Tesouro n.º 137 · Volume II

ORGULHO ORGOGLIO

11 seções · 46 parágrafos · pp. 1587–1600 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É E POR QUE SINAL SE RECONHECE

O orgulho é a estima desregrada de si mesmo. Ter orgulho significa colocar-se acima dos outros; atribuir a nós aquilo que vem de Deus. O orgulho é reconhecido por quatro sinais: 1° o orgulhoso crê que provém de si mesmo aquilo que possui; 2° crê não dever isso a ninguém senão ao próprio mérito; 3° gloria-se do que tem e vangloria-se do que não tem; 4° despreza os outros e deseja que todos saibam que ele possui muito.

2. O ORGULHO É CEGUEIRA E LOUCURA

«Se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós» (1Jo 2,8), escreve São João, e «se alguém se considera alguma coisa, sendo nada, engana-se a si mesmo», repete São Paulo (Gl. 6, 3).

Os orgulhosos comprazem-se em si mesmos e confiam em si; persuadem-se de que são virtuosos e vivem numa segurança insensata, como se nada lhes faltasse e nada tivessem a temer. Ó insensato! Tu dizes: sou rico em méritos e não preciso de ninguém, e não sabes quão miserável, infeliz, pobre, cego e nu és (Ap 3, 17).

O orgulhoso crê saber até mesmo aquilo que não sabe…; não quer saber nem de conselhos nem de advertências; é obstinado; e eis por que há pouca ou nenhuma esperança de vê-lo voltar ao arrependimento… Assim eram os escribas e os fariseus que, inchados de si mesmos, não reconheceram o verdadeiro mestre, Jesus Cristo, e recusaram receber dele luz e instrução… Assim são os judeus… Assim também todos os hereges obstinados…; não querem instruir-se nem ver a verdade, e querem ensinar… Que podeis saber, orgulhosos, se não conheceis; como pode ser que, sendo cinza e pó, vos ensoberbeçais?

O orgulho é a mais forte e a mais perigosa das seduções a que o homem pode ceder; precipita-o nas trevas mais densas… O orgulhoso vê mal todas as coisas… Vê onde nada há para ver; nada vê onde haveria algo para ver… Sempre cego e joguete de sua sedução, está convencido de sua clarividência e imparcialidade.

O Crisóstomo afirma que o orgulho é a suprema loucura e que não há homem mais insensato que o orgulhoso. Com efeito, onde encontrar ideia mais louca que a de resistir a Deus e fazer-lhe guerra? Pode haver empreendimento mais insensato que o de privar-nos voluntariamente do favor, da graça e do socorro de Deus, de quem tudo depende e a quem tudo pertence? Pode o homem cometer loucura maior que a de constituir-se adversário e inimigo não de um homem, não de um anjo, não do próprio demônio, mas de Deus em pessoa, a ponto de ousar desafiá-lo para um duelo? «O orgulho nasce da demência, diz o mesmo santo; não há orgulhoso que não seja insensato; o soberbo está cheio de loucura (1)».

O orgulhoso, sendo louco, desprezível e desprezado, pode-se dizer com São Paulo: «Julgando-se sábios, tornaram-se insensatos» ― (Rm. 1, 22). «Vistes um homem que se julga sábio? Há mais esperança num estúpido do que nele», lemos nos Provérbios (26,12); e um provérbio popular diz: «O homem que se estima perde toda estima». ― Os que se julgam espertos são facilmente enganados pelo demônio e perdem-se. Quem, ao contrário, reconhece sua pouca sabedoria, procura um guia esclarecido e, desse modo, caminha seguro e salva-se facilmente.

A humildade é a sabedoria da alma; o orgulho é a sua insensatez; com efeito, a humildade repousa sobre a verdade, enquanto o orgulho não passa de vaidade, mentira e erro. «Por que a terra e a cinza se ensoberbecem?», diz o Eclesiástico (10, 9). «Por que te envaideces, ó homem?, diz São Bernardo; de que te ensoberbeces, tu que foste concebido na culpa, nascido na miséria, cuja vida é um pecar e cujo morrer é angústia? (2)».

