Tesouro n.º 68 · Volume I

HERESIAS ERESIE

12 seções · 67 parágrafos · pp. 703–720 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O QUE É A HERESIA E QUEM É O HEREGE

A palavra grega heresia significa eleição; portanto, a heresia é uma escolha falsa, no dogma ou na moral, isto é, a aceitação de um dogma falso ou a negação de um dogma católico… E herege é aquele que escolhe a seu capricho aquilo em que deve crer, aquele que forja por si mesmo a própria fé e, por isso, não crê naquilo que a Igreja e os santos padres ensinam…

A palavra seita deriva do vocábulo latino secare, isto é, cortar, dividir, separar. Uma seita é um partido, uma fração que se afasta, que se separa dos outros, segundo estas palavras do apóstolo São Judas: “Estes são os que se separam, homens animalescos, que não têm o espírito” (Jd 19). A eles alude também São Pedro: “Houve falsos profetas no povo, assim como haverá entre vós mestres mentirosos, os quais introduzirão secretamente seitas de perdição, negando o Senhor que os resgatou e atraindo sobre si uma pronta ruína. Muitos seguirão as suas depravações e, por causa deles, o caminho da verdade será difamado; e, com palavras mentirosas, por sugestão da avareza, farão comércio de vossas almas” (2Pd 2, 1-3). Ora, eles procedem sempre da mesma maneira, pois a maior parte das heresias nega ou a divindade, ou a humanidade, ou a alma, ou a vontade, ou a redenção, ou a graça de Jesus Cristo; ou então atribui ao Filho de Deus coisas indignas dele, como a ignorância, a blasfêmia, o desespero, a condenação; ou ainda, para justificar sua conduta equívoca ou má, maltratam e negam as virtudes evangélicas,

3. O QUE É O CISMA

Aquele que se entrega à vida má, mas não acusa de falsidade as virtudes que calca aos pés; aquele que se separa da Igreja sem deixar de crer que ela é a verdadeira Igreja e sem pretender que ela erre na fé, mas somente porque não quer obedecer-lhe, este se chama cismático, e não herege. Pode-se ser cismático sem ser herege, porque o cisma não se opõe diretamente à fé, mas à caridade e à união… Santo Agostinho assim define o cisma: “O cisma é uma dissensão recente, nascida no seio da congregação por alguma diversidade de opinião; a heresia, porém, é um cisma inveterado” (1). Do que se conclui que ordinariamente o cisma acaba na heresia, como, aliás, é confirmado pela experiência.

1° O orgulho. — A primeira causa da heresia está no orgulho: “Querendo parecer doutores da lei, embora não compreendam nem o que dizem, nem o que afirmam” (1Tm 1, 7). “A mãe de todos os hereges é o orgulho, escreve Santo Agostinho; embora haja diversas heresias em diversos lugares, todas, contudo, foram geradas por uma só mãe: o orgulho (8)”.

O orgulho estimula a querer descobrir alguma coisa nova, a querer compreender o que ultrapassa a razão etc. Então, cria-se por fantasia, ou melhor, destrói-se… O orgulho incita a querer aparecer no mundo, a fazer-se um nome etc…. O orgulho conduz à desobediência e à revolta contra a autoridade…

2° A audácia e a obstinação. — Causa e característica da heresia são também a audácia e a protervidade, e é precisamente de audazes que São Pedro chama os hereges (2Pd 2, 10). Todos eles dizem, interior ou exteriormente, com Lutero: “Mantenho-me firme, seguro e inabalável em minha opinião, e glorio-me disso. A majestade divina, que está comigo, incita-me a não me inquietar com coisa alguma, ainda que contra mim estivessem mil Agostinhos, mil Ciprianos da Igreja (3)”.

Os hereges são, segundo as palavras do próprio São Pedro, amantes de si mesmos (Ib.). Por isso, são necessariamente provocadores, desavergonhados, obstinados, rebeldes, intratáveis, insolentes, arrogantes, desprezadores dos outros e das autoridades. Condenados pelos bispos, riem-se disso e recorrem ao Papa. Fulminados pelo Papa, zombam disso e apelam ao concílio universal. Condenados também por este, rebelam-se e calcam aos pés, descaradamente, as suas solenes decisões…

3° O espírito de novidade e de curiosidade. — Não tem pequena parte, depois, na origem das heresias o espírito de curiosidade e de novidade: “Dizei-nos coisas que nos agradem” (Is 30, 10). O povo é ávido de ouvir novidades, coisas que não tolham a liberdade, não refreiem a carne e as suas concupiscências, não incomodem a razão: e é justamente isso que os Luteros, os Calvinos, os hereges em suma, lançam como alimento às plebes. Que admira, então, que muitos lhes deem ouvidos e os sigam? …

4° A libertinagem. — A corrupção e a libertinagem são, ao mesmo tempo, a mãe e a filha das heresias; o diabo é o pai dos heresiarcas e das heresias, e a impureza é a mãe delas… “Seus olhos exalam adultério e sua vida transcorre entre crimes”, diz São Pedro (2Pd 2, 14). Diz, com efeito, Lutero: “Assim como não está em meu poder não ser homem, também não está em meu poder viver castamente, e praticar com uma mulher me é tão necessário quanto comer e beber (4)”; e, a respeito dos hereges seus seguidores, atesta que eles “vivem segundo aquilo em que creem; são animais e animais permanecem; creem como porcos e como porcos morrem (5)”. E em outro lugar ensina que um homem casado pode seduzir a criada quando a esposa não o satisfaz segundo os seus desejos (Super Esther).

Zuínglio confessa de si mesmo que se sentia arder e ser devorado pelo fogo das paixões impuras, de tal modo que não pensava em outra coisa, não meditava sobre outra coisa, não se ocupava de nada senão da luxúria e de acariciar a carne; toda a sua vida consistia em buscar o modo de saciar os desejos desonestos (In litteris ad omnes helveticae reipub. civit.).

Que espantoso modelo de corrupção dos costumes não nos oferece Henrique VIII, rei da Inglaterra! Riquezas, fé, consciência, reputação, trono: tudo sacrifica para dar vazão aos apetites brutais.

Calvino levou tão longe a depravação dos costumes, em obras e palavras, durante todo o curso de sua vida, que o decoro não permite levantar o véu que cobre tão horrendas infâmias. Basta o retrato que dele esboça Semedelino, o qual, falando do espírito de Calvino, chama-o de “espírito mentiroso, homicida, negro, malvado, inconstante, lúbrico, diabólico, falso, furioso, tagarela, cego, nauseante” (Contra Gryn.).

O calvinista Teomato deixou escrito em um de seus livros nove vergonhosas acusações contra Calvino. A 1.ª, a sua heresia, pior que todas as outras; a 2.ª, a sua ambição desmedida e a sua espantosa tirania; a 3.ª, a sua sórdida avareza; a 4.ª, a sua desmedida usura; a 5.ª, a sua fortuna mal adquirida; a 6.ª, a sua louca paixão pelo jogo; a 7.ª, as suas públicas e infamíssimas impudicícias; a 8.ª, a sua cólera desmedida; a 9.ª, a sua cruel e raivosa sede de vingança e de sangue.

