Tesouro n.º 128 · Volume II

NADA (DO) MUNDO NIENTE (IL) DEL MONDO

7 seções · 40 parágrafos · pp. 1523–1536 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O MUNDO É POBREZA, VAIDADE, FALSIDADE

«Depositas tua esperança no dinheiro? escreve Santo Agostinho; corres atrás da vaidade; esperas nas honras? apegas-te à fumaça; confias em algum amigo poderoso? entregas-te ao vento. Enquanto te afeiçoas a essas coisas, ou morres e as abandonas; ou, se vives, elas perecem e decepcionam tua esperança. Essa vaidade de todas as coisas do mundo é indicada por Isaías: Toda carne é feno, e toda a sua glória é como a flor do campo; secou-se a erva e caiu a flor, ressequida (1)».

Escreve São Gregório Nazianzeno: Quem sou eu? E onde me encontrava antes de nascer? E que serei? O caminho da vida está semeado de aflições; não há entre os homens nenhum bem sólido e real; tudo é carente e imperfeito. As riquezas são armadilhas; sonho é o fausto dos grandes, o esplendor dos tronos. A pobreza torna escravo, a beleza não dura senão um dia e desaparece como o relâmpago; é duro submeter-se a outros, perigoso estar acima deles. A juventude é um nada, a velhice é o triste ocaso da vida. As palavras passam sem deixar vestígio; a glória é uma rajada de vento; a nobreza, um sangue envelhecido; o matrimônio, uma servidão; o repouso, um sinal de fraqueza; o trabalho, uma pena; os cargos públicos são escolas de imoralidade; temos em comum com o javali a força; uma parte dos navegantes naufraga, e a própria pátria pode converter-se num abismo. No mundo tudo é tropeço, vaidade, falsidade, indigência; tudo é temor, falsa alegria, sombra, orvalho, corrida veloz, sopro que passa, vapor que se dissipa, sonho, onda inconstante, nau impelida por vento fortíssimo, pegada que se apaga, pó. Quer esteja sentado ou de pé, quer vá ou venha, quer retorne ou caia, todo homem está acorrentado ao tempo que foge: é o joguete do dia e da noite, dos desgostos, das contrariedades, das calamidades, da morte (De vitae itin.).

«Que dizes, ó homem? exclama o Crisóstomo. Chamado ao reino do Filho de Deus, tu te entregas à indolência? Fazendo assim, corremos a sorte daqueles passarinhos tardios e preguiçosos que, não querendo jamais sair do ninho, se tornam tanto mais fracos quanto mais tempo nele permanecem. Com efeito, esta vida é um ninho de palhas e de lama. Ainda que me mostres magníficos palácios e suntuosos palácios reais, resplandecentes de ouro e de pedras preciosas, não os distingo em nada dos ninhos das andorinhas. Chegado o inverno, todos caem da mesma maneira (2)». Quanto às felicidades do século, o que são elas, diz Santo Agostinho, senão sonhos de quem dorme? Quem vê e conta tesouros em sonho julga-se rico, mas, ao despertar, encontra as mãos vazias; assim acontece àqueles que se comprazem nas vaidades do mundo. Alegram-se em sonho; se os miseráveis não despertarem agora, quando lhes é proveitoso despertar, despertarão um dia contra a própria vontade. Vamos, pois, despertai, sacudi de vós o torpor (3). Eis que o mundo, que tanto amais, foge, diz São Gregório Papa. Como é possível que, enquanto já seca em si mesmo, ainda floresça em nossos corações? (4)».

