Tesouro n.º 142 · Volume II

PALAVRA DE DEUS PAROLA DI DIO

15 seções · 97 parágrafos · pp. 1617–1645 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. VERACIDADE E AUTORIDADE DA PALAVRA DE DEUS

«Meus discursos, dizia São Paulo aos Coríntios, e minha pregação não se apoiam na persuasão da sabedoria humana, mas na manifestação do espírito e do poder; para que a vossa fé não se funde na sabedoria dos homens, mas no poder de Deus… Quanto a nós, não recebemos o espírito deste mundo, mas o espírito que vem de Deus, para que conheçamos os dons de Deus, que anunciamos não com palavras doutas da sabedoria humana, mas segundo a doutrina do Espírito Santo. Temos o espírito, o sentido de Cristo» (1Cor 2,4-5,12-13,16).

E aos Efésios escreve: «Vós fostes instruídos em Jesus Cristo, segundo a verdade da doutrina» (Ef 4,21). E tão verdadeira e autorizada é, aos olhos de Paulo, essa doutrina, que, escrevendo aos Gálatas, irrompe nestas palavras: «Ainda que nós, ou mesmo um anjo do céu, vos anunciasse outro Evangelho diferente daquele que vos pregamos, seja maldito o culpado. Como já dissemos, também agora repetimos: se alguém vier pregar-vos algo diferente do que ouvistes, seja anátema; pois eu vos declaro, irmãos, que o Evangelho por mim anunciado não é segundo o homem, visto que não o recebi nem aprendi dos homens, mas por revelação de Jesus Cristo» (Gl 1,8-9,11-12).

Os Atos dos Apóstolos narram que o Senhor disse em visão a São Paulo: «Não temas coisa alguma, mas fala e não te cales, porque eu estou contigo» (At 18, 9-10). Palavra de Deus! Como é grande e majestoso este título! Que veracidade e autoridade promete! Que respeito ordena! «É a voz de Deus», diz o Salmista (Sl 28, 4). Ora, a voz ou a palavra de Deus é a verdade por essência, e a verdade do Senhor permanece eternamente, diz o profeta: (Sl 116, 2). Aquele que proclama esta palavra no mundo, isto é, o sacerdote, é outro Elias, um homem de Deus, e a palavra do Senhor em sua boca é verdadeira (1Rs 17, 24).

«A palavra do Senhor dura eternamente, exclama Isaías. Ó vós que evangelizais Sião, subi ao alto dos montes; levantai a voz com força e autoridade, vós que evangelizais Jerusalém; levantai a voz e não temais. Dizei às cidades de Judá: Eis o vosso Deus» (Is 40, 8-9). Os arautos da palavra divina são, como diz o mesmo Profeta, espadas afiadas, como dardos escolhidos conservados por Deus em sua aljava (Id, 49, 2). Cada um deles pode dizer com Jeremias: «O Senhor estendeu a sua mão, tocou a minha boca e disse: Vai; pus na tua boca a minha palavra, e desde este momento te constituí chefe das nações e dos reinos, para que arranques, destruas, disperses, edifiques e plantes» (Jr 1, 9-10).

«Eu vos asseguro, disse Jesus Cristo, que não passarão o céu e a terra antes que se cumpra toda a lei, até o último jota» (Mt 5, 18); «e tende por certo que passarão o céu e a terra antes que faltem as minhas palavras» (Mt 24, 35).

2. EXCELÊNCIA DA PALAVRA DE DEUS

Pensai na excelência que deve ter a palavra de Deus, se Isaías chega a louvar os pés daqueles que a anunciam: «Como são belos sobre os montes, diz ele, os pés daquele que anuncia e prega a paz, que anuncia o bem, que prega a salvação, que diz a Sião: O teu Deus reinará» (Is 52, 7).

«A palavra de Deus, diz São Paulo, é viva e eficaz; é mais penetrante que uma espada de dois gumes; ela chega até a divisão da alma e do espírito, dos músculos e das medulas; discerne os pensamentos e os movimentos do coração. Nenhuma criatura se oculta dela, mas tudo está nu e patente aos olhos daquele de quem falamos» (Hb 4, 12-13). «A palavra de Deus é vivente, para que creiais, comenta aqui Hugo de São Vítor; é eficaz, para que espereis; é penetrante, para que temais. É vivente em seus preceitos e proibições, eficaz em suas promessas e ameaças, penetrante em seus juízos e condenações. Se a palavra de Deus é vivente, devemos crer que aquilo que promete é a verdade; se é eficaz, devemos crer que cumprirá suas promessas; se é penetrante e não pode ser induzida em erro, devemos arrepender-nos de tê-la ofendido e acautelar-nos de ofendê-la novamente no futuro (1)».

«A palavra de Deus é o espelho do cristão. Ora, diz Clemente de Alexandria, assim como o espelho não é inimigo do homem deformado, porque lhe mostra como ele é; assim como o médico não é cruel por anunciar a febre ao enfermo — pois o médico não é a causa da febre, mas apenas a constata, se ela existe —, assim também a palavra de Deus, que repreende e condena aquele cuja alma está enferma, não é sua inimiga; mas mostra-lhe os pecados que cometeu, para que se corrija (2)».

São João diz do Verbo de Deus feito homem que «nele está a vida, e que a vida é a luz dos homens; que ele é a verdadeira luz que ilumina todo homem que vem ao mundo» (Jo 1, 4, 9). O mesmo se deve dizer da palavra evangélica, e nisso consiste a sua excelência; à semelhança de Jesus Cristo, ela tem em si mesma a vida e é a verdadeira luz que ilumina o mundo, expulsando dele as trevas.

Há maravilhosas semelhanças entre a luz e a palavra de Deus: o sol, suspenso na imensa abóbada dos céus, é o que há de mais nobre e mais belo na natureza; puríssima, ativíssima e impassível é a sua luz, de tal modo que, qualquer coisa que toque, jamais se mancha: ela é bela além de toda expressão; abrange o mundo inteiro e dura desde o princípio dos séculos. O sol nos traz a luz, o calor, a fecundidade, a alegria, a felicidade; torna-nos visíveis todas as coisas; ressuscita aquilo que parecia morto e dá vida e força a todos os seres. A palavra de Deus vem do próprio Deus; é puríssima; penetra e ilumina as inteligências; é ativíssima e impassível; desce sobre as almas mais imundas sem sofrer mancha alguma; estende-se por toda parte e abrange o céu e a terra, os séculos e a eternidade. Traz consigo clareza, calor, fecundidade, paz, felicidade, alegria; ressuscita aqueles que estavam mortos para a graça; mostra as coisas sob o seu verdadeiro aspecto; finalmente, dá vida e força a todas as mentes e a todos os corações…

«A palavra de Deus, diz Davi, é palavra casta, prata posta no crisol, provada pelo fogo e purificada sete vezes» (Sl 11, 6). Purificada sete vezes, isto é, penetrada pelos sete dons do Espírito Santo… «É palavra reta, que alegra os corações; os preceitos do Senhor são luminosos, iluminam os corações» (Sl 18, 8).

«Os céus, diz o Salmista, narram a glória do Senhor, e o firmamento anuncia as obras de suas mãos. O dia fala ao dia, e a noite à noite. Não há língua nem idioma em que não se faça ouvir esta voz. Seu esplendor difundiu-se por toda a terra, e as palavras que ela fez ouvir ressoaram até os confins do globo. Deus colocou o pavilhão do sol no meio dos céus, e, semelhante ao esposo que sai do leito nupcial, este astro lança-se como um gigante a percorrer o seu caminho. Parte das extremidades da aurora, abaixa-se até os limites do ocaso, e ninguém pode furtar-se ao calor de seus raios. Tal é a lei do Senhor, bela, pura e que converte as almas; a palavra de Deus é fiel, infunde sabedoria nos pequeninos» (Sl 18, 7).

«A palavra de Cristo, escreve Santo Agostinho, não é inferior ao corpo de Cristo; portanto, com solicitude não menor que aquela com que cuidamos para não deixar cair por terra a menor partícula do corpo de Jesus Cristo quando ele nos é distribuído, devemos procurar que a palavra de Deus, uma vez recebida, não nos saia do coração, entregando-nos a outros pensamentos (3)».

