A palavra honra deriva, segundo Santo Isidoro, do vocábulo latino onus, peso, carga; ou melhor, o onus (carga) deriva de honor (honra) (Sentent.).
«Quem se gloria, glorie-se no Senhor», diz São Paulo (2Cor 10, 17). Isto nos diz que a verdadeira glória, a sincera honra, encontra-se somente em Deus e com Deus. O Sábio diz que «a mais alta honra consiste em seguir o Senhor» (Eccli. 23, 38); e São Bernardo sentencia que servir a Deus é um verdadeiro reinar (Serm. 7, in Psalm.), 1° porque não há ofício mais nobre que o de servir ao Rei dos reis, que é a nobreza, a grandeza por essência, a divina e suprema majestade…; 2° esse serviço nos torna semelhantes a Deus…; 3° Deus recompensa com a glória celeste aqueles que o servem e os estabelece reis do universo, segundo estas palavras do Apocalipse: «Tu nos fizeste reis e sacerdotes para o nosso Deus, e nós reinaremos sobre a terra» (Ap 5, 10).
«Uma boa fama…, um verdadeiro bem-estar… e um nome sem mácula valem mais que toda riqueza», lemos nos Provérbios (Pr 15, 30; 22, 1). Uma boa reputação deve ser preferida a todas as riquezas, porque as riquezas são terrenas, transitórias, muitas vezes acompanhadas de tormentos, enquanto o bom nome é um tesouro da alma, uma riqueza espiritual, sólida e duradoura. Por isso, o Ecclesiastico nos admoesta a ter grande cuidado com a boa fama, sendo este bem muito mais duradouro que mil tesouros (Eccli. 41, 15). Um nome honrado vale mais que todos os bens do mundo. Por isso, o Salmista, entre os mais graves castigos infligidos ao malvado, conta o fato de o Senhor lhe ter apagado o nome para sempre e feito que sua memória se perdesse (Sl 9, 5, 71).
«Há três coroas, diz Simão; a coroa da lei, a coroa do sacerdócio, a coroa do império, mas muito mais ilustre e preciosa que todas estas é a coroa da boa reputação (1)».
São João Crisóstomo observa que não são os grandes monumentos, as colunas, os títulos, que proporcionam fama honrada e duradoura, mas o exercício de virtudes heroicas e, principalmente, da caridade e da esmola; pois tudo isso é caduco e vão, ao passo que as virtudes são algo verdadeiro e estável; estas são santas e celestes, enquanto os títulos muitas vezes andam unidos ao delito, e mais frequentemente ainda às vaidades e à soberba. Não é, portanto, buscar boa fama colocá-la nos títulos e nas colunas, mas não raro difamar-se e aguçar a língua daqueles que olham, para as sátiras, as contumélias e os sarcasmos. Se desejais uma honra eterna, uma memória imperecível, eu vos indicarei um caminho pelo qual chegareis ao ápice do louvor, da reverência e da exaltação; um segredo que vos dará imensa confiança para o século futuro; um meio pelo qual vossa memória permanecerá sempre viva e sereis celebrados por toda a eternidade: e isto consiste em elevar abrigos para os pobres, colocar vosso dinheiro nas mãos dos necessitados; tereis, além disso, o cêntuplo no céu. Deixai os mármores, os palácios, as vilas; construí sobre a esmola e edificareis para a eternidade. Esta é a memória imortal; memória que vos enriquecerá infinitamente e para sempre, e jamais será esquecida, nem por Deus, nem pelos homens. Pensai naquelas palavras que serão ditas de vós: Este homem é misericordioso, bom, caridoso, dócil, liberal, generoso em dádivas. «Distribuiu e deu aos pobres, diz o Salmista, sua memória durará eternamente» (Sl 111, 8). Num dia, no dia desta vida, deu suas riquezas, e sua justiça será eterna, e sua memória o torna imortal. Vedes a honra que resplandece sobre ele por todos os séculos? Vedes sua memória, repleta de grandes e inefáveis bens? Procuremos, pois, gravar nossa lembrança sobre semelhante edifício, porque inscrever o próprio nome sobre a pedra não serve para nada, senão para nos expor às mordidas e dilaceramentos. E, entretanto, nós deixamos bem depressa estes lugares inferiores, levando conosco os pecados que cometemos, e deixamos aqui nossos edifícios e nossa fortuna; deixamos uma memória fria, inútil, desprezada; nosso nome logo se extingue e passa a outros. Observai Tabita; é generosa nas esmolas, e todos os séculos celebram seu nome. Ora, se também desejais uma boa fama, imitai esta mulher célebre pela virtude: erigi monumentos para vós nos corações dos homens, não sobre as pedras, e então tereis monumentos do mesmo gênero que vós, pois não há nenhuma semelhança entre vós e a pedra. A sólida e verdadeira honra encontra-se somente na virtude (Hom. 30, in Gen.).