«Vaidade das vaidades, exclama o Sábio, e tudo é vaidade. E que proveito tira o homem de todos os seus trabalhos e de todas as suas fadigas, senão vaidade e nada?» (Ecl. 1, 2-3). Esta sentença, verdadeira durante a vida do homem, mais verdadeira no momento da morte, mostra-se veríssima depois da morte. O ímpio, o mundano, consome-se no trabalho sob o sol e prepara para si tormentos eternos. O homem sábio e piedoso, ao contrário, trabalha numa região superior à do rei dos astros; com efeito, reunindo boas obras e méritos de virtude, deposita o seu tesouro no céu, vive de Deus e recebe dele a vida eterna. «Ah! se os ricos prestassem atenção a esta sentença, diz São João Crisóstomo, escrevê-la-iam em todas as paredes de suas casas, nas portas, nas praças e em suas vestes; porque as coisas apresentam muitos aspectos e muitas imagens falazes que enganam os incautos. Importa, pois, repetir todos os dias, nos banquetes e nas conversas, o amigo ao amigo, o vizinho ao vizinho, estas palavras: Vaidade das vaidades, tudo é vaidade (5). Vaidade, isto é, sombra leve e fugitiva, coisa que não satisfaz o desejo, objeto de nenhum valor, fútil, mutável, sujeito à corrupção, falso e sedutor.

São três as principais razões pelas quais a Sagrada Escritura chama vaidade das vaidades a todas as coisas do mundo: 1° porque toda criatura, comparada a Deus, o Criador, que é o oceano do ser e de toda perfeição, é como um nada…; 2° porque nenhuma coisa criada pode tornar o homem feliz ou aplacar seus desejos, que são imensos…; 3° porque o homem, em sua insensatez, abusa de toda coisa criada para a vaidade, isto é, serve-se dela para satisfazer suas vãs concupiscências, que o conduzem à morte temporal e à eterna.

O Venerável Beda chama «caçadores de ninharias todos os amantes do mundo» (Collectan.); o profeta pedia ao Senhor que guardasse seus olhos, para que não vissem as vaidades da terra (Sl 118, 37). Barlaão lamentava os anos que empregara a serviço do mundo, como anos passados na morte, não na vida (6). Fílon diz que os pensamentos dos mortais se assemelham aos sonhos: vão, vêm, apresentam-se, afastam-se, e, quando alguém julga agarrá-los, fecha o punho vazio; exatamente segundo a sentença do Salmista: «Os ricos do mundo dormiram o seu sono e, ao despertar, encontraram as mãos vazias» (Sl 75, 5).

«Há sete coisas que não podemos encontrar no mundo, observa o Venerável Beda, o que demonstra sua pobreza e seu nada; e, com efeito, onde encontrar aqui embaixo vida sem morte, juventude sem velhice, luz sem trevas, alegria sem tristeza, paz sem discórdia, vontade sem resistência, reino sem mudança? (7)». Retirai do mundo a certeza da vida, a juventude, a alegria, a paz sem alteração, a possibilidade de fazer a própria vontade, a estabilidade da ordem: o que nos resta ainda, senão calamidade e desordem?

A propósito daquele texto da Escritura: «Não vos entregueis a seguir coisas vãs» (1Sm 12, 21), São Gregório escreve: «Em comparação com os bens eternos, todas as coisas, mesmo as melhores, deste mundo são vaidade; com efeito, tudo o que há aqui embaixo de alegre, deleitável, grande e próspero, pelo simples fato de ser obtido com dificuldade e perdido rapidamente, demonstra ser vão e sem substância. As grandezas do século desabam ao sopro de um vento, a beleza descolore num instante, a prosperidade e a alegria desaparecem num piscar de olhos. Enquanto se contempla com prazer a visão do mundo florescente, eis que um acidente repentino o perturba ou sobrevém a morte, que põe fim a tudo. Vãs, portanto, são as alegrias do século, que fazem cócegas como se fossem duradouras e, entretanto, ao desaparecerem, enganam aqueles que a elas se apegam (8)».

Quereis saber quais são as vaidades e falsidades que existem em todas as coisas criadas, e qual é o seu número? Não seria possível contá-las verdadeiramente todas, mas, considerando-as de modo geral, apresentam-se doze que se destacam entre as demais, como contrárias a outros tantos bens verdadeiros e reais que existem em Deus e no céu: a primeira é a pobreza de toda criatura; a segunda é a sua inutilidade; a terceira é a sua incapacidade de saciar; a quarta é a sua breve duração; a quinta é a sua instabilidade; a sexta é a sua falsidade; a sétima é a sua insensibilidade; a oitava é a sua infidelidade; com efeito, tudo nos engana: o campo, a vinha, a casa etc.; a nona é a incerteza que a acompanha; a décima é a sua fraqueza; a décima primeira, o desgosto e o vazio que deixa; a décima segunda, o seu termo: a morte. Em menos tempo do que se pode dizer, tudo termina, tudo desaparece. E assim os amantes do mundo receberam sua recompensa, conclui Santo Agostinho; inchados de vaidade, não tiveram senão coisas vãs (De Civ. Dei).

