«Sede pacientes com todos» (1Ts 5,14), diz São Paulo, «porque a paciência vos é necessária, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a recompensa prometida» (Hb 10,36). «Se, fazendo o bem, diz São Pedro, suportais pacientemente as provações, isto é graça diante de Deus. Esta é a vossa tarefa, porque Cristo padeceu por nós, deixando-nos um exemplo, para que sigamos os seus passos» (1Pd 2,20-21).
Todos temos continuamente necessidade de paciência, porque aqui embaixo tudo a põe à prova. Como o grande Apóstolo, somos tentados e corremos perigo nas viagens, da parte dos ladrões, dos falsos irmãos, dos familiares, dos estrangeiros, nas cidades e na solidão. Quantos trabalhos, desgostos, vigílias, privações, sofrimentos, ilusões! A quantos assaltos por parte da inveja, do ciúme, da maledicência, da calúnia, do ódio, não estamos nós expostos? O demônio, o mundo e a concupiscência não cessam de nos fazer guerra. Sem a paciência, que será de nós?
Se a nossa paciência é posta à prova, se ela nos é necessária, isto não é coisa nova. Depois da queda de Adão, todos os homens têm de sofrer. Lugar de exílio, terra estrangeira e maldita, coberta de abrolhos e espinhos, vale de lágrimas, de misérias, de doenças e de morte, é a terra. Todos os filhos de Adão estão condenados a submeter-se a mil aflições; a todos, portanto, sem distinção ou reserva, é necessária a paciência (sup.).
Que há de mais doce e mais paciente que o cordeiro? Por maior que seja o mal que lhe façais, não somente não sabe vingar-se, mas nem sequer queixar-se. Ora, este é o símbolo sob o qual os Profetas apresentam o Salvador: «Ele foi imolado porque quis, diz Isaías acerca de Jesus Cristo, e não abriu a boca; será conduzido à morte como uma ovelha, e permanecerá mudo como o cordeiro diante daquele que o tosquia» (Is 53,7). O próprio Jesus Cristo diz de si mesmo: «Sou como um cordeiro manso levado ao altar» (Jr 11,19). Por isso o mundo antigo dizia a Deus: «Enviai-nos, ó Senhor, o Cordeiro que reinará sobre a terra» (Is 16,1), e São João Batista, ao mostrar o Messias vindo, chama-o «Cordeiro de Deus» Ecce Agnus Dei (Jo 1,29).
Observai que admirável, constante e longânime paciência Jesus manifestou nos vários encontros de sua vida, principalmente no tempo da paixão. Se este divino pastor se fez ovelha e se deixou imolar como um tenro cordeiro, sem dar um balido, aprenda o rebanho a caminhar sobre as pegadas de tão grande pastor!… Jó no monturo, Abraão que vai imolar o filho, José vendido pelos irmãos, Davi perseguido, Tobias que ficou cego, Daniel na cova dos leões, Susana caluniada, Lázaro coberto de úlceras etc. são modelos nos quais podemos estudar e imitar o original.
Estudai a vida e a morte dos Apóstolos, contemplai os milhões de mártires que suportaram toda sorte de tormentos com paciência de cordeiro… O abade Estêvão era tão paciente que aquele que o insultava não podia deixar de ver e reconhecer que ele o amava. Levava esta virtude a ponto de recompensar aqueles que lhe davam ocasião de exercitá-la (SURIO, In Vita). Belo exemplo de paciência deu o imperador Teodósio quando promulgou o seguinte édito: «Se alguém chega a difamar o nosso nome, ou o nosso governo ou a nossa conduta, não queremos que incorra na pena ordinária estabelecida pelas leis, e proibimos aos nossos oficiais que o maltratem de qualquer modo: porque, se falou mal de nós por leviandade, é preciso desprezá-lo; se por cega loucura, é digno de compaixão; se por má disposição, é preciso perdoá-lo» (Stor. eccles.) … A vida dos Santos está repleta de sublimes exemplos de paciência.