3. O ORGULHOSO NÃO SUPORTA SER REPREENDIDO

Os orgulhosos nunca querem estar errados… Deles se pode dizer: «Toca os vulcões, e eles fumegarão» (Sl 143,5). Oh, sim, dos orgulhosos, dos quais os vulcões são os emblemas, saem estrondos de trovão, surdos mugidos, ondas de fumaça; eles vomitam lavas de sarcasmos, zombarias e injúrias contra o homem caridoso que procura corrigi-los e conduzi-los a pensamentos mais sábios… Experimentai corrigir um soberbo: ele enche o ar de lamentos; quantas desculpas, quantas falsas razões ele alega! … Não o conhecem…; inventa-se…; exagera-se em seu prejuízo…; todos estão envenenados…; ninguém o trata com caridade… Por que intrometer-se em seus negócios…; ele sabe regular-se…; ele não faz mal…; ninguém tem o direito de impor-lhe coisa alguma… É precisamente verdadeira a sentença de São Cirilo: a repreensão que melhora os humildes torna-se intolerável aos soberbos (3); e com razão diz o Venerável Beda: Oh, quão miserável é a consciência daquele que, repreendido pela palavra de Deus, se ressente dela como de uma afronta (Collett.). Por isso o Profeta pedia ao Senhor que não permitisse que seu coração se voltasse para palavras de malícia, a fim de desculpar suas faltas e seus pecados (Sl 140,4).

«Como da raiz do orgulho nasce a desobediência, diz São Gregório, os desobedientes escutam quem lhes revela a enormidade de suas culpas, mas não querem saber de repará-las por meio de uma humilde confissão. Desejando engrandecer-se, de nada se guardam tanto quanto de deixar ver suas quedas. Por isso vão à procura de desculpas e pretendem ter razão, porque não querem parecer pecadores (4).» São Bernardo, falando da queda de Adão, causada pela soberba, e da desculpa com que ele quis encobrir-se diante de Deus, desculpa também ela inspirada pelo orgulho, demonstra quão grave e odiosa a Deus é a defesa do mal. «Há razão para crer, diz ele, que aquela antiga, tão famosa e tão nociva transgressão teria obtido perdão, se a tivesse seguido uma humilde confissão, e não uma defesa. Com efeito, não prejudicou tanto a transgressão, embora cometida com ânimo deliberado, quanto a obstinação à qual se acrescentou uma desculpa premeditada (5).»

O orgulhoso se assemelha ao ouriço; quando o vedes correr, distinguis-lhe as orelhas, as patinhas e o focinho; mas, se vos aproximais e procurais agarrá-lo, ele não é mais que um novelo eriçado de espinhos que vos perfuram as mãos. De qualquer modo, por qualquer lado que tomeis o soberbo, ele é um ouriço que fere e espeta.

4. DIFERENÇA ENTRE O ORGULHO E A HUMILDADE

São Gregório diz: «Tendo sido feito, em sua criação, superior a todas as criaturas, quis o demônio, nosso mortal inimigo, inchado de orgulho, que o considerassem como dominante sobre tudo. Ao contrário, nosso Redentor, infinitamente grande e superior a tudo, dignou-se fazer-se pequeno em tudo. O autor da morte disse: Eu subirei ao céu; o autor da vida: Minha alma está cheia de angústias, está como que aniquilada. Satanás disse: Porei meu trono acima dos astros do céu; Jesus Cristo disse ao gênero humano: Eis que venho habitar no meio dos homens. Lúcifer disse: Sentar-me-ei sobre o monte da aliança, do lado do Aquilão; e o Salvador: Sou um verme, e não homem, o opróbrio dos homens e o desprezo da plebe. Satanás disse: Subirei acima das nuvens e serei semelhante ao Altíssimo; e o Verbo de Deus aniquilou-se a si mesmo, assumindo a forma de servo (Moral. lib. 34, c. XXI).

5. ENORMIDADE DO ORGULHO

Santo Optato, Bispo de Milevis, diz que é menos mau e funesto o pecado com humildade do que a inocência com orgulho (Contra Parmen.). Com efeito, como observa São Bernardo, o soberbo se eleva acima de Deus e põe-se em luta aberta com ele. Deus quer que se faça a sua vontade, e o soberbo pretende que se faça a sua (6). Por isso Santo Agostinho dizia: «Aquele que procura, ó Senhor, voltar os teus dons para a sua glória, e não para a tua, é ladrão e assassino; é semelhante ao demônio, que quis tomar o teu trono (7).»

