Tesouro n.º 26 · Volume I

CÉU CIELO

15 seções · 140 parágrafos · pp. 288–321 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. O CÉU É A OBRA-PRIMA DE DEUS

A palavra paraíso vem da palavra hebraica Pardes ou Para, que significa jardim das murtas, e dela os latinos formaram seu Paradisus, paraíso.

Há três céus: o atmosférico, o astronômico e o angélico, que é a morada da divindade e ao qual se dá o nome de paraíso.

São Tomás, perguntando se Deus poderia fazer coisas maiores e mais perfeitas do que todas as que já foram feitas, responde que sim, exceto, porém, três: Jesus Cristo, a Bem-aventurada Virgem Maria e a felicidade dos eleitos, isto é, o paraíso. A humanidade de Jesus Cristo deve ser excetuada, diz ele, porque está unida a Deus em hipóstase; a Bem-aventurada Virgem, porque é Mãe de Deus; a bem-aventurança criada, porque é o gozo de Deus. Essas três coisas recebem do bem infinito, Deus, certa infinitude de perfeição; e, sob esse aspecto, Deus não pode fazer coisa melhor do que elas, assim como nada pode haver melhor do que Deus (1.a 1.ae q. 3, art. 6). Nessas três coisas, podemos dizer com Santo Agostinho, Deus esgotou os tesouros de sua ciência, poder e bondade (1).

2. DIFERENÇA ENTRE O CÉU E A TERRA

Para formarmos uma ideia do céu

e da felicidade dos eleitos, consideremos a imensa distância que existe entre a terra e o céu,

Que é a vida sobre a terra, senão uma lenta morte? … Eu não sei, dizia Santo Agostinho, se devo chamar esta vida uma morte que vive, ou uma vida que morre (Medit, c. XIX).

“Nossos pais, escrevia São Paulo aos Hebreus, confessavam-se estrangeiros e peregrinos sobre a terra” (Hb 11, 13). “Como me parece feia a terra, quando olho para o céu!”, exclamava Santo Inácio de Loyola (2).

E Santo Agostinho pergunta: “Qual das duas coisas quereis? Agrada-vos amar as coisas temporais e perecer com o tempo, ou não vos afeiçoar ao mundo e viver eternamente com Deus? (3)”.

Tudo quanto existe sobre a terra é vão, mutável, breve, corruptível, enganador; no céu, ao contrário, tudo é real, eterno, imutável, incorruptível, verdadeiro e seguro. A vaidade das coisas terrestres está em plena oposição à realidade das celestes: naquelas tudo é fragilidade, nestas, solidez; aquelas passam em pouco tempo, estas duram eternamente; as primeiras mudam, as segundas não se alteram; lá está a morte, aqui está a vida, e uma vida imperecível. Sobre a terra está a mentira; no céu, a verdade; sobre a terra, a ilusão; no céu, a sinceridade; aqui embaixo, os suores, o trabalho, as penas, o temor; no céu, o repouso, a alegria, a segurança, a paz.

Ó suprema realidade, verdade que não engana, amor duradouro, preciosa e querida eternidade do céu!

Prodigioso é, portanto, o nosso cegamento, diz São Bernardo: ter sede de amarguras e de pecados, mergulhar no naufrágio do mundo, buscar os males de uma vida que foge, deleitar-nos em definhar enfermos, em vez de aspirar à felicidade dos santos, à sociedade dos anjos, às delícias da vida contemplativa, onde resplandece o poder de Deus e se abrem os tesouros inesgotáveis de sua bondade infinita! (Medit.). “Cada página da Escritura, diz Santo Agostinho, exorta-nos a desapegar-nos da terra e elevar-nos ao céu, sede da verdadeira e suprema bem-aventurança” (4). Aqui embaixo, continua o mesmo santo (Med. c. XIX), vive-se na inquieta incerteza; lá no alto, na posse tranquila; aqui embaixo, as amarguras; lá no alto, a eterna doçura; aqui, as grandezas perigosas; lá, uma glória e um poder que não enganam; na terra, o temor de que o amigo de hoje seja nosso inimigo amanhã; no céu, o amigo nunca deixa de sê-lo, porque a inimizade é desconhecida e impossível; sobre a terra, teme-se perder aquilo que nos apetece; no céu, Deus, autor da eterna recompensa, conserva-a inalterada e perpualmente para aquele que dela goza. No mundo somos desgraçados, navegamos entre as ondas de um mar tempestuoso, expostos às tempestades e aos naufrágios, incertos de alcançar o porto. Nossa vida é um exílio, nosso caminho transcorre entre riscos, e, na morte, não sabemos se chegaremos ao céu. No paraíso não há exílio, nem perigos, nem incertezas, nem naufrágios.

Sete coisas, segundo diz o Venerável Beda, são necessárias à felicidade do homem, e não nos é dado encontrá-las em outro lugar senão no céu: 1° uma vida que não seja ceifada pela morte; 2° uma juventude não ameaçada pela velhice; 3° uma luz que jamais cesse de resplandecer; 4° uma alegria jamais amargurada pela tristeza; 5° uma paz não sujeita a perturbações; 6° uma vontade não impedida por obstáculos; 7° um reino que já não possa ser perdido… A terra não passa de uma prisão: ora, “se tão bela e agradável é a prisão, qual será a pátria?”, diz Santo Agostinho (5).

3. O CÉU É A VERDADEIRA PÁTRIA

Há, escreve o Nazianzeno, uma pátria para os grandes homens, para as pessoas verdadeiramente virtuosas: e esta é a Jerusalém celeste, que se compreende com o intelecto, não estas cidades que vemos encerradas em estreitos recintos e habitadas por cidadãos que passam e desaparecem. Ah! Estas moradas terrestres, estas pretensas pátrias assemelham-se a uma cena de teatro (In Distich.).

São Gregório de Nissa dizia que São Basílio jamais temera o exílio, convencido de que a verdadeira pátria da humanidade é o paraíso e que a terra inteira é um lugar de exílio comum (Orat.). E esta ideia de considerar a terra como lugar de banimento e olhar o paraíso como a única e verdadeira pátria foi a ideia dos santos de todos os séculos e países…

4. BELEZAS E RIQUEZAS DO CÉU

“Nem olho algum jamais viu, nem ouvido algum jamais ouviu, nem o coração humano jamais compreendeu o que Deus preparou para aqueles que o amam”, diz São Paulo aos Coríntios (1Cor 2, 9). Olho humano algum jamais viu; e, no entanto, que coisa não viu o olho humano? As belezas do firmamento, as maravilhas da natureza, as graças da primavera, cidades imensas, festas maravilhosas etc. Ouvido algum ouviu; e, entretanto, por quais harmonias já não foi deleitado? Cantos suavíssimos, vozes encantadoras, sinfonias dulcíssimas, o gorjeio dos pássaros, a eloquência dos oradores e uma centena de outros sons maravilhosos ele já ouviu. O coração do homem não compreendeu; e, no entanto, que coisa não compreende o coração do homem? … Ó grande e venturoso Apóstolo, vós que, arrebatado da terra e elevado até o terceiro céu, vistes, ouvistes e concebestes tantas maravilhas, vós que contemplastes o próprio Deus, poderíeis dar-nos uma amostra de vossas visões? — Não, não posso, porque “ouvi palavras secretas que não é permitido ao homem proferir” (2Cor 12, 4).

A quem desejar, pois, uma amostra delas, eis como o extático de Patmos descreve o céu novo e a nova terra, por ele contemplados: “Um dos sete anjos veio a mim e disse: Vem comigo, e eu te mostrarei a Esposa do Cordeiro. E levou-me em espírito sobre um monte alto e sublime, e mostrou-me a cidade santa, Jerusalém…; a qual tinha a claridade de Deus; e sua luz era semelhante a uma pedra preciosa… e tinha uma muralha alta e grande, com doze portas, três ao oriente, três ao setentrião, três ao meio-dia e três ao ocidente, e às portas, doze anjos. A muralha da Cidade tinha doze fundamentos, sobre os quais estavam escritos os doze nomes dos apóstolos do Cordeiro; ela era construída de pedra jaspe; e a cidade, toda ela, era de ouro puro, semelhante ao cristal. E os fundamentos das muralhas da cidade eram adornados com toda espécie de pedras preciosas. O primeiro fundamento, jaspe; o segundo, safira; o terceiro, calcedônia; o quarto, esmeralda; o quinto, sardônica; o sexto, sárdio; o sétimo, crisólito; o oitavo, berilo; o nono, topázio; o décimo, crisópraso; o décimo primeiro, jacinto; o décimo segundo, ametista. E as doze portas eram doze pérolas… e a praça da cidade, ouro puro, transparente como cristal. Nela não vi templo, porque seu templo é o Senhor Deus onipotente e o Cordeiro. A cidade não necessita nem do sol nem da lua para iluminá-la, porque o esplendor de Deus a ilumina, e sua lâmpada é o Cordeiro… Nela não entrará nada de impuro, nem quem pratica a abominação e a mentira, mas somente aqueles que estão inscritos no livro da vida do Cordeiro. Depois mostrou-me um rio de água viva, límpido como cristal, que saía do trono de Deus e do Cordeiro. No meio da praça, e de ambos os lados do rio, estava a árvore da vida, que produz doze frutos… E não haverá mais maldição; mas nela estará o trono de Deus e do Cordeiro, e seus servos o servirão, verão sua face e trarão seu nome sobre as frontes. E não haverá mais noite. E disse-me: Estas palavras são fidelíssimas e verdadeiras… E eu, João, sou aquele que viu e ouviu estas coisas” (Ap 21 e 22).

Considerai à parte as belas e ricas maravilhas que João descreve acerca da cidade santa: 1° É a nova Jerusalém em um céu novo e em uma nova terra. 2° É o pavilhão onde Deus habita familiarmente com os homens. 3° Deus enxugará para sempre todas as suas lágrimas. 4° Deus renovará todas as coisas. 5° A Jerusalém celeste resplandece com a luz de Deus; ali jamais haverá noite, mas dia contínuo; não haverá necessidade do sol, da lua, das estrelas nem de lâmpadas, porque o esplendor da luz divina a inunda e a claridade do Cordeiro nela reluz. 6° Tem um muro de jaspe; ele significa a força e a segurança dos eleitos. 7° As suas doze portas, que jamais se fecham, indicam que o céu está aberto de todos os lados e a toda hora aos justos e aos santos, sem distinção de pessoas. 8° Os doze fundamentos denotam que ela repousa sobre a santidade e sobre a doutrina dos doze artigos do Símbolo apostólico. 9° É quadrada, para simbolizar a exata e perfeita arquitetura e a admirável união de seus habitantes. 10° A sua vastidão e amplitude aludem à sua magnificência e ao número imenso de seus habitantes. 11° De ouro puro como cristal são os edifícios e as praças, porque no céu tudo é puro e precioso, e aos eleitos todas as coisas são manifestas. 12° Deus é o seu templo, pois os eleitos veem, respeitam, honram, adoram e louvam a Deus e ao Cordeiro. 13° As nações caminharão ao esplendor da sua luz, e os reis da terra lhe trarão em seu seio a sua glória, isto é, no céu resplandecerão a pompa e a glória de todos os reis, príncipes e pontífices. 14° O rio de água viva representa a abundância da sabedoria e de todos os mais puros deleites. As árvores, tão belas e frutíferas, designam a imortalidade e a eternidade.

