Tesouro n.º 103 · Volume II

HIPOCRISIA IPOCRISIA

2 seções · 11 parágrafos · pp. 1208–1212 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A HIPOCRISIA É UM DELITO SUMAMENTE DETESTÁVEL

A hipocrisia é representada por Clemente de Alexandria na neve, e o hipócrita é comparado a um monturo coberto de neve, porque esconde sob a cândida aparência da virtude os seus vícios (1). Não há coisa tão oposta ao espírito de Jesus Cristo quanto a hipocrisia. Jesus é a verdade em pessoa, a simplicidade e a sinceridade por essência; não pode, portanto, de modo algum, associar-se à falsidade, à dissimulação, à duplicidade… Deus deu ao homem a palavra para que manifeste o seu pensamento, para que abra o interior da sua alma. Ora, o hipócrita exprime com a língua algo totalmente diferente do que tem no coração: e não é isso uma ação abominável diante de Deus, vergonhosa diante dos homens? Sêneca diz: «O mau que se finge bom demonstra ser péssimo (2)»

«Os hipócritas, escrevia São Paulo a Timóteo, mostram certa aparência de piedade, mas negam-lhe o espírito; não conhecem a sua substância» (II, 3, 5). «Em seus lábios, diz o Salmista, não ressoa a verdade; o seu coração é um abismo; a sua boca, um sepulcro aberto; a sua língua é enganadora» (Sl 5, 9-10). Com palavras protestam amar a Deus, mas a sua língua mente (Sl 77, 36).

Os hipócritas são como aqueles gafanhotos de que se fala no Apocalipse (9, 7-10), que à aparência de mulher uniam uma cauda de escorpião. Com efeito, os hipócritas vos adulam e vos acariciam com as palavras, com o olhar, com os seus modos, mas depois, em segredo, voltam-se contra vós, mordem-vos e vos rebaixam na estima dos outros. Mas, enquanto procuram ferir e ferem os outros, matam a si mesmos: perdem a fé, a caridade, o bom nome; tornam-se abomináveis a Deus e aos homens, e cada um repete com o profeta: «Livrai, Senhor, a minha alma dos lábios iníquos e da língua enganadora» (Sl 119, 2).

«Os hipócritas, escreve São Bernardo, são ovelhas no porte, raposas na astúcia, lobos nas obras e na ferocidade. Seu primeiro pensamento não é ser bons, mas parecer bons; ser maus, mas não parecê-lo (3).» O mesmo santo diz: «Desejar, da humildade, o louvor da humildade não é virtude, mas perversão. Haverá coisa mais indigna e mais perversa do que querer parecer melhor justamente naquilo em que se é pior? Estes não praticam a virtude, mas escondem o vício sob o manto da virtude (4).» Deles diz o Senhor: «Esta gente me honra com os lábios, mas, na verdade, o seu coração está longe de mim» (Is 29,13).

O impostor é como a serpente que, com astúcia, enganou os nossos primeiros pais… O hipócrita diz como Caim: Vamos passear, e entretanto trama o homicídio…; repete a cena de Herodes com os Magos: Ide e procurai diligentemente o menino e, quando o encontrardes, vinde avisar-me, para que eu também vá adorá-lo (Mt 2, 8). O pérfido balia como cordeiro e aguçava as presas, simulava piedade e afiava as espadas! … O hipócrita imita aqueles fariseus que Jesus Cristo tantas vezes fustigou com os seus anátemas. Tem a audácia de Judas que, ouvindo o Mestre dizer na última ceia: um de vós me trairá, pergunta, com a maior desfaçatez: Sou eu, por acaso? e poucas horas depois lhe dá o beijo da traição (Mt 26, 25). O impostor é como Ário, que, habilíssimo na arte de parecer aquilo que não era, ocultava sob as aparências de modéstia um coração astuto e capaz de toda perversidade… «Mas arrancai, exclama Santo Efrém, a máscara que cobre o hipócrita e nada vereis nele senão podridão» (Serm.).

