Tesouro n.º 85 · Volume II

JUÍZO UNIVERSAL GIUDIZIO UNIVERSALE

14 seções · 59 parágrafos · pp. 1005–1021 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. HAVERÁ UM JUÍZO UNIVERSAL

«Está decretado — escreve o grande Apóstolo — que todos os homens hão de morrer um dia, e depois disso virá o juízo» (Hb 9, 27). Com efeito, Deus é infinitamente justo, ou melhor, é a justiça por essência; portanto, um juízo é necessário para retribuir a cada um segundo as suas obras… Os profetas o predisseram… O Evangelho o atesta… Todas as nações nele creram… E este é o ensinamento da Igreja… É um dogma de fé, etc…. E a ele comparecerão, para prestar contas de suas ações, todos os homens, justos e pecadores.

2. O UNIVERSO SERÁ ABALADO

«Os céus e a terra estão reservados para o fogo no dia do juízo e da perdição dos ímpios», diz São Pedro (2Pd 3,7). Deste texto resulta claramente que, no fim do mundo, todos os elementos serão purificados pelo fogo… Ora, se aquilo que é inocente, como a terra, as estrelas, as plantas etc., deve submeter-se a esse destino, por que fogo não serão consumidas a cobiça e a vontade perversa do homem pecador, manchado de tantas perversidades? …

Diz o profeta Joel: “Chorem e tremam de espanto todos os habitantes da terra; eis que se aproxima o dia do grande Deus. Dia de trevas e escuridão, dia de nuvens e tempestades; um fogo devorador o precede, uma chama abrasadora o segue. A terra treme, os céus são abalados, o sol e a lua se obscurecem, as estrelas perdem o seu brilho. Javé faz ouvir a sua voz; grande é o dia de Javé; dia terrível, quem poderá suportar a sua chegada? Farei, diz o Senhor, aparecer prodígios no céu e sobre a terra: sangue, fogo e turbilhões de fumaça. O sol se transformará em trevas e a lua em sangue, antes que venha o dia solene e espantoso do Senhor” (Jl 2, 1-11, 30-31).

O dia do juízo: 1° será grande, porque porá fim a este universo, ao delito, ao mérito e ao demérito… 2° será grande, porque assinalará o fim do tempo e a aurora da eternidade… 3° será grande, porque será testemunha de acontecimentos inauditos; verá o que jamais se havia visto nem jamais se verá…

A guerra, a peste e a fome precederão aquele dia terrível… Os relâmpagos, os trovões e os raios fulgurarão e ribombarão por toda parte… As feras, deixando as florestas e as cavernas, levarão, com seus uivos, o espanto até o interior das cidades mais populosas… O mar romperá os seus diques e suas ondas se elevarão até o céu… A terra será sacudida desde os seus fundamentos, os montes ruirão despedaçados e afundarão em imensos abismos. Os homens, fugindo sem saber onde se refugiar, emudecerão de terror; o pai já não reconhecerá o filho, a mãe já não distinguirá a filha… Os castelos, os palácios e as cidades ruirão com horrendo estrondo… Não mais ouro, não mais prata, não mais delícias, não mais honras, não mais um vislumbre de esperança para a vida…

Diz Sofonias: «O grande dia do Senhor se aproxima, avança rapidamente: voz amarga do dia do Senhor, tribulação para os fortes. Dia de ira e vingança, de tribulação e angústia, de calamidade e miséria, de escuridão e trevas, de nuvens e tempestade… O grande Deus fará cair uma ruína súbita sobre os habitantes da terra (Sf 1, 15, 18). «Todas as mãos, diz Isaías, penderão como se estivessem deslocadas, todos os corações se desfazem como madeira carcomida, todo homem ficará atônito de espanto. Gritos insensatos e dolorosos lamentos encherão o universo, quando vier o dia do Senhor; dia cruel, que respira indignação e furor; dia que fará da terra um deserto, que reduzirá os ímpios ao extermínio» (Is 13, 7-9).

Meditemos e ponderemos estas expressões dos profetas.

3. RESSURREIÇÃO GERAL

«Ao som da voz do arcanjo e da trombeta de Deus, o próprio Senhor descerá do céu e os mortos ressuscitarão», diz o apóstolo das Gentes (1Ts 4,15). Arauto do Deus juiz será a trombeta do Onipotente; trombeta autoritária e imperiosa, fará ouvir o seu som terrível no céu, sobre a terra e no fundo dos abismos: 1º para despertar os mortos, fazê-los sair dos sepulcros e citá-los ao juízo…; 2º para chamar os eleitos à solenidade e à alegria da união de suas almas com seus corpos…; para aterrorizar os réprobos e anunciar-lhes que seus corpos sairão do pó para se unirem às suas almas e partirem com elas para o suplício eterno…

Levantai-vos, ó mortos, vinde ao juízo… «Quer eu coma, quer beba, diz São Jerônimo, quer vigie, quer durma, quer faça qualquer outra coisa, sempre e continuamente ressoa em meu ouvido a voz que clama: Levantai-vos, ó mortos, vinde ao juízo (1)».