São Paulo nos dá doze motivos que devem empenhar-nos na prática da paciência. O primeiro é que somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo, contanto que soframos pacientemente com ele e a seu exemplo (Rm 8,17). O segundo é que, se tivermos paciência, seremos glorificados (Ib.). O terceiro consiste em que as provações do tempo presente não têm proporção com a glória futura que será manifestada em nós (Ib. 18). Adquirir a glória eterna com sofrimentos temporais é um ganho muito melhor que comprar o mundo inteiro com um óbolo. O quarto é que as tribulações momentâneas e leves do século presente, suportadas com paciência, nos alcançam um peso imenso e eterno de glória (2Cor 4,17). O quinto é que as criaturas têm a certeza de ser libertadas da corrupção (Rm 8,21). Esta certeza deve encorajar-nos à paciência. O sexto é que, da escravidão da corrupção, passaremos à liberdade da glória dos filhos de Deus (Ib.). O sétimo é que toda criatura geme e sofre (Ib. 22). Desde o princípio do mundo, as criaturas conheceram o sofrimento; o homem, a quem resta pouco tempo para sofrer, deve, portanto, ter paciência e não procurar uma isenção dos males, o que seria uma exceção. O oitavo é que esperamos a redenção do nosso corpo (Rm 8,23). Pela paciência, este corpo alquebrado se tornará impassível e glorioso. O nono consiste em que a nossa salvação provém da esperança (Ib. 24). Se devemos ter a firme esperança de em breve sermos livres e salvos, não devemos impacientar-nos nem desanimar. O décimo deriva do fato de que o Espírito Santo ajuda a nossa fraqueza e suplica por nós com gemidos inefáveis (Ib. 26). Como poderemos, sustentados por tal auxílio, queixar-nos e murmurar? O décimo primeiro é que sabemos que, para aqueles que amam a Deus, tudo concorre para o bem (Ib. 28). Por isso, os opróbrios, a indigência, as doenças, as perseguições e toda sorte de males se convertem em nosso proveito, se os aceitarmos com resignação por amor de Deus. O décimo segundo é que aqueles que são pacientes por amor de Deus estão predestinados (Rm 8,29-30). A paciência assegura, pois, a nossa salvação e felicidade eterna…
«Fatigai com a vossa paciência a maldade alheia», dizia Tertuliano, que, quanto a si, se propunha ser paciente em todas as coisas; pois, de outro modo, a sua impaciência teria sido o seu carrasco (1). Santo Agostinho, falando dos cruéis tormentos que o tirano Daciano fez sofrer ao diácono Vicente, termina dizendo: «Tudo passou: tanto a cólera de Daciano como os sofrimentos de Vicente. Mas, no presente, os tormentos são para Daciano, e a coroa para Vicente (2)». Atanásio ia para o exílio e, aos cristãos que via chorando à sua passagem, repetia: Coragem, meus filhos, a nuvem é leve e desaparecerá muito em breve.
Bíon, embora pagão, dizia que é grande desgraça não ter paciência nas desgraças; porque, sem paciência, não se desfruta de um só momento de felicidade nesta vida (DIOG. LAERT. De Vita Phil. 1. 4, c. VII). «Espera pacientemente no Senhor, e ele te libertará», lemos nos Provérbios (20,22).
«Somos amaldiçoados, e bendizemos; perseguidos, e suportamos; injuriados, e rezamos» (1Cor 4,12-13), diz São Paulo; e em outro lugar acrescenta: «Em todas as coisas somos maltratados, mas não desanimamos; golpeados, mas não prostrados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não desencorajados» (2Cor 4,8-9). Eis os serviços que presta e as maravilhas que opera a prática da paciência! …
«Toda injúria, venha ela da língua ou da mão, quando encontra a paciência, perde o gume, como o dardo que atinge um duro rochedo (3)», escreve Tertuliano. «Como a arca de Noé, diz Gerson, elevava-se tanto mais quanto mais cresciam as águas; assim a alma temperada pela paciência tanto mais se engrandece quanto mais abundam as tribulações (4).» É sentença do Cardeal Belarmino, que uma onça de paciência vale mais que uma libra de vitória (Comment. in Psalm.); o Venerável Beda escreve que «dá prova de ser perfeito aquele cuja paciência não pode ser fatigada» (Comment. in S. Iac.).