O mesmo santo chega a dizer: «Ouso dizer aos soberbos que se conservaram continentes que lhes é útil cair. Ouso afirmar que é vantajoso aos orgulhosos tropeçar em alguma culpa manifesta e inegável, para que, tendo caído por terem procurado agradar demasiadamente a si mesmos, se levantem desagradando a si próprios (8).» E observa que «Deus, segundo ele, permitiu aos bárbaros que conquistavam e saqueavam as cidades do Império Romano violar as virgens cristãs, ou porque eram orgulhosas, ou porque havia perigo de que pecassem por orgulho, vangloriando-se de sua castidade» (De Civit. l. 1, c. XXVIII).

O Profeta rezava: «Preserva-me, ó Senhor, de cair no orgulho» (Sl 35,11).

«Quem quer que seja, lemos nos Provérbios, o homem arrogante é abominável a Deus» (15,5). E a razão está nisto: o soberbo se coloca como rival e antagonista de Deus; novo Lúcifer, quer igualar-se a Deus e pôr a sua vontade no lugar da vontade do Onipotente. «A soberba faz a sua vontade, escreve Santo Agostinho; a humildade faz a vontade de Deus (9).» Grande mal é o orgulho, porque assalta Deus, esbofeteia-o e, contra a sua vontade, provoca-o ao combate. Enorme é, aos olhos de São João Crisóstomo, o delito da soberba; melhor seria, segundo ele, que o homem fosse louco em vez de orgulhoso. A loucura é o impedimento à ação da alma; o orgulho é uma loucura voluntária. O louco produz a infelicidade apenas para si; o soberbo produz a desgraça dos outros (Hom. XXXIX ad pop.).

É espantosa a sentença do Eclesiástico: «O orgulho do homem começa por fazê-lo apostatar de Deus; porque seu coração se afasta daquele que o fez, e da soberba começa todo pecado» (10,14-15). Portanto, não é de admirar que, como diz São Tiago, Deus resista aos soberbos (Tg 4,6).

6. O ORGULHOSO É A CAUSA DE TODOS OS MALES

«A soberba é fonte de todo mal», diz o Crisóstomo (Hom. 15, in Matth.). Com efeito, o primeiro ato do soberbo é sacudir o jugo e a lei de Deus… «O orgulho os invadiu, lemos nos Salmos, e eles se mancharam de toda impiedade (Sl 72,6); Davi confessa a seu próprio respeito que não cessou de pecar senão quando foi humilhado (Sl 118,67). E Tobias advertia seu filho que jamais se deixasse governar pelo orgulho, nem nos pensamentos nem nas palavras, porque dele teve origem toda perdição (Tb 4,14).

«A humildade, escreve São Bernardo, torna os homens semelhantes aos anjos; o orgulho transforma os homens em demônios. O orgulho é o princípio, o fim e a causa de todos os pecados, porque não somente é pecado em si mesmo, mas nenhum pecado pôde, pode ou poderá jamais existir sem orgulho (10).» Não existe pecado sem orgulho, diz São Próspero; porque todo aquele que peca prefere a si mesmo e o apetite a Deus e à sua lei, o que é verdadeiro orgulho (De Vita contemp. cap. XXV). Da soberba se origina todo pecado, diz o Crisóstomo. Dela vem o desprezo dos pobres, dela a cobiça do ouro, dela a ambição do mando, dela o desejo da glória humana. O orgulhoso não pode suportar provação alguma, venha ela de onde vier, seja dos superiores, seja dos inferiores.

A soberba é chamada por São Gregório de rainha dos vícios (Moral. lib. 3, c. XVIII). E, do mesmo modo, continua este santo, que a raiz de uma árvore permanece escondida, mas nutre o tronco e os ramos, assim a soberba se esconde no fundo do coração e, dali, alimenta muitos vícios manifestos. Não haveria pecado público se o orgulho não possuísse secretamente a alma (Moral. lib. 34, c. XVII). Ninguém cai no mal senão por soberba, ao menos secreta… O orgulho precede os ímpios, levando diante deles uma tocha para conduzi-los ao delito… Aos orgulhosos em geral se aplica o que Santo Agostinho dizia dos pelagianos: «Porque não quiseram ser discípulos da verdade, tornaram-se mestres do erro (11).»