“Qual não deve ser, diz São Bernardo, a abundância de um lugar onde não se encontra nada do que não se quer e se encontra tudo o que se deseja? (6).” A recompensa dos eleitos, escreve alhures o referido Padre, é uma torrente de delícias, um rio transbordante de gozos. É um rio que corre sempre transbordante e jamais seca: compara-se a um rio não porque corra, mas porque tem profundidade (Serm. Error. huius saec.).

Fabricado pela própria mão de Deus, que é o seu incomparável ornamento, que beleza, que esplendor, que riquezas não deve ter o céu! Infinitamente belo deve ser também o lugar dos eleitos, preparado pelo próprio Jesus Cristo, tendo ele afirmado (Jo 14, 2). Ele comprou e pagou a Deus Pai, com o preço de seu sangue e de sua morte, as moradas celestes, para dá-las a nós; e, se quereis conhecer o seu preço, avaliai, se puderdes, quanto vale o sangue de Jesus Cristo…

“Ó bom Deus, exclama Santo Agostinho, o que não devemos esperar das riquezas daquele cuja própria pobreza nos fez ricos? (7). Ah, o céu é uma cidade cujo rei é a verdade, cuja lei é a caridade e cuja duração é a eternidade: ali abundam toda espécie de bens, e jamais penetrou sombra alguma de mal (8). O reino dos céus supera tudo o que dele se pode dizer, é superior a todo elogio, e deixa para trás toda glória imaginável (9).”

“De quantos e quais bens não cumulará no céu os seus eleitos aquele Deus que concede bens tão grandes aos ingratos da terra?”, observa Santo Euchério (10); e acrescenta que a fé não é capaz de compreender, a esperança não basta para abranger, nem a caridade para entender aquilo que Deus prepara para os que o amam: isso ultrapassa todo desejo e anseio; pode-se adquiri-lo, mas não estimá-lo em seu justo valor (11).

“Bendito seja, diz São Pedro, o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo, que, segundo a sua infinita misericórdia, nos regenerou e nos deu a esperança da vida, daquela herança pura, imortal e incorruptível que nos está reservada no céu” (1Pd 1, 4); isto é, naquela bem-aventurada Sião, onde Deus ostenta, para falar com o Salmista, toda a sua grandeza e poder (Sl 98, 2). E com razão, pois, se a glória do Senhor enchia o templo de Salomão, de que suntuoso esplendor de glória, por assim dizer, não estará cheio o céu, lugar de sua morada? Por isso, Isaías anunciava que os eleitos veriam o seu rei em todo o esplendor de sua majestade (Is 33, 17).

Por isso, o mesmo profeta convidava os povos do mundo a contemplar e admirar Sião, a cidade das festas, Jerusalém, morada da abundância e da paz, tabernáculo inamovível (Is 33, 20); em cuja honra, acrescenta Davi, foram narradas muitas glórias e infinitas maravilhas (Sl 86, 2); embora, como prossegue Isaías, os homens jamais tenham podido formar uma ideia adequada daquilo que o Senhor preparou para aqueles que o amam (Is 64, 4).

5. CLAREZA E ESPLENDOR DOS ELEITOS: PRIMEIRA FONTE DE SUA FELICIDADE NO CÉU

O Crisóstomo, tratando da glória e do esplendor dos santos no céu, diz que o último dos bem-aventurados no paraíso está rodeado por uma luz mais resplandecente do que aquela em meio à qual apareceu Jesus Cristo em sua transfiguração no Tabor, porque esta ele teve de moderar, de modo que a vista dos Apóstolos pudesse suportá-la, ao passo que a alma pode fixar um esplendor que é intolerável aos olhos do corpo. Além disso, os Apóstolos não viram senão a glória exterior, enquanto no céu se verá ao mesmo tempo o esplendor interno e externo de Deus e de cada um dos eleitos (Homil. ad pop.). Estes, diz Santo Agostinho: “veem a Deus sem interrupção; conhecem-no sem temor de estar sujeitos à ilusão; amam-no sem perigo de ofendê-lo; louvam-no sem jamais se cansar (12)”.

“No presente, dizia São Paulo, não vemos a Deus senão como em um espelho e através de imagens nebulosas, mas então o contemplaremos face a face. Agora o conheço apenas imperfeitamente, mas então o conhecerei do modo como sou agora conhecido por ele” (1Cor 13, 12). Com efeito, Deus será tudo em todos (Ib. 15, 28). Além disso, Deus é luz e, no céu, segundo a palavra do mesmo Apóstolo, os eleitos serão transformados na sua própria imagem (2Cor 3, 18). “Meus caríssimos, escreve São João, agora somos filhos de Deus; mas ainda não se manifestou o que seremos um dia; sabemos, porém, que, quando ele se manifestar em sua glória, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal qual é” (1Jo 3, 2).

“Em vossa luz veremos a luz” (Sl 35, 9), dizia o Salmista. Com efeito, no céu a razão está totalmente iluminada, e a inteligência não tem de temer o erro. No céu, os bem-aventurados desejam ver e veem tudo quanto desejam… Veem a essência de Deus em si mesma; compreendem os mistérios da Santíssima Trindade, da Encarnação etc.; todos os atributos divinos se lhes tornam abertos e claros… A divindade de Jesus Cristo, diz Santo Agostinho, é como o grande sol que preside ao dia da bem-aventurança celeste, e a sua humanidade é como a lua que preside à noite deste século (De civit.).

Narra Santa Teresa que um dia Jesus Cristo lhe mostrou a sua mão glorificada. Ora, a santa, para nos dar uma ideia do radiante esplendor daquela mão, diz: Imaginai um rio límpido, cujas águas corram docemente sobre um leito de cristal puríssimo; depois, supondes que quinhentos mil sóis, mais esplendentes que o nosso, lancem reunidos sobre esse rio todos os seus raios, refletidos pelo cristal sobre o qual ele corre; pois bem, essa luz deslumbrantíssima não vos oferece senão uma noite obscura em comparação com o esplendor da mão de Jesus Cristo. Ora, quem pode imaginar o imenso abismo de luz que deve irradiar da humanidade e da divindade de Jesus Cristo unidas, quando é tão esplêndida uma só mão? Acrescentai ao esplendor do Filho o do Pai e o do Espírito Santo, o de Maria, dos anjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires, dos confessores, das virgens…

Ah! diz bem a Sabedoria quando concede aos santos a plenitude da luz (Sb 18, 1); e compara o seu esplendor ao de uma chama que se ateou a um canavial (Ib. 3, 7). E Tobias, contemplando a Jerusalém celeste, via-a resplandecer com vivíssima luz (Tb 13, 13). E não causa admiração, pois sobre ela se derrama toda a claridade de Deus (Sl 89, 17).

“Felizes habitantes da cidade eterna, diz Isaías, o sol que resplandecerá sobre vós jamais faltará, nem tereis necessidade da luz da lua: o Senhor será ele mesmo a vossa luz para sempre, e os dias do vosso luto terão passado para sempre” (Is 9, 19-20). O Senhor prometeu dar aos seus eleitos uma terra digna dos desejos do homem, uma esplêndida herança (Jr 3, 19). E São Tomás comenta assim estas palavras: “A pátria celeste, nossa herança, é iluminada pelo esplendor da visão divina”. Que mais? Não foi acaso o próprio Jesus Cristo quem disse: “Os justos resplandecerão como o sol no reino de seu Pai?” (Mt 13, 43).

A propósito daquelas palavras de Jesus aos Apóstolos: “Ainda pouco tempo e me vereis” (Jo 16, 16), Santo Agostinho diz: “Deus não tarda muito em cumprir as suas promessas; ainda pouco tempo e nós o veremos em um lugar onde já não teremos nada a pedir, porque nada mais nos restará a desejar ou procurar (13)”.

“Os eleitos, escreve o Padre citado (14), veem sempre a Deus e sempre desejam vê-lo, tão desejável é a visão de Deus. Nesse deleite repousam cheios de Deus; sempre unidos à bem-aventurança, são bem-aventurados; contemplando sempre a eternidade, são eternos; unidos à verdadeira luz, tornam-se luz. Ó visão bem-aventurada, que é ver em sua magnificência o Rei dos anjos, contemplar o Santo dos santos, a quem todos devem a existência! Alegrai-vos e exultai, ó justos; porque vedes aquele a quem amastes, tendes aquilo que por longo tempo desejastes, possuís aquilo que já não temeis perder; ele é a salvação, a vida, a paz e todo bem”.

“No céu, diz São Bernardo, veremos o decoro da glória, o esplendor dos santos, a majestade de um poder verdadeiramente régio; conheceremos o poder do Pai, a sabedoria do Filho, a bondade infinita do Espírito Santo. Ó visão jubilosa: ver a Deus em si mesmo, vê-lo em nós, e nós nele, jubilosamente felizes e felizmente jubilosos (15)”.

Os santos são iluminados pelo esplendor de Deus e pelo próprio, que é o reflexo daquele de Deus. Deus, o eterno sol de justiça, enche o céu e os bem-aventurados de seu divino decoro. Os eleitos figuram outros tantos sóis, por toda parte envolvidos pelos raios do sol supremo, do qual extraem todo o seu fulgor, enquanto cada um deles participa também da claridade dos companheiros de glória. Todos veem Deus inteiro em todos os eleitos, todos se veem em Deus, Deus é tudo em todos e em cada um. — Ó belo céu, quantas coisas magníficas se disseram de ti!

6. UNIÃO DOS ELEITOS COM DEUS: SEGUNDA FONTE DE SUA FELICIDADE NO CÉU

No céu encontra pleno cumprimento a oração de Jesus Cristo ao Pai a respeito dos Apóstolos: “Faze que sejam todos uma só coisa, como tu estás em mim, ó Pai, e eu em ti, que também eles sejam uma só coisa em nós… Eu neles, e tu em mim, para que sejam consumados na unidade” (Jo 17, 21-23). “Eis, diz São Bernardo, o fim, eis a consumação, eis a perfeição, eis a paz, eis a alegria no Espírito Santo, eis o silêncio do êxtase no céu (16)”.

