Tesouro n.º 143 · Volume III

PAIXÃO DE JESUS CRISTO PASSIONE DI GESÙ CRISTO

31 seções · 218 parágrafos · pp. 1646–1699 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NÓS DEVEMOS TUDO A JESUS CRISTO

«A Jesus Cristo somos devedores, diz São Bernardo, de toda a nossa vida, porque ele deu a sua vida pela nossa e sofreu cruéis tormentos para nos preservar dos tormentos eternos. Portanto, quando eu lhe tiver dado tudo o que sou e tudo o que posso, tudo isso, em comparação com o que ele fez por mim, não será sequer o que é uma tocha em comparação com o sol, uma gota de água em comparação com o mar, uma pedrinha em comparação com uma montanha. Se lhe devo tudo porque ele me criou, que lhe darei em troca de me ter resgatado, e da maneira como o fez? Pois não fui resgatado com tanta facilidade quanto fui criado: aquele que me criou num instante e com uma só palavra, para me redimir proferiu muitas palavras, realizou prodígios jamais vistos, suportou tratamentos penosos e indignos. Na primeira obra, deu-me a mim mesmo; na segunda, deu-se a si mesmo e, dando-se, restituiu-me a mim mesmo. Posto e reposto à mercê de mim mesmo, devo-lhe, em retribuição, a mim mesmo, e devo-me a ele duas vezes. Mas que retribuirei eu ao Senhor pelo dom que me fez de si mesmo? Ainda que pudesse entregar-me mil vezes, que valho eu em comparação com Deus? (Serm. de Quadrup, debitor.)».

«Jesus Cristo, escreve o grande Apóstolo, resgatou-nos da maldição da lei, submetendo-se ele, em nosso lugar, à maldição, conforme está escrito: Maldito todo aquele que pende do madeiro» (Gl 3,13). «E os ultrajes sofridos por Jesus, diz São Jerônimo, constituem a nossa glória. Ele morreu para nos chamar à vida; desceu do céu para que nós subíssemos até lá. Fez-se loucura para que nós nos tornássemos sábios; foi pendurado no madeiro da cruz para apagar o pecado que cometemos por causa do madeiro da ciência do bem e do mal (In Marc.)».

Procuremos compreender, se pudermos, qual seja a largura, o comprimento, a altura e a profundidade do amor de Jesus Cristo e das dores que sofreu por nós… Qual é a largura da paixão? Jesus sofreu em todos os seus membros, em todas as faculdades de sua alma, da parte dos homens, e também dos anjos e de seu próprio Pai divino, por quem foi como que abandonado. Experimentou toda espécie de tormentos: foi despojado dos bens temporais, da fama, da honra e da vida.

Qual é o comprimento da paixão? Durante os trinta e três anos de sua vida, Jesus sentiu em seu corpo, em sua alma, em seu espírito e em seu coração todas as dores que deveriam pôr fim aos seus dias e o suplício da cruz; tinha continuamente tudo isso diante dos olhos.

Qual é a altura da paixão? Em todos os instantes de sua vida, Jesus Cristo foi cruelmente afligido e atormentado pelo claro e perfeito conhecimento tanto da grandeza de Deus ofendido, como da gravidade do pecado, como dos ultrajes que haveria de enfrentar, como dos tormentos a que estaria sujeita sua sagrada pessoa, como da multidão dos réprobos, para os quais seriam inúteis os seus sofrimentos.

Qual é a profundidade da paixão? Onde se poderá encontrar uma mente capaz de pensar, uma língua capaz de expressar a intensidade das dores e a gravidade das ignomínias que foram o patrimônio de Jesus Cristo?

Para nos amar desde toda a eternidade, bastou a Deus um pensamento; para nos criar, bastou-lhe uma palavra…; mas para nos redimir, foram necessárias a encarnação, o aniquilamento, as humilhações, as dores, as ignomínias, o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Jesus Cristo; finalmente, sua morte na cruz. «Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro», dizia São Paulo (Cor 1,15). «Um grande médico, diz Santo Agostinho, veio do céu, porque um grande enfermo jazia sobre a terra (In Passione)».

2. ABISMOS DA PAIXÃO

Na Paixão de Jesus Cristo, apresentam-se-nos de todas as partes abismos tais, cuja profundidade nenhum olho pode sondar… Da parte de Deus Pai, abismo de justiça… Da parte de Jesus Cristo, abismo de amor, de dores, de paciência, de misericórdia, de mansidão, etc…. Da parte dos homens, abismo de miséria, de cegueira, de ingratidão, de delitos, de crueldade, de furor…

3. A CEIA

«Jesus Cristo disse aos discípulos: Sabeis que daqui a dois dias será a Páscoa e que o Filho do Homem será condenado a ser crucificado… Ide, pois, à cidade e dizei a certo homem: O Mestre manda dizer-vos: O meu tempo está próximo; celebrarei em tua casa a minha Páscoa com os meus discípulos» (Mt 26, 1-2, 18).

Consideremos: 1° que este Deus de amor se entrega na véspera de sua morte (Cor 11,23). 2° Apressa seus Apóstolos a preparar a Páscoa: «Ide… o meu tempo está próximo». 3° Institui o augusto Sacramento dos nossos altares e entrega-se aos seus Apóstolos no momento em que se conspira para perdê-lo, e Judas põe preço em sua vida. «Que quereis dar-me, e eu vo-lo entregarei?» (Mt 26,15). Vende o teu mestre, ó Judas; isto te é fácil: vais recebê-lo, e ele está prestes a entregar-se a ti na comunhão. 4° Jesus viu a traição de Judas, a fuga dos discípulos, a agonia, o suor de sangue, as cadeias, as varas, os escarros, as bofetadas; ouve a negação de Pedro, as zombarias, os falsos testemunhos, as blasfêmias, sua condenação à morte; prevê a coroa de espinhos, os cravos, a cruz, o abandono do Pai e dos homens; e escolhe precisamente este momento para deixar à Igreja o admirável monumento de seu eterno amor! … 5° Institui o sacramento da Eucaristia para entregar-se àqueles mesmos que tratam de vendê-lo, renegá-lo, abandoná-lo e crucificá-lo. Nada o detém; seu amor supera tudo… 6° Os insultos, os sarcasmos, as profanações, a hipocrisia, os sacrilégios e as perseguições de que este augusto sacramento será alvo até o fim do mundo estão diante de seus olhos, e ele não leva isso em conta e prossegue.

Meus queridos discípulos, diz ele, meus amigos, estou prestes a deixar-vos, a ir para a morte pela salvação de vós e de todo o mundo; mas, antes que isso aconteça, tomai e comei: Este é o meu corpo; tomai e bebei: Este é o meu sangue, o sangue da nova Aliança, que será derramado por muitos para remissão dos pecados (Mt 26, 27-28). Na cruz, este sangue vos unirá a meu Pai; na Eucaristia, unir-vos-á a mim. «Ó quanto desejei que chegasse este momento de comer esta Páscoa convosco» (Lc 22,15). Eis o meu testamento: disponho em vosso favor do meu reino, assim como meu Pai dispôs dele em meu favor, para que comais e bebais à minha mesa, no meu reino, e vos assenteis em tronos para julgar as tribos de Israel (Ib. 29-30). Ó amor infinito de um Deus!

Judas estava presente; e sentou-se à mesa com os demais Apóstolos.

4. JUDAS VENDE O DIVINO MESTRE

Assim que Judas comungou o corpo de Cristo, o demônio entrou nele, e ele saiu imediatamente do cenáculo, sendo noite (Jo 13, 27, 30); dirigiu-se aos inimigos do Salvador e disse-lhes: Que quereis dar-me, e eu vo-lo entregarei? (Mt 26,15). Conspiração infame! … E o que poderão dar-te os homens, ó Judas, que valha para te conservar o lugar de Deus? O que te faltava, tendo-o a ele? Ele te havia escolhido como discípulo e elevado à dignidade de apóstolo; jamais cessara de cumular-te de seus favores celestes; tinhas sido o feliz espectador de sua vida celestial, de seus benefícios, de seus milagres, de suas promessas…

E vós, ó pecadores, que, por um prazer vil, por uma satisfação indigna, abandonais Jesus e o vendeis ao demônio, não imitais acaso Judas? Não sois também traidores? Não dizeis também: ó mundo, ó Satanás, ó paixões, que quereis dar-me, e eu vos entrego o meu Deus; sacrifico-vos a minha salvação, a minha coroa, o trono, a felicidade, a minha alma? Dá-me, ó carne atormentada pela concupiscência, aquele miserável deleite, aquele prazer que tenho em comum com as feras, com os animais de carga; e tu, ó Satanás, toma, toma Jesus Cristo, eu vo-lo entrego, vo-lo sacrifico; já não quero saber dele; tomo por divindade a minha vontade, a carne, a luxúria, a avareza, a gula, a inveja, o ódio, a acídia. Judas saiu, pois, imediatamente do cenáculo. «Judas saiu da fé, comenta aqui Santo Ambrósio; saía da assembleia e do grupo dos Apóstolos; saía do banquete de Cristo, para esconder-se no covil dos assassinos e do demônio; saía da graça da santificação, para tomar a corda; saía para fora, como aquele que abandonava os mistérios da vida interior (In Ioann. Commentar.)».

Observa o Evangelho que, quando Judas saiu do cenáculo, era noite. ― Oh, sim, para Judas era noite escura! E como poderia ser de outro modo, se abandonava Aquele que ilumina todo homem que vem a este mundo, Aquele que é a verdadeira luz, e se precipitava nas próprias trevas do inferno? Oh, não! O miserável não sabia para onde ia quando dirigia os passos à casa do príncipe dos sacerdotes, para vender o seu divino mestre: não via que estava prestes a cometer o maior dos crimes e que se entregava ao poder da avareza, a qual o conduziria ao desespero, ao laço, ao inferno… Nada disso ele via, porque para ele era noite.

Mas, ai de mim! não estão acaso todos os pecadores sepultados em noite tenebrosa? Se a luz não tivesse se posto para eles, iriam lançar-se rindo num abismo de desgraças, para agarrar uma sombra de satisfação culpável? Ah! As trevas que envolviam Judas envolvem também a consciência dos pecadores endurecidos.

Judas pede, como preço de sua traição, trinta moedas; tendo obtido a promessa do Sinédrio, fica espreitando a ocasião propícia para entregá-lo às suas mãos (Mt 26,15-16). «Ó Judas traidor, exclama Santo Ambrósio, tu avalias em trezentas moedas o unguento que Madalena derrama sobre os pés de Jesus Cristo em memória de sua paixão, e depois vendes a própria paixão dele por trinta moedas! Rico e generoso és na estima, vil no delito, porque vendes Deus pelo preço dos escravos. Mas assim quer Jesus, para que todos possam comprá-lo, e nenhum pobre dele se afaste por causa do preço (De Spir. S. l. 3, c. 18, et cap. VII Luc.)».

Dado em troca de soma tão pequena, Jesus Cristo se torna o preço da redenção de todos os pecadores e de todo o universo. Por Judas tê-lo vendido, e os judeus terem comprado Jesus Cristo pelo preço de trinta moedas, aquele e estes são feridos por Deus com trinta maldições, enumeradas por Davi no Salmo 108. 1° Que o Senhor os submeta ao jugo do ímpio; 2° que Satanás esteja à sua direita; 3° que, levados a julgamento, sejam condenados; 4° que a sua oração se transforme em culpa; 5° que os seus dias sejam abreviados; 6° que a outros seja confiada a sua missão; 7° que os seus filhos fiquem órfãos; 8° que a sua mulher fique viúva; 9° que os seus descendentes andem errantes e vagabundos pela terra, sejam levados como escravos para nações estrangeiras e vão mendigando o pão; 10° que o usurário devore o seu patrimônio; 11° que os estrangeiros se apropriem dos frutos do seu trabalho; 12° que não haja quem lhes venha em auxílio; 13° que ninguém tenha piedade dos seus órfãos; 14° que a sua descendência seja destinada à morte; 15° que o seu nome se perca depois de uma só geração; 16° que a iniquidade dos seus pais jamais caia da memória de Deus; 17° que o pecado da sua mãe jamais obtenha perdão; 18° que os seus filhos sejam sempre inimigos do Senhor; 19° que deles não reste nome nem lembrança na terra; 20° amaram a maldição, e que ela os alcance; 21° não quiseram a bênção, e jamais a terão; 22° a maldição os envolva como um manto; 23° penetrou como água nas suas entranhas; 24° insinuou-se como óleo nos seus ossos; 25° forme ela para sempre o seu vestuário; 26° seja o cinturão dos seus rins; 27° desapareçam como a sombra que se desfaz; 28° sejam esmagados como insetos; 29° sejam cobertos de vergonha; 30° feitos objeto de escárnio e ignomínia.

5. JESUS CRISTO NO HORTO DAS OLIVEIRAS

Depois da ceia, Jesus Cristo foi ao jardim das oliveiras: 1° para rezar, por ser um lugar retirado…; 2° para provar que não fugia da morte, mas a desejava, porque aquele retiro era muito conhecido de Judas; 3° para enfrentar a sua paixão; 4° para mostrar a sua misericórdia e doçura.

Num jardim Adão nos perdeu, e num jardim Cristo nos salvará… Adão causou a nossa ruína num jardim de delícias, Jesus deu início à nossa reparação num jardim de dor… Adão sai do paraíso terrestre levando consigo a morte, para si e para todo o gênero humano; Jesus Cristo sai do jardim das oliveiras para devolver a vida a todos…

Chegando ao Oliveto, Jesus prostra-se por terra (Mt 26,39). Com este ato de humildade, ele mostra: 1° a angústia que o oprime…; 2° o profundo aniquilamento em que se encontra…; 3° dá prova do mais profundo respeito para com Deus, seu Pai…; 4° indica quão pesado é o fardo dos nossos pecados, que ele quis tomar sobre si…; 5° coloca-se em nosso lugar e, penitente, oferece-se como vítima de expiação a seu Pai, pedindo para carregar sozinho a pena dos pecados dos homens.

O divino Salvador começou a cair em profunda tristeza e angústia, diz o Evangelho. ― Então diz aos Apóstolos: a minha alma está triste até a morte… E, afastando-se deles a uma distância de um tiro de pedra, prostrou-se com o rosto por terra, rezando assim: Meu Pai, se é possível, afaste-se de mim este cálice; contudo, não se faça a minha vontade, mas a vossa (Mt 26,36-39). E assim reza por três vezes, até que, na terceira, um anjo vem do céu para confortá-lo. Aprendamos deste exemplo a não nos desencorajar na oração, mas a perseverar, especialmente no tempo da provação. Com a sua oração triplicada, Jesus nos ensinava ainda a rezar e pedir: 1° a graça pelos nossos pecados passados; 2° auxílio para não cair no presente…; 3° sermos preservados dos males futuros… Jesus reza três vezes para nos ensinar que as nossas orações devem ser dirigidas à Augusta Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, e para obter a salvação do espírito, do coração e do corpo…

Jesus reza, e qual é a sua oração? «Meu Pai, se é possível, fazei que este cálice passe de mim» (Mt 26,39). Sim, ó meu Jesus, este cálice é amargo, porque contém as nossas iniquidades e a justiça de vosso Pai; mas, se não o beberdes, tudo estará perdido para nós! Ah, ele o beberá, não temais, pois acrescenta: «Contudo, não se faça como eu quero, mas como tu queres» (Ib.). Esta palavra de nossa cabeça, diz São Leão, é a salvação de todo o corpo; ela formou todos os fiéis, inflamou de zelo todos os confessores, coroou todos os mártires (Serm. VII de Pass.).

À vista do cálice de amargura, Jesus entra em profunda tristeza (Mt 26,38). Por meio desta tristeza, Jesus expia as alegrias culpáveis de Adão e de todos os pecadores. Ele se entristece ao ver a traição de Judas, a negação de Pedro, o abandono dos Apóstolos, todas as dores e todas as ignomínias que estão prestes a desabar sobre a sua cabeça. Está triste porque carrega todos os delitos passados, presentes e futuros de todas as gerações. Está triste porque vê no futuro os suplícios que aguardam os apóstolos e os mártires, as provações reservadas à sua Igreja, a ingratidão dos homens e a condenação de muitos pecadores, apesar do valor infinito do sangue que derramará por eles. Finalmente, está triste pela tristeza de sua terna mãe.

