“Melhor é o ladrão que o mentiroso, diz a Escritura; contudo, ambos terão como quinhão a ruína” (Eclo 20, 27). Notai que a Escritura compara a mentira ao furto, seja porque esses dois vícios andam ordinariamente unidos, donde o provérbio: Quem é mentiroso é ladrão; seja porque a mentira é uma espécie de furto; ela, com efeito, sempre priva o homem da verdade, muitas vezes da fama, da paz, da tranquilidade e, por vezes, da vida; seja porque tanto a mentira como o furto são ignominiosos e infames.
O mentiroso, porém, é ainda pior que o ladrão, porque 1° este rouba somente o dinheiro, ao passo que aquele tira a reputação, a qual certamente deve ser preferida à fortuna… 3° o ladrão é muitas vezes levado ao furto pela necessidade ou pela fome, enquanto o mentiroso deturpa a verdade por petulância e desfaçatez… 3° A mentira lança na desordem famílias inteiras, cidades e nações; dá origem a litígios, guerras e massacres, coisas que não nascem tão facilmente do furto… 4° Roubar pode ser coisa mais culpável que mentir; mas o hábito de mentir é coisa pior que o furto: porque tal hábito gera faltas e pecados mais graves que um furto… 5° Para ocultar um furto, ó quantas vezes se lhe acrescenta a mentira e então se comete um pecado duplo; mas, dos dois, o mais enorme é o da mentira… 6° Exceto o dinheiro, podeis confiar ao ladrão qualquer outra coisa, mas nada podeis confiar ao mentiroso. Com efeito, assim como tudo se encontra em segurança junto de um homem veraz, assim nada há de seguro junto do mentiroso: nem fortuna, nem honra, nem amizade, nem qualquer outra coisa… Que vergonha, que desonra ser semelhante, e até pior que o ladrão! …
“A vida dos mentirosos”, diz o Espírito Santo, “é uma vida sem glória, e a vergonha a acompanha, companheira inseparável” (Eclo 20, 28). O mentiroso é, portanto, desonrado, coberto de vergonha e de ignomínia. Com efeito, não há injúria mais grave para um homem do que chamá-lo de mentiroso! “A grande ignomínia do homem”, continua o Espírito Santo, “é a mentira; e ela estará sempre na língua dos indisciplinados” (Eclo 20, 26). Suprema desonra é a mentira; não obstante, as pessoas sem disciplina, isto é, sem educação cristã, e dissolutas, têm-na sempre na boca, porque não a consideram um pecado vergonhoso, mas uma coisa sem importância.
Entre as ignomínias que os mentirosos atraem sobre si, devem ser colocados em primeiro lugar o desprezo e a desconfiança das pessoas honestas. Todos suspeitam do mentiroso, mesmo quando diz a verdade; já não se acredita nele, porque perdeu a confiança pública; duvida-se até de todas as suas outras virtudes. Eis por que os indianos, como refere Diodoro Sículo, obrigavam ao silêncio eterno aquele que tivesse mentido três vezes; Xenofonte narra quase a mesma coisa a respeito dos persas (Laerzio).
Não obstante, é grande o número de mentirosos, e as mentiras são muito frequentes. Ó Deus! se vigorasse entre nós a pena dos indianos e dos persas contra os mentirosos, quantas pessoas seriam reduzidas ao silêncio! …
Mentiroso é a falsa testemunha, e mentiroso é também o caluniador; ora, quem pode dizer os desmandos, os danos que estes dois delitos causam? … Ao mentiroso convém a comparação com uma fornalha que lança faíscas, envia chamas e expele uma densa fumaça…
O mentiroso, 1º mente facilmente…, 2º mente frequentemente…, 3º tem o coração cheio de falsidade e de malícia…, 4º mente com audácia e obstinação…, 5º é presa da vaidade; não há pessoa mais vã que o mentiroso… Assemelha-se às fadas e aos feiticeiros: cega, seduz, desencaminha…
“Vós comestes o fruto da mentira”, diz Oseias (Os 10, 13). Esse fruto é o engano: não tereis nem a paz, nem a prosperidade, nem a abundância dos bens que esperáveis. Todos os gulosos, os avarentos, os impudicos, comem o fruto da mentira; por isso o Salmista exclama: “E por que amais vós, ó filhos dos homens, a vaidade e buscais a mentira?” (Sl 4, 3).
