Tesouro n.º 58 · Volume I

MULHER FORTE E PIEDOSA DONNA FORTE E PIA

4 seções · 15 parágrafos · pp. 617–621 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. RARIDADE DAS MULHERES FORTES E VERDADEIRAMENTE PIEDOSAS

“Quem encontrará uma mulher forte (isto é, profundamente dedicada aos seus deveres)?”, diz a Escritura; e responde: “ela é mais preciosa que toda a mais cobiçada raridade do mundo” (Pr 31,10). Seu valor vale cem vezes tudo quanto a terra encerra de mais precioso…

A mulher forte, a mulher verdadeiramente virtuosa, é aquela que se mostra amante do trabalho, magnânima na paciência, discreta e sábia na administração da casa, previdente, doce, industriosa, amorosa para com o marido, cortês para com todos; é aquela que alimenta, vigia, torna feliz e piedosa a sua família, educando-a no temor de Deus e na observância da lei divina; é aquela que governa a casa com prudência, bom senso, moderação e perseverança; que sabe manter os membros da casa na concórdia e no cumprimento dos próprios deveres; aquela que é caridosa, silenciosa, humilde, casta, pura, resignada, que enfim espalha em tudo e por toda parte o bom odor de Jesus Cristo… Onde encontrar tal mulher?…

Seu dever é bem governar a casa, cuidar de cada coisa e zelar para que tudo resulte em glória de Deus, em edificação do próximo e em sua santificação e na da família… A vida da mãe de família, escreve Aristóteles, é a norma de toda a sua casa (1).

2. COMO VIVE A MULHER FORTE E PIEDOSA

Qual é o dote mais rico da mulher? Uma vida casta e pura. Qual é a mulher casta? Aquela cuja reputação é louvada sem mentira… A mulher casta veste-se modestamente, sem vaidade, sem afetação. Com seu exemplo, mas sem pretensões, conduz as outras à modéstia. Fala pouco e com ponderação; vive recolhida e não sai de casa senão por necessidade ou conveniência… “Seu traje é modesto, diz São Bernardo, seu andar, simples e grave; ama a humildade, pratica a piedade, inspira respeito; cortês e afável, somente vê-la alegra e edifica (2)”.

“Deve a mulher, acrescenta São Basílio, no traje, nos movimentos, no porte e em toda a sua pessoa, mostrar-se de tal modo que qualquer um que a encontre, reconhecendo nela como que um retrato vivo de Deus, venere a sua presença e se incline reverente, admirando-lhe as virtudes (3)”.

A mulher forte e piedosa é assim descrita por Santo Ambrósio: “É operosa, atenta, vigilante; levanta-se muito cedo e vai repousar tarde da noite, para ter mais tempo para trabalhar; foge com todas as forças da preguiça, adapta-se a qualquer ocupação doméstica e não se deixa abater nas adversidades. E qual recompensa receberá? Uma família bem educada, que prospera, que a abençoa, e o céu por herança para sempre (4)”.

Tais foram Judite, Ester etc.

3. TESOUROS QUE TRAZ CONSIGO A MULHER FORTE E PIEDOSA

Raquel e Lia fundaram a casa de Israel; Rute, a casa de Booz; Sara, a de Tobias etc.; realizando aquelas duas sentenças do Espírito Santo: “Vã é a beleza, enganosa é a graça; somente a mulher que teme o Senhor é digna de louvor” (Pr 31, 30). “A mulher sábia edifica a casa, a mulher leviana destrói aquela que já está de pé” — (Pr 14, 1).

A mulher forte e piedosa é, por sua sabedoria e virtude, boa, firme, louvável em tudo, e torna-se como que a regra dos outros e um convite a segui-la. Com suas obras, seus exemplos, o bom senso e a regularidade de sua conduta, dá imenso peso à sua autoridade, cobre-se de honra e glória diante de Deus e dos homens… Esta mulher, diz Santo Agostinho, é laboriosa, paciente em meio aos escândalos, forte no sofrimento, previdente na esperança, constante em perseverar (5).

