Tesouro n.º 131 · Volume II

NOVÍSSIMOS NOVISSIMI

3 seções · 12 parágrafos · pp. 1552–1557 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. É UMA GRANDE DESGRAÇA ESQUECER-SE DOS NOVÍSSIMOS

Os novíssimos, isto é, os fins últimos, são a morte, o juízo, o paraíso, o inferno, a eternidade. Esquecer coisas de tamanha importância, não prevê-las, não se preparar para elas, é a soma de todas as desgraças que podem acontecer a um homem. Com efeito, esquecer a morte significa não pensar em preparar-se para ela e aventurar-se à triste morte do pecador: desgraça irreparável. Esquecer o juízo de Deus é desprezá-lo; e então será terribilíssimo esse juízo. Esquecer o céu é grande desventura, porque, agindo assim, nada se faz para conquistá-lo, e ele se perde; e, perdido o paraíso, tudo está perdido. Esquecer o inferno é caminhar ao seu encontro; e quem se põe a caminho dele facilmente nele precipita. Esquecer a eternidade equivale a perder o tempo e a eternidade; pode-se imaginar desgraça mais tremenda? Não obstante isso, ó como é comum no mundo o esquecimento dos novíssimos! Por isso Jesus fulminou aquele espantoso anátema: «Ai do mundo» (Mt 18,7).

A quantos se podem aplicar estas palavras do Senhor no Deuteronômio: «Gente sem conselho e sem prudência, por que não abrir os olhos, compreender e prover aos seus novíssimos?» (Dt 32,28-29). E estas outras de Isaías: «Tu não pensaste nessas coisas e não te lembraste dos teus novíssimos» (Is 47,7).

Terrível imprudência, cujas consequências são fatais, é esquecer as coisas futuras, não considerar os novíssimos para chegar a eles preparados. Que vergonha, que furor não será para os filhos do mundo ouvirem os demônios, no inferno, lançar-lhes em rosto: Ó desgraçados! vós sabíeis que havia um inferno e, podendo evitá-lo a tão pouco custo, nele vos lançastes de cabeça! Vós esquecestes os novíssimos e perdestes tudo.

Fala-se dos nossos novíssimos; nós os conhecemos, cremos neles e, entretanto, agimos como se de modo algum nos dissessem respeito e não nos tornamos melhores! Ó cegueira fatal! Ó loucura incrível! Ó homens estúpidos e dignos de compaixão! Não pensar, não penetrar, não temer coisas tão graves, não se preparar para elas!

2. QUÃO ÚTIL É LEMBRAR-SE DOS NOVÍSSIMOS

«Em todas as tuas obras, diz o Sábio, põe diante dos olhos os teus novíssimos, e jamais cairás em pecado» (Eclo. 7,40). A razão é clara, pois o fim que alguém se propõe se torna o princípio e a regra de todas as ações; ora, o fim de todas as coisas está essencialmente compreendido nos fins últimos, isto é, nos novíssimos. Todas as pessoas agem por um fim; por que, então, não agir tendo em vista os fins últimos?…

Quem diz a si mesmo, quando se sente tentado a ofender a Deus: No momento da morte, quererei eu ter cometido este pecado? — imediatamente fica alerta e resiste. — Quando estiver diante do tribunal de Deus, quando o divino Juiz me pesar na balança de sua justiça, quererei que o peso dos meus delitos prevaleça sobre o das minhas virtudes? Pois bem, evitarei o pecado e praticarei a virtude. Importa-me passar do tribunal de Deus ao céu? Então me esforçarei por conquistar esse céu. Porventura me agradará ouvir no juízo aquela terrível sentença: Afastai-vos de mim, malditos, e ide para o fogo eterno? Deus me livre disso! Portanto, empenhar-me-ei em manter o inferno fechado para mim para sempre, evitando sobretudo o pecado mortal. Quando entrar na eternidade, quererei eu ter perdido o tempo? Certamente que não: convém, pois, que não perca sequer um instante; — estas são as salutares considerações daquele que não esquece os seus novíssimos. Portanto, quem não vê que ele se torna quase impecável, cumprindo-se nele o dito do Espírito Santo: — Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis? — O fim do homem, que é a bem-aventurança eterna, leva-o a fugir do pecado e a praticar a virtude, como meios pelos quais se obtém a bem-aventurança. Por isso Santo Agostinho diz: «A consideração desta sentença: — Lembra-te dos teus novíssimos e não pecarás eternamente — é a destruição da soberba, da inveja, da malícia, da luxúria, da vaidade e do orgulho, o fundamento da disciplina e da ordem, a perfeição da santidade, a preparação para a salvação eterna. Se te importa não perecer, contempla neste espelho dos teus novíssimos aquilo que és e aquilo que serás, tu, cuja concepção é uma mancha vergonhosa, cuja origem é o lodo, cujo fim é a podridão. Diante deste espelho, isto é, diante dos novíssimos, em que se transformam os delicados banquetes, os vinhos requintados, os calçados esplêndidos, o luxo do vestuário, a moleza da carne, a gula, a glutonaria, a embriaguez, a magnificência dos palácios, a extensão das propriedades, a acumulação das riquezas? (1)». Sigamos, pois, o conselho de São Bernardo e, ao começar qualquer ação, digamos a nós mesmos: Eu faria isto se devesse morrer neste momento? (In Speculo monach.).

