Tesouro n.º 126 · Volume II

MORTE MORTE

11 seções · 47 parágrafos · pp. 1498–1512 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. ORIGEM DA MORTE

A morte não veio ao homem da condição de sua natureza, mas foi punição de seu pecado (Rm. 6, 23) e efeito da inveja de Satanás (Sb 2, 24). Com efeito, somente depois da queda de Adão Deus proferiu aquela sentença: «Tu és pó, ó homem, e ao pó voltarás» (Gn 3, 19). Diz Santo Agostinho: «O homem fora criado imortal; quis ser Deus; perdeu não a qualidade de homem, mas a imortalidade, e o orgulho da desobediência trouxe consigo a pena da natureza (1)».

O homem não estava destinado, por sua natureza, a morrer; entretanto, não Deus, mas somente o homem é autor da morte, porque, pecando, deu voluntariamente origem à morte. O Senhor advertira Adão, dizendo-lhe: Come, a teu bel-prazer, de todo fruto que está no jardim; mas não comas do fruto da árvore da ciência do bem e do mal, porque, no dia em que dele provares, morrerás (Gn 2, 16-17). Adão não observou a proibição, provou o fruto, e a morte veio logo após essa grave desobediência. Ele quis o pecado, morte da alma, e teve de submeter-se à morte do corpo, punição da morte da alma, ou melhor, punição do pecado, princípio desta morte… Eis o produto, a recompensa, o salário do pecado! — Stipendia peccati.

2. HÁ TRÊS ESPÉCIES DE MORTE

Há três espécies de mortes, diz o cardeal Hugo: a que vem da natureza, a que vem do pecado e a que vem da graça. Na primeira, morre o corpo; na segunda, a alma; na terceira, o homem todo. A primeira separa a alma do corpo; a segunda separa a alma da graça; a terceira separa o homem inteiro dos embaraços do século. A primeira morte é para todos; a segunda, para os pecadores; a terceira, para os justos. Pela primeira, o corpo é sepultado na terra; pela segunda, a alma é precipitada no inferno; pela terceira, voa-se ao céu. Da primeira está dito no Eclesiástico: «Ó morte, quão amarga é a tua lembrança!» (41,1). Da segunda, escreve o Salmista: «A morte dos pecadores é péssima» (Sl 33, 21). A terceira era suspirada por aquele que disse: «Morra a minha alma da morte dos justos» (Nm. 23,10; Tract. de Mort.).

3. A MORTE É A SUPREMA SOBERANA AQUI EMBAIXO

A morte é uma poderosa dominadora, que comanda todos os homens e sabe fazer-se obedecer… Quer que o homem se prepare para esperá-la; deseja que, ao longo de seu caminho, possa encontrar os homens prontos e dispostos a recebê-la… Mas não espera ninguém, nem sequer um instante; na hora marcada, chama, e é preciso segui-la sem demora… Dizei um pouco ao pecador, ao incrédulo, ao ímpio, a todos esses que se rebelam contra Deus e lhe desobedecem; dizei-lhes que resistam e desobedeçam à morte!… Insensatos, não podem resistir à morte, que não é senão a cessação do respiro, e resistem a Deus, eterno, infinito, onipotente! Ó mortais, cegos e perversos!…

4. CERTEZA DA MORTE

«Está decretado, escreve São Paulo, que todos os homens morram uma só vez» (Hb 9, 27). Os ímpios e os libertinos às vezes duvidam das grandes verdades da religião, porque a voz das paixões e o endurecimento espiritual os ensurdecem de tal modo que já não ouvem a voz de Deus nem os clamores de sua consciência; mas ninguém jamais, nem sequer por um instante, pôs em dúvida a certeza de sua morte…

5. INCERTEZA DA MORTE

quanto ao tempo. ― O espanto e o temor que a morte inspira não provêm de sua certeza, pois todos sabem que se deve morrer e se submetem a isso, mas de sua incerteza. «Deus, diz Santo Agostinho, promete-vos que, no dia em que vos voltardes para Ele, esquecerá os pecados que cometestes, mas jamais vos prometeu o dia de amanhã. É precisamente por isso que o último dia nos permanece oculto, para que empreguemos bem todos os dias (2)».