O orgulho produz as rixas, as rivalidades, as disputas, os ódios, as maledicências, as calúnias, as contendas, as guerras, os cismas, as heresias e assim por diante… A humildade, ao contrário, é fonte de paz, de concórdia, de união; de caridade, de fraternidade… A soberba é a mãe de todos os males e de todas as doenças, pois tanto uns quanto outras são fruto do pecado. Não há pecado que não esteja infectado de soberba, porque o pecado é rebelião contra Deus, é desprezo de sua lei: ora, a revolta e o desprezo provêm diretamente do orgulho. «Assim como a soberba é o princípio de todos os delitos, diz São Bernardo, assim também é a ruína de todas as virtudes. O orgulho é o primeiro a caminhar pela via do pecado, mas chega por último pela via do arrependimento (12)». E em outro lugar diz: «A soberba concebeu a dor no céu, deu à luz a iniquidade no paraíso terrestre: a dor, filha do pecado; a iniquidade, mãe da morte e de todas as misérias. Entre todos os vícios, somente o orgulho faz guerra a todas as virtudes e, como veneno universal, corrompe-as todas (13)».

São João Crisóstomo compara o orgulho às tempestades do mar; diz que esse delito cega o espírito; faz do homem um ultrajador, um blasfemador, um perjuro, um demônio; não há mal que se lhe iguale. Ele é a fonte de todos os vícios, assim como, ao contrário, a humildade é a fonte de todas as virtudes (14)… É o pecado dos demônios…; é um pecado de que raríssimas vezes se encontra quem se corrija… é tal pecado que ordinariamente traz consigo a curiosidade, a jactância, a hipocrisia, a teimosia, a obstinação, as contendas. Os orgulhosos alimentam-se de vento, diz Santo Isidoro; a soberba é o mais enorme dos delitos, é a causa da morte da alma, tanto por dar morte a todas as virtudes quanto por gerar todos os vícios… Todo aquele que peca é orgulhoso, porque, pecando, calca aos pés os preceitos divinos (Epist. de forma bene viv.).

O orgulho, escreve São Gregório, impede de julgar com equidade; leva aos gritos e alaridos; inspira zelo amargo, alegria descomedida, tristeza furiosa, respostas mordazes, atos impudentes, atitude insultante. A alma dos soberbos é sempre forte para cometer um ultraje, sempre fraca para suportar uma afronta; preguiçosa para obedecer, importuna para estimular os outros; tarda em fazer o que deve, pronta para fazer o que não deve. Nenhuma exortação pode movê-la em favor daquilo de que não gosta; ao contrário, procura ser obrigada a lançar mão daquilo de que gosta (15)».

O orgulho se mete em toda parte, insinua-se e se mistura em tudo, a tal ponto que, segundo o parecer de Santo Agostinho, devemos temê-lo até nas boas obras (In Medit.). É veneno que infecta as orações, as confissões, as comunhões, a inteligência, a beleza, o espírito, a alma, o coração… Mal supremo, transforma até o bem em mal. Apega-se a todas as faculdades da alma, a cada sentido do corpo: «Há o orgulho do coração, diz São Bernardo, o orgulho da boca, o orgulho das obras, o orgulho do porte (16)»… A soberba invade cada canto mais remoto da terra; encontra-se no fundo do coração de quase todos os homens… Como os anjos maus se perderam por causa desse vício, por isso se servem dele, de preferência a qualquer outro, para fazer perder o gênero humano… «Nada, diz São João Crisóstomo, afasta tanto o homem do amor divino e o precipita mais facilmente no inferno quanto a loucura do orgulho. Esse vício mancha toda a nossa vida, por mais esplêndida e respeitável que a tornem as orações, as esmolas, os jejuns, o pudor, a virgindade, a virtude (17)»

O orgulho impeliu os anjos à rebelião no céu e fez deles demônios; o orgulho cavou o inferno e nele precipitou os espíritos rebeldes; o orgulho transformou em suplícios eternos as delícias de que deveriam gozar… O orgulho fez Adão cair; expulsou-o da morada da felicidade e condenou-o ao trabalho, aos cuidados, às penas, às angústias, à nudez, à cegueira, às dores, às doenças, à morte, à corrupção do sepulcro. «O orgulho derrubou a torre de Babel, escreve o Papa Inocêncio III, confundiu as línguas, abateu Golias, ergueu o patíbulo de Amã, fez Nicanor morrer, feriu Antíoco, submergiu o Faraó, matou Senaquerib. De onde vem esse fausto no homem? No homem, cuja vida se desenvolve sob o peso que lhe impõe o trabalho como castigo, e que termina com a necessidade da morte, pena ainda maior; no homem, cuja existência é de um instante, a vida é um naufrágio, o mundo é um exílio; no homem, a quem a morte já se aproxima ou ameaça aproximar-se? (18)».

