Deus tira do nada o universo e, para fazê-lo, basta-lhe um aceno de sua vontade, basta um fiat. Mas a esse universo falta uma cabeça, falta um rei que sustente e governe tudo o que foi criado. Então a augusta Trindade reúne-se, por assim dizer, em conselho, e decide formar um ser que seja sua própria imagem e expressão sobre a terra, e esse ser é o homem (Gn 1,26). Único entre todas as criaturas, o homem traz em si a imagem de Deus; ele é o escopo, o fim do universo.
«Poderia dar-se, pergunta Santo Ambrósio, honra mais sublime ao homem do que a de ser formado à imagem e semelhança de seu Criador? (1). Mas acaso Deus teria feito isso com o homem sem visar a um desígnio? Não, responde São Leão: «Se examinarmos, como homens sábios e desapaixonados, a origem de nossa criação, compreenderemos que fomos criados à imagem de Deus para sermos imitadores de nosso autor, e que a dignidade de nossa raça consiste nisto: que resplandeça em nós, como num espelho, a semelhança da bondade divina (2)». Daí se entende por que Clemente de Alexandria chama o homem de «planta celeste» (Stromat.). As plantas têm suas raízes na terra, mas o homem as tem no céu; por isso, assim como a árvore se alimenta da terra por meio das raízes, assim também o homem não extrai o sumo da vida senão do céu.
Ó homem animalesco, que te rebaixas até te tornares semelhante às feras e, muitas vezes, até te colocares abaixo delas, invejando-lhes a condição, é preciso que finalmente compreendas a tua dignidade e consideres as admiráveis prerrogativas de tua criação e as demais honras que te são prestadas. Não como as outras criaturas, por um aceno imperativo — Fiat, saíste do nada, mas depois de uma palavra de deliberação — Faciamus. — Deus delibera consigo mesmo, como se estivesse prestes a produzir uma obra-prima.
Tudo o que Deus havia criado no mundo antes do homem não era capaz de conhecer, amar, servir e possuir o seu Criador. Ora, Deus adorna o homem com todas essas sublimes prerrogativas; e, ao formá-lo, não se propõe outro modelo senão a si mesmo. Com aquelas palavras: Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, Deus exprime todas as belezas do homem e, ao mesmo tempo, todas as riquezas com que, por sua bondade, o dotou: inteligência, vontade, memória, retidão, inocência, claro conhecimento de Deus, amor infuso desse primeiro ser, segurança de gozar com ele uma mesma felicidade…
Façamos o homem: ao som destas palavras, aparece no mundo a imagem visível da augusta Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo. Semelhante ao Pai, ele tem o ser; semelhante ao Filho, tem a inteligência; semelhante ao Espírito Santo, tem o amor. Deus é inteligência, vontade, amor; o homem, feito à imagem de Deus, possui também a inteligência, a vontade e o amor.
De três modos o homem se assemelha a Deus: 1° por natureza, pois somos constituídos de uma natureza racional e inteligente, assim como Deus é racional e inteligente…; 2° pela graça, a qual, segundo São Bernardo, consiste nas virtudes…; 3° a semelhança perfeita e infinita se consumará no céu, com a visão e a glória beatífica… «Prestemos, pois, direi com o Nazianzeno, a esta imagem de Deus esculpida em nós a honra que lhe é devida, e reconheçamos a nossa dignidade (3)».
A imagem natural de Deus está na alma, que é espírito, não matéria, que é ágil, imensa, inteligente, livre, imortal. Essa imagem de Deus é natural ao homem e não foi de modo algum apagada pelo pecado de Adão, mas apenas desfigurada e maltratada. Há ainda no homem outra imagem de Deus, que é a imagem sobrenatural, a qual consiste na graça e na justificação, pelas quais o homem se torna participante da natureza divina; e essa imagem terá sua consumação na glória e na vida eterna. Pois «a alma da alma é a graça», diz Santo Agostinho (4). Adão foi criado nessa graça, que é uma verdadeira imagem de Deus. Essa semelhança da alma com Deus pela graça depende da vontade do homem; pecando, ele a perde, mas a recupera ao recuperar a graça e a justiça de Deus…
Somente o homem é feito à semelhança de Deus. O sol, que é também tão esplendente e belo; a lua e as estrelas, magnífico ornamento do céu; a terra, com suas mil e variadíssimas produções; o oceano, com toda a sua imensa extensão, não são feitos à imagem de Deus. Somente o anjo e o homem são adornados de tão preciosa prerrogativa. Ó homem, exclamarei com o Crisólogo, por que, sendo adornado por Deus com tanta honra, te desonras? Por que te fazes tão vil aos teus próprios olhos, enquanto apareces tão grande e nobre aos olhos de Deus? E não percebes que, rebaixando a ti mesmo, desprezas a Deus, de quem és a marca? (Serm.).
