O Pai-Nosso, ou Pai nosso, é a mais perfeita, a mais sublime, a mais santa e a mais útil das orações, primeiramente porque é uma oração composta por um Deus; depois, porque contém tudo o que Deus nos pede e tudo o que devemos pedir a Deus para as nossas necessidades.
Fazemos isso em sete pedidos, dos quais os três primeiros, isto é, ― Santificado seja o vosso nome ― Venha o vosso reino ― Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu ― referem-se à honra, ao serviço, ao amor e à adoração devidos a Deus. Os quatro últimos: ― Dai-nos hoje o nosso pão de cada dia ― Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores ― Não nos deixeis cair em tentação ― Mas livrai-nos do mal ― referem-se à nossa utilidade e compreendem todas as nossas necessidades…
A palavra Pai dirige-se particularmente à primeira pessoa da Santíssima Trindade, que é o Pai; contudo, entende-se que também se dirige ao Filho e ao Espírito Santo, como componentes, em uma indivisível Unidade, da Augustíssima Trindade, o Deus uno e trino, que sob muitos aspectos é nosso Pai; 1° porque nos criou…; 2° nos resgatou…; 3° nos regenerou nas águas do santo batismo…; 4° nos adotou como filhos…; 5° porque a sua providência vela sobre nós…; 6° porque nos chamou à herança celeste, constituindo-nos coerdeiros com Jesus Cristo.
«Que coisa não dará aos seus filhos, exclama Santo Agostinho, Aquele que lhes concedeu serem seus filhos?» (Serm. III). Que dignidade, que glória, que felicidade é a nossa, a de podermos chamar a Deus nosso pai! E queira o céu que ele o seja de fato! «Que honra é para nós, exclama São Cipriano, chamar a Deus nosso pai e, assim como Jesus Cristo é Filho de Deus, sermos também chamados filhos de Deus, aos quais está prometida a eternidade! Nunca esqueçamos que chamar a Deus nosso pai nos impõe o dever de nos conduzirmos como filhos de Deus; para que, se somos felizes por ter um Deus como pai, ele se alegre de nos ter como filhos. Comportemo-nos como templos vivos de Deus, para que todos vejam que Deus habita em nós (De Orat. domin.)».
Pater noster. Pai nosso… pai de todos os homens que, por conseguinte, são irmãos… Daí decorre para nós o dever de rezar pelos outros, de nos amarmos como irmãos, de nos socorrermos mutuamente… Santo Ambrósio diz: «Cada um reza por todos, e todos rezam por cada um; daí resulta a grande vantagem de que cada oração de cada fiel é amparada pela participação de todo o povo (De Caino C. IX)». São Cipriano diz: «Jesus quer que cada um reze por todos, assim como ele nos trouxe a todos em si mesmo (De Oratione)»… Rezando por todos, participamos das orações de todos…
«Vós me chamareis pai», disse o Senhor pela boca de Jeremias (3, 19). Deus quer ser chamado pai, comenta São Tomás (1-1, q. 5, a. 7), 1° porque é o criador do universo, segundo aquelas palavras de Jesus Cristo: «Eu vos dou graças, ó meu Pai, Senhor do céu e da terra» (Mt 11, 25); 2° porque nos adotou, segundo aquelas palavras de São Paulo aos Romanos: «Vós recebestes o espírito de adoção dos filhos de Deus, espírito no qual clamamos: Abbá, Pai» (Rm 8, 15); 3° porque se fez nosso mestre e pedagogo, como diz Isaías: «O pai dará a conhecer a verdade a seus filhos» (33, 19); 4° porque nos corrige, dizendo o Sábio: «O Senhor castiga aqueles que ama e deposita neles o seu afeto, como um pai no filho» (Pr 3, 12).
Pai nosso que estais nos céus: Pater noster qui es in coelis. Estas palavras indicam: 1° a onipotência de Deus; 2° que Deus, nosso pai, habita no mais alto dos céus e que o céu é nossa pátria, nossa herança; 3° a necessidade de elevar a nossa alma acima das coisas terrenas; 4° que não devemos desejar nem pedir outra coisa senão aquilo que conduz ao céu; 5° que devemos considerar-nos estrangeiros sobre a terra e desprezar o mundo com os seus bens, prazeres, honras e atrativos; 6° que devemos evitar o inferno e, por conseguinte, o pecado que a ele conduz, e resistir ao demônio, que desejaria tornar-se nosso pai para matar-nos por toda a eternidade…
Sanctificetur nomen tuum. Santificado seja o vosso Nome. Com estas palavras pedimos: 1° a conservação das graças recebidas no santo batismo…; 2° a nossa santificação cotidiana; 3° que todos os homens cheguem à santidade…; 4° que Deus seja adorado, servido e amado por todas as criaturas; 5° que todos os atributos de Deus sejam celebrados e que a sua glória seja exaltada em todo o mundo.