7. A SOBERBA É DETESTÁVEL

Onde encontrar algo mais abominável e mais digno de severíssimos castigos do que o homem soberbo que se eleva sobre a terra diante de um Deus feito homem?, exclama São Leão, e conclui: «É uma impudência intolerável que um vermezinho se inche e se ensoberbeça onde a suprema majestade se aniquila (19)». Os soberbos desagradaram a Deus desde o princípio (Jt 9, 16); mais ainda, tanto Ele quanto os homens sempre odiaram a soberba (Eccli. 10, 7).

O orgulhoso despreza todos os demais, insulta-os e zomba deles, elevando-se acima deles com o sarcasmo e o desprezo. Mas o Senhor diz: «Ai de ti, que desprezas! Por acaso não serás tu também desprezado?» (Is 33, 1). O soberbo prepara, portanto, para si o desprezo e a humilhação… O orgulho é o caminho para a ignomínia… À medida que o orgulho aumenta e se eleva, o homem diminui e desce, até precipitar-se no lodo.

«Entre os soberbos há contínua rixa» (Prov. 13, 10), diz o Sábio. Eis por que vemos entre os hereges tantas seitas e opiniões diferentes quantos são os indivíduos… Os orgulhosos odeiam-se mutuamente… Nada é sagrado para eles, mas pretendem ser eles mesmos sagrados para todos. Ó conduta sumamente injusta e detestável!

«Falar com desdém e arrogância, agir com insolência é tornar-se semelhante ao demônio», diz São Basílio (20). São Leão, falando de Satanás e de Adão, observa que «ambos ambicionaram as alturas: aquele, a do poder; este, a da ciência (21)», mas o primeiro encontrou em seu orgulho o cúmulo da degradação, e o segundo, o cúmulo da ignorância.

8. DEUS HUMILHA OS SOBERBOS

É sentença peremptória de Jesus Cristo que «quem se exalta será humilhado» (Lc 18, 14); Deus fez São Tiago dizer que Ele resiste aos soberbos (Tg 4, 6); a tal ponto que, como disse a Bem-aventurada Virgem, emprega contra eles a força de seu braço para derrubá-los, e os arrebata de seus tronos para colocar neles os humildes (Lc 1, 52).

«Senhor, exclamava Judite, não abandonais aqueles que em vós confiam; mas humilhais os que confiam em si mesmos e se vangloriam de sua força» (Jt 6, 15). Eis por que o Salmista considerava bom para si que Deus o tivesse humilhado: (Sl 118,7). «Os soberbos, diz Jó, elevam-se por breve tempo, mas não durarão; serão abatidos e debulhados como espigas maduras. Ainda que a soberba do ímpio se eleve até o céu e chegue a esconder a cabeça nas nuvens, ele acabará por se perder no esterco, e aqueles que o tinham visto dirão: Onde está?» (Jó 24, 24; 20, 6-7).

Para ter uma ideia do modo como Deus trata e combate os soberbos, observai quais armas e quais exércitos emprega contra os orgulhosos egípcios em favor de Israel: são rãs, mosquitos, gafanhotos… O rei Faraó é vencido por um gafanhoto; aquele que ousara erguer a fronte contra Deus é obrigado a curvá-la sob uma mosca. «Orgulhoso de sua força, diz Santo Agostinho, falando de Golias, inchado, empolado, começa por atribuir somente a si a vitória de toda a sua nação. E, porque todo orgulho se manifesta na insolência, ao golpe de uma pedra na fronte é lançado por terra. A fronte que mostrava a impudência do orgulho foi quebrada; a fronte que trazia a humildade da cruz de Cristo foi coroada pelo triunfo (22)».