Deus é tudo em todos os seus eleitos, para manifestar neles todo o seu poder; para que haja neles a vida, a saúde, a virtude, a abundância, a glória, a honra, a paz, enfim, todos os bens. Aquelas palavras do Apóstolo — Deus é tudo em todos — devem ser entendidas assim, observa São Jerônimo: Nosso Senhor e Salvador não é, aqui embaixo, tudo em todos, mas está apenas parcialmente em cada um. Ele está, por exemplo, em Salomão com a sabedoria, em Davi com o poder, em Jó e em Tobias com a paciência, em Daniel com o conhecimento das coisas futuras, em Pedro com a fé, em Paulo com o zelo, em João com a virgindade, e em outros com outros favores; mas, chegado o fim do mundo, então será tudo em todos: cada santo terá todas as virtudes, e Jesus Cristo estará inteiro em cada um deles (Epl. ad Amand.).

Deus é tudo em todos: 1° do mesmo modo que algumas gotas de água caídas no oceano nele se perdem, incorporando-se à massa das ondas, assim todos os bem-aventurados se perdem em Deus pela visão beatífica e pelo amor, permanecem absorvidos e incorporados em Deus, sumo bem e digno de ser sumamente amado. 2° Esta união dos eleitos com Deus é semelhante à luz do sol, a qual penetra de tal modo a atmosfera, que esta parece ser ela mesma a luz; e Deus enche de tal maneira os eleitos com seu esplendor e sua glória, que eles se assemelham mais a deuses do que a homens. 3° É semelhante à união do ferro com o fogo. Pelo calor do fogo, o ferro se incandesce e parece ter-se tornado carvão em brasa ou, mais verdadeiramente, fogo; amando e possuindo a Deus, os bem-aventurados inflamam-se de tal modo de amor divino, que ficam, de certo modo, transformados em Deus. 4° O açúcar dissolvido na água transforma-se em açúcar; assim Deus nutre e deleita de tal modo os santos com sua doçura, que os faz parecerem eles mesmos a doçura por essência; pois Deus é um oceano infinito de delícias, de alegria e de consolação. 5° As harmoniosas sinfonias deleitam suavemente os ouvidos daqueles que as escutam; assim os eleitos aspiram e respiram as harmonias de Deus.

6° Um espelho sem mancha recebe e reflete ao natural as figuras que se lhe apresentam, de modo que parece que elas vivem e se movem dentro dele; assim os santos existem, vivem e se movem em Deus.

Quem será capaz de compreender, exclama São Bernardo, a multidão e a imensidade das alegrias encerradas nestas duas palavras: Deus é tudo em todos? Ele é a plenitude da luz para a razão; a paz perfeita para a vontade; a eternidade para a memória. Ó verdade! Ó caridade! Ó eternidade! Ó Trindade bem-aventurada e que tornais bem-aventurado, a minha miserável trindade suspira por vós, porque está desventuradamente longe de vós. Esperai em Deus, e todo erro desaparecerá de vossa inteligência, vossa vontade cessará de oferecer qualquer resistência, todo terror se afastará de vossa memória, e tomarão o lugar deles uma luz admirável, uma serenidade perfeita, uma segurança eterna, nossa alegria e nosso desejo. Deus, enquanto é verdade, realizará o primeiro prodígio; enquanto é caridade, operará o segundo; enquanto é suma potência, produzirá o terceiro (Serm. 11, in Cantic.).

No céu verificar-se-ão literalmente as palavras do Apocalipse: “Eis que o tabernáculo de Deus está erguido no meio dos homens, e ele habitará com eles; eles serão o seu povo, e Deus, no seio deles, será o seu Deus” (21, 3).

Levam-se flores nas mãos para saborear os suaves perfumes que delas exalam; assim Deus tem em sua mão, ou melhor, em seu coração, todos os bem-aventurados, e compraz-se com o suave perfume de suas virtudes.

7. A UNIÃO DOS ELEITOS ENTRE SI E A RECÍPROCA PARTICIPAÇÃO DOS BENS: TERCEIRA FONTE DA FELICIDADE DELES

Será para os eleitos fonte de felicidade indizível o amor que terão uns pelos outros, sua união e a comunicação dos bens de todos a cada um, e de cada um a todos. “No céu, diz Santo Agostinho, não haverá sombra de ciúme proveniente da desigualdade do amor; todos se amam igualmente (17).” O céu, diz ainda o mesmo Doutor, verá um espetáculo jamais visto antes: nenhum inferior invejará a sorte daqueles que lhe forem superiores, do mesmo modo que, no corpo humano, o dedo não inveja o olho, nem o olho a língua, nem o pé a cabeça. E, contudo, não deveriam os eleitos de grau inferior ter ciúme dos maiores? Não; porque um vaso pequeno que esteja cheio está tão cheio quanto um grande; um reservatório que transborda está tão cheio quanto o mar; e não os inveja, nem poderia invejar-lhes coisa alguma, visto que não pode receber uma gota a mais do que contém. Assim acontece com os eleitos: “Deus está igualmente em todos; com esta única diferença: tem maior capacidade relativamente a Deus aquele que tiver levado não mais prata, mas mais fé (18).”

Uma mãe terna alegra-se e se compraz com as carícias e os presentes feitos a seu filho, como se tivessem sido feitos a ela mesma; ora, assim precisamente, e de modo ainda mais excelente, acontece no céu, onde a força do amor, diz São Gregório, que une os bem-aventurados, é tanta que aquele bem que um eleito não recebe diretamente em si mesmo, recebe-o de algum modo pela felicidade que experimenta ao vê-lo recebido por outro; ele se alegra com o bem de seus companheiros como se fosse seu próprio (19). Todos possuem a Deus, que é a unidade perfeita, e, nessa unidade, formam um só. Espetáculo semelhante já deram na terra os primeiros cristãos, dos quais está escrito: “A multidão dos fiéis tinha um só coração e uma só alma; ninguém considerava como seu aquilo que possuía, mas tudo era comum.”

Essa união mútua e caridade constituem a alegria e o júbilo dos santos; cada um deles se alegra tanto com a própria felicidade como com a alheia; cada um deles é feliz com a sorte de todos; e todos o são com a sorte de cada um. Assim como uma fonte inesgotável sacia não menos cem mil homens do que um só, e como nenhum deles tem ciúme da água que os outros bebem, visto que há abundância dela e não se esgotará por mais que dela se tire, assim acontece precisamente com os eleitos. Há entre eles tal união que de todos faz um só; união infinitamente perfeita e íntima, que jamais será rompida nem perturbada. Eles estão consumados na unidade, isto é, em Deus.

“Haverá, diz Santo Anselmo, tanto amor entre Deus e os Santos, e dos Santos entre si, que todos se amarão mutuamente uns aos outros como a si mesmos, e todos amarão a Deus mais do que a si próprios (20).”

A todos, acrescenta São Bernardo, o mesmo gozo, o mesmo afeto, a mesma alegria, a mesma vontade, o mesmo pensamento e um amor eterno (Medit. c. IV).

Os eleitos são os herdeiros de Deus, afirma São Paulo (Rm 8, 17). Mas esta herança, diz Santo Agostinho, não é como as heranças terrenas, que tanto mais diminuem quanto mais numerosos são aqueles que têm direito a elas; aqui há tanto para muitos como se fossem poucos, tanto para um como se fossem todos. Cada um recebe toda a herança, pois possui Deus por inteiro; e todos a recebem inteiramente, sendo Deus tudo em todos: Deus omnia, in omnibus. Deus não constitui os eleitos herdeiros de um bem que deverá ser adquirido depois da morte do possuidor; mas dá-lhes a si mesmo em herança e destina-os a viver eternamente com ele. Aqui embaixo é preciso esperar a morte do possuidor para herdar; no céu é preciso que o doador, que é Deus, viva para sempre, para que aqueles que são chamados a possuí-lo possam receber e conservar a herança que lhes cabe. Na terra falta a um aquilo que o outro possui; no céu cada um possui aquilo que os outros possuem, e todos desfrutam do bem de cada um, que é Deus. Deus não traçou limites em si mesmo, nem ao redor de si, e ninguém pode traçá-los. Ele diz a cada um dos eleitos, como a todos: Eis-me aqui, eu sou o oceano sem confins e sem praias; eu me dou a vós, para que desfruteis de mim (In Psalm. CXXXVI, CXLIX).

Todos possuem a herança por inteiro, sem que as riquezas de Deus sofram diminuição, escreve Santo Ambrósio; e tanto mais fecunda se torna a herança para cada um quanto mais numerosos são os herdeiros (In Psalm. CXVIII).

Ó cidade celeste! Maravilhas se disseram de ti.

8. NO CÉU, DEUS FARÁ A VONTADE DOS ELEITOS E OS ELEITOS FARÃO A VONTADE DE DEUS: QUARTA FONTE DA FELICIDADE DELES

Deus fará eternamente a vontade dos justos, e estes farão eternamente a vontade de Deus. Ouvi como fala a esse respeito Hugo de São Vítor:

No céu, cada um encontra aquilo que pode amar e desejar; se deseja a beleza, eis que os justos resplandecerão como o sol (Mt 13, 43); se deseja agilidade e força, serão semelhantes aos anjos; se deseja vida longa, terão a eternidade; se deseja saúde, gozá-la-ão perfeita. Querem ser saciados? Sê-lo-ão à saciedade, dizendo o Profeta: “Ficarei saciado quando me aparecer a vossa glória” (Sl 16, 15). Têm sede de felicidade? Ficarão inebriados pela abundância que encontrarão na casa do Senhor (Sl 35, 9).