Semelhante à de São Bernardo é a regra de conduta sugerida pelo Eclesiástico para ordenar e santificar todas as nossas ações: «Em cada empreendimento teu, escolhe aquilo que gostarias de ter feito e escolhido quando estiveres à morte». Fazei todas as vossas ações como gostaríeis de tê-las feito no dia em que comparecereis diante de todo o mundo, para prestar contas delas ao supremo tribunal de Deus. Não façais coisa alguma de que tenhais de arrepender-vos eternamente: evitai aquilo que vos faria chorar por toda a eternidade, aquilo que teríeis de pagar no eterno abismo do inferno. Esforçai-vos por fazer tudo muito bem e com a maior perfeição, para que possais alegrar-vos com tudo o que pensais, dizeis e fazeis; e para que recebais uma rica recompensa no céu. Ora, a memória dos novíssimos proporciona todas essas vantagens…

Não esqueçais também que os vossos novíssimos estão próximos…; que é incerta a última hora… Quem não teme uma má morte, como terá medo do juízo e do inferno? Ah! Se os homens pensassem frequentemente no dia de sua morte, preservariam a alma de toda cobiça e malícia… Ó vós que quereis ser eternamente felizes, pensai sempre naquela sentença: — Memorare novissima tua et in aeternum non peccabis. — Falando de Jerusalém, Jeremias diz que «ela se esqueceu do seu fim e, por isso, escorregou para um profundo abismo de misérias e degradação» (Lm. 1,9). Portanto, pensando nos fins últimos não se cai; e quem caiu se levanta. «Deixamos de pecar, diz São Gregório, quando tememos os tormentos futuros (2)». Repitamos também nós com o Salmista: «Pensei nos dias antigos, meditei nos anos eternos» (Sl 76,5).

3. COMO DEVEMOS LEMBRAR-NOS DOS NOVÍSSIMOS

Para que a lembrança dos novíssimos tenha toda a eficácia que o Espírito Santo lhe promete, convém, em primeiro lugar, que não se detenha apenas sobre um deles, mas que os abranja a todos. Com efeito, para alguns, o pensamento da morte, em vez de ser incentivo ao bem, pode ser estímulo ao mal: «A nossa vida se dissipará como neblina» (Sb 2,3), disseram os ímpios, lembrando-se de sua morte iminente; mas deste pensamento concluíram: «Vinde, pois, e gozemos enquanto temos tempo» (Ib. 6). Por isso o Sábio não diz, no texto citado: memorare novissimum tuum, mas novissima tua; para que o pensamento da morte seja proveitoso, lembremo-nos de que à morte se seguirá um juízo severo (Hb 9,27); e de que ao juízo estará ligada uma sentença de pena eterna ou de prêmio eterno (Mt 25,46). A vida espiritual do cristão também tira grande proveito da lembrança dos novíssimos; e, consistindo ela na prática das quatro virtudes cardeais — prudência, justiça, fortaleza e temperança —, encontra na meditação dos novíssimos um excelente alimento. Com efeito, a lembrança da morte destrói a ambição e a soberba e, assim, dá a prudência. A memória do juízo, colocando diante dos nossos olhos aquele juiz rigoroso, leva-nos a usar de justiça e bondade para com o próximo. A lembrança do inferno reprime o apetite dos prazeres ilícitos e, assim, fortalece a temperança. A memória do Paraíso diminui o temor dos sofrimentos desta vida e, assim, robustece a fortaleza.

Em segundo lugar, requer-se que essa lembrança seja feita em relação à própria pessoa, como parece dizer-nos o Sábio, que não diz simplesmente: memorare novissima, mas acrescenta tua. Quantos há que se lembram dos novíssimos, até com frequência, ora discorrendo sobre eles nas igrejas, ora tratando deles nos livros, ora discutindo-os nas cátedras, ora representando-os em mármore, bronze ou telas? E, no entanto, nem todos levam uma vida santa. É preciso que aquele que se lembra dos novíssimos pense que ele próprio se encontrará, talvez dentro de pouquíssimo tempo, no leito de morte… no caixão, no cemitério… Que ele próprio comparecerá ao juízo de Deus e que a ele caberá o castigo ou o prêmio eterno.

Em terceiro lugar, convém que essa lembrança dos novíssimos não seja algo especulativo, mas prático; por isso o Espírito Santo faz preceder o texto citado por estas palavras: — in omnibus operibus tuis — em toda a tua ação. Se, antes de cada ação, considerássemos os novíssimos, não somente evitaríamos o pecado, mas encontraríamos nessa consideração a força para praticar as virtudes mais heroicas.

Seria, além disso, um erro acreditar que o pensamento dos novíssimos traz consigo a tristeza. Se o Espírito Santo nos assegura que a lembrança frequente dos novíssimos basta para conservar pura a nossa consciência: — In aeternum non peccabis —, é claro que ela traz consigo a alegria do coração, que é a maior de todas as alegrias. (Eclo. 30,16). E temos, de fato, uma confirmação disso no próprio Eclesiástico, que, depois de dizer em outro lugar: «Não te abandones à tristeza, mas afasta-a de ti» (38,21), acrescenta imediatamente (Ib.) e lembra-te dos novíssimos, como se o pensamento dos novíssimos fosse o meio mais seguro de manter afastada do coração humano a tristeza.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.