«Aquele que agrada a Deus desde a juventude torna-se seu predileto», diz o Sábio (Sb 4, 10). Para sumo louvor de Tobias, a Sagrada Escritura diz que ele jamais praticou qualquer ação de rapaz, embora fosse o mais jovem de toda a sua tribo (Jó 1, 4). E, porque havia temido e obedecido a Deus desde os mais tenros anos, a Escritura diz que ele não murmurou contra Deus por tê-lo ferido com a cegueira; mas permaneceu firme no temor do Senhor, a quem agradecia todos os dias (Tb 2, 13-14).
Lemos no 2º livro dos Macabeus, no capítulo VII, o exemplo de coragem e firmeza no próprio culto que, em meio a acerbas torturas, deram os sete irmãos, porque desde a primeira idade estavam acostumados a obedecer e servir a Deus… E quantos outros trilharam o mesmo caminho! … Que espetáculo mais doce e mais belo pode oferecer-se aos olhos de Deus, dos anjos e dos homens, do que o de um jovem ou de uma donzela que passam a juventude na modéstia, na pureza, na sensatez, na prudência, na humildade, na piedade, na oração! Ó espetáculo que tanto mais encanta quanto mais raro é!
Aprouvesse ao céu que de muitos de nossos jovens se pudesse fazer o elogio que o abade de Claraval fez de São Malaquias: «Embora muito jovem em idade, não mostrava nada da petulância juvenil, mas comportava-se em tudo com costumes dignos da gravidade de um ancião (1)».
Aprouvesse ao céu que de nossa sociedade se pudesse repetir, com o mesmo doutor: «Vemos todos os dias muitos jovens, mais sensatos que os velhos, manifestarem uma idade madura em seus costumes; antecipam o tempo por seus méritos e compensam com as virtudes aquilo que falta aos seus anos (2)». Eis, a este propósito, uma sentença de Santo Agostinho, digna de ser escrita em letras de ouro: «Que a vossa velhice conserve algo da infância, e que na infância transpareça a velhice; isto é, que a vossa sabedoria senil seja sem soberba e que a timidez juvenil seja acompanhada pela prudência, para que louveis a Deus agora e na eternidade (3)».
O tempo e as circunstâncias mais adequados para a enxertia são a primavera e o vento quente do meio-dia. A enxertia espiritual realiza-se admiravelmente na primavera da vida, na idade em que os sentimentos estão florescendo e o Espírito Santo sopra sobre a alma ainda tenra o sopro sagrado e ardente de seu amor. Com efeito, a juventude assemelha-se a um ramo novo, por sua flexibilidade e pela facilidade com que recebe a enxertia divina, a qual, nutrida pela seiva da graça, forma uma árvore frutífera, a árvore da vida. Ouvi, ó jovens, o que vos diz o Senhor: «Escutai-me, ó frutos divinos, e frutificai como a roseira plantada às margens de um regato fresco; espalhai um odor balsâmico como o Líbano; trazei flores que sejam, na candura e no perfume, como os lírios; adornai-vos de verde folhagem, entoai hinos de louvor e bendizei o Senhor em suas obras. Magnificai o seu nome e dai-lhe testemunho com as palavras de vossa boca» (Eccli. XXXIX, 17-20).
«Quando ainda era jovem — narra de si o autor do Eclesiástico —, procurei a sabedoria com minhas orações; pedia-a a Deus no templo e dizia: segui-la-ei até o fim de minha vida; e ela floresceu em mim como a videira que dá fruto temporão, e meu coração encontrou nela a sua alegria. Meus pés caminharam pela estrada reta; desde os primeiros anos pus-me a procurá-la: inclinei o ouvido e a recebi» (Eccli. 51, 18-21). Eis o exemplo a ser imitado pelos jovens, que estão mais dispostos que qualquer outra idade a acolher prontamente e praticar facilmente os preceitos da divina sabedoria, porque a juventude é a idade mais próxima da inocência, a mais apta a receber boas impressões e a mais pronta para praticar uma boa ação; é a idade mais querida por Deus. «Deixai vir a mim as criancinhas», dizia o divino Mestre (Mt 19,14).
