Tesouro n.º 116 · Volume II

MATRIMÔNIO MATRIMONIO

9 seções · 40 parágrafos · pp. 1402–1414 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. QUEM QUER ABRAÇAR O ESTADO CONJUGAL DEVE PREPARAR-SE PARA ISSO

Ouvi, antes de tudo, a este respeito, a advertência do Concílio de Trento: «O santo Sínodo exorta os noivos a que, antes de contrair o vínculo, ou pelo menos três dias antes de consumar o matrimônio, confessem diligentemente os seus pecados e se aproximem devotamente da santa Eucaristia (1)». «Casa e riquezas recebemo-las dos parentes, lemos nos Provérbios, mas somente de Deus nos vem a esposa sensata» (19,14). E o Eclesiástico: «Casa tua filha e terás feito grande coisa; mas dá-la a um homem sábio» (7,27). Ora, se somente Deus concede uma esposa sensata, e os parentes fazem uma boa coisa apenas quando unem sua filha a um esposo prudente, segue-se que é necessário preparar-se, como convém a bons cristãos, antes de entrar no estado conjugal… Além disso, como o matrimônio cristão foi elevado por Jesus Cristo à dignidade de sacramento dos vivos, todos veem que é preciso aproximar-se dele com as devidas disposições; destas depende a felicidade ou a infelicidade dos esposos: é preciso preparar-se para ele principalmente com prudência, oração e modéstia; consultem-se o próprio confessor e os parentes; procurem-se informações sobre a pessoa com quem se deseja casar, sobre sua piedade, conduta e honradez… Será que a maior parte dos homens se prepara assim para o matrimônio? … Quisera o Céu que a preparação de muitos não fosse, ao contrário, uma cadeia de escândalos e pecados! profana-se este grande sacramento e, em vez de merecer a bênção, recebe-se a maldição… Não nos escape da mente que Jesus Cristo, sua santa Mãe e os apóstolos foram convidados e estiveram presentes nas bodas de Caná: assim se deve fazer em todo matrimônio cristão.

2. FINALIDADE QUE DEVE PROPOR-SE QUEM VAI CONTRAIR MATRIMÔNIO

Tríplice é o fim que deve ter em vista aquele que deseja contrair matrimônio com temor e amor de Deus: 1° receber dignamente este sacramento e jamais profaná-lo; 2° conservar a fidelidade conjugal; 3° educar piedosamente os filhos que Deus houver por bem conceder… Esses deveres são sagrados, e os esposos cristãos devem colocá-los no centro de seus propósitos.

3. DE QUE BÊNÇÃO SE SERVE A IGREJA PARA SANTIFICAR O MATRIMÔNIO

Para abençoar um matrimônio, a Igreja toma suas expressões da Sagrada Escritura e emprega as palavras já usadas por Raguel ao casar Tobias e Sara: «O Deus de Abraão, de Isaac e de Jacó esteja convosco; ele mesmo vos una e cumpra em vós a sua bênção» (Tb 7,15). Depois de pedir aos esposos o seu consentimento mútuo, a Igreja pronuncia, pela boca de seu ministro que a representa, esta fórmula solene: «Eu vos uno em matrimônio, em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo» (Ritual. rom.) … Santo é, pois, o matrimônio, e três vezes santo… Ai de quem o profana! …

4. O MATRIMÔNIO É DIGNO DE RESPEITO

«O matrimônio é honrado em tudo, diz o Apóstolo, e o leito imaculado; Deus julgará os fornicadores e os adúlteros» — (Hb 13,4). «Guarda-te, meu filho, dizia Tobias, guarda-te de toda fornicação e jamais te venha o desejo de conhecer outra mulher além da tua» (Tb 4,13).

O próprio Platão já estabelecia que ninguém ousasse aproximar-se de outra mulher que não fosse sua legítima esposa e que a fidelidade no matrimônio fosse sagrada (2).

