«Observai, ó irmãos, escrevia São Paulo, se procedeis com prudência» (Ef 5,15). «Examinai-vos, aprendei a conhecer-vos», diz São João (1Jo 2,8).
«Eu vigiarei sobre mim mesmo, dizia Habacuc, como uma sentinela em seu posto de vigia; meditarei sobre o que me será dito e sobre o que deverei responder às repreensões do Senhor» (Hab 2,1).
Nós somos os administradores de Deus; não esqueçamos, portanto, que ele mesmo, figurando-se no senhor evangélico, nos assegura que exigirá do administrador infiel uma prestação exata de contas da administração de seus bens (Lc 16,2). Ora, quem poderá prestar essa conta senão aquele que a revê de tempos em tempos? Um administrador mantém suas contas em ordem e as conhece perfeitamente… Um comerciante revê suas dívidas, suas perdas e seus ganhos. Assim devemos fazer nós todos os dias.
«Passei, diz Salomão, pelo campo do preguiçoso e pela vinha do insensato, e encontrei tudo coberto de urtigas; a cerca estava destruída, e os espinhos cobriam sua superfície» (Pr 24,30-31). Eis a miserável condição à qual pouco a pouco se reduz uma alma que se furta a entrar em si mesma para examinar-se seriamente… «Enquanto os servos dormiam, diz o Evangelho, veio o inimigo e semeou o joio sobre o trigo bom» (Mt 13,26).
A Escritura, os santos Padres e os mestres de espírito recomendam todos vivamente o exame de consciência… É uma das coisas mais importantes da religião… Nenhuma ocupação deve dispensar-nos dele… Duas são as principais razões que nos confirmam sua necessidade: 1° Este exame é necessário para conhecer nossas faltas passadas e conceber arrependimento. 2° É necessário para não mais pecar. Este exame é, ao mesmo tempo, uma penitência e um remédio preventivo…
Entre as Sentenças áureas de Pitágoras, São Jerônimo cita a seguinte: “É preciso, sobretudo pela manhã e à tarde, examinar o que faremos e o que fizemos” (Lib. 3, Apol. contra Rufin. c. X); e o poeta dizia: “Não permitas que teus olhos se fechem ao sono antes de teres examinado as ações do dia (1)”. Na obra de Galeno Sobre o Conhecimento e os Remédios das doenças da alma, lemos: “Trazei diariamente à memória o que dissestes e fizestes. Muitas vezes ao longo do dia, mas principalmente à tarde e pela manhã, aplicai-vos a este exame”.
São Boaventura, tratando da pureza da vida, recomenda, como meio muito apropriado para conservá-la, examinar sete vezes por dia a própria vida, considerando atentamente e investigando de que modo passamos nossas horas diante de Deus (2). Também São Doroteu aconselhava observar pela manhã como havia transcorrido a noite e, à tarde, como se havia empregado o dia, para emendar-se e fazer penitência (Serm. II). Santo Inácio de Loyola costumava examinar-se a cada hora, comparando hora com hora, dia com dia, semana com semana, mês com mês, para ver em que havia progredido e em que havia retrocedido (In Vita).
“Ninguém, dizia São Bernardo aos seus religiosos, vos ama mais do que vós mesmos, e ninguém tampouco vos julgará mais fielmente do que vós mesmos. Fazei, portanto, pela manhã, uma revisão da noite e estabelecei os meios mais adequados para empregar bem o dia que começa; à tarde, depois, pedi contas a vós mesmos do dia transcorrido e resolvei passar santamente a noite. Por este meio vos tornareis quase impecáveis” (Ad fratres de monte Dei),
“Entrai em vosso coração, diz Hugo de São Vítor, e perscrutai-o com toda a diligência; considerai de onde vindes, para onde ides, o que fazeis, de que modo viveis, o que perdeis, o que ganhais, se é progresso ou retrocesso o vosso viver diário, quais pensamentos vos ocupam, quais afetos vos dominam, de que lado o vosso inimigo vos assalta com mais frequência e maior força; e, quando conhecerdes o vosso estado inferior e exterior, não somente o que sois, mas aquilo que deveríeis ser, então, desse conhecimento de vós mesmos, elevar-vos-eis à contemplação de Deus” (De Anima, lib. III).
