Tesouro n.º 67 · Volume I

ÍMPIO EMPIO

4 seções · 16 parágrafos · pp. 698–703 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O ÍMPIO E A SUA VIDA

São Boaventura compara o ímpio a um caniço. O caniço cresce no lodo, cede ao vento, é improdutivo, inconstante, leviano, vil, fraco, faz barulho, quebra-se facilmente e para nada serve senão para o fogo. Tal é o ímpio (In Speculo). O ímpio, diz Salviano, jamais pensa no Salvador nem na própria salvação; põe Jesus Cristo de lado e coloca a si mesmo no lugar dele; pretende ser ele próprio o seu deus (Lib. de Iudicio).

O ímpio é orgulhoso; com a mente e o coração entrega-se aos vícios que não soube vencer, cai e apodrece na iniquidade; insurge-se contra quem o adverte e contra a advertência que lhe é feita; melindra-se, pretende justificar sua conduta e insulta aquele que o aconselha. Convencido, não sabe corar; ou desculpa impudentemente suas iniquidades e seus delitos, ou os nega; obstina-se em sua perversidade; não conhece o arrependimento; com rosto de bronze resiste àquele que, por caridade, procura torná-lo menos mau; obstina-se em viver a seu capricho; é surdo, mudo, cego, enfermo, ou melhor, morto, e quer apodrecer na horrível tumba de seus delitos.

“Por isso”, diz o Venerável Beda, “Judas, corrompido e ímpio de coração, não obstante as caritativas admoestações de Jesus Cristo, não quis renunciar ao seu mau desígnio; ao passo que Pedro, por ser de coração reto e sincero, tocado por um só olhar do divino Mestre, reparou imediatamente, com o arrependimento, a culpa da negação” (In Prov.).

A vida do ímpio é uma vida de delitos. Está afundado na cloaca do mal e não quer sair dela: ama o mal, detesta o bem; não rumina senão a iniquidade e não se compraz senão na malícia. “Estuda”, segundo a expressão do Salmista, “a iniquidade e, nesse infame trabalho, desgasta a vida” (Sl 58,6). “Alegra-se quando pratica o mal, exulta nas iniquidades” (Pr 2,14). “Está enredado em seus delitos e preso com as cordas de seus pecados; morrerá sufocado em suas muitas loucuras” (Ib. 5,22-23). “Amaldiçoado por Deus, o ímpio corre para sua perdição eterna” (Eclo 41,13). “Cultivastes a impiedade”, diz Oseias, “e colhestes a iniquidade” (Os 10,13). O ímpio, depois de arrancar do coração a raiz e a semente da piedade, vai de mal a pior: sua alma já não produz senão frutos verdes e amargos da impiedade e da desordem. Da impiedade para com Deus nascem a iniquidade e a injustiça para com os homens: o ímpio já não vive senão para o escândalo. Nele, o bem se transforma em mal ou, segundo a enérgica expressão do Salmista, “sua iniquidade escorre por todos os poros” (Sl 72,7). Não vive senão do mal; entregou-se inteiramente à dissolução.

2. O ÍMPIO É DIGNO DE DESPREZO

O homem que vive como ímpio já não é homem; com efeito, quem ainda chamará de homem, e não antes de monstro horrível, aquele que vive sem razão, sem princípio, sem norma, sem crença, sem costumes; que abusa de sua alma e de suas faculdades, de seu corpo e dos dons de Deus? Os ímpios são esterco e estrume, diz o Salmista (Sl 82, 9); por isso pede ao Senhor que os cubra de ignomínia (Ib. 15), como de fato lhes acontece; e que faça deles como uma roda (Ib. 12). E não são acaso como uma roda que gira continuamente no delito? …

“O nome daqueles que se afastam de vós, ó Senhor, diz Jeremias, será escrito na poeira, porque abandonaram a nascente de água viva” (Jr 17,13). Serão escritos na poeira ou na areia; isto é: 1° pertencem àqueles que vivem somente para a terra e não são conhecidos por ninguém senão pelo mundo; ao contrário, os justos estão escritos no céu. O ímpio está escrito na poeira, e qual é a palavra que o descreve? Ei-la: Avarento, soberbo, luxurioso, blasfemador, escandaloso… 2° Ser escrito na terra quer dizer não ter nome nem reputação; porque a escrita feita sobre a areia facilmente é apagada pelo vento ou pelos pés. Por isso Jesus escrevia na poeira as culpas da adúltera, como a indicar que as fazia desaparecer com sua clemência… 3° Serão escritos na poeira, isto é, no inferno. Justa punição! O ímpio traz suas iniquidades esculpidas no coração com cinzel de ferro; merece, portanto, ser apagado do livro da vida e ser escrito no da reprovação… Com efeito, diz o profeta: “O olhar da cólera de Deus está sobre o ímpio, para apagar do mundo até sua memória” (Sl 33, 16). “Vi o ímpio elevar-se e agigantar-se como os cedros do Líbano; mas, apenas passei, ele já não existia; procurei-o e não encontrei mais vestígio dele; porque até a descendência dos ímpios será destruída” (Sl 36, 35-36). “O ímpio foi arrancado, e vós, ó Senhor, apagastes para sempre o seu nome” (Sl 9, 5). “O nome dos ímpios, diz também o Eclesiástico, será apagado” (41, 14),

3. DESGRAÇAS DOS ÍMPIOS

1° “Não têm paz” (Is 48, 22), porque os ímpios servem às paixões, e estas são causa e origem de mil lutas interiores e exteriores.

