Tesouro n.º 146 · Volume III

PACIÊNCIA PAZIENZA

7 seções · 47 parágrafos · pp. 1713–1727 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DA PACIÊNCIA

«Sede pacientes com todos» (1Ts 5,14), diz São Paulo, «porque a paciência vos é necessária, para que, fazendo a vontade de Deus, alcanceis a recompensa prometida» (Hb 10,36). «Se, fazendo o bem, diz São Pedro, suportais pacientemente as provações, isto é graça diante de Deus. Esta é a vossa tarefa, porque Cristo padeceu por nós, deixando-nos um exemplo, para que sigamos os seus passos» (1Pd 2,20-21).

Todos temos continuamente necessidade de paciência, porque aqui embaixo tudo a põe à prova. Como o grande Apóstolo, somos tentados e corremos perigo nas viagens, da parte dos ladrões, dos falsos irmãos, dos familiares, dos estrangeiros, nas cidades e na solidão. Quantos trabalhos, desgostos, vigílias, privações, sofrimentos, ilusões! A quantos assaltos por parte da inveja, do ciúme, da maledicência, da calúnia, do ódio, não estamos nós expostos? O demônio, o mundo e a concupiscência não cessam de nos fazer guerra. Sem a paciência, que será de nós?

Se a nossa paciência é posta à prova, se ela nos é necessária, isto não é coisa nova. Depois da queda de Adão, todos os homens têm de sofrer. Lugar de exílio, terra estrangeira e maldita, coberta de abrolhos e espinhos, vale de lágrimas, de misérias, de doenças e de morte, é a terra. Todos os filhos de Adão estão condenados a submeter-se a mil aflições; a todos, portanto, sem distinção ou reserva, é necessária a paciência (sup.).

2. EXEMPLOS DE PACIÊNCIA DADOS POR JESUS CRISTO E PELOS SANTOS

Que há de mais doce e mais paciente que o cordeiro? Por maior que seja o mal que lhe façais, não somente não sabe vingar-se, mas nem sequer queixar-se. Ora, este é o símbolo sob o qual os Profetas apresentam o Salvador: «Ele foi imolado porque quis, diz Isaías acerca de Jesus Cristo, e não abriu a boca; será conduzido à morte como uma ovelha, e permanecerá mudo como o cordeiro diante daquele que o tosquia» (Is 53,7). O próprio Jesus Cristo diz de si mesmo: «Sou como um cordeiro manso levado ao altar» (Jr 11,19). Por isso o mundo antigo dizia a Deus: «Enviai-nos, ó Senhor, o Cordeiro que reinará sobre a terra» (Is 16,1), e São João Batista, ao mostrar o Messias vindo, chama-o «Cordeiro de Deus» Ecce Agnus Dei (Jo 1,29).

Observai que admirável, constante e longânime paciência Jesus manifestou nos vários encontros de sua vida, principalmente no tempo da paixão. Se este divino pastor se fez ovelha e se deixou imolar como um tenro cordeiro, sem dar um balido, aprenda o rebanho a caminhar sobre as pegadas de tão grande pastor!… Jó no monturo, Abraão que vai imolar o filho, José vendido pelos irmãos, Davi perseguido, Tobias que ficou cego, Daniel na cova dos leões, Susana caluniada, Lázaro coberto de úlceras etc. são modelos nos quais podemos estudar e imitar o original.

Estudai a vida e a morte dos Apóstolos, contemplai os milhões de mártires que suportaram toda sorte de tormentos com paciência de cordeiro… O abade Estêvão era tão paciente que aquele que o insultava não podia deixar de ver e reconhecer que ele o amava. Levava esta virtude a ponto de recompensar aqueles que lhe davam ocasião de exercitá-la (SURIO, In Vita). Belo exemplo de paciência deu o imperador Teodósio quando promulgou o seguinte édito: «Se alguém chega a difamar o nosso nome, ou o nosso governo ou a nossa conduta, não queremos que incorra na pena ordinária estabelecida pelas leis, e proibimos aos nossos oficiais que o maltratem de qualquer modo: porque, se falou mal de nós por leviandade, é preciso desprezá-lo; se por cega loucura, é digno de compaixão; se por má disposição, é preciso perdoá-lo» (Stor. eccles.) … A vida dos Santos está repleta de sublimes exemplos de paciência.