Diz ainda São Bernardo: “Deve, antes de tudo, o homem que aspira à sabedoria considerar aquilo que ele é; o que há dentro dele e o que há fora; o que está acima, o que está contra, o que está antes e o que está depois. Esta consideração, bem feita, produz o conhecimento da própria fraqueza, a caridade para com o próximo, o desprezo do mundo, o amor de Deus. Aprenda a reinar sobre si mesmo, a regular sua vida e seus costumes, a acusar-se no próprio tribunal, a condenar-se frequentemente, a nunca deixar-se impune. Sente-se a justiça que condena; e apresente-se a ela, em atitude de ré, a consciência que acusa e remorde (3)”. A mesma coisa aconselha o Eclesiástico: “Examina-te a ti mesmo antes de seres chamado a juízo, e encontrarás misericórdia diante de Deus” (18, 20).
“Examinemos e perscrutemos os nossos caminhos”, dizia Jeremias (Lm 3, 40); por isso o rei Ezequias exclamava a Deus: “Eu repassarei diante de vós todos os meus anos, na amargura de minha alma” (Is 38, 15).
“Ergue, escreve o Crisóstomo, dentro de ti, um tribunal, no qual, sentado, o teu pensamento faça as vezes de juiz de tua alma e de tua consciência; faze comparecer diante de ti todas as tuas faltas, passa em revista o mal que cometeste em tua vida e atribui a cada culpa o castigo devido. Dize frequentemente a ti mesmo: Por que fiz esta ou aquela coisa? Por que ousei cometer esta ou aquela falta? Mas, se a tua consciência se esquiva daquilo que fazes e depois, curiosa, investiga os atos alheios, dize-lhe: Eu não recebi o encargo de julgar os outros, nem te citei em juízo para que defendesses os outros; e chama-a frequentemente a este dever de examinar-se. Se depois ela não quer declarar-se culpada e não pode defender-se das acusações, mas emudece, castiga-a com santa razão, como a uma serva altiva e viciosa, porque essas pancadas não a matarão, mas a salvarão da morte (4)”.
“Percorramos, diz São Bernardo, apalpemos e procuremos todos os labirintos, os mais recônditos meandros, todas as ações de nossa vida, os segredos mais ocultos de nossa consciência. Examinemos os nossos atos e tendências, e não julguemos ter feito progresso no bem quando tivermos descoberto algumas culpas, mas sim quando tivermos condenado essas culpas descobertas pelo exame. Pode dizer que não se examinou em vão aquele que reconhece precisar repetir frequentemente este exame. Quando, ao procurar, vimos a necessidade de procurar ainda, procuramos bem. E, se perscrutarmos o nosso coração e a nossa consciência cada vez que tivermos necessidade disso, fazê-lo-emos continuamente; pois nunca estamos livres de inimigos e de feridas” (Serm. LVIII in Cant.).
Examinemo-nos com sinceridade; examinemos sutil e profundamente o nosso coração, e não será raro encontrar nele oculta alguma paixão, algum defeito que mancha todas as nossas ações, que desagrada a Deus e mantém afastados de nós os seus dons. Arrancai e lançai fora este vício secreto, este vício familiar, se amais a bênção de Deus, o doce orvalho dos favores celestes…
É preciso examinar-se quanto ao que se fez e ao modo como se fez… De que defeito me corrigi hoje? A que pecado resisti? Sou eu melhor? É preciso desempenhar consigo mesmo os papéis de testemunha, de acusador, de juiz e de executor… É preciso não se cansar nem desanimar jamais, mas perseverar neste exame, imitando o agricultor, o jardineiro, o viajante etc…. Imaginemos que todos os dias o Senhor nos diga, como a Jeremias: “Eu te constituí hoje para arrancar e destruir, para exterminar e dissipar, para edificar e plantar” (Jr 1, 10).