E os calvinistas, seus dignos rebentos, ensinam que ninguém deve resistir à própria concupiscência ou paixão; porque, dizem eles, esta vem de Deus, autor de todos os movimentos e de todas as ações, tanto boas quanto más; que é preciso abandonar-se e obedecer às próprias inclinações, sem escrúpulo e sem vergonha, porque o homem não deve envergonhar-se de propensões divinas. Blasfêmia haurida na cloaca da mais infame corrupção! (CALVINUS, Instruct. sup. libert.).

Aquilo que observamos nos mais recentes heresiarcas já o observava São Jerônimo nos mais antigos: todas as heresias começaram a propagar-se por meio de mulheres de má vida.

Simão Mago, por exemplo, divulgou os seus erros por meio de Helena, prostituta. Nicolau de Antioquia, inventor de todas as obscenidades, reuniu enxames de mulheres infames. Marcião teve em Roma, como distribuidora de seu veneno herético, uma mulher de má reputação; Apeles arrastava consigo, como companheira de suas dissoluções, a impudica Filomena; Montano primeiro seduziu com ouro Priscila e Maximila, depois as maculou com a sua doutrina, da qual elas se tornaram propagadoras; Ário, antes de enganar o mundo, enganou a irmã do príncipe; Donato encontrou auxílio para a difusão de seus erros na fortuna de Lucília; a cega Ágape uniu-se ao cego Elpídio; a dissoluta Gala uniu-se ao luxurioso Prisciliano, etc… (Epistola ad Ctesiphontem, t. II).

A mesma observação, de que a depravação do coração é a verdadeira e mais comum fonte das heresias, encontramos também em São João Crisóstomo: “Aqueles que vivem no vício, diz ele, para que o temor e a expectativa das penas futuras não os atormentem, procuram de todos os modos persuadir-se de que são falsas as coisas que a religião ensina a respeito dos pecados, do juízo, da ressurreição e de outras semelhantes”.

Por que os hereges se lançam furiosos contra os votos e os chamam ridículos e ímpios? Para não se verem obrigados a envergonhar-se de sua corrupção: de fato, Lutero, Calvino, Beza, Bucero etc. não são senão apóstatas, violadores dos votos religiosos, ou sacerdotes que fizeram voto de continência na Igreja Católica e, portanto, faltaram às suas promessas. Uma experiência contínua e evidente prova-nos que semelhantes reformadores caíram na heresia porque negligenciaram viver de modo moderado e casto. A todos se pode aplicar aquilo que Estanislau Rescio dizia de Beza: estas são as suas quatro virtudes cardeais: Vênus, Harpia, Belona, Quimera.

“Com a pompa de palavras vãs, diz São Pedro a respeito deles, fazem cócegas nas volúpias da carne!” (II, 2, 18), “e, mentirosos, prometem liberdade, enquanto eles mesmos gemem escravos da corrupção” (Ib. 19). Os heresiarcas atraem à heresia afagando a luxúria, por exemplo, sentenciando que a castidade é impossível; que é preciso buscar os bens presentes e certos, sem preocupar-se com os futuros e incertos. Daí resulta que eles negam, aberta ou tacitamente, a imortalidade da alma, a vida futura, a ressurreição, o inferno… O calvinismo, o luteranismo, o arianismo e todas as heresias do mundo são irmãs; a corrupção e a desregradaza dos costumes encontram-se por toda parte e por toda parte não só são desculpadas, mas tornadas lícitas…

“Conserva a fé e a consciência temente a Deus, inculcava São Paulo a Timóteo, pois alguns, tendo-a rejeitado, naufragaram na fé” (I, 1, 19). Sim, a fonte das heresias está na consciência pervertida, na vida corrompida. A heresia nunca é o primeiro pecado, mas é consequência ou da ambição, ou do orgulho, ou da obstinação e principalmente da impureza. Por isso, uma vida malvada tende à heresia e muitas vezes a ela conduz; e eis as suas causas: 1° a antipatia, a oposição que naturalmente existe entre a fé e uma vida desregrada; a fé repreende e condena, a vida desregrada resiste e pretende justificar-se do abandono da fé pela necessidade de satisfazer as próprias tendências…; 2° a inclinação natural para o mal arrasta à heresia, porque de um vício escorrega-se para outro, até que se cai no abismo do erro e da iniquidade…; 3° a heresia é um castigo divino, porque Deus castiga uma vida dissoluta privando-a da sua luz, da verdade, da fé, e abandona os homens corrompidos ao seu senso reprovado, aos desejos imundos de seu coração; aqueles que transformaram a verdade em mentira ultrajam a si mesmos em seu corpo, como precisamente, diz São Paulo, aconteceu aos primeiros apóstatas da verdade e da crença universal. “Cheios de toda iniquidade, fornicação, avareza, malícia, repletos de inveja, homicídio, discórdia, fraude, malignidade, murmuradores, detratores, inimigos de Deus, ultrajadores, soberbos, fanfarrões, inventores de coisas más, desobedientes aos pais, insensatos, desregrados, sem amor, sem lei, sem compaixão: eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e honraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Por isso, Deus os entregou ao poder de paixões vergonhosas (Rm 1, 29-31, 25-26)” … 4° Esses homens de maus costumes negam os dogmas para entregar-se mais livremente e sem remorso aos vícios, como observa o Crisóstomo (In Homil. Ad Rom.). 5° Eles querem compreender tudo e explicar tudo pela razão, isto é, querem ver a verdade em si mesma, o que muitas vezes é impossível, e não crê-la, o que é sempre possível e fácil.

3. O QUE É O CISMA

Aquele que se entrega à vida má, mas não acusa de falsidade as virtudes que calca aos pés; aquele que se separa da Igreja sem deixar de crer que ela é a verdadeira Igreja e sem pretender que ela erre na fé, mas somente porque não quer obedecer-lhe, este se chama cismático, e não herege. Pode-se ser cismático sem ser herege, porque o cisma não se opõe diretamente à fé, mas à caridade e à união… Santo Agostinho assim define o cisma: “O cisma é uma dissensão recente, nascida no seio da congregação por alguma diversidade de opinião; a heresia, porém, é um cisma inveterado” (1). Do que se conclui que ordinariamente o cisma acaba na heresia, como, aliás, é confirmado pela experiência.

1° O orgulho. — A primeira causa da heresia está no orgulho: “Querendo parecer doutores da lei, embora não compreendam nem o que dizem, nem o que afirmam” (1Tm 1, 7). “A mãe de todos os hereges é o orgulho, escreve Santo Agostinho; embora haja diversas heresias em diversos lugares, todas, contudo, foram geradas por uma só mãe: o orgulho (8)”.