«Estai preparados, diz Jesus Cristo, porque, quando menos o pensais, virá o Filho do Homem» (Lc 12, 40). «E o dia do Senhor vos surpreenderá como um ladrão que vem de noite», diz São Paulo (1Ts 5, 2). Se perguntais por que Deus quis manter oculta a nossa última hora, responde São Gregório que o Senhor assim dispôs para que permaneçamos sempre no temor e, não podendo prevê-la, nos preparemos continuamente para ela (3). E como? Pelo exercício incessante das obras virtuosas, segundo o ensinamento de São João Crisóstomo, que escreve: «Por isso quis Deus que fôssemos incertos quanto à duração de nossa vida, a fim de que, em tal incerteza, jamais nos afastemos da virtude» (Homil. in Act. Apost.).

Como ignoramos inteiramente o ano, o mês, a semana, o dia, a hora e o momento da morte, é preciso, se não somos completamente insensatos, que empreguemos os momentos, as horas, os dias, os meses e os anos em preparar-nos para a morte. Sobre estas palavras do Eclesiástico: «Ontem para mim, hoje para ti» (38, 23), Hugo de São Vítor faz a seguinte observação: Notai que a Escritura não diz: Amanhã para ti, mas hoje, e isso porque ninguém tem certeza de viver até amanhã (De Anima). Gravemos na memória aquela bela sentença de Sêneca: Não sabeis em que lugar a morte vos espera; esperai-a, portanto, vós mesmos, em todos os lugares.

quanto à idade. ― Das crianças, quantas passarão do berço ao túmulo? Jovens e moças, vereis vós as outras idades? Ignorais isso. A infância, a adolescência e a juventude podem ser para vós, como foram para tantos outros, a última idade. O certo é que a morte prefere imolar vítimas jovens… E vós, que estais no vigor da idade viril, quando morrereis? Daqui a vinte anos, daqui a dez, daqui a um ano? Não o sabeis: pode ser amanhã, pode ser dentro de uma hora… E vós, velhos encanecidos, quando morrereis? Ah! sabeis muito bem que a morte vos está à espreita, mas não dais atenção a isso. Entretanto, tanto a brancura dos cabelos, como as rugas do rosto, o bastão em que vos apoiais e a solidão que vos cerca, tudo vos diz: Velho, pensa na morte. A morte já quase não encontra vítima que chegue à decrepitude. Entre mil pessoas, é raro encontrar um octogenário… A cada trinta anos, as gerações se renovam quase por inteiro…

quanto à maneira de morrer no corpo. ― Qual será a doença precursora de nossa morte? Será longa ou breve? Derrubar-nos-á com um golpe violento ou pouco a pouco? Morreremos de dia ou de noite, pela manhã ou à tarde? Em nosso leito, onde talvez outros já tenham morrido, em nossa terra, em nossa casa, ou então em viagem, em país estrangeiro, acordados ou adormecidos, sós e sem socorro, ou cercados e chorados pelos nossos? Cairemos de uma morte prevista ou imprevista? Pereceremos pelo fogo, pela água ou pelo raio, sob as ruínas de um edifício, ou em consequência de alguma queda ou de outro acidente? Será pela mão de um ladrão ou de um assassino, por golpe premeditado ou fortuito? Sucumbiremos por mal da cabeça ou do coração, das vísceras ou do peito, por hemorragia, paralisia ou apoplexia fulminante, como acontece todos os dias a tantos? Talvez à mesa, no trabalho, no baile, num festim, na embriaguez, nos prazeres? Não será logo depois do primeiro pecado que tivermos cometido? Eis outras tantas interrogações formidáveis, às quais a única resposta que se pode dar é esta: não sei!

Casimiro II, rei da Polônia, morreu em meio a um esplêndido banquete. Ladislau, rei da Hungria e da Boêmia, morreu enquanto se preparava para celebrar as núpcias com Madalena, filha de Carlos, rei da França… A sentença de morte contra Baltasar foi lavrada e intimada a ele em meio a uma orgia sacrílega, e foi executada naquela mesma noite… Porventura não se viu acontecer que, no próprio dia das núpcias, antes que o sol se ponha, um dos esposos se torne cadáver?

quanto ao modo de morrer da alma. ― Se é terrível não saber de que morte será atingido o nosso corpo, infinitamente mais espantoso é ignorar em que estado se encontrará a nossa alma no momento de sua passagem do tempo para a eternidade.

