Nada é tão repetido e inculcado nos salmos de Davi quanto esta prescrição: “Cantai louvores ao nosso Deus, cantai, celebrai o Senhor, nosso rei, porque Deus é o rei de toda a terra; cantai com sabedoria” (Sl 46,7-8). “Reinos da terra, cantai louvores a Deus, cantai salmos ao Senhor, cantai Aquele que sobe ao mais alto dos céus” (Sl 67,33-34). “Entoai salmos, tocai o tambor, o doce saltério juntamente com a cítara… no dia de vossas solenidades, porque tal é o mandamento dado por Deus a Israel” (Sl 80,2-4). “Cantai ao Senhor um cântico novo; que toda a terra entoe hinos em louvor de Deus” (Sl 95,1). “Cantai ao Senhor um cântico novo, porque ele fez coisas maravilhosas. Louvai-o e fazei ressoar em vossos instrumentos os seus prodígios” (Sl 97,1; 104,2).
“Há entre vós quem esteja triste?, diz São Tiago; que ore. Está tranquilo? Salmodie” (Tg 5,13). Tanto na melancolia como na alegria, uni a oração ao canto e o canto à oração. Cantar é como rezar. O canto conserva e aumenta a alegria, convida a rezar e a glorificar a Deus.
A Igreja, pois, introduziu o canto e a salmodia em suas festas pelas seguintes razões: 1° para que os fiéis sejam estimulados ao amor de Deus…; 2° para que todos sejam um só espírito e um só coração, do mesmo modo que as diversas vozes se unem para compor uma só e doce harmonia: é uma reflexão de Santo Atanásio (1); 3° para que, com a suavidade do canto, como diz São Basílio, os espíritos se tornem capazes de receber com maior avidez a força e a eficácia dos divinos oráculos (2).
São Cipriano acrescenta a 4ª, que é imitar os Anjos e os Serafins, os quais cantam continuamente hinos em louvor do Senhor e repetem sem cessar: “Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus Altíssimo”, como lemos em Isaías (Catech. XIII).
“O canto, escreve Santo Agostinho, é o porta-estandarte da paz, um incenso espiritual, o exercício dos espíritos celestes; reprime a desenfreada licença, conduz à sobriedade, move às doces lágrimas (3). É o tesouro da doutrina divina posta em comum, um alívio da alma quando molestada pelas paixões (4). Ressoando o canto, os cegos serão iluminados, os surdos ouvirão, os paralíticos se moverão, os coxos caminharão, os enfermos serão curados, os mortos ressuscitarão. Faça a música ecoar as suas harmonias e desperte em nós o desejo e o amor das coisas divinas; dissipe o nosso langor espiritual, fira, açoite, crucifique, sepulte em nós o homem velho. Eis por que os Santos que sofreram o martírio, que mortificaram a própria carne e imolaram as paixões, cantam sobre a harpa diante do Cordeiro, como diz o Apocalipse (XIV, 2-3; AUGUST. In Psalm. XXXVI).
São Basílio parece não encontrar palavras suficientemente próprias para indicar as vantagens do canto; ouvi como se exprime (5): “O canto é o repouso da alma; um princípio de paz; acalma o tumulto e a agitação dos pensamentos; abranda a ira. Prepara os homens para se amarem, reconcilia os dissidentes, reconcilia os inimigos, pois quem ainda considerará inimigo aquele com quem se uniu para louvar a Deus com uma só voz? O canto põe em fuga os demônios, atrai os Anjos da guarda; dá segurança em meio aos temores noturnos e descanso no meio dos trabalhos do dia. É proteção para o menino, ornamento para o jovem, alívio para o ancião, honestíssimo adorno para as mulheres, elemento de perfeição para os principiantes, acréscimo para os que progridem, coroa para os perfeitos. O canto é a voz da Igreja, parte indispensável de suas solenidades, torna belo até o deserto; constitui a ocupação dos Anjos, o espiritual embelezamento da república celeste”.