3. MOTIVOS QUE DEVEM INDUZIR-NOS À PACIÊNCIA

São Paulo nos dá doze motivos que devem empenhar-nos na prática da paciência. O primeiro é que somos herdeiros de Deus e coerdeiros com Jesus Cristo, contanto que soframos pacientemente com ele e a seu exemplo (Rm 8,17). O segundo é que, se tivermos paciência, seremos glorificados (Ib.). O terceiro consiste em que as provações do tempo presente não têm proporção com a glória futura que será manifestada em nós (Ib. 18). Adquirir a glória eterna com sofrimentos temporais é um ganho muito melhor que comprar o mundo inteiro com um óbolo. O quarto é que as tribulações momentâneas e leves do século presente, suportadas com paciência, nos alcançam um peso imenso e eterno de glória (2Cor 4,17). O quinto é que as criaturas têm a certeza de ser libertadas da corrupção (Rm 8,21). Esta certeza deve encorajar-nos à paciência. O sexto é que, da escravidão da corrupção, passaremos à liberdade da glória dos filhos de Deus (Ib.). O sétimo é que toda criatura geme e sofre (Ib. 22). Desde o princípio do mundo, as criaturas conheceram o sofrimento; o homem, a quem resta pouco tempo para sofrer, deve, portanto, ter paciência e não procurar uma isenção dos males, o que seria uma exceção. O oitavo é que esperamos a redenção do nosso corpo (Rm 8,23). Pela paciência, este corpo alquebrado se tornará impassível e glorioso. O nono consiste em que a nossa salvação provém da esperança (Ib. 24). Se devemos ter a firme esperança de em breve sermos livres e salvos, não devemos impacientar-nos nem desanimar. O décimo deriva do fato de que o Espírito Santo ajuda a nossa fraqueza e suplica por nós com gemidos inefáveis (Ib. 26). Como poderemos, sustentados por tal auxílio, queixar-nos e murmurar? O décimo primeiro é que sabemos que, para aqueles que amam a Deus, tudo concorre para o bem (Ib. 28). Por isso, os opróbrios, a indigência, as doenças, as perseguições e toda sorte de males se convertem em nosso proveito, se os aceitarmos com resignação por amor de Deus. O décimo segundo é que aqueles que são pacientes por amor de Deus estão predestinados (Rm 8,29-30). A paciência assegura, pois, a nossa salvação e felicidade eterna…

«Fatigai com a vossa paciência a maldade alheia», dizia Tertuliano, que, quanto a si, se propunha ser paciente em todas as coisas; pois, de outro modo, a sua impaciência teria sido o seu carrasco (1). Santo Agostinho, falando dos cruéis tormentos que o tirano Daciano fez sofrer ao diácono Vicente, termina dizendo: «Tudo passou: tanto a cólera de Daciano como os sofrimentos de Vicente. Mas, no presente, os tormentos são para Daciano, e a coroa para Vicente (2)». Atanásio ia para o exílio e, aos cristãos que via chorando à sua passagem, repetia: Coragem, meus filhos, a nuvem é leve e desaparecerá muito em breve.

Bíon, embora pagão, dizia que é grande desgraça não ter paciência nas desgraças; porque, sem paciência, não se desfruta de um só momento de felicidade nesta vida (DIOG. LAERT. De Vita Phil. 1. 4, c. VII). «Espera pacientemente no Senhor, e ele te libertará», lemos nos Provérbios (20,22).

4. EXCELÊNCIA DA PACIÊNCIA

«Somos amaldiçoados, e bendizemos; perseguidos, e suportamos; injuriados, e rezamos» (1Cor 4,12-13), diz São Paulo; e em outro lugar acrescenta: «Em todas as coisas somos maltratados, mas não desanimamos; golpeados, mas não prostrados; perseguidos, mas não abandonados; abatidos, mas não desencorajados» (2Cor 4,8-9). Eis os serviços que presta e as maravilhas que opera a prática da paciência! …

«Toda injúria, venha ela da língua ou da mão, quando encontra a paciência, perde o gume, como o dardo que atinge um duro rochedo (3)», escreve Tertuliano. «Como a arca de Noé, diz Gerson, elevava-se tanto mais quanto mais cresciam as águas; assim a alma temperada pela paciência tanto mais se engrandece quanto mais abundam as tribulações (4).» É sentença do Cardeal Belarmino, que uma onça de paciência vale mais que uma libra de vitória (Comment. in Psalm.); o Venerável Beda escreve que «dá prova de ser perfeito aquele cuja paciência não pode ser fatigada» (Comment. in S. Iac.).