Estudai a história de Amã, que termina por morrer num cadafalso de cinquenta côvados de altura, por ele destinado ao suplício do humilde Mardoqueu, e aprendereis de que modo Deus resiste aos soberbos. Enfurecido porque Mardoqueu não dobrava o joelho diante dele, aquele orgulhoso jura vingar no sangue dele e de todos os seus compatriotas a suposta afronta. Mas, de repente, as coisas mudam. Mardoqueu, destinado a uma morte ignominiosa, é vestido pelo próprio Amã com o manto real, e este sobe ao cadafalso preparado para aquele. Quem poderá dizer o despeito e a humilhação que Amã experimenta com essa mudança de cena? Com efeito: 1° vê-se privado da altíssima honra que, em sua soberba, havia preparado para si; 2° vê essa honra concedida ao humilde Mardoqueu; 3° o próprio Amã deve servir de instrumento ao triunfo de Mardoqueu; 4° aquele mesmo que pouco antes se fazia adorar agora não passa de escudeiro, de arauto de um vil judeu que ele detesta; 5° todas essas afrontas, essas inesperadas e fulminantes humilhações, caem sobre ele todas ao mesmo tempo, porque o Altíssimo derruba e tritura os soberbos; 6° Amã é condenado a pender daquele mesmo cadafalso que havia erguido para Mardoqueu. Ó juízos de Deus contra os soberbos, como sois terríveis!

As humilhações da carne acompanham o orgulho do espírito… Deus transforma em animal o orgulhoso Nabuco, que se glorifica na cidade de Babilônia; Deus derruba o iracundo Baltasar e, para humilhá-lo e fazê-lo tremer, não se serve senão de uma mão, ou melhor, da sombra de uma mão; o arrogante Antíoco é devorado vivo pelos vermes. «Chorando e humilhando-se, Pedro condenava-se e salvava-se, diz Santo Agostinho, ao passo que, quando, satisfeito consigo mesmo, confiava nas próprias forças, perdia-se» (In Psalm. XXXVII). O mesmo pensamento havia sido expresso pelo Salmista: «Cobri-os, Senhor, de ignomínia, e eles buscarão o vosso nome» (Sl 82,15).

9. CASTIGOS DOS SOBERBOS

Terrível castigo já são para os soberbos as humilhações a que Deus os condena, mas, em sua cólera, reserva-lhes ainda outras punições: 1° Ele se afasta deles. «O homem, diz o Salmista, exaltar-se-á em seu coração, e Deus subirá ainda mais alto» (Sl 63,7). «Do alto de seu trono, o Senhor fixa o olhar nos humildes, mas contempla de longe os orgulhosos» (Sl 137,7).

2° Deus castiga o soberbo abandonando-o a si mesmo. Objeto de escárnio e de abominação para os outros, o orgulhoso aflige-se com o desprezo em que é tido, sente-se ofendido e dilacerado por ele. «Se és orgulhoso, diz Santo Agostinho, serás punido e abatido. A Deus não faltam pesos para fazer-vos descer, e esses pesos serão os vossos pecados. Ele vo-los lançará em rosto, e vós sereis aniquilados» (Homil.). O orgulho é um carrasco que acompanha o orgulhoso. Neste sentido, já dizia Sêneca que Deus está com a espada da vingança às costas dos soberbos (In Hercule).

3° «Deus derrubou os tronos sobre os quais queriam sentar-se os soberbos», escreve o Eclesiástico (10,17). Lúcifer e seus seguidores, Adão etc. dão testemunho desta verdade… «Deus fez secar até a raiz das nações soberbas» (10,18), lemos ainda no mesmo Eclesiástico. Prova disso são os sete povos cananeus exterminados por Deus por causa de seu orgulho e o próprio povo judeu, despojado por Ele de toda graça e de toda glória, depois de ter rejeitado Jesus humilhado.

4° «Deus fez desaparecer a memória dos soberbos», observa o Sábio (Eclo. 10,21), e o profeta Malaquias anuncia que os orgulhosos serão como palha lançada às chamas, e deles não restará nem germe nem raiz (Ml 4,1).

5° Se Deus não perdoou aos anjos soberbos, diz São Bernardo (Serm. 1, de Ad.), como podeis lisonjear-vos de que poupará a vós, pó e cinza? O anjo não chegou ao ato; não teve senão um pensamento de orgulho, e, contudo, num instante foi precipitado sem remissão. Ah! Fugi, eu vos conjuro, irmãos, fugi do orgulho; evitai aquela soberba que lançou tão subitamente nas trevas Lúcifer, mais esplêndido que os astros; fugi daquele orgulho que transformou um anjo, e o primeiro dos anjos, num demônio.