O canto, acrescenta São João Crisóstomo, é a santificação da alma, a suave harmonia do espírito, flecha fulgidíssima contra os demônios; não fogem tão velozmente os cervos às flechas dos caçadores quanto os demônios aos salmos davídicos. Mal Davi toca a corda da harpa, “‘já o espírito maligno se apartou de Saul; ele cai como cervo ferido de morte (6)”. “O canto traz deleite e utilidade. Sua principal vantagem consiste em dar louvor a Deus, purificar a alma, elevar o pensamento, proclamar os dogmas com concisão e pureza, ensinar com retidão as coisas presentes e futuras. Aquele que canta, ainda que distraído, se cantar com respeito, mantém sob freio a vivacidade de sua distração; se está abatido pela melancolia e pelas desgraças, sente-se elevado pelo prazer do canto, que recreia o ânimo, serena o pensamento e eleva a mente ao Céu (7)”. Finalmente, o mesmo Doutor, no Prefácio ao Salmo 41, não teme afirmar que nada eleva tanto a alma, nada a liberta dos grilhões do corpo, nada a enche tanto do desejo da sabedoria, nada exprime mais adequadamente o seu desprezo pelos frágeis bens do mundo e a faz progredir no amor da virtude, quanto o canto religioso, piedoso e bem executado. Por isso, o próprio Deus compôs os salmos, os hinos e os cânticos; e quer que sejam cantados e tragam utilidade e prazer ao homem.
Por isso, como observamos, a Igreja usa o canto e a música em seus ofícios divinos. Ela visa a despertar nos fiéis a devoção, a energia do espírito, a alegria, e a estimulá-los a servir a Deus e a combater Satanás. Esses divinos efeitos do canto havia experimentado Santo Agostinho, que dizia: “Quantas lágrimas não derramaram os meus olhos ao som daqueles hinos e cânticos que, modulados suavemente pela boca da Igreja, penetravam até o fundo da minha alma!
Enquanto aquelas vozes feriam exteriormente o tímpano dos meus ouvidos, a verdade batia interiormente em meu coração e nele acendia o afeto da piedade: eu chorava; e, oh, quão caras e deliciosas eram as minhas lágrimas! (8)”. Por isso, ele teria desejado poder salmodiar e cantar os louvores do Senhor em todo o mundo, para despertar o gênero humano do sono e do torpor (Confess. Lib. 9, c. IV).
Lemos na Vida dos Padres que o demônio não teme nenhuma outra oração tanto quanto a salmodia, e Sofrônio indica a razão, dizendo que nela ora pedimos e invocamos a Deus por nós mesmos, louvando-o; ora, com imprecações e maldições, perseguimos o demônio (Prato Spirit. c. CLII).
O canto, observava São Justino, conduz insensivelmente a nobres aspirações; acalma a concupiscência e extingue os desejos carnais, expulsa os maus pensamentos, dá aos generosos combatentes força e constância nas duras provações; fornece às almas piedosas um remédio que alivia e cura os males da vida (Quaest. CVII, ad orth.).
Ele consola, diz Santo Isidoro, os corações tristes e abatidos, alegra a alma, dissipa o tédio, estimula os indolentes, convida os pecadores ao arrependimento. Pois, por mais duro que seja o coração humano, assim que ouve a doce melodia do canto, logo se sente movido a sentimentos de piedade. O coração fica, não sei como, muito mais enternecido pela modulação do canto do que por qualquer outra coisa; veem-se muitos que, arrebatados pela beleza e suavidade do canto, choram os seus pecados (Sentent. lib. 7, c. 7).
Ao unânime concerto dos Padres acima citados une-se Santo Ambrósio, que chama o canto de voz das bênçãos do povo, glorificação de Deus, modo caríssimo de louvá-lo, aplauso geral, ensinamento apropriado a todos, voz da Igreja, ato sonoro de fé, de esperança e de amor, devoção atraente, acento jubiloso da liberdade, expressão da alegria, pública demonstração de felicidade, arma contra o poder das trevas, escudo contra o temor, mestre assíduo, prazer dos santos, imagem da alegria, penhor da paz e da concórdia. O canto refreia a cólera, bane a inquietação, expulsa os pensamentos sombrios e dissipa as tentações de desespero (Praef. in Psalm.).
Os Serafins foram ouvidos por Isaías cantando em coros alternados: Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos exércitos; cheia está a terra da sua glória (Is 6, 3). Eis por que São João Damasceno ensina que a Igreja imitou o coro dos Serafins, estabelecendo o canto alternado. O canto e a salmodia constituem, pois, a ocupação dos Anjos; aqueles que cantam cooperam com os espíritos celestes e unem a sua voz à deles.