5. QUE UNIÃO DEVE EXISTIR ENTRE OS ESPOSOS

A união que deve existir entre os esposos resulta claramente do propósito que Deus teve e do modo como procedeu ao formar e apresentar a Adão a primeira mulher. «Façamos para Adão, disse o Senhor, uma auxiliar semelhante a ele» (Gn 2,18). «E, depois de fazê-lo cair em profundo sono, tirou-lhe uma das costelas e com ela formou a mulher. Assim que Adão a viu, proferiu estas palavras: Este é osso dos meus ossos e carne da minha carne. Por isso, o homem abandonará seu pai e sua mãe e se unirá à sua mulher, e serão os dois uma só carne» (Gn 2,21-24). Eis agora a explicação de Jesus Cristo: «Em virtude desta origem, os esposos já não são dois, mas uma só carne. Portanto, o homem não separe o que Deus uniu» (Mt 19,6). Por isso, o Sábio, entre as três coisas que diz agradarem acima de todas as outras a Deus, coloca esta: um marido e uma esposa tão unidos, que formem um só coração e uma só alma (Eclo. 25,1-2).

Os esposos estão tão intimamente unidos, tanto pelo consentimento que precede as núpcias, como pelo contrato e pelo sacramento do matrimônio, pela habitação e pela mesa comum, e pelo leito nupcial, que formam uma só pessoa civil; por isso se chamam cônjuges (coniuges), como que unidos sob um jugo. Se vivem em paz, concórdia e fidelidade, sua vida é agradável, grata e santa; se, ao contrário, vivem em discórdias, altercações e rixas, arrastam dias de amargura e de inferno. Quando dois bois ou dois cavalos jungidos caminham no mesmo passo, avançam sem esforço e têm muito maior força; mas, se não se movem de acordo, ambos sofrem, sentem mais pesado o fardo do trabalho e cumprem com menor facilidade sua tarefa. O mesmo sucede com os casados…

O princípio e a vida da união conjugal estão no amor recíproco… Para que exista entre os esposos uma harmonia perfeita, requer-se: 1° identidade de religião, de fé e de piedade; 2° igualdade de caráter…; 3° paridade de condição…; 4° afeto recíproco…; 5° resolução de partilhar tanto as alegrias como as penas de seu estado…; 6° paz e concórdia no seio da família… Se os esposos desejam de coração gozar desses bens, rezem a Deus e sirvam-no. Quando estiverem unidos a Deus pela oração e pelo amor, estarão também unidos entre si; tanto porque duas coisas unidas a uma terceira também estão unidas entre si, como porque o amor com que se ama a Deus e aquele com que se ama o próximo por amor de Deus são, em substância, e especialmente entre os esposos, um só e mesmo amor…

6. DEVERES DOS CÔNJUGES

Deveres da esposa. Os deveres de uma esposa para com o marido consistem em honrá-lo, respeitá-lo, amá-lo; ser-lhe fiel, suportar seus defeitos e assisti-lo.

1) A honra e o respeito devidos pela esposa ao esposo exigem que ela, tanto ao falar dele como ao falar com ele, use sempre termos respeitosos e empregue uma linguagem que manifeste a estima em que tem a pessoa dele; procure em tudo preservar-lhe a boa fama, sem levar em conta os desgostos secretos que talvez ele lhe cause, e guarde profundo silêncio sobre as faltas em que ele incorre. Todas as santas mulheres de que fala a Sagrada Escritura observaram pontualmente essa norma e honraram seus esposos, tratando-os com linguagem de honra e respeito. Sara nunca chamava Abraão por outro título senão o de seu senhor (Gn 18,12). O mesmo nome dava Rebeca a Isaac, porque via na pessoa dele a majestade de Deus e pensava que a honra que lhe prestava se refletia sobre ela mesma. Do mesmo modo, Ana, mãe de Samuel, e a mãe do jovem Tobias foram notáveis pelos testemunhos de reverência que deram a seus maridos.