Se há uma raça de gente que tenha sido tratada duramente e sem misericórdia por Jesus Cristo, são os escribas e os fariseus, precisamente porque eram hipócritas. Ora, Ele os chamava de guias de cegos, que engoliam um camelo e faziam escrúpulos por causa de um mosquito (Mt 23,24). Quão frequente é no mundo esta falsa devoção, que teme o cisco nas coisas sem importância e não dá atenção à trave nas coisas importantes; observa com a lente de aumento uma irreverência, um ato menos composto, e depois caminha de olhos fechados e derrama a mancheias maledicências, murmurações, ódios, invejas, rapinas! Outra vez, repreendia-os por se empenharem inteiramente em limpar e lustrar o exterior do prato e do copo, deixando dentro deles sujeira e imundície, e exortava-os a limpar primeiro o interior de sua alma, para que também o exterior ficasse limpo e brilhante; porque, do contrário, apesar de sua hipocrisia, a corrupção interior acabaria por transparecer por algum poro e ser conhecida pelo mundo (Ib. 25-26). Outras vezes lhes dizia: Vós pareceis aqueles sepulcros caiados que, por fora, aos olhos de quem os contempla, parecem uma coisa bela, mas dentro encerram ossos em putrefação. Assim também vós, aos olhos de quem vos contempla superficialmente, pareceis justos, mas, examinando-vos por dentro, nada se encontra senão corrupção (Ib. 27-28). Jesus chama os impostores de sepulcros caiados. «Um sepulcro, diz São Cirilo, pode muito bem ser pintado com folhas e flores, mas dentro dele nunca há outra coisa senão podridão, vermes e pó (5)». Por isso, São João dizia de alguém assim: «Tens nome de vivo, mas na realidade estás morto» (Ap 3,1). O hipócrita tem, pois, a morte no seio e dentro das veias. Ó deplorável estado! Eis por que o Salmista afirma que o impostor é objeto de abominação e repugnância para Deus (Sl 5,6).

Santo Antônio costumava dizer que as pessoas de coração duplo são monstros únicos, porque a natureza, que tolera monstruosidades nos membros, não as suporta no coração. Encontram-se homens com quatro braços, quatro pernas, duas cabeças, mas nunca se viu algum com dois corações, sendo o coração o princípio da vida; assim como o homem não pode ter duas vidas, também não pode ter dois corações. Com razão, portanto, chamamos o hipócrita de monstro extraordinário, porque tem um coração duplo: um nos lábios, outro no peito (Vit. Patr.).

Mas o que será dele, onde se esconderá quando, no dia da manifestação universal e pública das consciências, o supremo juiz, que tudo vê, tudo ouve e tudo escreve, revelar os segredos dos corações, e o universo vir todas as mais secretas vergonhas hipocritamente ocultas? … «Filho do homem, disse Deus a Ezequiel, rompe o muro, entra e vê as abomináveis imundícies que se cometem». Entrei, diz o profeta, e vi figuras de toda espécie de animais e de répteis, e todos aqueles ídolos estavam pintados ao redor de toda a parede» (Ez 8,8-10).

Além disso, a impostura não é apenas um pecado abominável, mas também uma estupidez e uma loucura. Cada homem, na realidade, não é senão aquilo que se mostra diante de Deus… Ora, quem pode enganar o Senhor? … Não há prudência, nem sabedoria, nem conselho que possa valer contra o Senhor, dizem os Provérbios (21, 30). De que adianta enganar o homem, quando é impossível enganar a Deus? …

2. O HIPÓCRITA É AMALDIÇOADO POR DEUS

«Ai daquele que tem coração duplo!», diz o Eclesiástico (Eclo 2,14); «Ai de vós que escondeis vossos desígnios astutos nas profundezas de vossos corações!», repete Isaías (Is 29,15). Por meio de Sofonias, o Senhor anuncia que visitará todos os que vestem uma roupa estrangeira (Sf 1,8). Essa roupa estrangeira é a hipocrisia; pois que coisa é mais estrangeira ao lobo do que a lã da ovelha? Que coisa é mais estrangeira ao ímpio do que a veste da piedade e da religião?

«A esperança do impostor será frustrada», lemos em Jó (Jó 8,13), que ainda diz que o hipócrita não poderá sustentar o olhar de Deus (Jó 13,16). Depois, Jesus Cristo os amaldiçoou tantas vezes que, num só capítulo de São Mateus (c. 23), encontramos repetida por nada menos que oito vezes aquela ameaça: «Ai de vós, hipócritas!». E a Sagrada Escritura está repleta de semelhantes ameaças e maldições.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.