O orgulho estimula a querer descobrir alguma coisa nova, a querer compreender o que ultrapassa a razão etc. Então, cria-se por fantasia, ou melhor, destrói-se… O orgulho incita a querer aparecer no mundo, a fazer-se um nome etc…. O orgulho conduz à desobediência e à revolta contra a autoridade…

2° A audácia e a obstinação. — Causa e característica da heresia são também a audácia e a protervidade, e é precisamente de audazes que São Pedro chama os hereges (2Pd 2, 10). Todos eles dizem, interior ou exteriormente, com Lutero: “Mantenho-me firme, seguro e inabalável em minha opinião, e glorio-me disso. A majestade divina, que está comigo, incita-me a não me inquietar com coisa alguma, ainda que contra mim estivessem mil Agostinhos, mil Ciprianos da Igreja (3)”.

Os hereges são, segundo as palavras do próprio São Pedro, amantes de si mesmos (Ib.). Por isso, são necessariamente provocadores, desavergonhados, obstinados, rebeldes, intratáveis, insolentes, arrogantes, desprezadores dos outros e das autoridades. Condenados pelos bispos, riem-se disso e recorrem ao Papa. Fulminados pelo Papa, zombam disso e apelam ao concílio universal. Condenados também por este, rebelam-se e calcam aos pés, descaradamente, as suas solenes decisões…

3° O espírito de novidade e de curiosidade. — Não tem pequena parte, depois, na origem das heresias o espírito de curiosidade e de novidade: “Dizei-nos coisas que nos agradem” (Is 30, 10). O povo é ávido de ouvir novidades, coisas que não tolham a liberdade, não refreiem a carne e as suas concupiscências, não incomodem a razão: e é justamente isso que os Luteros, os Calvinos, os hereges em suma, lançam como alimento às plebes. Que admira, então, que muitos lhes deem ouvidos e os sigam? …

4° A libertinagem. — A corrupção e a libertinagem são, ao mesmo tempo, a mãe e a filha das heresias; o diabo é o pai dos heresiarcas e das heresias, e a impureza é a mãe delas… “Seus olhos exalam adultério e sua vida transcorre entre crimes”, diz São Pedro (2Pd 2, 14). Diz, com efeito, Lutero: “Assim como não está em meu poder não ser homem, também não está em meu poder viver castamente, e praticar com uma mulher me é tão necessário quanto comer e beber (4)”; e, a respeito dos hereges seus seguidores, atesta que eles “vivem segundo aquilo em que creem; são animais e animais permanecem; creem como porcos e como porcos morrem (5)”. E em outro lugar ensina que um homem casado pode seduzir a criada quando a esposa não o satisfaz segundo os seus desejos (Super Esther).

Zuínglio confessa de si mesmo que se sentia arder e ser devorado pelo fogo das paixões impuras, de tal modo que não pensava em outra coisa, não meditava sobre outra coisa, não se ocupava de nada senão da luxúria e de acariciar a carne; toda a sua vida consistia em buscar o modo de saciar os desejos desonestos (In litteris ad omnes helveticae reipub. civit.).

Que espantoso modelo de corrupção dos costumes não nos oferece Henrique VIII, rei da Inglaterra! Riquezas, fé, consciência, reputação, trono: tudo sacrifica para dar vazão aos apetites brutais.

Calvino levou tão longe a depravação dos costumes, em obras e palavras, durante todo o curso de sua vida, que o decoro não permite levantar o véu que cobre tão horrendas infâmias. Basta o retrato que dele esboça Semedelino, o qual, falando do espírito de Calvino, chama-o de “espírito mentiroso, homicida, negro, malvado, inconstante, lúbrico, diabólico, falso, furioso, tagarela, cego, nauseante” (Contra Gryn.).

O calvinista Teomato deixou escrito em um de seus livros nove vergonhosas acusações contra Calvino. A 1.ª, a sua heresia, pior que todas as outras; a 2.ª, a sua ambição desmedida e a sua espantosa tirania; a 3.ª, a sua sórdida avareza; a 4.ª, a sua desmedida usura; a 5.ª, a sua fortuna mal adquirida; a 6.ª, a sua louca paixão pelo jogo; a 7.ª, as suas públicas e infamíssimas impudicícias; a 8.ª, a sua cólera desmedida; a 9.ª, a sua cruel e raivosa sede de vingança e de sangue.

E os calvinistas, seus dignos rebentos, ensinam que ninguém deve resistir à própria concupiscência ou paixão; porque, dizem eles, esta vem de Deus, autor de todos os movimentos e de todas as ações, tanto boas quanto más; que é preciso abandonar-se e obedecer às próprias inclinações, sem escrúpulo e sem vergonha, porque o homem não deve envergonhar-se de propensões divinas. Blasfêmia haurida na cloaca da mais infame corrupção! (CALVINUS, Instruct. sup. libert.).

Aquilo que observamos nos mais recentes heresiarcas já o observava São Jerônimo nos mais antigos: todas as heresias começaram a propagar-se por meio de mulheres de má vida.

Simão Mago, por exemplo, divulgou os seus erros por meio de Helena, prostituta. Nicolau de Antioquia, inventor de todas as obscenidades, reuniu enxames de mulheres infames. Marcião teve em Roma, como distribuidora de seu veneno herético, uma mulher de má reputação; Apeles arrastava consigo, como companheira de suas dissoluções, a impudica Filomena; Montano primeiro seduziu com ouro Priscila e Maximila, depois as maculou com a sua doutrina, da qual elas se tornaram propagadoras; Ário, antes de enganar o mundo, enganou a irmã do príncipe; Donato encontrou auxílio para a difusão de seus erros na fortuna de Lucília; a cega Ágape uniu-se ao cego Elpídio; a dissoluta Gala uniu-se ao luxurioso Prisciliano, etc… (Epistola ad Ctesiphontem, t. II).

A mesma observação, de que a depravação do coração é a verdadeira e mais comum fonte das heresias, encontramos também em São João Crisóstomo: “Aqueles que vivem no vício, diz ele, para que o temor e a expectativa das penas futuras não os atormentem, procuram de todos os modos persuadir-se de que são falsas as coisas que a religião ensina a respeito dos pecados, do juízo, da ressurreição e de outras semelhantes”.

Por que os hereges se lançam furiosos contra os votos e os chamam ridículos e ímpios? Para não se verem obrigados a envergonhar-se de sua corrupção: de fato, Lutero, Calvino, Beza, Bucero etc. não são senão apóstatas, violadores dos votos religiosos, ou sacerdotes que fizeram voto de continência na Igreja Católica e, portanto, faltaram às suas promessas. Uma experiência contínua e evidente prova-nos que semelhantes reformadores caíram na heresia porque negligenciaram viver de modo moderado e casto. A todos se pode aplicar aquilo que Estanislau Rescio dizia de Beza: estas são as suas quatro virtudes cardeais: Vênus, Harpia, Belona, Quimera.