Também eram dessa opinião os homens mais sensatos da antiguidade pagã. Interrogado, por exemplo, Diógenes sobre quais fossem as pessoas mais honrosas e honradas, respondeu: «Os que desprezam as riquezas, a glória, os prazeres, a vida, e aqueles que mostram não temer a pobreza, a obscuridade, a miséria e a morte (2)». Catão recomendava conservar a boa fama, ainda que fosse necessário sacrificar todo o restante (3); Plauto assegurava que se consideraria muito mais rico quando tivesse conseguido manter um bom crédito (4). Isócrates aconselhava a um pai que procurasse antes deixar aos filhos um bom nome do que muitas riquezas, porque as riquezas são mortais, e a fama é imortal (5).
Deus constitui Moisés como Deus do Faraó, isto é, seu superior, poderoso e temível superior. Ora, que faz ele diante de tal anúncio? pergunta Santo Ambrósio; lamenta-se com Deus por tê-lo elevado tanto. E por que, prossegue ele dizendo, pusestes vós, Senhor, o vosso servo em aflição? Por que não encontro graça diante de vós? Por que impor sobre mim o peso de todo este povo? Ah! já não posso suportar sozinho toda esta gente; é demasiado pesado para meus ombros o encargo que me foi imposto (Num. 11, 11, 14 De Offic.). Um bom rei é o servo de todos. E cheio de realidade é o título com que, desde Gregório VII, costumam chamar-se todos os Pontífices romanos: Servos dos servos de Deus.
Se se olha somente para o exterior, nenhuma condição parece mais feliz que a dos grandes; mas, se se olha de perto, não se tarda a reconhecer que os cuidados, as suspeitas, os desgostos, as aflições, os obstáculos, as calúnias, as invejas, as conspirações etc., pelos quais é continuamente assaltada e sitiada, em vez de uma coroa de rosas fazem dela uma coroa de espinhos; em vez de um cetro, carregam-na com uma cruz. «A honra é uma palavra que acaricia, diz São Paulino, mas na realidade é pesada servidão» (Epistola ad Rom.). Que é uma grande elevação? Nada mais, responde São Gregório, senão agitação da alma. Tudo aquilo que aqui embaixo se eleva deve afligir-nos muito mais pelo que sofre do que alegrar-nos pelo que desfruta (6). Portanto, não causa admiração que São Pio V, Papa tão religioso e santo, costumasse dizer: «Enquanto era um simples religioso, esperava com confiança a minha salvação eterna; feito cardeal, comecei a temê-la; e agora, elevado ao Pontificado, quase diria que dela desespero (7)».
«A ambição forma a cruz dos ambiciosos, escreve São Bernardo; não há coisa que mais os inquiete e os trespasse. As honras fazem cócegas àqueles que as desejam, mas são terríveis e espantosas para os que refletem sobre elas. A verdade é que, quando se pensa seriamente nelas, não se encontra nas honras senão uma consolação efêmera e um julgamento espantoso, um uso breve e um fim desconhecido (8)». Sensata é a sentença de Santo Agostinho: «A honra deve procurar-te, não tu a honra» (Homil. 1).