Ao toque da trombeta, tocada pelo anjo da justiça divina, o mundo será tomado de um terror mortal; os mortos sairão dos túmulos; os réprobos e os demônios sairão em multidão do inferno. Aqueles que hoje, por impiedade, fecham os ouvidos ao chamado da fé, então os abrirão, mas, ai de nós!, tarde demais… Levantai-vos, movei-vos, gerações de todos os séculos e de todos os lugares, saí da prisão e do pó dos sepulcros. Erguei-vos, ó mortos. Ao comando onipotente todos obedecem; a cinza ganha vida; num instante, toda a humanidade está de pé… Mas que imensa diferença, ó Deus, não existe entre esses ressuscitados! Os eleitos se mostram com aqueles corpos que, já desfigurados pelas chibatadas, pelo fogo, pelas torturas, pelas penitências e pelos jejuns, agora resplandecem como o sol, cândidos como a neve, belos como a aurora. Feliz união! Vem, ó meu corpo, dirá a alma, vem unir-te a mim; quando eu estava contigo, tu dividias comigo as minhas orações, as minhas vigílias, os meus sofrimentos, as minhas lutas; ou eu me servia de ti para conquistar o céu, e, separada de ti, já gozei da glória; é justo que, tendo dividido comigo os trabalhos e os méritos, já não permaneças cinza e pó, mas participes da minha felicidade, da minha eterna glória. Vem, unamo-nos para nunca mais nos separarmos. Eu sou espiritual, e tu serás espiritualizado; eu sou luminosa, e tu serás resplandecente; eu sou impassível, e tu já não terás nada que sofrer; eu sou imortal, e tu não morrerás jamais. Ó união admirável e suave! Os réprobos, ao contrário, também ressuscitam, mas com corpos desfigurados, horríveis, imundos, corrompidos, infectados. Quando a alma imunda do condenado vê o corpo maldito como ela, destinado a arder eternamente com ela, ó céu!, que união infernal acontece naquele momento… Vem, clama a alma ao seu corpo, vem, ó corpo maldito; tu dividiste comigo os meus delitos, tu foste o instrumento deles; é justo que dividas também o meu suplício. Alma culpada e maldita, responderá o corpo, és tu que me perdeste! Por que te serviste de mim para o vício, em vez de me empregares para a virtude? … E essas maldições recíprocas se repetirão eternamente no fundo do inferno!

«Levantem-se as nações, ordena o grande juiz, e subam ao vale de Josafá, porque ali porei o meu trono para julgar as nações» (Jl 3,12). Quando em toda parte se fizer ouvir o som da trombeta, todos os homens e os demônios serão como que arrastados à força para diante do trono do juiz incorruptível… — Mas já todos estão reunidos; todos aguardam, prostrados e mudos, a descida do supremo e terrível juiz dos vivos e dos mortos.

4. APARIÇÃO DE JESUS CRISTO

«Então, diz o Evangelho, aparecerá no céu o estandarte do Filho do homem; e, vendo as tribos da terra este Filho do homem vir sobre as nuvens do céu, com solene e majestosa pompa, prorromperão em copioso pranto» (Mt 24,30). Jesus Cristo, tendo aparecido em sua primeira vinda sob o véu da fraqueza, da humildade e da pobreza, mereceu vir no último dia armado de grande poder, resplandecente de majestade e de glória. Todos os homens, todos os demônios o reconhecerão como seu Deus e seu juiz. Se tamanha magnificência faz resplandecer o sol aos nossos olhos, qual não será o esplendor do Onipotente!…

Eis alguns traços que nos foram apresentados por seus profetas: «A sua glória cobre os céus, e o seu esplendor supera o fulgor do sol; e, da nuvem em que se vela a sua majestade, lança raios de vivíssima luz; a morte vai acorrentada diante dele, e o demônio se debate inutilmente sob os seus pés. Ele se detém, mede a terra; lança ao redor o olhar, e as nações se prostram; as montanhas do século se desfazem em fragmentos, as colinas do mundo se abatem sob os passos da sua eternidade» (Hab 3,3-6).

«Diante dele arde um incêndio, diz o Salmista, cujas chamas incineram ao redor os seus inimigos e derretem os montes e toda a terra» (Sl 49,3; 96,3; 96,5).