“Com a pompa de palavras vãs, diz São Pedro a respeito deles, fazem cócegas nas volúpias da carne!” (II, 2, 18), “e, mentirosos, prometem liberdade, enquanto eles mesmos gemem escravos da corrupção” (Ib. 19). Os heresiarcas atraem à heresia afagando a luxúria, por exemplo, sentenciando que a castidade é impossível; que é preciso buscar os bens presentes e certos, sem preocupar-se com os futuros e incertos. Daí resulta que eles negam, aberta ou tacitamente, a imortalidade da alma, a vida futura, a ressurreição, o inferno… O calvinismo, o luteranismo, o arianismo e todas as heresias do mundo são irmãs; a corrupção e a desregradaza dos costumes encontram-se por toda parte e por toda parte não só são desculpadas, mas tornadas lícitas…

“Conserva a fé e a consciência temente a Deus, inculcava São Paulo a Timóteo, pois alguns, tendo-a rejeitado, naufragaram na fé” (I, 1, 19). Sim, a fonte das heresias está na consciência pervertida, na vida corrompida. A heresia nunca é o primeiro pecado, mas é consequência ou da ambição, ou do orgulho, ou da obstinação e principalmente da impureza. Por isso, uma vida malvada tende à heresia e muitas vezes a ela conduz; e eis as suas causas: 1° a antipatia, a oposição que naturalmente existe entre a fé e uma vida desregrada; a fé repreende e condena, a vida desregrada resiste e pretende justificar-se do abandono da fé pela necessidade de satisfazer as próprias tendências…; 2° a inclinação natural para o mal arrasta à heresia, porque de um vício escorrega-se para outro, até que se cai no abismo do erro e da iniquidade…; 3° a heresia é um castigo divino, porque Deus castiga uma vida dissoluta privando-a da sua luz, da verdade, da fé, e abandona os homens corrompidos ao seu senso reprovado, aos desejos imundos de seu coração; aqueles que transformaram a verdade em mentira ultrajam a si mesmos em seu corpo, como precisamente, diz São Paulo, aconteceu aos primeiros apóstatas da verdade e da crença universal. “Cheios de toda iniquidade, fornicação, avareza, malícia, repletos de inveja, homicídio, discórdia, fraude, malignidade, murmuradores, detratores, inimigos de Deus, ultrajadores, soberbos, fanfarrões, inventores de coisas más, desobedientes aos pais, insensatos, desregrados, sem amor, sem lei, sem compaixão: eles trocaram a verdade de Deus pela mentira e honraram e serviram à criatura em vez do Criador, que é bendito pelos séculos. Por isso, Deus os entregou ao poder de paixões vergonhosas (Rm 1, 29-31, 25-26)” … 4° Esses homens de maus costumes negam os dogmas para entregar-se mais livremente e sem remorso aos vícios, como observa o Crisóstomo (In Homil. Ad Rom.). 5° Eles querem compreender tudo e explicar tudo pela razão, isto é, querem ver a verdade em si mesma, o que muitas vezes é impossível, e não crê-la, o que é sempre possível e fácil.

4. INCOERÊNCIAS, ERROS E BLASFÊMIAS DOS HEREGES

Castaglione observa que Calvino transforma Deus em demônio, pois o faz autor de todo o mal. Calvino, diz ele, pretende que Deus criou a maior parte dos homens para a sua perdição, que os predestinou não somente à condenação, mas ao mal que é causa da condenação; que desde toda a eternidade decretou, quer e faz com que pequem necessariamente; de modo que os furtos, os homicídios e os adultérios só são cometidos por sua vontade e sob o seu impulso: porque ele insinua as propensões más e corrompidas; não somente as permite, mas submete eficazmente os homens a elas e os lança em tal endurecimento que, quando assim agem, realizam antes a obra de Deus que a sua própria (Lib. I de novo Deo Calvini). Que século jamais ouvira semelhantes blasfêmias? …

E para que não se pense que sejam calúnias semelhantes acusações tão enormes, ouçamo-lo a ele mesmo. Visto que, escreve ele (Instruc. cont. Libertinos, cap. XIII), todas as coisas são obra de Deus, é permitido aos homens afrouxar as rédeas e fazer tudo o que lhes agrada, e isso não somente porque estamos fora do perigo de pecar, mas muito mais porque, ao impedir e sufocar qualquer desejo, colocamos obstáculo aos desígnios de Deus. Portanto, Deus aprova as dissoluções, os roubos são obra sua; portanto, não se deve pensar em restituir o que foi tomado, porque não convém corrigir Deus. Nada jamais perturbe a consciência… Eis o Deus de Calvino, que faz remontar a Deus a causa da existência dos malfeitores; diz que Jesus Cristo caiu em desespero na cruz; que experimentou as penas do inferno e semelhantes outras infames blasfêmias. Ele e Lutero têm horror à palavra Trindade de Deus (MANLIUS, in Locis commun., tit. de Deo); brincam com a essência de Deus, com as pessoas divinas, com as relações e os atributos divinos (Lib. II Disp. Alban, c. IV).

Lutero ensina que os votos não obrigam um religioso; que o homem não tem livre-arbítrio e age ao acaso; que peca por necessidade; que somente a fé justifica; que as boas obras de nada valem diante de Deus…

“Nós adulteramos a palavra de Deus”, escrevia São Paulo (2Cor. 4, 2). Ora, enquanto Lutero ainda vivia, já trinta e seis sentenças diferentes e contraditórias entre si dividiam a sua seita a respeito do único ponto da presença real de Jesus Cristo na Eucaristia: “Nós não somos crianças vacilantes, dizia o mesmo Apóstolo, que se deixam levar de um lado para outro por todo novo sopro de doutrina, joguetes da maldade dos homens que, com astúcia, as arrastam ao erro” (Ef. 4, 14). Pois bem, perguntado pelos católicos Jorge, duque da Saxônia, sobre o que criam os luteranos, respondeu: “Sei o que creem hoje, mas não posso saber o que crerão amanhã”.

A mesma observação fazia Santo Hilário a propósito dos arianos: “Coisa surpreendente e perigosa! Hoje há tantas sentenças quantas são as vontades, tantas doutrinas diferentes quantos são os costumes; tantas blasfêmias quantos são os vícios. Enquanto a fé é exposta da maneira que queremos, não é entendida no sentido que lhe damos (6)”. “Professam-se cristãos, diz Santo Ambrósio, ao passo que se mostram maligníssimos em suas ações e pervertidos de inteligência (7)”.

“Quando o espírito é atormentado pela febre dos pensamentos vãos, quando se sente abalado pelas ondas da dúvida, então, diz o Crisóstomo, entrega-se à investigação; mas, quando está são e segue reto, não busca, mas crê fielmente; porque nada jamais chegará a descobrir por meio de disputas e sofismas (8)”. Isso quer dizer que somente a fé apoiada na autoridade da Igreja ilumina e fortalece o espírito na verdade…

“Os hereges, já observava São Cipriano, imitam os católicos do mesmo modo que os macacos imitam os homens, e os lobos, os cães, com os quais têm certa semelhança (9)”.

