Tesouro n.º 84 · Volume II

JUÍZO TEMERÁRIO GIUDIZIO TEMERARIO

10 seções · 29 parágrafos · pp. 997–1005 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. NINGUÉM TEM DIREITO DE JULGAR OS OUTROS

«Quem és tu para julgar o servo alheio?», pergunta São Paulo, e acrescenta: «Saiba que compete ao seu senhor ver se ele cai ou se permanece de pé» (Rom. 14, 4). «E quanto ao irmão, por que te arvoras em seu juiz?» (Ib. 10). Ele é teu semelhante; não te compete proferir sentença sobre ele…

Não menos claramente falou a este respeito São Tiago: «Há um só legislador e juiz, que tem poder para condenar e absolver. Ora, quem és tu para julgar o próximo?» (Tg 4, 12-13).

Proferir sentença sem conhecimento de causa e sem mandato é uma iniquidade; muitas vezes é uma injustiça e, às vezes, também irreparável…

2. JULGA-SE SEM CONHECIMENTO DE CAUSA

Vós não conheceis de modo algum aquele a quem julgais: não penetrais em seu íntimo; não sabeis que intenção o moveu, intenção que talvez o justifique. E, mesmo quando seu delito é manifesto, pode muito bem ser que dele se arrependa, ou que já se tenha arrependido; e quem sabe se ele não virá a ser um daqueles que formarão a glória do céu? «Não julgueis, portanto», diz Jesus Cristo (Mt 7, 1).

3. QUEM JULGA É JULGADO

Aquele que julga os outros será julgado; quem condena será condenado… «És inescusável, ó homem, quem quer que sejas, tu que julgas os outros, diz São Paulo; sabe que, naquilo em que julgas qualquer outro, julgas e condenas a ti mesmo» (Rom. 2, 1). Sim, vós que julgais temerariamente o próximo, proferis com a própria boca uma sentença de condenação contra vós mesmos…

E, antes do Apóstolo, o Mestre já o havia dito abertamente: «Não julgueis, e não sereis julgados. Pois com o juízo com que julgardes os outros, sereis julgados; e sereis tratados como tratardes os outros» (Mt 7, 1-2).

Vós que sois propensos a julgar, prestai atenção à sentença do Sábio: «O insensato, por ser insensato, pensa que todos os demais são insensatos e seguem o mesmo caminho que ele» (Ecl X, 3). Vós julgais e sentenciais os outros como maus e insensatos, sem perceber que o mesmo se pensa de vós. É a pena de talião. Recebe-se o castigo que se inflige aos outros… Ora, que proveito vos advém da sentença que proferis contra os outros, se, ao condená-los, condenais a vós mesmos? Não julgueis, portanto, e não sereis condenados…

4. QUEM ESTÁ SEM CULPA, ATIRE A PRIMEIRA PEDRA

Jesus fechou a boca daqueles que lhe haviam conduzido a mulher adúltera e os mandou embora envergonhados, dizendo: «Quem de vós estiver sem pecado, atire-lhe a primeira pedra» (Jo 8, 7). Assim se deveria responder àqueles que se fazem juízes do próximo. Ah! Não nos ocupemos em julgar e condenar os outros; julguemos e condenemos antes a nós mesmos.

Tenhamos presente que a caridade sincera é paciente, benigna, não é altiva, não é invejosa, não é imprudente, não é grosseira, não é impaciente; não despreza, não se ressente, não busca o próprio interesse, não interpreta nada de modo desfavorável; não se alegra com a iniquidade, mas se regozija com a verdade. Tudo suporta, tudo crê, tudo espera, tudo sofre. A caridade não se detém nem se cansa diante dos obstáculos (1Cor 13, 4-8).

Ignorais como nascem em vosso coração os pecados? Nascem nele como os vermes numa carne corrompida. São concebidos nas chagas inveteradas de nossa natureza, no fundo infelizmente demasiado lodoso e fecundo de nossa corrupção original. Portanto, ainda que jamais tenhais cometido as faltas que censurais nos outros, permanece sempre verdade que tais faltas e vícios existem, talvez imperceptíveis no presente, se quiserdes, mas em potência no íntimo foco de vossa corrupção; e quem vos assegura que um dia não os traduzireis em atos, ainda que seja apenas por um pensamento de complacência? E então, ao condenardes vosso irmão, não tereis proferido sentença contra vós mesmos? E ainda que jamais viésseis a cair no delito que julgais, não podeis, contudo, declarar-vos isentos de certas fraquezas e de certas faltas igualmente condenadas pela verdade suprema, de cujo tribunal depende a conduta do homem. Pois aquele que disse: Tu não matarás, também proibiu ser orgulhoso, vingativo, impuro e proferir juízos temerários…

«Jamais um homem cometeu pecado tão enorme que qualquer outro homem não o possa cometer, se lhe faltar o auxílio do Criador», diz Santo Agostinho (Confess.).