Santo Agostinho, vendo como o povo aplaudia a sua eloquência, dizia: «Os vossos louvores, mais que de deleite e alegria, são para nós motivo de aflição e perigo. Nós os suportamos, mas trememos diante deles» (9). O imperador Carlos V, ao entregar a coroa a seu filho Filipe 3, disse-lhe chorando: «Imponho-te um peso enorme, meu filho; pois eu mesmo, durante todo o tempo do meu reinado, não passei um quarto de hora sem ser oprimido por graves preocupações» (In Vita).
O homem inexperiente, dizia Pompeu, ambiciona honras e poder; mas aquele que é instruído pela experiência delas se assusta e delas foge com todas as forças (10); porque, como adverte Fílon, quem deseja as honras mundanas pense que está procurando a tempestade (11). Seleuco, rei da Síria, costumava repetir que, se se pensasse quanto trabalho custa apenas ler as cartas e responder-lhes, não valeria a pena apanhar do chão o diadema (PLUTARCO). E com muita sabedoria dizia o rei Antígono a seu filho, que se ensoberbecia com a sua elevada posição: «Ignoras, meu filho, que o nosso reino nada mais é que uma esplêndida escravidão? (12)».
Santo Anselmo compara aqueles que anseiam pelas honras aos meninos que correm atrás das borboletas. Estas, quando voam, nunca seguem um caminho reto, mas vão de um lado para outro e, quando parece que pousam, não param. E os meninos que as perseguem para apanhá-las, atentos mais à borboleta que aos próprios pés, tropeçam e caem. Outras vezes, depois de se aproximarem cautelosamente, quando estão prestes a agarrá-las, veem-nas escapar-lhes das mãos. Quando finalmente conseguem apanhá-la, alegram-se como se fosse um tesouro precioso. Assim fazem aqueles que buscam as honras do mundo; pois as honras do século não seguem um caminho seguro, mas frequentemente se dispersam, fogem, passam de um para outro; e, ainda que sejam alcançadas e conservadas, que coisa nos resta delas nas mãos e no coração? Nada (Similit.).
Quanto sofrimento para chegar às honras! Quão poucos chegam a elas! Quando se as possui, ou oprimem ou fogem! Quando depois se perdem, que desgostos, que amargura e, muitas vezes ainda, que profundas humilhações!
«As honras fazem mudar os costumes, mas muito raramente para melhor, observa um autor, e quase sempre para pior» — Oh! De quantos se pode dizer com São Gregório:
«Enquanto estiveram sujeitos aos outros, mantiveram-se de pé; elevados aos cargos, cobertos de honrarias, pereceram (13)».
«Assim como um riacho, modesto em sua origem, ao crescerem as águas em seu curso, avoluma-se e se intumesce, de modo que não raro termina rompendo todos os diques e devastando os campos, assim acontece algumas vezes que aqueles que chegaram ao alto e obtiveram grande poder progridem nos delitos e nas mais bárbaras opressões. O aumento do poder torna-se para eles ocasião de delitos mais enormes (14)».
É preciso, segundo a sentença de Santo Agostinho, que as honras venham à nossa procura, e não nós à procura das honras. Com efeito, a glória humana se estende mais largamente sobre nós, diz o Crisóstomo, quando a desprezamos (15). Àquele que foge das honras pode-se repetir o dito de São Basílio a Atanásio: «Tu foges, ó Atanásio, da honra, mas não te será possível subtrair-te a ela» — Àqueles, porém, que ambicionam as honras mundanas, pode-se dizer: Vós correis atrás delas, e elas fugirão; se chegardes a agarrá-las, elas vos dilacerarão, ensanguentarão e matarão.
São Jerônimo escreve sobre Santa Paula: «Fugindo da glória, Santa Paula a merecia; porque a glória segue a virtude como a sombra segue o corpo; foge daqueles que a procuram e segue aqueles que a desprezam (16)».
A história dá testemunho de que todos os homens mais piedosos, mais santos e mais hábeis sempre fugiram das honras e empregaram todo o empenho para delas se subtraírem… A sabedoria e a segurança ordenam que se siga o caminho trilhado por todos os Santos.