Entre os hereges, cada um crê naquilo que quer e rejeita o que não lhe agrada, o que significa que já não há fé. A cada ano, a cada mês, muda-se o credo; demolem-se os antigos dogmas e fabricam-se novos… “Cuidai, dizia São Paulo aos Colossenses, para que ninguém vos engane com sofismas, com frases vazias, fundadas nas tagarelices dos homens, na ciência das coisas físicas, e não na palavra de Cristo” (Cl 2,8). Falando desses homens, o mesmo Apóstolo diz que estão sempre estudando, sem jamais chegar ao conhecimento da verdade (2Tm 3,7). Chama-os homens de mente corrompida, que resistem à verdade e se tornam estranhos à fé; mas o seu progresso terá um fim, e a sua demência se tornará manifesta a todos (2Tm 3,8-9). Depois prediz que virá tempo em que não suportarão mais a sã doutrina, mas, para satisfazer os próprios gostos, procurarão mestres que lhes façam cócegas aos ouvidos e, fechando o ouvido à verdade, o abrirão às fábulas e às mentiras (2Tm 4,3-4).

Em seguida, dirigindo-se aos hebreus, adverte-os para que não se deixem enganar por doutrinas diversas e estranhas (Hb 13,9). E recomenda a Tito que evite as contendas, as genealogias, as discussões e as disputas sobre a lei, por serem coisas inúteis e vãs; que evite o herege, depois de tê-lo admoestado duas ou três vezes, sabendo que tal homem é pervertido e peca, condenando-se a si mesmo pelo próprio julgamento; e que pregue sempre de modo sadio e irrepreensível, para que aquele que se tornou nosso adversário se envergonhe de si mesmo, não podendo dizer mal algum de nós (Tt 2,8; 3,10-11).

A heresia é: 1° variável…; 2° é estrangeira e odiosa à escola da verdade e da doutrina da Igreja, porque nasceu do pai da mentira e foi criada por homens cheios de orgulho…; 3° deixa o espírito à mercê de todo vento de doutrina… Os hereges vagueiam sem cessar no círculo dos erros; caem de heresia em heresia.

“A fé mostra-se consumada por meio das obras, escreve São Tiago, porque, assim como está morto o corpo do qual o espírito se separou, assim também está morta a fé que não produz obras” — (Tg 2,22.26). Ora, os hereges sustentam que somente a fé basta para salvar; que as obras são inúteis; portanto, luxuriam em folhas, mas não produzem frutos; dão palavras, não a ciência sincera nem a verdade; engendram sofismas, não apresentam razões sólidas. Servem-se da Escritura, mas não a compreendem; antes, forçam-na a um sentido mau e a corrompem. Onde se encontra uma fonte sem água, há lodo, isto é, erro e pecado: quem vai ali para lavar-se acaba por sujar-se.

Falando das epístolas de São Paulo, o apóstolo São Pedro advertia que nelas há passagens difíceis de entender, que os ignorantes e inconstantes interpretam mal, como também fazem com as demais Escrituras, para sua própria perdição (2Pd 3,16). O sentido particular ou privado não é, portanto, suficiente para explicar a Escritura; é necessária a autoridade infalível da Igreja. Isso é inteiramente contrário à opinião dos hereges, que sustentam que cada um pode explicá-la…

Santo Agostinho assegura que todas as heresias se recusam a crer em Jesus Cristo encarnado, porque se opõem à doutrina de Jesus Cristo, à sua Igreja, aos sacramentos, ao Sumo Pontífice e à ordem hierárquica instituída por Jesus Cristo (Lib. de Haeres.).

Os hereges são todos, segundo a expressão de São Judas, blasfemadores daquilo que não conhecem. Nuvens sem água, agitadas de um lado para outro pelos ventos; árvores de outono, estéreis, já mortas, arrancadas pela raiz; ondas de um mar furioso, que espumam as próprias torpezas; astros errantes, aos quais está reservada uma tempestade tenebrosa na eternidade. Ai deles, porque seguem o caminho de Caim e, transviando-se como Balaão, rompem todos os diques e se perdem nas contradições (Jd, cap. único).

“A heresia é escuridão, escreve São Bernardo, e tantas são as noites quantas são as seitas. Em vão procurais o sol da justiça e a luz da verdade em meio às trevas dessas noites, porque a luz e as trevas não podem estar juntas (10)”.

A heresia é orgulhosa, inconstante, amiga do tumulto e do alarido; nega amanhã aquilo que hoje afirma; faz e desfaz diariamente os dogmas. Entre os hereges há tantos dissensos, contradições e disputas quantos são os indivíduos. Não há unidade, porque eles abandonam a unidade da verdadeira Igreja e sua autoridade infalível, que somente estabelece e conserva a verdade e a unidade. Uma seita está na África, diz Santo Agostinho, outra no Oriente; esta se enraíza no Egito, aquela outra na Mesopotâmia; todas mudam conforme os lugares, as pessoas e os tempos; mas todas procedem de um só tronco, que é a rebelião do espírito e dos sentidos. Que admira que não se ponham de acordo entre si? A discórdia é filha de tal mãe.

“Uma heresia, escreve São Gregório, é o exército da mentira, que combate pela fraude e pela má-fé; é uma expedição de demônios ladeada por legiões de espíritos imundos (11).

Dos hereges se pode dizer: “Este povo trocou sua glória por um ídolo. Assombrai-vos, ó céus, e estremeçam as portas do céu. Dois males fez este povo: abandonou uma fonte de água viva e foi cavar para si cisternas que gemem e que não servem para conservar a água (Jr 2, 11-13)”. “Seus profetas pregavam a mentira, e seus sacerdotes aplaudiam; e o povo correu alegremente atrás de tais fábulas! (Ibid. 5, 31)”. A quem convêm melhor essas repreensões, senão aos hereges, que abandonam a pura fonte da doutrina da fé, que está na Igreja, e cavam para si cisternas rachadas, as quais nada contêm além da lama do erro? Assim dizem os Santos Ireneu, Cipriano, Atanásio…