5. É-SE SEVERO COM OS OUTROS E INDULGENTE CONSIGO MESMO

Os dois vícios mais comuns e mais universalmente difundidos entre os homens são um excesso de severidade para com os outros e um excesso de indulgência para conosco, como já observava Santo Agostinho e vigorosamente exprimia com aquela sentença: «Os homens são uma raça curiosa dos fatos alheios e despreocupada de prover aos próprios (1)».

«Por que vês tu, diz Jesus Cristo, o cisco no olho de teu irmão e não percebes a trave no teu? E como tens a audácia de dizer a teu irmão: Deixa que eu te tire do olho este cisco, enquanto trazes no teu uma lasca? Hipócrita, tira primeiro a lasca do teu olho; depois tirarás o cisco do olho de teu irmão» (Mt 7, 3-5). Não se poderiam retratar de maneira mais viva os dois grandes defeitos de que tratamos: julgar o próximo com todo o rigor e perdoar tudo a si mesmo; perceber um mosquito no olho alheio e não ver o marimbondo no próprio; pavonear-se da própria virtude, censurando indiscretamente as ações alheias e encobrindo com indulgência os próprios vícios; consagrar todo o zelo a morder o próximo e proceder para consigo com culpável relaxamento…

Nos juízos que fazemos sobre o próximo, pecamos de dois modos: 1º, suspeitando que haja nos outros aqueles defeitos que devemos reprovar em nós mesmos; 2º, considerando os vícios alheios mais censuráveis que os nossos. De um lado, atribuímos ao próximo os nossos vícios; de outro, vemos neles maior enormidade do que em nós. Nada perdoamos aos outros; tudo desculpamos em nós mesmos.

A hipocrisia mais danosa é a de brandir o açoite contra todos. Aspira-se a conquistar fama de homem incorruptível, que não lisonjeia nem poupa pessoa alguma; e não se cuida de corrigir a si mesmo. Notam-se os mais leves defeitos dos outros e deixam-se passar, sem sequer dar por eles, os vícios mais enormes que desfiguram a nós mesmos. Não há pessoa mais terna e indulgente para com os próprios erros do que esses críticos severos, que nada perdoam aos outros.

Quão cômodo é para muitos deixar a própria consciência adormecida nos pecados e voltar-se contra as culpas dos outros! Todos olhos para aquilo que não lhes diz respeito, são depois cegos para o que há neles mesmos. Por quê? Porque é costume comum procurar as culpas reais ou imaginárias do próximo, falar mal delas e, entretanto, pôr os próprios defeitos atrás das costas, para não vê-los, nem condená-los e, portanto, não se emendarem deles.

6. QUANTO SE ENGANA QUEM JULGA TEMERARIAMENTE

Por que haveriam de dilacerar-se mutuamente com suspeitas injustas? Isso é mostrar-se escravo da mais insolente curiosidade; e prouvera a Deus que se cometessem tantos enganos e não se chocasse contra tantos escolhos quantas são as investigações que se fazem e os juízos que se proferem! Cada qual pretende ver o que está oculto e decidir sobre as intenções. Essa ânsia de meter-se nos assuntos alheios faz com que se invente acerca do que não se vê; e, como se pretende nunca errar, a suspeita logo se transforma em certeza, e chama-se convicção àquilo que, quando muito, poderia parecer uma conjectura. Assim, aplaudimos a invenção de nosso espírito e a desenvolvemos desmedidamente. Se, alimentada pelas suspeitas e pelos juízos temerários, nossa cólera se inflama, não procuramos de modo algum apagá-la, porque, como observa Santo Agostinho, «a ninguém parece injusta a sua cólera (2)». Então a inquietação nos assalta e, impelidos por ela e por nossa desconfiança, frequentemente nos apegamos a uma sombra e atacamos e combatemos a verdade por causa de uma sombra. Desferimos o golpe por temor de que outro nos fira e já vingamos uma ofensa que ainda não existe, diz o mesmo Padre (3). Vede aonde nos conduzem o erro e a injustiça…

7. É PRECISO JULGAR COM PRUDÊNCIA

Ao julgar o próximo, é preciso caminhar com pés de chumbo, não sentenciar ao acaso, mas ponderadamente. Aquele que julgais ter caído pode estar de pé, e aquele cuja queda considerais certa e iminente talvez nem sequer tropece… Esse homem de quem suspeitais toda espécie de culpas talvez se encontre colocado acima de vós no céu; pois, ainda que seja realmente culpado, conheceis vós a graça que Deus lhe reserva?