3. PODER E EFICÁCIA DA PALAVRA DE DEUS

Deus fala, e o universo surge do nada… Deus fala, e o sol, a lua e as estrelas respondem: Eis-nos aqui… Fala, e o imenso oceano, detendo-se ao som dessa palavra, respeitará ainda os limites que essa mesma palavra lhe assinala… Fala, e a terra, tornada fecunda, produz toda espécie de frutos… Fala, e cria à sua imagem o homem, rei do universo, que ocupa o primeiro lugar na criação… Deus fala, e as águas do dilúvio cobrem a terra… Fala, e o Mar Vermelho, não menos que o Jordão, dá passagem segura, em meio às suas ondas, aos israelitas… Fala, e o maná chove durante quarenta anos do céu, e dos rochedos do deserto brotam abundantes fontes de água, e as muralhas de Jericó desmoronam… Fala, e o Verbo eterno se faz carne e salva o mundo… Deus fala, e doze homens sem letras, sem fortuna, sem relações, sem defesa, armados apenas com a palavra desse Deus, vencem todo obstáculo, derrubam os ídolos, afugentam as trevas que há quarenta séculos envolviam a terra e espalham por toda parte a luz do dia da eternidade: o universo pagão converte-se e prostra-se aos pés da cruz de Jesus Cristo… Deus fala, e as nuvens, a chuva, a tempestade, o raio e o trovão mantêm-se prontos para executar suas ordens; fala, e o dia se torna sereno… No fim do mundo fará ouvir esta voz: Levantai-vos, ó mortos; vinde ao juízo; e imediatamente os mortos ressuscitarão e se encontrarão reunidos diante do tribunal do juiz supremo.

«Nós caminhamos (vivemos) na carne, mas não combatemos segundo a carne. Pois as armas da nossa milícia não são carnais, mas consistem no poder de Deus para a destruição das fortalezas. Vamos destruindo os desígnios humanos e toda altivez que se ergue contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo entendimento à obediência de Cristo, prontos a punir toda desobediência» (2Cor 10, 3-6). A arma tão poderosa, eficaz e vitoriosa de que fala e da qual se serve São Paulo é a palavra de Deus, acompanhada pelo Espírito Santo.

A força e a eficácia da palavra de Deus manifestam-se não somente nessa palavra tomada em si mesma, mas também na pregação que dela se faz. Elas resplandecem: 1° no fato de que um pequeno grupo de Apóstolos, pobres, rudes, pecadores obscuros, gente judaica, ludíbrio do mundo, submeteu à cruz o mundo inteiro. 2° Porque venceram, derrubaram e converteram seus mais obstinados inimigos; desbarataram os demônios, o pecado, a morte, os príncipes, os reis, os filósofos, os oradores, os gregos, os romanos, os bárbaros; mudaram leis, costumes e juízos; derrubaram as religiões mais antigas e mais cômodas às paixões, os preconceitos, as fantasias, os vícios, as trevas, a ignorância e todos os erros de tantos séculos… 3° Porque persuadiram, convenceram e levaram a crer não pela força das armas, nem da ciência, nem da eloquência, nem do ouro, mas com a simples pregação da cruz… 4° Porque, em brevíssimo tempo e prontamente, espalharam e estabeleceram a fé de Jesus Cristo em todo o mundo… 5° Porque, com a palavra de Deus, acompanhada pela graça de Jesus Cristo, triunfaram das ameaças, dos açoites, das cadeias, das prisões, de tormentos superiores às forças da natureza, de mil gêneros de morte… 6° Porque fizeram o orgulho humano receber e praticar a religião não de um Deus cheio de glória, mas de um crucificado; obrigando, pela simples palavra de Deus, o mundo a crer que esse crucificado é o Salvador do mundo e levando-o a venerar e praticar a lei de Jesus Cristo, embora repugnante à natureza e à carne… 7° Porque os lobos se tornaram cordeiros, e os perseguidores se transformaram em modelos de doçura e em ardentíssimos defensores da religião.

O célebre e grave Tertuliano assim fala do poder e da eficácia da palavra de Deus: Salomão reinou, mas somente sobre a Judeia, desde Dã até Bersabeia; Dario imperou sobre a Babilônia e sobre o país dos partos, mas não em outro lugar; o Faraó dominou o Egito. Nabucodonosor teve seu reino limitado pela Judeia e pela Etiópia; Alexandre Magno jamais comandou toda a Ásia, e frequentemente ora uma, ora outra das regiões subjugadas sacudia o seu jugo. O mesmo se deve dizer dos bretões, dos germanos e dos mauritanos. Os próprios romanos detiveram-se em certas fronteiras. Mas, pelo poder da palavra de Deus, o nome e o reino de Jesus Cristo se estenderam por todas as regiões do globo; todos os povos creem nele, todas as nações o servem; ele reina em toda parte, é adorado por toda parte; acolhe igualmente todos os homens; é rei, juiz, mestre e Deus do universo (Apologetico).

«Repreende os pecadores na presença de todos os fiéis, para que todos sejam tomados de temor», escrevia São Pedro a Timóteo (I, 5, 20). Pois, como diz o Salmista: «A voz do Senhor troveja com força, manifesta-se com magnificência, quebra os cedros do Líbano; fá-los saltar como cabritos e como filhotes de cervo. A voz do Senhor abre os mares e deles faz sair a chama, abala as solidões e incute espanto no deserto» (Sl 28, 4-6). O Senhor dará uma voz cheia de poder aos que evangelizam; dará à sua voz a eloquência da força» (Sl 67, 12, 35).

«Naquele tempo, diz Isaías, referindo-se aos dias do Cristianismo, soará forte a trombeta da palavra de Deus, e aqueles que se haviam perdido sobre a terra virão e adorarão o Senhor no monte santo» (Is 27, 13). «Não são porventura as minhas palavras, diz o Senhor, como fogo e como martelo que despedaça a pedra?» (Jr 23, 29).

4. PRECIOSOS EFEITOS DA PALAVRA DE DEUS

«Toda Escritura inspirada por Deus, diz São Paulo a Timóteo, é útil para ensinar, repreender, corrigir, instruir na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e apto para toda boa obra» (2Tm. 3, 16-17). «A palavra de Deus é um fogo que queima, para purificar a consciência do pecador; não o incendeia para perdê-lo (4)», observa Santo Ambrósio. Por isso o Salmista dizia: «Ensinarei aos ímpios a vossa palavra, ó Senhor; e os pecadores se converterão» (Sl 50, 14); «porque a palavra de Deus inflama» (Sl 104, 19).

«O perfeito amor de Deus, escreve São João, consiste em observar a palavra de Jesus Cristo; por isso conhecemos se estamos nele» (1Jo 2, 5). A alma virtuosa, diz São Bernardo, busca esta palavra que corrige, que instrui, que fortalece a virtude, que prepara para a sabedoria, que adorna o coração, que une a alma a Deus e a torna fecunda em boas obras, que a cumula de felicidade (Serm. LXXIV). Por isso o Salmista cantava: «Escutarei o que o Senhor falará ao meu coração; pois ele fará ouvir palavras de paz ao seu povo e aos seus santos, e àqueles que se converteram de todo o coração» (Sl 84, 8-9).

«Eles eram perseguidos por ódio à vossa palavra, ó Senhor, dizia o Sábio, e eram prontamente salvos… porque a vossa palavra conserva aqueles que creem em vós» (Sb 16, 11, 26). Por que o povo de Israel se conservou entre seus inimigos? Porque ouviu a palavra de Deus, responde Moisés (Dt.4, 33). E o próprio povo confessou ter experimentado que o homem a quem Deus fala vive (Dt.5, 24).

Outra vez, Moisés, instruindo o povo acerca do significado místico do maná, coisa desconhecida para eles e para seus pais antes que estivessem no deserto, declarava que Deus havia realizado esse prodígio para que aprendessem que o homem não vive somente de pão, mas de toda palavra que sai da boca de Deus (Dt.8, 3). E foi precisamente isso que Jesus Cristo respondeu a Satanás, quando este ousou dizer-lhe: «Se és filho de Deus, dize a estas pedras que se transformem em pão» (Mt 4, 3-4).

A palavra de Deus mata os inimigos da alma… «Quem me escuta repousará tranquilo, diz o Senhor; e, livre do temor dos males, gozará da abundância» (Prov. 1, 33). «Meu filho, se deres ouvido às minhas palavras, se observares os meus preceitos em teu coração, então compreenderás o temor do Senhor e encontrarás a ciência de Deus» (Pr 2, 1-5). «Recebe, meu filho, os meus ensinamentos, dá atenção à minha voz; porque as minhas palavras são vida para quem as encontra e remédio para todo homem» (Prov. 4, 20-22).

