Tesouro n.º 122 · Volume II

MODÉSTIA MODESTIA

5 seções · 16 parágrafos · pp. 1453–1457 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NECESSIDADE DA MODÉSTIA

«Seja manifesta a vossa modéstia e conhecida por todo o mundo. E estejam no alto de vossos pensamentos tudo o que é verdadeiro, puro, justo, santo, amável, de boa fama, tudo o que pertence à virtude e merece louvor» (Fl 4, 5, 8).

Santo Agostinho nos admoesta a fazer com que, em todos os nossos modos de proceder, jamais haja coisa que ofenda a vista, mas que cada movimento esteja de acordo com a santidade da profissão de cristão (1). «Compõe, diz Santo Ambrósio, o traje, a voz, o rosto e o passo de modo que sejam agradáveis a Deus, um ornamento para ti e edificação para o próximo (2)». E em outro lugar repete que é preciso observar a modéstia também no caminhar, nos gestos e nas maneiras (3). Tal reserva é tanto mais necessária numa mulher, pois a impudência do olhar já é nela indício de impudicícia (Eclo. 26, 12). Esta sentença do Sábio serve também para nos fazer compreender quão necessário e indispensável é procurar e conservar a modéstia dos olhos.

2. A MODÉSTIA REVELA O INTERIOR DA PESSOA

«A sabedoria do homem está pintada em seu rosto» (Ecl. 8, 1), diz o Eclesiastes. Isso acontece de três maneiras: 1° a alma, por uma simpatia natural, manifesta-se e transparece na parte mais nobre do corpo, que é o rosto, em cujos traços imprime as paixões e os afetos que alimenta dentro de si…; 2° a sabedoria, isto é, a prudência e a modéstia, dá não somente à alma, mas também ao corpo, e especialmente ao rosto, não sei quê de grave, de piedoso, de sereno, de belo, que natural e necessariamente atrai os olhares…; 3° a sabedoria resplandece no rosto, porque o Espírito Santo, habitando numa alma e iluminando-a, derrama sua beleza e sua luz sobre o rosto e sobre o corpo inteiro, quase como a luz de uma lâmpada transparece através do vidro que a encerra. Por isso, Hugo de São Vítor diz que o estado de uma alma se revela na compostura do corpo, e que os movimentos dos membros são certa voz, uma espécie de linguagem da alma (4).

«A pessoa dá-se a conhecer por seu porte, e sua sensatez revela-se no aspecto de seu rosto. O modo como um homem se veste, ri e se apresenta diz o que ele é interiormente» (Eclo. 19, 26-27), lemos no Eclesiástico. Essas sentenças têm o consenso de todos os fisiologistas e o selo da experiência cotidiana. O rosto e, principalmente, os olhos são o espelho da alma. Assim como refletem a alegria e a tristeza, o amor e o ódio, também deixam transparecer a pureza e a franqueza, a dissimulação e a hipocrisia.

«Pelo porte do corpo, escreve Santo Ambrósio, julga-se o estado da alma. Por isso se julga a leviandade, a altivez, a incontinência, ou então a gravidade, a amabilidade, a pureza e a maturidade do homem interior (5).» Essa observação não escapara ao filósofo romano, em cuja oração encontramos estas frases: «Todo movimento da alma recebe da natureza certa expressão do rosto, um som de voz e um caráter inteiramente próprio: o rosto é imagem da alma (6).»

Disso podemos deduzir que os sinais pelos quais se reconhece a modéstia são aqueles já indicados por Aristóteles, a saber: gravidade no andar e nos movimentos, sensatez e prudência nas palavras, tom de voz moderado, bondade e doçura, olhar alegre e inclinado, nem demasiado aberto nem demasiado fechado (Physiogn. c. VI).

3. MODELOS DE MODÉSTIA

Eis o retrato que nos faz de São Bernardo o autor de sua Vida (Lib. 3, c. 1). Uma certa graça inteiramente espiritual sobressaía em sua pessoa; um doce esplendor, que nada tinha de terreno, mas vinha do céu, iluminava-lhe o rosto; uma pureza angélica e uma simplicidade de pomba emanavam de seus olhos. Tão grande era a beleza de sua alma, que se manifestava exteriormente por sinais muito visíveis; seu aspecto exterior mostrava a abundância de pureza e de graça de que sua alma transbordava.