Teremos nós a oportunidade de preparar-nos para a morte e de ajustar as nossas contas com Deus? … Teremos tanta força e inteligência que nos tornem possível uma boa confissão? … Teremos os meios de pôr em ordem os negócios de nossa consciência e, tendo-os, teremos também vontade de colocá-los em prática? … Experimentaremos um arrependimento suficiente? Obteremos o perdão dos pecados? … Morreremos em estado de graça? … Ó Deus, que terríveis perguntas são estas! Perguntas às quais só se sabe responder com o tremor e o silêncio…

E, em meio a estas dúvidas, a estas trepidantes questões que afligem todo aquele que nelas pensa, nós rimos! … não pensamos nisso! … divertimo-nos! … perdemos o tempo! … Esquecemos o Criador, não rezamos, ofendemos a Deus e não nos preparamos para morrer como cristãos! … Ó cegos e insensatos que somos! …

6. A MORTE ESTÁ PRÓXIMA

«Vou de um túmulo a outro túmulo», dizia São Gregório Nazianzeno (Distich.); isto é, do seio de minha mãe, no qual permaneci encerrado durante nove meses como num túmulo, passo à morte e à sepultura… O berço das crianças tem a forma de um esquife e anuncia, por sua própria forma, à criança o destino que a espera.

São Gregório Papa compara a vida humana a uma navegação. Quem viaja no mar, esteja sentado, de pé ou deitado, jamais deixa de avançar, levado pela embarcação. Tal é a nossa vida: quer durmamos ou estejamos despertos, quer falemos ou nos calemos, quer descansemos em nosso leito ou façamos uma viagem, jamais deixamos de nos aproximar, a cada dia e a cada instante, do termo em que a morte nos aguarda (Lib. VI Epist. XXVI).

Dizeis: conto vinte, trinta, cinquenta anos de vida; enganais-vos, esses anos não são vossos, mas da morte, que os conquistou de vós. Todos podemos dizer com São Pedro: «Estou certo de que em breve deixarei esta tenda» (II, 1, 14). O tempo se acotovela e se precipita, e, enquanto pensamos nisso, perecemos… «O homem passa como uma sombra, agita-se e afadiga-se inutilmente; acumula tesouros e não sabe quem deles gozará» (Sl.38,6). Quem não pode dizer: «Meus dias desapareceram como um sonho, e eu sequei como a erva ceifada?» (Sl.101, 12).

A Escritura compara a vida do homem, tão rápida e breve, à corrida de uma nave impelida pelo vento, ao disparo de uma flecha, ao voo de um pássaro, a um sopro, ao relâmpago, ao lampejo… Perguntai aos anciãos de noventa anos, a esses raros remanescentes de outra época, se a vida lhes pareceu longa; responder-vos-ão que lhes parece ter começado ontem. E, afinal, que são cem anos, se é preciso morrer? Que são cem anos, quando se chega a eles? O que é a vida humana de hoje em comparação com a dos homens antediluvianos? Mal saíam da infância na idade em que os anciãos de nossos dias já estão reduzidos a cinzas…

Eis por que, nos tempos antigos, quando se coroava um imperador, quatro escultores lhe apresentavam diferentes mármores, para que escolhesse aquele de que mais gostasse para o seu sepulcro. Era uma lembrança oportuna que lhe davam da morte, em meio ao fausto e à pompa que poderiam fazê-lo ensoberbecer-se.

O papa Estêvão II reinou apenas quatro dias; Celestino IV, dezessete; Bonifácio VI, quinze; Sisínio, vinte; Dâmaso II, vinte e três; Pio III, vinte e seis; Marcelo II, vinte e um; Urbano VII, sete; Leão II, vinte e sete. Deste último se narra que, ao morrer, dizia: «Oh! como eu seria mais tranquilo e feliz se, em vez das chaves do céu, tivesse guardado as de um convento! (4)». E assim acontece em todas as condições, por causa da brevidade e rapidez da vida. «Lembremo-nos, pois, direi com o Sábio, de que a morte não tarda, e de que foi promulgado o decreto que vos condena a descer às profundezas da terra, o decreto pronunciado sobre o mundo: Ele morrerá» (Eclo. 14, 12).