Quando o Anjo anunciou aos pastores de Belém o nascimento de Jesus Cristo, Salvador do mundo, eis que logo se colocou junto dele um exército de espíritos celestes, os quais, soltando a língua em suaves harmonias, cantavam: “Glória a Deus nas alturas dos céus, e paz na terra aos homens de boa vontade” (Lc 2, 13-14).
Depois da passagem do Mar Vermelho e do prodigioso triunfo sobre os seus inumeráveis e ferozes inimigos, cheios de alegria, Moisés e o povo judeu entoaram, em ação de graças a Deus, aquele magnífico cântico que se lê no capítulo XV do Êxodo: “Demos glória ao Senhor, porque Ele se exaltou gloriosamente; lançou ao mar o cavalo e o cavaleiro, etc.”
Lê-se no Eclesiástico que Davi estabeleceu cantores diante do altar e que ele mesmo unia o som da harpa aos seus harmoniosos cantos (Eclo 47, 11); e, em outra passagem, o autor sagrado diz que os cantores faziam ouvir seus cânticos e enchiam o templo de doce harmonia (Ibid. 50, 20).
Não cantou também a Beatíssima Virgem, quando entoou o sublime cântico do Magnificat?
“Vós sois sempre, ó Senhor, exclamava o Salmista, o objeto de minhas bênçãos. Floresça continuamente em meus lábios o louvor, para que eu não cesse um instante de exaltar e cantar a vossa grandeza e glória” (Sl 70, 7-8). Ah, sim! “Eu vos louvarei, Senhor, enquanto tiver alento” (Sl 145, 2).
Uma vida santa é um canto perpétuo, uma contínua e suavíssima harmonia…
“Bem-aventurado o povo, exclama Davi, que sabe cantar os vossos louvores, ó Senhor! Ele caminhará à luz da vossa face, alegrar-se-á todo o dia em vosso nome e, mediante a vossa justiça, será exaltado; porque Vós sois a glória da sua força” (Sl 88, 15-17).
Canta um sublime e jubilosíssimo hino diante de Deus e dos homens aquele que louva o Senhor tanto na prosperidade como na adversidade. Se estais na abundância, diz Santo Agostinho, dai glória a Deus com um cântico de ação de graças; se estais na indigência, ou se, por algum revés, vos encontrais despojado de vossa posição, cantai ainda com confiança; contai com Deus, e que as fibras de vosso coração falem a Ele como as cordas de um instrumento; que Ele vos acompanhe como uma harpa sonora e harmoniosa, quando disserdes com Jó: “O Senhor mo deu, o Senhor mo tirou; aconteceu como aprouve ao Senhor; bendito seja o seu santo Nome” (Jó 1, 21).
“Instruí-vos e exortai-vos mutuamente, escrevia São Paulo aos Colossenses, com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando de coração, com edificação, os louvores de Deus” (Cl 3, 16). In gratia, isto é, com recolhimento, respeito e devoção: In cordibus, isto é, recordando os benefícios divinos.
“Cantai com sabedoria” (Sl 46, 8), acrescenta o Salmista, o que quer dizer: seja o vosso canto acompanhado pela sabedoria e pela bondade da conduta.
E ainda o mesmo Salmista dizia: “Eu vos celebrarei com meus cânticos, ó Senhor, diante dos vossos Anjos” (Sl 137, 1).
Por isso, Santo Agostinho nos admoesta “a cantar de tal modo que haja em nós o desejo de agradar a Deus. Pois quem é animado por esse desejo, ainda que a língua se cale, canta com o coração; ao contrário, permanece mudo diante de Deus aquele que não nutre tal desejo, por maior que seja a harmonia com que acaricie os ouvidos dos homens (9)”. Entoa um canto delicioso aquele que harmoniza a voz com a vida e os costumes. Terminado o canto, a voz deixa de ressoar, mas a boa conduta nunca se cala; ela louva, bendiz e adora a Deus continuamente.
A Voz é um dom de Deus; portanto, é preciso consagrá-la a Ele… Ai daqueles que a prostituem com cantos ímpios, irreligiosos, obscenos e escandalosos… Este é um mal gravíssimo… E o insensato que profana sua voz, entoando hinos ao vício e à impudicícia, terá de prestar rigorosas contas no tribunal de Deus…