São Bento admitia em sua ordem especialmente os jovens, para que se habituassem cedo à disciplina monástica. Aliás, a história nos diz que, nos primeiros tempos do cristianismo, era costume preparar os meninos, os jovens e as donzelas para os tormentos e o martírio. Belos modelos disso nos oferecem a mãe dos Macabeus e Santa Felicidade, as quais, na educação de seus filhos, não deixaram de lhes insinuar o amor ao martírio e, chegada a hora, conduziram-nos a ele. Assim lemos que fez, sob o tirano Dunaano, rei da Arábia, uma piedosa mãe, que havia instruído e preparado para o martírio um de seus filhinhos. Aconteceu então que o menino, aos cinco anos de idade, viu certo dia sua mãe ser-lhe arrancada, por ordem do tirano, e condenada a ser queimada viva. Diante daquela cena, movido pelo desejo do martírio, o menino começou a chorar e a suspirar pela mãe; tendo-lhe Dunaano perguntado se preferia estar com ele num belo palácio ou com a mãe num caldeirão em brasas, respondeu: — Prefiro ficar com minha mãe, para que ela me tome e me conduza consigo ao martírio. — E sabes tu o que é o martírio? — prosseguiu Dunaano. — E o menino respondeu-lhe: — O martírio é morrer por Jesus Cristo para tornar a viver. — Quem é Jesus Cristo? — replicou o tirano. — Vinde à igreja — acrescentou o menino —, e eu vo-lo mostrarei. Mas, como o tirano não cessasse de aliciá-lo com lisonjas e promessas, aquele admirável menino acabou por dizer-lhe: — Cala-te, monstro; não procuro nem quero a ti, mas a minha mãe. — Reunido a ela, apertou-se contra seu peito e recebeu com ela a coroa do martírio (Stor. Eccl.).
«Os que me procuram desde a manhã, encontrar-me-ão», diz o Senhor (Pr. 8, 17). Quem chega a uma boa velhice desfruta os frutos recolhidos no tempo da juventude, que são a sabedoria, a autoridade, o direito de dar conselhos, a honra, a esperança da eternidade bem-aventurada… Tem filhos e netos sábios, prudentes, graves e honrados… Quem, ao contrário, fez mau uso dos anos juvenis, colhe na idade avançada desgostos, melancolia, desonra e desespero, tanto em consequência da vida perversa que levou, como pela má conduta dos filhos e dos netos. «Meu filho, diz o Senhor, se tiveres alma sábia, meu coração se alegrará contigo» (Pr. 23, 15). «Recebe, meu filho, instrução em teus primeiros anos, e obterás a sabedoria até a velhice. Aproxima-te dela e espera pacientemente os seus bons frutos, como aquele que ara e semeia a terra, aguardando a colheita; nesse trabalho terás pouco que sofrer e, bem depressa, alimentar-te-ás de seus produtos» (Eclo. 6, 18-20). Buscai a virtude no tempo de vossa juventude, e encontrá-la-eis como um fruto precoce; sereis cumulados de felicidade (Eclo. 51, 18-20).
«Eu me lembrei de vós, diz o Senhor; compadeci-me de vossa juventude e do meu amor por vossa alma, minha esposa» (Jr 2, 2). Eu me lembrei, alma infiel, e trouxe à tua memória a tua primeira idade, durante a qual eu, teu Deus, não por consideração à beleza, à sabedoria, à riqueza ou a algum outro mérito teu, mas por pura misericórdia minha, tomei-te por esposa, a ti, fraca, pobre e enferma; atraí-te a mim, protegi-te e dotei-te com o batismo, a ciência cristã, a graça etc.; vesti-te de roupas preciosíssimas e ornamentei-te com brilhantes esplendidíssimos, para que me guardasses a fidelidade que as esposas devem a seus esposos…
«É vantajoso para o homem, diz Jeremias, levar o jugo do Senhor desde a adolescência» (Lm. 3, 27). Levar o jugo do Senhor quer dizer obedecer às suas leis e aos seus preceitos, aceitar as obrigações que o serviço de Deus impõe; ser humilde, manso e paciente nas contrariedades. Aquele que se submeteu ao jugo do Senhor desde os primeiros anos e que dirigiu sua juventude com o freio de uma sábia moderação conseguirá, diz Santo Ambrósio, vencer as próprias paixões: dominará os sentidos e manterá sob controle as concupiscências da carne; saberá discernir e arrancar as más inclinações do próprio coração, e desfrutará tranquilidade e paz. O jugo poderoso e amável do Senhor leva a desejar a Deus e a procurá-lo; se a juventude, quase indomável, se colocar sob esse jugo, tudo se lhe tornará fácil, doce e agradável (In Psalm. 118, serm. IX).
