São Paulo era judeu e de família nobre. Sua primeira riqueza e prerrogativa está em seu caráter… «Por que Paulo é chamado vaso de eleição? pergunta São Jerônimo; porque era uma arca preciosa da lei e das Sagradas Escrituras (1)».
São Paulo tinha caráter nobre, magnânimo, heroico; quem o igualou? Quem trabalhou mais do que ele? Quem foi encarcerado com tanta frequência? Quem sofreu tantos e tão graves padecimentos? Quem se mostrou mais intrépido nos perigos? Quem foi mais resoluto e perseverante do que ele em seus empreendimentos? Quem realizou maravilhas mais estupendas? Em todo encontro, seu caráter manteve-se sempre o mesmo: doce, amoroso, firme, generoso, sublime, constante, inabalável.
A vocação de Paulo tem isto de notável: ele foi chamado e escolhido do alto dos céus por Jesus Cristo imortal e glorioso, enquanto os outros apóstolos foram eleitos por Jesus quando vivia na terra. Nisto, porém, sua vocação é ainda extraordinária, porque ocorreu no mesmo momento em que seu furor contra os cristãos atingia os limites da fúria. «Respirando ameaças de morte e de destruição contra os discípulos do Senhor, dizem os Atos dos Apóstolos, dirigiu-se ao príncipe dos sacerdotes e pediu-lhe cartas de recomendação para as sinagogas de Damasco, a fim de que, se encontrasse ali homens ou mulheres que professassem o Cristianismo, tivesse autorização para levá-los acorrentados a Jerusalém» (At 9, 1-2). Enquanto viajava e já estava perto de Damasco, de repente foi envolvido por uma luz vivíssima e, caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: «Saulo, Saulo, por que me persegues?» ― E ele: «Quem és, ó Senhor?» ― E a voz lhe respondeu: «Eu sou aquele Jesus que tu persegues; mas dura coisa é para ti recalcitrar contra o aguilhão» ― Atônito e trêmulo, Paulo perguntou: «Que quereis que eu faça, ó Senhor?» (Ibid. 3-6).
Que vocação miraculosa! E que graça eficaz! Elas transformam num instante um perseguidor: de um lobo raivoso e de um leão rugindo de furor fazem um cordeiro; de um grande pecador fazem o mais admirável dos penitentes, um dos primeiros apóstolos e um dos mais gloriosos Santos! Que boa vontade, que pronta correspondência à graça! «Pela virtude do Cordeiro que deu a vida por suas ovelhinhas, Paulo foi transformado de lobo em cordeiro», diz Santo Agostinho (2)… Ora, onde está o penitente que desesperaria do perdão, ao ver a conversão instantânea de São Paulo, fruto da infinita bondade divina? Quão grande foi a graça pela qual Jesus Cristo fez de Saulo o doutor das nações, o mestre do universo! Mas, por outro lado, com que prontidão e maravilha Saulo correspondeu à graça! … Semelhante aos demônios, não aspirava senão às perseguições, não tinha sede senão do sangue dos cristãos; transformado em apóstolo, tornou-se modelo de todas as virtudes e não buscou mais nada além da glória de Deus e da salvação do próximo.
Aquele que pouco antes combatia Jesus Cristo e exterminava os cristãos deseja morrer por eles e sacrifica-lhes toda a sua vida; não cessa de aventurar-se em viagens penosas, submeter-se a trabalhos árduos, enfrentar perigos, desafiar perseguições, prisões, naufrágios e ameaças, tolerar fome, sede, tormentos e mil mortes, para tornar conhecido o nome de Jesus Cristo e conquistar filhos para a Igreja, a tal ponto que ele era tudo para todos e podia dizer: «A minha vida é Cristo» ― Mihi vivere Christus est (Fl 1, 21): «Não sou eu que vivo, mas é Jesus que vive em mim» (Gl. 2, 20).
Quem sois vós, Senhor? exclama este apóstolo recém-convertido; e, ouvindo que era Jesus, imediatamente pergunta: que quereis que eu faça? «Já se prepara para obedecer, observa aqui Santo Agostinho, aquele que pouco antes se enfurecia com todos os rigores da perseguição. O perseguidor transformou-se em apóstolo, o lobo em cordeiro, o inimigo declarado em intrépido soldado (3)». E ei-lo: «Um vaso escolhido por Jesus Cristo» (At 9, 15); ei-lo cheio de alegria em meio às tribulações (2Cor 7, 4); ei-lo arrebatado até o terceiro céu (2Cor 12, 2). Santo Agostinho e São Tomás ensinam que, nesse arrebatamento, São Paulo viu a essência de Deus.