Apreciam os prazeres e as alegrias? Beberão da torrente das delícias divinas (Sl 35, 9). Preferem a sabedoria? Haurem-na do próprio Deus (Jo 6, 45). Desejam poder? Participarão do próprio poder de Deus (Sl 70, 16). Serão onipotentes sobre a própria vontade e sobre a vontade de Deus, assim como Deus o será sobre a deles; pois, assim como Deus pode por si mesmo tudo o que quer, assim os eleitos podem, por meio de Deus, tudo o que querem. Agradam-lhes as riquezas e as honras? Dir-lhes-á o senhor do céu: “Muito bem, servo bom e fiel; porque foste fiel no pouco, eu te constituo senhor de imensos bens; entra na alegria do teu Deus” (Mt 25, 21). Desejam rica recompensa? E qual será maior do que possuir o próprio Deus? (Gn 15, 1). Buscam a paz? Serão mergulhados no próprio rio da paz, no oceano divino; a alegria? Tudo no céu, diz Isaías, respira júbilo e alegria; ali ressoam sempre os hinos de ação de graças, os cânticos de louvor (Is 51, 3); a incorruptibilidade, a agilidade, a impassibilidade, a espiritualidade? São Paulo lhes dá essa garantia também quanto aos próprios corpos (1Cor 15, 4.2-44); e, de fato, possuem Deus, que é a força, a beleza, a duração, a saúde, a sabedoria, o poder, a riqueza, a paz e a alegria por essência. Aspiram à perfeição de toda espécie de bens? Eles a possuem, tendo a Deus; desejam o afastamento de todo mal? São João assegura que no Paraíso não haverá qualquer sofrimento (Ap 21, 4).

Deus enxugará dos olhos deles toda lágrima, e para eles já não haverá morte, nem dor, nem clamor, nem sofrimento; tudo isso terá desaparecido (Id. Ibid.). Para eles a morte está vencida; cantam eternamente o hino do triunfo, clamando: — Ubi est, mors, victoria tua? (1Cor 15, 55). Tampouco terão de temer as tentações, porque o tentador foi dali expulso e banido para sempre.

Por isso, assim como Deus pode, por si mesmo, fazer tudo o que quer, também os bem-aventurados podem, em Deus e por Deus, fazer tudo o que lhes apraz. No céu não há senão uma lei, e é a lei do amor de Deus: lei à qual todos os eleitos querem e quererão conformar-se eternamente, porque nela encontram a sua suma felicidade. Eles não querem senão o que Deus quer; e o que Deus quer, também os eleitos o querem; e aquilo que um eleito quer, todos os eleitos igualmente o querem, e Deus o quer. Todos querem a mesma coisa: amar a Deus e ser por Ele amados. O que eles querem está de acordo com os seus desejos, e os seus desejos estão de acordo com a vontade de Deus. Eles têm tudo o que querem, tudo o que amam, tudo o que desejam; e Deus, por sua parte, encontra neles tudo o que quer e ama. Eles desejam, e os seus desejos são satisfeitos; são saciados e não cessam de desejar. “Para que a ansiedade não fira os seus desejos, diz São Gregório, recebem imediatamente aquilo que anseiam; e, para que ao saciamento não suceda o fastio, não cessam de desejar, embora saciados. Desejam sem padecer, porque o efeito jamais está separado do desejo; saciam-se plenamente sem sentir náusea, porque o desejo sempre renasce da própria saciedade (21)”.

Portanto, de um lado, há o desejo eterno de serem saciados; de outro, o eterno cumprimento dos seus eternos desejos, realizando-se o que diz o Salmista: “Seremos saciados dos bens infinitos da casa de Deus” (Sl 64, 5).

Ó Deus, que felicidade inefável não gozaremos no paraíso! Deus será tudo em todos. — Ah! Com toda a razão se proclamam de ti, ó cidade de Deus, maravilhas inauditas!

9. NO CÉU, OS ELEITOS SERÃO REIS: QUINTA FONTE DA FELICIDADE DELES

Que felicidade é a dos bem-aventurados: eles serão reis. Tudo o que cada um deles quiser, seja a respeito de si mesmo, seja a respeito dos companheiros, seja a respeito de Deus, existirá ao seu simples aceno. Grande, e mais que real, é este poder, ao qual não há na terra coisa que se possa comparar! Todos, juntamente com Deus, serão reis, e não formarão senão um só rei e como que um só poder. Cada eleito será verdadeiramente rei, porque tudo aquilo que lhe agradar verá imediatamente diante de si. Quereis ser reis no céu? Amai a Deus e ao próximo como deveis, e merecereis ser aquilo que desejais. Vi, diz São João no Apocalipse, uma multidão inumerável, de toda nação, povo, tribo e linhagem, que estava de pé, vestida de branco e com palmas nas mãos, diante do trono, na presença do Cordeiro (Ap 7, 9). Essas palmas são o símbolo da vitória; ora, não se prestam acaso aos vencedores as homenagens e as honras dos reis? Eles serão conduzidos, diz o profeta Baruc, com a honra que convém aos filhos de reis (Br 5, 6).

“Receberão, lemos no Livro da Sabedoria, um reino ilustre e um belo diadema da mão do Senhor” (Sb 5, 17). Que significa o diadema, senão que aqueles que são coroados com ele são reis e vencedores? Reis do reino de Jesus Cristo e participantes da sua glória, como vencedores do mundo, de Satanás e da carne. Se Jesus Cristo chama os justos na terra não de servos, mas de amigos e familiares seus, não serão os justos príncipes e reis no céu?

“Ó! Como é glorioso, exclama Santo Agostinho, o reino no qual, convosco, ó Senhor, reinam todos os santos, revestidos de esplêndida luz e cingidos na cabeça com uma coroa de pedras preciosíssimas! Ó reino de eterna bem-aventurança, onde vós, ó Senhor, sois a esperança dos santos e o diadema de glória (22)”.

Os vocábulos trono, diadema e coroa, que tão frequentemente aparecem na linguagem da Igreja a respeito dos santos, dizem claramente que eles são reis no céu. Ó coisas maravilhosas que de ti se dizem, cidade santa de Deus!

10. NO CÉU, OS ELEITOS SERÃO COMO DEUSES: SEXTA FONTE DA FELICIDADE DELES

Os bem-aventurados serão transformados e como que incorporados a Deus por meio da sua visão e do seu amor. Deus encherá de tal modo os santos com a sua glória, que eles parecerão deuses, mais que simples criaturas; por isso diz Santo Agostinho que todos os que estão no céu são deuses (23).

A glória é a consumação da graça; os eleitos, diz São Pedro, participam da natureza de Deus (2Pd 1, 4). Participam dela plena e perfeitamente, porque, mostrando-se Deus aos bem-aventurados, por meio da luz da sua glória, de modo claro e manifesto, transforma-os em si mesmo, para torná-los semelhantes a si, isto é, felizes, gloriosos e como deuses. O termo de todas as ações e de todas as contemplações dos eleitos é a deificação: eles se tornam em Deus aquilo que o ferro se torna no fogo. “Sabemos, diz São João, que, quando Deus vier em sua glória, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como é” (1Jo 3, 2).

Existe entre nós e Deus um tríplice princípio de semelhança: 1° a natureza, porque nós somos, à semelhança de Deus, de natureza racional e inteligente; 2° a graça, que faz nascer em nós as virtudes, como observa São Bernardo; 3° a glória beatífica, que no céu nos aproxima de Deus tanto quanto é possível.

“No céu, diz Santo Agostinho, a alma humana será como que absorvida e perdida, e se tornará divina (24)”; e São Bernardo nos assegura que tudo aqui embaixo foi por Deus ordenado em número, peso e medida, mas que lá no alto tudo é sem peso, sem número e sem medida (Serm. in Cantic.). Precisamente por isso, diz o Salmista: “Vós sois deuses” (Sl 81, 6).

Os eleitos veem a Deus em si mesmo, veem-no em si mesmos e veem a si mesmos nele… De modo que ali se cumpre verdadeiramente a profecia de Satanás aos nossos primeiros pais: “Sereis como deuses” (Gn 3, 5). E, depois disso, quem não exclamará: Maravilhas e prodígios foram profetizados a teu respeito, ó cidade santa de Deus!

11. NO CÉU, OS BEM-AVENTURADOS ATINGIRÃO O SUMO DA FELICIDADE, GOZARÃO DE TODOS OS BENS

Os bem-aventurados no céu contemplam a incompreensível majestade de Deus; deleitam-se em suas delícias, admiram-no, louvam-no, amam-no. É verdadeiramente rico e feliz aquele a quem nada falta; ora, somente os bem-aventurados no céu se encontram em tal condição, pois nada lhes falta; são, portanto, os únicos ricos e felizes.

Quão grande é a felicidade dos eleitos, diz Santo Agostinho. No céu não se encontra vestígio algum de males, e ali abundam todos os bens; lá se entoa um hino àquele que é tudo em todos. Felizes os que habitam em vossa casa, ó Senhor; eles vos louvarão pelos séculos dos séculos. Todos os membros da assembleia dos eleitos se dedicam a louvar a Deus. Somente lá está a verdadeira glória, onde não há perigo de adulação para com aquele que é louvado, nem de erro da parte de quem louva. No céu está a verdadeira honra, que não é negada a nenhum dos que a merecem; não é concedida senão àquele que dela é digno (De Civit. Dei, lib. X, c. 7). No céu, diz o mesmo santo, resplandece aquele lugar que ninguém pode compreender; ouve-se uma harmonia não medida pelo tempo; respira-se um perfume não dissipado pelos ventos; saboreia-se uma doçura que a saciedade não estraga. Lá se vê a Deus sem esforço, conhece-se sem temor de enganar-se, louva-se sem cessar (De Spiritu et Anima). Em suma, no céu está o auge da felicidade, a glória suprema, a alegria infinita, a afluência de todos os bens (25). E como não havereis de beber, ó Senhor, de uma torrente de delícias os vossos eleitos, diz São Bernardo, vós que derramastes até sobre os vossos próprios crucificadores o óleo das vossas misericórdias? (Serm. in. Cant.).

Apressemo-nos, pois, a entrar naquele repouso, diz São Paulo (Hb 4, 11). E com razão, retoma o Crisóstomo, o paraíso é chamado repouso, porque ali há verdadeiro e duradouro descanso, onde não nos oprimem nem o trabalho, nem a preocupação, nem a angústia, nem a melancolia, nem as dores, nem o afã. Não foi para aquele lugar bem-aventurado que se disse: Comerás o teu pão banhado no suor do teu rosto. Tudo ali é paz, alegria, felicidade, delícias; não há inveja, nem ciúme, nem doenças, nem morte, nem trevas, mas dia e serenidade contínuos; não há fastio nem cansaço (Homil. VI). “No céu, diz São Gregório, há uma luz que não se extingue, alegria sem gemido, desejo sem pena, amor sem aflição, saciedade sem fastio, vida sem morte, saúde sem enfermidades. Ali reina uma caridade perfeita; uma só é a alegria, uma só a felicidade de todos (26)”.

“O prêmio que nos espera no céu, prega São Bernardo, é ver a Deus, viver com Deus e de Deus, estar com Deus e em Deus, que será tudo em todos; onde está o sumo bem, encontra-se a suprema felicidade, a alegria suprema, a verdadeira liberdade, a caridade perfeita, a segurança eterna e a eternidade segura: ali há verdadeira alegria, ciência completa, toda beleza e bem-aventurança. Ali há a paz, a piedade, a bondade, a luz, a virtude, a honestidade, o júbilo, a doçura, a glória, o louvor, o repouso, o amor, a doce concórdia, a vida perene (27)”.