«Se o teu coração é duro e insensível, diz São Bernardo, lembra-te da Escritura, que diz: Deus fará ouvir a sua palavra e os abrandará (Sl 147). E ainda: assim que o meu amado abriu a boca, a minha alma se sentiu enternecida (Cant. 5, 6). Se és tíbio e temes ser rejeitado, não cesses de meditar a palavra de Deus, e ela te inflamará, porque é toda fogo (5)». As palavras sábias e, portanto, com razão muito mais forte, a palavra de Deus são comparadas pelo Espírito Santo a um favo de mel; formam a alegria da alma e a saúde do corpo (Prov. 16, 24). O mel alimenta, adoça e cura, e tais são também os efeitos produzidos pela palavra de Deus. O mel alimenta: a palavra de Deus é pão vivificante, ao qual se pode aplicar o que Jesus disse da Eucaristia: «Quem come este pão viverá eternamente» (Jo 6, 59). O mel adoça; a palavra de Deus alivia os desgostos, os aborrecimentos, as amarguras, as iras e as invejas que dilaceram a alma, corroem-na e a consomem. O mel cura; a palavra de Deus, cheia de suavidade, corrige os maus costumes. O mel fortalece; a palavra de Deus aumenta o vigor da alma, ajuda-a a realizar grandes coisas e a suportar tormentos penosos.

«Toda palavra de Deus é chama e escudo» (Prov. 30, 5), lemos nos Provérbios; uma chama benéfica, diz Santo Ambrósio, que aquece e queima somente os vícios. Refina a alma, consome o erro (6). Em outro lugar, o mesmo Santo Padre observa estes três efeitos na palavra de Deus: purificar, iluminar, inflamar (In Psalm. 118, Serm. XVIII). Sim, a palavra de Deus é fogo, porque consome e destrói a ferrugem e as manchas do pecado, das paixões e dos vícios. Assim a entende São Jerônimo, segundo o qual a palavra divina é chamada fogo porque torna a alma que a acolhe semelhante ao ouro purificado no cadinho (In Psalm. XVII).

A palavra de Deus produz na alma e no coração os mesmos efeitos que o fogo produz sobre uma matéria que lhe seja adequada. Considerai, pois, quais são as propriedades do fogo e quais efeitos ele produz, principalmente sobre os metais, como o ouro, a prata e o ferro, e aplicai-os, em sentido místico, à palavra de Deus, isto é, à Sagrada Escritura, à lei, às inspirações e às promessas divinas. Neste sentido, Dídimo, o Cego, declara que a palavra de Deus é comparada ao fogo; com efeito, inflama de tal modo a alma, que nela queima e consome, como palha, os pensamentos e o amor às coisas terrenas (7). A palavra de Deus é fogo, comenta a Cadeia dos Gregos, porque queima todos os espinhos e as ervas daninhas que nascem na alma; separa o que nela há de puro e proporciona a salvação… Por isso, a palavra de Deus é comparada ao fogo, para indicar a eficácia e a força de penetração que há nela, a tal ponto que penetra até o fundo da alma, purifica-a, ilumina-a, inflama-a e diviniza-a. Ao fundir o ouro e a prata, o fogo os purifica de sua escória e os torna resplandecentes; assim também a palavra de Deus, inflamando a alma, despoja-a de todo afeto menos puro e reveste-a de sentimentos preciosíssimos aos olhos de Deus e dos cristãos, de afeições celestes que transformam o homem terreno e carnal em homem santo. É precisamente isto que o profeta Malaquias quer indicar quando, falando de Jesus Cristo, diz: «Ele será como fogo devorador; sentar-se-á, fundindo e purificando a prata; purificará os filhos de Levi como o ouro e a prata passados pelo cadinho, e então oferecerão ao Senhor sacrifícios de justiça» (Ml 3, 2-3).

«A palavra de Deus, escreve Solônio, é chamada pela Escritura de fogo e escudo, porque acende com o fogo da caridade os corações dos eleitos que põem sua esperança em Deus e os ilumina com a ciência da verdade; porque consome a escória dos vícios que encontra neles e os torna puros; finalmente, porque os defende contra as misérias dos inimigos e contra as adversidades (8)».

À palavra de Deus também se dá o nome de flecha, porque fere mortalmente o espírito orgulhoso e o coração corrompido. Comentando aquelas palavras do Salmista: «Vossas flechas, ó Senhor, ficaram cravadas em mim», escreve ele assim: Aquele que prega a palavra de Deus lança setas; e, quando a emprega para castigo e correção, atravessa com um dardo celeste o coração de seu ouvinte (In Psalm. XXXVII).

A propósito daquelas outras palavras do Salmista: «As flechas do Poderoso são agudas, queimam como carvões ardentes» (Sl 119, 4), Santo Agostinho faz este comentário: «As setas agudas do Poderoso são as palavras de Deus. Eis que esses dardos são disparados e atravessam; mas, quando os corações são feridos pelas setas da palavra do Senhor, a morte sai deles e o amor neles entra. O Senhor sabe lançar flechas para fazer-se amar, e ninguém melhor do que ele alcança esse objetivo (9)».

Também Isaías chamou a palavra de Deus de espada aguda e dardo escolhido (Is 49, 2). A palavra de Deus atravessa e mata os vícios e os pecados, para que a carne, isto é, a vida animalesca, pereça e o espírito viva. A pregação do Evangelho abate os delitos, as paixões, as cobiças e os demônios, segundo aquelas palavras de Jesus Cristo: «Não penseis que vim trazer a paz ao mundo; não vim trazer a paz, mas a espada» (Mt 10, 34); isto é: minha palavra fará guerra ao demônio, ao mundo e às paixões… Da boca de Jesus Cristo saía, diz São João, uma espada de dois gumes (Ap 1, 16). A palavra de Deus é, com efeito, uma arma que serve para dois fins: destrói os vícios e protege as virtudes.

A estas verdades alude certamente São Paulo quando exorta os Efésios a revestirem-se da armadura de Deus, para que possam resistir firmes e inabaláveis no dia mau; a permanecerem firmes, cingindo os rins com a verdade, revestindo-se da couraça da justiça e tendo os pés prontos para levar por toda parte o Evangelho da paz; a empunharem em todas as circunstâncias o escudo, para poderem repelir os dardos inflamados do inimigo; a cobrirem a cabeça com o capacete da salvação e a brandirem a espada do espírito, que é a palavra de Deus (Ef 6, 13-17). Eis como deve ser o soldado de Jesus Cristo que anuncia o Evangelho. Todas as armas aqui mencionadas são dadas ao cristão que escuta, medita e pratica a palavra de Deus.

À palavra de Deus convêm aquelas palavras do Ecclesiastico: «Ele o nutrirá com o pão da vida e da inteligência, dar-lhe-á de beber a água da sabedoria e da salvação; ela se enraizará nele, e ele não será mais abalado. Ela o sustentará, e ele não sofrerá confusão; dar-lhe-á crédito entre seus próximos, e ele falará no meio da assembleia; enchê-lo-á do espírito de inteligência e de sabedoria, cobri-lo-á de glória. Reunir-lhe-á tesouros de alegria e júbilo e dar-lhe-á um nome eterno. Os insensatos não compreenderão esta palavra vivificante, mas os prudentes irão ao seu encontro… Os mentirosos não se lembrarão dela, mas as pessoas sinceras munir-se-ão dela e caminharão felizes até que vejam a Deus» (Eccli. 15, 3-8).

«Destilem como chuva os meus ensinamentos, desçam como orvalho os meus discursos, como chuva sobre a relva, como gotas de água sobre as plantas» (Dt. 32, 2). Estas palavras indicam: 1° a abundância da sabedoria que nela se encontra; 2° sua suavidade; 3° sua fecundidade…; 4° sua origem. Ela vem do céu, e não da terra. Por isso, São Gregório chama os doutores e os pregadores de Iades, isto é, estrelas da chuva. Espalhando a palavra divina como chuva benéfica, o cristão produz três frutos: 1° louva a Deus com sabedoria; 2° governa prudentemente a si mesmo, segundo o conselho e a direção de Deus; 3° instrui e salva o próximo.

Lemos no Eclesiástico que o Senhor dirigirá os conselhos e as instruções do sábio; e este meditará os arcanos de Deus (Eclo. 39, 10). O Senhor dá ao apóstolo fiel o espírito de inteligência, para que saiba quando, onde e como anunciar a palavra divina; ele orienta os desígnios de sua boa vontade e a prudência de seus ensinamentos; fortalece-o, cumulando-o de consolações interiores, a fim de que, em meio às contrariedades e adversidades do mundo, cumpra sem temor, com energia e zelo, suas funções. O Senhor regerá os conselhos e os ensinamentos do apóstolo, e este conduzirá seus ouvintes a obras retas, sólidas, firmes e perseverantes; de modo que seus discípulos não vacilem nem diante da violência dos inimigos, nem das tentações, nem das provações… «Ele manifestará, continua o Sábio, a regra de conduta que resulta de sua doutrina e se gloriará na lei da aliança do Senhor. O povo louvará a sua sabedoria, que jamais cairá no esquecimento; sua memória jamais se apagará da mente dos homens, e seu nome passará de geração em geração. As nações narrarão a sua sabedoria, e a assembleia dos anciãos lhe fará os elogios. Vivo, seu nome será mais célebre que o de mil outros; morto, será feliz» (Ib. 12-15).

