Tesouro n.º 86 · Volume II

SÃO JOSÉ S. GIUSEPPE

3 seções · 12 parágrafos · pp. 1021–1025 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. EXCELÊNCIA, DIGNIDADE, PRERROGATIVAS DE SÃO JOSÉ

Jacó gerou José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus, chamado o Cristo — lemos em São Mateus (1,16).

Por meio de José, Jesus Cristo era herdeiro do cetro e do trono de Davi… José, esposo de Maria! Eis um título único e a mais alta dignidade, depois da de Mãe de Deus… José, esposo de Maria! Isso nos leva a concluir que São José teve todos os direitos de um verdadeiro esposo sobre a Bem-aventurada Virgem, e que, com razão, é chamado pai de Jesus Cristo.

1° José, em virtude de seu matrimônio, era o senhor da bendita Maria; a ele, portanto, pertencia o fruto das entranhas desta Virgem-Mãe. Assim como Jesus Cristo é verdadeiramente filho da Bem-aventurada Virgem, embora não tenha nascido dela de maneira natural, mas por milagre, assim também, por direito matrimonial, Jesus Cristo é filho de José, embora tenha nascido de maneira sobrenatural. Além disso, ele é com tanto maior direito filho de José, se considerarmos que Deus deu a José esse fruto milagroso de um consórcio virginal, em recompensa da virgindade que ele conservou no matrimônio; como se Deus tivesse produzido uma abundante colheita no campo de José, sem que este o tivesse semeado.

2° O esposo e a esposa tornam-se, em virtude do matrimônio, uma só pessoa; portanto, possuem tudo em comum. Logo, Jesus Cristo, filho de Maria, é também filho de José, que era seu marido; por isso, José participa e goza de todos os bens da comunidade. José é pai de Jesus Cristo a título mais estrito do que o é, de um filho adotado, o pai adotivo; pois este é pai somente em virtude da adoção; José, porém, é pai de Jesus em virtude do matrimônio. Dessas sublimes prerrogativas segue-se que José teve sobre Jesus Cristo autoridade de pai e, por isso, um sumo afeto, um cuidado solícito e uma imensa solicitude a seu respeito. E, por sua vez, Jesus Cristo honra, ama e serve a José como a seu pai e lhe obedece, como resulta do Evangelho, que atesta que Jesus estava submisso e obediente a José não menos que a Maria (Lc 2,51). E esta sujeição, enquanto prova, por um lado, como observa Gerson, uma humildade incomparável em Jesus Cristo, demonstra também, por outro, uma dignidade incomparável em José e Maria (Serm. de Nativ. B. M. Virg.).

3° Jesus Cristo pertence, em toda a verdade, à descendência de José, porque pertencia, por laços de sangue, à família de sua mãe, a qual pertencia à família de José, seu esposo. Por isso, as prerrogativas, a dignidade e o ofício de José sobrepujavam em muito os de todos os outros homens; tanto mais se se acrescenta: 1) que São José, na qualidade de esposo da Bem-aventurada Virgem e de pai de Jesus Cristo, foi o chefe e o superior tanto da Virgem-Mãe quanto de Jesus Cristo como homem. Portanto, 2) a Santa Virgem e Jesus tinham por José um amor e um respeito extraordinários. «Quão admirável é a tua excelência, ó José, diz Gerson! Ó dignidade incomparável! A Mãe de Deus, a rainha do céu, a senhora do universo não desdenha chamar-te seu senhor!» (Ibid.). Mas, para exprimir em duas palavras o que foi São José, para dar uma ideia de sua elevação, de sua dignidade e de suas qualidades, basta aquela expressão do Evangelista: «José, esposo de Maria, da qual nasceu Jesus Cristo» (Mt 1,16). 3) Nobilíssimo e excelentíssimo foi o ministério de José; ele criou Jesus Cristo… aqueceu-o sobre o peito, estreitou-o entre os braços…; guardou-o…; transportou-o de um lugar para outro…; encaminhou-o em seu trabalho… 4) José, por sua convivência familiar e contínua com Jesus Cristo e a Bem-aventurada Virgem, participa dos segredos e dos mistérios divinos: é testemunha e imitador diário das virtudes divinas de Jesus Cristo e de Maria… Suárez opina que São José supera em graça e glória São João Batista e os apóstolos, pois seu ofício era muito superior ao deles, sendo mais honroso ser pai, guardião e diretor de Jesus Cristo do que precedê-lo, anunciá-lo e pregá-lo (De S. Ioseph). Finalmente, ressuscitou com Jesus Cristo e apareceu à frente daquela numerosa multidão de patriarcas e homens justos dos quais narra São Mateus (Mt 27,52-53) que saíram dos sepulcros, foram a Jerusalém e foram vistos por muitos.