De seis qualidades principais, ou excelentes propriedades, é composta a natureza racional do homem, que constitui a imagem de Deus. A primeira consiste em ser a alma espiritual e indivisível, assim como Deus é espírito indivisível… A segunda consiste em ser a alma imortal, assim como Deus é imortal… A terceira, no livre-arbítrio de que é dotada… A quarta, em ser dotada de inteligência, vontade e memória… A quinta, em ser apta para a virtude, a sabedoria, a graça, a beatitude, a visão de Deus, para todo bem… A sexta, em seu domínio sobre tudo o que resta do homem e da criação… A estas pode-se acrescentar uma sétima: assim como todas as coisas estão contidas eminentemente em Deus, assim também se pode dizer proporcionalmente do homem. Em virtude de sua inteligência, ele se apropria de todas as coisas, porque pode formar em sua mente uma imagem ou semelhança de cada coisa… Por isso podemos dizer com o Crisóstomo: «Não há tesouro, por mais precioso que seja, nem sequer o mundo inteiro, que valha tanto quanto a alma (5)». Não, nenhum de nós jamais teria chegado a conhecer a grandeza do homem, nem a pressentir o seu alto destino, se a revelação e a Sagrada Escritura não nos tivessem socorrido.
«O Senhor Deus, diz o Gênesis, soprou sobre o rosto do homem o sopro de vida, e o homem tornou-se uma alma vivente» (Gn 2,7). Essa linguagem não significa de modo algum que Deus tenha uma boca como os homens e que com ela sopre, mas a Escritura fala assim para nos fazer entender que Deus estima a alma e a tem por querida como uma emanação de sua própria vida. É verdade que a tirou do nada, como todas as outras criaturas, mas, ao dizer-nos o Espírito Santo que a alma é um sopro divino, quer indicar que Deus a produziu com particular e terno afeto, como se a tivesse tirado de seu coração.
Além disso, a Escritura não diz que Deus fez a nossa alma com suas mãos, como fez o nosso corpo, nem que a criou falando, como criou todos os demais seres, mas soprando; para que entendamos que ele, de certo modo, deu à luz uma concepção caríssima que trazia em si desde toda a eternidade. É como se a Escritura dissesse que a alma procede do interior de Deus; assim como a respiração nada mais é que uma contínua saída e entrada do ar, que vai ao coração e depois o deixa para logo tornar a entrar nele, a fim de conservar-lhe a vida; do mesmo modo, a nossa alma não saiu de Deus senão para voltar a entrar nele; ele não a aspirou senão para novamente inspirá-la. E, se a alma deu, por assim dizer, alívio ao seu coração ao sair dele, parece que, de certo modo, o restaura e consola quando retorna a ele com alguma aspiração amorosa. Ah! se soubéssemos o que é a nossa alma para o coração de Deus! Ela não saberia viver sem Deus, assim como Deus parece não saber estar contente sem ela.
Observai a admirável relação que Deus estabeleceu entre o seu Espírito e o nosso! O Espírito Santo é uma sagrada emanação do coração de Deus, emanação que o enche de alegria em si mesmo; e a nossa alma é um sopro que lhe proporciona complacência fora de si. O Espírito Santo é a última das inefáveis produções de Deus em si mesmo; a nossa alma é a última de todas as maravilhosas produções de Deus fora de si.