Elevada ao seu mais alto grau, a paciência deseja os insultos e os sofrimentos, de qualquer parte que venham e por mais graves que sejam: «A provação da fé gera a paciência, diz o apóstolo São Tiago; a paciência produz obra perfeita, de modo que sejais perfeitos, completos, sem faltar em coisa alguma» (Tg 1,3-4). De muitos modos a paciência torna o homem perfeito.
Primeiramente, como a paciência leva o homem a suportar tudo e a perseverar até o fim, ela o dota de virtudes e lhas conserva. A paciência pode ser comparada ao telhado das casas, que protege os moradores das intempéries; aos colchões de lã, que amortecem as bombas, etc. Sem a paciência, nenhuma virtude reina no homem, pois todas as virtudes são o resultado de provas suportadas; ora, a paciência é necessária para suportar qualquer prova.
Em segundo lugar, a paciência ajuda o homem a completar sua corrida e alcançar a meta da carreira; ela lhe põe sobre a cabeça uma rica e divina coroa. A paciência de que fala o apóstolo São Tiago é a perseverança nos sofrimentos, e é ela que produz obras perfeitas.
Em terceiro lugar, a paciência é escudo e elmo que rebatem e quebram os dardos dos inimigos infernais e das paixões. Afasta todos os males, une bens opostos e vence todas as coisas. O homem paciente é senhor de si mesmo e de seus afetos; governa-os como rei: e um homem assim não é acaso perfeito? Foi isso que Jesus quis dizer com estas palavras: «Na vossa paciência possuireis as vossas almas» (Lc 21, 10). «Bem-aventurados os pacientes, os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5, 4). Observa São Tomás (2-2 q. 136, art. 2) que o homem possuirá sua alma na paciência, porque esta virtude extirpa as paixões que o tornam infeliz: a tristeza, por exemplo, a cólera, a inveja, a vingança e outras paixões semelhantes que transtornam a alma.
Em quarto lugar, nada falta àquele que tem paciência; ela supre tudo de que ele necessita e o conduz insensivelmente ao mais alto grau de santidade; com efeito, São Gregório chamou a paciência de «raiz e guardiã de todas as virtudes» (Homil XXXV). E é a raiz e a guardiã de todas as virtudes, primeiro, porque as adversidades que a paciência generosamente tolera sufocam o amor-próprio, causa de todo pecado e imperfeição; depois, porque produz seis obras perfeitas: 1° refreia o ciúme, a cólera e outras paixões semelhantes…; 2° prova o homem e suas virtudes…; 3° põe à prova a si mesma…; 4° proporciona a alegria do espírito…; 5° governa todos os atos do homem, de modo que ele se comporte em tudo com moderação e circunspecção…; 6° assegura a vida eterna…
Em quinto lugar, a paciência torna o homem perfeito e completo; pois, assim como o tronco da árvore sustenta ramos, folhas, flores e frutos, a paciência sustenta todo o peso do homem e de suas virtudes; tudo o que há de penoso e pesado em sua vida: as contradições, as penas, os sofrimentos, as humilhações, as angústias e coisas semelhantes; conserva-lhe calmos e alegres o espírito, a palavra e o semblante. Por isso, Clemente de Alexandria deixou escrito que a paciência nos proporciona todo bem (Homil. tomo I).
Em sexto lugar, a paciência tem por guia e, segundo a expressão de Tertuliano, por depositário, o próprio Deus: «Muito seguro depositário, diz este grave autor, torna-se Deus para a paciência: se puserdes em suas mãos uma injúria que vos foi feita, ele a vingará; se um dano que vos foi causado, ele o reparará; se uma dor, ele a curará; se o vosso último suspiro, ele vos ressuscitará. Deus se faz nosso devedor, na medida em que o quer a paciência (5)». Santo Agostinho compara a paciência a uma harpa cujas cordas, formadas pelas tribulações, modulam um hino agradável a Deus; mas aquele que, nas adversidades, se deixa abater, quebra a sua harpa (6).
Em sétimo lugar, a paciência produz obra perfeita, porque sua obra por excelência é a aceitação do martírio, isto é, o ato mais nobre e mais belo que o homem pode realizar com o auxílio de Deus. A paciência gera os confessores da fé e os coroa. A própria vida deles é um martírio. A paciência triunfa sobre tudo, até mesmo sobre Deus…
Em oitavo lugar, a paciência nos torna semelhantes a Jesus Cristo, que é a paciência por excelência.