Este mundo é uma comédia que terminará com um trágico despojamento… Tudo no mundo é treva e sonho… ao primeiro despontar do grande dia do Senhor, tudo se dissipará… «Era uma sombra, diz o Crisóstomo, e desapareceu; era fumaça, e se dissipou; era teia de aranha, e foi varrida (9)». Onde está hoje o fausto de Nembrod? Onde, o poder de Assuero, que imperava sobre vinte e sete nações? Que foi feito da glória de Ciro, adquirida com tantos trabalhos? … do esplêndido reino de Dario? … dos tesouros de Creso? Quem encontra atualmente as inumeráveis hostes de Xerxes, o vasto império de Alexandre, o imenso poder de Pompeu, a invencível fortuna de César, a ilimitada monarquia de Augusto? Que nos resta das repugnantes lascívias de Tibério, do cruel fausto de Nero, do orgulho de Semíramis, da fatal beleza de Helena, das volúpias de Cleópatra, da felicidade de Lívia, dos magníficos adornos de Agripina? Vaidade das vaidades, tudo passou e recaiu no nada. Que foi feito da soberba Babilônia, da imensa Mênfis, de Cartago, terror de Roma, da ilustre Argos, da bela Corinto, da rica Sardes e de Jerusalém, a santa? Montes de pedras, covis de feras e de serpentes, vaidade das vaidades. ― É preciso, pois, desapegarmo-nos das coisas do mundo e apegarmo-nos somente a Deus. Se amais o século, diz Santo Agostinho, ele vos tragará (In Psalm.). «Saiamos daqui, diz São Gregório de Nazianzo, tornemo-nos homens, deixemos os sonhos, passemos para além das sombras. Renunciemos aos tronos, às grandezas, às riquezas, ao esplendor; tudo isso não passa de glória de crianças, jogo mímico, espetáculo teatral (10)».

«Eu vi, diz o Eclesiastes, que o riso é enganador e disse à alegria: por que me lisonjeias em vão?» (Ecl. 2, 2). A volúpia mente; não é prazer, mas dor e tormento. A riqueza mente; não é abundância, mas privação das riquezas que estão no céu. As honras mentem; não são honras, mas ônus e ludíbrio do século. «A verdadeira felicidade consiste, diz Santo Euquério, em desprezar a felicidade do mundo e buscar ardorosamente as coisas divinas, negligenciando as da terra (11)». «Aqueles que choram por objetos vãos, diz Santo Agostinho, choram em vão, e aqueles que riem das vaidades riem do próprio mal; erram porque se alegram com aquilo que deveria entristecê-los, riem quando lhes conviria chorar; semelhantes às crianças que brincam e saltitam enquanto morrem seus pais (12)».

Ó nada do mundo! «O homem, diz o Eclesiastes, saiu nu do seio de sua mãe, e nu voltará para lá, sem levar consigo nada dos frutos de seus trabalhos. Ó miséria inenarrável! Tal como veio, assim partirá. E de que vale ter-se afadigado tanto?» (5, 14). Os mais florescentes reinos do mundo não são senão vento, e vento são suas riquezas e sua glória; investem uns contra os outros e combatem entre si e passam como o vento; são terríveis como as tempestades e desaparecem de repente como a poeira.