A tristeza de Jesus Cristo é plenamente livre e voluntária, é tristeza de amor e, portanto, de grandíssimo mérito… O adorável Salvador é oprimido pela tristeza, para tornar doce e alegre a nossa morte… «Vós gemeis, ó Senhor, exclama Santo Ambrósio, não pelos vossos sofrimentos e dores, mas pelas minhas feridas; não pela vossa morte, mas pela minha enfermidade (In Luc. 22, 44)».

«Jesus se perturbou em espírito» (Jo 13,21). À vista dessa perturbação, efeito de poder, não de fraqueza, como diz Santo Agostinho (In Passione), São Bernardo irrompe nestas palavras: «Aqui, se prestares atenção, vês a alegria entristecer-se, a confiança temer, a sanidade padecer, a vida morrer, o vigor abater-se; mas é tristeza que alegra, é temor que conforta, é morte que vivifica (Homil. 2, sup. Missus)».

O Salvador levanta-se, vai ao encontro dos Apóstolos e, encontrando-os adormecidos, desperta-os, recomendando-lhes que vigiem e rezem (Mt 26,40-41). Ele os desperta, observa Santo Irineu, para demonstrar que sua paixão é o despertar daqueles que dormem no pecado; quem, com efeito, poderia dormir na culpa, se considerasse que Jesus se expõe a tantos sofrimentos para expiar a culpa? Dos seus Apóstolos ele volta à oração e, sempre imerso num mar de tristeza, cai em agonia e reza ainda mais longamente, até que de seus membros sai um suor de sangue que banha o chão (Lc 22,43-44). «Não contente Jesus, diz São Bernardo, com as lágrimas que escorrem dos olhos, quis ainda chorar e lavar os nossos pecados com lágrimas de sangue, que escorriam de todo o seu corpo (Homil. sup. Missus)».

Entretanto, eis que Judas, um dos doze, se aproxima (Mt 26,47). Ecce, eis uma abominação nova e jamais vista, um crime desconhecido de todos os séculos passados. Judas, um dos Apóstolos, tornou-se não somente ladrão, mas vendedor de seu divino mestre; fez-se chefe de malfeitores e carrascos que o seguem armados de espadas e bastões. Eis Judas, um dos doze, transformado em guia de uma multidão de celerados e assassinos (Mt 26,47; Lc 22,47). Considerai a cegueira e a loucura de Judas e dos judeus. Judas sabia que Jesus Cristo era o grande profeta, o Messias, o Filho de Deus, que não podia ser preso nem amarrado; também os príncipes dos sacerdotes o sabiam por experiência; contudo, impelidos pela avareza, pelo ressentimento, pelo ódio, possuídos pelo demônio, avançam! Ó Judas, pretendes tu acorrentar o teu Deus e ser mais forte do que ele? E vós, ó judeus, quereis combater contra o Criador, o vosso benfeitor, contra aquele por quem suspirais há tanto tempo, contra o Desejado das nações? … Mas não vemos acaso todos os dias os pecadores seguirem as pegadas de Judas e dos judeus? «A avareza de Judas, observa o Crisóstomo, foi o que o levou a tão horrível excesso. A avareza torna cruéis e bárbaros todos aqueles a quem governa (In Passione)».

Enquanto o traidor se aproximava e, temendo perder os trinta denários caso Jesus lhe escapasse das mãos, advertia os esbirros que observassem a quem ele daria o beijo, pois esse era Jesus; e que o amarrassem e o conduzissem com cautela (Mc 14,44), Jesus Cristo chama os Apóstolos e lhes diz: «Vamos, encaminhemo-nos ao encontro do traidor, que já está perto de nós» (Mt 26,46). Até esse momento, a angústia, a tristeza, a aflição, o suor e a luta haviam oprimido e prostrado o Salvador, porque assim ele o queria; mas eis que agora recupera suas forças e, com passo firme, vai ele mesmo ao encontro dos inimigos. «E a quem buscais?» diz-lhes. E eles: «A Jesus Nazareno». ― «Eis-me aqui, sou eu» (Jo 18,4-5). Sou eu aquele que buscais.

Assim que pronunciou estas palavras: «Sou eu!», toda aquela horda caiu desfalecida por terra (Jo 18,6). «À voz de Jesus, comenta São Leão, a turba ímpia cai prostrada e não se levanta senão ao seu aceno. Ora, o que não poderá sua majestade quando vier julgar, se tanto pôde sua humildade quando estava prestes a ser julgada? (Serm. I de pass.)».

«Onde está agora a coorte dos soldados? diz Santo Agostinho; onde, o terror das armas? Não houve necessidade nem de espadas nem de flechas; uma só voz bastou para ferir, repelir e derrubar uma horda que o ódio tornava feroz e as armas faziam terrível. Pois, sob as aparências de homem, escondia-se um Deus. O que fará agora, quando vier julgar, aquele que tanto fez quando estava prestes a ser ele próprio conduzido a julgamento? (In XVIII Ioann.)» O espanto e a queda de Judas e dos seus representavam a irreparável destruição dos judeus. Falando desse milagre, São Cirilo escreve: «Essa derrota é a figura do que acontecerá a todos aqueles que fazem guerra contra Jesus Cristo; esta é a sorte que aguarda todos os seus inimigos em todos os séculos (In XVIII Ioann.)».

A tropa de guardas enviada pelos príncipes dos sacerdotes não teria podido levantar-se, se Jesus não o tivesse permitido. A misericórdia de que ele deu naquele momento esplêndida prova deveria tê-los tocado e convertido a todos, especialmente Judas; mas, vendido a Satanás, o apóstolo infiel decidira trair o seu Deus com um beijo e executou o seu infame projeto. Assim que se levantou, aproximou-se do Nazareno e, dizendo-lhe: «Salve, Rabbi», beijou-o. E Jesus lhe disse: «Amigo, a que vieste aqui? Ou Judas, trais o Filho do homem com um beijo?» (Mt 26,49-50; Lc 22). O nome de amigo que Jesus Cristo lhe deu, a pungente e terrível repreensão que lhe dirigiu, deveriam comover e levar ao arrependimento o coração de Judas, assim como, pouco depois, um olhar enterneceria o coração de Pedro. Por mais que afligisse Jesus a traição de Judas, consumada com um beijo, ele, todavia, não o repeliu: 1° para sofrer por nós…; 2° para tocar o coração do traidor…; 3° para nos ensinar a não odiar os nossos inimigos, mas a perdoá-los e amá-los.

Depois de ter derrubado prodigiosamente os seus inimigos, Jesus realizou outro milagre, não permitindo que se apoderassem dos seus Apóstolos, principalmente de Pedro, que havia ferido um deles. Realizou um terceiro prodígio, restituindo a orelha àquele a quem Pedro a havia cortado. Quanta cegueira naqueles desgraçados! À vista de milagres tão evidentes e repetidos, deveriam ter aberto os olhos; mas não foi assim; nada os iluminou, nada os comoveu, nada bastou para detê-los… Lançaram-se sobre Jesus Cristo e o acorrentaram (Mt 26,50).

Quem poderia descrever a barbárie com que se apoderaram do Salvador? 1° Agarraram-no como a um ladrão; e Jesus Cristo é a inocência e a bondade por essência, é o Santo dos santos, o Verbo eterno, o Filho de Deus e o próprio Deus… 2° Os inimigos de Jesus eram vis e cruéis de ânimo, todos inimigos jurados uns dos outros, pois Escribas e Fariseus se detestavam entre si. Podemos, portanto, imaginar com que desumanidade e barbárie o terão tratado, espancando-o, insultando-o e maltratando-o a porfia… 3° Tomaram e amarraram Jesus, abandonado pelos seus Apóstolos e deixado sozinho, cordeiro imaculado em meio a uma horda de lobos.

Com suas cadeias, Jesus Cristo quis: 1° quebrar a cadeia com que Adão havia carregado o gênero humano, que é a cadeia do pecado original…; 2° quebrar as cadeias com que o demônio e o pecado amarraram cada um de nós…; 3° santificar os grilhões que os mártires, os confessores e todos os perseguidos haveriam de carregar pela glória do seu nome…; 4° ligar-nos com as cadeias do seu amor, como havia predito por Oseias, dizendo: «Eu os atrairei a mim com laços que seduzem os homens, com vínculos de amor (Os 11,4)…; 5° cumprir as profecias do Antigo Testamento e substituir as figuras pela realidade: Isaac, figura de Jesus Cristo, havia sido amarrado… As cadeias do Salvador tornaram-se tanto mais pesadas e duras para ele quanto mais espantosas e pesadas são as dos pecadores; porque Jesus Cristo nosso Senhor foi atado, diz Jeremias, e acorrentado em nossos pecados (Lm 4,20).

Já outras vezes os Fariseus, os Escribas e os Sacerdotes haviam armado ciladas contra Jesus Cristo; já em outras ocasiões haviam atentado contra a sua vida, e ele, prestes a ser preso, passava tranquilo e sem ser visto em meio aos inimigos; «pois, segundo a observação de Santo Ambrósio, deixa-se prender quando quer e escapa-lhes das mãos quando lhe apraz; deixa-se matar somente quando é de sua vontade; antes disso, ainda não havia chegado a sua hora (In Luc. XXII)». Jesus chama a sua paixão de cálice, porque a sofreu por sua plena vontade e a desejou ardentemente; desejou-a como um homem consumido por ardente sede anseia por um copo de água fresca que o restaura por inteiro. Ele foi imolado porque assim o quis, diz Isaías (Is 53,7).

«Contemplemos, diz São Paulo, o autor e consumador da fé, Cristo Jesus, o qual, visando à alegria que lhe fora proposta, suportou a cruz, sem fazer caso da ignomínia» (Hb 12,2). «Ele me amou, diz o Apóstolo, e se entregou por mim» (Gl 2,20). Não o declarou acaso abertamente o próprio Jesus Cristo com estas palavras: «Meu Pai me ama porque dou a minha vida para retomá-la outra vez; ninguém pode tirá-la de mim, mas eu mesmo a dou, e tenho o poder de dá-la e o poder de retomá-la»? (Jo 10,17-18).

6. O QUE JESUS CRISTO SOFREU NO HORTO DAS OLIVEIRAS FOI PREDITO PELOS PROFETAS

Os Profetas haviam predito todos os diversos ultrajes e sofrimentos que Jesus teria de padecer até o momento em que foi levado a Jerusalém. Davi designou claramente a traição de Judas nestas palavras do Salmo 40,9: «O homem em quem eu tranquilamente depositava a minha confiança, aquele que comia à minha mesa, conspirou contra mim».

O mesmo profeta anuncia a agonia de Jesus e o abandono dos discípulos: «Meu coração esperou o insulto e o sofrimento; esperei que alguém partilhasse comigo a minha tristeza, mas em vão; esperei que alguém me consolasse, mas não veio» (Sl 68,21). Zacarias predisse que o Messias seria vendido por trinta moedas de prata (Zc 11,12).

Jeremias viu Judas e sua turba avançando para prender Jesus Cristo: «Ouvi os ultrajes de muita gente, e ao meu redor reinava o terror… Persegui-o, e nós o perseguiremos… tais eram os gritos daqueles que estavam às minhas costas; vinguemo-nos dele» (Jr 20,10).

7. MAUS-TRATOS SOFRIDOS POR JESUS EM CASA DE ANÁS E CAIFÁS

Cada um pode imaginar que o trajeto de Jesus, carregado de correntes e entregue a uma turba embriagada de furor, do Oliveto a Jerusalém, deve ter assinalado tantos insultos e maus-tratos quantos foram os passos. Chegando ali, a soldadesca conduziu primeiro o Salvador à casa de Anás, sogro de Caifás, que naquele ano exercia o ofício de sumo sacerdote. Este o interrogou acerca de sua doutrina e de seus discípulos. Mas Jesus respondeu-lhe que sempre havia falado em público; que havia ensinado sua doutrina nas sinagogas e no templo, onde se reuniam todos os judeus, e nunca havia feito discursos em segredo. Por que interrogá-lo? Interroguem aqueles que o ouviram; eles sabem o que ele disse (Jo 18,12-21).

Com efeito, o que havia ele ensinado? O Pai-Nosso; as oito Bem-aventuranças, etc…. O que havia feito? Havia curado enfermos, restituído a visão aos cegos, o ouvido aos surdos, a palavra aos mudos, o uso dos pés aos paralíticos, a vida aos mortos; havia multiplicado os pães no deserto, expulsado os demônios, acalmado os ventos, serenado as tempestades; em uma palavra, passara fazendo o bem a todos e em toda parte… Às palavras de Jesus ao sumo sacerdote — Por que me interrogas? — um dos guardas deu-lhe uma bofetada, dizendo: É assim que respondes ao sumo sacerdote? E Jesus lhe respondeu: se falei mal, mostra-me o mal que disse; mas, se falei bem, por que me bates? (Jo 18,22-23).

Enquanto isso, os príncipes dos sacerdotes e toda a assembleia procuravam quem prestasse falso testemunho contra o Salvador, para condená-lo à morte (Mt 26, 59). Estavam decididos a crucificá-lo; mas, embora numerosos, astutos, maliciosos, cheios de rancor e de má vontade, não encontravam, contudo, motivo de acusação contra ele; tão pura era a sua moral, tão irrepreensível a sua vida! Eis por que precisavam de falsas testemunhas. Finalmente apareceram duas, que depuseram que o acusado havia dito: posso destruir o templo de Deus e reedificá-lo em três dias. Ouvindo isso, o príncipe dos sacerdotes perguntou a Jesus se nada opunha ao que se testemunhava contra ele; mas ele permanecia calado (Mt 26, 60-63).

Jesus permanecia calado: 1° porque a acusação não tinha valor…; 2° porque sabia, como observa São Jerônimo, que, qualquer que fosse a resposta que desse, suas palavras seriam mal interpretadas (Comm. in Ev. Matth.). E ali não havia, diz o Crisóstomo, senão a sombra de um julgamento; na realidade, era um assalto de bandidos (In Passione). 3° Jesus permanecia calado porque se submetia inteiramente à condenação e à morte decretadas por seu Pai…; 4° O silêncio de Jesus expiou as desculpas de Adão, segundo a bela observação de São Jerônimo (In Marc. c. XIV).

Então o príncipe dos sacerdotes, não para conhecer a verdade, mas para obter motivos para uma condenação, conjura o acusado em nome do Deus vivo a dizer-lhe se ele é o Cristo, Filho de Deus (Mt 26, 63); e Jesus lhe responde: «Tu o disseste; mais ainda, declaro-te que um dia vereis o Filho do homem sentado à direita da onipotência de Deus, vindo aqui embaixo entre as nuvens do céu». Ao ouvir estas palavras, o príncipe dos sacerdotes rasgou as vestes, gritando: Blasfêmia, blasfêmia! Que necessidade temos de testemunhas? Nós mesmos não o ouvimos blasfemar com os nossos próprios ouvidos? — (Mt 26, 64-65). Eis este pontífice hipócrita fazendo-se ele próprio acusador; volta-se para os inimigos de Cristo, para aqueles que o haviam conduzido até ele para que fosse julgado, e os convida a formular uma sentença. Todos respondem a uma só voz: É réu de morte (Ib. 66). Aqui, como observa o Crisóstomo, «são as mesmas pessoas que acusam, que deliberam e que pronunciam a sentença» (In Pass.). E a sentença determina a condenação à morte, porque o acusado havia dito que era o Messias. E não havia ele dado provas disso quase todos os dias de sua vida? Ele diz a verdade, e eles o condenam como blasfemador. São eles que desafiam e insultam a Deus. Mas o Salvador havia tomado sobre si a sentença de morte pronunciada contra Adão.

Ouvida a sentença de morte, a soldadesca começou a cuspir-lhe no rosto, a esbofeteá-lo, a golpeá-lo com punhos, gritando: Adivinha, ó Cristo, quem te bateu? (Mt 26, 67-68). Céus, terra, e vós, ó criaturas todas que povoais o universo, horrorizai-vos ao ver como é tratado o rosto do Salvador; aquele rosto que, apenas se mostrando, acalmava as tempestades e que o sol venerou, ocultando os seus raios quando o viu curvar-se sob o peso da morte (CRYSOST. In Luc. XXII). Por que tais insultos contra um condenado? Por que tantos maus-tratos?