A alma está tão maravilhosamente elevada acima do corpo, que se diria estar mais próxima de Deus, que a criou, do que do corpo ao qual está unida. E, na verdade, entre as criaturas deste baixo mundo não há outra, fora dela, em que se possa encontrar algum traço visível das perfeições de Deus. Ela é mais sublime que os céus, mais profunda que os abismos, mais ampla que o universo, duradoura como a eternidade. Deus é espírito, a alma é espírito; Deus é simples e indivisível, a alma é simples e indivisível; Deus é imóvel, enquanto põe tudo em movimento e a tudo dá vida; o mesmo se dá com a alma em relação ao corpo, que dela recebe a vida; Deus é inteligente, e a alma é inteligente; Deus quer, e a alma quer; Deus ama a si mesmo, e a alma, amando a Deus, ama verdadeiramente a si mesma; Deus fez todas as coisas, a alma age, e quem poderia pôr limites à sua ação? Deus é livre e domina toda a criação; a alma é livre e move, a seu bel-prazer, os membros do corpo; Deus tem tudo presente à sua memória, e a alma também possui essa faculdade; Deus é onipotente, o homem dispõe, quando quer, do poder divino, faz coisas admiráveis e abrange muitas delas na amplitude de seu espírito; Deus é o fim, o objetivo de todas as coisas; o homem é o fim da criação; Deus está todo inteiro no mundo e em cada parte do mundo, a alma governa o corpo, encontra-se toda inteira nele e em cada uma de suas partes; e, o que constitui o ápice da perfeição, assim como Deus Pai, conhecendo-se por meio do intelecto, gera o Verbo e, amando-o, produz o Espírito Santo, assim também o homem, conhecendo-se, produz em sua alma uma palavra inteligente, expressão de si mesma; e daí procede o amor em sua vontade. São estes outros tantos pensamentos de Santo Agostinho, que deles deduz ser salvar uma alma obra mais excelente que criar o céu e a terra (Serm. 24, de Temp.). Certamente, de todas as perfeições, a mais divina é ser cooperador de Deus no reconduzir as almas ao seu Criador, de cuja nobreza, sabedoria, domínio, grandeza e espírito elas participam.
A alma supera em valor o mundo inteiro; pois, feita à imagem de Deus, participa do próprio Deus, sendo como que uma porção de seu sopro divino: segundo a própria palavra de Deus: «Separa o que há de precioso (a alma) do que há de vil (o corpo) no homem, e ele será, de certo modo, a minha boca» (Jr 15,19).
Santo Agostinho e São Tomás ensinam que a conversão e a justificação do pecador são obra maior, mais difícil e mais admirável que a criação do mundo; o Crisóstomo observa que converter uma alma é oferecer a Deus um dom mais excelente e mais agradável do que erguer-lhe um templo; pois todas as somas que se gastam para construir um templo suntuosíssimo jamais chegam a igualar o valor de uma alma. Salvar um homem é uma esmola maior do que dar centenas de milhões, ou dar o mundo inteiro, se isso fosse possível, pois uma alma supera em valor tudo quanto foi criado. Infinito é o seu valor, pois custou o sangue de um Deus; e tudo o que existe — o sol, as estrelas, a terra, os mares, os montes, os animais — tudo foi feito para o homem.
«Quando toda a terra, diz Fílon, se transformasse em ouro, ou em alguma matéria ainda mais preciosa, e todos os arquitetos e ourives a empregassem para erguer pórticos, vestíbulos, palácios e templos para Deus, tudo isso não seria digno de formar o escabelo de seu trono; e uma alma que se encontra na graça é digna de recebê-lo, de hospedá-lo!» (Lib. de Cherub.). Que nobreza! … que dignidade… que valor não tem uma alma! …
«Senhor, exclamava, com santo entusiasmo, o profeta, vós fizestes o homem pouco inferior aos anjos, coroastes-lhe a cabeça de glória e de honra e lhe destes o domínio sobre todas as obras de vossas mãos. Sujeitastes a ele os animais dos campos, as aves do ar e os peixes do mar» (Sl 8,5-8). E, de fato, lemos no Gênesis que, no ato de formar o homem, Deus disse: «Façamos o homem à nossa imagem e semelhança, e ele domine sobre os peixes do mar, as aves do ar, as feras e todos os répteis que se movem sobre a terra» (Gn 1,26). Deus constituiu, pois, o homem rei do universo; para seu uso construiu o magnífico palácio deste mundo…
O mundo é o templo de Deus; o homem é seu sacerdote, para orar e agradecer a Deus em nome de todas as criaturas, pois somente ele possui a razão e a palavra. Todas as criaturas depositam suas riquezas aos pés do homem-rei e permanecem prontas a obedecer-lhe. «Estamos todas a seu serviço», dizem-lhe elas, «mas com a condição de que leves ao trono de Deus as nossas adorações, por ti e por nós. Tudo está à tua disposição; usa-o para Deus e tudo reporta a Deus, que nos criou para tua utilidade e para teu serviço. Nosso fim é servir a ti; o teu, ó homem-rei nosso, é servir a Deus». E era precisamente isso que o Apóstolo recordava aos Coríntios, escrevendo: «Tudo é vosso; mas vós sois de Cristo, e Cristo é de Deus» (I, 3, 22-23).
