«Deus é luz e nele não há trevas», diz o apóstolo São João (1Jo 1, 5); e, ao iniciar o seu Evangelho, repete: «No princípio era o Verbo: nele estava a vida, e a vida era a luz dos homens. Ele era a luz verdadeira que ilumina todo homem que vem a este mundo» (Jo 1, 1, 4). «Porque era luz, por isso era vida», comenta São Gregório, falando de Jesus Cristo (1). O apóstolo São Tiago chama a Deus pai das luzes (Tg 1, 17).
Como Verbo e como Deus, Jesus Cristo é a luz incriada; como homem, é a luz criada, sendo cheio de sabedoria, de graça e de glória. É também luz fundamentalmente operante, porque é a origem e a causa de toda a nossa sabedoria, graça e glória. «Eu sou a luz do mundo, disse o próprio Jesus; quem me segue não caminha nas trevas, mas terá a luz da vida» (Jo 8, 12). «Ele é a luz que ilumina todas as nações», cantou dele o santo velho Simeão. — E por isso veio iluminar os indivíduos e as nações, observa aqui Santo Agostinho, porque o demônio viera cegá-los (2). Isaías, falando do Messias, dizia: «Chegou a tua luz, ó Jerusalém, e sobre ti se levantou a glória do Senhor» (Is 60, 1).
Jesus Cristo comunica a sua luz aos fiéis e particularmente aos homens apostólicos, de modo que eles mesmos se tornam luz, para que os homens, vendo-os resplandecer em boas obras, deem glória ao Pai que está nos céus (Mt 5, 14-16).
Santo Ambrósio diz de Jesus Cristo: «Ele é o sol novo que penetra nos mais ocultos abismos, que tudo descobre, que perscruta os corações. É o novo sol que, com o seu espírito, vivifica o que estava murchando, repara o que estava corrompido, ressuscita os mortos; com o seu calor purifica o que estava imundo, faz desabrochar as flores e consome os vícios. Ele é, em toda a sua plenitude, o sol da justiça e da sabedoria; não se deixa ver indistintamente, como o sol deste mundo, pelos bons e pelos maus, mas, por justa disposição, resplandece para os santos e esconde a sua luz aos pecadores» (Serm.).
Deus é o criador de toda luz espiritual e física, como nos insinuam aquelas palavras do Gênesis (Gn 1, 3) e aquelas outras do Salmista: «Em vós, ó Senhor, está a fonte da vida; e na vossa luz veremos a luz» (Sl 35, 9).
A luz que nos vem do firmamento e principalmente do sol é, entre todas as coisas materiais criadas, a mais nobre, a mais rica em qualidades: é agilíssima, potentíssima, impassível; difunde calor, esplendor, vida, alegria, fecundidade; misturada ao lodo, permanece pura; encerrada nas cloacas, delas sai imaculada; por meio dela a natureza se torna visível para nós, e ela dá força a tudo o que existe. Tal é Deus, e tal é a sua graça…
São Dionísio assinala trinta e um pontos de semelhança, comparando o fogo e a luz com Deus e a graça: 1° o fogo e a luz unem-se a todos os corpos e os penetram sem se confundirem com eles…; 2° separam-se de todas as coisas…; 3° resplandecem inteiros ao mesmo tempo…; 4° por si mesmos permanecem ocultos e desconhecidos, até que encontrem matéria sobre a qual exerçam a sua ação e influência…; 5° ninguém pode detê-los nem prendê-los…; 6° nem sequer apalpá-los…; 7° apoderam-se de tudo com as próprias forças…; 8° comunicam aos objetos que atingem a sua eficácia e ação…; 9° unem-se a tudo o que tocam…; 10° renovam aquilo a que se unem, por meio do calor que reanima a vida…; 11° o fogo resplandece…; 12° tem força para destruir…; 13° não pode misturar-se com outra coisa…; 14° não pode ser transformado…; 15° eleva-se…; 16° é agilíssimo…; 17° é grande e não suporta injúria nem atentado…; 18° é imóvel…; 19° e move-se por si mesmo…; 20° põe em movimento aquilo a que se prende…; 21° propaga-se…; 22° e não se deixa apanhar…; 23° basta a si mesmo…; 24° dilata-se em segredo…; 25° manifesta a sua grandeza nos objetos que com ele concordam…; 26° tem força para agir…; 27° é potentíssimo…; 28° encontra-se em todas as criaturas sem se deixar perceber…; 29° se não se presta atenção a ele, parece não existir…; 30° se é procurado, aparece e desaparece de tal modo que não se pode nem recuperá-lo nem retê-lo…; 31° embora se comunique a tudo, não se divide nem diminui… E não são estas ainda as qualidades do Deus das luzes e da graça?
«Levanta-te e sê iluminada, ó Jerusalém, porque chegou a tua luz e a glória do Senhor resplandece sobre ti», exclama Isaías, contemplando em espírito os efeitos da vinda do sol da justiça, Cristo Jesus (Is 60, 1). «Quando o Senhor te cingir com a sua nuvem, as nações se aglomerarão ao teu redor e os reis virão a ti, guiados pelo fulgor que te circunda; ao vê-lo, ficarás extasiada de admiração e o teu coração transbordará de alegria» (Ib. 5).