2) A esposa deve nutrir por seu marido um amor inteiro e constante, um amor nascido da castidade conjugal, um amor espiritual e santo. Ela conquistará melhor o marido para a piedade pelo exemplo do que por palavras cheias de suavidade e doçura; estas, porém, jamais deverão ser poupadas quando se lhe oferecer ocasião favorável de fazê-lo horrorizar-se do vício e da dissolução, se, por desgraça, o marido disso necessitar. O amor de uma esposa deve dirigir-se não tanto ao que tem de sensível e carnal, mas ao que diz respeito à salvação dele; deve, portanto, levá-la a fazer-lhe, no tempo e lugar convenientes, salutares admoestações, procedendo segundo as sugestões da prudência. Não há coisa que exerça maior poder e eficácia sobre o coração de um homem do que a voz de uma esposa virtuosa; mas é preciso, para isso, saber escolher os momentos e buscar os meios mais adequados para obter bom resultado. Investir contra o marido, repreendê-lo e importuná-lo enquanto ainda está embriagado pelo vinho ou inflamado pela paixão é uma imprudência cujas consequências se tornam sumamente perigosas e funestas. É preciso que o amor torne as mulheres engenhosas para insinuar-se no coração de seus maridos antes de se arriscarem a dizer aquilo que naturalmente não lhes agrada; e, antes de tudo, devem rezar com fervor e assiduidade para obter seu arrependimento e conversão.

3) A esposa deve estar submissa ao marido, como a Igreja está sujeita a Jesus Cristo em tudo o que é segundo o Senhor. O próprio Deus submeteu a mulher ao homem, em punição de sua desobediência. Ela está, pois, obrigada a obedecer em tudo o que é segundo Deus, isto é, naquelas coisas que não contrariam nem a honra de Deus nem a caridade para com o próximo. Mas, se um marido exigisse da esposa algo contrário à lei de Deus, à religião, ao pudor, à modéstia, em suma, aos seus sacrossantos deveres, ela de modo algum lhe deveria obedecer, porque, obedecendo-lhe, desobedeceria a Deus, a Jesus Cristo, à religião, à virtude e à consciência…

Nos assuntos indiferentes, nos quais não está envolvida a religião nem se faz injustiça à sã razão, é dever da mulher ceder à vontade do marido. Do mesmo modo, quando surgem divergências, a mulher deve ceder, para que o calor da discussão não rompa a união, a concórdia e a caridade que devem reinar entre os dois. Convém à mulher conservar a calma e a tranquilidade de espírito necessárias à piedade e ao serviço de Deus, não dar mau exemplo aos filhos e aos criados, nem acostumá-los a faltar ao respeito ou à submissão, a discutir ou retrucar quando se lhes fala. Ainda que o marido tivesse razão em algum caso, a esposa deveria proceder com grande discrição, especialmente na presença dos filhos e dos criados. Não deve retrucar ao que possa escapar da boca do marido enquanto ele está zangado e fora de si, para não irritá-lo e não levá-lo a obstinar-se, com perigo de consequências ainda mais dolorosas.

Justamente por negligenciarem essas regras, ditadas pela prudência e pela caridade, muitas mulheres faltam ao principal dever que a religião lhes impõe: suportar os próprios maridos, ainda que recebam deles maus-tratos sem motivo. Nessas difíceis circunstâncias, sua obediência seria tanto mais preciosa aos olhos de Deus quanto mais, nada tendo de humano, apareceria fundada unicamente na caridade cristã. Mas, ah! quantas há que, em vez de vencer seus esposos pela doçura, os provocam com insultos e uma palavra um tanto áspera; que começam por despejar sobre a cabeça do marido, às vezes embrutecido pelas dissoluções e incapaz de compreender que está errado, um dilúvio de censuras, invectivas e imprecações! Daí vêm os juramentos, as blasfêmias, as cóleras, as ameaças, as brutalidades, os escândalos e as desordens que, segundo a expressão de São Jerônimo, fazem de tais casas uma imagem antecipada do inferno.