Jesus é acusado como um ímpio, esbofeteado como um insolente, coberto de escarros como o mais vil e abjeto dos homens, pisoteado a punhos e pontapés como um ladrão… Ó Deus! Eis o que é o homem quando obedece cegamente às paixões e ao demônio! … Jesus Cristo fala com a dignidade e o poder de um senhor e de um mestre; cala-se como um inocente; é condenado como um sacrílego. Seu rosto divino, que é a pureza e a beleza do paraíso, está manchado de escarros! E é golpeado com punhos aquele que com a mão mede o Oceano e com um dedo pesa os céus! É ultrajada com bofetadas aquela face que é o esplendor e a glória do Pai! Vendam-se os olhos daquele que tudo vê e tudo perscruta! Ó judeus, imersos na caligem do inferno, vós bateis, maltratais e desonrais a vós mesmos; vós vendais os próprios olhos; já não vereis a face de Deus; já não sereis seu povo… Quem mata a Deus já não tem Deus!

Adão e Eva haviam pecado com os olhos e com a boca; por

permitir que os olhos de Jesus fossem vendados e que lhe fossem desferidos golpes na boca, obtinha misericórdia pelo pecado de nossos progenitores… Mais ainda: em todos os membros com que o homem pecou e peca, Jesus Cristo padeceu para expiar, diz Santo Agostinho, toda espécie de culpa em que o homem possa cair (13). São João Crisóstomo observa ainda que, assim como Jesus era todo doçura, seus algozes foram para com ele todo ultraje e impiedade; descarregaram sobre ele toda a sua raiva em obras, palavras e desejos (In Passione).

Quis o Redentor sofrer toda sorte de afrontas, insultos e ignomínias: 1° para satisfazer por toda sorte de injúrias de que o homem pecador se torna culpado para com Deus; pois este, quanto está em si, cospe, esbofeteia e golpeia a Deus, desprezando-o e preferindo-lhe a criatura. Priva-o da honra que lhe é devida e, por assim dizer, da própria divindade, entregando-se a outros deuses: o avarento, ao ouro e à prata; o luxurioso, aos prazeres vis; o glutão, ao vinho e às iguarias, e assim por diante, com respeito a todas as outras paixões. 2° Para nos preservar da ignomínia que havíamos merecido. «Seus vitupérios apagaram os nossos», diz São Jerônimo (In cap. 26, Matth.). 3° Para honrar a Deus e satisfazer à sua justiça. Muito mais honra advém a Deus da Paixão de Jesus Cristo do que desonra lhe adveio da queda de Adão. «Onde abundou o pecado, superabundou a graça» (Rm 5, 20), escreve São Paulo; por isso a Igreja irrompe nestas palavras tão enfáticas: «Ó verdadeiramente necessário pecado de Adão! Ó feliz culpa, que nos valeu tão grande e tal Redentor!» (In benediction, Cerei pasch.). 4° Para demonstrar a sua extrema paciência e deixar-nos dela o exemplo… «Três coisas, segundo São Bernardo, devem ser especialmente consideradas na Paixão: a obra, o modo e a causa. Na obra manifesta-se a paciência; no modo, a humildade; na causa, a caridade (14).» 5° Para encorajar e inflamar todos os mártires e todos os cristãos, e levá-los a não temer nem obstáculos, nem ameaças, nem suplícios, mas a triunfar de tudo, a fim de nos assegurarmos a salvação eterna.

Como castigo pelos ultrajes feitos a Jesus Cristo, os judeus incorreram em toda sorte de humilhações temporais, além das eternas; ou, como diz Orígenes: «Deram bofetadas em Jesus, e receberam em troca uma cuja marca dura eternamente» (In Evang.). Aqueles que ousaram combater o incorruptível corromperam-se, diz São Bernardo; aqueles que insultaram o imortal morreram (Serm. de Cruce). Jesus Cristo foi embebido de afrontas e escárnios durante toda a noite de quinta-feira para sexta-feira.

8. PEDRO NEGA JESUS CRISTO

Naquela mesma noite, noite tão funesta e cruel, o divino Salvador vê ainda acrescentar-se aos demais sofrimentos o amarguíssimo da queda de Pedro, que nega por três vezes conhecer o seu mestre; e Jesus suporta tudo com sublime resignação… Onde, afinal, ó Pedro, renegas Jesus? pergunta Santo Ambrósio; na casa dos judeus, na assembleia dos ímpios (In XXII Luc.). Quanto são nocivos, exclama o venerável Beda, os entretenimentos e a companhia dos maus! Pedro, em meio aos celerados, nega reconhecer sequer como homem aquele Jesus que havia confessado como Deus, quando se encontrava entre os seus companheiros (In cap. XIV Marc.). Na verdade, reduzido às próprias forças, quão fraco é o homem! Sem o Espírito Santo, Pedro empalidece, treme e nega o seu Mestre à simples voz de uma criada; com o Espírito Santo, não cede nem a príncipes nem a imperadores, nem aos judeus nem aos gentios; desafia as cadeias, as prisões, os tormentos e a morte. Todas as ameaças e todos os suplícios são, para ele, na maior parte das vezes, um divertimento: diz francamente àqueles que lhe proíbem, sob pena de castigos severíssimos, pregar Jesus Cristo: Importa obedecer a Deus antes que aos homens (At 5,29).

Várias causas concorrem para a queda de Pedro.

1° — Ele confia demasiado em si mesmo. Quando Jesus lhe dizia: Eu te aviso que nesta mesma noite, antes que o galo cante, tu me negarás três vezes, Pedro respondera audaciosamente: Não, nunca; ainda que isso me custasse a vida (Mt 26, 34-35).

2° — Porque, conhecendo a sua fraqueza e a sua timidez, coloca-se imprudentemente em meio a uma turba de malfeitores…

3° — Porque, tíbio e negligente, seguia Jesus à distância (Id. 58).

4° — Porque já havia esquecido a sua promessa…

5° — Deus permite essa queda de Pedro para que, devendo ele ser o supremo Pastor da Igreja, aprendesse a compadecer-se e a perdoar…

6° — Deus a permite para dar aos pecadores um solene exemplo de arrependimento e penitência. Com efeito, saindo daquele lugar malfadado, Pedro prorrompeu em amargo pranto (Id. 75). São Clemente, discípulo e sucessor de São Pedro, assegura que este apóstolo sentiu tanta dor pelo seu pecado que, enquanto viveu, todas as noites, ao canto do galo, prostrava-se por terra e chorava tanto que tinha sempre os olhos vermelhos e úmidos de lágrimas. (Stor. eccles.). Ah! As lágrimas dos penitentes são o vinho dos anjos, exclama São Bernardo (Serm. XXX in Cantic.). Elas apagam o pecado e, como diz Santo Ambrósio, não pedem o perdão, mas o merecem (In Luc. XXII).

9. JESUS CRISTO DIANTE DE PILATOS

Feito dia, os príncipes dos sacerdotes e os anciãos do povo reuniram-se em conselho e decidiram que se devia matar o Cristo (Mt 27,1). Notai com São Jerônimo a pressa daqueles ímpios para o mal; mal amanhece, seus pés, segundo a expressão do Salmista, correm para derramar sangue (Sal 13,6, De Iudaeis). O ódio e o furor os pungem e impelem… Caifás reúne junto de si todo o Sinédrio, pelo qual faz decidir a condenação de Jesus Cristo, para que a Pilatos não restasse mais nenhum pretexto para livrá-lo da morte… Mas naquela manhã, ó judeus, exclama São Leão, Deus derrubou o vosso templo e o vosso altar; naquela manhã, tirou-vos a lei e os profetas, o reino e o sacerdócio; e mudou as vossas festas em luto perpétuo (Serm. III de Passione).

Depois de amarrá-lo novamente, conduziram-no e entregaram-no a Pôncio Pilatos, governador (Mt 27,2). Levaram-no a Pilatos para que este pronunciasse a sentença de morte. Pois, apesar de todo o desejo que os devorava de matá-lo, já não tinham esse poder, porque os romanos os haviam privado do supremo direito sobre a vida e a morte. Eles próprios o proclamam com a sua própria boca, pois, tendo Pilatos dito: Tomai-o e julgai-o segundo a vossa lei, responderam: Não nos é permitido matar ninguém (Jo 18,31).

Portanto, entregaram o Salvador a Pilatos, para que este o condenasse à morte; mas muitas razões os impeliam a agir assim:

1° Não queriam que pesasse sobre eles a infâmia da morte de Jesus Cristo, embora ela fosse inteiramente deles, pois o haviam entregado a Pilatos e acusado caluniosamente. Visavam também, com isso, fazer crer ao povo que Jesus realmente merecera a morte, pois Pilatos, que não era judeu e gozava de reputação de homem justo, o havia condenado.

2°. ― Queriam destruir a honra e a glória de Jesus Cristo e provar que ele não era o Cristo, mas um falso profeta; com efeito, para lhes agradar, Pilatos devia considerá-lo um perturbador da ordem pública e condená-lo como malfeitor e rebelde contra César…

3°. ― No dia em que se tratava da causa de Jesus, os sacerdotes deviam encontrar-se no templo e abster-se do sangue. Não esperaram para entregar Jesus depois da festa da Páscoa, pensando que tanto maior seria a afronta que seu suplício causaria a Jesus quanto maior era a multidão de gente que acorrera de todas as regiões da Judeia a Jerusalém para celebrar ali a Páscoa.

4°. ― Queriam finalmente fazer com que Pilatos, exercendo seu ofício de juiz, sem levar em conta a santidade do dia, fosse tido como um profanador… Ora, Deus infligiu aos judeus deicidas a pena de talião. Assim como eles haviam entregado Jesus Cristo a Pilatos, procônsul romano, para que o condenasse, assim também Deus os abandonou aos imperadores Tito e Vespasiano, para que os ferissem, destruíssem Jerusalém e aniquilassem a nação judaica.

Os inimigos do Salvador não entraram no Pretório, para não se contaminarem (Jo 18,28). Quem pode deixar de exclamar com Santo Agostinho: Ó hipocrisia! ó loucura, ó cegueira da impiedade! não entram no Pretório para não se macularem, e se enlameiam com uma sujeira eterna por seu crime! (De Passione).

Mas eis Jesus diante do governador romano (Mt 27,11). Este pergunta aos acusadores de que crime o acusam e, tendo eles respondido: «Se não fosse um malfeitor, não o teríamos entregado a ti» (Jo 18,29-30), replica: «Tomai-o, pois, vós mesmos e julgai-o segundo a vossa lei» (Ib. 31); e São Mateus observa que Pilatos não queria envolver-se nesse assunto, porque entrevia a iniquidade dos judeus e a inocência de Cristo, e sabia que por inveja lho haviam entregado (Mt 27,18).

Então os inimigos do Salvador, temendo que Pilatos o mandasse embora absolvido, já não o acusaram de blasfêmia, como antes, porque o julgamento desse delito não pertencia à jurisdição de Pilatos; além disso, os blasfemadores, pecando somente contra a lei judaica, não podiam ser condenados à cruz, suplício dos ladrões, dos sediciosos e dos assassinos, suplício, por conseguinte, extremamente ignominioso, mas eram condenados ao apedrejamento, suplício que não trazia consigo nota de infâmia. Ora, querendo que Jesus não somente fosse morto, mas também infamado, para levar a cabo seu desígnio criminoso, optaram por acusá-lo de três delitos que acarretavam a pena de cruz.

1° Disseram que o haviam apanhado no ato de incitar a plebe e de instigar o povo à revolta contra os romanos (Lc 23,2);

2° que proibia pagar o tributo a César (Ib.);

3° que se fazia passar pelo Cristo rei (Ib.).

Pilatos não deu importância a tais acusações, que sabia muito bem serem inteiramente destituídas de fundamento, e, dirigindo-se diretamente a Jesus, perguntou-lhe o que havia feito, para que o seu povo e os sacerdotes o tivessem conduzido até ele; ou se era ele o rei dos judeus (Jo 18,35, 33). Tendo Jesus respondido que o seu reino não era deste mundo, pois, do contrário, seus servos e seguidores teriam combatido para que não fosse entregue às mãos dos judeus, Pilatos replicou: «Então tu és realmente rei?» (Ib. 37); e Jesus novamente lhe respondeu: «Sim, é verdade, como dizes; eu sou rei. Para isso nasci e vim ao mundo, para dar testemunho da verdade» (Ib.). Nesse momento, Pilatos, depois de perguntar a Jesus o que era a verdade, com culpável indiferença saiu sem esperar a resposta, foi ter com os judeus e disse-lhes: Não encontro nele culpa alguma (Ib. 38).

Os príncipes dos sacerdotes persistiram em suas acusações, e Jesus não abriu a boca (Mt 27,12):

1º porque tudo o que lhe imputavam era falso…;

2º porque sabia que suas respostas não conduziriam a bem algum…;

3º calava-se para que Pilatos não o absolvesse, mas o condenasse…;

4º finalmente, calava-se para expiar, com seu silêncio, as mentiras, os perjúrios, as maledicências, as calúnias, as blasfêmias, enfim, todos os delitos cometidos pelos homens com as palavras.

Pilatos, vendo que Jesus se calava, retomou ele a palavra, quase para fazê-lo perceber quantas nefandades contra ele vomitavam os acusadores, e excitá-lo a defender-se (Mt 27,13). Mas, diante dessas instigações, o Salvador mostrou-se surdo e não disse sequer uma sílaba nem mesmo ao presidente romano, que disso se admirava sobremaneira (Ib. 14). Pilatos admirava a inocência, a doçura, a paciência, a resignação e a força daquele acusado. «Grande e admirável coisa foi certamente esta no Salvador, diz Santo Atanásio: que, calando-se, tivesse tanta força de persuasão sobre o ânimo do juiz, que este, por si mesmo, apesar das tramas urdidas contra ele, reconhecesse sua inocência e a declarasse» (Serm. de Passione et Cruce).

10. JESUS NA PRESENÇA DE HERODES

Desejando salvar Jesus Cristo, Pilatos deliberou enviá-lo a Herodes (Lc 23,7). Este, ao vê-lo diante de si, ficou contente, porque havia muito tempo desejava vê-lo, tendo ouvido dizer coisas admiráveis a seu respeito e esperando vê-lo realizar algum prodígio. Interrogou-o, portanto, sobre vários pontos, mas Jesus manteve absoluto silêncio (Ib. 8,9). Eis como Deus se comporta diante dos curiosos, dos soberbos e dos ímpios: ele se cala. A voz de sua graça, de suas inspirações e dos remorsos já não se faz ouvir por eles. — Isto, porém, não bastava para fazer calar também os escribas e os príncipes dos sacerdotes, os quais, ao contrário, persistiam ainda ali em acusá-lo (Ib. 10). Não conseguiram, contudo, seu intento de vê-lo condenado; pois Herodes e sua corte contentaram-se em escarnecê-lo e, depois de vesti-lo, por zombaria, com uma veste branca, reenviaram-no a Pilatos (Lc 23,11). Mas, se no pensamento de Herodes e de seus cortesãos a veste branca era sinal de loucura, na realidade, porém, em Jesus Cristo ela era o distintivo de sua inocência, pureza, imortalidade e glória, o estandarte de sua vitória.

11. JESUS PELA SEGUNDA VEZ DIANTE DE PILATOS

Quando Pilatos ouviu que lhe haviam reconduzido Jesus Cristo, reuniu os príncipes dos sacerdotes, os magistrados e o povo, e disse-lhes: Vós me apresentastes este homem, acusando-o de rebelião e de incitar o povo: ora, embora o tenha interrogado em vossa presença, não descobri nele sequer a sombra das culpas que lhe imputais. Eu o enviei ao tribunal de Herodes, e nem ele encontrou nele motivo para condenação à morte. Eu, portanto, o libertarei depois de tê-lo castigado (Lc 23,13-16). Enquanto ele assim falava, sua mulher mandou dizer-lhe que não se envolvesse com aquele justo, porque muitos sonhos a haviam perturbado por causa dele (Mt 27,19). «No nascimento do mundo, observa aqui Santo Agostinho, a mulher conduziu o homem à morte; na paixão de Cristo, a esposa incita o marido a salvar-se (Serm. CXXI de Temp.)». Em todos os séculos, vemos a mulher cristã ser a primeira a fazer o bem e a convidar os homens a praticá-lo, a dedicar-se às obras de caridade, de compaixão e de beneficência.