Todos os trechos da Sagrada Escritura até agora citados descrevem a eficácia, a força, os frutos e as vantagens da palavra divina, a qual, afinal, é o próprio Jesus Cristo. Ele, como Verbo do Pai, é a sua espada; é o dardo luminoso e escolhido de que se serviram os Apóstolos e os demais Santos; é a flecha de amor na aljava de sua humanidade. O Verbo dispara esta flecha para onde quer e crava-a com sua palavra, com as adversidades e com as aflições: por meio delas fere, abre e penetra as almas dos fiéis, destruindo nelas os vícios e as imperfeições. Assim falam os santos Jerônimo, Cirilo e João Crisóstomo. Atravessado por esta flecha, Jeremias dizia: «Seguindo-te como meu pastor, encontrei repouso» (Jr 17, 16); e Davi: «Minha alma se uniu a ti» (Sl 62, 8); e São Pedro: «Vós sabeis, Senhor, se eu vos amo» (Jo 21, 15); e São Paulo: «Quem me separará do amor de Cristo?» (Rom. 8, 35); e a Esposa dos Cantici: «Desfaleço de amor» (2, 5). O amor de Deus e de Jesus Cristo: eis a flecha que vivifica dando a morte, que vivifica a virtude e mata o pecado, escreve Santo Ambrósio (In psalm. CXVIII).

Que felicidade, exclama Orígenes, ser atravessado por esta flecha! (In Psalm. XXXVIII). Ela foi cravada no coração de Madalena, de Pedro, de Saulo, de Agostinho e de todos os pecadores convertidos. E qual é a flecha? A palavra de Deus. Feridos os Apóstolos e todos os Santos por esta arma celeste, também eles a lançaram por sua vez, pregando os ensinamentos da palavra divina e rezando com fervor. Eles mesmos foram flechas que feriram o mundo perverso e o curaram.

São João narra no Apocalipse que ouviu uma voz semelhante ao estrondo do trovão, que lhe dizia: Vem e vê. Olhou, e pareceu-lhe surgir diante de si um cavalo branco, sobre o qual havia um cavaleiro que segurava um arco na mão; foi-lhe dada uma coroa, e ele partiu vencedor, para vencer ainda mais (Ap 6, 2). O cavalo branco representa os apóstolos, os doutores e os pastores de todos os séculos. Aquele que o monta é Jesus Cristo; o arco e as flechas são a pregação do Evangelho; a coroa significa a vitória que a palavra de Deus alcança, a conversão dos pecadores e o triunfo que dela resulta.

«O Senhor, diz Isaías, deu-me uma língua eloquente, para que, com a minha palavra, eu sustente o aflito e o atribulado» (Is 50, 4). Os pregadores anunciam e dão a conhecer três coisas: Jesus Cristo, a felicidade e a salvação eterna da alma e do corpo… «Inclinai o ouvido e vinde a mim, diz o Senhor; escutai, e a vossa alma terá vida, e eu farei convosco a eterna aliança de misericórdia, prometida a meu servo Davi» (Is 55, 3). Assim como a chuva e a neve caem do céu e já não retornam para lá, mas penetram a terra, fecundam-na e fazem germinar a semente, esperança do lavrador, assim a minha palavra não voltará a mim sem fruto; realizará o que eu quis e prosperará naqueles a quem a enviei. Vós saireis com alegria e caminhareis na paz, e o Senhor será conhecido por um nome eterno (Ib. 10-13).

Pela boca de Jeremias, o Senhor diz: «Ouvi a minha palavra, e eu serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo; caminhai pelo caminho que vos indiquei, para que vos vá bem» (Jr 7, 23). O mesmo Jeremias diz então ao Senhor: «Encontrei os vossos ensinamentos e deles me alimentei; e a vossa palavra tornou-se a alegria e o júbilo do meu coração» (Jr 15, 16).

«Viva e eficaz é a palavra de Deus, diz São Bernardo; entrando na alma, desperta-a de seu sono; move, abranda e atravessa o coração que antes era duro e enfermo. Além disso, começa a quebrar, destruir, edificar e plantar; a irrigar o que era árido, iluminar o que era trevas, abrir o que estava fechado, inflamar o que era gelo, endireitar o que era tortuoso, aplainar o que era montanhoso, de tal modo que então a alma bendiz o Senhor e todas as suas faculdades louvam o seu santo nome (10)».

«Se ouvirem e observarem a palavra do Senhor, diz Jó, passarão seus dias na felicidade e seus anos na glória» (Jó 36, 11). Isso concorda com a sentença de Jesus Cristo: «Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática» (Lc 11, 28). O mundo cego ignora onde se encontra a verdadeira felicidade; coloca-a nas riquezas, nas honras e nos prazeres, e engana-se. Somente Jesus Cristo sabe onde ela se encontra e diz: Bem-aventurados aqueles que ouvem e praticam a palavra de Deus. E isso é tão verdadeiro que, segundo a observação de São Bernardo, de nada teria aproveitado a Maria o título de Mãe de Deus, se ela não tivesse levado Jesus Cristo melhor no coração do que na carne. Mais aventurada é, portanto, Maria por ter recebido a fé de Cristo do que por ter concebido a carne de Cristo (11).

Eis o que diz o próprio Jesus Cristo: «Dou-vos a minha palavra: quem observa a minha palavra não verá a morte eternamente» (Jo 8, 51). E ainda: «Se alguém me ama, observará a minha palavra, e meu Pai o amará, e nós viremos a ele e nele faremos morada» (Jo 14, 23). Ó preciosa promessa! Ela nos ensina como encontrar Deus, como possuí-lo! A augusta Trindade vem a nós, diz Santo Agostinho, quando nós vamos até ela; ela vem a nós para nos ajudar, iluminar e cumular de graça; nós vamos até ela obedecendo, considerando e compreendendo (12),

«A fé vem da pregação, escreve São Paulo, e a pregação, pela palavra de Cristo» (Rm 10, 17). A palavra de Deus proporciona, portanto, o sublime dom da fé e não somente da fé, mas de todas as virtudes…

Os escritores inspirados consignaram nos livros sagrados a doutrina da sabedoria e da ciência: «Bem-aventurado aquele, exclama o Ecclesiastico, que se ocupa destes ensinamentos úteis! Quem os conserva no coração será sempre sábio; se os põe em prática, será apto para todas as coisas, porque a luz de Deus guiará seus passos» (Eccli. 50, 30.31).

Que vantagens inestimáveis proporciona a palavra de Deus! Que felizes efeitos, que frutos copiosos ela produz, quando se está bem disposto a recebê-la e dela tirar proveito! …

5. A PALAVRA DE DEUS COMPARADA A UMA SEMENTE

«A palavra de Deus é uma semente», disse Jesus Cristo (Lc 8, 11); e estes são os traços de semelhança: 1° Assim como a semente é lançada na terra, assim a palavra de Deus é semeada nas almas, que são o campo do Senhor. 2° A semente confiada à terra nela germina; a palavra de Deus deve germinar em nossos corações. 3° As sementes contêm em germe todos os vegetais; a palavra de Deus é o princípio de todas as virtudes e de todas as graças. 4° Se a terra não fosse semeada, não produziria senão espinhos e ervas daninhas; sem a palavra de Deus, nossos corações não produziriam senão pecados… 5° Para frutificar, a boa semente deve ter boa terra; para que germinem as virtudes, a palavra de Deus requer almas dóceis e bem dispostas… 6° Antes de produzir, a terra deve ser trabalhada; para que a palavra de Deus seja fecunda, nossos corações devem ser sulcados pelo arado da penitência. 7° A semente necessita de chuva e de sol; a alma precisa que a palavra de Deus derrame sobre ela a chuva da graça, a luz das boas inspirações e o calor da caridade. 8° Para que se multiplique, é necessário que a semente se despoje de sua casca e apodreça; para que a semente da palavra de Deus multiplique em nós os seus efeitos, é necessário que nossa alma se despoje dos afetos terrenos e morra para si mesma. 9° A semente deve germinar, desenvolver-se, florescer e amadurecer; o mesmo deve acontecer com a palavra de Deus em nossos corações. 10° Toda a força da planta e de suas flores, da árvore e de seus frutos, está na semente; todas as virtudes estão na palavra de Deus. 11° Cada grão produz

um vegetal; cada uma das sentenças do Evangelho produz o seu fruto: a fé, por exemplo, a esperança, a obediência, a castidade e outras semelhantes. 12° É necessário o concurso simultâneo da terra e da semente, para que esta germine e frutifique; é preciso que a alma se una à palavra de Deus, para que esteja em condições de dar o cêntuplo. 13° A terra frutifica na medida de sua bondade e cultivo; a palavra de Deus opera num coração na medida de suas disposições.