7. A MORTE NOS ACOMPANHA

O tempo não é outra coisa, diz Santo Agostinho, senão um correr para a morte; morremos todos os dias, porque todos os dias a morte nos rouba algum fragmento da vida (De Civit Dei, 1. 13, c. X). No mesmo instante em que entramos na vida, diz o Sábio, começamos a caminhar para a morte e a sair da vida. Mal nascemos, deixamos de existir (Sb 5, 13).

«Quanto mais avançamos em idade, tanto mais diminui a nossa vida, e a própria hora em que dizemos “eu vivo” já a dividimos com a morte (5)». O alimento, com o qual restauramos nossas forças, prova que a morte sempre nos tira alguma coisa; o sono nos rouba um terço da vida; durante os primeiros seis anos não temos o uso da razão; o trabalho abrevia a vida, os prazeres a desorientam, os desgostos a corroem, as doenças a consomem etc. Tirai tudo isso: que vos resta da vida? Quase nada.

8. A MORTE NOS DIZ QUE TUDO É UM NADA

A figura deste mundo passa, diz o grande Apóstolo (1Cor 7, 31). Notai que o Apóstolo chama a vida de figura, de sombra passageira. Esta é a verdadeira definição da vida humana! …

O dia presente foge, diz o poeta, e não sabemos se para nós nascerá a aurora do amanhã, nem o que ela nos trará, se trabalho ou repouso. E assim passa a glória do mundo (6). Queres que te fale claramente, pergunta Justo Lípsio? Eis o que te digo: todas as coisas humanas são fumaça, sombra, vaidade, cena de teatro; em uma palavra, são nada (7). Com efeito, o mundo é um teatro no qual se representa a cena da vida. O lugar desse teatro é a terra; os homens que entram e saem são os atores. Uma geração passa, diz o Eclesiástico, e outra vem. Duas portas dão acesso ao palco: o nascimento, para os que entram, e a morte, para os que saem. Cada um veste um traje; aquele que desempenha o papel de rei não levará para fora do teatro nem a púrpura, nem o cetro.

Ah, a cena termina depressa… Palácios, vilas, tesouros, nas mãos de quantos já passastes? E quantos habitantes e senhores ainda mudareis? Onde está Sansão, o Hércules do universo? Onde está Salomão, o mais sábio dos reis? Onde estão o eloquente Cícero, o erudito Plutarco, o divino Platão? Onde estão tantos homens célebres, tantos conquistadores famosos, tantos príncipes, tantos Cressos? Desapareceram num piscar de olhos. Onde encontrá-los?

Quem foi mais conhecido, mais admirado, mais louvado que Alexandre Magno? Eis o que dele diz a Sagrada Escritura: Reinou na Grécia; saiu da terra de Cetim; venceu Dario, rei dos persas e dos medos. Travou muitas batalhas, conquistou as fortalezas mais bem defendidas, fez morrer os reis da terra. Avançou até os confins extremos do mundo; reuniu os despojos de uma multidão de nações, e o universo emudeceu diante dele. Reuniu suas forças e teve um exército poderosíssimo, e seu coração se encheu de orgulho. Tornou-se senhor dos povos e dos reis, que se fizeram seus tributários. Depois disso, caiu no leito… e morreu (1Mc 1, 1-8). Ontem o universo inteiro não lhe bastava; hoje bastam-lhe seis pés de terra. Ontem oprimia a terra; hoje a terra pesa sobre ele e o cobre. E, coisa notável!, obteve com dificuldade aquilo que é concedido ao mais miserável: a sepultura; com efeito, por causa das contendas surgidas entre seus sucessores, seu cadáver permaneceu trinta dias insepulto… Quem não vê neste exemplo como a morte prova que o homem, seja ele quem for, não passa de pó, sombra, fumaça, isto é, um belo nada?

9. EM QUE ESTADO A MORTE REDUZ O HOMEM

«Tu és pó, ó homem, e ao pó voltarás» (Gn 3, 19). «Nu saí do ventre de minha mãe e nu voltarei para lá» (Jó 1, 21). Jó dá à terra o nome de mãe, porque ela lhe fornecerá um túmulo que lhe recorda o seio de sua genitora.