Ninguém tratou de coisas mais abstrusas e sublimes do que as tratadas por São Paulo, e ninguém falou com mais clareza e nobreza do que ele; sua palavra é divina… Moisés recebeu a comunicação da lei de Deus no monte Sinai; Paulo foi buscá-la nos abismos misteriosos do Eterno: «Eu sei, diz ele falando de si mesmo, que este homem foi arrebatado ao paraíso e ouviu palavras inefáveis, que não é permitido ao homem pronunciar» (2Cor 12, 4). «Não, diz ele, o olho humano jamais viu, nem o ouvido ouviu, nem a mente humana compreendeu aquilo que Deus tem preparado para aqueles que o amam» (1Cor 2, 9).
São Dionísio Areopagita chama São Paulo de sol das inteligências (De S. Paulo). «Paulo, escreve São Jerônimo, é vaso de eleição, trombeta do Evangelho, rugido do leão, rio de eloquência cristã (4).» «São Paulo, segundo o Crisóstomo, é o céu em que resplandece o sol da justiça; é oceano claríssimo e profundíssimo de sabedoria… É o abismo sem fundo da ciência divina e o arquétipo de todos os bens. A ele Deus confiou toda a pregação, os interesses do universo, todos os mistérios e a dispensação universal de todas as luzes e de todas as graças (5).»
São Paulo é modelo de todas as virtudes. Ele instruiu as nações com palavras e obras… Dele se pode dizer, como de São João Batista, «que era lâmpada ardente e luminosa» (Jo 5,35). Sua vida era um relâmpago; sua palavra, um trovão; de modo que podia escrever aos Coríntios: «Nós somos o bom odor de Cristo» (2Cor 2,15). «Paulo é vaso escolhido, diz São Bernardo; com efeito, encerra os aromas mais perfumados, os perfumes mais deliciosos (6).»
À semelhança das plantas aromáticas, que exalam tanto mais perfume quanto mais são apertadas, Jesus Cristo, os apóstolos, os mártires e todos os santos difundiram tanto mais abundantemente o suave odor das mais sublimes virtudes quanto mais foram golpeados e esmagados pelas perseguições e tribulações. Ora, quem porá em dúvida que as provas a que São Paulo foi submetido foram mais duras e numerosas que as suportadas pelos outros santos? … Paulo oferece em si o modelo mais perfeito de fé, esperança, amor, humildade, obediência, zelo, abnegação e paciência.
«Assim como o ferro sepultado nas brasas se transforma em fogo, assim, diz São João Crisóstomo, São Paulo, todo inflamado de caridade, se transforma inteiramente em amor. Por isso, ora por cartas, ora por exortações, ora por orações, ora por ameaças, ora por si mesmo, ora por meio dos seus, procurava por todos os meios animar os que trabalhavam, fortalecer os que perseveravam, levantar os caídos, curar os feridos, despertar os sonolentos, repelir os inimigos. Como excelente capitão, guia e médico, desempenhava sozinho diversos ofícios (7).» E mais adiante: «Paulo é um habitante do céu, a coluna das Igrejas, anjo terrestre, homem celeste (8).» Santo Agostinho diz que Paulo foi constituído doutor das gentes, modelo dos mártires, terror dos demônios, juiz indulgente dos culpados, fonte de todas as virtudes (9).
«Quando via, prossegue o Crisóstomo, as tentações e as provas caírem sobre ele todos os dias e sepultá-lo como que sob montes de neve, alegrava-se e exultava como se tivesse vivido em meio ao paraíso (10).»
«Eu transbordo de alegria em meio a todas as minhas tribulações», escrevia aos Coríntios (2Cor 7,4); e aos Gálatas: «Quanto a mim, Deus me livre de gloriar-me de outra coisa senão da cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim, e eu para o mundo» (Gl 6,13).
