Tesouro n.º 101 · Volume II

INOCÊNCIA INNOCENZA

2 seções · 8 parágrafos · pp. 1200–1202 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A INOCÊNCIA É RARA

Onde está aquele que jamais tenha saído da casa de seu Pai celeste? Quem não foi, mais ou menos, pródigo, esbanjador, mais ou menos culpado, de seus bens espirituais?

Quem pode afirmar que jamais tenha olhado para os porcos, isto é, que jamais tenha fomentado em seu coração alguma paixão pecaminosa, de cólera, de inveja, de orgulho e sabe Deus de que mais? Quem pode mostrar imaculada a veste nupcial do batismo? Quem é que jamais cometeu algum pecado mortal? Sim, houve e há alguns, mas como é pequeno o seu número! …

2. EXCELÊNCIA E VANTAGENS DA INOCÊNCIA

O Senhor diz à alma inocente aquilo que o pai evangélico disse a seu filho, irmão do pródigo, que sempre estivera com ele: «Meu filho, considera que estás sempre comigo e tudo o que é meu é teu» (Lc 15, 31). Meditai antes de tudo nas doçuras encerradas naquela primeira frase: Tu estás sempre comigo — Estar continuamente com Deus, vê-lo, amá-lo, servi-lo, possuí-lo, gozá-lo! Pode haver felicidade igual a esta? Este é um raio das delícias celestes, e esta é a felicidade reservada à inocência… Ponderai, em segundo lugar, aquela outra expressão: — Tudo o que é meu é teu. — A alma inocente possui todos os tesouros, todas as riquezas de Deus… O rei do céu nada lhe mantém oculto…, mas a torna participante de todos os seus dons, de todas as suas graças, de todas as suas perfeições, de todo o seu ser.

O Profeta nos assegura que o Senhor conhece os dias do homem inocente e que a sua herança será eterna (Sl 36, 18). «Não corará no dia da adversidade e, no tempo da fome, será saciado» (Ib. 19). «O Senhor jamais privará de seus favores aqueles que vivem na inocência» (Sl 83, 13). «Ah! Felizes aqueles que levam vida imaculada, que seguem a lei do Senhor» (Sl 118, 1). «Bem-aventurado o homem que jamais frequentou os ímpios, que nunca trilhou o caminho dos pecadores, mas pôs o seu coração na lei do Senhor e a conserva diante dos olhos noite e dia! Ele será viçoso como árvore plantada junto a um rio, que dá frutos a seu tempo, cujas folhas jamais murcham» (Sl 1, 1-3). Por isso, o Eclesiástico nos exorta a conservar sempre brancas e cândidas as nossas vestes (9, 8).

«Como o lírio perfuma, cândido, entre os espinhos, assim a minha amada se mostra formosa e imaculada entre as virgens», dizia o Esposo dos Cânticos (Ct. 2, 2). Este esposo é Jesus Cristo; esta virgem, semelhante ao lírio, é a alma inocente. Assim como os espinhos circundam os lírios, assim os maus cercam os justos; mas estes florescem, perfumam e resplandecem em meio aos pecadores, pela virtude, pela graça e pela glória, como o lírio em meio a um espinheiro. E a sua inocência brilha com esplendor tanto mais vivo e fulgurante quanto mais raros são no meio da multidão dos pecadores, verdadeiros espinheiros, espinhos e cardos.

«O meu amado, que se apascenta entre os lírios, é todo meu, diz a Esposa dos Cânticos, e eu sou toda dele» (Ct. 2, 16). A alma inocente, a noiva do esposo celeste, está tão unida a ele, e ele a ela, que formam uma só pessoa. União feliz, abraços divinos que inebriam de prazer e felicidade esta alma privilegiada!… Nela se verifica o dito do Sábio: «Aquele que agrada a Deus torna-se seu amado e, ainda vivendo, é retirado do meio dos pecadores» (Sb 4, 10).

«O casto e inocente José, escreve São João Crisóstomo, é lançado na prisão, mas ali está mais como superintendente do que como culpado; ali figura como administrador, não como companheiro dos réus; ocupa o lugar de médico, não de doente; de modo que ele é a providência e a consolação de todos os prisioneiros. Inocência, alegra-te e exulta! Sim, eu te digo: rejubila-te, porque passas ilesa por toda parte, estás segura em todos os sentidos. Tentada, cresces em perfeição; humilhada, elevas-te mais sublime; combatida, sais triunfante; morta, voas para a coroa. Tu, livre na escravidão, tranquila e segura nos perigos, alegre entre as cadeias; os poderosos se inclinam diante de ti, os príncipes te acolhem, os grandes te procuram. Os bons te obedecem, os maus te invejam, os rivais te imitam, os adversários sucumbem. E tu sairás sempre vitoriosa, mesmo quando os homens te tiverem condenado injustamente (1)». Este quadro da inocência, traçado pelo Crisóstomo a propósito do patriarca José, resplandece de admirável graça e verdade…

A inocência é a mãe da segurança e da paz… A inocência é o feliz estado da graça santificante, conservado pela observância constante e exata da lei divina.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.