Ouvi ainda Santo Agostinho: “O reino de Deus está cheio de luz, de paz, de caridade, de doçura, de felicidade infinita, de um bem inefável, que nem a mente pode compreender, nem a língua expressar. A vida futura é eterna e eternamente feliz; nela se goza de segurança inalterável, tranquilidade segura, alegria tranquila, eternidade feliz e felicidade eterna; ali o amor é perfeito, ali o dia resplandece eterno, sem temor algum (28)”. E em outro lugar: “O homem se torna feliz ao chegar à posse daquele ser que é sempre bem-aventurado: eis a bem-aventurança eterna; eis para o homem o princípio de uma vida que jamais acabará, de uma sabedoria que não conhecerá limites; a luz que o ilumina é a luz eterna (29)”.

“Os santos, lemos no Apocalipse, estão diante do trono de Deus e o servem dia e noite no templo; e aquele que está sentado no trono os cobrirá com a sua sombra. Nunca mais terão fome nem sede, nem o sol nem o calor os molestará, porque o Cordeiro, que está sentado no trono, os governará, os conduzirá às fontes de água viva e enxugará todas as lágrimas de seus olhos (Ap 7, 15-17). Eu sou o alfa e o ômega, o princípio e o fim, diz o Senhor pela boca de João; darei gratuitamente de beber a quem tiver sede da fonte da água da vida. Quem vencer receberá estes bens, e eu serei seu Deus, e ele será meu filho (Is 21, 6-7). Façamos festa e alegremo-nos, dizem os bem-aventurados, e demos glória a Deus, porque chegaram as núpcias do Cordeiro, e a esposa se preparou. Ó felizes aqueles que são chamados ao banquete das núpcias do Cordeiro!” (Ib. 19, 7-9).

“Vós me fizestes conhecer, ó Senhor, diz o Salmista, os caminhos da vida; cumulareis-me de alegria com a vossa face; delícias eternas estão à vossa direita (Sl 4, 11). Bem-aventurado aquele que escolhestes e chamastes para habitar em vosso santuário; seremos repletos dos bens de vossa casa (Sl 64, 5). Felizes os que habitam em vossa morada; eles vos louvarão por todos os séculos (Sl 83, 5) e cantarão eternamente as vossas misericórdias (Sl 88, 1). Os eleitos triunfarão na glória, triunfarão no lugar do repouso (Sl 149, 5). As vossas muralhas, ó Sião, são a morada de todos os que vivem na alegria” (Sl 86, 7).

“O santo, escreve São Bernardo, verá a Deus à sua vontade, fará dele as suas delícias, possuí-lo-á para sua felicidade. Estará cheio de força na eternidade, resplandecerá na verdade, alegrar-se-á na bondade. Assim como terá a eternidade por medida de sua existência, terá também a facilidade do saber e a felicidade do repouso. Será, como os anjos, cidadão daquela cidade santa da qual o Pai é o templo, Jesus Cristo é o sol e o Espírito Santo é o amor (30)”.

No céu realizam-se em toda a sua extensão as palavras de Deus a Moisés: “Eu te mostrarei todo o bem” (Ex 33, 19). E o que há lá em cima? “Há uma festa contínua, responde Santo Agostinho, uma eternidade sem defeito, uma serenidade sem nuvem (31)”.

O Anjo, antes de partir de junto de Tobias, disse-lhes: “Parecia que eu comia e bebia convosco, mas alimento-me de um alimento invisível” (Tb 12, 19).

“No céu, escreve São Bernardo, encontra-se a consumação da alegria e da felicidade; mas poder-se-á, por isso, dizer que o desejo foi consumado? Nunca; pelo contrário, ele é o óleo para a chama. O bem-aventurado estará repleto de alegria, mas seu desejo não terá fim, nem, por conseguinte, seu impulso para Deus. Daí aquela saciedade que não causa fastio, aquela curiosidade insaciável que não sente inquietação, aquele desejo eterno e inexplicável que não provém de necessidade, aquela sóbria embriaguez que se alimenta não de vinho, mas de verdade e, aspirando a Deus, suspira de amor (32)”. Lá em cima, diz o mesmo santo, veremos como o Senhor é doce; contemplaremos a magnificência de sua glória, o esplendor dos santos e a honra do poder do grande Rei. Conheceremos o poder do Pai, a sabedoria do Filho, a admirável clemência do Espírito Santo e, por isso, teremos da augusta Trindade um conhecimento perfeito (De praemio coelest. patr.).

As delícias celestes aguçam o apetite ao mesmo tempo que o satisfazem, porque, quanto mais delas se goza, tanto mais se aprecia a sua excelência, segundo estas palavras do Eclesiástico: “Quem de mim comer terá ainda fome; quem de mim beber terá ainda sede” (Eclo 24, 29). “Deus deu a cada eleito aquilo que há de bom; e quem se saciará ao ver a sua glória?” (Ib. 42, 26).

Fixemos os olhos na admirável sociedade dos anjos e dos santos.

De que inefável doçura não enche os eleitos a eterna visão de Deus! Tudo o que agrada, tudo o que é vantajoso, riquezas, prazeres, repouso, consolação, tudo se encontra no céu, pois como poderia faltar alguma coisa onde se vê e se goza de Deus, a quem nada falta? Os bem-aventurados veem a Deus e desejam jamais cessar de contemplá-lo, tal é a sua beleza; amam-no e desejam jamais deixar de amá-lo, tal é a sua dignidade e amabilidade. Possuindo a Deus, repousam nessa felicidade; unidos à verdadeira bem-aventurança, são sumamente felizes; contemplando o Ser eterno, tornam-se eles mesmos eternos; unidos à verdadeira luz, tornam-se luminosos.

São Tomás, interrogado no fim da vida se necessitava de alguma coisa, respondeu: Não necessito de nada, porque dentro em breve terei tudo, gozando do único e supremo Bem. A eternidade forma a coroa dos eleitos no céu, a felicidade é o seu vestido, suas palavras são uma harmonia; eles abraçam o Bem infinito, que os sacia.

Exultai, pois, ó felizes eleitos, porque vedes aquele a quem amais, alcançastes aquele por quem suspirastes longamente. Desperta, minha alma, e reaviva tua inteligência na meditação daquele grande bem que é Deus; pois, se todo bem é deleitável, como não o será imensamente mais aquele bem que encerra todos os bens; aquele bem que difere de todo outro bem criado tanto quanto o Criador dista da criatura? Se boa é a vida criada, que excelência não deve ter a vida criadora! Se preciosa é a saúde, como não o será cem vezes mais aquela que cura todo mal! Se nos causa admiração a sabedoria que descobrimos neste mundo visível, quão admirável não deve ser a sabedoria que fez tudo do nada! Se, enfim, saboreamos inumeráveis prazeres nos bens terrestres, que delícia infinita não experimentaremos ao possuir aquele que produziu tudo o que agrada?

Go­zar de Deus é naturalmente uma felicidade tão imensa que o coração humano não pode compreendê-la naturalmente; ele explodiria e se despedaçaria, se Deus não o conservasse. Com tal ímpeto da alma e com tal tensão de forças amam os eleitos a Deus, que seu coração é insuficiente para o seu amor; são tão felizes que sua alma não pode conter a superabundância da alegria. De três modos, na bem-aventurança eterna e perfeita, os bem-aventurados se alegram em Deus: 1º contemplando-o nas criaturas; 2º contemplando-o em si mesmos, o que é uma suavidade muito mais jubilosa; 3º contemplando a Trindade em si mesma, no que consiste a felicidade suprema; porque a vida eterna consiste em ver a Deus como ele é em si mesmo…

A paz de Deus, aquela paz que supera todo pensamento e é inexprimível por qualquer linguagem, reside na doce morada do céu. Ninguém, pois, tente expressar com palavras aquilo que a ninguém foi dado experimentar. Uma medida cheia, calcada e transbordante foi prometida por Jesus Cristo aos seus eleitos (Lc 6, 38).

Assim como o homem goza das coisas temporais com os seus cinco sentidos — visão, olfato, audição, paladar e tato —, assim também, de cinco maneiras, goza inefavelmente de Deus no céu: vê-o, compreende-o, saboreia-o, sente-o e abraça-se a ele num abraço eterno.

Contemplando o céu, Isaías diz: Vede a cidade das solenidades, a Jerusalém celeste, a morada da opulência (Is 33, 20). O profeta chama a Igreja triunfante: 1º cidade das festas, porque há no céu uma festa contínua e perpétua, uma alegria, um canto, uma harmonia que durarão por todos os séculos; 2º Jerusalém, que significa visão da paz; 3º morada da opulência, porque ali se encontram em abundância todos os esplendores, todas as riquezas, todas as glórias.

“Ó cidade santa, a iniquidade e a violência jamais percorrerão as tuas vias, a segurança habitará entre os teus muros, e as tuas portas ressoarão com cantos de alegria” (Is 60, 18). No céu não haverá lugar nem para a iniquidade, nem para a destruição, nem para a violência, mas reinarão em todos os eleitos a equidade, a santidade e a caridade em grau supremo. Muitas vezes, aqui embaixo, os inimigos assaltam os nossos muros e apoderam-se das nossas portas; muitas vezes a tribulação nos angustia, a fome nos aflige, as enfermidades nos atormentam, as lágrimas sulcam nossas faces, etc.…; mas no céu reinam a paz, a alegria, a felicidade, o júbilo; ouvem-se ressoar os louvores e os cantos de amor, etc.

Ouvi São Bernardo: Dizei-nos vós, ó Senhor, que o sabeis, o que nos preparastes! Teremos em abundância os bens da vossa casa; mas que bens? Talvez o vinho, o azeite, o trigo? Mas esses bens já os conhecemos, vemo-los e estamos deles nauseados. Ah! Nós procuramos aquilo que o olho humano jamais viu, nem o ouvido ouviu, nem a mente jamais compreendeu. Aqui embaixo, a razão muitas vezes se engana nos juízos que profere, a vontade é joguete de mil agitações, a memória é afligida por muitos esquecimentos; a vossa criatura, ó Deus, embora tão nobre e excelente, está sujeita, contra a sua vontade, ainda que com a esperança de ser libertada delas, a esta tríplice vaidade e miséria. Mas no céu, a plenitude da luz para o entendimento, a plenitude da paz para a vontade e a lembrança eterna para a memória satisfarão os desejos da alma. Ó verdade, ó eternidade, ó caridade! Ah, em que angustiantes penas, em que temores não cai aquele que se afasta de vós! Nós, desventurados, que trindade substituímos à Santíssima Trindade! Meu coração foi agitado por tendências contrárias, e daí me veio a dor; lembrei-me de que em muitas circunstâncias me faltaram as forças, e daí nasceu em mim o temor; a luz várias vezes se eclipsou para mim, e daí nasceu o erro. Ó trindade da minha alma, tu ofendeste a Trindade suprema; não te perturbes, porém, não desanimes: eu espero em Deus, pois ainda o louvarei quando o meu entendimento se subtrair para sempre ao erro, a minha vontade à dor, a minha memória à dor (Serm., II in Cantic.).