Lê-se no Êxodo que uma treva espessa e espantosa se estendeu sobre toda a terra do Egito; enquanto uma luz claríssima resplandecia sobre a região habitada por Israel (Ex 10, 22,23). Isso representa que sobre os filhos de Deus, sobre os seus servos fiéis, resplandece a luz da graça, enquanto os pecadores permanecem envoltos em densa e negra escuridão. Ora, se «a luz dos olhos alegra a alma» (Pr. 15, 30), que alegria infinitamente mais doce não darão à alma a luz do Espírito Santo e a graça?
«O Senhor, diz o Salmista, conduziu o seu povo durante o dia sob a sombra de uma nuvem, e durante a noite ao clarão de uma chama claríssima» (Sl 77, 14). Assim faz Deus com as almas piedosas e santas. «Ao nascer do sol, os animais selvagens se recolhem às suas tocas, e o homem então sai para o trabalho do dia e para o cultivo dos campos até a tarde» (Sl 103, 22-23). Tais são os prodígios que operam as luzes espirituais: expulsam os animais ferozes, que são os demônios, e a alma se ocupa nos trabalhos da eternidade…
Outras vezes exclamava: «Vós me fizestes conhecer o caminho da vida, ó Senhor, e me inundareis de alegria, mostrando-me a vossa face» (Sl 15, 11). «O Senhor é a minha luz e a minha salvação; de que poderei ainda temer? (Sl 26, 1). «Os povos, ó Senhor, caminharão escoltados pela luz da vossa face» (Sl 88, 16). «Surgiu nas trevas uma luz para os homens retos, e ela é o Deus clemente, justo e misericordioso» (Sl 111, 4). «Sim, a luz se levantou para o justo, e a alegria embriagou os que têm o coração reto» (Sl 96, 11). «O Senhor ilumina os cegos» (Sl 140 5, 6). O profeta media toda a excelência e compreendia toda a utilidade da luz espiritual e a necessidade que dela tem o homem, quando exclamava: «A vossa palavra, ó Senhor, é a lâmpada que guia os meus passos, é a luz que ilumina o caminho por onde ando. A explicação da vossa lei difunde a luz e dá inteligência aos simples» (Sl 118, 105, 130). «Iluminai, ó Senhor, os meus olhos, para que eu não adormeça no seio da morte; para que o meu inimigo não diga: Eu o venci e o subjoguei» (Sl 12, 4-5). «Enviai a vossa luz e a vossa verdade; elas me conduzirão ao vosso monte santo e me introduzirão nos vossos tabernáculos» (Sl 42, 3). «Sou vosso servo; dai-me inteligência, para que eu conheça os vossos oráculos e viva» (Sl 118, 125; 144). «Indicai-me o caminho que devo seguir, porque a vós elevei a minha alma. Ensinai-me a cumprir as vossas vontades, porque vós sois o meu Deus» (Sl 142, 8-9).
Por meio das luzes espirituais, vê-se Deus…, a lei de Deus…, o caminho da salvação…, o que se deve a Deus, ao próximo e a si mesmo…, de onde se vem, para onde se vai, o que se é e o que se deveria ser. Conhece-se a fealdade e a enormidade do pecado, os perigos a que nos expõem as paixões, os inimigos da salvação, os meios de evitá-los… Vislumbram-se a beleza e a excelência da virtude, os tesouros que a oração nos alcança, os auxílios que os sacramentos nos trazem… Prevê-se a morte e se está preparado para ela…, o juízo e se teme…, o inferno e se evita…, o céu e para ele se vai…
«Se caminhamos na luz, assim como o próprio Deus está na luz, mantemos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus Cristo, seu Filho, nos purifica de todo pecado», diz São João (1Jo 1, 7). Se caminharmos guiados pela luz da razão, da fé e da graça, estaremos unidos a Deus, e o sangue de Jesus nos lavará de toda imundície. Ó Deus, que vantagens inestimáveis! … «Uma grande luz está sobre os vossos santos, ó Senhor», exclama o Sábio (Sb 18, 1).
O primeiro meio para obter de Deus as luzes espirituais é ir a ele: «Aproximai-vos de Deus, diz o Salmista, e sereis iluminados» (Sl 33, 5).
O segundo meio consiste em observar a lei divina. Eis o testemunho daquele que fala por própria experiência: «Superei em inteligência todos os meus mestres, porque meditei a vossa lei, Senhor. Tornei-me mais prudente que os anciãos, porque estudei os vossos mandamentos» (Sl 118, 99-100).
O terceiro meio consiste em temer e amar a Deus. «Vós que temeis o Senhor, diz o Espírito Santo, amai-o, e a vossa alma será iluminada por torrentes de luz» (Eclo. 2, 10).
O quarto meio encontra-se no exercício da esmola e de toda outra obra de caridade: «Reparte o teu alimento com o faminto, veste o nu, acolhe sob hospitaleiro teto o peregrino, e a tua luz resplandecerá como a aurora; serás acompanhado pela saúde, precedido pela justiça, cercado pela glória do Senhor; se o teu coração se comove à vista do pobre, se alivias o aflito, a tua luz resplandecerá no meio da noite e, para ti, as trevas se transformarão em pleno dia» (Is 58, 7-8, 10).