«Eu vi, narra São João no Apocalipse, um alto trono adornado de branco, e sobre ele estava sentado alguém cujo olhar fez desaparecer a terra e o céu, de modo que já não se encontrou sequer o lugar deles (Ap 20,11). Seus olhos cintilavam como chamas de fogo (Ap 2,18). Ao seu aparecimento, o firmamento se retirou como pergaminho enrolado, os montes desabaram e as ilhas foram arrancadas de suas bases» (Ap. 6,14). «Ai de nós!, exclama Jeremias, porque grande é aquele dia, e não há outro semelhante» (Jr 30,7).

«Ó pecadores, diz São Gregório, Aquele a quem não quisestes ouvir em sua humildade, vós o vereis em seu poder e majestade (2)».

O juízo terá lugar não sobre a terra, mas no ar. Os eleitos ocuparão o lugar de honra e formarão um exército que se estenderá do céu à terra. Sobre ele estarão estendidos os réprobos, cobertos de vergonha e confusão.

5. ACUSAÇÃO E MANIFESTAÇÃO DAS CONSCIÊNCIAS

«Eu vi, diz o extático de Patmos, os mortos, grandes e pequenos, de pé diante do trono; e os livros foram abertos, e os mortos foram julgados segundo as suas obras, conforme o que estava escrito nos livros» (Ap. 20,12). «O juízo começou, escreve também Daniel, e os livros foram abertos» (Dn 7,10); livros nos quais todos os homens estão registrados (Sl 138,15). Por isso a Igreja canta: «Um livro será trazido ao meio, contendo todas as coisas, e o julgamento do mundo será feito segundo o que nele está escrito».

- Este livro contém tudo o que se faz no mundo, tanto de bem como de mal (Ecl 12, 14). Nenhuma culpa será tão oculta que não seja desvelada, e nenhum mérito tão secreto que não seja manifestado (Lc 8, 17).

A esse respeito diz São Cirilo: «Eu temo as inevitáveis acusações e as provas irrefutáveis. Este grande juiz não necessita absolutamente nem de acusadores, nem de testemunhas, nem de argumentos; mas ele expõe diante de cada um tudo o que disse, fez e pensou. Ali não há meio de encontrar auxílio; ninguém poderá arrancar o réu à pena em que incorreu: nem pai, nem mãe, nem filho, nem filha, nem amigos, nem advogados, nem ouro, nem prata, nem riquezas, nem influências poderão exercer qualquer efeito sobre a sentença. O culpado traz em si mesmo o julgamento que o absolve ou condena. Onde estarão então o orgulho e a vanglória, a púrpura e a magnificência? Que será do poder, da nobreza, da força, da beleza, da vaidade, do luxo, das comitivas, das honras mundanas, dos prazeres, das danças, dos banquetes, dos teatros, dos espetáculos?» (Orat. de omnia excess.).

“Sereis apresentado, diz São Bernardo, diante do juiz tremendo. Ser-vos-ão imputadas muitas e graves culpas; nem será breve o ato de acusação, mas tão longo quanto foi a nossa vida; e não tereis de tratar com um só acusador, mas com tantos acusadores quantos forem os vossos pecados. O próprio juiz vos acusará severamente, não menos que os espíritos bons e maus. De todos os lados se levantarão acusadores: de um lado, os vossos crimes; de outro, a justiça eterna; abaixo de vós, o inferno; acima, o paraíso; dentro, a consciência; fora, o mundo. Se apenas o justo encontrará escapatória, que será do pecador? Esconder-se, impossível; comparecer, intolerável” (De inter Dom., c. XXXVII).

«À direita, diz Santo Anselmo, alinhar-se-ão os pecados, que farão as vezes de acusadores; à esquerda, colocar-se-ão legiões de demônios (3)»; de modo que já não resta lugar algum para desculpas, conclui Santo Agostinho (4), e não há como escapar de suas mãos (Sb 16, 15).

Semelhante àquele miserável que ousou entrar na sala do banquete sem a veste nupcial e teve de morrer de vergonha diante de todos os convivas, por causa das repreensões e dos vitupérios que lhe dirigiu o dono da casa, o pecador, no vale de Josafá, coberto dos farrapos da culpa, ficará atônito, emudecerá, confuso e publicamente envergonhado.

São Paulo escreve que o Senhor trará plenamente à luz o que está oculto nas trevas e manifestará os segredos do coração (1Cor 4, 5). E então os pecadores verão: o que verão? Que é impossível permanecer desconhecidos e manter ocultas as próprias culpas ao reflexo daquela luz… Então verão que não podem escapar nem dos olhares nem das mãos do soberano juiz… Então verão a impossibilidade de tergiversar, dissimular, fingir, mentir e enganar… Então verão todas as suas iniquidades divulgadas diante do céu, da terra e do inferno.