Todos os bens deste mundo são falazes; têm aparência, mas não realidade; estimulam a fome e a sede, mas não as saciam; fazem cócegas aos olhos, mas não alimentam a alma. A razão é esta: a alma foi criada à imagem de Deus e, por isso, é capaz de gozar de um bem infinito, que é Deus; foi feita para Deus e, portanto, não pode ser satisfeita, muito menos preenchida, por nenhum bem finito, sombra e nada como são todas as coisas da terra. Com efeito, assim que goza de um objeto, logo deseja outro. A alma terrena e carnal assemelha-se ao cão ávido que, enquanto engole o bocado que lhe foi lançado, procura com os olhos aquilo que o dono pode ter na mão. «Considera, ó homem, diz São Bernardo, que tudo quanto fazes neste mundo é vaidade, insensatez, loucura, exceto aquilo que fazes em Deus, por Deus e em honra de Deus. E tu amas o mundo e abandonas a Deus! Quem ama o mundo está sempre na angústia; viver para o mundo é morrer; somente a alma que morreu para o mundo viverá. Morrei para o mundo enquanto viveis no corpo, para que, morto o corpo, comeceis a viver em Deus (13)».

O pecador que põe sua felicidade nas criaturas e não no Criador coloca-a numa sombra, num nada; mas quão grandes parecem ao homem cego as sombras das criaturas nas trevas da vida presente! Ao pôr do sol, as sombras das montanhas vão se alongando, até se tornarem gigantescas; assim, à medida que Deus desaparece do horizonte do homem, as sombras projetadas pelas vaidades da terra estendem-se e alargam-se sobre o coração do mundano, que as admira e procura. Ele imita o cão de Esopo que, ao ver refletida na água do rio a carne que trazia na boca, deixou esta para morder aquela e perdeu o real por ter querido o imaginário. Este é precisamente o caso dos mundanos: abandonam a suprema verdade, o sumo bem que é Deus, para agarrar a sombra, e acabam sem Deus e sem a sombra.

Clama o estábulo de Belém, clama a manjedoura, clamam as lágrimas de Jesus recém-nascido e as faixas em que foi envolvido, clama a cruz, clama o sangue de Jesus Cristo, e que clamam? Clamam a humildade, a pobreza, a penitência, o desprezo das riquezas, dos prazeres e das honras do mundo. Clamam: «E até quando, ó filhos dos homens, tereis coração de pedra? Por que amais a vaidade e buscais a mentira?» (Sl 4, 3). As grandezas e as promessas do século são vaidade, são nada; desprezai-as e buscai somente as coisas sólidas e desejáveis. Somente no céu e em Deus, e não na terra e nas criaturas, estão o verdadeiro poder, a verdadeira glória, a verdadeira felicidade e os verdadeiros tesouros. Eis o que Jesus Cristo nunca cessou de recomendar, do presépio ao Calvário, com palavras e, muito mais, com obras.

2. O MUNDO É UM EXÍLIO, UM INSTANTE, UMA MORTE CONTÍNUA

O mundo é para o homem um exílio… Paulo Orósio, amigo de Santo Agostinho, dizia: sirvo-me da terra como de um exílio; porque a verdadeira pátria, a pátria que amo, não se encontra em parte alguma do globo. Não perdi nada onde nada amei e tenho tudo quando tenho aquele que amo. Ele é o mesmo para todos; é ele quem me ilumina e me une a si.

«Ele beberá da água da torrente no caminho» (Sl 109, 8). Santo Agostinho comenta assim: «A torrente representa a passagem da estirpe humana sujeita à morte. Assim como uma torrente se forma com a água da chuva, avoluma-se, faz estrépito e corre velozmente, e, correndo, passa, isto é, termina o seu curso; assim passa a vida de todo mortal. Os homens nascem, vivem, morrem; enquanto uns morrem, outros nascem. Que há aqui embaixo que possamos tornar estável? Que há que não corra a precipitar-se no abismo, como correm para o mar as águas do céu, reunidas em rios e torrentes? (14)».