Pilatos reconhece, não menos que sua mulher, a inocência de Jesus Cristo; mas, demasiado fraco para resistir às ameaças dos audaciosos e aos clamores da praça, procura um meio de aplacar sua consciência, dar uma satisfação ao Sinédrio e, ao mesmo tempo, tirar-lhe a presa das mãos. Era costume que, por ocasião da solenidade pascal, o governador pusesse em liberdade um prisioneiro escolhido pelo povo. Ora, confiando no bom senso do povo, Pilatos tirou das prisões um famoso criminoso, culpado de sedição e homicídio, colocou-o diante de Jesus e perguntou à multidão qual dos dois queria que fosse libertado. Percebendo a manobra, os príncipes dos sacerdotes apressaram-se a gritar e a fazer a plebe gritar que queriam salvo Barrabás e morto Jesus. E assim fizeram por duas vezes, clamando: Viva Barrabás, morra Jesus. E quando o presidente romano acrescentou pela terceira vez: mas que devo fazer de Jesus, chamado Cristo? Que mal ele fez? A turba, embriagada de furor, já não sabia responder outra coisa senão gritar: Mandai-o à morte; seja crucificado (Mt 27,3; Lc 28,23-21).

Que preferência indigna! Que furor! Que delito! Pedir a libertação de Barrabás e a morte de cruz para Jesus!… Cegos e infelizes pecadores, não renovamos nós a mesma escolha quando pecamos mortalmente? Não preferimos nós Barrabás a Jesus Cristo?… Mas que digo? Nós fazemos coisa muito pior que os judeus; porque, embora fosse celeradíssimo, Barrabás era ainda assim um homem; aquele, porém, que nós, pelo pecado, preferimos a Jesus Cristo, aquele que escolhemos como senhor, é o demônio… Mas, desgraçados judeus! exclama o Venerável Beda (In cap. XV Marc.), a súplica que com tanto empenho obtiveram ficou-lhes apegada à carne, e eles a carregam consigo até o presente. Tendo preferido livremente a Jesus um ladrão, ao Salvador um homicida, àquele que dá a vida um que havia dado a morte, perderam justamente a vida e a salvação; foram de tal modo invadidos pelo espírito de desordem e de sedição, que perderam tanto o reino quanto a pátria: repudiaram a liberdade que lhes era oferecida por Jesus Cristo e venderam para sempre a liberdade corporal e espiritual.

Finalmente, Pilatos, vendo que nada conseguia junto àqueles corações de pedra e que o tumulto aumentava, tomou água e lavou as mãos em público, declarando que era inocente do sangue daquele justo e que deixava a responsabilidade por conta deles (Mt 27,24). Tu podes lavar as mãos, juiz vil e iníquo, mas não lavarás nem tua consciência, nem tua honra, nem tua memória. Tu te declaras inocente do sangue do Justo, e és tu quem pronuncia sua sentença de morte!… A turba, diante de tal proposta, começou a gritar: Caia o sangue dele sobre nós e sobre nossos filhos (Ib. 25); Pilatos então, tendo posto Barrabás em liberdade e mandado açoitar Jesus Cristo, entregou-o a eles para que o crucificassem (Ib. 26).

12. DESESPERAÇÃO DE JUDAS

Enquanto isso, o traidor Judas, vendo que Jesus fora condenado, sentiu remorso e, devolvendo as trinta moedas de prata aos príncipes dos sacerdotes e aos anciãos, disse-lhes: pequei, vendendo o sangue de um justo (Mt 27,3-4). Judas foi tocado pelo remorso e pelo arrependimento; mas não por um arrependimento verdadeiro e sincero, porque o verdadeiro arrependimento contém a esperança do perdão, ou melhor, o próprio perdão; mas o arrependimento de Judas era forçado e cheio de desespero, como é o arrependimento que surge na consciência dos condenados, que ardem nas chamas do inferno.

Judas restituiu e lançou no templo o preço que lhe haviam pago por sua traição. Embora o arrependimento de Judas fosse falso e de nenhum valor, contudo, diz Santo Ambrósio, aquele traidor sentiu certa vergonha ao reconhecer o seu delito; e, se ela não lhe serviu para obter o perdão, serviu para pôr em evidência a impudência dos judeus. Com efeito, o mesmo argumento que revelava e denunciava a traição de Judas provava ainda que os judeus haviam celebrado com ele um contrato odioso e criminoso (In Luc. XXII).

Mas os príncipes dos sacerdotes lhe responderam: A nós, que importa? É contigo. Judas então, lançando a prata no templo, saiu e foi enforcar-se (Mt 27,5).

Judas lança o dinheiro no templo à vista de todo o povo: assim, cada um pode ver que Jesus fora traído, vendido, entregue injustamente e que era inocente.

Se Judas tivesse pedido perdão e não tivesse desesperado, tê-lo-ia obtido… São Leão interpela-o assim: «Homem endurecido, espírito entregue ao mal, tu seguiste a ira do teu coração. Tinhas o demônio à tua direita e fizeste recair sobre a tua cabeça a iniquidade que havias cometido contra o Espírito Santo. Como o teu delito havia ultrapassado toda medida de ódio e de malevolência, a tua iniquidade te constituiu teu próprio juiz, e o teu arrependimento te fez teu próprio carrasco; tu mesmo te penduraste com as tuas próprias mãos» (Serm. III de Passione).

Muitos doutores pensam que Judas se enforcou numa árvore da mesma espécie daquela de que Adão havia comido o fruto. Seja como for, encontrou, diz o Venerável Beda, um castigo conveniente ao seu delito. A garganta de onde saíra a voz da traição foi estrangulada por uma corda; aquele que entregara à morte o Senhor dos homens e dos anjos morreu suspenso entre o céu e a terra, rejeitado por ambos; aquelas entranhas que haviam concebido a perfídia e a traição rebentaram e se espalharam pelo chão (In I Act.). «O ventre de Judas, escreve também São Bernardo, o ventre desse cúmplice dos poderes aéreos, rebentou no meio do ar, de modo que nem o céu recebeu, nem a terra suportou aquele que traíra Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, descido do céu à terra para operar a salvação do mundo (Serm. VIII in Psalm. XCI)». Nem o céu nem a terra querem receber Judas, que execram…

«Ouvi, ó avarentos, exclama o Crisóstomo; meditai sobre a sorte de Judas! Perdeu a sua prata, cometeu um delito do qual não pôde se justificar, arruinou a própria alma. Eis o que costuma produzir a atroz tirania da avareza. Judas não gozou nem do dinheiro, nem da vida que havia recebido; não gozará da vida futura; perdeu irreparavelmente tudo de uma só vez. Depois de dar má opinião de si mesmo àqueles a quem entregara o seu Deus e, em geral, a todos os homens, pôs fim, com uma corda, à sua triste e infame existência» (De avarit.). «O que Judas fez ao seu corpo, diz Santo Agostinho, aconteceu também à sua alma. Assim como aqueles que se estrangulam morrem porque impedem que o ar chegue aos seus pulmões, assim também aqueles que desesperam da misericórdia de Deus morrem sufocados pelo seu desespero, que impede que o sopro do Espírito Santo os visite (Homil. XXVII)».

Observai a astúcia e a malignidade do demônio: ele conduz Judas: 1° à avareza; 2° ao sacrilégio; 3° a vender o seu mestre; 4° a traí-lo com um beijo; 5° a entregar-se ele mesmo ao desespero; 6° a estrangular-se; 7° finalmente, ao inferno. Eis como, passo a passo, ele arrasta o homem a todos os delitos e o precipita no abismo de onde já não se sai. Ah! Desconfiemos de sua engenhosa perfídia!

Com a confissão do seu delito e com o seu desespero, Judas prestou um duplo e esplêndido testemunho da inocência de Jesus Cristo, testemunho que deveria ter detido os judeus no caminho do deicídio, se tivessem tido um pouco de consciência e de pudor; mas tudo neles estava morto, exceto o ódio e a vontade de cometer o delito, acrescentando à mais feroz má vontade a mais refinada hipocrisia. Com efeito, tendo tomado o dinheiro lançado por Judas no templo, os príncipes dos sacerdotes disseram: Isto é preço de sangue; não é lícito colocá-lo no tesouro (Mt 27,6). Que hipocrisia! Fingem delicadeza de alma, zelo da religião e princípios de justiça, a ponto de não se sentirem em consciência autorizados a depositar no tesouro das ofertas o preço do sangue de Jesus Cristo, porque, segundo eles, é dinheiro impuro; mas não haviam eles porventura retirado daquele mesmo tesouro piedoso a prata que agora lhes parecia uma impiedade devolver-lhe? Recusar-se a retomá-la era reconhecer implicitamente que, ao servirem-se de somas destinadas a boas obras para pagar o traidor que pusera Jesus Cristo em suas mãos, haviam cometido uma prevaricação.

Depois de deliberarem entre si, compraram com ele o campo de um oleiro, destinando-o à sepultura dos estrangeiros (Mt 27,7). Nova infâmia! Eles sabiam que Jesus nascera no meio deles e o consideravam como estrangeiro… Por isso, aquele campo recebeu o nome que ainda hoje conserva, Haceldama, isto é, campo de sangue. E então se viu cumprida a profecia de Jeremias: «Receberam trinta moedas de prata, preço daquele que foi vendido, segundo a avaliação dos filhos de Israel, e gastaram-nas na compra do campo de um oleiro» (Mt 27,8-10). O nome dado a esse lugar, observa São João Crisóstomo, clama mais alto que toda trombeta a horrível crueldade que os judeus mostraram ao mandar Jesus Cristo à morte. Se tivessem colocado aquela prata no tesouro das ofertas, de onde a haviam tirado, sua infâmia teria sido menos manifesta; mas, comprando com ela o campo de um oleiro e chamando-o Campo de Sangue, transmitiram a lembrança da ignomínia a todas as gerações até o fim dos séculos. Esse nome não se apagará jamais e recordará sempre a maldição que pesa sobre a cabeça deles, desde o dia em que a provocaram, clamando: Caia o seu sangue sobre nós e sobre os nossos filhos (De Avarit.).

Jesus Cristo dispôs que o campo, pago com os trinta dinheiros de Judas, fosse posto a serviço dos estrangeiros, porque ele morreu pela salvação de todos. Os judeus compraram aquele campo para os estrangeiros e trataram Jesus como estrangeiro; pois bem, Jesus Cristo se tornará tal para eles, não mais os reconhecerá; eles já não serão o seu povo: o sangue do Salvador será a ruína e a condenação deles no tempo e na eternidade…

13. CASTIGOS DOS JUDEUS DEICIDAS

Os judeus cegos clamam: «Caia o seu sangue sobre a nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos», e eis que já se passaram quase dois mil anos desde que o sangue de Jesus Cristo, derramado pela salvação do mundo, imprime na fronte dos judeus o opróbrio e a maldição. Jerusalém jaz destruída; a nação judaica está sem rei e sem capital; já não tem lei, nem templo, nem sacrifícios, nem pontífices, nem profetas, nem levitas; seus filhos erram dispersos pelo universo, objeto de escárnio e de abominação para todos os povos; levam sempre e por toda parte a marca de Caim; curvam a cabeça sob a reprovação de Deus e a maldição dos homens; assemelham-se a um corpo desconjuntado, feito em pedaços e disperso. Mostram a todas as famílias do gênero humano e a todos os séculos o seu deicídio, o castigo que dele foi consequência e a vingança que Deus tomou da morte de seu Filho.

Ó judeus, vós clamastes: Caia o seu sangue sobre nós e sobre os nossos filhos! Os vossos votos, inspirados por um furor infernal, estão se cumprindo… Durante o cerco de Jerusalém, os hebreus, impelidos pela fome, fugiam de uma cidade que se tornava o seu túmulo; para retê-los e obrigá-los a se submeter, Tito mandava mais de quinhentos deles por dia ao suplício da cruz, de modo que, diz o historiador Josefo, faltaram aos romanos tanto cruzes como espaço para erguê-las. Quem não reconhecerá nesse fato um justo castigo pela crucificação de Jesus Cristo?

Vós gritastes, ó judeus: «Caia o seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos!» Pois bem, em que te transformaste, ó povo, que outrora eras o povo de Deus, a nação santa? Tu, de quem haviam saído os patriarcas e os profetas; tu, que viste tantos milagres e possuías as tábuas da lei, a arca da aliança, o templo do verdadeiro Deus; tu, em cujo seio nasceram Maria, Jesus e os Apóstolos: onde te encontras no presente? Que foi feito de ti? Vê a enormidade de teu delito e a expiação que te foi imposta! … Escuta, ó desgraçado, o que predisse Davi, um dos teus reis: «Escureçam-se os seus olhos, para que não vejam; curva, Senhor, as suas costas sob uma servidão perpétua» (Sl 68,24). «Derrama sobre eles a tua cólera, e o furor da tua ira os alcance; fique deserta a sua morada, não haja quem habite sob o seu teto. Permite que acrescentem iniquidade a iniquidade, e jamais se tornem justos aos teus olhos. Sejam seus nomes apagados do livro da vida e não obtenham lugar entre os justos. Porque perseguiram aquele a quem tu feriste e aumentaram a dor de suas chagas» (Ib. 25-29).

Escuta, ó povo endurecido, o que diz Daniel, um dos teus maiores profetas: O Cristo será levado à morte, e o povo que o há de renegar já não será seu povo. Virá um povo tendo à frente um chefe, o qual destruirá a cidade e o templo e concluirá sua obra reduzindo tudo a ferro e fogo; depois da guerra sucederá a desolação que foi decretada. A oblação e o sacrifício cessarão; a abominação da desolação estará no templo e ali permanecerá até a consumação e o fim (Dn 9,26-27). Ouvi ainda Oseias, também ele entre os vossos profetas: Os filhos de Israel permanecerão longos dias sem rei e sem príncipes, sem sacrifício e sem altar, sem éfod e sem terafins (Os 3,4). Meu Deus os rejeitará, porque não o escutaram, e serão dispersos entre as nações (Os 3,17). Não é menos claro o que disse o Salvador; narra, com efeito, São Lucas que Jesus, aproximando-se de Jerusalém, apenas a viu rompeu em pranto e disse: «Ah! Se ao menos conhecesses, também tu, neste dia, o que te poderia trazer a paz! Mas agora estas coisas estão ocultas aos teus olhos. Virão dias sobre ti, nos quais os teus inimigos te cercarão de trincheiras e te apertarão por todos os lados, de modo a te fechar toda saída; lançarão por terra a ti e a teus filhos que estão dentro de tuas muralhas, e não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não conheceste o tempo em que foste visitada» (Lc 19,41, 44). Gritai agora, ó deicidas: «Caia o sangue dele sobre nossa cabeça e sobre a cabeça de nossos filhos!» …

Hugo de São Vítor faz assim falar o povo judeu: Nós vimos Jesus Cristo e não quisemos reconhecê-lo; vimo-lo, mas não o recebemos; ouvimo-lo, mas voltamos-lhe as costas. Ele não nos fez senão o bem e, enquanto orava por nós, nós o crucificamos. Ouvimos suas palavras e fomos cumulados de seus benefícios; assistimos, como testemunhas, aos grandes e numerosos prodígios por ele realizados publicamente; mas calcamos aos pés suas advertências, mostramos-nos ingratos para com seus benefícios e zombamos de seus milagres. Ouvimo-lo quando nos instruía no monte, mas passamos tapando os ouvidos; daí as desgraças que sofremos. Vimo-lo alimentar a multidão que o seguia, mas rimo-nos disso; daí nossa triste condição. Vimo-lo pregado na cruz, mas nós o blasfemamos e amaldiçoamos; daí nosso terror e nossa ruína. Ouvimos sua doutrina e sabemos que ela trazia a vida, mas escolhemos a morte. Suas instruções dissipavam nossas trevas, mas recusamos tomá-las por guia. Ele nos oferecia a saúde e a vida, e nós recusamos ambas. Sua morte ressuscitou os gentios; mas a nós, que éramos seu povo, esta morte, obra nossa, imprimiu o selo indelével da reprovação (De Anima).

Ah, sim, diz São Jerônimo, a imprecação produziu seu efeito: «Caia o seu sangue sobre nós e sobre nossos filhos», até o presente, e o terá até o fim. O sangue do Senhor correrá sempre sobre eles. Esse sangue, como diz o rei Profeta, faz pesar sobre eles uma vergonha eterna (In Daniel.).

14. A FLAGELAÇÃO

Prosseguindo a sangrenta história da Paixão do Salvador, encontramos este grande Deus amarrado a uma coluna para ser flagelado; como a flagelação era entre os romanos o castigo dos escravos, eis um novo suplício e uma nova humilhação infligidos a Jesus Cristo: era colocar no mesmo nível de um escravo, e de um escravo revoltoso, aquele que é o rei do céu e da terra! Os verdugos golpeiam seu corpo com cordas nodosas, com golpes redobrados e encarniçadamente. O sangue escorre por toda parte.

