«De onde nascem as contendas entre vós?», pergunta São Tiago, e responde: «das vossas concupiscências» (Tg 4, 1). As contendas ordinariamente têm origem na injustiça…; na avareza…; no ódio…; na loucura…; na intemperança da língua…; no orgulho…; na obstinação… Muitas vezes basta uma palavra, um relato falso, uma calúnia, para dar lugar a contendas.
1° As contendas geram preocupações, penas, desgostos, incômodos, perigos, ignomínias, ruína da fortuna… Muitas vezes sofremos maior perda, mesmo vencendo-as, do que teríamos sofrido renunciando, desde o princípio, àquilo que se pretendia… Além disso, não é porventura sempre duvidoso o ganho de uma contenda, ainda que apoiado em provas conclusivas? … É, pois, próprio de uma pessoa prudente não iniciar uma contenda sem estar quase constrangida a fazê-lo; interrompê-la, se já começou, ou ao menos empenhar-se em aplainar as dificuldades.
2° As contendas destroem a paz e a caridade para com os outros; bens infinitamente preciosos e mais estimáveis que todo ganho que se possa obter das contendas.
3° As contendas, se não forem interrompidas, multiplicam-se sem medida, tornam-se intermináveis e já não deixam lugar para a reconciliação, segundo aquela sentença dos Provérbios: «O maligno procura em tudo e sempre pretextos para contendas e litígios; mas contra ele será enviado o anjo da vingança» (Pr. 17, 11). É melhor encontrar uma ursa à qual tenham sido arrebatados os ursinhos do que cair entre as garras de um homem litigioso. Os sábios comparam a contenda a uma serpente que, onde quer que consiga introduzir a cabeça, acaba por entrar inteira.
4° As contendas suscitam combates interiores; a alma do litigioso arde continuamente em mil paixões; ele disputa, faz sofismas consigo mesmo. A cólera, a cobiça, o ciúme, a inveja, o desejo de vingança engalfinham-se com a reta e sã razão, que se opõe ao litigar… Depois, os litígios têm como cortejo necessário os gritos, as ameaças, os ódios.
A fonte de todo mal é o orgulho, e dele nasce o ódio no coração: não se quer ceder nem ouvir falar de reconciliação, muito menos ser o primeiro a procurá-la ou pedi-la… «O homem colérico provoca contenda», diz o Eclesiástico (Eclo 28, 11). Essa pretensa sabedoria de que procura revestir-se o homem dado a sofismas não é sabedoria nem prudência, mas altivez e egoísmo; a ela se podem aplicar aquelas palavras de São Tiago: «Não é esta a sabedoria que vem do alto, mas sabedoria terrena, animal, diabólica. Pois onde há inveja e contenda, aí há inconstância e toda espécie de obra má» (Tg 3, 15-16).
«A paixão de litigar é uma flecha ardente disparada pelo demônio para a perdição das almas, escreve São Lourenço Justiniani. Ó quantas disputas, quantos ódios nascem dos litígios! Quantas vezes, ó Deus, a verdade é deturpada; quantas vezes o erro, a falsidade, é tomada pela verdade! É um mal espantoso amar as contendas: já não há caridade nem laço de afeto, nem sequer entre as famílias do mesmo tronco. Quem ama as contendas ama o demônio; admite-o em seus conselhos; antes, desempenha o ofício do demônio, constitui-se seu ministro; gera o rancor, desencadeia as tempestades, bane a paz, alimenta o furor, difama a honestidade, perde a prudência, perde a razão, obscurece o espírito, rejeita a luz da graça, rompe a caridade fraterna, extingue em si mesmo o amor de Deus e do céu» (De intero conflic.).
Ouçamos o aviso do Eclesiástico: «Mantém-te longe das contendas e diminuirás as ocasiões de pecado» (Eclo. 28, 10).