3. NO MUNDO TUDO DESAPARECE

No mundo tudo muda e se renova; somente Deus é aquele que é (Ex 3, 14), isto é, somente Deus é imutável. «Eu, o Senhor, não mudo» (Ml 3,6). «Vós, ó Senhor, exclama o Salmista, sois eternamente o mesmo» (Sl 101,28). Ao contrário, o título que convém ao mundo e a toda criatura é este: Eu sou criado, eu mudo; mudo de corpo, de espírito, de vontade, de desejos, de afetos; numa palavra, estou em contínuo movimento e mudança. Porque a natureza criada é dependente, fraca, imperfeita, mutável e instável, muda continuamente. Eis por que aqueles que põem sua esperança e seu amor no homem ou em qualquer outra criatura sentem-se impelidos a uma fome e sede insaciáveis; veem-se assaltados por desejos e temores, passam de um sentimento e de um afeto a outro, sem jamais repousar, segundo as palavras de Jeremias: «Jerusalém afundou-se no pecado; por isso se tornou instável» (Lm. 1, 8). Por isso o Crisóstomo diz: «Por que buscas aqui embaixo, ó homem, alegrias estáveis e duradouras? Tudo quanto vês aqui é caduco e breve (15)».

Quereis ser firmes, constantes e imutáveis, não obstante a vossa natural fraqueza? Uni-vos à natureza imutável e ao bem sólido que é Deus. Deus nunca muda; as criaturas mudam a cada sopro do vento; agora querem, depois já não querem; hoje amam, amanhã odeiam; pela manhã agradam, à tarde desagradam. Hoje nos amparam, amanhã nos abatem; num dia querem e não podem, noutro podem e já não querem. Num momento atingem o auge das honras e da fortuna e, pouco depois, encontram-se na estreiteza; agora vivem, dentro em pouco estarão mortas.

A sentença de morte contra o gênero humano, contra os povos, os reinos e toda criatura do mundo foi registrada pelo Eterno quando disse ao homem: «Tu és pó e ao pó voltarás» (Gn 3, 19). Pó são todas as riquezas, o poder e a grandeza deste século, e como pó desaparecem nos turbilhões do tempo. «Clama, disse uma voz a Isaías. E que devo clamar? Que toda carne é erva e toda a sua glória é como a flor do campo. A erva seca e a flor cai murcha» (Is 40, 6-7). Para aqueles que as meditam com humildade, estas palavras tornam fácil tudo o que é duro e penoso: destroem os vícios, inflamam para a virtude e atraem todas as graças de Deus…

«Todo o esplendor do gênero humano, observa Santo Agostinho, as honras, os poderes e os tesouros são flor do campo. Floresce aquela casa e torna-se grande; floresce aquela família e torna-se numerosa; mas por quantos anos? … Tudo o que floresce aqui embaixo, tudo o que resplandece, seja pela beleza, seja pela riqueza, não dura (16)». Que são na terra os personagens mais eminentes e célebres, diz São Gregório, senão flores dos campos? Contudo, a vida presente não passa de uma flor (Moral. l. 11, c. XXVI).

Se o homem, que, afinal, é o rei da criação, não passa de uma bolha de sabão, e sua vida é uma aparição no palco, uma flor que, mal desabrocha, já murcha, que será das demais criaturas, tão inferiores a ele? Os condenados compreendem bem esta verdade, mas tarde demais. Para que nos serviu a soberba? — dizem eles — que recolhemos de nossas riquezas? Tudo passou como uma sombra, dissipou-se como fumaça, apareceu e desapareceu como um relâmpago. Oh, como vê e pesa retamente as coisas aquele que alimenta a mente com tais pensamentos! Por que, ó infeliz e cego mortal, invejas a condição deste ou daquele homem, se podes morrer amanhã e talvez ainda hoje? Por que a beleza daquela pessoa acende as vossas paixões? Não percebeis que cobiçais uma flor dos campos, que dentro de poucas horas estará languida e murcha? — Por que preparar à mesa tantas iguarias delicadas? Por que cultivar tanto a carne? — Ó filhos dos homens, por que obedecer aos desejos da carne, que não passa de feno e cinza; por que amar a vaidade e deleitar-vos com a mentira?

«Ó miserável condição do homem! exclama São Jerônimo: todo o tempo que vivemos sem Jesus Cristo é tempo desperdiçado (17).» «Atentai, diz Santo Agostinho, que o mundo passa: vede que o mundo cai; e, se prestardes atenção, observai que arrasta consigo todas as coisas» (18).