Isaías, que o havia contemplado naquele estado miserável, exclama: «Já não há nele beleza nem aparência de homem. Vimo-lo desprezado como a mais vil escória dos homens, cheio de dores e de enfermidades. Seu rosto estava quase desaparecido sob os sinais do desprezo, e já não o reconhecemos» (Is 53,2-3). E o rei Profeta diz tê-lo visto reduzido a tal extremo, que os carrascos puderam contar-lhe todos os ossos (Sl 21,17). Em meio a tantos tormentos, o Cordeiro imaculado não soltou um lamento…

15. ECCE HOMO

Quando Jesus, por causa das flagelações, foi reduzido a não ter mais parte alguma sã no corpo, Pilatos tentou um último esforço junto ao povo e lho apresentou, dizendo: ― ECCE HOMO. ― Eis o homem (Jo 19,5). Judeus cruéis, eis o estado a que reduzistes o Verbo feito carne: eis a vossa obra: ― Ecce homo. ― Blasfemadores, dissolutos, avarentos, pecadores de toda espécie, eis o fruto de vossa conduta: ― Ecce homo…

Frustrada também essa tentativa, Pilatos acabou condenando Jesus Cristo à morte e, com isso, cometeu três injustiças: 1° usurpava contra Jesus Cristo um poder, uma jurisdição que de modo algum lhe pertencia; 2° subvertia todas as regras da justiça, cedendo ao tumulto dos judeus, e condenava Jesus não por ser culpado, mas por ser odiado e perseguido por seus inimigos; 3° violava o direito e a lei, porque condenava um inocente, por temor de ser tido por inimigo de César.

16. JESUS À MERCÊ DOS SOLDADOS

Quando Jesus foi condenado, os soldados do governador conduziram-no ao Pretório, reuniram ao redor dele toda a coorte, despojaram-no de suas vestes, cobriram-no com uma clâmide, ou manto militar, de cor escarlate e, entrelaçando ramos de espinhos longos e duros, formaram uma coroa que lhe apertaram sobre a cabeça e puseram-lhe na mão uma cana. Depois, dobrando o joelho diante dele, zombavam, dizendo: «Salve, rei dos judeus». E alguns, tirando-lhe de tempos em tempos a cana da mão, batiam-lhe na cabeça (Mt 27,29-30). Toda a coorte se reuniu para fazer do Salvador um falso rei de teatro e objeto de escárnio…

Embora os soldados romanos tivessem coroado Jesus Cristo por zombaria, isso foi, contudo, uma confissão de sua soberania. Proclamaram-no rei, sem pensar que ele o era de fato; assim diz São Bernardo, que aproveita a ocasião para observar que seria indigno que tivesse membros delicados aquele corpo cuja cabeça está coroada de espinhos (18) … Pensemos que Jesus Cristo foi coroado de espinhos para nos merecer a coroa do céu e que aquela coroa era figura de nossos pecados.

Santo Agapito, mártir aos quinze anos de idade, entre os muitos tormentos a que o submeteu a ferocidade dos carrascos, viu também sua cabeça ser carregada de carvões ardentes. Então o santo jovem, lembrando-se da coroa de espinhos do Salvador, exclamou: «É pouca coisa que uma cabeça que há de ser coroada no céu seja coroada de fogo e queimada na terra. Oh! Que bela e rica coroa de glória cingirá a cabeça que mostrar as marcas dos sofrimentos padecidos por Jesus Cristo!» (SURIO, In Vita). Godofredo de Bulhão, eleito rei de Jerusalém, recusou cingir-se da coroa real, dizendo que não era conveniente que um rei cristão usasse coroa de ouro na cidade em que Jesus Cristo havia sido coroado de espinhos (Storia delle Crociate).

Dobrando o joelho diante dele, os soldados zombavam, dizendo: «Salve, rei dos judeus»: «Toda língua, diz São Paulo, confessa que o Senhor Jesus Cristo está na glória de Deus Pai» (Fl 2,11); «e ao nome de Jesus deve dobrar-se todo joelho no céu, na terra e nos infernos» (Id. 10): ― Ave Rex Iudaeorum. ― Jesus é verdadeiramente rei; reina no céu com sua glória, na terra com sua cruz e sua graça, no inferno com sua justiça. «Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos dominantes» (Ap 19,16).

Jesus sofreu os escárnios do pretório:

1° porque conhecêssemos a vaidade do mundo e de suas honras;

2° porque aprendêssemos que reina com ele aquele que despreza as honras e os prazeres e a si mesmo;

3° porque as humilhações deviam ser as armas de sua vitória contra Lúcifer…

***

É impossível, não digo compreender e descrever, mas sequer imaginar os ultrajes e tormentos com que os soldados romanos, excitados pelos demônios, maltrataram Jesus Cristo desde o momento em que Pilatos o entregou às suas mãos, até que o carregaram com a cruz. Nesse intervalo, todo o inferno foi desencadeado, e os homens que se tornaram seus instrumentos cumpriram ao pé da letra aquelas profecias do Livro da Sabedoria: «Esmaguemos o justo sob os nossos pés…, cerquemo-lo de ciladas, porque ele nos é inútil e contrário às nossas obras; repreende-nos as faltas contra a lei e lança-nos em rosto, para nossa vergonha e dano, os maus efeitos de nossas doutrinas. Vangloria-se de ter a ciência de Deus e chama-se Filho do Altíssimo. Revelou as nossas intenções. Custa-nos vê-lo, porque sua vida é diferente da dos outros, e seus costumes são o avesso dos nossos. Ele nos considera gente leviana e frívola e afasta-se de nós como de uma imundície; prefere a morte dos justos e vangloria-se de ter a Deus por pai. Vejamos se diz a verdade, provemos o que lhe acontecerá e saberemos qual será o seu fim; porque, se ele é verdadeiramente Filho de Deus, este o livrará das mãos de seus inimigos. Provemo-lo pelo escárnio e pelo suplício, para que conheçamos a sua doçura e ponhamos à prova a sua paciência. Condenemo-lo à morte mais infame» (Sb 2,10-12).

Observemos aqui as razões que os ímpios dão para seu ódio e suas perseguições contra Jesus Cristo:

1° Ele não lhes agrada; antes, contraria-os;

2° combate suas obras;

3° repreende-os pela violação da lei;

4° anuncia-se Filho de Deus e sustenta que ensina a ciência e a doutrina;

5° penetra seus perversos desígnios, revela-os e condena-os;

6° com sua modéstia e religiosidade torna-se odioso para eles;

7° a sua vida não é como a deles;

8° as suas obras, os seus modos de proceder são perfeitos;

9° considera-os pessoas vãs, levianas e dissipadas;

10° afasta-se deles como de homens corruptos;

11° prefere o fim do justo ao deles;

12° vangloria-se de ter a Deus por pai…

17. JESUS É CARREGADO COM A CRUZ

Finalmente, os algozes carregaram sobre os ombros de Jesus uma pesada cruz… Cada um pode facilmente imaginar em que estado de cansaço e fraqueza devia encontrar-se a humanidade do Redentor, depois das angústias de uma noite como aquela que ele passara no horto de Getsêmani e nos tribunais judaicos, depois dos mil ultrajes daquela manhã, tanto na casa de Herodes como no Pretório de Pilatos. Pois bem, depois de toda essa tempestade de insultos, bofetadas, pancadas e açoites, sem lhe conceder um momento de trégua, carregam-no com a cruz, obrigando-o a levá-la até o lugar do suplício.

Segundo a tradição, o tronco da cruz media cinco metros de comprimento, e os braços, três metros, com uma espessura proporcional; e Jesus, conforme o costume daquela época, pelo qual o condenado devia levar ele próprio o instrumento de seu suplício, foi obrigado a carregá-la sobre os seus dilacerados ombros. Exausto de forças, o divino Redentor não pôde suportar tão grande peso, e três vezes caiu por terra, no caminho de Jerusalém ao Calvário, sendo outras tantas vezes levantado a golpes de bastão e de açoite: caminhava descalço, deixando ao longo do caminho larga trilha de sangue… Vendo, porém, os algozes que a extrema fraqueza de Jesus certamente faria com que ele sucumbisse sob o peso, e temendo os cruéis que ele morresse pelo caminho antes de chegar ao cume do Calvário, não por sentirem piedade dele, obrigaram um habitante de Cirene, chamado Simão, que naquele momento passava pela estrada, a tomar a cruz do Salvador e ajudá-lo a levá-la até o monte.

Simão é chamado a levar a cruz, para que entendamos que ela não era devida a Jesus, mas ao homem culpado, e aprendamos a levá-la seguindo os passos do Salvador, segundo as palavras do próprio Jesus Cristo: «Quem não toma a sua cruz e não me segue, não é digno de mim» (Mt 10,38). Isto também nos quis ensinar o divino Salvador com aquelas outras palavras dirigidas a uma multidão de piedosas mulheres que, encontrando-o no caminho do Gólgota, romperam em pranto ao ver o seu miserável estado: «Não choreis sobre mim, mas sobre vós mesmas e sobre os vossos filhos, ó filhas de Jerusalém» (Lc 23,28). Ah! miseráveis pecadores que somos, choremos as nossas culpas, causa dos sofrimentos e da morte do Filho de Deus.

18. O CALVÁRIO

Finalmente, Jesus chega ao Calvário… Tertuliano, Orígenes, São Cipriano, Santo Atanásio, São Cirilo, Santo Ambrósio, Santo Agostinho, juntamente com vários outros Padres, dizem que Adão foi sepultado no Calvário e que esse nome foi dado ao monte da crucifixão porque ali se encontrava o crânio do primeiro homem; e é certamente fruto dessa tradição o uso geral de colocar ao pé da cruz um crânio de morto. O sangue de Jesus Cristo teria assim escorrido sobre os últimos restos do pai da raça humana. Ó tu que dormes há séculos em teu arrependimento, levanta-te, ó Adão, sai do meio dos mortos: o teu Deus morre para ressuscitar-te.

São Jerônimo e Santo Agostinho, seguidos pelo Venerável Beda, ensinam que o Calvário é o monte sobre o qual Deus ordenara a Abraão que lhe imolasse Isaac. Por isso, Jesus Cristo, o Cordeiro imaculado, teria sido sacrificado no mesmo lugar em que Abraão viu um cabrito com os chifres presos e o ofereceu como vítima a Deus, em lugar de seu filho. Figura admirável e surpreendente de Jesus Cristo coroado de espinhos e imolado no Calvário… Também Davi, que sobe o Calvário descalço e chorando, para escapar à ira dos seus inimigos, representa Cristo.

O Calvário era o lugar onde eram executados os mais famosos malfeitores; Jesus Cristo, expirando nesse lugar, expiava, com uma das mais profundas humilhações, as abomináveis iniquidades do mundo. No Gólgota, o Salvador tornou os sofrimentos honrosos e meritórios, fazendo deles meio de santificação e ocasião de mérito. Falando do Salvador que, carregado com a cruz, sobe o Calvário, exclama assim Santo Agostinho: «Espetáculo sublime! Se sobre ele lança os olhos a impiedade, vê uma imensa e cruel zombaria; se nele fixa o olhar a piedade, contempla um profundo e inefável mistério. Grande espetáculo! Olhado com os olhos do ímpio, mostra uma grande lição de ignomínia; contemplado com a pupila do piedoso, apresenta um insigne monumento da fé. Grande espetáculo! Se o olha a impiedade, ri-se do rei que empunha por cetro o madeiro de seu suplício; se o contempla a piedade, reconhece nele o seu rei, que leva o madeiro no qual há de ser suspenso, madeiro que mais tarde será o ornamento dos diademas reais, a cruz que os ímpios desprezam e os santos consideram glória» (Tract. in Ioann. CXVII).

19. CRUCIFIXÃO

Chegando ao alto do monte, os algozes despojaram Jesus Cristo de sua túnica e lançaram-na à sorte. É fácil imaginar que, ao arrancarem sem consideração a veste, reabriram-se-lhe todas as chagas, e o sangue voltou a jorrar daquele corpo dilacerado. Depois, estenderam-no sobre a cruz e prepararam-se para imolá-lo. Ó Deus onipotente, que detivestes o braço de Abraão, pronto para matar Isaac, deixareis vós que ponham à morte o vosso Unigênito, Deus igual a vós? Parai, Pai celeste, parai o braço dos carrascos! Mas não; infinitamente ultrajado pelos homens, que não podem expiar seus crimes, Deus quer como vítima um Deus que apague os delitos dos homens. O sangue de Isaac não teria lavado a terra; o próprio dilúvio não pôde purificá-la; somente o sangue de Jesus a tornará limpa e pura.

Cordeiro divino, deixai-vos, pois, erguer na cruz; morrei, Jesus, morrei para remir o universo culpado. Pois, desse modo, deveis aplacar a cólera do Pai, satisfazer à sua justiça, rasgar o decreto de morte promulgado contra o homem, abrir o céu, fechar o inferno, destruir a morte, vencer e acorrentar Satanás: morrei! Vede como os verdugos, monstros sem entranhas, estendem o Salvador sobre a cruz! Observai-os em ação, enquanto, com grossos pregos, perfuram e pregam ao madeiro suas mãos e seus pés! Considerai com que furor se afadigam, suam e ofegam para suspendê-lo entre o céu e a terra!

Jesus Cristo sofreu principalmente dez tormentos na cruz:

1° as mãos e os pés traspassados pelos pregos…;

2° todo o peso do corpo gravitando sobre os pés e as mãos pregados…;

3° ficou suspenso na cruz durante três horas…;

4° seus membros estavam tão desconjuntados que se podiam contar todos os ossos…;

5° viu-se colocado entre dois ladrões…;

6° estava despojado de toda a sua veste…;

7° foi consumido por uma sede ardente…;

8° não teve senão fel para aplacá-la…;

9° ouvia serem lançadas contra ele, de todos os lados, horrendas blasfêmias…;

10º Seus olhares caíam sobre sua santa Mãe, que sofria aos seus pés… «Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha» (Lm 1,12).

20. DOÇURA E PACIÊNCIA DE JESUS CRISTO

«Ele foi imolado porque quis, diz Isaías falando do Messias, e não abriu a boca; será levado à morte como uma ovelha, permanecerá mudo como um cordeiro diante daquele que o tosquia» (Is 53,7). Não se tira um pouco de lã deste Cordeiro divino, mas rasga-se-lhe o corpo, tira-se-lhe o sangue, arrebata-se-lhe a vida; ele não oferece resistência, não dá um balido, a tudo se conforma e suporta tudo com inteira e dulcíssima paciência, segundo o que predissera de si mesmo pela boca de Isaías: «Eu sou como um cordeiro manso que é levado ao matadouro» (Jr 11,19).

Às palavras citadas de Isaías aludia São João Batista quando dizia aos judeus, mostrando-lhes com o dedo o Salvador: «Eis o Cordeiro de Deus» (Jo 1,36); como se dissesse: Eis o Cordeiro predito por Isaías, figurado no cordeiro pascal e no cabrito preso pelos chifres entre os espinhos e imolado por Abraão… Assim como o cordeiro que é tosquiado perde a lã, mas conserva a vida, assim, diz São Jerônimo, Jesus Cristo deu o seu corpo e conservou a sua divindade (De Iudaeis).

Nos dias de Noé, Deus se mostrou como um leão e vingou-se dos pecados que cobriam a terra, sepultando o gênero humano sob as águas do dilúvio; mas Jesus veio expiá-los com a mansidão de um cordeiro; as águas do dilúvio mataram os homens, não os pecados; o sangue do Cordeiro mata os pecados e ressuscita os homens.

21. JESUS DECLARADO REI SOBRE A CRUZ

Pilatos mandou redigir uma inscrição, em hebraico, em grego e em latim, para ser colocada no alto da cruz, que dizia assim: «Este é Jesus, rei dos judeus» (Mt 27,37). Tendo-a lido, os príncipes dos sacerdotes fizeram suas reclamações a Pilatos e queriam que ele mudasse a fórmula, escrevendo: Este é Jesus, que disse: Eu sou o rei dos judeus; mas Pilatos não quis saber de correção alguma e respondeu, seco e categórico: O que escrevi, escrevi (Jo 19,20-22). Judeus deicidas, vós não quereis Jesus Cristo como vosso rei; ele será rei das nações.