6. NECESSIDADE DE OS PASTORES ANUNCIAREM A VERDADEIRA PALAVRA DE DEUS

«Se anuncio o Evangelho, não devo gloriar-me disso, escrevia São Paulo aos Coríntios, porque tenho essa obrigação; ai de mim se não evangelizar!» (I, 9, 16).

Devemos guardar-nos atentamente de corromper a palavra de Deus: «Nós não somos, dizia o Apóstolo das gentes, daqueles muitos que adulteram a palavra de Deus; mas falamos em Cristo com sinceridade, como da parte de Deus e diante de Deus» (2Cor 2, 17). Por isso recomendava a Tito que difundisse a sã doutrina (Tt 2, 1); e a Timóteo ora inculcava que, ao pregar, tivesse por modelo as sãs palavras que dele ouvira na fé e no amor que estão em Jesus Cristo (2Tm 1, 13); ora que conservasse, por meio do Espírito Santo que habita em nós, o bom depósito que lhe fora confiado, ainda que ao preço de suportar trabalhos, como bom soldado de Jesus Cristo (2Tm 1, 14; 2Tm 2, 3); ora que procurasse diligentemente ser, aos olhos de Deus, fiel dispensador da palavra da verdade, evitando os discursos profanos e vãos (Ibid. 2Tm 2, 15-16); ora que anunciasse a palavra, insistindo a tempo e fora de tempo, repreendendo, suplicando e corrigindo com longanimidade e eloquência (Ibid. 2Tm 4, 2).

«Se alguém fala, diz o apóstolo São Pedro, sua palavra seja como palavra de Deus» (1Pd 4,11). E já o Sábio havia dito: «Os lábios dos sábios derramarão a ciência» (Pr 15,7). Por isso, o Senhor diz no Apocalipse ao Bispo de Sardes: «Sê vigilante; lembra-te do que recebeste e ouviste, e conserva-o intacto» (Ap 3,2-3).

Não é lícito àquele que foi incumbido da dispensação da palavra de Deus negligenciar o sagrado ofício da pregação. Com efeito, Jesus Cristo lhe ordena, na pessoa de Pedro, que apascente as ovelhas do Senhor (Jo 21,17); e São Pedro diz a todos os pregadores da palavra divina: «Apascentai o rebanho de Jesus Cristo, que vos foi confiado, e sede dele verdadeiros modelos» (1Pd 5,2-3). Mas lembrai-vos de que, se está escrito: «Ai de mim, porque calei» (Is 6,5), também está escrito: «Guardai-vos de acrescentar qualquer coisa às palavras de Deus, se não quiserdes ser repreendidos como mentirosos» (Pr 30,6).

Os pregadores devem imitar o trabalhador que semeia o trigo. 1° Este peneira o seu trigo e o limpa do joio etc.; o pregador deve peneirar a palavra de Deus e conservá-la livre de todo erro… 2° o trabalhador leva consigo o trigo que entrega à terra; aquele que deve espalhar nos corações a semente divina deve possuí-la primeiro, por meio do estudo e da piedade… 3° O lavrador espalha a semente de boa vontade e liberalmente, esperando uma colheita abundante; o pregador deve espalhar com alegria e em abundância a palavra de Deus sobre as almas, esperando dela uma rica messe, para si e para os seus ouvintes, nesta e na outra vida.

Aqueles que são chamados ao ministério da palavra evangélica ouçam o que Deus dizia aos profetas, dos quais são sucessores: Subi ao alto do monte, vós que evangelizais Sião: «Gritai e não vos canseis de gritar; fazei ressoar a vossa voz como a trombeta; anunciai ao meu povo os seus delitos, à casa de Jacó as suas prevaricações» (Is 58,1). E pela boca de Jeremias: «Aquele que tem a minha palavra, exprima-a fielmente» (Jr 23,28). «Filho do homem, diz a Ezequiel, eu te constituí sentinela na casa de Israel; ouvirás a palavra da minha boca e lha anunciarás da minha parte. Se, quando eu digo ao ímpio ― tu morrerás ―, não lha manifestares e não lhe falares, por temor de que se afaste do seu caminho ímpio e viva, o ímpio morrerá no seu pecado, mas de ti pedirei conta do seu sangue». ― Se, porém, lho comunicares, e ele persistir na sua culpa e na sua vida dissoluta, morrerá no pecado, mas tu terás salvo a tua alma (Ez 3,17.19).

É, pois, obrigado a pregar a palavra de Deus aquele que tem cura de almas; mas também o cristão é obrigado a escutar essa palavra… «Se não me dais ouvidos, dizia Santo Agostinho ao seu povo, nem por isso me calarei, e salvarei a minha alma, mas não quero salvar-me sem vós. Vós que recusais ouvir-me sois inimigos do médico, e eu sou inimigo da vossa doença; vós odiais o zelo com que vos advirto, e eu detesto a peste que vos mata (13)».

Em suma, tanto os pregadores como os fiéis devem cumprir as obrigações que Deus lhes impõe: aqueles, anunciando a verdadeira palavra de Deus, e não ideias profanas ou erros; anunciando-a frequentemente, sem se cansarem nem desanimarem; anunciando-a com força, prudência e ciência, sem temer ninguém; estes, escutando-a, tendo-a em reverência, pondo-a em prática e dizendo frequentemente a si mesmos que terão de prestar contas do abuso que dela tiverem feito.

7. QUEM É AQUELE QUE ANUNCIA CONVENIENTEMENTE A PALAVRA DE DEUS

O pregador tenha gravado na mente aquele aviso de São Paulo: «Seja o vosso discurso temperado com o sal da graça, de maneira que saibais como responder a cada um» (Cl 4,6); e jamais se esqueça destas palavras de São Jerônimo a Nepociano: um discurso, por mais rico, profundo, eloquente e apropriado que seja, jamais chegará a bom termo se lhe faltar o sopro do Espírito, que dá vigor às palavras; e que aquele que ensina na Igreja deve procurar provocar não aplausos, mas gemidos, e que o pranto dos ouvintes forme o seu elogio (14). E obterá isso mais facilmente se, antes de falar aos outros, meditar ele próprio em seu coração aquilo que deve dizer, porque, segundo a observação de Santo Agostinho: «Em vão faz ressoar exteriormente a palavra de Deus aquele que não a escuta primeiro no fundo da própria alma (15)».

Os sermões não muito longos são ouvidos com mais prazer, melhor apreciados e mais facilmente retidos. Exponde de modo claro, preciso e breve aquilo que o Senhor ordena, para que as almas dóceis o saibam e dele se lembrem. Não tenhais a pretensão, diz Vicente de Lérins, de querer dizer coisas novas, mas dizei as coisas antigas de forma nova (In Vita), isto é, falai de modo a conquistar a atenção e a benevolência dos ouvintes.

Narram os Atos dos Apóstolos que Herodes, vestido com pompa régia e sentado no trono, dirigiu um discurso com tanta eloquência e graça aos deputados de Tiro e de Sidon que o povo se levantou unânime para gritar: «Esta é a voz de um deus, e não de um homem». Naquele instante, o Anjo de Deus o feriu, porque não havia dado glória ao Senhor, e morreu devorado pelos vermes (At 12,21-23). Os pregadores jamais deveriam esquecer esse fato, que lhes serve de grande ensinamento.

«Aquele que possui a ciência do coração será eloquente», diz o Sábio (Pr 16,21). Para que um discurso seja eloquente, convém: 1° que seja imbuído de prudência e sabedoria…; 2° que seja adequado à circunstância e aos ouvintes; que todas as suas partes estejam dispostas com ordem, que seja claro, sólido, fácil de entender…; 3° que agrade…; 4° que proceda de um coração cheio de fé, de doçura, de bondade, de caridade etc.… Nos sermões, escreve Santo Agostinho, deve-se atentar para a verdade das sentenças, não para o requinte das palavras (In Psalm. VII). «Um discurso demasiado estudado e rebuscado, diz São Próspero, tira força e importância daquilo que se prega: não foram os pensamentos estabelecidos para as palavras, mas as palavras para servirem aos pensamentos (16)».