«Naquele dia Deus examinará Jerusalém, diz Sofonias, com uma lâmpada na mão; visitará os homens atolados em seu lodo, que dizem consigo mesmos: O Senhor não castiga nem recompensa». E quem poderá jamais lisonjear-se de enganar aquele juiz onipotente que, como diz Jó, «põe a descoberto as profundezas das trevas e reveste de esplendor resplandecente as sombras da morte»! (Jó 12,22)

Ah, sim! Todos os caminhos do homem são manifestos aos olhos do Senhor, e ele discerne todo espírito (Pr 16, 2). – Por isso Deus diz no Apocalipse: «Todo o mundo saberá que eu sou aquele que perscruta os rins e os corações e que retribuirei a cada um segundo as suas obras» (Ap 2, 23).

Investigador dos pensamentos mais recônditos, Deus se servirá, para julgar os homens: 1° da sua luz incriada…; 2° da luz dos anjos e também da dos demônios…; 3° da luz da consciência e da razão individual…; 4° da luz da sua lei e da sua palavra; 5° da luz do sol, da lua e das estrelas, que nos iluminaram quando pecamos…: todas as criaturas serão lâmpadas acusadoras…; 6° da luz da vida admirável de Jesus Cristo e dos santos… Como nos esconder ou nos defender do esplendor de tantas tochas diferentes! Então se cumprirão aquelas palavras do Senhor: «Eu te acusarei e te porei diante dos teus próprios olhos, e chamarei a exame até mesmo as tuas próprias justiças» (Sl 49,21; 74,2). A tua ignomínia será divulgada e a tua vergonha será posta a descoberto (Is 47,3). «Cometeste o teu crime na sombra ou em segredo, e eu o publicarei diante do sol e aos quatro ventos» (2Sm 12, 122). «A pedra clamará contra ti do meio do muro, e as madeiras da tua casa falarão» (Hab 2,11). «Temei, portanto, diz São Bernardo, o exame do juiz, porque ele tem o olhar agudo e a visão penetrante (5)».

Seremos julgados pelos pensamentos, pelos desejos, pelos olhares, pelas palavras; pelas obras, pelas omissões, pela nossa memória, pela vontade, pela inteligência, pelo coração…; julgados pelo tempo…, pelas graças…; pelos sacramentos, etc.

Ouvi o que, segundo Santo Agostinho, dirá Jesus Cristo no ato de nos julgar: «Ó homem, eu te formei com minhas próprias mãos do barro da terra e te dei a vida; criei-te à minha imagem; sem te preocupares com a regra de conduta que te tracei, preferiste inclinar-te ao espírito inimigo e mentiroso, em vez de fazê-lo diante do teu Deus. Depois que foste expulso do paraíso e arrastavas as cadeias do pecado, estabeleci encarnar-me; fiz-me homem, fui colocado numa manjedoura, envolto em faixas; suportei as penas da infância, as angústias da virilidade; recebi bofetadas e cusparadas; fui flagelado, coroado de espinhos, pendurado numa cruz: eis aqui as cicatrizes dos cravos; vê o meu lado traspassado pela lança. Agora, por que perdeste o mérito daquilo que sofri por ti? Por que desprezaste, ó ingrato, os benefícios da redenção? Por que profanaste, com a infâmia dos prazeres dos sentidos, a morada que eu havia escolhido em ti e consagrado a mim? Por que me pregaste à cruz dos teus crimes, cruz para mim mil vezes mais horrível e dolorosa que a do Gólgota? Pois a esta subi por minha vontade, por compaixão de ti, para te libertar da morte; naquela, ao contrário, tu me pregaste contra a minha vontade. E, depois de tantas iniquidades, tendo recusado o remédio da penitência, já não podes esperar escapar ao abismo eterno; desprezaste o perdão, desprezando o juiz» (Serm. 67, de Temp.).

