Tesouro n.º 102 · Volume II

INVEJA E CIÚME INVIDIA E GELOSIA

4 seções · 20 parágrafos · pp. 1202–1208 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A INVEJA É UMA PAIXÃO ABOMINÁVEL

«A inveja, diz Santo Agostinho, é o ódio à felicidade alheia»; Aristóteles chama à inveja a antagonista da prosperidade (Ethic.). A inveja é o triste e secreto efeito de um orgulho pusilânime, que se sente diminuído ou eclipsado por qualquer mínimo esplendor que veja nos outros, e todo e qualquer tênue raio de glória e felicidade que resplandeça em outrem o inquieta.

«A inveja, pregava Bossuet, é a mais vil, a mais odiosa e a mais desacreditada das paixões; mas talvez a mais comum, e tal que poucas almas lhe são inteiramente imunes. Os homens pretendem ser delicados, e nosso amor-próprio nos exalta de tal modo aos nossos próprios olhos, que a menor contradição nos parece um atentado contra nossa dignidade e felicidade, e o mais leve arranhão nos faz ficar amuados. Mas o pior é que nos julgamos ofendidos, por sermos tão ternos para conosco, mesmo quando ninguém nos feriu; gritamos como feridos, quando sequer nos tocaram. Este melhora sua situação da maneira mais honesta, e eis que sua boa fortuna nos torna seus inimigos sem outro motivo; a virtude daquele outro nos entristece, a fama de um terceiro nos tira o sono. Os escribas e fariseus não podiam suportar Jesus Cristo, nem a pureza de sua doutrina, nem a inocente simplicidade de sua vida e de sua conduta, porque eram uma repreensão tácita, mas poderosa, contra sua hipócrita inveja e seu sórdido orgulho» (Sur la Passion de J. C.).

«Ó inveja, exclama o Nazianzeno, tu és, ao mesmo tempo, a mais justa e a mais injusta das paixões! Injusta, sim, porque entristeces injustamente os inocentes; mas também justa, porque castigas os culpados. Injusta, porque pões em aflição todo o gênero humano; mas sumamente justa, porque produzes, antes de tudo, teus frutos malignos no coração em que criaste raízes» (Anton. in Meliss. lib. 1, c. XXVI).

A inveja e o ciúme são um conflito com as paixões mais furiosas…

2. A INVEJA ATORMENTA QUEM A POSSUI

A inveja é a tortura do coração que a abriga. Assim como a ferrugem consome o ferro de que se originou, assim, diz Antístenes, o invejoso é consumido pelo próprio vício (1). E, explicando mais claramente, São João Crisóstomo: «A inveja sempre se faz carrasca de seu próprio autor: irrita os sentidos, atormenta o espírito, corrompe o coração. Quem tem inveja sofre sempre sua tirania e seus suplícios, porque quer acariciar no próprio seio esse incômodo perseguidor. E, na verdade, quando poderá ver o fim de seus tormentos aquele que sofre com a felicidade alheia? (2)». Com toda a razão, Santo Agostinho chama a inveja de: «Traça, consunção, víbora, carrasca da alma (3)»; Sócrates comparava a ação da inveja sobre a alma ao efeito de uma serra sobre os corpos (4).

O invejoso está sempre inquieto, melindroso, triste, descontente, como bem se reconhece pelo olhar lívido, pelos traços contraídos, pelo rosto pálido e sombrio: vai ruminando ódio, cólera e vingança; disso são exemplo os irmãos de José, que conceberam contra o irmão um ódio tal, que desejaram sua morte, quando ficaram enciumados dele, porque Jacó o amava mais do que a eles (Gn 37,4).

A inveja é um tormento perpétuo como o inferno, ardente como o fogo, devoradora como a chama (Cant. 8, 6); é um veneno lento que consome a medula dos ossos (Prov. 14,30); conduz à miséria (Prov. 28,22); é a mais cruel enfermidade, a mais terrível morte do coração. «Ó inveja, exclama o Crisóstomo, fonte da morte, enfermidade complicada, prego agudíssimo no coração! (5)».

O invejoso tem as pupilas enfermas, porque ofendidas por aquilo que é esplêndido e belo; a glória, a virtude, a fama, o bem-estar dos outros o inquietam e atormentam; sua inveja cresce à medida que crescem a glória e a virtude do próximo. Perguntado Sócrates sobre o que é nocivo aos bons e tormento para os maus, respondeu: A felicidade dos maus é nociva aos bons; a prosperidade dos bons atormenta os maus por meio da inveja (Anton. in Meliss. lib. 1, c. XXVI).

