, melancolias, desconfiança e tentações de desespero; eles que não têm e jamais terão a paz, corroem-se de inveja e de raiva ao verem a paz da alma fiel; daí os seus esforços para perturbá-la e fazê-la perder; a eles se resiste simplesmente conservando a paz.
A paz de Deus acalma a alma…; inspira-lhe uma confiança inalterável; torna-a magnânima…; faz nascer nela a alegria… «A paz de Cristo, escrevia São Paulo aos Colossenses, exulte em vossos corações; a paz para a qual fostes chamados, a fim de formardes um só corpo» (Cl 3, 15); produz a humildade… «O fruto da justiça, diz São Tiago, é semeado na paz para aqueles que praticam as obras da paz» (Tg 3, 18).
«A paz, diz Santo Agostinho, é serenidade da mente, tranquilidade do espírito, simplicidade do coração; é o vínculo do amor, a companheira inseparável da caridade. Aplaina as divergências, acalma as iras, elimina as rivalidades, impede as guerras, calca aos pés os orgulhosos, ama os humildes, une os discordantes, reconcilia os inimigos; doce e cortês para com todos, não cobiça as coisas alheias nem briga por aquilo que é seu; ensina a amar aquilo que não sabe odiar; ignora a soberba e não conhece a obstinação. Portanto, quem já a possui, conserve-a com todo o cuidado; quem a perdeu, procure-a; quem já não a tem, peça-a novamente. Pois quem for encontrado fora dela não será reconhecido pelo Pai, será deserdado pelo Filho e tido como estrangeiro pelo Espírito Santo (4)».
Notai quantas e quão grandes são as vantagens da paz: 1° é gratíssima a Deus, pois ele se chama o Deus da paz e da caridade…; 2° conduz-nos ao céu e faz-nos saborear antecipadamente a vida celeste, sendo o céu a pátria da suprema paz eterna»; 3° é a imagem de Deus e da Santíssima Trindade». 4° precisamente para trazer aos homens a paz com Deus e consigo mesmos, Jesus Cristo desceu do céu. A paz proporciona uma vida doce e feliz. «Ele estabeleceu a sua morada na paz, diz o Salmista, e ali destruiu o poder do arco, do escudo, da espada e da guerra» (Sl 65, 2-3).
Diz São Basílio: 1° Aquele que acolhe diligentemente a paz e lhe dá lugar em sua alma prepara uma morada para Jesus Cristo, porque Jesus Cristo é a paz e quer repousar na paz; ao contrário, o homem invejoso e turbulento é detestável sob todos os aspectos… 2° O homem pacífico tem sempre o coração tranquilo e contente; mas o invejoso é turbulento, semelhante a uma nave agitada em um mar tempestuoso… 3° O homem pacífico possui a sua alma com segurança, encontra-se protegido por todos os lados… 4° O pacífico é como uma vinha que produz frutos deliciosos; enquanto o turbulento e ciumento vive na indigência e na miséria; e quanto mais o primeiro, inundado pela alegria do Senhor, é feliz, tanto mais o segundo está sobrecarregado de dores e males… 5° O pacífico é reconhecido pela alegria que lhe irradia do rosto; o turbulento se conhece pelo olhar sombrio e pela cor carregada do semblante… 6° O pacífico merece participar da sociedade dos anjos; o invejoso e briguento partilha a sorte dos demônios… 7° A paz ilumina os mistérios da alma; a inveja cheia de raiva chama as trevas sobre os segredos do coração… 8° A paz afasta a discórdia, o ciúme aumenta o ódio e os desejos de vingança… 9° Ao primeiro resplandecer da paz, as trevas se dissipam; onde se aninha a inveja, só há obscuridade, trevas interiores e exteriores. Pratica, portanto, a paz, ó meu filho, e procura merecer o invejável nome de pacífico, para que possas gozar dos frutos da paz. Aborrece a inveja, amiga das contendas, para que não tenhas de experimentar os seus danos e males (Epist.).
Tinha, pois, razão o Salmista ao desejar que houvesse paz nas fortalezas, porque nelas se encontraria a abundância (Sl 121, 7), e ao pedir a Deus, para vantagem de seus irmãos e amigos, que Jerusalém estivesse sempre em paz (Id. 8). Lembremo-nos de que gozam de profunda paz aqueles que amam o Senhor e de que nada será suficiente para abalar-lhes a confiança (Sl 118, 165).
«Ó paz, escada celeste! exclama Santo Efrém; ó paz, caminho para o reino dos céus! ó paz, mãe da compunção! ó paz, conciliadora da penitência! ó paz, espelho dos pecadores, que mostras ao homem as suas culpas! ó paz, que fazes brotar delicioso pranto! ó paz, mãe da mansidão! ó paz, companheira inseparável da humildade! ó paz, segurança da alma! ó paz, jugo amável e peso leve, que revigoras a alma e sustentas aquele que te leva! ó paz, alegria da alma e do coração! ó paz, freio dos olhos, dos ouvidos e da língua! ó paz, que abates a desfaçatez e és inimiga da impudência! ó paz, fonte fecunda de piedade e de religião! ó paz, prisão das paixões! ó paz, guia para a virtude! ó paz, que ofereces hospitalidade e amas a pobreza voluntária! ó paz, campo de Jesus Cristo, fecundo em abundantes frutos! ó paz, inseparável do temor divino, baluarte e fortaleza daqueles que desejam combater pelo reino dos céus!» (De Patient. et Comsum. saeculi).