Ó pasto dos vermes, ó massa informe de pó e corrupção, ó gota de orvalho, ó vaidade, por que te ensoberbeces tanto? Que procuras neste mundo? O que desejas? … Ser cinza sobre a terra, para ser cinza na terra: eis o homem inteiro!

Observai aquele miserável pecador que, tendo esquecido Deus durante sua vida, jamais lançara um olhar para a morte a fim de preparar-se para ela. Ontem gozava de boa saúde e hoje ei-lo estendido no leito da dor. O mal recrudesce, a febre aumenta. Três pessoas são chamadas à sua cabeceira: o sacerdote, o médico, o tabelião. Quantos negócios a pôr em ordem! E a coisa é urgente; o médico declara que a morte se aproxima; aliás, todos já o percebem; seus olhos se toldam, o rosto perde a cor, o nariz se afila; fica surdo; perde o entendimento; já mal consegue falar. Sacerdote, médico, tabelião, apressai-vos, porque a morte está próxima… Cada um se apressa, de fato, a cumprir o seu dever, entre os gemidos de uma família desolada. Mas a morte chega e desfere o golpe: não resta senão um cadáver. A primeira pessoa a ser avisada é o coveiro; enquanto este prepara a cova, outros se apressam a envolver num pedaço de lençol aquele resto da morte; todos se afastam… Lançam-se sobre ele seis pés de terra; a cova é fechada, o corpo abandonado, a alma julgada para a eternidade… Não resta mais que erguer sobre aquele túmulo um monumento e escrever nele um epitáfio. Mas não é preciso pensar nisso: o profeta fez um que serve para todos os homens. «A morte se alimentará dele» (Sl 48, 14).

Ó mortais! vós pisais a terra; vós reinais sobre a terra; mas, saídos da terra, retornareis novamente à terra. «Nascemos sobre a terra, diz São Bernardo, e morremos sobre a terra, retornando para onde fomos tirados (8)». Mas, pior que terra, tornamo-nos podridão e vermes: «À podridão disse: tu és meu pai; e aos vermes: vós sois minha mãe e minhas irmãs» (Jó 17,14). «Depois da morte, os vermes, escreve um poeta; depois dos vermes, o mau cheiro, a infecção e o horror; assim, todo homem se transforma em algo que nada conserva do homem (9)». Por maior e mais rara que seja a beleza de uma pessoa, ela se torna, sob os golpes da morte, coisa horrível e espantosa: vermes e podridão. «Quando o homem morrer, diz o Eclesiástico, terá como herança répteis, vermes e feras» (Eclo 10,13).

Que é o homem? pergunta Santo Efrém; pouca coisa: um amontoado de vermes; um punhado de cinzas; um sonho; uma sombra. Ele passou, deixou de aparecer. Esse leão invencível, esse tirano fortíssimo, tão poderoso, tão altivo, que o mundo tremia diante dele, chegou ao seu fim; ei-lo estendido no caixão. Aquele que subjugava os outros está subjugado; aquele que dominava está dominado; aquele que acorrentava está acorrentado (De iis qui in Christo dormier.).

Do corpo de todo homem, mas especialmente dos grandes e poderosos segundo o mundo, pode-se dizer aquilo que a Escritura diz de Jezabel: «E as carnes de Jezabel serão como lama sobre a terra; e todos os que passarem para vê-la clamarão: É esta, porventura, Jezabel?» (2Rs 9, 37).

Estando prestes a morrer, Saladino, rei da Síria e do Egito, ordenou que seu estandarte, coberto por um lençol funerário, fosse levado por todas as fileiras de seus exércitos, e que um arauto gritasse: Eis o único objeto que, de seus bens, levará consigo o dominador rei da Síria e do Egito! (In eius Vita).