Por que, dirá o juiz supremo, não acreditastes em minhas palavras? Por que não aceitastes a redenção e a salvação? Por que não obedecestes à minha lei? Não tendes razão alguma para desculpar a vossa falta de fé, a vossa desobediência, a vossa impiedade. Sois indesculpáveis; a vossa consciência e a vossa razão vos julgam, vos convencem, vos condenam e proclamam que eu sou bom, justo, misericordioso… Desprezastes os meus trabalhos, as minhas fadigas, os meus sofrimentos; profanastes o sangue da aliança; preferistes inclinar-vos às ordens das vossas paixões, em vez de obedecer às prescrições da minha lei e da minha doutrina. À salvação eterna que vos prometi, preferistes os prazeres fugazes, as riquezas e as honras… Calcastes aos pés as minhas ameaças e a minha pessoa… Eis-vos agora diante daquele que não quisestes ouvir, nem receber, nem seguir. Agora compreendeis perfeitamente que a minha lei era obrigatória, e que as minhas ameaças não eram um vão alarido; que as minhas promessas não eram mentiras, mas que tanto umas como as outras deveriam ser infalivelmente seguidas pelo efeito. Compreendeis que era ilusão e vaidade o vosso amor pelo mundo e pela carne; tocais agora com as mãos como fostes loucos ao entregar-vos a isso. Gemeis, chorais, bateis no peito; mas é tarde demais, é em vão. Ide, portanto, pecadores empedernidos no mal; ide, incrédulos, libertinos, ímpios; ide, malditos, para o fogo eterno!…

6. TRISTE CONDIÇÃO DOS PECADORES NO DIA DO JUÍZO

Ao ouvirem essas repreensões, à vista de seus crimes, compreendendo a importância daquilo que perderam, os réprobos desfalecerão e ficarão tomados de espanto, de ansiedade, de uma tristeza mortal… Que angústias, que remorsos, que pranto amargo! … «No jardim das Oliveiras, observa aqui São Leão, Jesus diz àqueles que o procuravam para prendê-lo: Sou eu! ― Ego sum (Jo 18, 6); e, àquela voz, todo o bando caiu desmaiado por terra. Ora, que efeito produzirá sobre os acusados a majestade do supremo juiz, se tanto poder teve a sua humildade no momento em que era arrastado ao julgamento? (6)».

«À vista disso, os ímpios ficarão pálidos de espanto» (Sb 5, 2), «contorcer-se-ão e tremerão» (Sl 40, 7, 67), e gritarão: «As dores da morte nos cercaram, e a torrente das iniquidades nos sufoca» (Sl 17, 4). Ó juiz terrível, a vossa luz, que vem das montanhas eternas, perturba, fulmina e prostra todos esses homens de coração entorpecido pela corrupção (Sl 75, 4). Ah! Gritai, pois, ó pecadores; tendes toda a razão para isso, porque chegou o dia terrível do Senhor, diz Isaías (13, 6).

E como não ficarão abatidos e espavoridos, vendo acima deles um juiz irado, abaixo as chamas do inferno, atrás os prazeres que os abandonam, diante deles a eternidade infeliz, à direita os anjos que se afastam, à esquerda os demônios impacientes para agarrá-los? No fundo de sua consciência agitam-se seus crimes; de todos os lados aparecem tormentos que, como outros tantos inimigos encarniçados, estão à espera deles. Finalmente, diante de seus olhos se apresenta a tremenda e inevitável sentença que os tornará infelizes para sempre.

«Eles verão, diz São João, aquele a quem traspassaram» (Jo 19, 37); e essa visão será para eles um novo e crudelíssimo tormento… Dia de ruína, de raiva, de desespero; nele perderão para sempre a reputação, a alegria, a vida, o céu, Deus, todo bem… Os santos aplaudem e se alegram, vendo a justa vingança de Deus; zombam dos réprobos e triunfam sobre seus inimigos abatidos e aniquilados… Então se cumprem aquelas tremendas palavras de São Pedro: «O Senhor sabe reservar os ímpios para serem atormentados no dia do juízo» (2Pd 2, 9).

7. TUDO SE LEVANTA CONTRA OS RÉPROBOS E OS CONDENA

O Senhor, naquele dia, «armará todas as criaturas para que o vinguem de seus inimigos» (Sb 5,18); «aguçará como uma lança a sua ira e ordenará ao universo que combata por ele contra os insensatos; e a terra será vingadora dos justos» (Ib.21; Id.16, 17).

«Naquele dia, diz o Crisóstomo, o céu, a terra, o ar, a água, o fogo, a erva, tudo se levantará contra nós para dar testemunho dos pecados, e não teremos nada que opor» (Homil. ad pop.). «Em minha extrema pobreza espiritual, dizia Santo Agostinho, terei como juízes tantas pessoas quantos são os homens que me precederam no caminho das boas obras; tantos serão os que me repreenderão e me confundirão quantos foram os que me deram bons exemplos; terei tantas testemunhas para me convencer quantos são aqueles que me sugeriram bons conselhos e úteis advertências (7)».

Abusei de todas as criaturas, obra de Deus, para ofendê-lo: abusei da luz do sol e da lua…; abusei da terra e do ar…; abusei da água e do fogo, do céu e do vestido, etc. É justo, portanto, que, tendo maculado todas as criaturas, todas também se levantem contra mim, seja para vingar o seu Criador, seja para vingar a si mesmas… Pobre de mim! Que será de mim então, sozinho contra o levante geral do céu, da terra e do inferno?