Santo Agostinho diz: A paz do corpo consiste na boa ordenação do temperamento de suas partes; a paz da alma irracional, no repouso bem ordenado de seus apetites; a paz da alma racional, no acordo bem estabelecido entre o conhecimento e a ação; a paz do corpo e da alma, na vida e na saúde bem harmonizadas do ser animado; a paz do homem mortal e de Deus, na obediência bem ordenada, segundo a fé, sob a lei eterna. A paz dos homens é a união na ordem; a paz doméstica é a união e a ordem do comando e da obediência entre os membros da mesma família; a paz social é a união e a ordem da autoridade e da sujeição entre os cidadãos; a paz da cidade celeste é a ordem perfeita, é a união suprema no gozo de Deus, na felicidade mútua de todos em Deus; a paz de todas as coisas é a ordem e a tranquilidade (De Civ. Dei, lib. 19, c. XIII).
De onde vem a paz? Do testemunho de uma boa consciência… De onde vem a paz? Da fuga do mal e da prática do bem… De onde vem a paz? Do abandono do pecado e da perseverança na graça e na virtude… O que proporciona a paz? Estar bem com Deus.
Fazendo o que se pode para agradar a Deus, é preciso conservar a paz e não temer a vingança divina nem a condenação: é necessário que aquele que está bem com Deus tenha o espírito livre dos terrores de uma consciência errônea. A paz da consciência não precisa, como pretendem os protestantes, apoiar-se numa certeza de fé divina, pela qual o homem esteja seguro de que os pecados por ele cometidos lhe foram perdoados: basta que ela repouse sobre certos sinais e conjecturas que dão uma espécie de certeza moral de que ele se encontra em estado de graça. Quando a consciência atesta que se fez devidamente a própria confissão, que se recebeu a absolvição e se cumpriu a penitência prescrita, que se procura não recair e se observam os mandamentos de Deus e da Igreja, é preciso que o homem se guarde de afligir-se e se mantenha firmemente em paz. Essa segurança é suficiente; os pecados estão perdoados; somos amigos de Deus.
Finalmente, a perfeita conformidade da nossa vontade com a vontade de Deus é o que proporciona a verdadeira e sólida paz. A paz, diz São Leão (5), consiste em querer aquilo que Deus ordena e não querer aquilo que ele proíbe. Como se poderia ter paz, se se quisesse aquilo que Deus não quer, ou não se quisesse aquilo que ele quer? … O homem possui a paz e a verdadeira liberdade quando a carne é governada pela alma racional, e a alma é dirigida por Deus, ao qual obedece.
Há três espécies de paz: a paz com Deus, a paz com o próximo, a paz consigo mesmo… Jesus Cristo é aquele que dá esta tríplice paz. Quereis possuí-la? Ide até ele, pedi-lha; ele é a nossa paz, a verdadeira e divina paz. Procurai que Jesus Cristo habite em vosso coração, e a paz entrará com ele. Assim como o sol não pode existir sem luz, nem o fogo sem calor, assim também Jesus Cristo não pode existir sem a paz, porque tudo nele é paz. Com ele, cumpriremos exatamente aquele preceito do Apóstolo: «Conservai-vos em paz com todos» (Hb 12, 14).
1º Desejá-la… Por isso vemos que o voto mais frequente nos lábios dos Apóstolos era o da paz: «A graça de Deus e a paz estejam convosco», escrevia São Paulo aos Colossenses; «A paz esteja convosco», dizia o apóstolo São João (2Jo 1, 3). «Que a paz se cumpra em vós», desejava São Pedro (2Pd 1, 2).
2º Pôr em prática a recomendação de Santo Antônio: «Fugi da gula e da luxúria, da escravidão do século e da ambição, e tereis a paz» (Vit. Patr.); isto é, fazer guerra a toda espécie de paixões. Esta é a guerra sem a qual não há paz.
3º Praticar a mansidão. Os que são mansos herdarão a terra, diz o Salmista, e se alegrarão na abundância e na paz (Sl 36, 11).
4º Escutar a voz de Deus, obedecer à lei divina. «Eu escutarei, dizia o Profeta, aquilo que Deus me disser no fundo do coração, porque suas palavras são palavras de paz» (Sl 74, 8). «Se tivésseis sido dóceis aos meus mandamentos, diz Deus, a vossa paz teria sido como um rio» (Is 48, 18): «E se tivesses caminhado no caminho do Senhor, acrescenta o profeta Baruc, habitaria em meio a uma paz eterna» (Br 3, 13). Ao contrário, «para o ímpio não há paz», sentencia Isaías (57, 21). Quem, portanto, ama a paz, fuja e deteste a impiedade… A grande paz, sólida e duradoura, só se encontra no céu… Se queremos gozá-la um dia, trabalhemos continuamente e unicamente com os olhos voltados para a eternidade.