Em nono lugar, quem suporta os males com paciência transforma-os em bens; sai da provação vitorioso, purificado e excelente. A paciência é remédio contra todos os males, pois por meio dela nos unimos a Deus, que é todo bem.
Mostrar paciência, especialmente nas injúrias, esquecê-las, perdoar e beneficiar aqueles que põem à prova nossa longanimidade fazendo-nos mal, é ato verdadeiramente régio, ou melhor, divino: «Sinal de ânimo viril e grande é, diz Sêneca, manter-se tranquilo e calmo, não dando atenção às injúrias e desprezando as ofensas. Ao contrário, irritar-se é ato de mulherzinha» (In Prov.). Assim julgavam a paciência os próprios pagãos.
«O justo não se entristecerá, aconteça-lhe o que acontecer», lemos nos Provérbios (12, 21). Observe-se que o Sábio não diz que nenhum mal aconteça ao justo que se distingue por sua paciência; ao contrário, vemos muitas vezes suceder o oposto: Jó, por exemplo, Davi, Tobias e Daniel foram submetidos a grandes tribulações. Mas a Escritura diz: a paciência e a igualdade de ânimo, que se manifestam no justo, vencem toda prova; ele suporta, resignado, alegre e corajoso, toda tribulação, venha ela de Deus, dos homens, do demônio, de outra criatura ou dele mesmo. Nenhuma aflição o perturba, nenhum desgosto o angustia, nenhuma tristeza o abate; mas, em meio a todas as adversidades, permanece firme, irremovível, paciente e dócil, pois a paciência é o verdadeiro remédio para os males da vida. Preparai vossa alma para as provações e sereis felizes; nenhum carrasco vos pode tirar a felicidade que a paciência proporciona e que Deus lhe prometeu. É doutrina de São Tomás que, em Jesus Cristo e nos justos, a tristeza consiste em prever e sentir os males, mas não em perturbar-se por causa deles (2-2 q. 136, art. 2).
As razões pelas quais o justo não se angustia nem se aflige por coisa alguma são as seguintes: em primeiro lugar, o pouco valor que atribui às coisas do mundo; não pondo nelas o seu coração, mas desprezando-as, não sente desgosto quando as vê serem-lhe tiradas… «Pensa, dizia Sócrates, que nenhuma coisa deste mundo é estável; assim, na prosperidade, não te entregarás a uma alegria desmedida; na adversidade, não te deixarás vencer por uma tristeza excessiva (7)». Em segundo lugar, o cuidado com que refreia as paixões, fonte dos pecados e, por conseguinte, das agitações e angústias, segundo aquele dito de Jeremias: «Jerusalém pecou, por isso se tornou instável» (Lm 1, 8): «Renunciemos de bom grado aos bens da terra, escreve Tertuliano, mas defendamos os do céu. Pereça o mundo, contanto que eu adquira a paciência (8)». Terceiro, a preferência que dá à paz acima de todo outro bem. Qualquer sacrifício que isso lhe custe, ele abraça a paciência e se apega firmemente a ela… Quarto, a convicção de que ele e tudo o que possui estão nas mãos de Deus e sob as asas da Providência. Repousa sobre a bondade e a vigilância do pai comum dos homens. Os filhos de Deus são invulneráveis, diz Píndaro (Anton. in Meliss.). Quinto, a união de sua alma com Deus, união tão estreita que essa alma faz, por assim dizer, uma só coisa com ele. E, como Deus é imutável e impassível, torna assim os homens pacientes e os justos unidos a ele…
«Se Deus está conosco, diz o Crisóstomo, nem as desgraças, nem as ciladas, nem coisa alguma do mundo pode nos prejudicar; mas, assim como um carvão em brasa se apaga quando mergulhado na água, assim também toda a maior angústia da alma facilmente se dissipa e desaparece, se recai sobre uma consciência irrepreensível. Ninguém é ofendido senão por si mesmo (9).» Segundo São Gregório, menos esplêndida é a vitória alcançada pela conquista de uma fortaleza do que aquela que se obtém contra si mesmo pela paciência: pois, no primeiro caso, submete-se um poder exterior; no segundo, a alma domina e vence a si mesma (10). Por isso, Claudiano afirma que merece dominar sobre tudo aquele que aprendeu a governar a si mesmo (11).