4. OCUPAÇÕES VÃS DO MUNDO

Nos mundanos se verifica aquilo que diz o Salmista: «Sejam eles como uma roda, como a palha revolvida pelo vento» (Sl 82, 12). Deles escreve Isaías que, confiando no nada, falam coisas vãs, concebem o mal e dão à luz a iniquidade; tecem teias de aranha (Is 59, 4-5). «Tecer teias de aranha, explica São Gregório, é fazer algo por impulso da carne ou do mundo; não estando tais obras apoiadas sobre uma base sólida, não pode deixar de acontecer que o vento as leve» (19).

Vemos a aranha afadigar-se em tecer e consumir-se; para fazer o quê? Uma teia imunda e sem consistência. Assim, os homens carnais e mundanos se afadigam, desgastam-se, exaurem-se e abreviam seus dias; e que fazem? Teias de aranha, isto é, coisas frívolas, vãs, perecíveis, que o menor acidente põe a perder. — Ó tecelões e mercadores insensatos, que trabalhais em torno do nada, em torno daquilo que não dura o tempo de um abrir e fechar de olhos; que teceis vícios e permutais bens infinitamente preciosos e eternos por coisas sem valor, pelo fruto amargo do pecado; vós que dais o céu pela terra, a alma pelo corpo, a virtude pelo vício, o Criador pela criatura, a liberdade pela escravidão, a felicidade pela infelicidade, a vida em troca da morte; quão cegos, aturdidos e loucos sois!… Por que, em vez de imitar a aranha, não tomais como modelo o bicho-da-seda, cuja obra é bela, útil e sólida? …

De vós falou Ageu quando disse: «Semeastes muito e colhestes pouco; comestes e não vos saciastes, bebestes e não matastes a sede; vestistes-vos e não vos aquecestes; recolhestes prata e a pusestes numa bolsa furada» (Ag 1,6). Ó vãs ocupações dos mundanos! Se, colocados no cume de uma montanha altíssima, pudéssemos ver a nossos pés a terra inteira, eu vos mostraria, diz São Jerônimo, ruínas inumeráveis e imensas, nações lutando contra nações; reinos exterminando reinos; veríeis uns torturados, outros degolados; estes naufragando, aqueles sendo arrastados como escravos; de um lado, núpcias, banquetes e alegria; de outro, sepulturas, gemidos e luto; veríeis uns entrarem no mundo, outros saírem dele; aqui, abundância de bens, ali, a mais desoladora indigência; estes nadando na abundância, e a maioria lutando para viver; e todos os exércitos mais robustos e toda a gente que agora habita a terra e está no vigor da vida destinados a morrer no breve curso do tempo (Epl. 3, ad Heliod.).

O mundo está em perpétuo movimento; seus filhos vão e vêm, sobem e descem. Os trabalhos manuais, o tráfego, o comércio, o estudo das letras e das ciências, as viagens, as disputas, as acusações, as defesas, os julgamentos, os ódios, as vinganças, as queixas, as lutas constituem o seu viver, formam a sua ocupação. Constroem, embelezam, fazem projeto sobre projeto; mas, entretanto, quantos há que, em meio a essas agitações, pensem em Deus e se preparem para a morte?

5. O MUNDO NÃO APRECIA NENHUM SACRIFÍCIO FEITO POR ELE

«Pereceram, diz o Salmista, e seus corpos tornaram-se esterco» (Sl 82, 9). Insensatos, que não quereis servir a Deus e correis loucamente atrás deste mundo volúvel, perverso, cruel, ingrato e que vos foge. Vós vos sacrificais por ele, e ele vos esquece; vós o adulais, e ele vos despreza; vós o acariciais, e ele vos imola. Vós lhe dais o corpo, a alma, a consciência, o coração, o céu e Deus; e ele vos retribui com dores, humilhações, enganos, lágrimas e aflições; com a desonra, com uma morte espantosa e, finalmente, com o inferno. Vede como o mundo retribui aos seus! Nunca deu, nem pode dar, outra moeda a seus cegos adoradores!