Ponderai esta palavra do Salvador: «Digo-vos em verdade que os publicanos e as meretrizes vos precederão no reino de Deus» (Mt 21, 31). É preciso ser cauteloso e lento nos juízos: 1º, porque o mundo é muito maligno…; 2º, é muito propenso à calúnia…; 3º, inventa defeitos…; 4º, aumenta-os e transforma-os…; 5º, muitas vezes é injusto…; 6º, age quase sempre por ódio, por vingança, por inveja, por capricho, por malícia… Observe-se que Deus, falando dos sodomitas, para nos advertir de não sermos demasiado apressados em acreditar em qualquer boato, disse: «Descerei e verei» (Gn 18, 21).

Não é raro que a malignidade dê origem a uma fama injusta e má; a maldade a aumenta e a apresenta como pura verdade; agir prudentemente, portanto, é não precipitar o juízo sobre os ausentes, sobre o futuro e sobre o que é incerto, mas refletir seriamente, esclarecer quanto possível o fato e julgar com grande sensatez; porque os olhos nos dão uma certeza bem diversa daquela dos ouvidos, frequentemente induzidos ao erro por rumores vãos. É preciso interrogar testemunhas justas, conscienciosas e incorruptíveis, como fazia precisamente Jó, que pôde dizer de si mesmo: «Desde criança eu buscava a verdade; e com grande atenção examinava a causa que não conhecesse bastante».

«Deus, aos olhos do qual tudo está desnudo, escreve São Gregório, pune os crimes dos sodomitas não por ter ouvido falar deles, mas depois de tê-los visto (4)». E nós sentenciaríamos sobre o próximo com base nas tagarelices de um maldoso ou de um tolo? «Não julgueis, diz o Crisóstomo, confiando numa suspeita, sem antes vos certificardes da coisa; não condeneis pessoa alguma antes de imitardes a Deus, que disse: Descerei e verei (5)».

8. É PRECISO DESCULPAR O PRÓXIMO

Jamais nos escape da mente o sensato ensinamento de São Bernardo: «Onde te for impossível desculpar a ação, desculpa ao menos a intenção: supõe que ele não tenha sabido, ou que tenha sido enganado, ou que tenha errado por acaso. Se, porém, a culpa for tão certa que exclua toda dúvida e nem mesmo então puder ser compreendida, esforça-te por desculpar o culpado, dizendo a ti mesmo: A tentação foi demasiado violenta. Quem sabe que estrago teria feito em mim, se me tivesse assaltado com a mesma violência! (6)».

Furiosos contra Atanásio, foram certo dia os arianos, guiados por Lúcio, à presença do imperador Joviano, para caluniá-lo e, se possível, fazer condenar aquele valoroso campeão da fé. «Não me faleis contra Atanásio — respondeu-lhes o imperador —; precisamente porque as acusações datam de vinte anos, já deveriam ter sido esquecidas; sei, além disso, como e por que ele foi acusado pela primeira vez». Os hereges voltaram várias vezes ao ataque e, entre outras coisas, chegaram a dizer que, se Atanásio retornasse à sua Sé, a cidade estaria perdida. «Informei-me cuidadosamente de todo o assunto — respondeu Joviano —, e consta-me que Atanásio é ortodoxo e instrui retamente o seu povo». — Isto é verdade — replicaram os acusadores —; o que ele diz é bom, mas esconde na alma sentimentos perversos. — «Se vós mesmos — acrescentou o imperador — admitis que ele não ensina nada que não seja bom, isso nos basta; cabe a Deus julgar o coração; nós, homens, devemos julgar pelas palavras». — Mas, Senhor, ele nos chama de hereges e inovadores. — «Muito bem; é seu dever, assim como é dever de todos os que velam pela conservação da sã doutrina opor-se à novidade». Lúcio quis insistir; mas o príncipe, que estava de bom humor, encerrou a audiência com uma brincadeira e disse: «Lúcio, de que modo viestes?» — Por mar, Majestade, e em meio a mil perigos. — «Pois bem, para que não tenhais de correr perigos iguais, e talvez piores, voltai para casa por terra» (Storia Eccles.).