É preciso mais força para suportar pacientemente as adversidades do que para realizar grandes feitos, e isso pelas três razões seguintes, já apontadas por São Tomás: 1° porque as adversidades que caem sobre nós se apresentam como mais fortes do que nós, ao passo que aquele que realiza uma ação heroica a empreende porque se julga mais forte do que ela; ora, não é mais difícil lutar contra alguém que julgais superior a vós em forças do que contra aquele que julgais inferior? 2° porque quem resiste pacientemente às adversidades sente os perigos da luta, enquanto quem assalta uma fortaleza considera os perigos ainda distantes; ora, é muito mais difícil e raro não se deixar atemorizar pelos males presentes do que pelos futuros; 3° porque, nas tribulações, o combate não tem trégua, ao passo que um assalto à mão armada ocorre subitamente e ordinariamente não dura muito tempo (2-2 q. 136, art. 3).
Nada, no que diz respeito à força, pode comparar-se com a paciência; quem possui essa virtude jamais pode sofrer grande coisa, porque sua alma é como que impassível. A paciência é um verdadeiro poder. Deus é poderosíssimo porque é pacientíssimo. A cólera e a impaciência são sinais de fraqueza, de pusilanimidade, de impotência… Eis por que São João Crisóstomo diz que não se vingar torna o homem igual a Deus (Homil. 6, in Act.).
A paciência demonstrada em todas as circunstâncias da vida é sinal característico de uma alma grande. A parte superior, mais bela e mais bem ordenada do mundo é o firmamento. Ora, ele jamais fica imerso nas névoas, nem sulcado pelos raios, nem sujeito ao turbilhão, nem agitado pelos ventos, nem manchado pela poeira; as tempestades formam-se nas regiões inferiores. Assim também o homem paciente jamais perde a paz; eleva-se acima daquilo que poderia perturbá-lo, conquista o respeito e adquire grandes méritos. A alma que sabe sofrer com moderação e doçura, sem queixas nem murmurações, mostra-se bela, grande, elevada e perfeitamente ordenada; mantém-se muito próxima do esplêndido sol da eternidade.
«Dá prova de grande virtude, diz Santo Isidoro, aquele que não retribui a ofensa com ofensa; demonstra grande fortaleza de ânimo se, ofendido, perdoa; adquire esplêndida glória se poupa um inimigo a quem poderia prejudicar (12).» Ora, a paciência faz tudo isso. «É próprio de uma alma generosa desprezar as injúrias, diz Sêneca; vingá-las é próprio de um espírito vil e fraco» (Epl. LXXVII). «O cristão, diz São Máximo, sofre com resignação para merecer a recompensa que lhe foi prometida e para dar exemplo aos seus concidadãos; suporta com paciência para proporcionar a si mesmo o repouso e ao próximo a salvação (13)».
«Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5, 4). Possuirão a terra, isto é, as riquezas deste mundo, porque não haverá quem procure suscitar contra eles contendas e obstáculos. Além disso, quem tem doçura e paciência contenta-se com o pouco que possui, o que vale por uma fortuna. Mas a terra que lhes é prometida é principalmente a terra dos vivos, o céu. Na terra que os homens pacientes devem possuir, São Bernardo vê o corpo e a alma que eles governavam com a paciência, reinando sobre todos os movimentos do coração e dos sentidos (In haec verbo Matth.).
Tertuliano faz este magnífico elogio da paciência: «Protege a fé, governa a paz, ajuda a caridade, faz crescer a humildade, aguarda o arrependimento, assinala o tempo conveniente para a confissão, domina a carne, vigia o espírito, refreia a língua, detém a mão, calca aos pés as tentações, afasta os escândalos, consuma o martírio; consola o pobre, modera o rico, ampara o fraco, não fatiga o forte, alegra o fiel, convida o gentio, recomenda o servo ao senhor e o senhor a Deus; adorna a mulher, torna respeitável o homem; é amada nas crianças, louvada nos jovens, admirada nos anciãos, bela em todas as idades e em todos os sexos. A paciência mostra um rosto calmo e tranquilo, uma fronte serena, não sulcada por rugas de tristeza ou de ira; mantém os olhos baixos por sentimentos de humildade, não de abjeção; sua boca fechada presta homenagem ao hábito do silêncio (14)».