Por meio do jugo de seu serviço, Deus doma a juventude, mantém-na de pé, preserva-a das quedas perigosas, torna-a dócil, orienta-a para o bem e, finalmente, aperfeiçoa-a. Ele costuma tornar leve o seu jugo e fazer que nele se experimente a verdadeira felicidade, acalmando com graças e consolações aqueles que o levam, segundo a palavra do próprio Jesus Cristo: «Suave é o meu jugo, leve o meu fardo» (Mt 11,30).
Quão sábia e generosa é a alma que desde cedo foi educada na escola de Jesus Cristo e quis conservar-se verdadeiramente livre, submetendo-se ao jugo divino, ou que geme por ter passado alguns dias fora dessa disciplina, que é princípio de vida e de força! Essa alma heroica está firme no propósito de submeter-se e consagrar-se até a morte ao serviço do Senhor, no silêncio, na paciência e na resignação; sem jamais sacudir o seu jugo e abstendo-se de toda murmuração; pois a alma que procura libertar-se desse jugo, leva-o a contragosto, arrasta-o e aborrece-o; e então é esmagada por ele e perde todo mérito…
É coisa boa habituar-se desde jovem à disciplina, à mortificação, à austeridade, à paciência e à prática da virtude, em uma palavra, ao serviço de Deus. Esta é a via que conduz à salvação eterna e a grande perfeição. Desde a infância, Sansão e Samuel abstiveram-se do vinho e de toda bebida fermentada e foram consagrados nazireus. Em idade muito tenra, São João Batista retirou-se para o deserto, vestiu o cilício, alimentou-se de gafanhotos e mereceu ser o precursor e o mártir de Jesus Cristo. O divino Salvador começou, desde o presépio, a praticar a pobreza e a obediência, a levar uma vida de privações e a preparar-se para a cruz. Ele dizia de si mesmo, por meio do profeta: «Levei uma vida atribulada e pobre desde os dias da minha juventude» (Sl 87, 16).
Jesus ama a infância que o serve, diz São Leão, aquela infância que ele assumiu em sua alma e em seu corpo. Jesus ama a infância que é modelo de humildade, de inocência e de mansidão. Jesus ama a infância segundo a qual forma os costumes e à qual reconduz a velhice, e que propõe como exemplo àqueles que chama a entrar no reino dos céus (Serm. in Epiph. n. 7).
Onde encontrar utilidade igual àquelas que se encontram no serviço de Deus aceito desde a juventude? Sabeis o que quer dizer servir a Deus desde a juventude? Quer dizer conservar a própria inocência e pureza; estar na graça de Deus, ter Deus em nós mesmos, seus favores e suas bênçãos; quer dizer jamais perder o precioso tesouro do batismo e permanecer fiéis aos sagrados compromissos nele contraídos; quer dizer avançar de virtude em virtude e aumentar a cada ano, a cada dia, a cada hora, os próprios méritos e a própria coroa; quer dizer conservar a paz do coração e preparar-se para inefáveis consolações, assegurar a própria salvação, permanecer templo do Espírito Santo, ornado de todos os seus dons; mostrar-se digno membro de Jesus Cristo, sair vencedor do inferno, do mundo e de nós mesmos; quer dizer começar na terra a vida dos anjos e saborear antecipadamente uma amostra das inefáveis delícias da cidade celeste; quer dizer ser a consolação do Pai, do Filho, do Espírito Santo, de Maria, dos anjos, dos santos, da Igreja, da sociedade e da família; espalhar por toda parte o bom odor de Jesus Cristo e convidar, pelo próprio exemplo, os outros a fazer o mesmo, a evitar o pecado, a praticar a virtude e a santificar-se.