Não há paz para o ímpio: com efeito, se, como afirma São Paulo, a tranquilidade da alma e a alegria do Espírito Santo são fruto da virtude e da boa consciência, segue-se que fruto da impiedade deve ser a agitação e a perturbação da alma, e que os prazeres culpáveis, além de serem cheios de fel, se consomem entre as imundícies, entre as dores do corpo e da alma, do tempo e da eternidade.

“Os ímpios, diz Isaías, assemelham-se ao mar tempestuoso, que não se aquieta por um instante e cujas ondas arrastam lama e produzem espuma” (Is 57, 20). Sempre vão clamando: paz, paz, diz Jeremias, mas para eles não há paz (Jr 6, 14). E Santo Agostinho atesta, por experiência, que são falsas as alegrias dos ímpios e que sua vida é uma vida de perturbação e inquietude.

Os ímpios são também agitados pelos demônios que, unidos às suas paixões desregradas, não os deixam repousar nem de dia nem de noite. Reprovados, de certo modo, já no presente, encontram-se quase desde agora na condição dos condenados no inferno, que não têm um minuto de repouso (Ap 4, 8). Lê-se também no Apocalipse que o dragão parou sobre a areia do mar (12, 18). O que aqui se diz do dragão, isto é, do demônio, pode também dizer-se dos ímpios, que são comparados à praia e à areia do mar, por causa das tempestades que os açoitam e de sua esterilidade em boas obras. Que planta cria raízes na areia? Nenhuma; assim, nenhuma boa obra lança raízes no coração do ímpio… A areia das margens é alvo do escárnio de cada rajada de vento; assim, o ímpio é joguete de toda tentação… Sobre essa areia pousa o dragão infernal.

2° “A esperança dos ímpios é vã” (Sb 3, 11). Com efeito, o ímpio não possui nem a graça santificante nem a caridade, princípio e fonte de todo mérito. Como é, pois, infeliz tal estado! E quanto mais triste é nele permanecer! … Os ímpios podem aplicar a si, com toda razão, aquelas palavras da Sabedoria: “Nós nos desviamos do caminho da verdade, e a luz da justiça não nos guiou; o sol da inteligência não nos iluminou” (5, 6).

Com isso, os ímpios acusam a si mesmos de três erros: 1) de terem se afastado da verdade; 2) de não se terem deixado guiar pela luz da justiça, isto é, da razão e da sabedoria, porque a desprezaram, preferindo o torpor nas trevas do mal e da concupiscência…; 3) de não terem visto o sol da inteligência, que é Jesus Cristo, verdadeira luz que ilumina todo homem que vem a este mundo, o qual lhes ocultou seus esplendores depois que eles lhe fecharam o coração…

“Infelizes de nós! Cansamo-nos no caminho do mal; por isso, mal nascemos, cessamos de existir e, sem termos sabido dar nenhum sinal de virtude, consumimo-nos em nossa malícia” (Sb 5, 7, 13). “A esperança dos ímpios é como a lã que o vento transporta, como a espuma leve que a tempestade dissipa, como a fumaça que o ar dispersa, como a lembrança do hóspede de um só dia” (Ib. 5, 15).

“Os ímpios, diz Santo Agostinho, florescem neste século, mas secarão no dia do juízo e, como lenha seca, serão lançados ao fogo eterno (1)”.

3° “Deus abandona o ímpio e mantém-se longe dele” (Pr 15, 29). Ele está longe deles quanto aos favores e às riquezas espirituais, porque os tem por odiáveis e abomináveis, por se terem afastado dele com sua impiedade. Deus está perto dos justos, porque estes o escutam e lhe obedecem; fazendo eles a vontade de Deus, Deus faz a vontade deles; mas, ao contrário, mantém-se muito longe dos ímpios, porque estes não querem nem escutá-lo nem obedecer-lhe e desprezam suas vontades. E, como castigo por suas impiedades, Deus desvia deles a sua face; já não os olha senão com o olhar da justiça e da cólera; tem-nos em sumo desprezo, e eles não receberão dele outra herança senão a de suas eternas vinganças. Miserável herança é a dos demônios e dos réprobos! Miserável herança, infelizes herdeiros! “Ó ímpios, diz Isaías, vossa força e as riquezas de que vos vangloriais serão como a estopa, que uma centelha basta para reduzir a cinzas; o fogo vos consumirá, e não haverá força que baste para apagá-lo” (Is 1, 31).

4. NÚMERO DOS ÍMPIOS

Não é pequeno o número dos ímpios. A pessoa que abandona a oração e os sacramentos, que não dá nenhum sinal exterior de religião, bem depressa se torna um ímpio consumado. Ímpio é o blasfemador, tanto mais se estiver habituado a isso; ímpio é o profanador do domingo. À classe dos ímpios pertencem os pais que negligenciam completamente seus sagrados deveres para com os filhos; os profanadores dos deveres do matrimônio, os adúlteros, os impudicos incorrigíveis. São ímpios aqueles que alimentam ódios mortais, aqueles que caluniam, que roubam, que adoram a prata e o ouro, aqueles que definham no pecado. Ora, quantos não se encontram, de um modo ou de outro, habitualmente no mal e afastados de Deus! … É preciso entrar em si mesmos, tremer e converter-se…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.