Deus é a verdade eterna; portanto, detesta e tem em abominação, como se exprime Davi, o homem fraudulento (Sl 5, 7).
“A verdade não está em sua boca”, dizia ainda o mesmo Salmista, falando dos mentirosos; “seu coração está cheio de vaidade. Sua garganta é como um sepulcro aberto, sua língua, um instrumento para apanhar” (Sl 5, 10-11). A mentira ataca e ultraja a Deus, que é a verdade por essência, prejudica o próximo, transtorna a sociedade e desonra o mentiroso.
O demônio é um mentiroso infame: caiu ele mesmo, julgando ser aquilo que não era, e por meio dele entrou no mundo a mentira… Desde Adão até agora, não cessou de mentir e continuará até o fim do mundo. O demônio jamais disse verdade alguma…. Ai daquele que lhe dá ouvidos… Ele mente a todos os libertinos; promete-lhes a felicidade e não lhes dá senão o opróbrio, a desgraça, os sofrimentos, a morte e o Inferno… Mente aos avarentos… Todas as paixões que têm origem no demônio não são senão mentira…
“Assim como Deus Pai gera seu Filho, que é a verdade, diz Santo Agostinho, assim o demônio, caído do céu, gera a mentira, como sua filha. Pode ser que sejas mentiroso porque dizes a mentira; mas não és o pai da mentira, porque a mentira que dizes recebeste-a do demônio, dando-lhe crédito (1).” Quem mente tem, portanto, o demônio por pai e por modelo…
São Tomás compara ora a mentira a uma moeda falsa, que é rejeitada por todo o mundo; ora diz que quem mente traz a imagem e a semelhança do demônio, que foi mentiroso desde o princípio. “Vós que mentis, escreve o mesmo santo Doutor, pondes em circulação uma moeda: de quem traz ela a marca e a inscrição? Do demônio. Dai, pois, ao demônio o que pertence ao demônio; cessai de trazer a imagem de vosso capital inimigo, cessai de mentir” (Opusc. de Erudit. princip.).
São Basílio chama a mentira de “fruto de Satanás” (Reg. brev. q. 76). São Cesário observa que o mentiroso está sempre na companhia do espírito maligno, segundo estas palavras da Escritura: Senhor, perdereis todos os que dizem mentiras (2).
Assim como há três espécies de verdade, isto é, do intelecto, das palavras e das obras, assim também há três espécies de mentira: do intelecto, das palavras e das obras. Há verdade intelectual quando o conhecimento do intelecto é igual e conforme ao seu objeto, isto é, quando o intelecto conhece as coisas tais como são. A mentira intelectual produz-se quando o intelecto, enganado pelo erro, não tem um conhecimento igual e conforme ao seu objeto, isto é, julga as coisas diferentes do que são. Há verdade das palavras quando estas são conformes ao conhecimento do intelecto, e a mentira nas palavras consiste em pronunciar com a língua aquilo que não está na mente. Finalmente, a verdade das obras manifesta-se na conformidade delas com a regra, isto é, quando as obras são moldadas pela reta razão, pela lei e pelo dever; e a mentira das obras acontece pelo contrário…
Há ainda a mentira oficiosa, a jocosa e a danosa: a mais grave das três é esta última… Excetuando-se o homem sem fé e sem lei, todos os outros ordinariamente evitam a mentira danosa… a qual impõe o dever, em consciência, de reparar os males ou as injustiças de que foi causa…
Mas são raros aqueles que não se julgam autorizados a dizer a mentira oficiosa, e mais ainda a jocosa, sob o pretexto de que não são pecados graves… Toda mentira é pecado: há, portanto, o dever de evitá-la cuidadosamente, ainda que seja muito leve… Claro e formal é o oitavo mandamento de Deus: — “Não darás falso testemunho, nem mentirás de modo algum…
O cristão conserva na mente o preceito do Senhor: “Não darás acolhida em teu coração à voz da mentira” (Ex 23, 1), “mas evitarás com todas as forças toda mentira” (Ibid. 7). Recorda ainda o dito dos Provérbios: “A testemunha que quer ser fiel não mente” — (Pr 14, 5). O homem virtuoso, reto, consciencioso, não se deixa induzir a mentir nem por súplicas nem pelos presentes que lhe sejam oferecidos: as solicitações, as ameaças, as promessas, os tormentos não têm poder para arrancá-lo do terreno da verdade. Ele teme a Deus e respeita a Lei…; detesta a mentira e a evita.