O invejoso é duplamente infeliz: por seus próprios males e pelos bens dos outros. Às vezes, com sua inveja, torna muito maiores e mais afortunados aqueles de quem tem ciúme; como se viu nos filhos de Jacó, que foram, com sua inveja e ciúme, a causa pela qual seu irmão José foi elevado a vice-rei do Egito. «O invejoso, como observa São Gregório, é de ânimo pusilânime, de coração estreito e vil, porque, invejando os outros, demonstra ser inferior a eles; mostra sua pequenez e pobreza; pois que é invejar, senão confessar que lhe falta aquilo que inveja!» (Moral. lib. V). O invejoso se entristece porque outro possui aquilo que ele tem; desgosta-se por ter menos que outro ou por outro ter mais do que ele; entristece-se porque seus bens não igualam os de seu rival. «Ó suma injustiça do ciúme, exclama Paládio (6), o invejoso persegue o afortunado!».

«A inveja, prega São Bernardo, é a traça da alma; destrói o bom senso, queima as entranhas, perturba o espírito, rói o coração como um câncer, alimenta com seu hálito pestilento toda espécie de bens. O invejoso transforma o bem alheio em seu pecado. Ó tu que te mostras ciumento do bem-estar alheio, cuida para não destruir o teu! Pois, se a morte espiritual é companheira inseparável da inveja, certamente não podes ser invejoso e viver (7)».

A inveja é um veneno mais perigoso que o amor-próprio: começa a dar a morte àquele que o vomita sobre os outros e o leva aos piores atentados. O orgulho é naturalmente audacioso e gosta de ostentar-se; mas a inveja é hipócrita, disfarça-se sob todo pretexto, trabalha em segredo e trama às ocultas.

3. FÚRIAS E CARNIFICINAS DA INVEJA

«A inveja, enfermidade pestilencial, diz o Crisóstomo, reduziu o homem à condição dos demônios e fez dele um diabo ferozíssimo. O primeiro homicídio foi cometido pela mão da inveja; foi ela que calçou aos pés o amor fraterno (8)». Em outro lugar, o mesmo santo chama a inveja de invenção de Satanás, peste horrível, o mais negro dos vícios, fera cruel que, mais que tudo, devasta e destrói a saúde (Homil. 22, in Gen.).

A inveja é: 1° o sinal ou a marca de um ânimo vil e desprezível… 2° A inveja não tolera superioridade… 3° Impede e muitas vezes faz fracassar os maiores empreendimentos… 4° É amarga e transbordante de fel… 5° Alegra-se com o mal e entristece-se com o bem dos outros… 6° Ela é a maior infelicidade do homem… Com efeito, foi ela, como diz o Sábio, a primeira a introduzir a morte no mundo (Sb 2, 24). Não é por acaso infeliz aquele que é execrado por todos, que vive sempre açoitado como um navio em mar tempestuoso, que se assemelha aos demônios? Pois bem, tal é o invejoso, diz São Basílio (9).

«A inveja, diz Santo Agostinho, expulsou o anjo do céu, exilou o homem do paraíso, matou Abel, armou contra José os seus irmãos, precipitou Daniel na cova dos leões, crucificou Jesus, nosso chefe, estrangulou Judas. Ó meus irmãos, anunciai aos quatro ventos que a inveja é aquela fera feroz que tira a fé, destrói a concórdia, dispersa a justiça e gera todos os males. Ela derrubou as muralhas de Jerusalém, despovoou Roma, abateu Cartago, arruinou Troia (10).» «A inveja, diz o Nisseno, é o maior dos males, a mãe da morte, a primeira porta do pecado, a raiz dos vícios; é o princípio das dores, a origem da miséria, a causa da desobediência, a fonte da ignomínia, doença da natureza; é uma lâmina envenenada, um punhal escondido, uma bílis raivosa, uma chaga funesta, um cálice de fel, um patíbulo no qual o homem se enforca, uma chama que devora o coração, um fogo interior. Os invejosos são aves de rapina» (Homil. in Gen.).

«Fujamos da inveja, exclama São Basílio, porque ela é um mal intolerável, preceito da serpente, invenção do demônio, alimento do nosso inimigo, penhor do castigo, obstáculo à piedade, exclusão do paraíso, caminho do inferno. Os invejosos dão aparência de vício até às virtudes mais belas, nunca deixando de caluniar tudo o que é digno de louvor.» Diz Aristonimo: «A inveja se opõe a todas as ações honestas (11)».