5. DANOS CAUSADOS PELAS HERESIAS

São Paulo dava aos hereges o nome de lobos vorazes, que não poupam o rebanho; e acrescentava: “Surgirão do meio de vós homens que ensinarão doutrinas perversas para arrastar atrás de si multidões de seguidores” (At 20, 39-30). Se considerarmos os ensinamentos ou as ações de qualquer seita herética, sempre encontraremos realizadas as palavras do Apóstolo. Os hereges, em todos os tempos, pretenderam que é lícito matar os legítimos príncipes, os bispos, os sacerdotes e os católicos que lhes ofereçam resistência. Por isso, viram-se na França, na Alemanha, na Inglaterra e em todos os países onde se propagou a heresia horrendas carnificinas de ministros e fiéis da religião romana. Procedia-se por meio de exílios, de roubos, de massacres; um espantoso dilúvio de crimes inundava aquelas infelizes terras; violação de juramentos, abolição da missa, desprezo dos santos, profanação das igrejas e das relíquias; ultrajes sanguinários ao pudor das virgens e à fidelidade das esposas, votos renegados, templos derrubados, altares revirados, paramentos sagrados queimados; expulsão dos honestos, exaltação dos maus, etc.: eis as obras da reforma…

Lutero rompe a paz… sopra no fogo das guerras civis… leva por toda parte a carnificina e o extermínio… Igrejas, mosteiros, instituições, usos, costumes, tudo é saqueado, roubado, posto em desordem, lançado por terra… De modo que Jorge, duque da Saxônia, convidado por Lutero a abraçar sua heresia, respondeu: “As obras de Lutero e dos luteranos provam que sua fé não vem de Deus, mas do demônio; porque as ações que a fé de Lutero ensina consistem em violar os votos, despedaçar as imagens dos santos; negar e desprezar os sacramentos, blasfemar contra a Bem-aventurada Virgem e os santos, e até contra o próprio Deus, fazendo-o autor do pecado”.

A doutrina da verdade é objeto de blasfêmia para os hereges, diz São Pedro (2Pd 2, 2). Em outras palavras, a verdadeira religião, que é a doutrina ou o caminho da verdade, é ultrajada e vilipendiada por esses homens, tanto pela sua conduta abominável quanto pelos escritos ímpios, nefandos e transbordantes de erros que põem à luz.

Edero, em suas Pesquisas sobre os Evangelhos, cita, entre os dogmas dos Flacianos, o seguinte trecho: “O papa é o verdadeiro Anticristo, o dragão venenoso, o ministro de Satanás, o homem do pecado, o filho da perdição; todos os que estão com o papa formam verdadeiramente o reino do demônio, o povo de Satanás, um cercado de feras”.

Ourives, discípulo de Lutero, afirma que o próprio Lutero sentia as chamas no rosto ao ver os inumeráveis delitos de que se maculavam os luteranos e muitas vezes dizia, suspirando: “O Evangelho por mim pregado e explicado matou a virtude, sufocou a justiça, acorrentou a temperança, dilacerou a verdade, mutilou a fé, estrangulou a piedade; numa palavra, escancarou a porta a toda espécie de males (12)”.

Strum dá a Calvino o nome de Calígula (Ad Lucam Osiandrum). Postella escreve que os calvinistas não tinham de homem senão a forma, mas viviam à maneira de animais selvagens e ferozes.

O apóstolo São João chama os hereges de anticristos (1Jo 2, 18), e, em seu Apocalipse, os representa naquele cavaleiro cujo nome era Morte, que montava um cavalo pálido e tinha o inferno a seu seguimento, ao qual foi dado o poder de matar por meio da espada, da fome, da mortandade e das feras (Ap 6, 7-8). “De sua boca, diz ainda o mesmo apóstolo, saem fogo, fumaça e enxofre” (Ibid. 9, 17). A eles alude também a Sabedoria, quando fala de feras jamais vistas e desconhecidas, cheias de furor, ou soprando hálito de fogo, ou espalhando odor de fumaça, ou lançando dos olhos horrendas centelhas, cujas mordidas podem não somente exterminar, mas cuja simples visão pode fazer morrer de pavor… (Sb 11, 19-20). Quem não reconhece aí os hereges? …

“Quem dá falso testemunho contra o seu próximo é para ele uma espada, um dardo, uma flecha”, lemos nos Provérbios (Pr 25, 18). Ora, os hereges deturpam os testemunhos da Escritura, falsificam deliberada e sacrilegamente a palavra de Deus, para corromper as almas e arrastá-las à heresia; daí resulta que ferem, perdem e exterminam não somente uma alma, mas milhares de pessoas, cidades, províncias e nações inteiras… Os hereges e as heresias são como as raposas de Sansão… desunidos em tudo, exceto em estragar, arruinar, incendiar e derrubar.

Uma raça de homens, diz o Senhor pela boca do profeta Joel, veio lançar-se sobre a minha terra; raça forte e numerosíssima; seus dentes são dentes de leão; ela devastou a minha vinha, descascou as minhas figueiras, e elas caíram ressecadas (Jl 1, 6-7). Assim fazem os demônios com as almas, e assim também fazem Lutero, Calvino e todos quantos foram e serão inventores de falsas doutrinas: roem a casca, despojam as plantas espirituais, fazem cair por terra, como folhas murchas, os frutos da piedade, as sagradas cerimônias, a eficácia dos sacramentos, o ornamento da Igreja e da alma; destroem e roubam toda riqueza moral, a felicidade e a glória da virtude e da eternidade; tornam a alma pobre, feia, desolada e morta como uma figueira ou uma videira roída pelos gafanhotos.

A pedra clamará contra ti do meio da muralha, e as madeiras da casa falarão, diz o profeta Habacuc (Hab 2, 11). Os muros e os tetos das igrejas e dos mosteiros arruinados, manchados, queimados, erguem-se e se erguerão principalmente no dia do juízo contra os hereges que os profanaram, demoliram e aniquilaram. Eles clamam e clamarão contra o sacrilégio, e pedirão vingança a Deus contra seus bárbaros e sacrílegos destruidores, porque violaram o solo de Deus, despojaram e expulsaram de seu abrigo os sacerdotes, os religiosos e os servos de Deus, e impediram o culto, sufocaram os louvores…

Vede os templos dos hereges: como são nus, desolados, mortos! Não há altares, nem cruzes, nem imagens, nem tribunais sagrados, nem santa mesa, nem missa… Se, todavia, algum ornamento ainda permanece neles, provém dos católicos e pertence aos católicos, como todas as magníficas catedrais das quais os hereges se apoderaram por injustiça e mediante violenta usurpação.

“As sentinelas que percorrem a cidade, diz a Esposa dos Cânticos, encontrando-me, espancaram-me e feriram-me; as guardas dos muros tiraram-me o véu” (Ct 5, 7). Assim fazem à Igreja os pastores que caem na heresia.