Elevada ao seu mais alto grau, a paciência deseja os insultos e os sofrimentos, de qualquer parte que venham e por mais graves que sejam: «A provação da fé gera a paciência, diz o apóstolo São Tiago; a paciência produz obra perfeita, de modo que sejais perfeitos, completos, sem faltar em coisa alguma» (Tg 1,3-4). De muitos modos a paciência torna o homem perfeito.

Primeiramente, como a paciência leva o homem a suportar tudo e a perseverar até o fim, ela o dota de virtudes e lhas conserva. A paciência pode ser comparada ao telhado das casas, que protege os moradores das intempéries; aos colchões de lã, que amortecem as bombas, etc. Sem a paciência, nenhuma virtude reina no homem, pois todas as virtudes são o resultado de provas suportadas; ora, a paciência é necessária para suportar qualquer prova.

Em segundo lugar, a paciência ajuda o homem a completar sua corrida e alcançar a meta da carreira; ela lhe põe sobre a cabeça uma rica e divina coroa. A paciência de que fala o apóstolo São Tiago é a perseverança nos sofrimentos, e é ela que produz obras perfeitas.

Em terceiro lugar, a paciência é escudo e elmo que rebatem e quebram os dardos dos inimigos infernais e das paixões. Afasta todos os males, une bens opostos e vence todas as coisas. O homem paciente é senhor de si mesmo e de seus afetos; governa-os como rei: e um homem assim não é acaso perfeito? Foi isso que Jesus quis dizer com estas palavras: «Na vossa paciência possuireis as vossas almas» (Lc 21, 10). «Bem-aventurados os pacientes, os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5, 4). Observa São Tomás (2-2 q. 136, art. 2) que o homem possuirá sua alma na paciência, porque esta virtude extirpa as paixões que o tornam infeliz: a tristeza, por exemplo, a cólera, a inveja, a vingança e outras paixões semelhantes que transtornam a alma.

Em quarto lugar, nada falta àquele que tem paciência; ela supre tudo de que ele necessita e o conduz insensivelmente ao mais alto grau de santidade; com efeito, São Gregório chamou a paciência de «raiz e guardiã de todas as virtudes» (Homil XXXV). E é a raiz e a guardiã de todas as virtudes, primeiro, porque as adversidades que a paciência generosamente tolera sufocam o amor-próprio, causa de todo pecado e imperfeição; depois, porque produz seis obras perfeitas: 1° refreia o ciúme, a cólera e outras paixões semelhantes…; 2° prova o homem e suas virtudes…; 3° põe à prova a si mesma…; 4° proporciona a alegria do espírito…; 5° governa todos os atos do homem, de modo que ele se comporte em tudo com moderação e circunspecção…; 6° assegura a vida eterna…

Em quinto lugar, a paciência torna o homem perfeito e completo; pois, assim como o tronco da árvore sustenta ramos, folhas, flores e frutos, a paciência sustenta todo o peso do homem e de suas virtudes; tudo o que há de penoso e pesado em sua vida: as contradições, as penas, os sofrimentos, as humilhações, as angústias e coisas semelhantes; conserva-lhe calmos e alegres o espírito, a palavra e o semblante. Por isso, Clemente de Alexandria deixou escrito que a paciência nos proporciona todo bem (Homil. tomo I).

Em sexto lugar, a paciência tem por guia e, segundo a expressão de Tertuliano, por depositário, o próprio Deus: «Muito seguro depositário, diz este grave autor, torna-se Deus para a paciência: se puserdes em suas mãos uma injúria que vos foi feita, ele a vingará; se um dano que vos foi causado, ele o reparará; se uma dor, ele a curará; se o vosso último suspiro, ele vos ressuscitará. Deus se faz nosso devedor, na medida em que o quer a paciência (5)». Santo Agostinho compara a paciência a uma harpa cujas cordas, formadas pelas tribulações, modulam um hino agradável a Deus; mas aquele que, nas adversidades, se deixa abater, quebra a sua harpa (6).