Jesus Cristo é o rei e o príncipe das dores; ele triunfa verdadeiramente sobre todos pela sua paciência e pela sua caridade divina. Reinai, pois, ó Jesus, no palácio do Calvário, sobre o trono da cruz, sob a púrpura do vosso sangue, com o cetro dos vossos cravos e com o diadema de espinhos. Levais por título: ― Rei dos judeus ― isto é, dos homens mais injustos, dos inimigos mais cruéis. Tendes por cortesãos acusadores; por guardas de honra, ladrões; em vez de um exército pronto para vos defender, carrascos empenhados em vos atormentar. No Calvário estais em vosso império; em toda a pompa e magnificência da soberania, triunfais. Ó rei das dores, vossa mesa é servida de fel e vinagre; tendes por perfumes o fedor dos delitos; por fogos de alegria, trevas caliginosas; por sinfonia, blasfêmias e terremoto; por tapete, ossos de justiçados; por colar de ouro e braceletes, a chaga do coração. Queira Deus fazer-nos compreender o que devemos ser sob tal rei e em tal reino! … Mas não é sem motivo que Jesus é declarado rei sobre a cruz; em virtude da soberania da cruz, torna-se rei de todos os corações; triunfa sobre o pecado, a morte e o inferno.

22. BLASFÊMIAS CONTRA JESUS CRISTO

Os que estavam ao redor, vendo Jesus na cruz, amaldiçoavam-no e, balançando a cabeça, diziam em tom de escárnio: Ó tu, que destróis o templo de Deus e em três dias o reedificas, por que não salvas a ti mesmo? Se és verdadeiramente o Filho de Deus, desce da cruz. Também os príncipes dos sacerdotes, os escribas e os fariseus zombavam dele, dizendo: Salvou os outros e não pode fazer nada por si mesmo; se ele é o rei de Israel, desça agora da cruz, e nós estaremos prontos a acreditar nele. Ele confia em Deus; que Deus o livre agora, se verdadeiramente o ama, pois disse: Eu sou o Filho de Deus. Até mesmo um dos ladrões que estava crucificado ao lado dele o ultrajava e escarnecia (Mt 27,39-44).

Ó blasfemadores! Ele desceria, se quisesse, mas o mundo não seria salvo; não deixará o trono no qual o colocastes, senão quando tiver consumado a sua obra… E, como indício do desejo que o arde de consumá-la, eis que, pregado na cruz, diz que tem sede — Sitio; mas, figura da correspondência dos homens a esse desejo que ele tem da salvação deles, eis o fel e o vinagre que lhe foram oferecidos pelos soldados (Jo 19,29).

23. O BOM LADRÃO

Um dos malfeitores suspensos na cruz blasfemava contra Jesus, dizendo: Se tu és o Cristo, salva a ti mesmo e a nós. Mas o outro o repreendia: Como? Nem sequer tu temes a Deus, nem sequer tu, que te encontras na mesma sorte desgraçada? Quanto a nós, com toda justiça recebemos este tratamento, mas este homem não fez nada de mal (Lc 23,39-41). Em meio à multidão de ignorantes, cegos e blasfemadores que cobria o alto do Calvário, este ladrão sente-se de repente tomado de arrependimento por seus delitos; confessa a inocência e a divindade de Jesus Cristo, volta para ele os olhos, úmidos de pranto, e assim reza: Lembrai-vos de mim, ó Senhor, quando chegardes ao vosso reino. E Jesus lhe responde: Dou-te a minha palavra: hoje estarás comigo no paraíso (Id. 42-43).

Refleti, diz Santo Ambrósio, e vereis que a cruz é um tribunal. Suspenso em seus braços está o juiz; o ladrão que crê é salvo; aquele que o insulta é condenado. Já naquele momento Jesus mostrava o que fará no dia dos vivos e dos mortos, quando colocará uns à sua direita e outros à esquerda (Com. in Luc. XXIII). «Que dizeis, ó Jesus — exclama o Crisóstomo. — Vós estais pendurado na cruz com cravos e prometeis o paraíso! Sim, eu o prometo, para que possas conhecer a virtude da minha cruz» (Homil. de Cruce).

24. MARIA JUNTO À CRUZ

Enquanto Jesus Cristo derramava o seu sangue pela salvação do mundo, Maria estava junto à cruz (Jo 19,25); e ali se cumpria, em toda a sua cruel expressão, a profecia do ancião Simeão que, tomando no templo, dos braços de Maria, o Menino Jesus, predisse-lhe que «uma espada de dor lhe traspassaria a alma» (Lc 2,35). A Santíssima Virgem sofreu:

1º Dores acerbíssimas, espasmos horríveis padecidos por seu adorável Filho. O amor de Maria nos dá a medida de sua dor; assim como jamais houve mãe que tivesse amado tanto o filho, assim também nenhuma mãe jamais sofreu angústia semelhante à angústia de Maria. Nos mártires e nos santos, o amor proporcionava alívio aos seus sofrimentos, um bálsamo divino; quanto mais amam, menos sentem a dor dos suplícios que lhes fazem padecer. Em Maria acontece o contrário: quanto mais ama, mais sofre… Além disso, as penas de Maria aumentam as do seu adorável Filho… Ó céu! Que espetáculo para a mais terna das mães ver o seu unigênito, o seu dileto, o seu Deus coberto de sangue, coberto de chagas, com as carnes dilaceradas, os ossos deslocados, os membros feridos, os pés e as mãos perfurados, suspenso numa cruz, entristecido pelas blasfêmias, abandonado por Deus e pelos homens, prestes a expirar! Que espetáculo para Jesus contemplar, aos seus pés, banhada pelo seu sangue, a sua santíssima Mãe, que ele amava com amor divino e infinitamente acima de todos os anjos! …

2° Maria sofreu por compaixão; todas as dores de seu Filho se refletiam e repercutiam no íntimo de sua alma…

3° Sofreu na proporção da dignidade de seu Filho e da sua própria…

4° Sofreu em razão da duração e da crueldade dos tormentos do Filho…

5° Sofreu por solicitude; via Jesus sofrer sozinho, abandonado pelos apóstolos, por aqueles que ele havia curado, consolado ou beneficiado, pelos homens, pelos anjos, pelo próprio Pai; teria querido levar-lhe auxílio, mas não podia! …

6° Sofreu com as horrendas calúnias, as blasfêmias, as imprecações, as maldições com que se insultava seu Filho…

7° Sofreu por tê-lo continuamente sob os olhos e por ser testemunha de cada uma de suas dores… Não é de admirar que os Santos Padres e os Doutores ensinem que a Bem-aventurada Virgem, Mãe de Deus, foi mártir e mais que mártir, porque a espada da dor, que nos mártires dilacerou somente o corpo, em Jesus e em Maria dilacerou a alma. ― Assim como Jesus sofreu infinitamente mais do que todos os mártires juntos, assim também Maria, que conheceu todas as dores do Crucificado, experimentou todos os tormentos aos quais o Salvador foi submetido… Indizíveis foram suas penas, assim como indizível é o seu amor; ela fez da morte de Jesus a sua própria morte.

«Ah! não se tente, diz São Bernardo, nem a pena escrever, nem a mente imaginar as dores que dilaceraram as piedosas entranhas de Maria (19)». Ela pagou então, com superabundância, o tributo dos sofrimentos que a natureza lhe havia poupado no dia de seu parto. E como poderia qualquer criatura do mundo formar uma ideia justa dos sofrimentos de Maria, se é verdadeira a sentença de São Bernardino de Sena, de que «tão grande foi a dor da Virgem que, dividida entre os homens, bastaria para lhes dar a morte instantaneamente (20)»? Imersa num oceano de penas, segundo a expressão do Crisóstomo (De Cruce), podia a Santíssima Virgem apropriar-se destas palavras de Jeremias: «Ó vós todos que passais pelo caminho, olhai e vede se há dor semelhante à minha» (I, 12).

Em meio a tão cruel prova e bárbaro martírio, a Bem-aventurada Virgem não profere uma queixa; divide com as penas também a doçura, a paciência e a inteira resignação à vontade de Deus, que se admiram em seu Filho crucificado.

Quanto cresceu a dor de Maria quando Jesus lhe deixou, em seu lugar, São João por filho! (Jo 19,26). Ó meu Filho, que troca! poderia ela dizer: por acaso um filho dos homens pode compensar-me pela perda que sofro?

25. SEDE

Do alto da cruz, Jesus disse: «Tenho sede» Sitio (Jo 19,28). As longas e cruéis dores do Redentor haviam acendido nele uma sede tal que podia dizer com o Salmista: «Minha língua se apega ao meu paladar» (Sl 21,15). Mas, com esta palavra — Sitio —, queria referir-se a outra sede, muito mais pungente do que aquela que atormenta o corpo; aludia à sede da salvação dos homens, ao desejo de ser amado pelos homens… E o seu amor por nós era o desejo do nosso amor por ele que o devorava, como precisamente observamos em São Paulo nestas palavras aos Romanos: «Deus demonstrou-nos o amor que nos tem, porque, no mesmo tempo em que éramos pecadores, Cristo morreu por nós» (Rm 5,8-9); e nestas outras aos Gálatas: «Para testemunhar a Deus o meu amor e a minha gratidão, preguei-me à cruz de Cristo; de tal modo que já não sou eu quem vive, mas vive em mim aquele Cristo que me amou e se entregou por mim» (Gl 2,19-20). Depois une estas duas coisas ao escrever aos Efésios: «Caminhai no amor, imitando Jesus Cristo, que nos amou e se sacrificou a si mesmo como oblação a Deus e como vítima de suave perfume» (Ef 5,2).

Sitio; Jesus Cristo amou-nos terna e eficazmente, não com palavras, mas com fatos; pois, por amor de nós, deu voluntária e libérrima­mente não os seus tesouros, não os irmãos e amigos, não os seus anjos, mas a si mesmo por inteiro. Por nós, pecadores e seus inimigos, para expiação de nossas culpas, entregou-se não numa oferta verbal e pouco custosa, mas numa oblação sanguinosa e vivificante… «Ele verdadeiramente tomou sobre si, como se exprime Isaías, as nossas enfermidades e carregou as nossas dores» (53,4). O profeta diz nossas enfermidades e nossas dores, porque a mancha do pecado era obra nossa e a pena devia, por consequência, recair sobre nós.

Graves castigos nos estavam reservados; a obrigação de sofrer pesava sobre nós; havíamos merecido as dores do tempo e da eternidade. Na sede ardente de seu amor por nós, Jesus tomou sobre si todas as nossas dívidas. «Ele carregou, diz São Pedro, os nossos pecados em seu corpo, sobre o madeiro, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça: é ele que, por suas chagas, nos curou» (1Pd 2,24). E São Paulo assegura aos Colossenses «que Jesus, apagando o escrito que havíamos assinado e que era contra nós, tomou-o e pregou-o na cruz» (Cl 2,14).

26. AS SETE PALAVRAS DE JESUS CRISTO SOBRE A CRUZ

Jesus, na cruz, pronunciou sete palavras, cheias de sabedoria, bondade, amor, misericórdia e poder.

a primeira: «Meu Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem» (Lc 23,34). Diz São Bernardo: «Jesus foi flagelado, trespassado por pregos, coroado de espinhos, dessedentado com opróbrios, suspenso no patíbulo; perdoando tantos ultrajes e tantas dores, diz ao Pai: Perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem. Ó quão rico sois em misericórdia, ó Senhor! Como abunda a vossa doçura! Como são superiores aos nossos os vossos pensamentos! Até onde se estende a vossa clemência para com os pecadores e os ímpios! Que maravilha! Este Deus de amor exclama: Meu Pai, perdoai-lhes; e os judeus: Crucifica-o. De que torrente de delícias não embriagais aqueles que vos desejam, se derramais com tanta profusão o óleo da misericórdia sobre aqueles que vos crucificam!» (Serm. de Passione). Quem se sentir tentado ao ódio e à vingança deve recordar esta oração e o amor que o Salvador demonstrou por seus inimigos.

A segunda palavra foi dirigida ao bom ladrão, que implorava o perdão de Jesus Cristo: «Hoje estarás comigo no paraíso» (Lc 23,45). Ele falou, e foi para prometer a glória. Com efeito, não morria ele para abrir o céu aos pecadores?

A terceira palavra foi dirigida à sua mãe, quando, indicando-lhe João, lhe disse: «Mulher, eis aí o teu filho»; e ao discípulo: «Eis aí a tua mãe» (Jo 19,26-27). Novo testemunho de amor: o Salvador dava sua mãe como mãe a todos os homens, na pessoa de São João.

A quarta palavra foi um apelo de Jesus Cristo ao Pai: «Deus, meu Deus, por que me abandonaste?» (Mt 27,46). Tomado no sentido da cruz e da morte, este lamento de modo algum significa que Jesus estivesse abandonado, mas que seu Pai queria que ele morresse. Com maior razão ainda, exclui todo movimento de desespero em Jesus Cristo, como pretende o infame blasfemador Calvino…

A quinta palavra foi: ― Tenho sede ― «Tenho sede» (Jo 19,28).

A sexta declara que tudo está terminado, encerrado, consumado: ― Consummatum est (Id. 30).

A sétima foi a palavra suprema do moribundo: «Pai, em vossas mãos entrego a minha alma» (Lc 23,46). «E, inclinando a cabeça, entregou o espírito» (Jo 19,50). Tudo está consumado; nosso Deus morreu, imolado por nossos pecados.

Da parte dos judeus, a morte de Jesus Cristo na cruz teve por causa o ódio implacável e cego que os levou a escolher a crucifixão como o mais infame e cruel dos suplícios. Da parte de Adão e do gênero humano, a causa deste gênero de morte foi que, tendo Adão pecado por meio da árvore, comendo do fruto proibido, convinha que Jesus Cristo expiasse com o lenho aquela desobediência e, pelo lenho, reparasse as suas consequências. Este pensamento é expresso pela própria Igreja no Prefácio da festa da Santa Cruz. «É verdadeiramente justo e razoável que vos demos graças, ó Pai eterno, porque estabelecestes no lenho da cruz a salvação do gênero humano, a fim de que aquilo que dera a morte ao homem se tornasse para ele fonte de nova vida, e o demônio que vencera por meio do lenho da árvore fosse vencido pelo lenho da cruz por Jesus Cristo (24)». Da parte de Deus ofendido, a causa da morte de Jesus na Cruz foi o amor da justiça; por tal suplício, a gravidade da culpa de Adão e de sua posteridade tornava-se visível aos olhos de todos; imensa era a expiação, porque imensa fora a culpa. Da parte de Jesus Cristo, finalmente, a causa de tal morte deve ser buscada na imensidade de seu amor pelos homens e no desejo de ensinar aos seus discípulos a sofrer toda espécie de maus-tratos… «A vida do homem, se modelada segundo o Evangelho, é toda cruz e martírio incessante», diz Santo Agostinho (25)… Grande, enorme, imenso mal é certamente o pecado, pois custou tanto a um Deus!…

27. POR QUE JESUS SE SUJEITOU A TAL MORTE

Por que Jesus Cristo morreu e por que escolheu um gênero de morte tão cruel e ignominioso? «Nossos pecados eram execráveis, responde Santo Atanásio; eis por que Jesus Cristo, para expiá-los, sofreu o mais infame dos suplícios (21)». São Paulo diz que Jesus Cristo se fez maldição por nós, porque está escrito: maldito é aquele que pende suspenso do lenho!, a fim de que a bênção de Abraão chegasse aos gentios em Jesus Cristo e nós recebêssemos pela fé o Espírito que nos havia sido prometido (Gl 3,12-14). Segundo Santo Anselmo, o Salvador escolheu um gênero de morte tão penoso e infame para destruir toda espécie de morte (22). Santo Agostinho diz que assim o dispôs para que os Apóstolos aprendessem não somente a não temer a morte em si mesma, mas também a não se horrorizar diante de nenhum gênero de morte: Não temais os ultrajes, nem a cruz, nem a morte; pois, se estas coisas fossem nocivas aos homens, não as teria sofrido o homem que foi assumido pelo Filho de Deus (23).

28. A PAIXÃO DE JESUS CRISTO É A NOSSA SALVAÇÃO

«Podeis beber o cálice que estou para beber?» (Mt 20,22), disse o Redentor aos filhos de Zebedeu, para dizer a todos nós que não se chega ao céu senão por meio da paixão e da cruz… Ele dá depois à sua paixão o nome de cálice, ou bebida, porque a desejou e procurou. Em outro lugar, chama-a batismo, porque nele mergulhou por meio da morte e porque seus sofrimentos nos lavaram, purificaram e santificaram…

São Bernardo observa que Jesus Cristo, como médico compassivo e bom, provou primeiro a bebida que preparava para seus seguidores; isto é, sofreu a paixão e a morte e, desse modo, entrou na posse da imortalidade e da impassibilidade, ensinando aos seus a beber com confiança a bebida que dá a saúde e a vida (26).