Feliz no tempo e na eternidade aquele jovem que serve ao Senhor de todo o coração, de toda a alma e com todas as forças, e que persevera nesse doce e salutar serviço!
1º porque esta idade passa depressa. — Que é a juventude? Uma idade que passa como a flor que desabrocha pela manhã e murcha à tarde; como vapor ligeiro ou gota de orvalho ao surgir do sol; como sonho, relâmpago ou voo de pássaro… Que coisa são todas as idades, tomadas uma a uma? Que coisa é a vida inteira, comparada com a eternidade?
Para quantos, depois, a juventude é a última idade da vida? Quantos devem dizer com Ezequias, rei de Judá: No fim dos meus anos desço ao sepulcro… Minha vida foi arrancada e dobrada de repente, como a tenda de um pastor; foi cortada como a tela do tecelão. Enquanto eu ainda estava crescendo, a mão do Senhor me cortou; da manhã à tarde chegaram ao fim os meus dias. Eu esperava ainda ver a aurora do dia seguinte, mas o mal triturou meus ossos como um leão (Is 38, 10, 12-13)? Oh, de quantas pessoas se pode dizer aquilo que Jeremias dizia do povo de Jerusalém: «O sol se pôs para ela, quando ainda era dia claro» (15, 9)!
Se quereis saber por que uma morte prematura atingiu aquele jovem virtuoso, abri o Livro da Sabedoria, no capítulo IV, e vereis que, como ele agradava a Deus, por isso Deus o amou mais que aos outros e o tirou do meio dos pecadores entre os quais vivia, para que a malícia não lhe desviasse o entendimento e a ilusão não lhe corrompesse o coração. Pois muito facilmente acontece que o homem simples e aberto seja apanhado no laço da frivolidade dos bens e da inconstância dos desejos terrenos. Consumido em poucos dias, contudo viveu muito; e, porque sua alma agradava a Deus, Ele se apressou em tirá-lo das iniquidades do século. Mas as pessoas veem e não compreendem; não pensam que a graça e a misericórdia do Senhor chovem sobre os seus santos, e que o seu olhar repousa sobre eles. O justo morto condena os ímpios vivos; e uma santa juventude rapidamente transcorrida é repreensão para a velhice do malvado (Sb 4, 10-16).
Por que, então, outras vezes a morte derruba, não menos prematuramente, aquele jovem corrompido e ímpio? Embora sejam impenetráveis os segredos de Deus, que devemos adorar e não perscrutar, é-nos, contudo, lícito afirmar que isso acontece: 1° em punição da má conduta…; 2° para que não prolongue ainda mais a cadeia das iniquidades nem aumente ainda mais a conta, já demasiado terrível, que terá de prestar a Deus…; 3° para pôr fim aos escândalos que semeia…; 4° para que sirva de exemplo aos seus coetâneos: aos sábios, para que perseverem; aos dissipados, para que se convertam…; 5° porque estava maduro para o inferno.
Ah! A brevidade da juventude clama em alta voz aos jovens a necessidade de consagrar esta idade ao serviço do Senhor.
2° porque, qual é a juventude, tais são as outras idades. ― «A vossa velhice reproduzirá os anos da vossa juventude», diz o Senhor (Dt 33, 25). «O adolescente, diz o Sábio, seguirá o caminho pelo qual se encaminhou e dele não se afastará nem mesmo quando velho» (Pr 22, 6). «Os ossos do ímpio, escreve Jó, serão penetrados pelos vícios da sua juventude, e ele os levará consigo para o pó da sepultura» (20, 11). Um vaso de barro, como observa São Jerônimo, conserva por muito tempo, e algumas vezes até para sempre, diz o poeta, o odor do líquido com que foi enchido pela primeira vez (4).