Em sétimo lugar, a paciência produz obra perfeita, porque sua obra por excelência é a aceitação do martírio, isto é, o ato mais nobre e mais belo que o homem pode realizar com o auxílio de Deus. A paciência gera os confessores da fé e os coroa. A própria vida deles é um martírio. A paciência triunfa sobre tudo, até mesmo sobre Deus…

Em oitavo lugar, a paciência nos torna semelhantes a Jesus Cristo, que é a paciência por excelência.

Em nono lugar, quem suporta os males com paciência transforma-os em bens; sai da provação vitorioso, purificado e excelente. A paciência é remédio contra todos os males, pois por meio dela nos unimos a Deus, que é todo bem.

Mostrar paciência, especialmente nas injúrias, esquecê-las, perdoar e beneficiar aqueles que põem à prova nossa longanimidade fazendo-nos mal, é ato verdadeiramente régio, ou melhor, divino: «Sinal de ânimo viril e grande é, diz Sêneca, manter-se tranquilo e calmo, não dando atenção às injúrias e desprezando as ofensas. Ao contrário, irritar-se é ato de mulherzinha» (In Prov.). Assim julgavam a paciência os próprios pagãos.

«O justo não se entristecerá, aconteça-lhe o que acontecer», lemos nos Provérbios (12, 21). Observe-se que o Sábio não diz que nenhum mal aconteça ao justo que se distingue por sua paciência; ao contrário, vemos muitas vezes suceder o oposto: Jó, por exemplo, Davi, Tobias e Daniel foram submetidos a grandes tribulações. Mas a Escritura diz: a paciência e a igualdade de ânimo, que se manifestam no justo, vencem toda prova; ele suporta, resignado, alegre e corajoso, toda tribulação, venha ela de Deus, dos homens, do demônio, de outra criatura ou dele mesmo. Nenhuma aflição o perturba, nenhum desgosto o angustia, nenhuma tristeza o abate; mas, em meio a todas as adversidades, permanece firme, irremovível, paciente e dócil, pois a paciência é o verdadeiro remédio para os males da vida. Preparai vossa alma para as provações e sereis felizes; nenhum carrasco vos pode tirar a felicidade que a paciência proporciona e que Deus lhe prometeu. É doutrina de São Tomás que, em Jesus Cristo e nos justos, a tristeza consiste em prever e sentir os males, mas não em perturbar-se por causa deles (2-2 q. 136, art. 2).

As razões pelas quais o justo não se angustia nem se aflige por coisa alguma são as seguintes: em primeiro lugar, o pouco valor que atribui às coisas do mundo; não pondo nelas o seu coração, mas desprezando-as, não sente desgosto quando as vê serem-lhe tiradas… «Pensa, dizia Sócrates, que nenhuma coisa deste mundo é estável; assim, na prosperidade, não te entregarás a uma alegria desmedida; na adversidade, não te deixarás vencer por uma tristeza excessiva (7)». Em segundo lugar, o cuidado com que refreia as paixões, fonte dos pecados e, por conseguinte, das agitações e angústias, segundo aquele dito de Jeremias: «Jerusalém pecou, por isso se tornou instável» (Lm 1, 8): «Renunciemos de bom grado aos bens da terra, escreve Tertuliano, mas defendamos os do céu. Pereça o mundo, contanto que eu adquira a paciência (8)». Terceiro, a preferência que dá à paz acima de todo outro bem. Qualquer sacrifício que isso lhe custe, ele abraça a paciência e se apega firmemente a ela… Quarto, a convicção de que ele e tudo o que possui estão nas mãos de Deus e sob as asas da Providência. Repousa sobre a bondade e a vigilância do pai comum dos homens. Os filhos de Deus são invulneráveis, diz Píndaro (Anton. in Meliss.). Quinto, a união de sua alma com Deus, união tão estreita que essa alma faz, por assim dizer, uma só coisa com ele. E, como Deus é imutável e impassível, torna assim os homens pacientes e os justos unidos a ele…

«Se Deus está conosco, diz o Crisóstomo, nem as desgraças, nem as ciladas, nem coisa alguma do mundo pode nos prejudicar; mas, assim como um carvão em brasa se apaga quando mergulhado na água, assim também toda a maior angústia da alma facilmente se dissipa e desaparece, se recai sobre uma consciência irrepreensível. Ninguém é ofendido senão por si mesmo (9).» Segundo São Gregório, menos esplêndida é a vitória alcançada pela conquista de uma fortaleza do que aquela que se obtém contra si mesmo pela paciência: pois, no primeiro caso, submete-se um poder exterior; no segundo, a alma domina e vence a si mesma (10). Por isso, Claudiano afirma que merece dominar sobre tudo aquele que aprendeu a governar a si mesmo (11).