8. JESUS CRISTO PAGARÁ A CADA UM SEGUNDO AS SUAS OBRAS

«Jesus Cristo dará a cada um segundo as suas ações», diz São Paulo aos Romanos (2, 6); e aos Coríntios anunciava que «todos nós devemos comparecer diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba segundo o que fez, seja bem, seja mal, para que cada um receba o salário na proporção do próprio trabalho» (2Cor. 5,10; 1Cor. 3,8). A mesma verdade inculca aos Gálatas, escrevendo: «Cada um levará o seu próprio fardo. Não vos iludais: de Deus não se zomba; o homem colherá aquilo que semeou» (Gl. 6, 5, 7-8). E já antes dele o Salmista cantava: «Vós pagais, ó Senhor, a cada um segundo as suas obras» (Sl 61, 11).

Temamos a triste sorte do infeliz rei Baltasar que, colocado na balança, foi achado leve demais e, por isso, rejeitado! (Dn 5, 27).

9. SEPARAÇÃO DOS BONS E DOS MAUS

Referindo-se a si mesmo, Jesus Cristo diz «que colocará à sua direita as ovelhas e à esquerda os cabritos» (Mt 25, 33). Jesus compara às ovelhas os bons, os eleitos, por sua simplicidade, modéstia, humildade, mansidão, inocência, etc. Compara os maus, os réprobos, aos cabritos, porque esse animal exala mau cheiro, é imprudente, impertinente, duro, lascivo, teimoso, colérico, como são os ímpios… A direita é sinal de felicidade, de glória, de triunfo; a esquerda é símbolo de miséria, de vergonha, de escravidão, de maldição.

«Este será tomado e aquele será deixado» (Mt 24, 40), disse o Salvador; porque o anjo irá tomar e retirar do lado de um esposo infiel a esposa fiel, colocando aquele à esquerda e esta à direita. ― Tomará aquele jovem virtuoso junto daquele jovem libertino, aquela moça modesta e reservada junto daquela atrevida e escandalosa, e colocará uns à direita, outros à esquerda. ― O pai é tomado, o filho é deixado; a mãe vai para a direita, a filha é expulsa para a esquerda. ― O anjo toma os seus, os filhos de Deus; Satanás toma os seus, os filhos do inferno. Ali toda resistência é impossível, é inútil… Ó cruel separação para os infelizes condenados.

10. SENTENÇA DE BÊNÇÃO PARA OS ELEITOS

«Então o rei dirá aos que estiverem postados à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, tomai posse do reino preparado para vós desde a origem do mundo» (Mt 25, 34). Vinde, benditos de meu Pai, vinde das trevas para a luz, da escravidão para a liberdade dos filhos de Deus, do trabalho para o repouso eterno, da guerra para a paz, da morte para a vida, da companhia dos maus para a companhia dos anjos, da luta para o triunfo, da terra, morada de tentações e de inimigos, para o céu, morada na qual o homem vive para sempre livre de tentações e de inimigos, lugar de glória imensa e infinita…

Vinde, profetas, perseguidos e banidos por meu nome. Vinde, patriarcas, que, antes da minha vinda, cheios de fé, me ouvistes; cheios de esperança, me esperastes, desejastes e invocastes. Vinde, apóstolos, vós que compartilhastes comigo as aflições quando eu vivia no meio dos homens; vós que participastes dos meus combates e vos inflamastes do meu zelo. Vinde, ó mártires, que me confessastes intrépidos diante dos tiranos e enfrentastes mil espécies de tormentos pela glória do meu nome. Vinde, pontífices, que me oferecestes, noite e dia, na pureza da consciência, um sacrifício de louvor e de amor. Vinde, ó santos, que nos cumes dos montes, no mais espesso das florestas, nas grutas e cavernas, levastes uma vida de continência, de oração, de esperança, de amor, de mortificação, de jejum e de penitência. Vinde, ó virgens prudentes e imaculadas, que me escolhestes por vosso esposo, que não quisestes, nem amastes, nem servistes a nenhum outro fora de mim. Vinde, ó pais de família virtuosos e edificantes; vinde, ó mães de família castas, vigilantes e tementes a Deus; vinde, jovens moderados e puros. Vinde, vós que amastes os pobres e conservastes a caridade, feitos imitadores de mim, que sou todo caridade e amor. Vinde, ó dignos e zelosos pastores, tomai lugar entre o vosso rebanho fiel, que formará a vossa coroa por toda a eternidade. Vem, ó dócil rebanho, segue o teu santo pastor; tu deste ouvidos à sua palavra, tu lhe obedeceste, recebe a recompensa que te é devida! … Vinde, todos vós, benditos de meu Pai, benditos por mim, benditos pelo Espírito Santo…; herdeiros de Deus, coerdeiros de Jesus Cristo, entrai na posse do reino que vos foi destinado desde os primeiros dias do mundo.