São Malaquias distinguia-se por uma admirável modéstia. Basta dizer que São Bernardo, entre cujos braços sua alma expirou em Claraval, julgou dever observar, em seu elogio, que jamais movia membro algum sem razão (In Vita Malach.). De São Luciano, sacerdote e mártir, lê-se que converteu não poucos infiéis somente com seu aspecto modesto, alegre e piedoso. O imperador Maximiano, tendo ouvido dizer que o rosto de Luciano era tão modesto e inspirava tanta veneração que, se o visse uma só vez, sentir-se-ia tentado a tornar-se cristão, ordenou que, antes de lho apresentarem, lhe cobrissem o rosto com um véu (BARON. Annal.).

Em todos os tempos e em todos os lugares, foi característica distintiva das pessoas piedosas e santas uma grande e contínua modéstia…

4. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA MODÉSTIA

Púrpura da primavera é a rosa; púrpura da juventude é a modéstia. Ela é a flor que deve adornar todas as idades, porque é o perfume de todas as virtudes. Eurípides chama-lhe o mais gracioso dom feito pelos deuses aos homens (7), e o Crisóstomo diz que o mais precioso adorno de uma mulher é composto, como de outras tantas gemas, pelo silêncio, pela modéstia, pela tranquilidade e pelo recato (8). A modéstia governa as palavras, o porte, os modos, os gestos, o andar, enfim, todo o exterior do homem… Por isso, das três coisas que Sócrates inculcava a seus discípulos como necessárias ao homem de bem, uma era esta: um rosto e um aspecto modestos (Anton. in Meliss.).

E é tão bela, tão amável, sobretudo nas mulheres e na juventude, a modéstia, que conquista os louvores, o respeito e a afeição de todos os que a observam. Pratica-se uma espécie de culto para com as pessoas verdadeiramente modestas.

A modéstia é a mais bela flor da alma e do corpo; é como a rosa e o lírio unidos; é um novo paraíso terrestre. Uma mulher modesta é a pupila de Deus, que a visita com suas graças e a cumula dos mais singulares favores…; constitui a felicidade do marido, a glória da família, o amor da sociedade, o decoro da religião.

Eis os elogios que São Bernardo faz da modéstia: «Ela é a pérola dos costumes, a vara da disciplina, a irmã da continência, a tocha da alma casta; faz desaparecer o mal, propaga a pureza; é a glória especial da consciência, a guardiã do bom nome, o amor da vida, a sede da força, as primícias das virtudes; é aquilo que a natureza tem de mais louvável, o ornamento de toda honestidade. Se o pudor cobre de rubor as faces, que graça e que encanto não derrama sobre o rosto (9)!» A modéstia, diz em outro lugar o mesmo santo, governa a alma e o corpo; impede a fronte de ensoberbecer-se, suaviza o rosto carrancudo, acorrenta o olhar lascivo, modera o excesso do riso, refreia a língua, dispõe a boca para uma severa doçura, acalma a cólera, dirige o passo (De modo bene viv. C. IX).

A modéstia, concluamos com o Sábio, conduz ao temor de Deus, à riqueza, à glória e à vida (Prov. 22, 4). Eis a excelência e as magníficas recompensas dadas à modéstia…

5. A MODESTIA DEVE SER INTERIOR E EXTERIOR; MEIOS PARA ADQUIRI-LA

A modéstia deve dominar os olhos, os ouvidos, a língua, a expressão do rosto, os pés, as mãos, o comportamento, os movimentos etc…. Ela deve reinar sobre a alma, a inteligência, a vontade, o espírito e o coração, assim como sobre os membros do corpo… A modéstia unicamente exterior não basta, assim como não basta a modéstia puramente interior: é preciso que uma esteja unida à outra.

Os meios para adquiri-la são: 1° o pensamento da presença de Deus; 2° a vigilância dos sentidos e principalmente dos olhos…; 3° a baixa estima de si mesmo…; 4° o pudor…; 5° a doçura: a primeira dessas virtudes, isto é, a humildade, é a mãe da modéstia; a segunda é sua filha; a terceira é sua irmã…; 6° a fuga dos perigos; afastai-vos, escreve São Jerônimo, da companhia da juventude desregrada, não vos exponhais sem necessidade em público, frequentai pessoas sensatas, graves, piedosas e castas (Epist.)…; 7° evitai a vaidade…; 8° tomai Maria como modelo.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.