Santificado seja o vosso nome: com isso queremos dizer: que a vossa majestade, ó Senhor, a vossa grandeza, o poder, a bondade, a misericórdia, a justiça, a vossa providência etc. sejam conhecidas, proclamadas, benditas e louvadas em todo tempo e lugar, e para sempre… Que todo homem vos louve, vos ame, vos tema e vos agradeça…
Adveniat regnum tuum. Venha o vosso reino. No primeiro pedido manifestamos o nosso desejo de ver Deus conhecido, amado, servido e adorado por todas as criaturas, e de chegarmos nós mesmos à santidade; neste segundo exprimimos o desejo de ver restabelecido o reino de Deus em seu quádruplo sentido.
1° Há o reino de Deus sobre todas as criaturas. Dele diz o Salmista: «O vosso reino, ó Senhor, é um reino que abrange todos os séculos; e o vosso império se estende de geração em geração» (Sl 144, 13).
2° O reino místico, isto é, o reino de Deus sobre as almas, pela graça e pela fé. Ele nos subtrai à tirania do pecado, do mundo, do demônio e da carne, e faz nascer em nós toda espécie de virtudes…
3° O reino de Deus no céu. Por isso, quando dizemos: Venha o vosso reino, pedimos que se abra para nós o reino de Deus, remunerador dos Santos…
4° O reino de Deus tal como haverá no dia do juízo universal, e que será o prelúdio do reino eterno…
Fiat voluntas tua sicut in coelo et in terra. Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. Podemos considerar em Deus duas vontades: a vontade absoluta e a vontade de desejo. Com aquela, Deus quer definitivamente uma coisa, por exemplo, a criação, e a tal vontade nada pode resistir. Com esta, Deus nos ensina aquilo que quer que observemos. Ora, é a esta última vontade que se refere a petição do Pai-Nosso: Seja feita a vossa vontade. Com estas palavras, desejamos para nós mesmos todos os bens; pois os eleitos, que cumprem perfeitamente a vontade de Deus, são plenamente felizes e repletos dos tesouros da divindade, como indicam estas palavras de Jesus Cristo, em São Mateus (12, 50): «Todo aquele que faz a vontade de meu Pai, que está nos céus, esse é meu irmão, minha irmã e minha mãe».
Seja feita a vossa vontade. Mas qual é a vontade do Pai? A vontade de Deus, responde São Paulo, é que vos santifiqueis (1Ts 4, 3). E o próprio Salvador, depois de dizer que não tinha vindo à terra para cumprir a sua vontade, mas a vontade do Pai, acrescentou que a vontade do Pai, que o havia enviado, é que não se perca nenhum daqueles que ele lhe deu, mas que os ressuscite no último dia. A vontade do Pai é esta: que todo aquele que vê o Filho e crê nele tenha a vida eterna (Jo 6, 40).
A vontade de Deus, que Jesus Cristo cumpriu e ensinou, é, diz São Cipriano (De Oratio dom.), a humildade no trato, a firmeza na fé, a modéstia no comportamento, a justiça nas ações, a misericórdia nas obras, a disciplina e a sensatez nos costumes. Fazer a vontade de Deus significa não saber fazer injúrias, mas saber tolerá-las; estar em paz com todos e amar a Deus de todo o coração; amá-lo como Pai, temê-lo como Deus; antepor Jesus Cristo a tudo, porque ele mesmo nos preferiu a toda criatura; manter-nos inseparavelmente unidos ao seu amor; abraçar-nos fortemente e com confiança à cruz e, quando se trata do seu nome e da sua honra, manifestar firmeza ao dar-lhe testemunho com as palavras, constância ao combater por ele e paciência até a morte, para sermos coroados. Agindo assim, tornamo-nos herdeiros de Jesus Cristo; cumprimos a ordem do Senhor; fazemos perfeitamente a vontade de Deus.
Devemos conformar a nossa vontade à de Deus: 1° em nossa conduta, isto é, devemos querer aquilo que ele quer, obedecer à sua lei; 2° em nossos pensamentos, intenções e desejos. Aqui, como nos atos, a nossa vontade deve ter a vontade de Deus por objeto, isto é, deve tender para ela e não olhar para outra coisa; por conseguinte, deve querer somente coisas boas, conformes à reta razão e à consciência iluminada, e, mesmo neste caso, não as querer senão na medida em que possam ser agradáveis a Deus.
Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. Os eleitos no céu farão e fazem eternamente a vontade de Deus de modo admirável e perfeito; nisso consiste a sua felicidade. Devemos, tanto quanto depende de nós, tomar os Santos como modelo. Oh, quão felizes seriam os homens, se não buscassem senão a vontade de Deus! Deus faria a vontade dos homens, que seriam todos santos, e a terra se transformaria em paraíso.
Por terra entende-se também o corpo, e por céu, o espírito. Neste sentido, ao recitar as palavras citadas do Pai-Nosso, o homem pede que o seu corpo faça a vontade de Deus, não menos que o espírito; ou, como explica São Cipriano, que o corpo esteja sujeito ao espírito, assim como o espírito está submetido a Deus (De Orat. dom.).
Outros, sob o nome de terra, entendem os pecadores, e sob o de céu, os justos. Segundo esta interpretação, a petição do Pai-Nosso expressaria o desejo de que os pecadores façam a vontade de Deus, como a fazem os justos… Por céu, Santo Agostinho entende Jesus Cristo; e por terra, a Igreja, esposa de Jesus Cristo; o que equivaleria a dizer: Cumpra a Igreja a vossa vontade, ó meu Deus, como a cumpriu Jesus Cristo (De Orat. dom.).
O repouso, a paz, a alegria, a santidade e a perfeição do cristão consistem em renunciar à própria vontade, para conformá-la à de Deus, tanto na adversidade como na prosperidade, na saúde e nas doenças, na vida e na morte. «Que outra coisa Deus abomina e pune, senão a própria vontade do homem?», diz São Bernardo, e conclui: «Cesse, pois, esta vontade, e não haverá mais inferno (De Resurrect.)». Uma inteira conformidade à vontade divina, escreve o mesmo Padre, une a alma ao Verbo, como a esposa está unida ao esposo (Serm. 28, in Cantic.). E, como a verdadeira esposa nada busca nem deseja senão aquilo que agrada ao esposo, e, de sua parte, o esposo nada faz que possa desagradar à esposa, assim a alma que aspira a ser esposa de Jesus Cristo nada quer senão aquilo que agrada a Jesus Cristo, o qual, por sua vez, nada faz que lhe desagrade. Ó união preciosa e feliz!
Sendo a vontade de Deus excelente e perfeita, não há coisa tão útil quanto submeter-se inteiramente a ela: quem segue este caminho chegará à alta perfeição; antes, já a alcançou, porque toda a perfeição consiste nisso… Deus sabe muito bem o que nos convém, aquilo de que necessitamos para nos tornar felizes, tanto no tempo como na eternidade, ao passo que nós o ignoramos. Não somos, portanto, cegos e inimigos de nós mesmos quando colocamos a nossa vontade no lugar da de Deus? O que acontece então? Já não fazemos nem a vontade de Deus nem a nossa… O Faraó obstina-se em querer fazer a própria vontade, recusando-se a fazer a de Deus; e sabeis como terminou… Moisés faz em tudo a vontade de Deus, e considerai como Deus, por sua vez, faz a vontade de Moisés no Egito, às margens do Mar Vermelho e no deserto. Os anjos rebeldes não querem submeter-se à vontade de Deus; o que foi feito deles? … Adão segue pelo mesmo caminho, e onde vai terminar?
Panem nostrum quotidianum da nobis hodie. Dai-nos hoje o nosso pão de cada dia. Com esta quarta petição, pedimos a Deus que nos dê o necessário para a vida da alma e do corpo… Pedimos aquilo que nos pertence, não aquilo que pertence aos outros…
Os reis são, tanto quanto o mais miserável de seus súditos, mendigos de Deus. «O mendigo vos pede esmola, diz Santo Agostinho, e também vós sois mendigos de Deus. O que vos pede o pedinte? Pão; e vós, que outra coisa pedis a Deus senão Jesus Cristo, que diz: «Eu sou o pão vivo descido do céu? (Serm. 15, de Verb. Domini secund. Matth.)». A palavra pão, panem, compreende a saúde, o alimento, o vestuário, a moradia e coisas semelhantes… Pedimos o pão material; mas pedimos ainda, principalmente, o pão espiritual da alma: a graça…, a Eucaristia…, a salvação…, a glória eterna…
Dai-nos o pão, panem: não pedimos outra coisa, porque o pão nos basta; pedimo-lo para nós e para os outros, da nobis: pedimos o pão de cada dia, panem nostrum quotidianum, não o pão para o dia de amanhã, porque o dia de amanhã não está em nosso poder. Com isso, Deus nos ensina a não acumular por espírito de avareza e a não nos afligirmos com o futuro. Pedimos, depois, que no-lo dê hoje, da nobis hodie, porque nos é necessário, e necessário no presente.