Eis o elogio que dela faz o Espírito Santo pela boca de Salomão: “A filha prudente é a mais bela e rica sorte que pode caber a um esposo” (Eclo 22, 4). “A mulher forte torna contente seu marido e lhe proporciona uma vida de paz” (Eclo 24, 2); além disso, a felicidade de um homem casado com uma mulher virtuosa é tal que o faz viver o dobro dos outros (Eclo 1). O marido de uma esposa forte e piedosa viverá mais, no sentido de que ela, com suas orações, seus exemplos, seus modos e sua conduta, o faz viver da vida da graça neste mundo e, depois, da vida da glória na eternidade. Além disso, assim como uma mulher má abrevia os dias de seu marido com os desgostos que lhe causa e porque o torna infeliz, obrigando-o a uma vida de melancolia e de contrariedade, que é antes uma morte que uma vida, assim também uma mulher virtuosa e boa, aliviando seu esposo de parte dos incômodos, consolando-o nas adversidades etc., torna-o feliz e, portanto, pode-se muito bem dizer que lhe prolonga a vida. Com efeito, é sempre verdade que “a mulher santa e pudica é uma graça tal que vence todas as outras, e a mulher judiciosa e amante do silêncio, com seu espírito bem composto, é coisa sem igual” (Eclo 26, 19-18). “A beleza da mulher virtuosa é, para o ornamento de sua casa, o que é para o mundo o sol nascente da altíssima morada de Deus. Colunas de ouro sobre bases de prata são os pés que repousam sobre as plantas da mulher sensata. Assim como são eternos os fundamentos lançados sobre sólida pedra, assim são os mandamentos de Deus no coração de uma mulher santa” (Eclo 26, 21, 23, 24).

4. EXEMPLOS DE MULHERES FORTES E PIEDOSAS

A mãe dos Macabeus, mulher admirável e digna de eterna fama, vê morrer mártires seus sete filhos e assiste, intrépida heroína, ao seu massacre, sustentada pela esperança que tinha em Deus. Verdadeiramente sábia, exortava-os a não temer nem os carrascos, nem os suplícios, nem a morte, mas somente a Deus. São Gregório Nazianzeno põe estas palavras em sua boca: “Ó queridos filhos, considero-me bem recompensada pela educação que vos dei; vejo-vos todos combater pela causa da virtude; contemplo-vos todos vitoriosos; a fera cruel não vos assustou, as ondas do mar não vos tragaram, o inimigo não vos dobrou, a guerra não vos abateu”. Voltando-se então para o mais jovem, que era o único que ainda não havia recebido a coroa do martírio: “Meu querido filho, dizia-lhe, ah! procura fazer com que, tendo eu estado em trabalho de parto pelos outros seis, em ti, que és o sétimo, eu descanse, como o Senhor descansou no sétimo dia” (Supra hoc loc. Scrip.).

Santa Sinforosa, indo para o martírio, assim falava a seus filhos: “Vós que fostes alimentados com o meu leite, reanimai-me com o vosso sangue; eu vos ofereci o meu seio, vós mostrai-me as feridas; pagai-me, com esta boa obra, os meus sacrifícios. Eu viverei se vos vir dar a vida por Jesus Cristo” (In Vita).

Santa Tecla inflamava seus filhos ao martírio, gritando: “Ide, meus meninos, à fornalha ardente, como a um banquete; caminharemos sobre carvões incandescentes como sobre pérolas; repousaremos entre as chamas como em meio a penas; permaneceremos tranquilos nas caldeiras ferventes, como no seio da mãe; e, quando nossa alma sair do corpo, será recebida por Jesus Cristo. Esta fornalha será para vós um ventre não materno, mas divino, do qual saireis não para uma vida mortal, mas para a verdadeira e eterna vida. Vamos, ide corajosamente, meus queridos filhos, vós que sois minha alegria e minha coroa. Minhas delícias são os vossos tormentos; meu ornamento, o vosso consumo no fogo. Ser-me-á pago com juros o leite que vos dei, se derramardes o vosso sangue por Jesus Cristo. Voai, meus filhos, ao martírio, como a um troféu de vitória incomparável” (In Vita).

Em tudo semelhante à mãe dos Macabeus foi Santa Felicidade. Também ela tinha sete filhos e deles fez gloriosos mártires; dera-lhes a vida terrena e deu-lhes também a vida celeste. Com efeito, quando, sob o imperador Antonino, o presidente Públio lhe disse: “Tende piedade de vossos filhos, desses jovens tão bons e florescentes”, Felicidade respondeu-lhe: “A tua misericórdia é uma impiedade, o teu conselho, uma crueldade”; e, voltando-se para os filhos, gritou-lhes: “Levantai os olhos e elevai os vossos corações ao céu, ó meus queridos filhos; lá Jesus Cristo vos espera com os seus santos. Combatei por vossas almas e mostrai-vos fiéis no amor de Jesus Cristo” (In Vita). Santo Agostinho diz desta heroica mãe mártir: “Mais fecunda em virtudes que em filhos, Felicidade via seus filhos combaterem, e ela combatia com eles; e, tendo eles saído todos vitoriosos, também ela saiu vitoriosa (6)”.

“Temia por eles enquanto estavam vivos, acrescenta São Gregório; alegrou-se, exultou quando os viu mortos (7)”.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.