Suas virtudes aparecem naquilo que escreve aos Coríntios: «Todos os dias morro por causa da vossa glória, irmãos, que tenho em Jesus Cristo» (1Cor 15,31). «Vivo em meio aos trabalhos e às preocupações, entre muitas vigílias e frequentes jejuns; sofro fome, sede, frio e nudez, além dos demais afazeres exteriores, das providências cotidianas e da solicitude por todas as Igrejas. Quem adoece sem que eu também adoeça? Quem se escandaliza sem que eu arda?» (2Cor 11,27-23). Seu zelo o leva a declarar aos Romanos que desejava ser privado de tantos dons e méritos provenientes de Jesus Cristo, antes que visse perdido um de seus irmãos (Rm 9,3).
Cheio de zelo, de ciência e de caridade, São Paulo percorreu o mundo inteiro e o converteu. Mas ouçamos os prodígios de seu apostolado, a descrição dos maravilhosos frutos de sua pregação pela boca áurea do Crisóstomo, que mereceu esse nome precisamente porque lia e meditava com frequência as palavras de São Paulo: «Assim como, ao nascer do sol, as trevas se dissipam, as feras se recolhem às suas tocas e os ladrões se escondem, assim, ao aparecer Paulo anunciando o Evangelho, o erro era posto em fuga e a verdade retornava; a idolatria, a embriaguez, a glutonaria, as dissoluções, os adultérios, os estupros e outras torpezas inomináveis cessaram e desapareceram como cera ao calor do fogo, como palha tomada pelas chamas. Arrancando os espinhos e semeando por toda parte a palavra da verdade, Paulo dissipa os erros, reconduz a verdade, transforma os homens em anjos; direi melhor: converte em espíritos celestes homens que eram demônios… Percorria toda a terra e reunia todos para o reino de Deus, ensinando, prometendo, meditando, rezando, suplicando, aterrorizando, expulsando os demônios corruptores das almas; ora por carta, ora pessoalmente, ora por discursos, ora por obras (11).» E em outro lugar: «Acorrentai, se puderdes, os raios do sol, ou o próprio sol; detende o seu curso; então também podereis pôr limites à ação de Paulo que, à semelhança do sol, habita o céu e espalha sobre a terra os luminosos raios de sua doutrina (12).»
Impedido por obstáculos de toda espécie, Paulo derruba e supera todos eles, diz São Cipriano; prisioneiro, mostra-se mais livre que aqueles que o mantinham no cárcere; prostrado por terra, foi maior que os que estavam de pé; carregado de cadeias, apareceu mais ousado que aqueles que o haviam acorrentado; citado a juízo, faz empalidecer, com seu comportamento, os próprios juízes (13).
Mas voltemos ainda uma vez a São João Crisóstomo: «Paulo foi vaso de eleição, templo de Deus, boca de Cristo, lira do Espírito Santo, doutor do universo; percorreu terras e mares, arrancou os espinhos dos pecados, espalhou a semente da verdadeira religião. Ouvi e maravilhai-vos: aquele que foi mais rico que os ricos, mais poderoso que os reis, mais filósofo que os filósofos, mais eloquente que os oradores; aquele que nada tinha e possuía tudo; cuja sombra ressuscitava os mortos, cujas vestes curavam as doenças; aquele que erigiu troféus sobre as ondas, que foi arrebatado ao terceiro céu e entrou no paraíso, que foi o Apóstolo por excelência da divindade de Jesus Cristo, dizia: Embora eu não tenha do que me repreender, nem por isso me considero justificado (Cor. 4,4). Vivendo na terra, regulava-se em tudo como se gozasse da sociedade dos anjos; pois, ainda prisioneiro de um corpo sujeito aos sofrimentos e à morte, possuía a perfeição dos espíritos angélicos; submetido a enfermidades e fraquezas, esforçava-se por não se mostrar inferior em coisa alguma às virtudes celestes. Como levado sobre asas, percorreu o mundo inteiro, espalhando por toda parte seus ensinamentos; como se não tivesse corpo, enfrentou perigos e fadigas de toda espécie; como se já possuísse a felicidade celeste, calcou aos pés todas as coisas terrenas; como se vivesse entre inteligências puras, teve a vigilância de uma alma senhora de si mesma quanto à intenção. É verdade que o cuidado das diversas nações foi confiado aos anjos; mas nenhum deles exerceu sobre o povo confiado à sua tutela um governo igual àquele que Paulo exerceu sobre o mundo inteiro. A nação judaica foi colocada sob a proteção do arcanjo Miguel; mas as terras e os mares e cada recanto habitado do globo foram confiados a São Paulo. Como não admirar-se e maravilhar-se ao ver uma palavra saída de lábios mortais pôr a morte em fuga, destruir os pecados, dissipar as trevas da cegueira e transformar milagrosamente a terra em céu? (14). Assim como o fogo ateado entre os espinhos pouco a pouco os consome e reduz a cinzas, assim, à voz de Paulo, que ressoou e se difundiu pelo mundo com mais veemência que um incêndio, tudo se inclinava; o culto dos demônios, posto em fuga, cedia o campo; os costumes pátrios, os furores populares, as ameaças dos tiranos, as ciladas domésticas, os malignos ardis dos falsos apóstolos, tudo desaparecia; e, assim como, ao nascer do sol, tudo se torna visível — a terra, o mar, as montanhas, as cidades e a vasta extensão dos campos —, assim, à chegada de Paulo, tudo se esclarece, ilumina-se etc. (15).»