É preciso mais força para suportar pacientemente as adversidades do que para realizar grandes feitos, e isso pelas três razões seguintes, já apontadas por São Tomás: 1° porque as adversidades que caem sobre nós se apresentam como mais fortes do que nós, ao passo que aquele que realiza uma ação heroica a empreende porque se julga mais forte do que ela; ora, não é mais difícil lutar contra alguém que julgais superior a vós em forças do que contra aquele que julgais inferior? 2° porque quem resiste pacientemente às adversidades sente os perigos da luta, enquanto quem assalta uma fortaleza considera os perigos ainda distantes; ora, é muito mais difícil e raro não se deixar atemorizar pelos males presentes do que pelos futuros; 3° porque, nas tribulações, o combate não tem trégua, ao passo que um assalto à mão armada ocorre subitamente e ordinariamente não dura muito tempo (2-2 q. 136, art. 3).

Nada, no que diz respeito à força, pode comparar-se com a paciência; quem possui essa virtude jamais pode sofrer grande coisa, porque sua alma é como que impassível. A paciência é um verdadeiro poder. Deus é poderosíssimo porque é pacientíssimo. A cólera e a impaciência são sinais de fraqueza, de pusilanimidade, de impotência… Eis por que São João Crisóstomo diz que não se vingar torna o homem igual a Deus (Homil. 6, in Act.).

A paciência demonstrada em todas as circunstâncias da vida é sinal característico de uma alma grande. A parte superior, mais bela e mais bem ordenada do mundo é o firmamento. Ora, ele jamais fica imerso nas névoas, nem sulcado pelos raios, nem sujeito ao turbilhão, nem agitado pelos ventos, nem manchado pela poeira; as tempestades formam-se nas regiões inferiores. Assim também o homem paciente jamais perde a paz; eleva-se acima daquilo que poderia perturbá-lo, conquista o respeito e adquire grandes méritos. A alma que sabe sofrer com moderação e doçura, sem queixas nem murmurações, mostra-se bela, grande, elevada e perfeitamente ordenada; mantém-se muito próxima do esplêndido sol da eternidade.

«Dá prova de grande virtude, diz Santo Isidoro, aquele que não retribui a ofensa com ofensa; demonstra grande fortaleza de ânimo se, ofendido, perdoa; adquire esplêndida glória se poupa um inimigo a quem poderia prejudicar (12).» Ora, a paciência faz tudo isso. «É próprio de uma alma generosa desprezar as injúrias, diz Sêneca; vingá-las é próprio de um espírito vil e fraco» (Epl. LXXVII). «O cristão, diz São Máximo, sofre com resignação para merecer a recompensa que lhe foi prometida e para dar exemplo aos seus concidadãos; suporta com paciência para proporcionar a si mesmo o repouso e ao próximo a salvação (13)».

5. VANTAGENS DA PACIÊNCIA

«Bem-aventurados os mansos, porque possuirão a terra» (Mt 5, 4). Possuirão a terra, isto é, as riquezas deste mundo, porque não haverá quem procure suscitar contra eles contendas e obstáculos. Além disso, quem tem doçura e paciência contenta-se com o pouco que possui, o que vale por uma fortuna. Mas a terra que lhes é prometida é principalmente a terra dos vivos, o céu. Na terra que os homens pacientes devem possuir, São Bernardo vê o corpo e a alma que eles governavam com a paciência, reinando sobre todos os movimentos do coração e dos sentidos (In haec verbo Matth.).