A alguns parece demasiado duro o serviço de Deus, e queixam-se dele como de um peso insuportável; mas os sacrifícios que ele exige podem acaso comparar-se aos que o mundo exige? Além disso, se algum sofrimento custa o serviço de Deus, não temos nós, na graça aqui embaixo e na glória no céu, ampla compensação? Onde estão, ao contrário, as recompensas que o mundo dá? Ai de mim! Como pagamento por todos os tormentos com que tortura suas criaturas nesta vida, prepara-lhes e assegura-lhes tormentos eternos na outra.

6. A VIDA DO MUNDO É VIDA DE AFLIÇÃO

É penosa a vida que o homem leva neste mundo, diz São Gregório; é mais vã que as fábulas, mais veloz que um corcel; repousa sobre a instabilidade e a fraqueza; não tem vigor nem força. É uma cadeia de decisões irresolutas, de agitações incessantes, de trabalhos contínuos. Quem há que não seja atormentado pela dor, pelas preocupações e pelo temor? As lágrimas misturam-se ao riso, a tristeza à alegria; uma saciedade pesada e enfadonha sucede à fome, e a fome à saciedade. À noite suspira-se pelo dia; durante o dia deseja-se a noite; se o frio fere, deseja-se o calor; se o calor incomoda, invoca-se o frio. Apetite e desejo antes da comida; peso, torpor e tontura depois da refeição. O desgosto, a ira, a cólera e mil outras paixões não cessam de afligir e tiranizar o homem (Moral. lib. VI).

Não há verdadeira coragem nem heroísmo nos mundanos; mas o fogo do delito e da desordem. Adoram o vício, temem a virtude… Que se torna o homem, ainda que forte, rico e poderoso, se abandona a Deus, a virtude e a religião, e se a virtude e Deus o abandonam? Ele não é mais que um amontoado de fraqueza, de quedas e recaídas; é a imagem da loucura, a presa de desejos perversos, o joguete das paixões, dos vícios, das tentações, do mundo, do demônio, da carne, da morte, do inferno, enfim, de todas as misérias corporais e espirituais, temporais e eternas…

«Os dias são maus», escreve o Apóstolo (Ef 5, 16); isto é, os dias da vida presente estão cheios de angústias, dores, privações, aborrecimentos, aflições, desgostos, tristeza, gemidos, pranto, tentações, perigos, achaques de toda espécie… E tão miserável e exposta aos perigos é a vida deste mundo, que muitos preferem a morte; e, por mais breve que seja a vida, ela já lhes parece longa demais. Quem viveu como bom cristão não deve temer a chegada da morte, mas antes desejá-la, e aqueles que desejam ver prolongados os seus dias deveriam, antes, chorar pelos anos passados… «A terra desfalece no abatimento e na tristeza; está coberta de imundícies», diz Isaías (33, 9). «Que outra coisa clama, diz São Gregório, que outra coisa clama aquele mundo que continuamente nos causa tantos desgostos, senão que não o amamos? (20)».

A vida presente, escreveu Santo Agostinho, é uma peregrinação laboriosa; é fugidia, incerta, trabalhosa; expõe-nos a todo tormento; arrasta consigo todo mal; é a rainha do orgulho, cheia de miséria e de erros. Não se deve chamá-la vida, mas morte. Com efeito, o homem morre a cada instante e não cessa de mudar senão para submeter-se a diferentes espécies de morte… Quem terá a coragem de chamar vida ao tempo que passamos neste mundo? Bela vida, realmente, esta que os humores alteram, as dores prostram, os calores ressecam, um sopro envenena, os prazeres debilitam, as angústias consomem, a inquietação abrevia e cujo discernimento permanece entorpecido pela segurança! Os alimentos nos incham, os jejuns nos extenuam, as riquezas nos tornam altivos, ásperos e jactanciosos, a pobreza nos faz vis, abjetos e aduladores, a juventude nos ensoberbece, a velhice nos curva, a tristeza nos abate, a doença nos prostra. A todos esses males segue-se a morte, que põe fim de tal modo a todas as alegrias desta vida miserável que, quando ela se extingue, de bom grado imaginaríamos que jamais existiu. Esta morte é verdadeiramente vida, e a vida é uma espécie de morte.

Não sei que nome dar a esta triste vida; se devo chamá-la uma vida que morre, ou melhor, uma morte que vive (Medit.).