Dimitte nobis debita nostra, sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Perdoai-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos outros… Nas quatro primeiras petições, imploramos bens; nas três últimas, suplicamos que nos sejam poupados males.
Perdoai-nos, dimitte nobis, porque todos nós somos, uns mais, outros menos, culpados… «Para que ninguém, diz São Cipriano, se compraza em si mesmo, julgue-se inocente e se ensoberbeça, a voz divina lhe ensina que peca todos os dias, pois lhe é ordenado implorar todos os dias o perdão dos próprios pecados (De orat. Domin.)».
Perdoai-nos as nossas dívidas, debita nostra. O pecado é a mais grave dívida que o homem pode contrair para com Deus, por causa da injúria infinita que, com o pecado, faz a Deus… Essa injúria é tão enorme que nem o homem, nem o anjo, nem criatura alguma pôde repará-la… Foi necessário, por isso, que o Verbo se fizesse homem e derramasse o sangue na cruz.
Perdoai-nos como nós perdoamos àqueles que nos ofenderam: Sicut et nos dimittimus debitoribus nostris. Eis a condição à qual Deus vincula o nosso perdão. Se queremos que ele nos perdoe, perdoemos… Consequentemente, quem pronuncia estas palavras do Pater enquanto alimenta no coração pensamentos de ódio ou desejos de vingança, e não decide expulsá-los, pronuncia a sua sentença de condenação. Se vós, diz Jesus Cristo, perdoardes aos outros as ofensas, vosso Pai celeste vos perdoará as vossas; mas, se recusardes o perdão aos homens, vosso Pai celeste também o recusará a vós (Mt 6, 14-15). «Perdoai e sereis perdoados; pois será usada convosco a mesma medida que tiverdes usado com os outros» (Lc 6, 37-38).
Et ne nos inducas in tentationem. E não nos induzas em tentação. Notemos que não se diz: Livrai-nos da tentação; com efeito, a tentação, por si mesma, não é pecado; de outro modo, Jesus Cristo não teria permitido que o demônio a sugerisse a ele mesmo. O único mal que se pode encontrar na tentação é consentir nela. O mal provém da vontade do homem, que se abandona às solicitações da carne e do demônio. A tentação é um bem, na medida em que põe o homem à prova, desperta nele a vigilância, leva-o a desconfiar de si mesmo e a fugir do perigo; torna-se ocasião e causa de grandes méritos para aqueles que a combatem. Por isso, os grandes Santos foram ordinariamente os mais tentados. Sucumbir à tentação é perder-se; resistir-lhe é agradar a Deus, que nos ajuda a vencê-la; é adornar de brilhantes a própria coroa, aumentar a própria recompensa, assegurar a própria salvação, ir para o céu… Os Apóstolos ensinam que, em meio aos espinhos de muitas tentações, serpeia o caminho que conduz ao reino de Deus (At 14, 21).
Não nos induzas em tentação quer dizer: Senhor, não vos peço ser libertado da tentação, se tal não for a vossa vontade, mas dai-me a graça de resistir-lhe, vencê-la e sair triunfante da luta… Estas palavras nos ensinam que devemos temer e não confiar em nossas próprias forças… Advertência contínua da necessidade em que nos encontramos da oração e da graça de Deus, para não darmos ouvidos à tentação e sucumbirmos… «Sem mim, diz Jesus Cristo, nada podeis fazer» (Jo 15, 5). «Tudo posso, diz o Apóstolo, naquele que me fortalece» (Fl 4, 13). Se Deus é por nós, diz ainda o mesmo Apóstolo, quem será contra nós? (Rm 8, 31). Ó Deus! não permitais que sejamos vencidos pelas tentações do demônio, do mundo, da carne, das misérias desta vida, do pecado! …
Sed libera nos a malo. Mas livrai-nos do mal, isto é, do pecado… Aqui Deus nos ordena pedir a nossa inteira libertação do pecado, porque o pecado é mau por sua própria natureza, ao passo que a tentação não o é… Com estas palavras, pedimos ainda ser defendidos contra os males do corpo, as doenças etc.; mas pedimos essas coisas sob condição, isto é, contanto que tal seja a vontade de Deus; porque os males corporais não são pecados. O mesmo não se dá com os males da alma, que se reduzem ao pecado, porque somente o pecado pode prejudicar e macular a alma; por isso, pedimos de modo absoluto ao Senhor que nos livre dele.