6. OS HEREGES SÃO SEMELHANTES AO DEMÔNIO

Os heresiarcas podem ser comparados a Lúcifer, e os hereges, aos demônios, porque: 1° Lúcifer pecou por orgulho, exatamente como sucede aos heresiarcas… 2° Lúcifer e seus demônios rebelaram-se contra Deus e contra a Igreja do céu; os hereges revoltam-se contra Deus e contra a Igreja da terra, sua esposa… 3° Lúcifer e seus seguidores cometeram um crime de lesa-majestade divina, porque Lúcifer aspirou a usurpar o trono de Deus, quando disse: “Subirei ao céu, colocarei o meu trono acima dos astros e serei semelhante ao Altíssimo” (Is 14, 13-14). Também os hereges cometem um crime de lesa-majestade divina, pois atacam a verdade de Deus, a fé, a religião, o culto, a Igreja e os sacramentos e, colocando-se no lugar de Deus, procuram estabelecer uma nova fé, uma religião, uma Igreja na qual o heresiarca impera como um Lúcifer terrestre, os hereges o cortejam como anjos decaídos e nele creem… 4° Lúcifer esforça-se por arrastar consigo, na revolta e na ruína, os anjos e os homens; do mesmo modo, o heresiarca seduz quantos pode, doutos e ignorantes, e os arrasta consigo para a rebelião, a ruína e o inferno… 5° Lúcifer é o autor de toda heresia, e vários heresiarcas tiveram os demônios por familiares… Daí aquele dito do Crisóstomo: “Este é um ariano; logo, é um demônio (13)”.

7. POR QUE OS HEREGES SÃO COMPARADOS ÀS RAPOSAS

1° A raposa é mestra de destreza e astúcia na arte de enganar; os hereges não poupam estudos, artifícios e ficções para seduzir com sofismas, promessas e artimanhas… 2° As raposas de Sansão, por ele unidas não pela cabeça, mas pela cauda, são um belo símbolo dos hereges que, embora muito separados nas crenças e nos sentimentos, estão, contudo, estreitamente ligados para conspirar contra e combater a fé ortodoxa; desunidos em todos os outros pontos, formam um só homem quando se trata de atacar a verdadeira religião… 3° Os hereges, como outrora as raposas de Sansão, arruínam tudo com discórdias, guerras, incêndios e massacres… 4° Assim como não há modo de domesticar a raposa ou de mudar-lhe as tendências, assim também é quase impossível converter os hereges; quase todos morrem na obstinação… 5° A raposa imita, à sua vontade, o latido do cão e o uivo do lobo; assim, os hereges simulam tudo o que os outros fazem e vangloriam-se de imitar, de manter a vida e a fé ortodoxa… 6° A raposa nunca corre em linha reta, mas de través; assim, entre os hereges, tudo é tortuoso e oblíquo; não tramam outra coisa senão enganos, astúcias e traições contra os católicos… 7° A raposa entra em sua toca por uma abertura e sai por outra; assim, diz Santo Agostinho, acontece com os hereges: quando se veem fechados, seja pela razão, seja pela autoridade, e sem saída por um caminho, procuram escapar sorrateiramente por outro (14). 8° A raposa sai em busca da presa para devorá-la; os hereges não procuram outra coisa senão fazer vítimas e ardem continuamente de inveja, cólera e ciúme.

8. OS HEREGES DILACERAM-SE ENTRE SI

Todos os heresiarcas condenam-se, insultam-se e mordem-se mutuamente. Erasmo, a quem Lutero chama de demônio encarnado, por sua vez compara Lutero ao furibundo Orestes (In Apolog. Contra eum). Os zwinglianos publicaram um escrito no qual chamam Lutero de papa visionário, lunático, sobrinho do anticristo, sofista, avarento, sedutor, falso profeta, o parente mais próximo do anticristo, carrasco de Cristo e profanador das Sagradas Escrituras. O próprio Zuínglio chama Lutero de profeta da mentira, que dá impudentemente por ouro toda loucura que lhe passa pela cabeça; de louco incurável, impostor, herege que nega Cristo, opressor da verdade e anticristo (Ano do Senhor de 1527).

Os luteranos, segundo dizem Estanislau e Rescio, sustentam que os calvinistas são blasfemadores, inimigos mortais do Filho de Deus, homens sem experiência, sem bom senso, doutores enviados por Satanás, cães, porcos, lixo de Lúcifer, sedutores, mentecaptos, raça de víboras, piores que os turcos, ladrões da alma e do corpo, fanáticos, assassinos das almas, cabeças de demônios, caluniadores, lobos infernais, excrementos do demônio, professores de uma doutrina haurida do fundo do inferno etc…. E Lutero, por sua vez, assegura que os calvinistas são fanáticos, envenenadores, ímpios, blasfemadores, raça maldita, bandidos fichados, monstros infernais, turcos enviados e possuídos pelo demônio, maometanos batizados, seres semelhantes ao demônio, porém piores e mais perversos que os próprios demônios (Lib. contra Calvin.).

Que caridade fraterna! E tais desvairados serão os enviados de Deus para reformar a sua Igreja, sua esposa! Serão novos apóstolos, inspirados pelo Espírito Santo para iluminar os povos, destruir os abusos e desmascarar os erros! …

9. OS HEREGES ESTÃO FORA DA VERDADEIRA IGREJA

“Nós vos anunciamos aquilo que ouvimos e vimos, escrevia São João, para que estejais em comunhão conosco, e a nossa comunhão seja com o Pai e com seu Filho Jesus Cristo” (I, 1, 3).

“Ninguém, observa o Venerável Beda, pode estar unido em sociedade com Deus, se antes não estiver unido em sociedade com a Igreja (15).” “Pois, como diz São Cipriano, quem, separando-se da Igreja, se une a uma Igreja adúltera, já não participa das promessas da Igreja; e quem abandona a Igreja não chegará às recompensas de Jesus Cristo: é um estrangeiro, um profano, um inimigo; não pode ter Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe. Se nenhum daqueles que estavam fora da arca de Noé encontrou salvação do dilúvio, então quem está fora da Igreja não poderá ter esperança de salvação. Clara é a palavra do Senhor: Quem não está comigo está contra mim; e quem não recolhe comigo, dispersa. Quem rompe a paz e a concórdia de Jesus Cristo age contra Jesus Cristo; quem pretende formar um povo fora da Igreja de Jesus Cristo destrói a Igreja de Cristo. Não podem permanecer com Deus, porque não querem ser um só corpo na Igreja de Deus. E, ainda que se deixassem queimar vivos, se lançassem às chamas, se entregassem como presa às feras e sacrificassem a própria vida, não cingiriam, contudo, a coroa da fé, mas estariam sujeitos à pena da perfídia; não encontrariam a morte gloriosa dos mártires, mas morreriam da morte dos desesperados. Tais homens podem muito bem deixar-se despedaçar, mas não alcançar o triunfo” (De unitate Ecclesiae).

“Ouvistes, escrevia o apóstolo João, que o anticristo virá; mas já agora muitos se tornaram anticristos. Eles saíram do nosso meio, mas não eram dos nossos, porque, se fossem dos nossos, teriam permanecido conosco” (I, 2, 18-19).

“O amargo, continua São Cipriano, não pode estar com o doce, nem as trevas com a luz, nem a chuva com o tempo sereno, nem a guerra com a paz, nem a esterilidade com a fecundidade, nem a seca com a abundância das chuvas, nem a tempestade com a calmaria. Quem deseja ser bom e virtuoso não julgue que pode separar-se da Igreja: o vento não leva o trigo, nem uma árvore de raízes firmes; somente a palha vai pelos ares, somente as árvores mal enraizadas são derrubadas pelo furacão” (De unitate Ecclesiae).