«Todos nós erramos como ovelhas desgarradas, diz Isaías; cada um de nós seguiu o caminho de suas paixões, e o Senhor fez cair sobre ele (Jesus Cristo) as iniquidades de todos nós» (Is 53,6). Nossos pecados cercaram o Salvador, assaltaram-no e precipitaram-se sobre ele; mas, ao morrer, ele lhes deu um golpe fatal. Pensemos que os vossos e os meus delitos faziam parte da horda que se lançou sobre o Homem-Deus e o crucificou…

O Senhor tomou sobre si as nossas iniquidades; quis que, pesando somente sobre ele, o apontassem ao juiz supremo como o único culpado, o único merecedor de castigo. A cruz mais pesada que Jesus Cristo, a própria inocência e o inimigo mais irreconciliável do pecado, teve de carregar foi o peso das nossas culpas. Esta cruz o afligiu infinitamente mais do que ser arrastado diante do Sinédrio, de Pilatos, de Herodes e da plebe judaica; esta cruz lhe causou dores e tormentos muito mais vivos e acerbos do que a flagelação, a coroação de espinhos e a crucifixão. Mas ele deixou esses pecados pregados ao instrumento de seu suplício…

«Vós fostes chamados a fazer o bem e a sofrer com paciência, escreve São Paulo, porque Jesus Cristo sofreu por nós, deixando-nos o exemplo, para que sigamos os seus passos… Ele levou os nossos pecados sobre o madeiro, em seu corpo, para que, mortos para o pecado, vivamos para a justiça» (1Pd 2,21-24).

29. A PAIXÃO DE JESUS CRISTO É OBRA NOSSA

«Ele foi ferido por causa das nossas iniquidades, foi esmagado por causa dos nossos delitos, escreve Isaías; o castigo que nos devia obter a paz caiu sobre ele, e nós fomos curados pelas suas feridas» (Is 53,5). O teu culto da gula, ó glutão, deu de beber a Jesus fel e vinagre; o teu orgulho, ó ambicioso, crucificou-o entre dois ladrões; a tua vaidade, ó mundano, coroou-o de espinhos; os teus prazeres, ó impudico, flagelaram-no, traspassaram-lhe as mãos e os pés e penduraram-no no patíbulo; a tua insensibilidade, ó homem sem coração, traspassou-lhe o lado; as tuas maldições e blasfêmias, ó ímpio, cobriram de escarros e bofetadas aquela face divina que os anjos contemplam com reverência e adoram com amor; a tua insaciabilidade, ó avarento, obrigou-o a não ter onde reclinar a cabeça. Queres tu, ó pecador, ver uma imagem viva da tua alma culpada? Olha para Jesus carregado de opróbrios, açoitado com varas, insultado, escarnecido, ferido, coroado de espinhos, crucificado. Considera aquele corpo ensanguentado e lívido, que apresenta uma única chaga da cabeça aos pés: contempla o teu Salvador desfigurado e semelhante a um leproso; e eis a tua alma, cuja semelhança Jesus Cristo tomou em si mesmo, semelhança expressa em suas chagas e em seu triste estado. Ecce homo, eis o Homem-Deus tal como o fizeram as tuas culpas. Ecce homo, eis a tua alma, ó homem, tal como a tornaram essas mesmas culpas. Roga ao Salvador misericordioso, açoitado e ferido em teu lugar, que cure as feridas da tua alma com as suas.

Mede, ó homem, e admira o abismo do amor de Jesus Cristo, que quis satisfazer por ti à justiça do Pai, que sofreu por ti tantos e tão atrozes tormentos; que por ti e pelos teus delitos se fez vítima e holocausto. Quantas são as feridas e cicatrizes daquele corpo sagrado, tantas provas tens do amor infinito do Salvador. Ó pecador, a ternura dele por ti está escrita em todos os membros de seu corpo; mas que digo, escrita? esculpida e gravada com caracteres indeléveis, em traços de fogo. Ó amor, amor, quanto nos amastes! Com que dor, ou melhor, com que amor nos gerastes para a vida! A medida da dor está no amor, mas a medida do amor não está na dor; e, embora a vossa dor, ó Jesus, tenha sido imensa, o vosso amor ainda a venceu; o vosso afeto por nós absorveu a vossa dor, como o Oceano engole as águas dos rios. Jesus amável, ah! fazei que eu vos ame, que diga com Santo Inácio: o meu amor é o Crucificado; e com São Francisco de Assis: «Ó meu Senhor, morro de amor por vós, que vos dignastes morrer de amor por mim» (S. BONAV. In Vita). Fazei que jamais nos separemos de vós; que morramos inteiramente para o mundo e para a carne, que vivamos para vós; que habitemos em vossas chagas; que aqui na terra, por vossa graça, e no céu, para vossa glória, nadem­os no oceano do vosso amor. Inspirai-nos os sentimentos de vossa virgem Santa Itala, que, inebriada e ardente de amor, contemplava-vos sobre a cruz e exclamava: Ó Deus, ó amor, quão mal sois conhecido, quão pouco amado! Almas criadas para isso, amai o vosso amor, que tanto vos amou sobre a cruz! (In Vita).

«Na criação, observa São Bernardo, Deus falou e tudo foi feito; mas, na redenção, suas palavras encontraram contraditores; seus tormentos e sua morte, escarnecedores e blasfemos» (De diligendo Deo). «Jesus Cristo, diz ainda São Bernardo, sofreu em seus amigos, que o abandonaram; em sua fama, pelas calúnias lançadas contra ele; na honra e na glória, pelas zombarias e insultos que lhe fizeram; nos bens, porque foi despojado até mesmo das vestes; na alma, pela tristeza, pelo tédio e pelo temor; no corpo, pelas chicotadas e feridas. Sofreu na cabeça, pela coroa de espinhos; nas mãos e nos pés, pelos cravos que os traspassaram; na face, pelos escarros e bofetadas; em todos os membros, pela flagelação que os ensanguentou. Padeceu em todos os seus sentidos: no tato, porque foi açoitado e traspassado pelos cravos; no paladar, porque lhe deram de beber fel e vinagre; no olfato, porque foi crucificado onde os cadáveres empestavam o ar; na audição, porque foi atormentado pelas palavras daqueles que o blasfemavam e escarneciam; na visão, porque teve diante dos olhos sua mãe aflita» (De Pecc.). Eis a vossa obra, ó pecadores! Eis o fruto das vossas culpas!

«Aprende, ó homem, diz Santo Agostinho, quanto vales e quanto deves; e, vendo a alta dignidade à qual a redenção te eleva, envergonha-te das tuas culpas. Vê que a misericórdia é açoitada em lugar do ímpio; a sabedoria é escarnecida em lugar do insensato; a verdade é imolada em lugar do mentiroso; a justiça é condenada em lugar do iníquo; a misericórdia é torturada em lugar do cruel; a pureza recebe vinagre em lugar do miserável; a doçura é amargurada com fel em lugar do maligno; a inocência é punida em lugar do réu; a vida morre em lugar do morto. A natureza inteira se espanta com a perversidade dos homens, e a terra que treme e o sol que se esconde atestam que o senhor do mundo e rei do céu é aquele que a criatura rebelde não reconhece (27)».

Isaías chama Jesus Cristo de escárnio do mundo, o último dos homens, o homem das dores, que conheceu a fraqueza, cuja face estava como que obscurecida, de modo que não o reconhecemos (Is 53,3).

Despectum: ele é desprezado não somente no tempo de sua paixão, mas durante toda a sua vida. Nasce numa estrebaria, porque não há lugar para ele na hospedaria; o mundo o rejeita desde cedo. A circuncisão lhe traz uma nova e profunda humilhação; ela o coloca no nível dos pecadores. É tido como filho de José e como um rapaz comum. Trabalha e sua como um artesão vulgar. Nicodemos vai visitá-lo de noite, por medo de ser alvo dos sarcasmos dos doutores da Lei. Nenhum dos chefes da nação judaica e dos fariseus acreditava nele; antes, censuravam a multidão que o seguia e declaravam malditos os seus discípulos. Quando o cego de nascença, curado por ele, ousou expressar a opinião de que Jesus era um profeta, expulsaram-no da Sinagoga. Muitos personagens estimáveis que acreditaram nele não ousaram professá-lo publicamente por causa dos fariseus, para não serem expulsos da Sinagoga. Os príncipes dos sacerdotes zombavam dele e o excomungavam, armavam-lhe ciladas e fechavam-lhe na face as portas das sinagogas. Eis o fruto dos nossos pecados!

Novissimum virorum: por que Jesus quis tornar-se o último dos homens? Porque Lúcifer e Adão haviam ambicionado tornar-se deuses e elevar-se acima do Onipotente. Não pretendia Lúcifer destronar o Eterno e ocupar o seu trono? Ora, Jesus quis abater o seu orgulho. Se, portanto, a soberba tentar dominar-vos, olhai para Jesus, que se faz o último dos homens e a abjeção da plebe. Se alguém vos despreza, alegrai-vos, porque tendes a insigne honra de vos assemelhar a Jesus Cristo: «Ó último e primeiro! exclama São Bernardo, ó humilde e sublime, ó opróbrio dos homens e glória dos Anjos, ninguém vos iguala em grandeza, ninguém vos iguala em humildade (28)».

Virum dolorum: o homem das dores, isto é, aquele que foi como que cercado de dores e que experimentou todas em si mesmo. Com efeito: 1° Jesus Cristo conheceu todas as dores da alma: «A minha alma, disse ele no jardim das Oliveiras, está numa tristeza mortal» (Mt 26,38); e esse abatimento interior manifestou-se exteriormente num copioso pranto e suor de sangue. De onde provinham os sofrimentos que Jesus padeceu na alma? Os Padres e Doutores da Igreja dizem que: 1) Jesus Cristo tinha presentes ao espírito todos os pecados dos homens que existiram, que existem e que existirão; todos os crimes horríveis cometidos ao longo dos séculos: sacrilégios, blasfêmias, adultérios, estupros, homicídios e assim por diante; ele estava aflito por todos e por cada um deles, como se ele mesmo os tivesse cometido; havia-os tomado sobre si para expiá-los e satisfazer à justiça do Pai com essa suprema dor e arrependimento. 2) Desde o primeiro instante de sua concepção até o seu último suspiro, Jesus viu e contemplou incessantemente os trabalhos e as penas que devia suportar em sua vida, especialmente na hora da morte; representava-os sempre a si mesmo com tal vivacidade e força de imaginação que isso equivalia à realidade, de modo que toda a sua vida foi uma paixão e uma morte contínuas. 3) Não houve um instante em que não tivesse diante dos olhos os tormentos dos mártires, os insultos e as injustiças cometidos contra os seus servos, os jejuns, as mortificações e as penitências dos santos, os combates heroicos das virgens, e por tudo isso sofria em si mesmo. 4) Ele sabia quão grande seria a multidão daqueles que não dariam importância alguma aos seus sofrimentos, daqueles para os quais eles seriam inúteis e que se condenariam apesar de sua morte; embora uma só gota de seu sangue bastasse para resgatar todos os pecadores e até para tirá-los do inferno, se essa gota pudesse penetrar nele. 5) O amor infinito de Jesus Cristo pelos homens tornava infinitas as suas dores e os seus tormentos.

2° Jesus Cristo conheceu todas as dores do corpo. ― Cada membro seu e cada um de seus sentidos tinha o seu próprio tormento, dos mais acerbos e vivos. Em Jesus Cristo, o tato e todos os outros sentidos eram mais que delicados e perfeitos; por isso, ele sentia também mais vivamente que qualquer outra pessoa todo gênero de sofrimentos. A visão, a audição, o olfato, o paladar e o tato experimentaram, cada um, o seu suplício particular, e cada um os experimentou todos ao mesmo tempo… Jesus Cristo sofreu sem consolação… Sofreu por parte de toda espécie, estado e condição de homens; judeus e gentios, povos e príncipes, sacerdotes e leigos, todos tiveram parte em atormentar o Salvador. Anás, Caifás, Pilatos, Herodes e os próprios Apóstolos derramaram no cálice de sua paixão a sua gota de fel. O homem, em geral, não sente senão as próprias dores; Jesus Cristo sentiu as de todo o gênero humano.

Et quasi absconditus vultus eius: seu rosto estava como que obscurecido. Com efeito, 1° o esplendor e o divino poder de Jesus Cristo estavam ocultos sob o véu de seu corpo, diz São Jerônimo (In Isai.). 2° Seu rosto estava tão sujo de sangue, tão desfigurado, que era impossível reconhecer-lhe os traços… Aqui se pode aplicar aquela visão do Apocalipse, que mostrou a São João, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito e munido de sete selos (Ap 5,1). Nesses sete selos, os Doutores veem sete mistérios da Paixão de Jesus Cristo. O primeiro é a suprema impotência do Onipotente; o segundo, a suprema pena do Impassível; o terceiro, a imensa loucura que a sabedoria divina pareceu mostrar aos olhos dos homens; o quarto, a extrema pobreza que o Deus das riquezas sofreu; o quinto, a incomparável ignomínia à qual se submeteu a suprema Majestade; o sexto, o absoluto abandono em que pareceu que Deus Pai deixou aquele que lhe está unido pelo mais íntimo vínculo; o sétimo, a extrema severidade do Pai unida ao infinito amor que tem pelo Filho.

«Ele será saciado de opróbrios», diz Jeremias (Lm 3,30). Meditai estas palavras, ó cristãos, quando vos couber sofrer zombarias, insultos e calúnias. Jesus Cristo sacrificou-se inteiramente por vós à justiça de Deus; por vós entregou-se ao poder dos inimigos e dos algozes. Entregai-vos também vós inteiramente ao Salvador; oferecei-vos inteiramente a ele, lançai-vos sem reserva em seus braços, para que ele faça de vós e de tudo o que vos pertence aquilo que lhe aprouver. Abandonai-lhe o vosso corpo, para que seja presa das doenças, dos sofrimentos, dos suplícios e da morte; abandonai-lhe a vossa alma, para que o sirva, o ame e o bendiga; assim fizeram os Apóstolos, assim os Mártires, assim todos os Santos.

30. JESUS CRISTO TRIUNFOU POR MEIO DE SUA PAIXÃO E MORTE

Maravilhosas e divinas são as vitórias alcançadas por Jesus Cristo com sua paixão e morte! O Homem-Deus morre, e eis que o véu do templo se rasga em duas partes, de alto a baixo (Mt 27,51). O véu que escondia o Santo dos santos foi milagrosamente rasgado para indicar que cessava o reino da antiga lei, que Deus se retirara do templo de Jerusalém, o qual, por isso, nada mais era que um lugar qualquer. No sentido místico, o véu rasgado e o Santo dos santos posto a descoberto significam que a carne de Jesus Cristo, dilacerada em sua paixão, nos abriu o céu… A grande e verdadeira vítima tomou o lugar das antigas, que não eram senão sua figura; chegada a realidade, desapareceram as sombras.

A túnica de Jesus Cristo não foi dividida, para indicar que o Evangelho permanecia inteiro… O restante de suas vestes foi dividido em quatro partes, para mostrar, diz Santo Atanásio, que Jesus salvava igualmente o Oriente, o Ocidente, o Setentrião e o Meio-Dia (Serm. de Cruce).

Era por volta da hora sexta quando o sol se escureceu e as trevas envolveram a terra até a hora nona (Lc 23,44-45). É coisa comprovada que aquele obscurecimento do sol não foi efeito de eclipse, sendo isso impossível na época da morte de Jesus Cristo. A terra foi coberta de densas trevas; mas, para os discípulos do Salvador, aquela noite e aquelas trevas transformaram-se em luz… O sol entristecido negou sua luz aos deicidas; anunciou ao universo inteiro a morte de seu Criador… A escuridão daquelas horas foi tão densa, tão extraordinária, que é tradição que Dionísio, o Areopagita, exclamou naquele momento: «Ou o Deus da natureza sofre, ou a máquina do mundo se desmorona» (Epl. ad Apol.). Um tremendo e universal terremoto abalou a terra, de modo que os rochedos se fenderam. Os sepulcros se abriram, e muitos corpos de Santos que ali repousavam se levantaram, foram à cidade santa e foram vistos por muitos. Então o Centurião e os que estavam com ele guardando Jesus, vendo aqueles fenômenos tremendos, tomados de grande espanto, disseram: «Verdadeiramente este era o Filho de Deus» (Mt 27,51-54).