Santo Ambrósio observa que não foi sem justas razões que o homem foi a última obra da criação; pois, tendo todas as coisas sido feitas para ele, deviam precedê-lo, a fim de prestar-lhe homenagem e oferecer-se às suas necessidades. Ele foi feito por último porque é o compêndio e a causa do mundo, que foi criado para ele, e tem os elementos como propriedade e morada. Vive entre as feras, nada com os peixes, voa mais alto que as aves, conversa com os anjos; habita a terra e sobe ao céu, atravessa os mares, transpõe os montes, cultiva a terra; em suma, comporta-se como herdeiro e senhor do mundo inteiro (lib. 6, Epistola XXXVIII). O homem foi, pois, feito para reinar. «Ora, por que, diz São Basílio, ó homem-rei, te tornas escravo de tuas más inclinações? Por que te fazeres escravo do pecado? Por que te entregares ao poder do demônio? Deus te ordena que mantenhas o primado entre as criaturas e as governes; e tu, insensato, quebras o teu cetro, abandonas o teu reino, desces do teu trono para ocupar o último lugar, para ser servo daquele que deve servir a ti. Foste criado para dominar sobre tudo, e tudo domina sobre ti! Tudo deve obedecer a ti, e tu obedeces a tudo! Ó inaudita e espantosa desordem!» (Homil. X).
A alma é, no homem, a senhora, a diretora, a rainha não somente de todos os membros, mas também dos sentidos, das paixões, dos pensamentos e dos desejos. Governe, pois, os seus apetites e não se deixe tiranizar por eles. «Governai vosso corpo com a razão, diz São Basílio, como o cavaleiro governa o cavalo com o freio (6)». Sob este aspecto, São Gregório considera os bons e piedosos cristãos como verdadeiros reis; pois, dominando as concupiscências, põem um freio à luxúria, à gula, ao orgulho e à cólera. São reis que, longe de sucumbir às tempestades das tentações, dominam-nas e obrigam os ventos e as ondas tempestuosas a se aquietarem (Serm. de Nativ.).
«Alegra-te, homem-rei, descendente de Deus, diz Orígenes, ao contemplar as insígnias de tua dignidade real. És chamado rei, porque te foi dito: Tu és de estirpe real. E, porque és rei, com todo o direito Jesus Cristo, teu rei e teu Senhor, chama-se o Rei dos reis, o Senhor dos que dominam. Quando ele reina em ti, constitui-te rei sobre toda a criação. Se, portanto, em ti a alma manda e a carne obedece, se submetes ao teu império a concupiscência, se refreias as más inclinações, saberás que és rei e que mereces sê-lo. E, quando fores tal, quando reinares sobre ti mesmo, reinarás também sobre Deus, porque obterás dele tudo quanto quiseres» (In Evang.).
«Que ato é mais régio, escreve São Leão, do que submeter a carne ao espírito e o espírito a Deus? E que função é mais sacerdotal do que consagrar a Deus uma consciência pura e oferecer-lhe, sobre o altar do coração, hóstias de piedade e pureza? Fazendo isso, somos verdadeiramente aquilo que nos chama o Apocalipse (I, 6): reis e sacerdotes» (Serm. de Nativ.).
O verdadeiro e mais belo reino do homem consiste em que Jesus Cristo reine nele e o governe; pois então ele recebe de Jesus Cristo, único e verdadeiro rei universal, a dignidade e o poder régios; então reina e governa verdadeiramente. Reina: 1° sobre si mesmo, sobre todas as suas faculdades, sobre todos os seus sentimentos… 2° reina sobre tudo o que o rodeia; atrai todas as coisas ao seu vassalagem… 3° reina sobre o próximo, ao qual deve o seu afeto e o seu amor. O homem que se une a Deus domina a si mesmo, piedosa e santamente, e regula suas ações. Aprende facilmente a governar e reger todo o restante; e então há nele um reino de paz, de felicidade, de sabedoria e penhor do reino eterno; então tudo é seu, e ele é de Jesus, como Jesus é de Deus (1Cor 3,22-23).
A extensão do reino do homem aqui embaixo é a fé; sua largura é a esperança; sua duração será o céu por toda a eternidade…
A soberania do homem consiste principalmente em ser servo fiel de Deus: «Derramarei o meu espírito, diz o Senhor, sobre os meus servos e sobre as minhas servas» (Gl 2,29). E onde reina o espírito de Deus, aí está a verdadeira soberania.