«Ó céu! exclama o Crisóstomo, de quanta glória, de quanta felicidade são fecundas estas palavras! Jesus Cristo não se limita a dizer: Recebei, mas: Entrai na posse, recebei como herança a felicidade e a glória, recebei-as como coisa que vos pertence, recebei-as como a herança de vosso pai, destinada e devida a vós desde os dias eternos» (In Catena).

Jesus Cristo julga e recompensa os eleitos antes de punir os réprobos, tanto porque é próprio dele recompensar e só a custo se resolve a punir, como porque os condenados sintam mais vivamente o pesar daquilo que perderam.

11. TRIUNFO DOS ELEITOS

O grande dia do juízo é o dia do triunfo dos eleitos: será aquele o dia de Deus e o dia dos santos… Durante os dias de sua vida, por humildade, mantinham ocultas as suas virtudes; o mundo não lhes dava sequer um olhar, ignorava-os ou desprezava-os; e ei-los agora surgindo em todo o esplendor de sua beleza, em toda a magnificência de suas riquezas. Que triunfo! Ali, diz São Gregório, Pedro resplandece à frente da Judeia por ele convertida; Paulo se eleva entre as Igrejas por ele fundadas; André é seguido pela Acaia, João pela Ásia, Tomé pelas Índias; os pontífices, por seus rebanhos; os fundadores de religiões, por suas famílias; os pais virtuosos, por seus filhos (Homil. 17, in Evang.).

Assim descreve este triunfo o Livro da Sabedoria: «Então os justos se levantarão com grande segurança contra aqueles que os atormentaram e lhes arrebataram, durante a vida mortal, os frutos de seus trabalhos» (5, 1), «Aparecerão como soldados vencedores e triunfantes diante do inimigo vencido e prisioneiro. Diante dessa visão, os ímpios tremerão de espanto e, estupefatos diante de tamanha glória dos bem-aventurados, dirão entre soluços e lágrimas: São estes, pois, aqueles de quem zombamos e que desprezamos? Ah! Nós, verdadeiramente insensatos, que considerávamos a vida deles uma loucura e a fé deles uma ignomínia. E agora ei-los contados entre os filhos de Deus, na posse da herança dos santos! Os iludidos, os insensatos, fomos nós, pois sobre nós não resplandeceu a luz da justiça, nem se levantou o sol da inteligência. Miseráveis de nós! Fatigamo-nos pelo caminho da iniquidade e da perdição, percorremos caminhos ásperos e desastrosos e ignoramos o caminho do Senhor» (Ib. 2-7).

12. SENTENÇA DE MALDIÇÃO CONTRA OS RÉPROBOS

«Então Jesus Cristo dirá igualmente aos que estiverem à sua esquerda: Afastai-vos de mim, ó malditos, e ide para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus anjos» (Mt 25, 41). Ide embora, malditos por meu Pai, que vos criou, por mim, que vos redimi ao preço do meu sangue, pelo Espírito Santo, que queria santificar-vos. Afastai-vos da minha augusta Mãe, que era também vossa, mas que vós renegastes. Afastai-vos da sociedade de todos os santos, da qual sois indignos.

Eu vos criei, e vós vos entregastes a outro; criei para vós o céu, a terra, o mar e todas as criaturas que neles se contêm, e vós abusastes delas para me ultrajar. Dei-vos os ouvidos para que ouvísseis a minha voz e obedecêsseis à minha lei, e vós os abrístes às seduções do demônio, aos discursos frívolos, indecentes e obscenos. Dei-vos os olhos para que vísseis as minhas riquezas e caminhásseis à luz dos meus preceitos, e vós os convertestes em instrumento de impureza e de cobiça. Dei-vos a boca e a língua para que as empregásseis em rezar, louvar e glorificar a Deus, e vós vos servistes delas para injuriar, blasfemar, amaldiçoar, proferir palavras infames e manter conversas escandalosas. Dei-vos as mãos para que as elevásseis ao céu e as estendêsseis para socorrer o pobre, e vós as empregastes no furto, no crime e na impudicícia. Fiz a vossa alma à imagem de Deus, e vós a desfigurastes de modo a fazer dela a efígie da besta. Fiz o vosso coração para me amar, e ele se apegou ao nada. Retirai-vos de mim, obreiros da iniquidade; eu não vos conheço. Nada fizestes por mim, mas tudo pelo demônio e pelo inferno; compartilhai, pois, com ele as trevas eternas, o fogo inextinguível e a eterna desesperação.

