O homem que se abandona às paixões é semelhante aos animais, que se deixam arrastar por suas inclinações naturais, impelidos pelo ímpeto, não guiados pelo discernimento da razão. Mais ainda, devemos dizer que é pior que um animal, porque os animais de uma mesma espécie não se despedaçam uns aos outros, ao passo que o homem entregue às paixões investe contra o seu semelhante e o maltrata cruelmente. Este reúne em si somente o ciúme do cão, a voracidade do lobo, o orgulho do leão, a ferocidade do tigre, a teimosia do asno, a malignidade da serpente e a astúcia da raposa. Aonde vais? Onde irás acabar, ó homem que segues as paixões? …
Não podeis, escreve Boécio, contar entre os homens aquele que vedes transformado pelas paixões: a aparência humana que nele permanece prova que ele era um homem; mas agora já não o é. A avareza que o devora impele-o a apoderar-se violentamente dos bens alheios? Colocai-o entre os lobos. Cedendo à fúria, à cólera e ao temperamento briguento, põe-se a gritar, a insultar e a vociferar? Colocai-o entre os cães. Alegra-se por ter enganado o próximo com astúcias? Colocai-o entre as raposas. Ameaça, investe, enfurece-se, brame? Chamai-o de leão. Tímido e medroso, foge mesmo quando não há perigo algum? Comparai-o ao cervo. Mostra-se lento e preguiçoso? Chamai-o de asno. Dá provas de leviandade e inconstância? Chamai-o de borboleta. Mergulha nos prazeres repugnantes da carne? Colocai-o entre um porco e um bode. Assim, o homem que abandona a Deus, a virtude e a justiça transforma-se em animal imundo ou cruel (De consol. lib. IV).
Todas as paixões são deleites que embriagam a alma, isto é, dominam-na, cegam-na e a estupidificam, quase como a embriaguez domina o corpo, embota a mente, tira o bom senso e transtorna o cérebro. Assim como a sobriedade é, se assim posso expressar-me, a sabedoria e a virtude do corpo, assim todo vício e toda paixão são a embriaguez e a loucura da alma; embriaguez e loucura produzidas pelo vinho do mal, espremido dos cachos das paixões, que o demônio, sinistro taberneiro, lhe oferece para beber. «Embriagados pelas paixões, os mundanos, diz São Gregório, já não percebem os horríveis pecados que cometem e fazem cometer» (Lib. in Luc.). A iniquidade faz ao homem que a ela se abandona o que a ferrugem faz ao ferro…
«Constituído em estado honroso, o homem não compreendeu o seu destino, diz o Salmista; comparou-se aos animais e tornou-se semelhante a eles» (Sl 48,12). Eis o retrato dos homens escravos das paixões… Deles se pode dizer com Isaías: «Vós que acendestes em vossos corações o fogo das paixões e estais cercados de chamas, caminhai, ao sinistro clarão do vosso fogo, em meio às chamas por vós suscitadas» (Is 50,11). Vós permitistes que se desenvolvessem em vós paixões ardentes e sereis vítimas delas: o incêndio que não apagastes consumirá a vós e a quantos se encontrarem ao vosso redor… As paixões são centelhas do fogo do inferno…
Davi mancha-se com dois pecados; ouvi como descreve a sua condição: «O sentimento de minhas culpas faz-me envergonhar de mim mesmo, e a vergonha que tingiu de púrpura minha fronte cobriu-me por inteiro» (Sl 43,15). Lançai também um olhar ao quadro que o apóstolo São Tiago faz das pessoas entregues às paixões: elas blasfemam contra tudo o que não conhecem e, como animais mudos, corrompem os conhecimentos que naturalmente possuem… Estes são motivo de vergonha em seus banquetes, pondo-se juntos à mesa sem respeito, engordando a si mesmos: nuvens sem água, levadas de um lado para outro pelos ventos, árvores de outono, sem fruto, duas vezes mortas, destinadas a ser arrancadas… Ondas do mar em tempestade, que espumam suas próprias torpezas, estrelas errantes, para as quais está reservada eternamente uma tenebrosa escuridão… Estes são murmuradores queixosos, que vivem segundo os seus apetites, e sua boca vomita soberba… Separam-se de Deus: homens de vida animalesca, que já não têm em si o Espírito Santo (10, 12-13, 16, 19)…
Toda espécie de desordem, a ignomínia, a escravidão e a degradação formam a família das paixões desenfreadas. Adão e Eva pecam: imediatamente se abrem os olhos de ambos e eles se cobrem de vergonha. Ouviram a voz do Senhor no jardim e, para evitar o encontro com Deus, esconderam-se entre a folhagem. Mas, interpelado pelo Senhor, que chamava: Adão, onde estás?, respondeu: Ouvi a vossa voz e tive vergonha, porque estava nu; por isso corri a esconder-me (Gn 3,7-10).
«Dormiremos na confusão, diz Jeremias, e a nossa ignomínia nos cobrirá da cabeça aos pés; porque pecamos contra o Senhor nosso Deus» (Jr 3,25). «Os homens que se entregam às suas paixões, diz o mesmo Profeta, ficarão grandemente confundidos, porque não compreenderam o opróbrio eterno que nada pode apagar» (Id. 20,11). «Cairão desonrados e humilhados para sempre entre os mortos», diz o Sábio (Sb 4,19).
«Nós nos cansamos no caminho da iniquidade e da perdição, dizem os homens que dão vazão aos seus apetites depravados; percorremos caminhos desastrosos e ignoramos o caminho do Senhor» (Sb 5,7). «Desviaram-se do caminho reto, tornaram-se gente inútil, corrompida e abominável. A dor e a infelicidade seguem os seus passos, e não conheceram o caminho que conduz à paz» (Sl 13,3, 1, 3).
Pode-se aplicar à tirania que as paixões exercem sobre a alma aquilo que Isaías dizia da opressão em que os inimigos mantinham a filha de Sião: «Todos os seus perseguidores se lançaram contra ela, apoderaram-se dela e a reduziram à angústia» (Lm 1,3); e também aquela sentença de Miqueias, confirmada por Jesus Cristo: «O homem encontra os próprios inimigos no seio doméstico»; isto é, em sua alma, no fundo do próprio coração (Mq 7,6).
Agesilau, rei de Esparta, dizia que preferia vencer as próprias paixões a um exército inimigo, tão funestas elas são para o homem (LAERZIO). Ninguém diga que não pode ou que não sabe vencer: aqui, querer é poder. Com a graça de Deus e uma vontade firme, nada é impossível. Se tão vivas e vigorosas são as vossas paixões, como dizeis, vós mesmos fostes a causa delas, com as vossas imprudências, com a vossa pouca vigilância, com a falta de piedade e de temor de Deus.
«Todas as más paixões, diz Santo Agostinho, são portas do inferno» (Sentent. CXXXVI). Deus, com efeito, tendo horror aos homens entregues às paixões, castiga-os nesta vida, privando-os de suas graças, cegando-os e endurecendo-os; na morte, com a impenitência final; na eternidade, com o inferno…