10. CASTIGOS DOS HEREGES

“Eles renegam aquele que os resgatou e atraem sobre si uma pronta perdição” (2Pd 2, 1). Estas palavras de São Pedro tiveram, em todas as épocas e, por assim dizer, em cada herege, o seu cumprimento: Manete é morto pelo rei da Pérsia; Montano enforca-se; Ário, enquanto vai, soberbo, à igreja para apoderar-se dela, é acometido por dores de ventre, retira-se para uma latrina e ali esvazia ao mesmo tempo a alma e os intestinos; Juliano, o Apóstata, morre na guerra contra os partos, trespassado por um dardo lançado por mão desconhecida; Prisciliano é decapitado pelo tirano Máximo; Leão, o Armênio, iconoclasta, é morto na própria igreja; o imperador Heráclio, tornado monotelita, morre de morte súbita e vergonhosa; Teodorico, ariano, rei dos godos, perde a vida de modo horrível; Valente, ariano, vencido pelos godos, é queimado vivo. Nestório, o blasfemador, tem a língua roída pelos vermes, e também Hunerico, rei ariano, perseguidor dos fiéis, morre devorado pelos vermes. O imperador Anastásio termina reduzido a cinzas pelo raio; Lutero morre na noite seguinte a uma copiosíssima ceia; Zuínglio cai morto no campo de batalha; Carlostádio desaparece, levado pelo demônio; Calvino, devorado pelos vermes como Antíoco e Herodes, expira blasfemando; Henrique VIII, rei da Inglaterra, morre desesperado (Storia Ecclesiastica).

«Os hereges, diz São Pedro, farão comércio de vossas almas, mas o juízo que os persegue há muito tempo avança a passos largos» (2Pd 2,3). «Eles são fontes sem água, nuvens impelidas por turbilhões, para os quais está reservada eternamente uma noite tenebrosa» (Ib. 17).

11. DEUS PÕE O REMÉDIO JUNTO AO MAL

Onde nasce o veneno, ali perto também cresce o antídoto: quando surgem heresias, Deus provê às necessidades de sua Igreja por meios particulares, suscitando, naqueles tempos mais do que em outros, doutores e santos insignes para combater o erro. A Ário, por exemplo, Deus contrapõe Santo Atanásio; a Nestório, São Cirilo; a Pelágio, Santo Agostinho; a Abelardo, São Bernardo; aos albigenses, São Domingos; a Lutero e à Reforma, a Companhia de Jesus e várias outras Congregações adequadas aos tempos e aos lugares; assim como, no fim do mundo, oporá Henoc e Elias ao Anticristo.

12. MEIOS DE PRESERVAR-SE DAS HERESIAS E DE SAIR DELAS

O primeiro meio é evitar os hereges e aborrecer seus escritos repletos de erros. «Guardai-vos, dizia o Salvador, dos falsos profetas que vêm a vós vestidos de ovelhas, enquanto são lobos vorazes. Pelos frutos os distinguireis» (Mt 7,15-16). «Vós, portanto, ó irmãos, diz São Pedro, que estais prevenidos, cuidai de vós mesmos, para que não aconteça que, deixando-vos arrastar pelo erro dos insensatos, caiais de vossa firmeza» (2Pd 3,17).

Outros meios excelentes sugere São Paulo. «Propõe-te como modelo, escrevia ele a Timóteo, a sã doutrina que de mim aprendeste acerca da fé e da caridade que está em Jesus Cristo» (2Tm 1,13): «Conserva este precioso depósito por meio do Espírito Santo, que habita em nós» (Ib. 14). «E o que de mim aprendeste na presença de muitas testemunhas, confia-o a homens provados e fiéis, capazes de instruir também a outros» (Ib. 2,2). «Sabe manejar bem a palavra da verdade; não te envolvas em discursos profanos e inúteis, porque as palavras dos sedutores facilmente conduzem à impiedade, e sua doutrina, insensivelmente, corrói como um câncer. Evita as disputas vãs e insensatas, sabendo que provocam contendas e dissensões» (Ib. 2,15, 16, 17, 23).

«Não se deve, diz o santo apóstolo São João, dar crédito a todo espírito, mas provar se tais espíritos vêm de Deus. Nisto reconhecereis que o espírito vem de Deus: se ele confessa que Jesus Cristo veio na carne; mas aquele que de algum modo divide Jesus Cristo, esse não está do lado de Deus, mas é um anticristo» (1Jo 4,1-3).

O quarto meio é ater-nos à antiguidade, à tradição, à autoridade. «Recordai os tempos antigos», diz Isaías (46,9). E isto repitamos aos hereges, que são gente nova, que estabelecem uma religião, uma fé nova, da qual os séculos precedentes jamais tinham ouvido falar. Digamos-lhes com São Jerônimo: «Quem quer que sejais vós que introduzis novas doutrinas, peço-vos que respeiteis os ouvidos romanos, que poupeis a “fé que teve os apóstolos por arautos. Como? Vós vos empenhais em ensinar-nos coisas até agora desconhecidas para nós? Bufões! O mundo foi cristão até o presente sem essa vossa doutrina (16)».

A mesma pergunta faz Tertuliano. «Quem sois vós? De onde e quando viestes? Onde vos mantivestes escondidos durante tão longo tempo? (17)». E Santo Optato, bispo de Milevi, assim os acua: «Mostrai-nos a origem de vossa sede, vós que pretendeis ser a verdadeira Igreja (18)». E Santo Hilário acrescenta ironicamente: «Pena! que a idade presente nos tenha mostrado demasiado tarde estes piedosíssimos doutores! Minha fé, que de vós, ó Cristo, recebi, constata que estes novos sábios chegam tarde e um pouco tarde demais: eu cri em vós antes que se ouvissem todas estas novas doutrinas (19)». «Consideramos indubitável e conservamos invariável, escreve o Lirinense, aquilo que foi ensinado e crido em toda parte e em todos os tempos (20)». Ora, uma fé assim, que é a única verdadeira, jamais existiu nem jamais existirá em outro lugar senão na Igreja católica, apostólica, romana; portanto, a fé da Igreja romana é a única verdadeira, a única ensinada por Jesus Cristo… Dizei-nos, por bondade, Lutero, Calvino, que, depois de mil e quinhentos anos de crença unânime, invariável e universal, quereis renovar a antiga fé: quem vos enviou? De quem recebestes a missão? Onde estão vossos milagres? Onde estão vossas obras? Qual é vossa conduta, vossa vida, vossa santidade? Que bem fizestes? A árvore se conhece pelos frutos: pois bem, mostrai-nos os frutos de vida e de luz produzidos por vossos novos dogmas, por vossa nova moral…

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.