Tertuliano faz este magnífico elogio da paciência: «Protege a fé, governa a paz, ajuda a caridade, faz crescer a humildade, aguarda o arrependimento, assinala o tempo conveniente para a confissão, domina a carne, vigia o espírito, refreia a língua, detém a mão, calca aos pés as tentações, afasta os escândalos, consuma o martírio; consola o pobre, modera o rico, ampara o fraco, não fatiga o forte, alegra o fiel, convida o gentio, recomenda o servo ao senhor e o senhor a Deus; adorna a mulher, torna respeitável o homem; é amada nas crianças, louvada nos jovens, admirada nos anciãos, bela em todas as idades e em todos os sexos. A paciência mostra um rosto calmo e tranquilo, uma fronte serena, não sulcada por rugas de tristeza ou de ira; mantém os olhos baixos por sentimentos de humildade, não de abjeção; sua boca fechada presta homenagem ao hábito do silêncio (14)».

São Cipriano diz: «A paciência nos recomenda e nos conserva unidos a Deus. Modera a cólera, refreia a língua, governa a alma, conserva a paz, regula a disciplina, quebra o ímpeto da paixão; abranda o orgulho, extingue o ódio; restringe o poder dos ricos, socorre a indigência dos pobres, protege a feliz integridade das virgens, a laboriosa castidade das viúvas, o amor e a união dos cônjuges; mantém a humildade na prosperidade e dá força nas adversidades, doçura em meio aos insultos e às injúrias; ensina a perdoar prontamente àqueles que faltam e a rezar muito e por longo tempo quando nos acontece faltar; vence as tentações, suporta as perseguições, conduz à vitória por meio dos sofrimentos e dos tormentos (15)».

Ninguém pode prejudicar a verdadeira paciência; atacá-la é torná-la mais aprimorada e resplandecente. Os bens que lhe são arrebatados, os males que lhe são infligidos, tudo ela deposita nos tesouros de Deus, que lho restituirá centuplicado… O abade João repetia aos seus discípulos: «A paciência, principalmente em meio às injúrias, é a porta do céu» (Vit. Patr.). Nada é tão doce, agradável e digno do homem quanto opor a paciência a todas as ofensas… «Porque observaste a minha palavra de paciência, disse o Senhor ao Bispo de Filadélfia, também eu te guardarei e protegerei na hora da provação» (Ap. 3, 10). «Grande prudência há na paciência, dizem os Provérbios; o impaciente, ao contrário, manifesta a sua insensatez» (Prov. 14, 29). O homem colérico proclama em alta voz a sua loucura com os gritos, com o agitar dos braços, com a exaltação; não diminui o seu mal, mas o aumenta e duplica…

«O homem paciente, diz Santo Efrém, tem por guia uma grave prudência. O que há de mais admirável e vantajoso? Ele está sempre alegre, põe a sua esperança em Deus, não sabe o que é a cólera, suporta tudo, não se irrita, não insulta ninguém, não profere palavra que possa causar dano. Se é ofendido, não se entristece, não discute com aqueles que têm opinião diferente da sua; mostra-se constante e forte em todas as circunstâncias, alegra-se com as provações, não se melindra com os invejosos. Se lhe é dada uma ordem, obedece; se é repreendido, não se queixa; exercita-se continuamente em perseverar na paciência (Serm. V).

A prudência do paciente e a imprudência do impaciente manifestam-se por estes sinais: 1° O homem paciente mostra que domina a ira; o impaciente deixa ver que é seu escravo. Aquele domina as suas aflições e a si mesmo e, por isso, goza de paz constante e perfeita; este, ao contrário, está sempre atormentado pelas paixões e, portanto, sempre perturbado e inquieto. 2° Calando-se e permanecendo tranquilo, o homem paciente triunfa sobre a própria cólera e sobre a dos outros; ao passo que o impaciente é escravo de uma e de outra. 3° Com doçura e moderação, o homem paciente muitas vezes converte o colérico e infunde em seu coração a própria paciência; o homem furioso, ao contrário, às vezes arrasta o paciente a atos de cólera furiosa. Aquele se assemelha a um febricitante; este, a um médico que modera os ataques e os paroxismos da febre e restitui o bom senso àquele que trata. Esta é a comparação empregada por São Pedro Crisólogo. «Não é verdade, porventura, diz ele, que, quando uma febre ardente assalta um infeliz, lhe tira o juízo, leva-o ao delírio e até ao furor? Os sentidos do enfermo ficam perturbados, seu espírito já não se sustenta, ele se torna feroz e bate e morde quem dele se aproxima. Então, para louvor da caridade, para glória da arte, para honra do seu saber e da sua compaixão, o médico arma-se de paciência; não dá atenção aos insultos do enfermo, suporta-lhe os incômodos, as pancadas e as mordidas, considerando-se feliz se consegue curá-lo ou ao menos diminuir-lhe os sofrimentos; acalma-o com o óleo da paciência, cerca-o de cuidados e faz que tome os remédios convenientes, certo de que o enfermo, recuperado de si mesmo e curado, lhe será grato e o recompensará generosamente por todos os cuidados» (Serm. III). Eis no febricitante o homem impaciente e, no médico caridoso, o paciente; somos médicos espirituais: salvemos a nossa alma e a de nossos irmãos; trabalhemos para curá-los de toda cólera e ira com a nossa paciência e caridade; e, quando estiverem curados, receberemos deles os agradecimentos e a gratidão…