6° A soberba produziu a morte. «O homem, escreve Santo Agostinho, havia sido feito imortal; tendo ambicionado a divindade, não perdeu a qualidade de homem, mas a imortalidade; por causa do orgulho de sua desobediência, foi condenado às doenças, aos sofrimentos e à morte. Portanto, a morte, introduzida no mundo pela soberba, é ela mesma castigo da soberba» (Sentent. CCLX).

7° Rabano Mauro observa que Deus onipotente e sumamente bom, querendo todo o bem para todos os homens, foi, de certo modo, obrigado a sujeitar as pessoas soberbas ao império dos anjos orgulhosos, para que, perseguidas por eles, compreendessem a diferença infinita que existe entre o serviço de Deus e o do demônio (De adepto virtut.). O soberbo que se recusa a submeter-se a Deus torna-se escravo do demônio, das concupiscências carnais e das paixões: castigo certamente aterrador.

O orgulho seca a fonte das graças. «Fazeis, Senhor, brotar fontes nos vales, e suas águas passam no meio dos montes» (Sl 103,11). Esses vales irrigados são os humildes, repletos das graças do céu; os montes que não aproveitam as águas são os soberbos, tornados semelhantes a rochedos áridos e estéreis… O orgulhoso, cheio e inchado de si mesmo, já não deixa em si lugar para a graça (2 Rs. 4,6). A privação da graça é prova da existência do orgulho, assim como a abundância de graças é sinal da existência da humildade. Quem, portanto, se vê privado da graça e dos dons de Deus, saiba que há nele raízes de soberba. O orgulho faz perecer todas as graças. Haverá castigo pior que este?

A soberba traz consigo a cegueira espiritual, o endurecimento do coração, a impenitência final, uma morte funesta, um juízo formidável, uma condenação terrível, o inferno eterno… Entre todos os pecados, o mais detestado e o mais severamente punido por Deus é a soberba. Só Deus é grande, e todo orgulho, ao atacar essa grandeza, dificilmente obtém misericórdia. Deus esquece e perdoa facilmente as faltas de fraqueza, mas muito raramente as de obstinação e de soberba. «Nós sabemos claramente, diz São Gregório, que o sinal mais evidente de reprovação é o orgulho, e o indício mais seguro de predestinação é a humildade (23)». Assim falam unanimemente os Padres e os Doutores; assim ensinam a Igreja e a Sagrada Escritura.

10. DIVERSOS GRAUS DE ORGULHO

O orgulho tem sete graus: 1° não suportar que os outros nos considerem pouca coisa; 2° não estar contente por nos vermos desprezados; 3° não confessar que merecemos sê-lo; 4° não suportar o insulto com igualdade de ânimo; 5° não tolerar com paciência as afrontas; 6° encolerizar-se com as humilhações; 7° recusar-se a admitir que não servimos para nada.

11. MOTIVOS E MEIOS PARA FUGIR DA SOBERBA

Eis nove motivos principais que devem levar-nos a fugir da soberba: 1º ela é odiosa a Deus e aos homens; 2º é causa de injustiças, roubos, enganos e insultos; 3º o homem, por mais poderoso que seja, é sempre, por sua natureza, uma coisa miserável; 4º todo homem é um nada, ainda que se considere somente a brevidade e a vaidade da vida; 5º depois da morte, torna-se alimento dos vermes; 6º a soberba é um abandono de Deus, uma apostasia; 7º é princípio, raiz e fonte de todo pecado; 8º o soberbo deixa, de certo modo, de ser criatura de Deus, para tornar-se criatura do demônio; 9º atrai sobre si uma série de castigos.

Lemos na Escritura que Davi, ao marchar contra Golias, escolheu no riacho cinco pedras puríssimas, com as quais derrubaria aquele gigante (1Sm 17,40). Nessas cinco pedras, São Bernardo reconhece cinco meios pelos quais podemos vencer o Golias do orgulho: 1º a ameaça das penas; 2º a promessa das recompensas; 3º o amor de Deus; 4º a imitação dos Santos; 5º a oração (Serm. sup. Missus)… Conhecer a Deus, conhecer a si mesmo: eis outro remédio eficacíssimo contra o orgulho… É preciso praticar, quanto está em nós, a bela virtude da humildade; ela é a clava que derruba e mata a soberba.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.