Eis o que diz o Senhor pela boca de Isaías: Meus servos serão saciados e dessedentados; dançarão e cantarão hinos de louvor na exultação do seu coração. Sua alegria estará naquele a quem deverão o seu glorioso nome; das suas primeiras tribulações não restará vestígio nem sombra. Criarei novos céus e uma nova terra; alegrai-vos, festejai eternamente, porque formarei uma nova Jerusalém, toda deleites, e um povo destinado à alegria. Amarei o meu povo e encontrarei a minha alegria em Jerusalém, onde já não se ouvirão gritos nem pranto (Is 65, 13-17). Tecendo o elogio de Santa Paula, São Jerônimo diz: Paula terminou a sua corrida, conservou a fé; agora está cingida com a coroa da justiça e acompanha o Cordeiro aonde quer que ele vá. E está saciada, porque teve fome, e, radiante de alegria, vai cantando: O que havíamos ouvido dizer, vemo-lo realizado na cidade do nosso Deus. Feliz mudança! Ela chorou para conquistar uma alegria eterna; rejeitou as águas lamacentas e envenenadas para dessedentar-se na fonte do Senhor; vestiu o cilício para ser digna de usar a veste imaculada dos eleitos e poder dizer: Vós, ó meu Deus, despistes-me dos meus trapos e me vestistes de alegria. Comia cinza misturada ao pão e bebia água misturada às lágrimas, repetindo: Bebi lágrimas dia e noite para alimentar-me eternamente do pão dos anjos e poder cantar:

Provai e vede quão doce e suave é o Senhor.

Regozijai-vos, diz Isaías, e exultai com Jerusalém, ó vós todos que a amais; uni-vos a ela na alegria. Sereis saciados de suas consolações, inundados pela torrente de suas delícias, envolvidos pelo esplendor de sua glória. Ouvi o que diz o Senhor: Derramarei sobre vós a paz como um rio, e a glória como uma torrente; carregar-vos-ei em meus braços e vos acariciarei sobre os joelhos, como crianças de peito. Como uma mãe consola seu filho, assim eu vos consolarei, e sereis consolados em Jerusalém. Vós vereis, e vosso coração se alegrará com isso (Is 66, 10-14).

Contá-los-ei entre meus filhos, diz o Senhor pela boca de Jeremias; dar-lhes-ei uma terra desejável, uma esplêndida herança. Eles me chamarão Pai e não cessarão de me amar (Jr 3, 19). A herança da pátria celeste é admirável, diz São Tomás: 1º pelo esplendor da visão divina, porque, diz o Salmista, “em vossa luz veremos a luz” (Sl 35, 9); 2º pela doçura do amor divino, segundo estas palavras de Davi: “Quão suave é o cálice que me embriaga” (Sl 22, 5); 3º pela familiaridade da convivência divina, dizendo a Sabedoria que “participar de suas conversas é aquisição de glória” (Sb 8, 18); 4º pela magnificência das obras de Deus, segundo as palavras do Eclesiástico: “Ali há obras grandes e admiráveis” (Eclo 43, 27); 5º pela altura à qual seremos elevados, como atesta Zacarias: “Eu vos salvarei, e sereis abençoados” (Zc 8, 13); 6º pela doçura que se saboreia na sociedade dos santos (3a p. q. 1, art. 3).

“No céu, diz Santo Agostinho, tudo é grandeza, tudo é verdade, tudo é santidade, tudo é eternidade (33).” 1º No paraíso gozaremos de uma felicidade eterna, de uma alegria imensa e sem fim. “Despe, Jerusalém, exclama o profeta Baruc, a veste do luto e da tristeza, e reveste o manto de decoro, de honra e de glória sempiterna que te vem de Deus” (Br 5, 1). 2º Os eleitos nadarão no esplendor da glória… 3º Receberão um nome novo… 4º No céu estão os exércitos dos santos.

“Quais serão as vossas delícias, ó amantes de Deus? — perguntava Santo Agostinho. — Deliciar-vos-eis na abundância da paz. Vosso ouro será a paz; vossa prata, a paz; vossas propriedades, a paz; vossa vida, a paz; vosso Deus, a paz; tudo quanto desejardes será paz. Ali, vosso Deus será tudo para vós; dele vos alimentareis para não ter fome; dele bebereis para não ter sede; por ele sereis iluminados para não vos tornardes cegos; por ele sereis sustentados para não cairdes. Ele vos possuirá inteiramente, e vós o possuireis por completo, pois vós e ele formareis uma só coisa (34).”

Ó vida, exclama o mesmo Doutor, ó vida que Deus preparou para aqueles que o amam, vida que é verdadeiramente a vida; vida feliz, vida segura, vida tranquila, vida desejável, vida pura, vida casta, vida santa, vida que não conhece a morte, vida sem tristeza, sem mancha, sem dor, sem inquietação, sem alteração, sem mudança, sem aflição; vida cheia de beleza e de dignidade: quanto mais medito em ti, tanto mais suspiro por ti! (Medit, c. XXII). Vida na qual “Deus será nossa morada e nós seremos a morada de Deus” (35).

No céu encontram-se: 1º uma alegria inenarrável, que jamais pode diminuir pelo tédio etc.; 2º a integridade de todas as faculdades da alma. A alma, em consequência do pecado de Adão, está sujeita, em seu entendimento, à obscuridade e à ignorância; em sua vontade, à fraqueza e à tendência para as coisas perecíveis; em sua sensibilidade, a diversos temores e espantos; em sua concupiscência, ao apetite do mal; em sua memória, ao esquecimento, que vai cobrindo o passado como a ferrugem cobre o ferro. No paraíso, Jesus Cristo cura todos esses males, dando ao entendimento a luz e a ciência; à vontade, a constância no bem; à sensibilidade, uma força heroica; à concupiscência, a honestidade e a retidão, pelas quais o homem tende somente ao bem; à memória, a lembrança eterna do bem e o eterno esquecimento do mal. 3º A saúde da alma, que será a glória, a visão e a posse de Deus…

12. OS CORPOS DOS ELEITOS PARTICIPARÃO, DEPOIS DA RESSURREIÇÃO, DA GLÓRIA DELES

“O corpo, diz São Paulo, é semeado corruptível e ressuscitará incorruptível; é semeado ignominioso e ressurgirá glorioso; é semeado fraco e ressuscitará vigoroso; é semeado corpo animal e ressuscitará corpo espiritual” (2Cor 15, 42-44),

Quatro qualidades tem a luz, ou delas participarão os corpos gloriosos: a clareza, a incorruptibilidade, a agilidade e a penetração… Os corpos dos bem-aventurados, diz Santo Agostinho, já não estarão sujeitos nem à deformidade, nem ao peso, nem às enfermidades, nem à corrupção. Sua clareza ou esplendor os preservará de toda deformidade; por sua agilidade, subtrair-se-ão a todo peso; por sua sutileza ou penetração, estarão livres de toda doença; pela impassibilidade, não conhecerão a corrupção (De Civ. Dei).

13. O CÉU DURARÁ ETERNAMENTE

“O Senhor habita no meio dela, não será abalada” (Sl 45, 6). “Os justos viverão eternamente”, acrescenta a Sabedoria (Sb 5, 16); “e o seu Deus reinará neles eternamente” (Ib. 3, 8).

A vida eterna, escreve São Bernardo, é plenitude: é um dia que não conhece ocaso, mas se mantém sempre em pleno meio-dia; é a verdadeira glória em todo o seu esplendor, a verdade eterna, a verdadeira eternidade, a eterna e verdadeira saciedade; sua duração não tem termo, seu esplendor não é obscurecido por nuvem alguma; aqueles que dela gozarem jamais temerão ser privados dela (Serm. in Psalm.).

“Se desejamos bens, diz São Gregório, amemos aqueles que possuiremos para sempre; e, se tememos os males, temamos os dos réprobos, que não terão fim (36).”

“Uma alegria eterna pairará ao redor da cabeça dos santos, diz Isaías, e seus olhos verão o tabernáculo que jamais será removido de seu lugar” (Is 33, 20).

A eternidade é a posse inteira, perfeita e infinita da vida. A eternidade é: 1° sem fim; 2° jamais interrompida; 3° inteiramente presente em cada instante de sua duração; 4° é o perfeito gozo da vida e de todos os bens. Nos bens desta vida há muitas imperfeições e carências; vós tendes, por exemplo, as riquezas, mas vos faltam as honras; sois honrado, mas não gozais de saúde; floresceis em vigor, mas sois ignorante; possuís a ciência, mas careceis de eloquência. Sentais-vos a um banquete e, quando tendes comido, eis-vos saciados, sem sabor, sem apetite. O vigor, a força da alma e do corpo enfraquecem e desaparecem bem depressa. Na vida eterna, ao contrário, os bem-aventurados gozam de todos os bens ao mesmo tempo; possuem as riquezas de Deus, as honras de Deus, a ciência de Deus, a força de Deus, as delícias de Deus; têm todos esses bens juntos e assim os terão por toda a eternidade. Portanto, jamais cessarão, nem por um instante, de ser felizes (Is 35, 10).

Que é a bem-aventurança eterna? Perguntemo-lo àqueles que a alcançaram e dela gozam. Pedro, Paulo, João, santos apóstolos, dizei-nos vós o que é a eternidade feliz? — Não nos é possível exprimi-la de modo a sermos compreendidos, e, no entanto, há mais de mil e oitocentos anos que dela gozamos. — Perdeste algum dia de vossa felicidade eterna? — Nem uma hora, nem um instante; ela é como se começasse agora, sempre nova, sempre deleitável, sempre a mesma, e ainda nos resta uma eternidade para dela gozarmos. — Mas que é, então, essa felicidade tão grande? — É o abismo das delícias, o abismo dos séculos; alegrias, tempos, séculos não verão nem termo nem limite; é o comprimento, a largura, a profundidade sem medida. Por sábios e prudentes que sejamos, não podemos compreender a nossa eternidade, nem medi-la; o nosso reino, a nossa alegria, a nossa glória, a nossa felicidade jamais verão o fim. Em suma, “um eterno e imensurável peso de glória, acima de toda medida, opera em nós” (2Cor 4, 17).