Amen. Assim seja. Este desejo, que encerra o Pater, é uma breve e ardente oração que pede o cumprimento de tudo o que está contido no Pater; de modo que pode ser considerado como conclusão de cada uma das sete petições.
Note-se que no Pater não se faz menção específica nem à inteligência, nem à saúde, nem às riquezas, nem à força, nem à sabedoria humana, nem ao esposo, nem à esposa, nem à família, nem à glória, nem a qualquer outro bem, corporal, espiritual ou material, porque tudo isso é indiferente, e não se devem pedir nem todas nem algumas dessas coisas, senão na medida em que possam contribuir para a glória de Deus, para a nossa salvação e para a salvação e santificação do próximo.
O Pater rezado com fervor é um ato de todas as virtudes. Com efeito, faz-se um ato de fé com estas palavras: ― Pai nosso, que estais nos céus; ― um ato de esperança, dizendo: ― Venha o vosso reino; ― um ato de amor, exclamando: ― Santificado seja o vosso nome; ― um ato de obediência e de humildade, pedindo: ― Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu; ― um ato de ação de graças e de submissão, dizendo: ― Dai-nos hoje o nosso pão de cada dia; ― um ato de caridade fraterna, dizendo: ― Perdoai-nos como nós perdoamos aos outros; ― um ato de temor de Deus e de desconfiança de nós mesmos, suplicando: ― Não nos induzais em tentação; ― finalmente, um ato de contrição e de detestação do pecado, dizendo: ― Livrai-nos do mal. ― Feliz, portanto, aquele que diz frequentemente, com devoção e fervor, esta admirável e preciosa oração…
Eis o Pater que São Francisco de Assis costumava rezar a cada hora do dia: «Santíssimo Pai nosso, nosso criador, nosso redentor, nosso salvador, nosso consolador; que estais nos céus, nos Anjos e nos Santos; iluminando-os para que vos conheçam, porque vós, ó Senhor, sois luz; inflamando-os com o vosso divino amor, porque vós, ó Senhor, sois amor; habitando neles e enchendo-os de felicidade, porque vós, ó Senhor, sois o bem supremo e eterno, do qual provêm todos os bens e fora do qual não há espécie alguma de bem verdadeiro e sólido. Santificado seja o vosso nome; fazei-vos conhecer por nós, para que não ignoremos a largueza dos vossos benefícios, a extensão das vossas promessas, a altura da vossa majestade, a profundidade dos vossos juízos. Venha o vosso reino, para que reineis em nós com a vossa graça e nos façais chegar ao vosso reino, onde se encontram a clara visão e o perfeito amor, a bem-aventurada sociedade e a eterna posse de vós mesmo. Seja feita a vossa vontade na terra como no céu, para que vos amemos de todo o coração, pensando continuamente em vós; com toda a alma, suspirando por vós com incessante desejo; com todo o espírito, dirigindo a vós as nossas intenções e procurando a vossa honra em todas as coisas; com todas as nossas forças, aplicando toda faculdade e energia, tanto da alma como do corpo, ao exercício do vosso amor; e ainda para que amemos o nosso próximo como a nós mesmos, incitando-o com todo o nosso poder a amar-vos, alegrando-nos com o bem alheio como se fosse próprio, compadecendo-nos de seus males e não ofendendo ninguém. Dai-nos hoje o nosso pão de cada dia; dai-nos hoje o Senhor nosso Jesus Cristo, vosso Filho, fazendo que nos recordemos, compreendamos e honremos o amor que nos manifestou e tudo o que fez, disse e sofreu por nós. Perdoai-nos as nossas culpas, por vossa misericórdia, pela inefável virtude da paixão de vosso diletíssimo Filho, o Senhor nosso Jesus Cristo, pelos méritos e pela intercessão da Bem-aventurada Virgem Maria e de todos os Santos. Perdoai-nos como nós perdoamos àqueles que nos ofenderam. E, porque nunca perdoamos o bastante, fazei, ó Senhor, que perdoemos inteiramente, que amemos os nossos inimigos por vosso amor e intercedamos devotamente por eles; fazei que não retribuamos a ninguém mal por mal e que, com a vossa ajuda, possamos ser úteis a eles em todas as coisas. Não permitais que sucumbamos à tentação, quer oculta, quer manifesta, quer imprevista e passageira, quer importuna e persistente; mas livrai-nos do mal passado, presente e futuro. Assim seja, segundo a vossa vontade, ó Senhor, e como vos parecer melhor (Biblioth. Ss. Patr., t. V)