4) Será talvez necessário lembrar às esposas que devem manter inviolada a fidelidade jurada aos pés dos altares? Quem quer que tenha um leve conhecimento dos princípios do Cristianismo, ou dê ouvidos ainda que somente à razão, não se iludirá quanto à gravidade de certas desordens das quais não somente os pagãos, mas até as nações mais bárbaras, como os brutais Cafres e os oceânicos antropófagos, tiveram e têm maior horror do que certos pretensos cristãos do século corrompido.

5) Devem suportar com paciência e resignação seus maridos e tolerar pacientemente as fraquezas, os defeitos e as enfermidades que às vezes podem ter.

6) Finalmente, devem prestar a seus consortes toda espécie de assistência, tanto corporal como espiritual…

A Escritura nos ensina que os pais de Sara a advertiram e lhe inculcaram que respeitasse os sogros, amasse o marido, educasse os filhos, governasse a família e se mostrasse irrepreensível em tudo (Tb 10,13). Eis, em grandes traços, os deveres das esposas para com os maridos. Ah! fossem todas as esposas, todas as mães de família, outras tantas cópias vivas de Sara!

Deveres do esposo. ― Os deveres dos maridos para com as esposas são amá-las, ser-lhes fiéis, sustentá-las, suportá-las e assisti-las.

O esposo é obrigado a amar a esposa: nada mais justo e legítimo; este é, para ambos os cônjuges, um dever recíproco. Mas isso, por si só, não basta. Para que o amor seja cristão e agradável a Deus, é preciso que se refira a Deus como seu último fim, que vise à sua glória e possua as qualidades do amor de Jesus Cristo pela Igreja. Sem isso, qualquer outro amor não tem valor algum diante de Deus, não tem caráter cristão. Os pagãos amavam-se com esse amor e, se alguém possui somente este, não é mais que um pagão. Que um esposo ame sua mulher é coisa boa e legítima; mas não amar nada além disso é um delito; pois, nesse caso, o amor permanece na criatura como em seu último fim e não produz senão frutos de corrupção e de morte…

Para que, pois, um marido ame cristãmente a própria esposa, deve, escreve São Paulo, amá-la como Jesus Cristo amou a sua Igreja. Assim como Jesus se tornou o chefe da Igreja em virtude da união que quis contrair com ela, e não teve no coração outra coisa senão a salvação desta esposa, da qual se fez Redentor, assim também o fim da aliança que um marido contrai com a esposa deve visar a isto: que ele se santifique com ela e a ajude a salvar-se. Ele a amará como a outro si mesmo e, assim como ninguém ama verdadeiramente a si mesmo senão amando a Deus como seu verdadeiro bem, também ele amará primeiramente a Deus com perfeição e ensinará sua esposa a fazer o mesmo. Procurará agradá-la em tudo o que não for contrário ao que deve a Deus…

O esposo lembre-se de que é o chefe da mulher, mas daquele modo e com aquele espírito com que Jesus Cristo é chefe da Igreja. O Salvador governa a Igreja como uma esposa que considera sua própria carne e seus próprios ossos, que trata sempre com caridade e pela qual se imolou na cruz; assim, o marido deve considerar a própria consorte como uma parte de si mesmo, governá-la com autoridade temperada pela doçura, pela discrição e pela caridade; corrigi-la, quando necessário, mais pela persuasão que pelo comando, com familiaridade mais que com altivez, porque o esposo não tem o direito de tratar a esposa como um senhor trata os servos. A mulher não foi tirada da cabeça de Adão, como se devesse mandar; nem dos pés, como se fosse sua escrava; mas do lado, para indicar que deveria ser sua companheira e, segundo a palavra divina, uma ajuda semelhante a ele. Ela foi tirada da proximidade do coração, para que o homem compreenda toda a caridade que deve ter por ela. Não é, pois, lícito ao marido fazer com a esposa tudo o que lhe parece e agrada, nem tratá-la como serva, nem dar-lhe ordens com altivez, nem maltratá-la, ainda que em caso de graves ofensas, nem obrigá-la a tornar-se instrumento cego de todos os seus caprichos. Isso não seria agir como cristão, como homem que ocupa na casa o lugar de Jesus Cristo…