São Cipriano diz: «A paciência nos recomenda e nos conserva unidos a Deus. Modera a cólera, refreia a língua, governa a alma, conserva a paz, regula a disciplina, quebra o ímpeto da paixão; abranda o orgulho, extingue o ódio; restringe o poder dos ricos, socorre a indigência dos pobres, protege a feliz integridade das virgens, a laboriosa castidade das viúvas, o amor e a união dos cônjuges; mantém a humildade na prosperidade e dá força nas adversidades, doçura em meio aos insultos e às injúrias; ensina a perdoar prontamente àqueles que faltam e a rezar muito e por longo tempo quando nos acontece faltar; vence as tentações, suporta as perseguições, conduz à vitória por meio dos sofrimentos e dos tormentos (15)».
Ninguém pode prejudicar a verdadeira paciência; atacá-la é torná-la mais aprimorada e resplandecente. Os bens que lhe são arrebatados, os males que lhe são infligidos, tudo ela deposita nos tesouros de Deus, que lho restituirá centuplicado… O abade João repetia aos seus discípulos: «A paciência, principalmente em meio às injúrias, é a porta do céu» (Vit. Patr.). Nada é tão doce, agradável e digno do homem quanto opor a paciência a todas as ofensas… «Porque observaste a minha palavra de paciência, disse o Senhor ao Bispo de Filadélfia, também eu te guardarei e protegerei na hora da provação» (Ap. 3, 10). «Grande prudência há na paciência, dizem os Provérbios; o impaciente, ao contrário, manifesta a sua insensatez» (Prov. 14, 29). O homem colérico proclama em alta voz a sua loucura com os gritos, com o agitar dos braços, com a exaltação; não diminui o seu mal, mas o aumenta e duplica…
«O homem paciente, diz Santo Efrém, tem por guia uma grave prudência. O que há de mais admirável e vantajoso? Ele está sempre alegre, põe a sua esperança em Deus, não sabe o que é a cólera, suporta tudo, não se irrita, não insulta ninguém, não profere palavra que possa causar dano. Se é ofendido, não se entristece, não discute com aqueles que têm opinião diferente da sua; mostra-se constante e forte em todas as circunstâncias, alegra-se com as provações, não se melindra com os invejosos. Se lhe é dada uma ordem, obedece; se é repreendido, não se queixa; exercita-se continuamente em perseverar na paciência (Serm. V).
A prudência do paciente e a imprudência do impaciente manifestam-se por estes sinais: 1° O homem paciente mostra que domina a ira; o impaciente deixa ver que é seu escravo. Aquele domina as suas aflições e a si mesmo e, por isso, goza de paz constante e perfeita; este, ao contrário, está sempre atormentado pelas paixões e, portanto, sempre perturbado e inquieto. 2° Calando-se e permanecendo tranquilo, o homem paciente triunfa sobre a própria cólera e sobre a dos outros; ao passo que o impaciente é escravo de uma e de outra. 3° Com doçura e moderação, o homem paciente muitas vezes converte o colérico e infunde em seu coração a própria paciência; o homem furioso, ao contrário, às vezes arrasta o paciente a atos de cólera furiosa. Aquele se assemelha a um febricitante; este, a um médico que modera os ataques e os paroxismos da febre e restitui o bom senso àquele que trata. Esta é a comparação empregada por São Pedro Crisólogo. «Não é verdade, porventura, diz ele, que, quando uma febre ardente assalta um infeliz, lhe tira o juízo, leva-o ao delírio e até ao furor? Os sentidos do enfermo ficam perturbados, seu espírito já não se sustenta, ele se torna feroz e bate e morde quem dele se aproxima. Então, para louvor da caridade, para glória da arte, para honra do seu saber e da sua compaixão, o médico arma-se de paciência; não dá atenção aos insultos do enfermo, suporta-lhe os incômodos, as pancadas e as mordidas, considerando-se feliz se consegue curá-lo ou ao menos diminuir-lhe os sofrimentos; acalma-o com o óleo da paciência, cerca-o de cuidados e faz que tome os remédios convenientes, certo de que o enfermo, recuperado de si mesmo e curado, lhe será grato e o recompensará generosamente por todos os cuidados» (Serm. III). Eis no febricitante o homem impaciente e, no médico caridoso, o paciente; somos médicos espirituais: salvemos a nossa alma e a de nossos irmãos; trabalhemos para curá-los de toda cólera e ira com a nossa paciência e caridade; e, quando estiverem curados, receberemos deles os agradecimentos e a gratidão…
«O homem colérico suscita contendas; o homem paciente extingue as que já se inflamam», lemos nos Provérbios (15, 18). Por isso, é bom o conselho de Sêneca: «Deixai que as discussões comecem pelos outros; de vós parta a palavra da concórdia (16)». A cólera tira ao homem três tesouros incomparáveis: a gravidade, a sabedoria e a paz.