«O homem colérico suscita contendas; o homem paciente extingue as que já se inflamam», lemos nos Provérbios (15, 18). Por isso, é bom o conselho de Sêneca: «Deixai que as discussões comecem pelos outros; de vós parta a palavra da concórdia (16)». A cólera tira ao homem três tesouros incomparáveis: a gravidade, a sabedoria e a paz.

«O homem paciente, lemos ainda nos Provérbios, vale mais que um guerreiro audaz; quem é senhor de seu ânimo vale mais que aquele que conquista fortalezas» (Pr 16,32). São Gregório Nazianzeno escreve que nada detém e desarma mais prontamente um perseguidor do que aquele que o enfrenta armado de paciência (Orat. XIX); o Crisóstomo exprime o mesmo pensamento com esta comparação: «Não perde tão prontamente o calor um ferro em brasa mergulhado na água, como o homem colérico abranda a ira quando deve tratar com uma alma cheia de longânime paciência. Se formos pacientes e dóceis, seremos fortes e poderosos (17)». Muitos troféus, diz também um poeta, ostenta a força, mas muitos mais conta a paciência. Quereis ser irrepreensíveis? Sede pacientes, sabei conter-vos. O melhor meio de punir aqueles que nos ultrajam consiste em demonstrar grande paciência. Esta virtude vos ajudará a suportar aquilo que não podeis corrigir. A paciência é a rainha do mundo (18).

Tornar-se superior aos insultos por meio da paciência é a mais esplêndida das vitórias, diz o Crisóstomo. Deus nos deu forças para vencer, não com armas, mas com a paciência. Onde não se celebra o triunfo de José, que sustentou com tanta coragem a adversidade? Pela paciência, triunfou das ciladas que lhe armaram os irmãos e a mulher impudica. Jó, por sua paciência, triunfou dos esforços do demônio, dos insultos da esposa, das afrontas dos amigos, da pobreza, da doença e de mil sofrimentos; por sua paciência foi mais forte que Sansão, que tantas vezes derrotou os filisteus. Sofrendo com resignação e paciência o ódio de seus irmãos, o exílio, a calúnia e a prisão, José chegou a dominar a si mesmo, conquistou o favor do Faraó, tornou-se o senhor e o salvador do Egito. Davi mostrou-se mais forte triunfando de Saul pela paciência do que derrubando o gigante Golias (Homil. 6, in Act.).

O sábio compreende que, nesta vida miserável, o homem não pode deixar de encontrar tribulações; por isso, prepara-se para recebê-las e suportá-las com paciência; além disso, não ignora que, recebendo-as com impaciência, aumentaria o mal e a dor. Com efeito, seria então atormentado pelo mal que o aflige e pelo ressentimento produzido por sua cólera; ao passo que, em virtude da paciência, experimenta apenas o mal inseparável da condição da natureza decaída; e este mesmo lhe é de tal modo suavizado, que quase já não o sente. Além disso, se se irasse, ofenderia a Deus e atrairia sobre si, como punição de sua cólera, novas penas, ainda mais dilacerantes. Sofreria, por conseguinte, muito mais, perderia todo o mérito que poderia obter de seus sofrimentos e se exporia às penas eternas. Quem pensa nessas verdades previne-se contra a impaciência e procura suportar tudo com resignação.