O marido contraiu sociedade com a esposa por meio do matrimônio, para viver em perfeita comunhão de espírito, de coração, de interesses, de bens espirituais e temporais, de piedade, de religião e de salvação. A esposa é osso de seus ossos, carne de sua carne; ora, quem jamais viu um homem que não cuidasse de seu corpo e o tratasse com dureza e prepotência? Pelo contrário, cada um se empenha com todo o cuidado em alimentá-lo e conservá-lo; os mesmos cuidados deve ter para com a consorte… Um marido amoroso e fiel tornará sua esposa participante de seus negócios, com lealdade e confiança, e pedir-lhe-á conselho, para agir de comum acordo. É necessário, para o bem da paz, que cada um ceda uma parte de seus próprios direitos…

Dos outros deveres dos maridos, isto é, a fidelidade, a assistência nas necessidades corporais e espirituais e a tolerância, já falamos: são os mesmos deveres que têm as esposas.

7. O MATRIMÔNIO É INFERIOR À VIRGINDADE

São Paulo escrevia aos Coríntios: Boa coisa é para o homem permanecer sem esposa. Ainda não tomaste nenhuma? Não penses nisso. Contudo, se vos casardes, não pecareis; e, se uma jovem solteira se casar, não pecará. Terão, porém, tribulação na carne… Eu, pois, vos digo que o tempo é breve e que aqueles que têm esposa vivam como se não a tivessem… Desejo que estejais sem inquietação; ora, quem não é casado ocupa-se das coisas do Senhor e procura agradar a Deus. Ao contrário, quem tomou esposa busca o que é do mundo e o modo de agradar à esposa, e está dividido. Do mesmo modo, a virgem pensa nas coisas do Senhor, para ser santa de espírito e de corpo; mas aquela que tem marido cuida das coisas do mundo e procura agradar ao esposo. Portanto, quem dá sua filha em casamento faz bem; quem não a dá em casamento faz melhor (1Cor 7, 26-38). E pouco antes havia dito: «Desejo que todos sejais como eu (celibatário); mas cada um recebe de Deus o seu dom, um de um modo, outro de outro. Digo aos não casados e às viúvas que é bom para eles permanecerem assim, como eu estou» (Ib.7-8).

São Basílio vê no estado conjugal uma oficina de dores (Constit. monast. c. II). O Apóstolo chama de tribulações da carne as provações que acompanham o matrimônio, a paternidade e a família. Ele contrapõe tudo isso aos vãos prazeres de que se alimenta a imaginação dos imprudentes e cegos; com efeito, os cuidados, os aborrecimentos, as penas, os incômodos, as doenças e os perigos a que o estado matrimonial está exposto superam e fazem pagar caro demais as poucas alegrias que dele… Quantos sofrimentos, quantos perigos não enfrenta a mulher durante o tempo em que traz o filho no ventre e na hora em que o dá à luz! Quantos cuidados, preocupações e fadigas para alimentar, vestir e criar uma família! Que angústias, que dores lancinantes quando os filhos morrem! … Que embaraços, que esforços, que trabalhos para lhes dar uma posição, se sobrevivem! … Quantas lágrimas e gemidos, se se extraviam! … Por todos esses males que atingem os casados, Santo Ambrósio e Santo Agostinho nunca tiveram ânimo de aconselhar a ninguém o matrimônio…

Na Igreja há três estados, disse Santo Anselmo, bispo dos Saxões: a virgindade, o celibato e o matrimônio. Se quereis conhecer a diferença que há entre eles, ei-la: a virgindade é o ouro, o celibato é a prata, o matrimônio é o ferro; a virgindade é a opulência, o celibato é a abastança, o matrimônio é a pobreza; a virgindade é a paz, o celibato, a liberdade, o matrimônio, a escravidão; a virgindade é o sol, o celibato, uma lâmpada, o matrimônio, as trevas; a virgindade é uma rainha, o celibato, um senhor, o matrimônio, um servo (De Laud. Virg. c. IX. ― Biblioth. Patr.). «As núpcias, diz São Jerônimo, povoam a terra; a virgindade povoa o céu» (De Virg.).