2. VIRTUDE E SANTIDADE DE JOSÉ

O ofício para o qual Deus chamou São José diz-nos, por si só, de quão grande santidade e de quais dons de natureza e de graça ele devia ter sido dotado por Deus. Sua qualidade de esposo de Maria e de pai de Jesus Cristo proclama-o santo e perfeito mais que todos. Por isso, os santos Padres creem e ensinam que São José era virgem e que sua virgindade lhe mereceu ser escolhido pelo céu como esposo da Virgem imaculada; «a fim de que, escreve São Jerônimo, de um matrimônio virginal nascesse um filho virgem» (Cont. Helvid.).

É crença dos Padres que Maria, antes de dar-lhe a mão de esposa, lhe tenha manifestado o voto de virgindade que fizera e queria conservar intacto, e que José não somente consentiu de todo o coração, mas lhe declarou que também ele queria viver e morrer virgem.

Muitos dentre os Padres opinam, além disso, que São José foi santificado no seio de sua mãe. Em virtude de uma saudação, a Bem-aventurada Virgem Maria santificou o Batista no seio de Santa Isabel; ora, que grau de santificação e de santidade não se pode crer que tenha alcançado José, que recebeu tantas vezes e por tão longo tempo as saudações de Jesus e de Maria? Ele as ouvia todos os dias; de quantas virtudes, portanto, de quanta santidade não fazia ele tesouro, na presença e em seus doces colóquios com um Deus e com a mãe de um Deus? … Em todas as obras, São José tinha os olhos voltados para o Verbo encarnado; eram, portanto, todas celestes e divinas; ele foi, pois, mais que homem: anjo.

Teólogos eminentes sustentam que José, depois de desposar a Bem-aventurada Virgem, em atenção a uma esposa tão excelsa, foi isento e inteiramente libertado dos estímulos da concupiscência, a tal ponto que não sentia nenhum incentivo dela. Este é o sentimento aberto e formal de Echio, de Tiago-Cristo Palitano, de Gersão e de não poucos outros.

Pode-se crer que a Santa Virgem obteve de Deus que José participasse, como recompensa por ter sido seu fiel guardião da virgindade durante o tempo de seu matrimônio, de todo o seu bem, de toda virtude, de toda graça que nela havia. Assim como tudo o que a esposa possui é posto em comum com o esposo, por isso, diz São Bernardo (Serm. de S. Ioseph), estimo que a beatíssima Virgem concedesse liberalissimamente a José todos os tesouros de seu coração, na medida em que ele era capaz de recebê-los. Pensai quantas vezes, durante o tempo de sua união, José terá recebido de sua santíssima esposa exortações, consolações, promessas, luzes, revelações dos bens eternos! Quem poderá chegar a imaginar aquela íntima e sublime união que fazia de Maria e José um só coração, uma só alma! Maria não podia unir-se tão estreitamente a José de outro modo senão mediante o exercício recíproco de todas as virtudes, o que me leva a crer que José era puríssimo na virgindade, profundíssimo na humildade, ardentíssimo na caridade, altíssimo na contemplação.

«José, filho do patriarca Jacó, diz o mesmo doutor (Homil. 6, sup. Missus), vendido pela inveja de seus irmãos e levado ao Egito, representa José, esposo da Santa Virgem, que, fugindo da furiosa cólera de Herodes, exila-se com Jesus Cristo no Egito. Aquele, conservando-se fiel a seu senhor, não deu ouvidos à impudica senhora; este, reconhecendo que sua senhora, mãe de seu Senhor, era virgem, sendo ele mesmo virgem, foi o fiel guardião da virgindade de Maria. Àquele foi dada a inteligência dos sonhos; a este foi concedido o conhecimento e a participação dos segredos celestes. Aquele conservou os frutos da terra, não para si, mas para todo o povo; este recebeu o pão vivo do céu, para guardá-lo tanto para si como para todo o povo».

3. SÃO JOSÉ É PODEROSÍSSIMO

Tendo sido São José o homem mais elevado em dignidade, em ofício, em prerrogativas, em virtude e em santidade, e o mais sublime em glória no céu depois de Maria, segue-se que grandíssima e ilimitada é a sua potência; e, como sua bondade iguala sua glória e sua potência, temos a certeza de que jamais o invocaremos em vão, de que jamais recorreremos inutilmente ao seu patrocínio. Tudo se obtém, e tudo o que se deseja, quando se pede a ele e por meio dele. Ah! Pronunciemos muitas vezes e de coração os doces nomes de Jesus, Maria e José!

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.