Mártires, confessores, virgens etc., dizei-nos quanto tempo durou a vossa provação e quanto sofrestes; qual é agora a vossa felicidade e até quando durará? — As nossas provações e sofrimentos não duraram senão um instante; a graça fez que nos parecessem leves, e a recompensa que nos coube não terá fim nem medida.

No céu há uma juventude eterna, uma beleza eterna, uma vida eterna, uma paz eterna, um amor eterno; e os eleitos somente deixarão de ser bem-aventurados quando Deus vir o fim de sua eternidade… Ó cidade de Deus, quantas coisas gloriosas se dizem de ti!

14. É FÁCIL IR PARA O CÉU

“As aflições tão leves e breves da vida presente, diz São Paulo, produzirão em nós um fruto eterno e imenso de glória sublime e incomparável” (2Cor 4, 17).

Sobre estas palavras consoladoras do grande Apóstolo, assim raciocina São Bernardo: Com que semblante continuareis a dizer: As penas são demasiado longas, demasiado esmagadoras; o ânimo não pode suportar por muito tempo tão grave peso? O Apóstolo afirma que é leve e momentâneo aquilo que sofreis, e, entretanto, certamente ainda não recebestes quarenta golpes de vara cinco vezes; não trabalhastes mais que todos os outros; não resististes valentemente até o derramamento de sangue. Pensai que as penas nada são em comparação com a glória. Com efeito, primeiramente, por que, na incerteza em que viveis, contais os dias e as horas? A hora passa, e com ela o sofrimento; as penas não estão ligadas umas às outras, de modo a formar um todo; sucedem-se e desaparecem. Assim não acontece com a glória e a recompensa; estas não conhecem diminuição nem fim e existem inteiramente em cada instante, porque são eternas. Em segundo lugar, a pena se esgota gota a gota, bebe-se aos goles, passa e não dura senão um instante; na recompensa, ao contrário, há uma torrente de delícias, um rio impetuoso que nos inunda de alegria; é um mar de júbilo, de paz, de prosperidade. Em terceiro lugar, não nos são prometidas ricas vestes nem magníficos palácios, mas a glória em si mesma; com efeito, os justos não esperam alguns gozos, mas a alegria em si mesma, e esperam-na toda inteira. Os homens buscam a felicidade em meio às pompas, às riquezas, aos festins e aos prazeres falazes; mas lágrimas amargas marcam o fim dessas alegrias supostas e, ademais, tão breves. Deus, porém, reserva aos seus eleitos não uma degustação, mas um favo inteiro de puro e dulcíssimo mel; guarda-lhes a alegria, a vida, a glória, a paz, o deleite, a grandeza e tudo isso para ser gozado no mesmo instante e por toda a eternidade! Vede a recompensa, vede a coroa que podemos conquistar ao preço de penas breves e leves (Serm. I).

“Tão grande é o bem que espero, cantava São Francisco de Assis, que toda pena me é deleite”.

“O reino dos céus está à venda, diz Santo Agostinho; se o quereis, comprai-o. Não tereis de suportar muitas penas, nem tereis de fazer coisas demasiado grandes para obter um bem tão excelso; não, ele não supera as vossas forças, e vós tendes precisamente aquilo de que necessitais para pagá-lo. Não olheis para o que tendes, mas para o que sois. O paraíso vale o que vós valeis. Dai-vos a vós mesmos, e o tereis. Se me disserdes que sois maus e que Deus não sabe que fazer de vós, respondo-vos: entregando-vos a ele, tornar-vos-eis bons; e, quando o fordes, sereis preço digno do céu (37)”.

Amar não é coisa difícil, pois o coração foi feito para amar. Ora, nós merecemos o céu pelo amor; o amor de Deus é a moeda com que podemos comprar para nós a coroa da glória. Por que somos tão insensatos? pergunta o Crisólogo; que sono é este que nos oprime; este esquecimento letal que nos entorpece? Por que não trocar a terra pelo céu? por que não comprar as riquezas eternas ao preço das transitórias e fugazes? por que não adquirir os bens imperecíveis, trocando-os pelos perecíveis? (Serm. CXXIV).

Ouvi ainda Santo Agostinho, que põe na boca do Senhor estas palavras: Aquilo que possuo está à venda; comprai-o. Mas o que é aquilo que Deus vende? O repouso, o paraíso. Como se paga por ele? Um repouso eterno deveria ser comprado com um trabalho eterno; mas, ó grandeza da misericórdia de Deus! Ele não diz: trabalhai um milhão de anos; nem mil anos; nem sequer cinquenta anos; mas somente: trabalhai durante o pouco tempo que viveis sobre a terra, e assim conquistareis o repouso que não terá fim (In Psalm. XCIII).

“As penas presentes, observa São Bernardo, nada são em proporção às culpas que nos são perdoadas, às graças e consolações que nos são concedidas e, finalmente, à glória que nos é prometida (38)”.

Perguntai aos eleitos se o céu lhes custou caro; os sofrimentos por eles suportados podem comparar-se à felicidade, à glória, à sua coroa eterna… Perguntai aos réprobos, se porventura Deus lhes permitisse voltar à terra para fazer penitência e conquistar o céu, se lhes pareceria demasiado dura essa permissão…

15. MEIOS PARA GANHAR O CÉU

1° É preciso desejá-lo. — O primeiro meio para chegar ao céu consiste em desejá-lo. “Quando, afinal, exclamava o Doutor de Hipona, chegarei a apresentar-me diante do meu Deus, a contemplá-lo na santidade de seus eleitos, a alegrar-me no meio de seu povo, para louvá-lo em seu reino? Quando verei aquela cidade da qual está escrito: De ouro puro são calçadas as tuas praças, ó Jerusalém; os teus habitantes cantarão o cântico da alegria, e pelas tuas ruas se ouvirá um eterno hosana? Ó cidade santa, ó cidade bela, de longe eu te saúdo, suspiro por ti, clamo a ti: desejo ver-te e repousar em ti; mas o fardo da carne me impede! Ó cidade desejável, os teus muros são de uma só pedra, o teu guardião é Deus, os teus cidadãos estão sempre em festa, porque são sempre bem-aventurados pela visão de Deus (39)”.

“Combati valorosamente, dizia o Apóstolo, terminei a minha carreira, conservei a fé. Resta-me apenas esperar a coroa da justiça, que o Senhor, justo juiz, me prometeu e me dará no grande dia: não somente a mim, porém, mas também a todos os que amam e invocam a sua vinda” (2Tm 4, 8).

“Esperamos impacientemente e apressamos com nossos votos o dia do Senhor, escrevia São Pedro; aguardamos, confiantes em sua promessa, novos céus e nova terra, onde habita a justiça.

Por isso, ó caríssimos, estando na expectativa dessas coisas, cuidemos para que o Senhor nos encontre puros, irrepreensíveis e em paz” (2Pd 3, 12-14).

“Quem me dará asas? exclama o Salmista, e voarei como uma pomba para o ninho” (Sl 54, 7). “Que espero eu no céu, e o que te pedi sobre a terra, ó Senhor? Senti faltarem-me as forças e o ânimo, ansiando por ti, ó Deus do meu coração, por ti, minha herança para sempre” (Sl 72, 24-25). “Como são amáveis os vossos tabernáculos, ó Senhor! A minha alma desfalece de desejo de encontrar-se na casa de Deus. O meu corpo e a minha carne exultaram no Deus vivo. O pardal e a pomba encontram um ninho onde abrigar os seus filhotes; a minha morada e o meu refúgio são os vossos altares, ó meu Rei e meu Deus! Bem-aventurados os que habitam em vossa casa e que vos louvarão pelos séculos” (Sl 83, 1-5).

“Ora, se é tão doce esperar o céu, que será possuí-lo!” exclama Santo Agostinho (40). “Ah! Não permitam os desejos terrenos, acrescenta São Leão, que as nossas almas, chamadas ao céu, permaneçam pregadas à terra; nem deixem as coisas perecíveis acorrentados aqueles que estão destinados às eternas (41)”.

2° Conservar-se puros. — O segundo meio para chegar ao paraíso consiste em conservar-se puros. Os filhos deste século, diz o Salvador, tomam esposa, e as filhas se casam; mas aqueles que forem dignos do século vindouro e da gloriosa ressurreição não mais contrairão matrimônio nem morrerão, porque serão semelhantes aos anjos (Lc 20, 34-36).

Como a vida aqui embaixo é ceifada pela morte, procura-se ter descendentes; o pai quer perpetuar a sua vida na vida dos filhos; mas no céu, diz o Crisóstomo, não havendo mais morte, consequentemente também não haverá mais casamento (42).

“Nada de maculado entrará nos céus”, diz São João, e São Paulo escrevia que “nem os impuros alcançarão o reino dos céus, nem a corrupção se irmanará com a incorruptibilidade” (Ap 21, 27; Gl 5, 21; 1Cor 15, 50).

“Bem-aventurados os que têm o coração puro”, disse Jesus Cristo, “porque verão a Deus” (Mt 5, 8); e São João viu o Cordeiro sobre o monte Sião, rodeado por aqueles que traziam escrito na fronte o nome dele e o do Pai. E ouviu uma voz do céu, que era como o som de muitos harpistas; e eles cantavam diante do trono um cântico novo, que ninguém podia cantar, exceto aqueles que são sem mancha, porque são virgens; e estes seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá (Ap 14, 1-5).

3° Fazer violência a si mesmo. — É sentença de Jesus Cristo que “o reino dos céus sofre violência e somente os violentos o arrebatam” (Mt 11, 13). 1) Tende-se ao céu e conquista-se pela força, e esta força é a força da graça, não a da natureza; 2) chega-se a ele refreando as paixões pelo exercício das virtudes; 3) chega-se a ele pelo combate seguido da vitória; 4) chega-se a ele vivendo como os anjos, porque a morada dos anjos é o céu, e nós só o obteremos tornando-nos semelhantes a eles.