3° porque esta idade é a mais exposta ao mal. ― Quem negará que a juventude seja uma idade cheia de ignorância, de inexperiência, de fraqueza, de presunção? Quatro motivos levam o demônio a mover uma guerra mais encarniçada contra a juventude do que contra as outras idades, e são: 1) porque sabe que Deus ama com amor especial a juventude mais piedosa e virtuosa; por isso, emprega mãos e pés para roubar ao Senhor a encantadora flor da idade e da virtude…; 2) porque, por esse meio, arrasta acorrentadas pelo caminho do pecado todas as idades seguintes…; 3) porque é mais fácil seduzir os jovens…; 4) porque, quando caem no vício, os jovens nele se submergem perdidamente… Também o mundo e a carne fazem aos jovens uma guerra mais cruel do que aos demais, como a experiência nos ensina.
«A juventude, escreve São Basílio, é muito leviana e sobremaneira inclinada ao mal; ora são concupiscências indômitas e desenfreadas, ora iras bestiais e cruéis. Maldade nas palavras, petulância no trato, arrogância nas respostas, empáfia e ostentação, filhas do orgulho; em suma, um enxame de vícios zune continuamente ao redor, assalta e morde a idade juvenil (5).» Ora, se os jovens estão expostos a tantos perigos e escolhos, a tantas tentações e paixões, e têm pouca ou nenhuma experiência, não será porventura coisa extremamente útil e necessária que se consagrem ao serviço de Deus, se querem escapar a certo naufrágio?
4° Porque esta idade pertence de modo especial a Deus. ― Certamente todas as idades pertencem ao supremo Senhor de todas as coisas, mas, por título especialíssimo, pertence-lhe a juventude, que representa as primícias da vida do homem; e todos sabem que as primícias foram, em todos os tempos e lugares, oferecidas ao Senhor… As belas flores da primavera, e principalmente as temporãs, são sempre as mais belas, as mais agradáveis, as mais preciosas, as mais procuradas; e nós as preferimos quando queremos oferecer um presente a uma pessoa querida. Ora, a idade juvenil é a flor mais eleita do jardim do Senhor; a Ele, portanto, é preciso consagrá-la… No vigor da idade, Jesus Cristo deu a sua vida pela salvação do mundo; diante deste pensamento, quem não consagrará ao divino Redentor esta parte da sua vida? … A juventude não nos pertence; tirá-la ou negá-la a Jesus Cristo é um furto que lhe fazemos.
A maior parte dos jovens envereda por um mau caminho e vai dizendo: Darei a minha juventude ao prazer e a velhice à penitência; concederei a juventude ao ócio e às paixões, a velhice ao trabalho e à virtude; sacrificarei a juventude à carne, ao mundo e ao demônio, e consagrarei a velhice à alma e a Deus… Que insulto a Deus, que vergonha para o homem, é esta de dar ao diabo a flor e o fruto da vida, reservando a Deus o talo transformado em palha! Onde encontrar insensatez mais estúpida que esta: desperdiçar no ócio e na moleza uma idade apta para o trabalho, e obrigar a uma fadiga demasiado pesada a idade feita para o repouso! Como se conduz o homem prudente nos negócios do século? Ele diz: é preciso que procure, no vigor da idade, prover-me dos meios para passar tranquilamente os meus últimos dias. Ora, por que não se faz o mesmo quando se trata do negócio da alma? … Que perigo assustador não é o daquele que se abandona à desordem, na vã e incerta esperança, primeiro, de uma vida longa e, depois, de ter o tempo necessário para a penitência! … À juventude cabe preparar, diz Sêneca, à velhice gozar (Pr.).
Grave imprudência e monstruosa ingratidão é abandonar e ofender a Deus na juventude. Àqueles que assim procedem dirigem-se estas repreensões de Jeremias: «Abandonaste, pois, o Senhor teu Deus no tempo em que Ele te guiava pelo caminho. E agora, de que te vale ter deixado a fonte de água viva para beber a lama das paixões e do mundo? A tua malícia se levantará para acusar-te, e a tua aversão se erguerá para repreender-te. Vê, enfim, e compreende quão funesta e amarga é para ti a coisa de te haveres afastado do Senhor teu Deus e de já não teres o seu temor. Quebraste as minhas cadeias, rompeste o meu jugo, gritando: Não servirei!» (Jr 2, 17-20).
E não são poucos, infelizmente, esses jovens que foram devorados pelo fogo das paixões, que se desviaram do reto caminho desde a primeira idade e se enredaram no erro desde a infância (Sl 77,63; 57,3).