Mas, entretanto, diz São Paulo, quem não pode manter-se na continência, case-se; é melhor casar-se que ceder à tentação (1Cor 7, 9). Estas palavras de São Paulo são comentadas assim por São Jerônimo: «Quando uma jovem não pode ou não quer conservar a continência, é melhor que se case com um homem do que com um demônio (3)».

O matrimônio, este estado digno de honra e que não é privado de alegrias quando os esposos têm o temor de Deus e vivem unidos, torna-se um inferno quando acontece o contrário. Se a mulher com quem vos casais é caprichosa, brigona e perversa, ela levará a guerra para dentro de vossa casa e se apresentará diante de vós como uma fera; sua língua é uma lâmina recém-afiada. Triste, penosa, deplorável coisa, que aquela que deveria ser auxílio e remédio seja tormento e veneno! Entretanto, ó homem, se não foste piedoso, se a mulher te é causa de perda e desgosto porque tu mesmo a desviaste, cura com paciência o mal que ela te faz. Que ela te sirva de médico e cirurgião, para curar as feridas de tua alma: Deus se serve dela contigo e sobre ti como de uma lâmina cortante e, embora o ferro nas mãos do cirurgião não saiba o que faz, o cirurgião sabe muito bem, e isso basta. Embora uma esposa perseguidora não saiba o que faz, Deus o sabe e, contanto que haja em ti piedade e resignação, ela te salvará.

«A mulher briguenta, lemos nos Provérbios, é como um telhado que, em dia de neblina, deixa a água gotejar. Quem quer amansá-la quer apertar o vento na mão» (27, 15-16). A mulher e o navio nunca têm ornamentos suficientes, diz Plauto; quem, pois, quiser ter trabalho, case-se com uma mulher ou construa um navio (Anton. in Meliss.).

«A mulher malvada é o pior de todos os males! exclama o Crisóstomo; insuportáveis e indomáveis são os dragões, malignas e horríveis são as áspides, mas a maldade de uma mulher é mais terrível que as próprias feras. Uma mulher maligna não conhece moderação: se a repreendeis severamente, enfurece-se; se a acariciais, ergue os chifres e se ensoberbece. É mais fácil fundir o ferro do que corrigir uma mulher viciosa: quem se casou com uma esposa assim deve reconhecer que recebeu o castigo que seus pecados mereciam. Não há monstro no mundo que se possa comparar à mulher má. Que fera é mais feroz que o leão? Nenhuma, senão uma mulher malvada. Que réptil é mais cruel que o dragão? Nenhum outro, exceto a mulher malvada (4)». O homem que se casou com uma mulher dessa espécie é o mais infeliz dos homens. Não lhe resta senão um remédio: a paciência; mas essa paciência lhe proporcionará o céu…

O que se diz de um homem casado com uma mulher sem virtude e sem pudor vale também para uma esposa virtuosa casada com um marido corrompido, libertino, bêbado, colérico e vicioso. Que desgraça é para ela ser obrigada a viver com um sujeito dessa espécie! Que inferno! Pobre mulher! Mas, enfim, resigne-se e ore; Deus lhe dará uma rica e esplêndida coroa.

Quando a mulher é viciosa, o marido é infelicíssimo, e vice-versa; mas que será quando ambos os esposos forem maus elementos, sem paciência, nem doçura, nem religião, nem castidade? Não há expressões suficientes para enumerar e qualificar os males que nascem de semelhante aliança maldita…

8. O MATRIMÔNIO PROFANADO

Há esposos, diz a Sabedoria, que não respeitam nem a castidade das núpcias, nem a vida matrimonial, matando-se espiritualmente um ao outro e ultrajando-se reciprocamente com maus costumes. Entre eles tudo é desordem: o sangue, o homicídio, o furto, a fraude, a corrupção, a infidelidade, o esquecimento de Deus, a ingratidão, a profanação das almas, o aborto, as dissoluções do adultério e da impudicícia; tudo por eles é confundido e levado em triunfo (Sb 14, 24-26). Onde estão os filhos que Deus destinava a ver a luz do dia? Rejeitar no nada existências que deveriam ter por fim a vida eterna: que nefandidade, que delito, e que conta deverão prestar dele os culpados!