Um mesmo discurso não é adequado para todos, porque nem todos têm a mesma idade, inteligência, condição e piedade; nem todos têm o mesmo caráter e os mesmos costumes. Há coisas que prejudicam uns, enquanto beneficiam outros; assim como há ervas que alimentam certos animais e matam outros. Um leve assobio detém o cavalo e irrita o leão; o remédio que cura uma doença agrava outra; o pão que fortalece o homem mataria o enfermo ou a criança de peito. É preciso, portanto, preparar e distribuir com discernimento os próprios ensinamentos, para dar a cada um aquilo que lhe convém, sem, contudo, afastar-se das regras gerais…

Não sem razão a Sagrada Escritura compara um discurso a um favo de mel. Com efeito, 1° o mel é doce, e o orador deve ser todo doçura em suas palavras…; 2° o mel é o delicioso resultado do trabalho das abelhas, que são elas mesmas o modelo e o símbolo da prudência e da castidade; o discurso deve partir de uma alma prudente e pura…; 3° as abelhas compõem o mel com o suco de flores e de ervas odoríferas; é preciso que o pregador componha os seus discursos com o suco e o perfume das flores colhidas no jardim da Sagrada Escritura e dos santos Padres…; 4° o mel tem três propriedades: fortalece, adoça, cura; três efeitos análogos deve produzir o pregador: instruir, agradar, comover. Santo Agostinho, que tanto havia estudado e possuía admiravelmente a arte oratória, diz: «Um homem eloquente disse, e disse a verdade, que é eloquente aquele que consegue instruir, deleitar e comover. Instruir é necessidade, deleitar é suavidade, comover é levar a vitória» (Epl. XXXII). 5° as abelhas formam o seu mel com admirável arte; e o orador deve dispor o seu discurso com prudência, ordem e método; isso confere à sua palavra poderosa atração e doce eficácia.

Estudai, diz Santo Ambrósio, para extrair da palavra de Deus, que é toda fogo, três efeitos, que são: purificar, iluminar e inflamar; mas quem quer proporcionar aos ouvintes esses três bens deve ter a palavra de Deus na boca, no coração e nas obras. A palavra divina deve esclarecer o intelecto, estimular a vontade e adornar a memória (In Psalm. CXVIII). «A força dos oradores sacros, diz São Gregório, ressoa e queima: queima pelo desejo do bem que comunica; ressoa pela palavra que faz compreender. Uma pregação animada assemelha-se, portanto, a um bronze em brasa (17)». São Bernardo ensina que é dever dos pregadores retirar-se ao monte com Jesus Cristo, isto é, tender ao céu com os suspiros da alma e com a santidade da vida, e esforçar-se por chegar à perfeição das virtudes (In Psalm.). O mesmo Santo enumera sete graus pelos quais deve subir quem quer tornar-se apto a anunciar a palavra divina, a saber: 1° a contrição; 2° a devoção; 3° a penitência; 4° o exercício das obras de piedade; 5° o amor à oração; 6° o hábito da contemplação; 7° a plenitude do amor de Deus.

Meditem os sagrados oradores nas recomendações de São Francisco de Assis aos pregadores de sua Ordem. «Quero, caríssimos irmãos, que os ministros da palavra de Deus sejam tais que, dedicando-se aos estudos espirituais, não se ocupem de outra coisa, porque fostes escolhidos pelo grande Rei para arautos de seus oráculos aos povos. Deve, portanto, o pregador haurir na fervorosa oração interior o sentimento que depois manifestará em seus discursos sagrados; é preciso que, antes de falar, esteja inflamado do amor de Deus, porque venerável é o ministério da palavra e é preciso tê-lo em veneração. Os pregadores são os adversários dos demônios e a luz do mundo. Entre eles, são louváveis aqueles que cuidam de si mesmos e praticam primeiro aquilo que ensinam aos outros; mas maus operários são os que tudo dão à pregação e nada à devoção, e jamais se poderá chorar o bastante a triste sorte daqueles que vendem ao demônio, em troca de um louvor, os seus trabalhos. Acima de tudo, é agradável ao Pai das misericórdias o ministério da pregação, principalmente quando é abraçado pelo puro espírito de caridade e nele se emprega mais o exemplo que as palavras, mais as orações frequentes que as frases altissonantes. Oh! como se deveria chorar pelo orador que buscasse os louvores em vez da salvação das almas! E por aquele que destruísse, com uma vida desregrada, a autoridade de seus ensinamentos; seria mil vezes preferível um pregador de poucos talentos, mas de muita virtude, porque dele se poderia esperar um bem infinitamente maior. O pregador que tende à vanglória cuide muito de não se vangloriar de algum pouco fruto que porventura produza, porque, por maior que seja o fruto que produza, tudo está perdido para ele; mas ordinariamente ele é inteiramente estéril tanto para os outros como para si mesmo, pois Deus não abençoa nem a ele nem ao seu ministério» (Opusc. collat. XVII).

Acerca dele, São Boaventura testemunha que sua palavra era um fogo ardente, que penetrava até o fundo dos corações e arrastava consigo, maravilhados, os ouvintes. Em suas instruções nada transparecia de arte humana, mas sentia-se o sopro das inspirações e revelações divinas. Pregava a verdade com confiança imperturbável: não conhecia certas delicadezas com que às vezes é preciso dizer que se desculpe, em vez de açoitar, o vício; enfrentava com firmeza o pecador e não o lisonjeava; não se cansava de segui-lo em todos os refúgios em que se entrincheirasse, para abatê-lo e fazer dele um santo (In Vita).

É preciso que o pregador digno de tal nome seja já um dardo, tanto por seus exemplos como por suas palavras; então penetrará seguramente no coração de seus ouvintes; toda a sua vida será uma pregação incessante. Fazei, ó divino Jesus, que sejamos flechas ardentes, vigorosas e penetrantes para os pecadores, a fim de podermos dizer com a esposa dos Cantici: «Vós feristes o meu coração; morro de amor» (Cant. 4, 3; 2, 5).

Aqueles que anunciam o Evangelho por profissão, com frieza, indiferença ou temor; aqueles que almejam na pregação outro fruto que não seja a conversão dos homens e o seu proveito espiritual, mostram não compreender nem o que é a palavra de Deus, nem a dignidade do ministério de Jesus Cristo, nem o peso que grava a sua consciência. Os apóstolos dignos desse nome levam Deus consigo; oferecem-no e dão-no aos outros: que ofício se pode comparar a este? …

Os pregadores da palavra divina devem ser: 1° enviados por Deus e servir-lhe de instrumento…; 2° unidos a Deus pela oração e por uma perfeita obediência…; 3° ativos e zelosos…; 4° cheios de força e de unção…; 5° livres de vícios e resplandecentes de virtudes, para se tornarem, como o Batista, tochas ardentes e luminosas…; 6° lançar verdadeiramente suas flechas diretamente ao alvo, isto é, atingir o coração, insinuar nele o temor e o amor de Deus e não se contentar em agradar somente ao ouvido. Dom inestimável é uma língua sábia e eloquente; é preciso pedir todos os dias ao Senhor que no-la conserve e dizer com o Salmista: «Senhor, vós abrireis os meus lábios, e a minha boca anunciará os vossos louvores» (Sl 50, 16).

São Gregório diz que Deus abre os lábios daquele que pensa não somente no que dirá, mas em que tempo e a que pessoas o dirá. Sejam, pois, todos os nossos discursos pesados na balança da justiça, para que sejam revestidos de gravidade, tanto no sentido como nas palavras e na ação oratória. Não falemos senão quando for útil; examinemos o que convém dizer e o que convém calar; se a ocasião é propícia para tratar disso; finalmente, se de modo algum nos afastamos das regras da prudência, da sabedoria, da modéstia e da caridade (In Psalm. L). Um médico hábil e compassivo que deseja curar uma ferida cruel não poupa simplesmente com o intuito de poupar; não tem piedade do doente unicamente por ter piedade dele; assim deve agir o pregador (In Psalm. XVII).

Finalmente, seja como coroa de todas as advertências a sentença do Nazianzeno: «A obra vale mais que a palavra» (Orat. XXVII). «Pregar com o exemplo: eis a melhor das pregações. Ensinar e não fazer, escreve São Gregório, não somente não traz proveito algum, mas causa dano a muitos. Severa condenação pende sobre a cabeça daquele que se empenha em compor os seus sermões, mas não cuida de fortalecê-los com as obras. É dever do pregador mostrar primeiro em si mesmo aquilo que ensina aos outros. Jamais terá família espiritual o pregador que mata com o exemplo aqueles a quem deu vida com as palavras (18)».