Ofereci e sacrifiquei a minha vida por vós, e vós desprezastes as minhas graças por coisas de nada… Tende agora aquilo que escolhestes. Fizestes-vos servos do pecado, da concupiscência e do demônio; recebei o salário. Voltastes as costas à luz da fé; sereis precipitados nas trevas do inferno. Quisestes arder no fogo das paixões; ide queimar para sempre nas chamas vingadoras. Preferistes a morte à vida; tende a morte eterna por vossa porção. Submetestes-vos ao império de Satanás; sede seus escravos para sempre. Escolhestes ser meus inimigos, meus perseguidores, inimigos e adversários da minha lei, da minha Igreja, dos meus santos e da virtude. Para longe de mim, ó malditos; ide para o fogo eterno, preparado para o demônio e seus sequazes.

«Ah! Vós sois verdadeiramente terrível, ó Senhor, diz o Salmista: quem poderá resistir à vossa ira, quando, no dia da vossa manifestação, os colocardes (os maus) como lenha sobre o fogo e os entregardes para serem devorados pelas chamas?» (Sl 75,7; 20,9). Com razão, portanto, dizia Santo Agostinho: «Os ímpios florescem neste século, mas murcharão no dia do juízo; e, quando estiverem secos, serão lançados no fogo eterno (8)».

13. DESESPERO DOS RÉPROBOS

Deus ferirá os réprobos com suas flechas no dia do juízo: sua cólera e sua tremenda vingança cairão sobre eles, os envolverão, apertarão e sufocarão, como uma furiosa e inevitável tempestade, num naufrágio espantoso e eterno. A angústia, a tribulação, as torturas, as cadeias e as maldições formarão a sua porção; serão colocados sob o aperto da cólera de Deus e pisados como uvas; a sua desolação ultrapassará os limites de toda imaginação humana. Um dilúvio de males se derramará sobre suas cabeças.

Reduzidos a este extremo, os réprobos darão em acessos de raiva e desespero; gritarão aos montes e às colinas que caiam sobre eles e os sepultem (Lc 23, 30). Tentarão, diz o Sábio, invocar a Deus, mas não serão atendidos; buscá-lo-ão ansiosamente, mas já não poderão encontrá-lo (Prov. 1, 28); e, naquele momento, reconhecendo que a sentença é irrevogável e que tudo está para eles irreparavelmente perdido, morder-se-ão e dilacerar-se-ão uns aos outros, enquanto gritarão: Agora vemos por experiência quão horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo (Hb 10,31).

«Que condição deplorável, exclama Santo Euchério, será essa de ver a Deus e perdê-lo; de perecer para sempre diante daquele que, para que não perecêssemos, deu o seu sangue (9)».

Então começarão os eternos adeuses. Adeus ao Pai… ao Filho… ao Espírito Santo… ao céu… a Maria… aos anjos… aos eleitos… aos parentes que se salvam… à felicidade eterna… O que levará ao cúmulo a desgraça e o desespero dos condenados será ver os anjos e os santos subirem triunfantes para o céu, com Jesus Cristo à frente…, e contemplar os abismos eternos abrirem-se sob seus pés para tragá-los eternamente! …

14. É PRECISO PENSAR, TEMER E PREPARAR-NOS PARA O JUÍZO

«Assim como, escreve São João Clímaco, aquele que definha de fome pensa no alimento e o deseja ardentemente, assim também aquele que deseja sua salvação eterna não deve jamais perder de vista o juízo final» (Vit. Patr.). É preciso poder dizer ao Senhor que jamais se esqueceram de seus juízos (Sl 118, 30). É preciso, à imitação de São Jerônimo, ter sempre nos ouvidos o estrondo da trombeta que despertará os mortos em seus túmulos… O pensamento do último juízo fez os santos…

«Traspassai, ó Senhor, com vosso temor, minhas carnes, suplicava Davi, porque vossos juízos me enchem a alma de terror» (Sl 120). «Não entreis, meu Deus, em juízo com vosso servo» (Ib. 142,2).

«Jamais deveríamos rir nem entregar-nos à alegria, diz São Bernardo, antes de termos escapado daquela terrível sentença: Afastai-vos de mim, ó malditos, ide para o fogo eterno!» (In Evang.).

«Antes do juízo, prepara-te para ser considerado justo», lemos no Eclesiástico (18, 19); e, para nos prepararmos para isso, devemos examinar nossos caminhos e nossas obras, a fim de que o grande inquisidor não encontre mais nada em nós para condenar… Julguemo-nos severamente de tempos em tempos, e escaparemos do severo juízo de Deus.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.