São Paulo resplandece por inumeráveis e estupendos milagres. «Deus, lemos nos Atos dos Apóstolos, operava, por meio de Paulo, prodígios extraordinários; de tal modo que, aplicando-se aos enfermos os lenços ou as vestes dele, estes ficavam curados de suas enfermidades e deles saíam os espíritos imundos» (At 19,11-12). São João Crisóstomo atesta que a sombra de São Paulo, como a de São Pedro, não somente curava os enfermos, mas ressuscitava os mortos (Homil. X). São Paulo possuía em grau perfeito o dom das línguas e da profecia… Foi arrebatado ao terceiro céu… Não cessou de realizar milagres, e sua própria vida era um contínuo e grandíssimo prodígio. Sua conversão foi única nos fastos da Igreja, e ele converteu milhões de infiéis! … Sua morte foi belíssima entre as mortes, porque foi de martírio… Finalmente, depois do testemunho que deu a Jesus Cristo à custa de seu sangue, operou e ainda opera grandes e estupendos milagres.
Gloriosíssimo sob muitos aspectos foi o martírio de São Paulo. Foi condenado à morte sob Nero, o mais cruel dos tiranos, em Roma, capital do mundo. Conta uma tradição que de sua cabeça decapitada não saiu sangue, mas leite, símbolo de inocência e caridade; que converteu seus carrascos e que sua cabeça, caída por terra, deu três saltos, dos quais brotaram três fontes: é célebre em Roma a basílica de São Paulo às Três Fontes. À sua tumba acorre uma imensa multidão de devotos, e também ao lugar em que foi martirizado; muitos santos rezaram para obter o martírio e foram atendidos.
Jesus Cristo havia dito a Ananias: «Eu lhe mostrarei quanto lhe cumpre padecer por causa do meu nome» (At 9,16). Aquele que se havia proposto apagar o nome de Jesus Cristo da face da terra teve de sofrer para divulgar e tornar glorioso esse Nome. Ó misericordioso rigor! exclama Santo Agostinho (16). Toda a vida de São Paulo, depois de sua conversão milagrosa, não foi senão um longo e precioso martírio, consumado ao entregar a vida por Jesus Cristo sob a espada, como havia vivido por Jesus Cristo sobre a cruz.
Podemos fazer uma ideia da fama e da glória de São Paulo, se considerarmos: 1° todos os louvores que lhe foram tributados…; 2° que, à semelhança de Moisés, foi chamado legislador e guia de todas as nações…; 3° que sempre foi considerado pelas nações católicas, juntamente com São Pedro, como um dos dois príncipes da Igreja…; 4° que, em todos os séculos e de todos os pontos do globo, os povos acorreram a Roma para honrar as relíquias e o sepulcro deste apóstolo…; 5° que o imperador Constantino lhe edificou uma célebre basílica e que surgiram em mil lugares templos e altares dedicados ao seu nome… São Paulo, ao morrer, deixou sua alma ao céu, sua glória à eternidade, seu corpo e seu sangue a Roma, à Igreja dos fiéis, sua fé ao universo…