9. CASTIGOS RESERVADOS AOS PROFANADORES DO MATRIMÔNIO

Os filhos dos adúlteros serão infelizes, sentencia o Sábio, e o fruto de um leito impuro não chegará à maturidade (Sb 3,16). Onã punha obstáculo ao cumprimento da vontade de Deus, praticando uma ação detestável; por isso Deus o feriu de morte (Gn 38, 9-10). Tal delito viola a lei natural e a santidade do matrimônio. É comparado pelo próprio Deus ao homicídio, e a Escritura o chama de detestável. Que nome lhe dar quando é cometido por cristãos? Muitos pais queixam-se das desgraças que lhes sobrevêm, das enfermidades que afligem seus filhos, da morte que cruelmente os arrebata. Justos castigos de Deus! Esposos culpados, abri os olhos, reconhecei que calcastes aos pés os vossos mais sagrados deveres, convertei-vos, e a justiça de Deus cessará de vos ferir…

Por que Sara, a casta, viu serem sucessivamente trucidados por um demônio, na primeira noite das núpcias, os sete esposos com quem se casara? A razão foi manifestada por Rafael a Tobias, que, ao ouvi-la ser-lhe proposta em casamento, receou que a mesma sorte também lhe coubesse: «Se me deres ouvidos, respondeu o anjo, nada semelhante te acontecerá, porque sabes quem são aqueles maridos sobre os quais o demônio tem poder? São aqueles que abraçam o matrimônio com tal disposição de espírito que afastam Deus de si e de sua mente, e satisfazem a sua concupiscência como o cavalo e o jumento, que não têm entendimento. Mas tu receberás a esposa no temor de Deus, movido mais pelo desejo de descendência do que pela concupiscência, para obter a bênção reservada à estirpe de Abraão» (Tb 6, 11-22).

Antes da lei mosaica, entre os judeus, a adúltera era queimada viva; depois, era apedrejada (Lv 20,10). Os egípcios puniam o adultério nos homens com cem golpes de vara; nas mulheres, mandavam cortar-lhes o nariz, para que sua desonra jamais deixasse de ser pública (DIOD. Bibl. hist.). Entre os árabes, os partos e outras nações antigas, os adúlteros eram condenados à decapitação (Ib).

O rei Tenedio estabeleceu por lei que os adúlteros fossem serrados ao meio e condenou a esse suplício o próprio filho (Maxim. Orat.). Em seu nono livro das Leis, Platão decretou a morte contra o fornicador e permitiu a qualquer pessoa matar a adúltera. Sólon permitia matar quem fosse surpreendido em ato de adultério (PLUTARCO).

Júlio César, Augusto, Tibério, Domiciano, Severo e Aureliano estabeleceram graves castigos contra os adúlteros. Aureliano, por exemplo, mandava amarrar os pés dos culpados a dois galhos de árvores dobrados à força, que depois, ao serem deixados retornar à sua posição natural, esquartejavam o corpo do condenado (C. AELIAN., Var. histor. lib. X, c. VI). Macrino, sucessor de Caracala, mandava queimá-los vivos (ALEX.). O próprio Maomé ordenou que se infligisse à adúltera a pena de cem golpes de bastão.

Os sármatas, segundo o testemunho de Orósio, matavam as mulheres adúlteras ou vendiam-nas como escravas. Os saxões, ainda pagãos, obrigavam a adúltera a enforcar-se e colocavam publicamente o cúmplice sobre uma fogueira, à qual ateavam fogo (S. BONIF. Epist.).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.