«O homem paciente, lemos ainda nos Provérbios, vale mais que um guerreiro audaz; quem é senhor de seu ânimo vale mais que aquele que conquista fortalezas» (Pr 16,32). São Gregório Nazianzeno escreve que nada detém e desarma mais prontamente um perseguidor do que aquele que o enfrenta armado de paciência (Orat. XIX); o Crisóstomo exprime o mesmo pensamento com esta comparação: «Não perde tão prontamente o calor um ferro em brasa mergulhado na água, como o homem colérico abranda a ira quando deve tratar com uma alma cheia de longânime paciência. Se formos pacientes e dóceis, seremos fortes e poderosos (17)». Muitos troféus, diz também um poeta, ostenta a força, mas muitos mais conta a paciência. Quereis ser irrepreensíveis? Sede pacientes, sabei conter-vos. O melhor meio de punir aqueles que nos ultrajam consiste em demonstrar grande paciência. Esta virtude vos ajudará a suportar aquilo que não podeis corrigir. A paciência é a rainha do mundo (18).
Tornar-se superior aos insultos por meio da paciência é a mais esplêndida das vitórias, diz o Crisóstomo. Deus nos deu forças para vencer, não com armas, mas com a paciência. Onde não se celebra o triunfo de José, que sustentou com tanta coragem a adversidade? Pela paciência, triunfou das ciladas que lhe armaram os irmãos e a mulher impudica. Jó, por sua paciência, triunfou dos esforços do demônio, dos insultos da esposa, das afrontas dos amigos, da pobreza, da doença e de mil sofrimentos; por sua paciência foi mais forte que Sansão, que tantas vezes derrotou os filisteus. Sofrendo com resignação e paciência o ódio de seus irmãos, o exílio, a calúnia e a prisão, José chegou a dominar a si mesmo, conquistou o favor do Faraó, tornou-se o senhor e o salvador do Egito. Davi mostrou-se mais forte triunfando de Saul pela paciência do que derrubando o gigante Golias (Homil. 6, in Act.).
O sábio compreende que, nesta vida miserável, o homem não pode deixar de encontrar tribulações; por isso, prepara-se para recebê-las e suportá-las com paciência; além disso, não ignora que, recebendo-as com impaciência, aumentaria o mal e a dor. Com efeito, seria então atormentado pelo mal que o aflige e pelo ressentimento produzido por sua cólera; ao passo que, em virtude da paciência, experimenta apenas o mal inseparável da condição da natureza decaída; e este mesmo lhe é de tal modo suavizado, que quase já não o sente. Além disso, se se irasse, ofenderia a Deus e atrairia sobre si, como punição de sua cólera, novas penas, ainda mais dilacerantes. Sofreria, por conseguinte, muito mais, perderia todo o mérito que poderia obter de seus sofrimentos e se exporia às penas eternas. Quem pensa nessas verdades previne-se contra a impaciência e procura suportar tudo com resignação.