Da maior parte dos jovens pode-se dizer, com Baruc, que viram a luz e, contudo, viveram uma vida carnal; ignoraram o caminho da sabedoria, não conheceram a sua vereda; rejeitaram-na, e ela se afastou deles (3, 20-21).
«Ó jovens, diz o Senhor, até quando amareis as infantilidades? Até quando os insensatos desejarão aquilo que lhes é nocivo, e os imprudentes voltarão as costas à ciência?» (Pr 1, 22). Até quando tereis vós aversão à ciência da virtude e da salvação, e acolhereis de bom grado as frivolidades, os jogos, o ócio, a preguiça, o pecado e a morte? … «Credes acaso encontrar, pergunta o Eclesiástico, na vossa velhice aquilo que não tiverdes recolhido na juventude?» (25,5).
Onde estão, ai de mim!, os jovens que tenham conservado sua inocência? Onde encontrar jovens humildes, modestos, castos, dóceis, sábios, edificantes? Como é pequeno o seu número! Como é grande, ao contrário, a multidão daqueles que perderam tão bela virtude! …
«Alegra-te, pois, ó jovem, nos dias de tua adolescência, dá vazão a todos os teus caprichos, mas sabe que Deus te pedirá contas de todas essas coisas» (Ecl 11, 9). «Os meninos, lamenta Jeremias, foram arrastados para a escravidão diante da face do dominador» (Lm 1, 5), isto é, diante do demônio, como explicam os intérpretes. E o profeta Baruc: «Não tomaram o caminho da sabedoria; por isso pereceram» (3, 27). Eis, finalmente, como o Espírito Santo descreve, pela boca de Jó, os castigos que seguem uma juventude culpável: «Senhor, vós me amargurastes até o fundo da alma e me fizestes vítima das faltas da minha adolescência. Pusestes obstáculos aos meus pés e observastes todos os meus atos; serei devorado como um corpo corroído pelo câncer, como uma veste consumida pela traça» (Jó 13, 26-28).
Dessas palavras da Escritura deduz-se que Deus ameaça a juventude viciosa com os seguintes castigos: 1° a pior das escravidões, a do demônio; 2° a amargura do remorso; 3° uma ruína total; 4° uma morte espantosa; 5° um juízo terrível… Que desgraça perder a inocência, a bela idade, a virtude, a alma e Deus! … Que tremendo castigo ser vendido ao vício e ao demônio! …
São muitos os meios que nos conduzem a servir a Deus e a corrigir-nos de nossos defeitos desde a juventude.
1° A observância da lei divina. «De que modo pode a juventude corrigir seus costumes?», pergunta o Salmista, e responde: «Observando os preceitos do Senhor» (Sl 118, 9).
2° A lembrança de Deus. «Lembra-te de teu Criador nos dias de tua juventude», lemos no Eclesiastes (12, 1).
3° O temor de Deus. Tobias ensinou seu filho a temer a Deus desde a infância e a abster-se de todo pecado (Tb 1, 10).
4° A prudência. «Saí da infância, vivei e caminhai pelas vias da prudência», lê-se nos Provérbios (9, 6).
5° A instrução cristã. «Meu filho, diz o Sábio, recebe a instrução desde os teus primeiros anos e encontrarás a sabedoria até o fim» (Eclo 6, 18).
6° Antepor Deus a todas as coisas e lembrar-se de que a alma é o tesouro mais precioso confiado à guarda do homem…
7° Amar a bem-aventurada Virgem Maria com afeto cordial e terno, recomendar-se a ela todos os dias e não deixar passar um só dia sem prestar-lhe alguma homenagem especial.
8° Jamais conservar na consciência um pecado mortal, mas arrepender-se todos os dias das faltas cometidas e confessá-las o quanto antes.
9° Pensar frequentemente na morte e considerar que, depois da morte, aquele que foi moderado na juventude será eternamente feliz com Deus e com os santos; ao contrário, quem se esquece de Deus na aurora da vida tem toda razão para temer perder-se eternamente…
10° Respeitar a si mesmo, tanto em público como em particular.
11° Fazer todas as ações como se estivéssemos sob os olhos de pessoas respeitáveis.