“Façamos violência ao Senhor, diz Santo Ambrósio, com o pranto, não com as mãos; supliquemos a ele com lágrimas, não o provoquemos com injúrias; gemamos por humildade, não blasfememos por orgulho. Ó feliz violência, que não atrai a indignação, mas alcança a misericórdia! Feliz, digo, porque obtém provas de bondade daquele contra quem é feita e reverte em benefício de quem a pratica; pois quanto mais violento alguém se mostra assim para com Cristo, tanto mais piedoso será tido por Cristo. Assaltemos o Senhor pelo caminho, sendo ele o caminho, e, à maneira de salteadores, esforcemo-nos por despojá-lo de seus bens; vejamos se lhe arrebatamos o reino, os tesouros, a vida. E ele é tão rico e generoso que não opõe nem recusa nem resistência; e, depois de nos ter cedido tudo, ainda possui tudo integralmente. Nós o assaltamos não com armas, com o bastão ou com pedras, mas com a mansidão, com as boas obras, com a castidade; estas são as armas que a nossa fé deve empregar no assalto. Mas, para que possamos servir-nos delas e manejá-las com bom êxito, devemos antes de tudo subjugar pela força os nossos corpos, dominar os vícios dos membros para alcançar o prêmio das virtudes; devemos primeiro reinar sobre nós mesmos, se queremos apoderar-nos do reino do Salvador (43)”.

O reino dos céus deve ser tomado de assalto, e dele não se apodera senão aquele que à força lhe dá a escalada. O paraíso está no alto…, o caminho que conduz a ele é estreito…, espinhoso…, cheio de perigos…, de inimigos…, de emboscadas…; debruça-se sobre abismos espantosos… etc. Observai o que fizeram os mártires… Violenti rapiunt illud. Se, por uma fumaça de ambição, de glória, de honra, o soldado manifesta uma energia, uma coragem heroica; se, para conquistar uma coroa perecível, enfrenta mil espécies de morte, com quanto zelo, força e constância não deve o cristão empenhar-se para obter uma glória eterna, uma coroa imperecível?

A Jerusalém celeste é chamada por Isaías de “cidade da força” (Is 26, 1): 1) porque é preciso força e coragem para entrar nela; ninguém entra ali sem essas duas virtudes; o céu é a pátria dos homens fortes e robustos; 2) porque ela mesma é muito bem fortificada; e quereis saber como é defendida? Ouvi Isaías dizer-vos que o próprio Senhor é o seu muro de proteção e o seu baluarte (Is 26, 1): ela é como a torre de Davi, coroada de ameias e revestida de toda espécie de armadura de finíssimo aço (Ct 4, 4). É preciso, portanto, uma coragem a toda prova para assaltá-la e penetrar nela. “Às grandes recompensas não se chega, diz São Gregório, senão passando por grandes trabalhos; por isso São Paulo, valoroso atleta, pregava: Não será coroado senão aquele que tiver combatido com denodo. Assim, a grandeza do prêmio atraia a nossa alma, mas não a desanime a dureza da laboriosa luta (44.)”. Esforçai-vos, dizia também Jesus, para entrar pela porta estreita (Lc 13, 24). Esforçai-vos, isto é, armai-vos, correi, suai, extenuai-vos, lutai até que tenhais forçado a entrada e chegado ao porto da suprema felicidade, da vida eterna.

4° Vencer e perseverar com paciência. — “Sede fiéis até a morte, e eu vos cingirei com a coroa da vida”, diz Jesus Cristo no Apocalipse (Ap 2, 10). “Ao que vencer, darei como prêmio sentar-se comigo no trono; assim como eu, que venci, sentei-me com meu Pai no seu trono” (Ap 3, 21).

Jesus Cristo nos oferece a coroa da glória celeste; coloca-a diante dos nossos olhos e, para nos estimular a conquistá-la, chama-a por diversos nomes e títulos: “ora é a árvore da vida, ora o maná escondido; aqui, uma pedra preciosa; ali, uma veste branca; às vezes, um nome novo; outras vezes, a estrela da manhã, etc.… Avante, pois, atletas de Jesus Cristo, combatei como bravos, arrebatai o céu. Esquecei, à imitação do grande Apóstolo, aquilo que deixastes para trás e lançai-vos para o objetivo da vossa vocação divina. Nenhum trabalho vos pareça demasiado longo, nenhuma dor demasiado ardente, pois vos é prometido o céu, a coroa celeste, a eternidade bem-aventurada… Do mesmo modo, diz o Apocalipse que Jesus Cristo tinha um arco e uma coroa, e partiu, vencendo e para vencer (Ap 6, 2). Eis o que deve fazer todo cristão, se tem a peito alcançar o céu.

“Tende paciência, disse ainda Jesus Cristo, e eu vos recompensarei por tudo”, isto é, pagarei todas as vossas penas (Mt 18, 26); e nos Atos dos Apóstolos lemos que São Paulo fortalecia os discípulos e os animava à paciência, “pois por muitas tribulações, dizia-lhes ele, deve passar quem quiser entrar no reino dos céus” (At 14, 24),

5° Estudar os exemplos dos Santos e particularmente os dos mártires. — Que grande bem é o céu, que a esperança nos assegura!, exclama Santo Agostinho; gloriosa coisa é merecê-lo, doce possuí-lo, pois, para merecê-lo, os mártires desprezam as ordens injustas dos perseguidores e não temem nem a espada, nem o fogo, nem toda espécie de morte mais ignominiosa! (De civit. Dei).

“Quem são estes, diz o Apocalipse, que aparecem vestidos de vestes brancas, e de onde vêm? São aqueles que vieram passando por grande tribulação e lavaram e alvejaram suas vestes no sangue do Cordeiro; por isso estão diante do trono de Deus” (Ap 7, 13-15).

Nós sofremos por Jesus Cristo, diziam os mártires; somos dilacerados por pentes de ferro, despedaçados pelos dentes das feras, rasgados por açoites armados de pontas agudas, decepados pela espada, queimados vivos pelo fogo; nossos membros são torturados, os ossos deslocados, os nervos estirados; mas em breve virá o sol da justiça, o juiz cheio de equidade, que endireitará, curará e cercará de glória eterna as nossas carnes queimadas, dilaceradas, feitas em pedaços, devoradas; num instante, a nossa alma vai gozar de Deus. Tal era o teu pensamento, ó São Lourenço, quando, estendido sobre uma grelha de ferro incandescente, rias-te dos teus carrascos. Pensavas no céu, ó São Vicente, quando triunfaste, com a paciência, a doçura e a generosidade, não somente sobre os tormentos, mas também sobre o próprio cruel Daciano, teu tirano e algoz. Tinhas os olhos voltados para a glória eterna, ó Santa Cristina, quando, torturada por teu pai idólatra, lhe dizias, atirando-lhe os pedaços das tuas carnes: Retoma, ó tirano, a carne que geraste.

Por vós, ó Jesus, dizem os penitentes, amamos os jejuns, as vigílias, os cilícios, a disciplina; por vós nos mortificamos noite e dia, porque esperamos a ressurreição da carne e sabemos que esta carne, hoje magra, lívida, maltratada e quase morta, nos será restituída sã, bela, viçosa e resplandecente. Então reformareis, ó Senhor, estes corpos que mortificamos e os fareis semelhantes ao vosso; então direis às nossas almas: “Porque vos mantivestes fiéis no pouco, eis que vos constituo senhores de imensos bens; entrai na alegria do vosso Senhor” (Mt 25, 21).

Nós choramos, dizem os verdadeiros fiéis, feitos aqui embaixo alvo das tribulações, expostos às provações, sempre com as armas em punho contra os assaltos da carne, do mundo e do demônio; as provas nos tentam, as aflições nos assediam; suspiramos e gememos. Ah! Senhor, resplandeça finalmente sobre nós a aurora da salvação; desapareçam como sombras as enfermidades presentes; erga-se no horizonte o sol da eternidade e cesse a noite do tempo, para que sejamos livres para sempre dos escrúpulos, dos temores, das angústias, das fraquezas, das tentações, das dores, dos sofrimentos, e a serenidade, a paz, a força, a alegria e a felicidade lhes sucedam pelos séculos dos séculos…

6° Usar do mundo como se dele não usássemos. — Paulo Orósio, um dos amigos de Santo Agostinho, dizia: Eu me sirvo por algum tempo da terra, mas não como da minha pátria, porque a verdadeira pátria que amo não é a terrena. Não estou ligado a coisa alguma daqui de baixo e creio possuir tudo quando tenho comigo aquele a quem amo: ele é o mesmo para todos e não abandona pessoa alguma; ele está em toda parte e tudo lhe pertence (In Vita).

É preciso morrer para todas as coisas presentes; viver de Deus, calcar aos pés tudo o que é vaidade, aspirar ao que é sólido e real, olhar com indiferença para os bens terrenos, ter o coração voltado para os celestes, morrer para o mundo e viver para Deus, morrer para o tempo e viver para a eternidade… Ó homens, clama São Pedro Crisólogo, se pensais viver eternamente sobre a terra, empregai nela todo o vosso trabalho; mas, se por amor ou à força deveis partir, por que vos desgastardes em torno dela e lhe deixardes o que vos pertence, a alma, o coração, a vontade, a memória etc.? (Serm. CXXIV).

7° Meditar sobre o que é o céu. — Elevai o olhar ao céu, diz São Cirilo; vivei de sua lembrança, como um viajante que tende à meta; seja ele o objetivo de vossos suspiros, de vossos desejos, de vossos esforços; sejam vossos pensamentos e vossas obras dignos do paraíso. Se uma pena vos entristece, se uma tentação vos molesta, se uma pesada cruz vos oprime, elevai os olhos à cidade celeste e dizei: Suportarei toda prova, por maior que seja, e dela sairei vitorioso. Desse modo se vai ao céu (Catech. 3, 4).

Também Sêneca exortava a elevar a alma às coisas celestes, a admirar aquilo que é verdadeiramente sublime (45).

Ah! o pensamento do céu restaura a coragem abatida, faz perseverar os bons e conduz os pecadores ao arrependimento…

8° Santificar-se. — Quem quer assemelhar-se a Jesus Cristo na glória, procure imitá-lo na santidade, na virtude, no amor… “Meus queridos, diz São João, nós somos agora filhos de Deus; mas ainda não temos ideia do que seremos um dia. Sabemos que, quando Jesus Cristo vier em sua glória, seremos semelhantes a ele, porque o veremos tal como é. E todo aquele que tem nele esta esperança santifica-se, assim como ele mesmo é santo” (1Jo 3, 2-3). Por isso escreve belamente Santo Agostinho: “Os justos ascendem ao sumo bem por meio de uma cadeia de virtudes formada assim: antes de tudo, a fé abraça a alma como um anel precioso; a fé alimenta-se da esperança, a esperança une-se ao amor, o amor exerce-se nas obras, a obra une-se ao sumo bem por meio da intenção, a boa intenção cumpre-se com a perseverança, e a perseverança tem por termo a Deus, fonte e meta de todos os bens (46)”.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.