Além disso, o sábio sabe que o verdadeiro bem de sua alma aqui embaixo é a paz, mas sabe igualmente que a paz não deriva senão da paciência; por isso, em todas as contrariedades, aflições e tribulações, pratica esta virtude, a única capaz de lhe proporcionar tão grande bem… O homem paciente, tornando-se superior ao mundo, fixa sua alma em Deus e não se ocupa senão do céu. A sabedoria e a glória do homem paciente consistem em poder dizer sem mentira: Vivo do amor de Deus e do desejo do céu. Deus, rio de vida, extingue a minha sede; Deus, pão vivo, é o meu alimento; a pobreza me enriquece; desprezo a morte; possuo bens reais e, portanto, nada me falta…

São Basílio dava este conselho: «Procura, meu filho, adquirir a paciência, porque ela é a maior virtude da alma; apodera-te dela para chegares prontamente ao ápice da perfeição. A paciência é o supremo remédio da alma; a impaciência é o câncer do coração (19)». Sêneca diz: «São leves as tribulações que nos oprimem? Suportemo-las, e a paciência as abrandará; são pesadíssimas? Suportemo-las, e a nossa glória delas tirará proveito na proporção de seu peso» (Epist.).

6. QUALIDADES DA PACIÊNCIA

É preciso ser paciente com todos: «Suportai-vos pacientemente uns aos outros na caridade» (Ef 4,2), escrevia São Paulo aos efésios; aos tessalonicenses recomendava que se mostrassem pacientes com todos (1Ts 5,14).

«A paciência produz uma obra perfeita», diz São Tiago (Tg 1,4). Ora, para que a paciência produza essa obra perfeita, deve primeiramente tolerar os males com coragem e perseverança; em segundo lugar, deve suportá-los pela fé em Jesus Cristo, pela justiça e pela virtude; em terceiro lugar, deve estar unida às outras virtudes. Os deveres que deve cumprir para ser perfeita e meritória são: 1° perdoar àquele que ofende; 2° fazer-lhe o bem quando se apresentar a ocasião; 3° receber a provação como excelente remédio; 4° tornar-se superior às injúrias…

Por três graus a paciência sobe à perfeição. O primeiro consiste em sofrer com resignação…; o segundo, em sofrer de boa vontade…; o terceiro, em sofrer com alegria… E por que é preciso alegrar-se nas contrariedades e aflições? … 1° Porque estas nos desapegam do século. Deus no-las envia, diz São Gregório, para que não amemos demasiado o caminho nem o prefiramos à pátria, que é o céu (Moral. c. XXIII).

Santo Agostinho diz: «As tribulações nunca deixam de molestar o homem, para que ele, viajante rumo à pátria, não prefira um estábulo à casa que o espera (20)». 2° Porque as aflições são o sinal da eleição e da predestinação divina.

É preciso, escreve São Tomás, suportar com paciência e alegria os golpes do Senhor, 1° por causa do afeto que nos tem aquele que nos fere, segundo estas palavras dos Provérbios: «Meu filho, não te irrites com as provações a que o Senhor te submete, porque ele corrige aquele que ama e se compraz nele, como um pai no filho» (Pr 3,11-12). 2° Por causa da consciência de nossa culpa, pela qual cada um pode dizer: «Suportarei a ira do Senhor, porque pequei contra ele» (Mq 7,9). 3° Em consideração à esperança da recompensa: «Bem-aventurado o homem, exclama São Tiago, que suporta a tentação; porque, depois de ter sido provado, receberá a coroa da vida, que Deus prometeu àqueles que o amam» (Tg 1,12). 4° Por causa da inutilidade das murmurações, segundo estas palavras de Jeremias: «Por que, pois, murmura o homem vivente, o homem punido por seus pecados?» (Lm 3,39).

7. MEIOS PARA PRATICAR A PACIÊNCIA

«Não procureis defender-vos, diz São Paulo, mas deixai passar a ira» (Rm 12,19); isto é: deixai a Deus o cuidado de vossos interesses e cedei àquele que vos assalta com ira; mantende-vos em silêncio… Sofrei com resignação… Quando vossa paciência for posta à prova, dizei: Se mereci esta cruz, levá-la-ei para satisfazer por meus pecados; se não a mereci, suportá-la-ei igualmente, à imitação de Jesus Cristo e de sua santíssima Mãe; mais resplandecente se tornará a minha coroa… Finalmente, volte-se o olhar para a paixão de Jesus Cristo: «Não há cruz, por mais grave que pareça, que não suporte com paciência aquele que se recorda da paixão de Jesus Cristo», escreve São Gregório (De Conflic. virtut. et vil.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.