Aqui embaixo, a carne, o mundo e o demônio nos tentam reciprocamente e, às vezes, todos juntos. Às vezes somos perseguidos por escrúpulos; outras vezes, somos vítimas de suspeitas temerárias e injuriosas, de maledicências, de calúnias, de censuras, de afrontas, de zombarias, de escárnios, de ultrajes etc. «Desprezemos, pois, a terra — conclui São Gregório — e, lançando no esquecimento e sob os calcanhares todas as coisas do tempo, procuremos alcançar os bens eternos (21)».

Eis o juízo que faz do mundo e de todas as grandezas e alegrias terrenas alguém que experimentou todas elas: «Não neguei aos meus olhos coisa alguma que lhes agradasse, nem recusei ao meu coração prazer algum, julgando ser minha tarefa gozar o fruto dos meus trabalhos. Quando, porém, me voltei para as obras, fruto das minhas mãos, e para os trabalhos nos quais me havia afadigado em vão, vi e achei que tudo era vaidade e aflição de espírito» (Ecl. 2, 10-11). Também a coroa dos reis é pesada, incômoda e espinhosa: ela é entretecida de cuidados, inquietações, intrigas, insônias, ciúmes, trabalhos e perigos de toda espécie. Antígono dizia a seu filho: Ainda não aprendeste, ó filho, que o nosso reino não é outra coisa senão uma nobre escravidão? (Anton. in Meliss.). Muito sensata foi a resposta dada por Saturnino às legiões romanas que o convidavam a vestir a púrpura imperial: — Ah! vós ignorais, ó soldados — disse-lhes ele — quão grave e arriscado empreendimento é reinar. A espada está sempre suspensa sobre as cabeças coroadas. É preciso temer até os próprios guardas, e não se pode confiar nos amigos. Quem é chefe de um reino não come quando quer, não vai aonde quer e não faz a guerra nem a paz como quer; e como depressa acabam os reis e os reinos! (Anton. in Meliss.).

O cardeal Belarmino, àquele que se alegrava com ele por sua elevação à púrpura, respondia: — Ai de mim! vós não sabeis quantos longos espinhos se ocultam nas dobras da púrpura! (In Vita).

7. O MUNDO É A TERRA DAS INIQUIDADES

«Maldito seja o homem — exclama Jeremias — que confia no homem (isto é, no mundo) e se apoia num braço de carne, afastando de Deus o seu coração!

Será como a urze do deserto, sobre a qual jamais cai uma gota de orvalho; mas habitará numa terra inculta e deserta, numa terra semeada de sal, onde não pode habitar pessoa alguma» (Jr 17, 5-6). «A terra é verdadeiramente, como a chama Santo Agostinho (22), uma região de escândalos, de tentações e de toda sorte de males; para que gemamos aqui embaixo e mereçamos gozar lá no alto. Aqui, as tribulações; lá, as consolações. Que pode haver na região dos mortos, senão dor, temor, gemidos e suspiros? Cessem, pois, de uma vez os homens de desejar e amar as coisas que passam!». Exclamemos, suspirando com o Salmista: «Ai de mim, porque se prolongou o meu exílio!» (119, 5).

Ouçamos o aviso que São João Crisóstomo dava ao seu povo, exortando-o a não querer descer ao meio do mundo, mas antes a procurar sempre elevar-se para o céu. Enquanto as aves volteiam no ar, é difícil que sejam atingidas; enquanto o homem se mantém, pelo olhar da contemplação e pelo afeto do coração, no céu, seus inimigos não podem prendê-lo em suas redes. O demônio e o mundo são caçadores; coloquemo-nos tão alto que não possam alcançar-nos… Quem se eleva para Deus não se deixa seduzir pelas coisas terrenas. Vistas do alto da montanha, as cidades parecem muito pequenas, e os homens parecem formigas; contempladas do alto da contemplação espiritual, as grandezas do mundo parecem bem pouca coisa. Quem contempla o mundo de tal cume considera vil e desprezível tudo o que pertence ao mundo: glória, honras, riquezas e poder (Homil. 15, ad pop.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.