De São Francisco de Borja, duque de Gandia, lemos que, tendo de acompanhar ao túmulo dos reis o corpo de Isabel de Portugal, esposa de Carlos V, e fazer o reconhecimento do cadáver, viu-o tão desfigurado, tão horrível e repugnante, que não ousou certificar que aquele fosse o corpo da imperatriz; mas, fixando nele o olhar, exclamou: E esta é Isabel, imperatriz do mundo? E esta é a sábia e piedosa Isabel, alegria da Espanha, honra do império, esperança do universo? Onde está a beleza de seu rosto? Onde o esplendor de seus olhos? Onde a majestade do poder régio? E, iluminado naquele momento pela graça, considerando a vaidade do mundo, tomou a resolução de renunciar a tudo e servir somente a Deus. Manteve a resolução, viveu e morreu como um grande santo (In Vita).

Mas o cadáver, descido ao sepulcro, permanecerá ao menos em estado de cadáver? Não; mas se tornará algo que não tem nome na linguagem humana. Lemos em Ezequiel: «Eu te reduzirei a nada, diz o Senhor Deus, e tu não existirás mais; procurar-te-ão, e não te encontrarão jamais» (Ez 26,21).

Delrio relata um epitáfio composto por um rei da França; epitáfio que em breve será o de cada um de nós. Ei-lo: «Ri, choro. Fui, e já não sou. Trabalhei, descanso. Brinquei, já não brinco. Cantei, agora calo. Alimentei o corpo, agora alimento os vermes. Vigiei, agora durmo. Dei boas-vindas, agora digo adeus. Tomei, e fui tomado. Venci, e fui vencido. Combati, gozo a paz. Vivi conforme as leis da natureza, e conforme essas leis morro. Não resisto, porque opor-me seria impossível. Fui terra uma vez, e tornei a ser terra. Meu poder desvaneceu-se. Mundo caducо, adeus; vermes, saúdo-vos e repouso em meu último leito (10)».

10. O PENSAMENTO DA MORTE

Quando chegar o dia de nossa morte, que proveito teremos, pergunta São Gregório, de haver guardado com tanta avareza e tanto afã o tesouro que acumulamos com tanta solicitude? De que serve buscar honras e riquezas, se, tão logo adquiridas, é preciso abandoná-las? Se queremos bens, busquemos e amemos aquilo que possuiremos para sempre; se tememos males, temamos aqueles que sofrem os réprobos e que jamais terão fim (Lib. 4, Epist. ad Andream).

Diz o Espírito Santo: «O homem entesoura e não sabe para quem reúne seus tesouros» (Sl 38,6). «O imprudente e o insensato desaparecerão juntos, e suas riquezas passarão a mãos estranhas; sua morada será o sepulcro» (Sl 48,10-11). Na última hora, os avarentos e todos aqueles que têm o coração voltado para o mundo repetirão com Agag: «Assim, pois, nos separas, ó morte amarga» (1Sm 15,32). Vamos, portanto, ó cegos filhos de Adão, filhos da terra, ansiais por possuí-la, como a possuem os répteis; acrescentai campo a campo, casa a casa, negócio a negócio, divertimento a divertimento; tereis de morrer amanhã, talvez ainda hoje! … Ó cuidados insensatos dos mortais, ó que vazio, que nada há no fundo das coisas!

Ó Deus! Como, no momento da morte, o avarento há de lamentar ter trabalhado para os outros, que em breve o abandonarão, e não ter feito nada por si mesmo! Que pensamento desolador será este: de todos os bens, de todos os prazeres, de todas as criaturas que estavam a meu serviço e uso, nada mais me resta senão o sepulcro! (Jó 17,1).

«O homem irá para a casa de sua eternidade», diz o Eclesiastes (12,5). Este deveria ser o tema contínuo de nossos pensamentos, se pretendemos viver como bons cristãos; porque, como observa São Jerônimo, «facilmente despreza todas as coisas terrenas aquele que mantém os olhos fixos em sua última hora (11)».

«Quando a carne nos tenta, diz São Gregório, perguntemos a nós mesmos o que será dela depois de nossa morte, e então compreenderemos o que é aquilo que se ama. Nada serve tanto para refrear os estímulos da carne quanto meditar no que será depois da morte aquilo que se ama enquanto vivo (12)».