Não há coisa mais útil, mais louvável, mais santa do que penetrar em nós mesmos… Depois de um exame sutil e diligente, as culpas vêm à luz, e seguem-se o arrependimento, as lágrimas, os propósitos, a mudança de vida… O essencial de um exame de consciência é que ele se resolva em dor e propósito: ora, um exame sério e assíduo proporciona uma coisa e outra. Com efeito, o anjo enviado para tranquilizar Daniel lhe diz: “Não temas, porque desde o primeiro dia em que propuseste mortificar-te diante de Deus, a tua oração foi ouvida, e eu vim” (Dn 10, 12). Quando foi que José se deu a conhecer a seus irmãos, os abraçou ao peito, chorou com eles e os cumulou de favores? Somente depois que eles narraram francamente suas faltas e manifestaram seus salutares remorsos (Gn 44, 12). Assim faz Deus com aqueles que, depois de um severo exame de si mesmos, se reconhecem culpados.
“Conhecer a si mesmo é a máxima e mais excelente instrução, diz Clemente de Alexandria; pois quem conhece a si mesmo conhece a Deus (5)”. Por isso Santo Agostinho exclamava: “Ó Deus, que não mudais, concedei-me que vos conheça e me conheça (6)” — Deus, escreve o mesmo santo doutor, virá, mostrar-se-á, examinará e convencerá quando já não for possível a mudança do coração. Eu vos porei diante de vós mesmos, diz Deus. Fazei, pois, imediatamente vós mesmos aquilo que mais tarde Deus fará. Cessai de lançar para trás das costas os vossos pecados, para não os verdes, mas colocai-os diante dos olhos. Subi ao tribunal de vossa mente e sede vosso próprio juiz: que o temor vos castigue; que a confissão de vossas misérias abra caminho através das nuvens do amor-próprio, e clamai ao vosso Deus: Eu conheço a minha iniquidade, e a minha culpa está continuamente diante de meus olhos. Colocai diante de vós aquilo que antes mantínheis atrás de vós, por temor de que mais tarde o juiz divino não vo-lo ponha ele mesmo diante da face e já não possais fugir dele; para que a sua justiça não vos agarre como um leão, sem que ninguém possa escapar-lhe (7).
Santo Ambrósio ensina que o conhecimento de si mesmo deve preceder o conhecimento de Deus, e que não se chega ao conhecimento de Deus senão pelo conhecimento de si mesmo e por meio das boas obras (Offic. lib. I).
É sentença de Sócrates que “quem não conhece a si mesmo não é capaz nem de governar-se a si, nem de reger os outros” (Anton. In Meliss.). Ora, onde poderá o homem aprender a conhecer-se, senão no exame de consciência? … Por isso, São Bernardo diz: “Aplicai-vos a conhecer a vós mesmos, pois sereis muito melhores e mais dignos de louvor se conhecerdes a vós mesmos do que se, ignorando-vos, fôsseis instruídos acerca do curso dos astros, da virtude das ervas, da natureza dos homens e dos animais e de todas as coisas celestes e terrestres. Voltai, pois, e restituí-vos a vós mesmos (8)”.
Ouvi como exclamava São Francisco de Assis: “Quem sois vós, ó Senhor, e quem sou eu? Vós, o abismo do ser, do bem, da sabedoria, da virtude, da perfeição, da glória; eu, o abismo do nada, do mal, da ignorância, dos vícios, das misérias e de toda abjeção (9)”.
Há duas espécies de exame: o particular e o geral; aquele diz respeito a um só ponto; este, porém, a tudo o que se pensou, desejou, fez ou omitiu ao longo do dia…
O exame particular deve visar principalmente àquilo que mais pesa sobre nossa alma…; à paixão dominante…, à tentação que mais nos atormenta…, à virtude de que mais carecemos, etc…. Caído o comandante, todo o exército é desbaratado; assim também, extirpado o vício dominante, todos os outros são facilmente arrancados… Quem vai matar uma serpente não golpeia toda a extensão de seu corpo, mas mira a cabeça, porque, esmagada esta, tudo está terminado. Assim acontece com as paixões; golpeai a cabeça, e tereis atingido e exterminado todo o restante… Davi vai direto contra Golias… O que importa a um médico é certificar-se do local da doença; assim, o que mais deve importar-vos é conhecer onde se esconde a vossa principal doença… Para que uma erva daninha não cresça, é preciso arrancá-la pela raiz… Muitas vezes, o exame de consciência não chega a nenhum bom resultado porque não se aplica a investigar e discutir aquilo que é de maior importância.
Entretanto, é bom que ao exame particular se acrescente o geral.