Os exemplos daqueles que assim procedem destroem os efeitos que seus ensinamentos poderiam ter produzido. Apóstolos da humildade, são guiados pelo orgulho; recomendam continuamente, como virtudes necessárias, admiráveis e fáceis, a obediência, a pureza, a resignação, a caridade e assim por diante; inculcam ainda mais fortemente o contrário com seus escândalos e ora condenam com as obras as suas palavras, ora com as palavras as suas obras. Por isso, do conjunto de sua vida sai uma sentença de condenação; e no dia do juízo serão condenados tantas vezes, por sua própria boca, quantas tiverem exortado o próximo à prática de uma virtude que lhes foi desconhecida. Ah! Ouvi, diz o profeta Ageu, o que diz o Senhor dos exércitos: «Aplicai os vossos corações à vossa conduta: semeastes muito e colhestes pouco… Aqueles dentre vós que ajuntaram tesouros depositaram-nos numa bolsa furada» (Ag 1,5-6).

Aristóteles declara que aqueles que não procuram conformar suas ações às palavras destroem a verdade (Anton. in Meliss.); segundo Sêneca, ninguém é tão nocivo aos homens e digno de castigo quanto aqueles que vivem de maneira diferente daquilo que ensinam (19).

8. A CRUZ É UM EXCELENTE PREGADOR

«A palavra da cruz, escreve São Paulo, é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que chegam à salvação, para nós, é o poder de Deus» (1Cor. 1, 18). Nós pregamos, continua o mesmo Apóstolo, Jesus crucificado, escândalo para os judeus, loucura para os gregos, mas sabedoria e poder de Deus para os eleitos, sejam judeus ou gregos; porque a loucura de Deus é mais sábia que os homens, e a fraqueza de Deus é mais poderosa que eles (Ib. 23).

Que nos diz a cruz? Que nos prega? A queda do homem…; o amor infinito de Deus…; os delitos, as misérias, os castigos, a restauração do gênero humano…; o valor e a necessidade da penitência, dos sofrimentos, da resignação, do desapego do mundo e da pobreza…; o nada do mundo e da vida, a fealdade do pecado, a beleza da virtude, o valor da alma, a necessidade da salvação…; indica-nos o caminho do céu e ensina-nos o que devemos fazer para chegar até ele.

9. NECESSIDADE DE OUVIR E PRATICAR A PALAVRA DE DEUS

«Bem-aventurados aqueles, disse Jesus Cristo, que ouvem a palavra de Deus e a observam» (Lc 11, 28). O homem nasceu para a felicidade e sente necessidade dela; ora, se, segundo a garantia de Jesus Cristo, a felicidade consiste em ouvir a palavra de Deus e conformar nossa conduta a essa palavra, segue-se que devemos ouvi-la e praticá-la, sob pena de sermos infelizes.

«Não são justos diante de Deus aqueles que ouvem a lei, escreve o Apóstolo, mas somente serão justificados aqueles que cumprem a lei» (Rm. 2, 13). Esta sentença do discípulo diz, em outros termos, aquilo que o Mestre já havia dito com estas palavras: «Nem todos os que clamam: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus; mas somente aqueles que fazem a vontade de meu Pai celeste entrarão no reino dos céus» (Mt 7, 21). E quem é que faz a vontade de Deus, senão aquele que regula sua vida segundo os seus ensinamentos?

São Paulo nos adverte a não voltar as costas àquele que nos fala do céu (Hb 12, 25); São Tiago nos diz que seria enganarmos a nós mesmos ouvir a palavra de Deus sem pô-la em prática (Tg 1, 22). Com efeito, dá a si mesmo o nome de mentiroso, como diz São João, aquele que afirma conhecer Jesus Cristo e, entretanto, não observa a sua palavra (1Jo 2, 4). Com efeito, sem o conhecimento de seu Criador, o homem é um bruto, diz São Jerônimo (Comm. in Ioann.). Ora, é a palavra de Deus que revela Deus ao homem e o faz conhecê-lo; deve, portanto, o homem conformar-se a ela, sob pena de igualar-se ao bruto e viver como um bruto.

Por isso, o Salmista nos exorta a acolher prontamente a voz de Deus, em qualquer tempo e ocasião em que ela se faça ouvir por nós (Sl 94, 8); e propunha-se meditar sempre a palavra do Senhor e jamais deixá-la cair no esquecimento (Sl 118, 16). Também o Eclesiastes adverte que é preciso vigiar os próprios passos ao entrar na casa de Deus e aproximar-se para ouvir a sua palavra (Ecl. 4, 17).

«Conservai em vossa mente, diz São Gregório, a palavra de Deus que recebeis da boca do pregador; porque a palavra de Deus é o alimento da alma; quem não conserva em seu coração os ensinamentos apostólicos assemelha-se àquele enfermo que rejeita o alimento; mas certamente está privado de saúde aquele que já não retém o alimento (20)». Quem quer possuir a sabedoria deve desejar e amar as palavras de Deus (Sb 6, 12).

Não vos impeça de acolher esta palavra o fato de que, algumas vezes, ela vos venha de uma pessoa que não a respeita em seus costumes. É este o caso de dizer com Santo Agostinho: «Toma o fruto e deixa de lado o espinho; dá ouvidos àquele que te prega coisas boas, mas não o imites se ele pratica coisas más (21)». Por acaso despreza-se o ouro, diz o Crisóstomo, porque está sujo de terra? Certamente não; mas escolhe-se o ouro e deixa-se a terra; assim também vós, recebei a doutrina e não atenteis para os maus costumes. As abelhas sugam as flores e não olham para o caule; e vós também colhei a flor da sã doutrina, sem vos inquietardes com o restante.

10. É FÁCIL PRATICAR A PALAVRA DE DEUS

«Meu jugo é suave, afirma Jesus Cristo, e meu fardo é leve» (Mt 11, 30). E, contra a afirmação de Deus, quem quererá sustentar o contrário? Além de a palavra de Deus ser suave e não impor nada que não seja fácil, a graça caminha sempre com ela e com ela entra no coração de todo aquele que a recebe; e, com a graça, nada é difícil ao homem. «Deus, segundo a sentença de Santo Agostinho, não ordena nada de impossível; mas, ao ordenar, adverte-nos que façamos aquilo que podemos e peçamos aquilo que não podemos, e ele nos ajuda para que possamos (22)».

11. TODOS ENTENDEM A PALAVRA DE DEUS

«Ide, disse Jesus aos apóstolos, e ensinai todas as nações» (Mt 28, 19). «Sereis revestidos da força do Espírito Santo, que virá sobre vós, e sereis minhas testemunhas em Jerusalém, na Judeia, na Samaria e até os confins da terra» (At 1, 8). E eis que, poucos decênios depois, São Paulo já podia escrever aos Romanos que a fé deles era anunciada em todo o universo (Rm. 1, 8). E, visto que a fé vem pelo ouvido, a voz dos apóstolos, anunciadora da palavra de Deus, já havia ressoado por todo o mundo, e seus discursos tinham ecoado até os mais remotos recantos do globo (Rm. 10, 17-18). Desde os apóstolos até o presente, o Evangelho jamais cessou de divulgar-se e difundir-se por toda a face da terra. A história das perseguições é a história da difusão da palavra de Deus.

Jesus Cristo morreu pela salvação de todos os homens, e é vontade de Deus que todos cheguem ao conhecimento da verdade e se salvem» (2Cor 5,14; 1Tm.2,4), escrevia São Paulo; e São Pedro dizia abertamente aos judeus: «Esse Jesus que foi por vós crucificado é a pedra que, rejeitada por vós, os construtores, tornou-se a pedra angular; e lembrai-vos de que não há salvação em nenhum outro, nem foi dado sob o céu outro nome pelo qual possamos ser salvos» (At 4, 11-12). Se Jesus morreu por todos os homens, se quer que todos se salvem, se não há salvação em nenhum outro nome, segue-se que Jesus Cristo fornece a todos os meios suficientes para conhecê-lo, amá-lo e servi-lo. Mas os demônios, o mundo, as paixões, os maus exemplos e os preconceitos constituem obstáculo à salvação de muitos.