Adão e Eva perderam-se levantando as mãos para a árvore proibida; Jesus apaga o pecado deles estendendo os braços sobre a árvore da cruz. «Nós havíamos caído aos pés da árvore da vida, diz o Nazianzeno, e fomos levantados por meio da árvore da ignomínia (29)». «De uma árvore nos veio a morte, diz Santo Ambrósio; da cruz nos veio a vida» (Comment. in Luc. cap. IV). Por isso, São Leão exclama: Vossa Cruz, ó Jesus, é a fonte de todas as bênçãos, é a causa de todas as graças; por meio dela, os fiéis, de fracos, tornam-se fortes, tiram a glória do opróbrio de Jesus Cristo e a sua vida da morte dele.

A pregação da cruz, como diz São Paulo, é loucura para aqueles que se perdem, mas, para aqueles que se salvam, é o poder de Deus. Por isso, ele se gloriava de pregar Jesus crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gentios, mas, para os eleitos, tanto gregos como judeus, poder e sabedoria de Deus (1Cor 1,18,24). Jesus está suspenso entre o céu e a terra, para reconciliar a terra com o céu… Apagando, diz o mesmo Apóstolo, a sentença de condenação que fora fulminada contra nós, abolindo-a, pregando-a na cruz e despojando os principados e as potestades (do inferno), ele os levou cativos, fazendo deles em si mesmo um glorioso triunfo (Cl 2,14).

Santo Ambrósio observa que Jesus Cristo estendeu as mãos na cruz para atrair tudo a si (30), como ele mesmo predissera com estas palavras: «E eu, quando for elevado da terra, atrairei tudo a mim» (Jo 12,32). «Por isso, a Igreja canta no Hino da Paixão que Deus reinou, isto é, estabeleceu seu império por meio do madeiro da cruz.» — Santo Ambrósio proferiu esta bela sentença: «Não pelo ferro, mas pelo madeiro, Cristo subjugou o mundo» (De Cruce). São Basílio observa, depois, que Satanás foi crucificado por aquele que ele esperava crucificar; foi ferido de morte por aquele que ele julgara matar (31).

«O homem foi criado no sexto dia, diz Teofilacto, e na hora sexta comeu do fruto proibido. Ora, na mesma hora em que Deus criou o homem, na hora em que o homem caiu, Deus o curou e o levantou. No sexto dia e à hora sexta do dia, Jesus foi suspenso na cruz. No sexto dia, uma sexta-feira, dia consagrado pelo paganismo ao culto de Vênus, Jesus morre para destruir a adoração da carne: morre perto do fim da sexta idade do mundo» (Comment. in Evang.). Podemos também dizer, com Lactâncio, que Jesus Cristo estendeu na cruz os braços que mediram a terra, para nos fazer entender que, do Oriente ao Ocidente, um grande povo, de toda nação e de toda língua, viria reunir-se e abrigar-se sob sua poderosa proteção, e receberia na fronte o sinal da cruz, como o maior e mais sublime dos sinais (Instit. Divin. 1. 4, C. XXVI).

Combat iam contra Jesus Cristo, em sua paixão, a justiça de Deus irritada, o mundo, o pecado, a morte e o inferno; mas ele, com seus sofrimentos e sua morte, triunfou sobre o Pai, sobre o mundo, sobre o pecado e sobre o inferno, como Moisés havia triunfado sobre o Faraó e o exército egípcio na miraculosa passagem do Mar Vermelho. O sangue de Jesus, figurado no Mar Vermelho, salva um povo de eleitos e dispersa uma horda de inimigos: «Deus, cantava Moisés, lançou no mar os carros do Faraó e o seu exército. Os abismos os engoliram; afundaram como pedra no fundo dos abismos e foram submersos como chumbo no meio do mar» (Ex 15,4-10). Todos nós devemos dizer com São Basílio: «A morte de Jesus foi o fim da minha morte» (Homil. de Humilit.); e com São Jerônimo: «O sangue de Jesus é a chave do paraíso» (In Evang.).

A paixão de Jesus é a nossa vida: eis por que Jeremias pronunciou aquelas palavras: «Cristo Senhor foi envolvido em nossos pecados; nós lhe dissemos: Viveremos à tua sombra»; isto é, viveremos à sombra de tua cruz e de tua paixão (Lm 4,20). Sim, a morte de Jesus é vida, diz Santo Ambrósio; suas chagas são vida, seu sangue é vida, sua sepultura é vida; finalmente, sua ressurreição é a vida de todos. E quereis saber como sua morte é a nossa vida? O Apóstolo o explica quando escreve que fomos batizados em sua morte, para caminharmos com ele em uma vida nova. O próprio Jesus Cristo o indicou quando disse: «Se o grão de trigo que cai na terra não morrer, permanecerá só; mas, se morrer, produzirá abundante fruto» (Jo 12,24-25). Assim, a morte de Jesus é fruto de vida… Jesus estava suspenso no madeiro, continua o mesmo Padre, e abalava a terra; estava aniquilado e enchia todas as coisas; suas chagas estavam abertas, e delas brotava a cura do universo (32).

A paixão de Jesus Cristo sustenta o céu, governa o mundo, abre o limbo; por ela, os Anjos são confirmados na graça, os homens resgatados, os demônios aterrorizados e reduzidos à impotência; o que existe é consolidado, o que respira é vivificado e reconfortado, os corpos são glorificados, as almas iluminadas e divinizadas (RABAN. MAUR. De Laude Cruc.). A cruz de Jesus faz desaparecer da porta do paraíso o anjo com a espada flamejante e de dois gumes, que guardava sua entrada para que ninguém pudesse entrar depois da expulsão de Adão.

Deus permite que seja levado à morte aquele Jesus em quem o tesouro da divindade está encerrado na natureza humana, como num frágil vaso de argila, para que, quebrado e despedaçado esse vaso, o esplendor da divindade brilhe em todo o seu fulgor e ponha em fuga os demônios, como nos dias de Gedeão, quando os seus soldados quebraram os vasos de barro, e as lâmpadas neles encerradas causaram espanto e desordem nas fileiras dos madianitas, ocasionando-lhes a derrota e o extermínio. Em sua paixão, Jesus manteve-se firme e invencível; também nós devemos mostrar-nos assim por ele e por nossa fé, e, em meio aos sofrimentos, às angústias, às perseguições de toda espécie, e até diante da morte, manter-nos firmes como rochedos, suportando corajosamente a provação com o auxílio de Deus, apoiados em nossa esperança nele e no amor que lhe temos. Desse modo, as cruzes nos parecerão mais leves e suportáveis e chegaremos, com a coragem e a constância, a torná-las também doces e queridas.

A princípio, o povo admirou os milagres, a doutrina e a vida de Jesus Cristo; mas, pouco depois, vendo-o sem glória, isto é, vendido, traído, preso, condenado, flagelado, escarnecido, coberto de escarros e de sangue, desfigurado e crucificado, desprezou-o e, com aquela boca com que pouco antes havia clamado: «Hosana ao Filho de Davi; bendito aquele que vem em nome do Senhor» (Mt 21,9), gritará: «Tirai-o daqui; crucificai-o» (Jo 19,15). Oh! como são volúveis todos os homens! Façamos, pois, como Jesus: desapeguemo-nos do mundo.

Suspendido na cruz, Jesus apresentava-se disforme e como um prodígio de sofrimentos; tornou-se alvo das zombarias e dos ultrajes de todo canalha; mas, por essa mesma cruz, tornou-se o mais belo dos filhos dos homens. Os cristãos, os príncipes e os reis consideram-se felizes por contemplar-lhe o rosto lívido e ensanguentado, e nenhuma pessoa lhes parece mais bela ou mais atraente. A cruz é o ornamento comum e o mais gracioso que adorna um peito, um diadema, um monumento… Em Jesus Cristo crucificado vemos cumprida aquela profecia de Isaías: «Este aspergirá as nações com o seu sangue e as purificará; diante dele os reis se calarão e o contemplarão estupefatos» (Is 52,15).

«Quem acreditou nas coisas que anunciamos? diz o mesmo Profeta; a quem foi revelado o braço do Senhor?» (Is 53,1). Quem jamais acreditou que aquele crucificado de quem falo seria o Filho de Deus, o Messias prometido? Quem acreditou que o mundo inteiro o adoraria como seu Criador e Salvador? O braço de Deus é, segundo Tertuliano, São Cirilo e Santo Agostinho, o Cristo, Filho de Deus, que procede do Pai como o braço procede do corpo e lhe é consubstancial; o braço de Deus é o poder que Deus manifestou em Jesus Cristo, é a força que lhe comunicou para suportar os sofrimentos e a morte. As dores e os opróbrios a que o Salvador se submeteu, a morte que sofreu, parecem aos cegos mundanos sinais de extrema impotência e fraqueza; mas Deus lhes fará ver que ali está o seu braço e a força com que submeterá o universo à cruz. Não é este o prodígio de que somos testemunhas no presente? O Crucificado conquistou o mundo com o instrumento de seu suplício: fez-se adorar pelos povos, pelos reis, pelo mundo inteiro. A essas maravilhas visava São Paulo quando chamava Jesus e a cruz de poder e sabedoria de Deus (1Cor 1,23-24).

São João indica como fontes de todos os pecados e de todos os males que inundam a terra as três concupiscências do homem, isto é, a concupiscência dos olhos (avareza), a concupiscência da carne (luxúria), a concupiscência da vida (soberba); coisas essas que não procedem do Pai (1Jo 2,16). Ora, Jesus Cristo destruiu o efeito dessas três fontes envenenadas com três infalíveis antídotos; com efeito, 1° para curar a soberba da vida, humilhou-se, expôs-se ao desprezo e fez-se o último de todos…; 2° para curar a concupiscência dos olhos, reduziu-se à extrema pobreza, a um despojamento absoluto…; 3° para curar a concupiscência da carne, tornou-se o homem das dores… Na prática desses três remédios encontra-se a perfeição da sabedoria e da virtude, a vitória sobre o mundo e sobre as paixões, a santidade e o amor de Deus levados ao mais alto grau.

A memória da paixão de Jesus Cristo alivia toda tribulação, como a madeira lançada por Moisés nas águas de Mara as transformou de amargas em doces (Ex 15). Pequena e leve se torna toda adversidade e contrariedade para quem medita no que o Salvador sofreu em sua paixão: então aquilo que sabia a fel torna-se mel. Com esse pensamento, de fato, a fé se esclarece, a esperança se fortalece, a caridade se inflama, a paciência é estimulada, nasce a humildade, reina a pureza, etc…. São Gregório havia experimentado bem isso e deixou escrito: «Não há coisa tão pesada que não seja suportada pacientemente quando se pensa na paixão de Jesus Cristo. Onde está, com efeito, aquele a quem não pareçam brincadeira os seus sofrimentos, se pensa nas palavras tão acerbas, nos golpes ainda mais acerbos e nos suplícios crudelíssimos que sofreu aquele que levou na cabeça uma coroa de espinhos, sobre os olhos uma venda, nos ouvidos zombarias, na boca fel e vinagre, no rosto escarros e bofetadas, sobre os ombros a cruz, no coração a angústia, nas entranhas o tormento, nas mãos e nos pés as perfurações: aquele que, numa palavra, foi, da planta dos pés ao alto da cabeça, todo uma chaga, uma dor, uma ferida sanguinolenta? (33)».

E este doce Salvador, este Cordeiro inocente, suportou tudo com paciência, prudência, humildade, força, constância… A paixão é uma farmácia na qual se encontram remédios para todos os males; é um arsenal provido de toda arma necessária para vencer qualquer inimigo.

São João Evangelista narra esta sua visão: «Um dos anciãos me disse: Não chores; eis que o leão da tribo de Judá venceu… E vi um cordeiro que estava em pé e parecia imolado» (Ap 5,5-6). Notemos a admirável vitória alcançada por este dulcíssimo Cordeiro e a força do leão por ele manifestada. Ele domou o mundo, imenso rebanho de lobos famintos e furiosos, e triunfou sobre ele não com o ferro, mas com a cruz; não golpeando, mas padecendo; não ameaçando, mas morrendo. Este Cordeiro é o leão da tribo de Judá: 1° Porque venceu o pecado, a carne, o mundo, o demônio e o inferno. 2° Porque, de um lado, é doce como um cordeiro com os seus servos nesta vida, e assim será com os eleitos no dia do juízo; enquanto, de outro, mostrar-se-á terrível como um leão aos réprobos, os quais, tremendo de espanto, dirão aos montes e aos rochedos: «Caí sobre nós e livrai-nos da vista daquele que está sentado no trono e da ira do Cordeiro» (Ap 6,16). 3° Porque este Cordeiro transforma leões e lobos em cordeiros. Por isso, Santo Agostinho, falando da conversão de São Paulo, diz: «Jesus Cristo, cordeiro morto pelos lobos, fez de Paulo, que era um lobo, um cordeiro (34)».

«O Cordeiro veio, diz o mesmo Santo (35), e que Cordeiro? aquele que põe os lobos em pânico. Que Cordeiro? aquele que, morto, matou o leão. Com efeito, o demônio foi chamado leão, que anda ao nosso redor rugindo, à procura de quem devorar. Ora, este leão foi vencido pelo sangue do Cordeiro. Eis o espetáculo dos cristãos: o nosso Rei triunfou sobre o demônio com a sua doçura. Este agia com ferocidade, aquele padecia; mas aquele que se enfurecia foi vencido, e aquele que sofria foi vencedor. Com semelhante mansidão, a Igreja vence os seus inimigos. Jesus Cristo venceu com a doçura; e com a doçura triunfaram os mártires e todos os cristãos. O Cordeiro divino ama os mansos, os puros, os virgens, os mártires, os penitentes. Eis que, disse ele aos seus mais caros amigos, eis que vos envio como cordeiros entre lobos» (Lc 10,3).

Javé, diz o profeta Zacarias, sairá e combaterá contra as nações. E os seus pés pousarão naquele dia sobre o monte que está diante de Jerusalém; e o monte será dividido em duas partes, do oriente ao ocidente… Naquele dia, águas vivas jorrarão de Jerusalém, Javé se tornará rei de toda a terra, haverá um só Deus e não haverá outro senão o seu nome (Zc 14,3, 4, 8).

«Ele repartirá os despojos dos fortes», diz Isaías, aludindo ao Messias (Is 53,12). Os despojos dos fortes são os dos reis, dos demônios, etc…. Ele os tirará deles com a graça, com os ensinamentos de seus apóstolos, etc…. Tirará os homens do pecado e os revestirá de graça, de virtude e de glória eterna. Neste mesmo capítulo LIII, o Profeta descreve tão minuciosamente as circunstâncias da paixão que se pode chamá-lo mais evangelista que profeta; e o referido capítulo poderia intitular-se: Paixão de Jesus Cristo segundo Isaías. Ele delineia com traços tão marcantes o estado em que se encontrará Jesus Cristo, os golpes que receberá, as chagas que sulcarão o seu corpo, as dores e os opróbrios de que será dessedentado, a sua paciência, o seu sacrifício voluntário, a sua morte, o seu lugar entre os malfeitores, a sua sepultura, as consequências da sua paixão, que os judeus nada podem responder nem objetar (Veja-se na íntegra o capítulo citado).

31. SEPULTAMENTO DE JESUS CRISTO

Um decurião, chamado José, de Arimateia, homem reto e bom, foi procurar Pilatos e pediu-lhe o corpo de Jesus. Tendo-o recebido, tirou-o da cruz, envolveu-o num lençol e colocou-o num sepulcro escavado na rocha, onde ainda não havia sido colocado corpo algum (Lc 23,50-53). Assim como nem antes nem depois de Jesus ninguém foi concebido no seio de uma virgem, também nem antes nem depois dele ninguém foi colocado em seu sepulcro… O profeta Isaías predisse que esse sepulcro seria glorioso entre as nações (Is 11,10). O túmulo do Salvador foi cercado de glória, porque: 1° A permanência que nele fez foi precedida por um terremoto e pela ressurreição de várias personagens santas. 2° A imperatriz Santa Helena encerrou esse sepulcro num magnífico templo. 3° Em todos os séculos, e mesmo depois que os turcos conquistaram a Terra Santa, multidões de devotos peregrinos foram de todos os pontos do globo visitá-lo e rezar nele. 4° Ali aconteceram e ainda acontecem grandes e numerosos milagres; os pecadores se convertem, os demônios fogem, os doentes são curados. 5° Ali se celebra todos os anos, no Sábado Santo, uma soleníssima festa. 6° Finalmente, o sepulcro de Jesus Cristo tornou-se celebérrimo e gloriosíssimo pelo milagre da ressurreição do Salvador.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.