«Os invejosos, diz São João Crisóstomo, são piores que os leões; semelhantes e, eu quase diria, mais perversos que os demônios. Com efeito, os leões só nos atacam quando são impelidos pela fome ou se veem provocados, ao passo que os invejosos mordem justamente quando a vossa mão os acaricia com favores; perseguem-vos e dilaceram-vos quando lhes fazeis o bem. Quanto aos demônios, embora nos combatam com encarniçamento e implacavelmente, nunca brigam, contudo, entre si, segundo a observação com que Jesus Cristo fechava a boca dos fariseus invejosos, os quais, por ciúme contra ele, diziam que expulsava os demônios em nome de Beelzebu, príncipe dos demônios. Com efeito, dizia-lhes: não vedes que, se Satanás fizesse guerra a Satanás, estaria acabado para ele? Por isso, os demônios serão vossos juízes (Mt 12, 26-27). Os invejosos, ao contrário, agarram-se pelos cabelos e dilaceram-se uns aos outros… Este pecado não encontra perdão. O libidinoso pode desculpar-se com a força da concupiscência; o ladrão, com a necessidade e a fome; o assassino, com a cólera; mas que desculpa podereis encontrar para os vossos crimes, ó invejosos, senão a de uma suma maldade? Este vício é pior que a fornicação e até que o adultério, porque o furor do vício impuro se detém na própria ação, mas o furor e as devastações da inveja transtornam a Igreja e o mundo inteiro. Pela inveja, o demônio matou o gênero humano em Adão (12). Em outro lugar (Homil. 62, in Ioann.), o mesmo padre chama a inveja de flagelo espantoso que se estende por toda a terra e a põe inteiramente em desordem: dela vêm a injustiça, os ódios, a avareza, as rixas…

A inveja tem por cortejo e família a maledicência, a calúnia, as trapaças, as suspeitas, as simulações, os ódios, as seduções, as guerras, os cismas, as heresias, as rebeliões políticas e religiosas. Pereça, pois, a inveja, mãe de tantos males e de tantas desgraças! «Os invejosos, como diz São Próspero, amam o mal, choram o bem, alegram-se com a ruína alheia, entristecem-se com a felicidade alheia, consomem-se no ódio, estão cheios de hipocrisia; sempre transbordantes de amargura e de fel, sempre pérfidos, são amigos do demônio, adversários de Deus, inimigos da sociedade e de si mesmos. Aflitos e atormentados por aquilo que deveria consolá-los, alegres e sorridentes com aquilo por que deveriam chorar, tornam-se ridículos e odiosos a todo o mundo. Perversos e cruéis consigo mesmos, são também assim para dano dos outros» (De vita contempl. lb. 3, C. IX).

A inveja, a princípio, esconde-se; são palavras truncadas, frases equívocas, maledicências encobertas; depois tornam-se calúnias, fraudes, traições; são os movimentos da serpente; mas, quando, por meio dessas artes sub-reptícias, chega a obter vantagem, então irrompe e descarrega contra o inocente, cuja glória a confunde, insultos e zombarias, com toda a impetuosidade do ódio e do rancor longamente reprimidos; então abandona-se aos excessos da crueldade, tanto mais feroz quanto mais retardada.

Eis como fala dela São Cipriano: «Palpáveis e múltiplas são as devastações que a inveja provoca. Ela é a raiz de todos os males, a fonte das contendas, a causa dos processos, o arsenal dos crimes, a matéria de todas as desordens; a inveja sufoca o temor de Deus, dissipa a ciência de Jesus Cristo, expulsa da memória a morte, o juízo, a salvação, o próprio Deus. Irrita a ambição e o orgulho, conduz à cólera, às discórdias, à prevaricação, à perfídia, à crueldade, ao desprezo de Deus e do seu serviço; quando encontra em seu caminho o obstáculo da autoridade, não pode nem manter-se de pé nem moderar-se. Rompe o vínculo da paz e da caridade, corrompe a verdade, cinde a união e impele à heresia e ao cisma. Que crime é este, afinal, de olhar com maus olhos, de ter ciúme da virtude ou da felicidade dos outros, de odiar neles os seus méritos, naturais ou sobrenaturais! Que pecado transformar em mal o bem dos outros, entristecer-se com o progresso e a fortuna do próximo! Que louca mania é essa de acariciar e introduzir em nossa casa um carrasco, um algoz que nos dilacera as entranhas! … Os outros males têm ao menos um termo; a inveja não conhece nenhum; é um mal que dura sempre, é um pecado que não conhece fim (13)».

4. REMÉDIOS CONTRA A INVEJA

Remédios eficazes contra a inveja são a humildade, a modéstia, o desprezo da glória e dos bens temporais, o desejo dos bens eternos, a temperança em meio às riquezas, a doçura, a mansidão, a bondade e a caridade… É preciso evitar as ocasiões, os motivos de inveja. «Não sejais ávidos de vã glória, escrevia São Paulo aos Gálatas; não vos provoqueis, não tenhais inveja uns dos outros» (Gl 5, 26). É preciso alegrar-se com o bem dos outros. «Que nos deve importar o resto? diz São Paulo; contanto que Jesus Cristo seja anunciado, por quem quer que seja e de qualquer modo que aconteça, eu me alegro e sempre me alegrarei com isso» (Fl 1, 18). «Alegrai-vos com os que se alegram, entristecei-vos com os que choram» (Rom.12,15).

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.