Além disso, o sábio sabe que o verdadeiro bem de sua alma aqui embaixo é a paz, mas sabe igualmente que a paz não deriva senão da paciência; por isso, em todas as contrariedades, aflições e tribulações, pratica esta virtude, a única capaz de lhe proporcionar tão grande bem… O homem paciente, tornando-se superior ao mundo, fixa sua alma em Deus e não se ocupa senão do céu. A sabedoria e a glória do homem paciente consistem em poder dizer sem mentira: Vivo do amor de Deus e do desejo do céu. Deus, rio de vida, extingue a minha sede; Deus, pão vivo, é o meu alimento; a pobreza me enriquece; desprezo a morte; possuo bens reais e, portanto, nada me falta…
São Basílio dava este conselho: «Procura, meu filho, adquirir a paciência, porque ela é a maior virtude da alma; apodera-te dela para chegares prontamente ao ápice da perfeição. A paciência é o supremo remédio da alma; a impaciência é o câncer do coração (19)». Sêneca diz: «São leves as tribulações que nos oprimem? Suportemo-las, e a paciência as abrandará; são pesadíssimas? Suportemo-las, e a nossa glória delas tirará proveito na proporção de seu peso» (Epist.).
É preciso ser paciente com todos: «Suportai-vos pacientemente uns aos outros na caridade» (Ef 4,2), escrevia São Paulo aos efésios; aos tessalonicenses recomendava que se mostrassem pacientes com todos (1Ts 5,14).
«A paciência produz uma obra perfeita», diz São Tiago (Tg 1,4). Ora, para que a paciência produza essa obra perfeita, deve primeiramente tolerar os males com coragem e perseverança; em segundo lugar, deve suportá-los pela fé em Jesus Cristo, pela justiça e pela virtude; em terceiro lugar, deve estar unida às outras virtudes. Os deveres que deve cumprir para ser perfeita e meritória são: 1° perdoar àquele que ofende; 2° fazer-lhe o bem quando se apresentar a ocasião; 3° receber a provação como excelente remédio; 4° tornar-se superior às injúrias…
Por três graus a paciência sobe à perfeição. O primeiro consiste em sofrer com resignação…; o segundo, em sofrer de boa vontade…; o terceiro, em sofrer com alegria… E por que é preciso alegrar-se nas contrariedades e aflições? … 1° Porque estas nos desapegam do século. Deus no-las envia, diz São Gregório, para que não amemos demasiado o caminho nem o prefiramos à pátria, que é o céu (Moral. c. XXIII).
Santo Agostinho diz: «As tribulações nunca deixam de molestar o homem, para que ele, viajante rumo à pátria, não prefira um estábulo à casa que o espera (20)». 2° Porque as aflições são o sinal da eleição e da predestinação divina.
É preciso, escreve São Tomás, suportar com paciência e alegria os golpes do Senhor, 1° por causa do afeto que nos tem aquele que nos fere, segundo estas palavras dos Provérbios: «Meu filho, não te irrites com as provações a que o Senhor te submete, porque ele corrige aquele que ama e se compraz nele, como um pai no filho» (Pr 3,11-12). 2° Por causa da consciência de nossa culpa, pela qual cada um pode dizer: «Suportarei a ira do Senhor, porque pequei contra ele» (Mq 7,9). 3° Em consideração à esperança da recompensa: «Bem-aventurado o homem, exclama São Tiago, que suporta a tentação; porque, depois de ter sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu àqueles que o amam» (Tg 1,12). 4° Por causa da inutilidade das murmurações, segundo estas palavras de Jeremias: «Por que, pois, murmura o homem vivente, o homem punido por seus pecados?» (Lm 3,39).
«Não procureis defender-vos, diz São Paulo, mas deixai passar a ira» (Rm 12,19); isto é: deixai a Deus o cuidado de vossos interesses e cedei àquele que vos assalta com ira; mantende-vos em silêncio… Sofrei com resignação… Quando vossa paciência for posta à prova, dizei: Se mereci esta cruz, levá-la-ei para satisfazer por meus pecados; se não a mereci, suportá-la-ei igualmente, à imitação de Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe; mais resplandecente se tornará a minha coroa… Finalmente, volte-se o olhar para a paixão de Jesus Cristo: «Não há cruz, por mais grave que pareça, que não suporte com paciência aquele que se recorda da paixão de Jesus Cristo», escreve São Gregório (De Conflic. virtut. et vil.).