Como pode haver no mundo gente que não compreenda a palavra de Deus, enquanto o universo inteiro é uma voz que incessante e publicamente nos fala dele? Não é o sol um grande orador que fala a todos os lugares, a todos os séculos, a todas as gerações? A lua, os planetas e as estrelas não cantam porventura que são obra de Deus? A terra, o mar, os montes, os vales, as árvores, as flores, os pássaros e os insetos não proclamam em alta voz o poder e a bondade do Criador? Sim, o universo e suas maravilhas testemunham a existência de Deus, sua providência e seus atributos; estimulam o homem a adorá-lo, temê-lo, amá-lo e servi-lo… A lei natural não nos faz compreender a palavra divina? … E a revelação, tanto do Antigo quanto do Novo Testamento, não é uma voz irresistível, não é a voz pública de Deus? …

12. COMO SÃO CEGOS, CULPADOS E INFELIZES AQUELES QUE NÃO OUVEM E NÃO PRATICAM A PALAVRA DE DEUS

Diz o Venerável Beda: «Quão miserável e infeliz é a consciência daquele que, tendo ouvido a palavra de Deus, julga-se insultado! (23)». Por que os judeus precipitaram-se naquele abismo de cegueira, malícia e miséria, que é um mistério explicar? Porque, responde São Paulo, já não podiam suportar a palavra divina (Hb 12, 20). Em nossos dias, quantos pregadores são vozes que clamam no deserto (Is 40,3), ou porque o povo não vai ouvi-los, ou porque é pequeníssima a parcela daqueles que aproveitam seus ensinamentos!

Ó quão dignos de compaixão são aqueles cristãos cegos e desventurados que não tiram proveito da pregação! Jesus Cristo disse: «Quem me despreza e não ouve as minhas palavras tem quem o julgue; a palavra que lhe fiz ouvir será o seu juiz no último dia» (Jo 12, 48). O Senhor afirma que sua palavra jamais voltará a ele sem fruto, mas realizará os seus desígnios (Is 55, 11). Ela produz frutos de bênção no coração daqueles que estão bem dispostos, que a ouvem dócil e a praticam fielmente; produz frutos de maldição na alma daqueles que dela abusam.

O santo ancião Simeão, falando de Jesus Cristo, disse: «Este veio para a ruína e para a ressurreição de muitos» (Lc 2, 34). O mesmo se pode dizer de sua divina palavra: ela resulta em salvação para aqueles que a ouvem e a praticam; mas resulta em condenação para os incrédulos, os indiferentes e os ímpios que dela fogem e a desprezam. Assim como a luz do sol alegra e fortalece as pupilas sãs, ao passo que fere os olhos fracos e enfermos; assim como o fogo purifica o ouro e incinera a palha; do mesmo modo, a palavra de Deus agrada à alma sã, dá-lhe vigor e a purifica, enquanto entedia, cansa e torna ainda mais culpada a alma enferma, perversa e maldita.

13. POR QUE NÃO SE OUVE A PALAVRA DE DEUS E NÃO SE TIRA PROVEITO DELA

«Quem não me ama não observa as minhas palavras. Quem é de Deus ouve as palavras de Deus; vós, porém, não as ouvis, porque não pertenceis a Deus», disse Jesus Cristo (Jo 14,24; 8,47). Não se ama a Deus: eis por que se faz pouco caso de sua palavra. Cada um examine a si mesmo, diz São Gregório, para ver se recebe em seu coração a palavra de Deus, e por isso compreenderá a quem pertence. Jesus Cristo declara que o sinal da predestinação divina está em compreender a palavra divina e obedecer às suas santas inspirações; mas sinal de reprovação é rejeitá-la (Homil 18, in Ioann.).

«Eu sou o bom pastor, disse Jesus Cristo, e conheço as minhas ovelhas, e elas me conhecem. Vós não credes, porque não sois das minhas ovelhas. As minhas ovelhas ouvem a minha voz, eu as conheço e elas me seguem; eu lhes dou a vida eterna, e elas jamais perecerão, e ninguém as arrebatará de minha mão» (Jo 10, 14, 26-27). Caem muito bem na boca dos pregadores estas palavras do apóstolo São João: «Nós somos de Deus: quem conhece a Deus nos ouve; quem não pertence a Deus não nos dá ouvidos: por este sinal se distingue o espírito da verdade do espírito do erro» (1Jo 4,6).

«Para isso nasci e vim a este mundo, dizia o Salvador a Pilatos, para dar testemunho da verdade; todo aquele que é da verdade ouve a minha voz» (Jo 18, 37). Pilatos perguntou-lhe o que era a verdade e, dito isso, saiu (Ibid. 38). Notai a ignorância de Pilatos e sua indiferença: não sabe o que é a verdade, pergunta-o a Jesus Cristo e, entretanto, sem esperar nem prestar atenção à resposta, vai-se embora! Verdadeiro modelo de tantos cristãos que se furtam à luz, à unção e ao poder da palavra divina.

Os filhos de Israel, diz o Senhor, dizem aos profetas: Não olheis; e aos que prestam atenção às minhas palavras: Não deis ouvidos a esses discursos severos; falai-nos coisas que nos agradem. ― Lisonjeai-nos, dirigi-nos discursos que afaguem as nossas paixões (Is 30, 10). Assim falam também hoje os avarentos, os ambiciosos, os orgulhosos, os luxuriosos, os partidários do mundo e da vaidade… A moral evangélica é demasiado dura e incômoda para eles; querê-la-iam mais branda e flexível, porque eles são a fraqueza e a covardia em pessoa.

De tudo isso se conclui que as causas pelas quais não se ouve ou não se pratica a palavra de Deus são as seguintes: 1° a falta de amor a Deus; 2° não tomar o partido de Jesus Cristo, mas o do demônio; 3° a deficiência no conhecimento de Deus; 4° a falta de fé; 5° a aversão ou a indiferença pela verdade; 6° a corrupção do coração, as paixões e, em primeiro lugar, a soberba. «A palavra de Deus, observa São Cirilo, que, corrigindo os humildes, os melhora, torna-se insuportável aos orgulhosos (24)».

14. CASTIGOS RESERVADOS ÀQUELES QUE NÃO OUVEM E NÃO PRATICAM A PALAVRA DE DEUS

«Aqueles que não ouvem a voz de Deus, dizia Jó, serão entregues ao fio da espada e morrerão em sua cegueira» (Jó 36, 12). E dizia bem, porque estas são palavras do Senhor no Deuteronômio: «Eu me vingarei daquele que não quiser ouvir as palavras do enviado que falar em meu nome» (Dt.18,19); e por meio de Samuel havia dito ao povo de Judá: «Se não derdes ouvidos à voz do Senhor, mas tornardes vãs as suas palavras, a mão dele pesará sobre vós, como já pesou sobre a cabeça de vossos pais» (1Sm 12,15).

Não disse acaso o mesmo Samuel a Saul: «Porque rejeitaste a palavra do Senhor, o Senhor te rejeitou da sua parte?» (1Sm 15, 26). E um filho de um profeta não predisse ao rei Acab que seria morto por um leão, porque recusara ouvir a voz do Senhor? (1Rs 20, 36). A mesma ameaça faz o Senhor a todos quantos fecham os ouvidos à sua divina palavra. O leão que fará deles uma carnificina é o demônio, que ronda os homens, pronto para devorá-los.

O meu povo, diz Deus pela boca do Salmista, não ouviu a minha voz; Israel não me deu ouvidos, e eu os abandonei aos desejos de seus corações; seguirão o caminho de seus maus desígnios. Se Israel me tivesse dado ouvidos, eu teria humilhado e aniquilado aqueles que o calcam aos pés, teria obrigado seus inimigos a prestar-lhe homenagem, tê-lo-ia alimentado com trigo puro e feito correr para ele o mel das rochas. Mas, porque não se importou com a minha palavra, seus inimigos triunfarão sobre ele; eu o ferirei, e ele será infeliz, padecerá fome e, em vez de mel, terá absinto.

Finalmente, o próprio Jesus Cristo declara que, se alguém não der ouvidos à sua palavra ou a desprezar, não será ele quem o condenará, porque veio não para condenar o mundo, mas para salvá-lo; contudo, será a sua própria palavra que o condenará no último dia.

15. DISPOSIÇÕES E MEIOS PARA TIRAR PROVEITO DA PALAVRA DE DEUS

Para tirar proveito da palavra de Deus é preciso: 1° tê-la em alta estima…; 2° prestar-lhe grande respeito…; 3° preparar-se para ouvi-la…; 4° escutá-la com atenção…; 5° recebê-la e ocupar-se dela por aquilo que é em si mesma, como palavra de Deus, sem olhar para a boca que a anuncia, nem para o modo como nos é comunicada, seja eloquentemente ou de maneira simples…; 6° meditá-la…; 7° aplicar-lhe a memória, o entendimento e, especialmente, a vontade…; 8° fazer dela a regra da própria conduta…; 9° não deixá-la cair no esquecimento…; 10° agradecer a Deus o benefício que nos fez, fazendo-nos compreender seus ensinamentos.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.