Lemos acerca de um solitário que, enquanto era violentamente tentado por um afeto impuro para com uma pessoa cuja imagem jamais se apartava de seu olhar, veio a saber que essa pessoa havia morrido. Assim que o soube, dirigiu-se imediatamente ao túmulo dela, abriu-o e, tirando o manto que trazia, mergulhou-o naquele amontoado de podridão e vermes de que o sepulcro estava cheio; depois voltou para o deserto. Quando então a tentação o assaltava, contemplando o manto infecto e imundo, gritava: Ó meu corpo, tens aquilo que procuras; sacia-te, pois! E assim se mortificava até que a paixão se aplacasse (Vit. Patr.).

Onde não há o pensamento e o temor da morte, reinam a dissolução e toda espécie de pecados; e onde se encontram costumes corrompidos, há a perdição da alma. Para salvar a alma, é preciso, pois, pensar na morte. Jamais nos saiam da mente estas palavras de São Jerônimo: «Quer eu coma, quer beba, quer estude, quer me dedique a qualquer trabalho, sempre ressoa em meus ouvidos o som da última trombeta: Levantai-vos, ó mortos, vinde ao juízo (13)».

Pensemos na morte, e sempre sairemos vencedores do demônio, do mundo e das concupiscências carnais. «Vivei pensando na morte, escreve São Jerônimo; a hora foge, o próprio instante em que falo já passou (14)». «Ó morte — exclama o Sábio —, quão amarga é a tua lembrança para o homem que passa tranquilamente a vida em meio aos seus bens! Ó morte! Quão cara e doce soa a tua sentença ao homem virtuoso e pobre» (Eccli 41, 1, 3). Digamos frequentemente a nós mesmos: eu morrerei; por que, pois, apegar-me tão estreitamente aos bens, à fortuna, às honras, aos prazeres, às criaturas, à vida, ao corpo? … Eu morrerei: por que não procurarei assegurar para mim uma boa e santa morte, fugindo do pecado e praticando todas as virtudes? … Quão sábio é aquele que calca aos pés os bens terrenos e perecíveis e trabalha para prover-se dos eternos e celestes! …

«Meditar sobre a morte é próprio do filósofo», sentencia Platão (15); Sêneca assegura-nos que nada ajuda tanto a adquirir temperança em todas as coisas quanto o pensamento frequente da brevidade e da incerteza do tempo. Qualquer coisa que façais, voltai o olhar para a morte (16). Estas palavras de um pagão pareceram tão sensatas a São Jerônimo, que ele as fez suas ao escrever a Heliodoro. O mesmo Sêneca ainda aconselhava empregar cada dia como se fosse o último de nossa vida (17).

11. PREPARAÇÃO PARA A MORTE

São Gregório diz: «Como ignoramos inteiramente a hora em que virá a morte e, depois dela, já não haverá possibilidade de fazer coisa alguma, só nos resta uma decisão a tomar: aproveitar prontamente o tempo que Deus nos concede. Se a temermos antes que se apresente, quando vier já estará vencida (18)». Morramos muitas vezes durante a vida, para viver depois da morte. Quem quiser evitar a morte eterna saiba que deve prevenir a morte pelo pensamento da morte (19) e desprezar, enquanto vive, aquilo que já não poderá possuir depois da morte (20).

Podemos morrer a cada instante, e cada uma de nossas ações pode ser a última… Devemos, pois, realizar cada ação como desejaríamos tê-la realizado na hora da morte e do juízo divino… «Vivei, diz São Jerônimo, como se devêsseis morrer todos os dias (21)». Imaginai ouvir-vos dirigir, cada manhã, aquela intimação do profeta ao rei Ezequias: «Põe em ordem os teus negócios; porque a morte te ameaça e já não viverás» (Is 38, 1) … O pensamento da morte acompanhe todas as vossas obras e empreendimentos… «Preveni, com as disposições oportunas, aquele dia que costuma prevenir», escreve Santo Agostinho (22) … Olhemos todas as coisas à luz enfraquecida da morte… Examinemos a nossa vocação, e toda a nossa resolução seja guiada pelo pensamento do último instante… Sentemo-nos, de quando em quando, em espírito, sobre o nosso esquife, para conhecer o que devemos fazer e de que modo fazê-lo… «A morte nos espera em toda parte; é próprio do sábio, escreve São Bernardo, esperá-la a cada passagem (23)».

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.