Vedes um homem licencioso, outro injusto e violento; condenai, sem dúvida, a conduta deles, e não a condenareis temerariamente, porque também a lei divina a condena; mas, se os considerais como enfermos incuráveis — diz Santo Agostinho —, se os sentenciais e tratais como pecadores incorrigíveis, cometeis uma injúria contra Deus e agravais o rigor de seus juízos. Vistes algumas pessoas entregarem-se a atos perigosos; censurai, sem dúvida, tais fatos, pois a Escritura os censura; mas, quando julgais a vida presente pelas desordens da vida passada; quando dizeis com o fariseu: Ah! se soubésseis que espécie de mulher é esta! e, como ele, não pensais que tais pessoas podem, naquele mesmo instante, já ter sido transformadas pela penitência em homens inteiramente diferentes, então já não julgais segundo Deus. Deveis, ao contrário, como bons cristãos, crer que aquele que, por desgraça, caiu, pecou por fraqueza, por surpresa, por ignorância, e que já se arrependeu ou se arrependerá, se emendará e obterá de Deus o perdão (Cont. Secund.).

«A cada dia basta a sua própria pena» (Mt 6,34), disse Jesus Cristo. Do mesmo modo, quando algum escândalo ofende os vossos olhos, em vez de aumentá-lo e divulgá-lo com mil lamentos, ou de ultrajar os infelizes irmãos com cruéis invectivas e amargas ironias, esperai antes um tempo melhor e uma conduta mais regular.

Se devemos ser extremamente reservados em nossas sentenças contra as culpas conhecidas e manifestas, com quanta prudência não deveremos proceder quando se trata de fatos ocultos e duvidosos? Particularmente neste caso, devemos suspender todo juízo, desculpar, não aplaudir os detratores e, até que haja melhor prova, dizer que a coisa não pode ser tal como parece.

9. EM VEZ DE CONDENAR QUEM ERRA, ADVERTI-O CARIDOSAMENTE

Quando José se deu a conhecer a seus irmãos e lhes dirigiu estas palavras: ― Eu sou José, vosso irmão, que vendestes aos negociantes do Egito, ― eles foram tomados de grande espanto; reconheceram e sentiram vivamente quanto se haviam tornado culpados com aquela venda, e sentiram ainda maior pesar quando o viram abraçá-los um a um e chorar com eles (Gn 45, 3-8). As mais acerbas repreensões com que poderia tê-los curado certamente não lhes teriam inspirado tanto horror pelo crime cometido quanto lhes inspiraram as carícias e as lágrimas de um irmão ultrajado e, contudo, tão bom, tão terno e benfazejo… Observai ainda de que modo Jesus Cristo trata a mulher adúltera… Ouvi o nome que dá a Judas: chama amigo àquele que está prestes a traí-lo…

10. QUEM É INOCENTE NÃO DEVE INQUIETAR-SE COM OS JUÍZOS DOS HOMENS

Quem sabe ser inocente da culpa de que é acusado e condenado não deve de modo algum inquietar-se com os juízos e as acusações dos homens. Repita com Santo Agostinho: «Pensai e dizei de mim o que bem vos aprouver; uma só coisa me importa, e é que minha consciência não me acuse diante de Deus (7)». Que nos devem importar os juízos dos outros, quando não são fundamentados? Ainda que o mundo inteiro nos condenasse como culpados, se somos inocentes, se Deus não nos condena, por que nos afligirmos e inquietarmo-nos? Ao contrário, quando todos os homens nos julgassem santos e perfeitos, e Deus pensasse de nós de modo diferente, então devemos temer e tremer… Se todos os homens estivessem de acordo em colocar-nos no céu, e Deus nos excluísse dele, não; jamais poremos ali o pé; e, quando todos nos condenassem ao inferno, se Deus não nos condena a ele, jamais cairemos ali. Vivamos piedosa, cristã e santamente, e os juízos do mundo serão para nós menos que nada, como já dizia o grande Apóstolo: «Para mim, pouco ou nada importa ser julgado por vós ou por qualquer outro juiz humano; quem me deve julgar é o Senhor» (1Cor. 4, 3-4).

Não devemos levar em conta os juízos dos homens, a não ser quando julgam segundo a verdade e, por nossa má conduta, merecemos ser por eles julgados e condenados. Neste caso, tiremos proveito deles; a sentença deles é a voz de Deus.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.