Nobilíssimo e honrosíssimo é o título de servo de Deus, e o Supremo Chefe da Igreja não quis assumir outro como divisa; ou melhor, se não dissermos que o acréscimo feito a ele — Servo dos servos de Deus —, embora pareça diminuir-lhe o brilho, na verdade o aumenta. Servir a Deus é reinar; por isso o Salmista exclamava: «Porque sou, ó Senhor, vosso servo, vosso servo devoto; por isso quebrastes as minhas cadeias» (Sl 115, 16). Abraão, Moisés e Jó consideravam-se honrados por se chamarem servos de Deus. Mais ainda: o próprio Jesus Cristo aplicou a si esse título em Isaías. A Bem-Aventurada Virgem, Mãe de Deus, glorificou-se de chamar-se a serva do Senhor (Lc 1, 38); e São Paulo não se intitula, no início de suas Epístolas, com outro nome senão este: «Paulo, servo de Jesus Cristo». — E, a respeito da Virgem Maria, é digno de nota que ela assuma o título de serva do Senhor justamente quando, pela embaixada de Gabriel, soube que fora elevada a tal dignidade, maior do que nem o homem nem o anjo podem imaginar. Ao anúncio de sua maternidade divina, daquele privilégio que a constituía rainha do céu e da terra por toda a eternidade, a humilde donzela pronuncia aquelas admiráveis palavras: «Eis a serva do Senhor». — E quem ousará ainda contestar que o título de servo de Deus não seja título de sublime honra, de soberana dignidade? Quem não aplaudirá a Santa Ágata, que, aos insultos que lhe dirigia o governador pagão, por levar vida de escrava vivendo como cristã, embora fosse de família nobre, respondeu: «A humildade e a escravidão dos cristãos superam em apreço e esplendor as riquezas e a púrpura dos reis terrenos?» (In Vita).
Portanto, o título de servo de Jesus Cristo prova a grandeza do homem; prova que o homem, quanto à alma, é da natureza dos anjos; ora, os próprios anjos no céu, reinando com Deus, são seus servos. Somente esse título os constitui reis.
Se ser servo de Deus é uma honra tão sublime e um título de tamanha grandeza para o homem, que se deverá dizer da honra e da excelência que lhe advêm do título de filho de Deus? E, contudo, este é, diz São João, o título, esta é a condição que, por efeito de seu imenso amor, o Pai te concedeu (I, 3, 1). Este augusto título de filhos de Deus torna-nos participantes de seus atributos divinos. Assim como Deus é santo por essência, também o justo, gerado para a justiça de Deus, feito filho de Deus, possui a santidade em sua qualidade de filho de Deus; torna-se onipotente e pode repetir com São Paulo: «Tudo posso naquele que me fortalece» (Fl 4, 13). Torna-se imutável, de modo que, unido a Deus, nem as lisonjas nem as ameaças do mundo poderão mais abalá-lo. Torna-se celeste, a ponto de esquecer e desprezar a terra. Torna-se como que impecável… Torna-se bom para com seus semelhantes e, como sol benfazejo, derrama sobre todos suas liberalidades e inflama a todos com seu amor. Torna-se sábio na primeira das ciências, que é a da religião e da virtude, porque tem a Deus por mestre, e a inspiração divina o instrui em todas as coisas. É imperturbável, porque, mantendo a alma fixa em Deus, não dá atenção às vicissitudes do século ou delas se ri. É liberal, sem inveja; retribui o mal com o bem e assim converte em amigos os seus inimigos; seus desígnios são retos como suas ações; mostra-se paciente, forte, equilibrado, constante, sincero, porque assim é Deus, seu Pai…
Os cristãos vangloriam-se de ser filhos de Deus, e de fato o são; posto isso, devem trabalhar com zelo e perseverança para sua perfeição e exercitar-se em obras heroicas e divinas… Segui o conselho de São Cipriano, que diz: «Quando vos pungir o aguilhão da carne, respondei: Eu sou filho de Deus e nasci para uma ocupação muito diferente e mais sublime do que dar pasto aos sentidos. Quando o mundo vos tentar com os prazeres e as riquezas, respondei: Eu sou filho de Deus, chamado às honras e às delícias do céu. Quando o demônio procurar seduzir-vos, dizei-lhe: Vai-te, Satanás, retira-te para o teu inferno; jamais permita Deus que, sendo filho do Altíssimo, eu me torne filho da serpente! Nascido para um reino eterno, calco como lama e considero como fumaça tudo quanto de mais lisonjeiro me possa ser oferecido aqui embaixo» (De Spectac.). Vós sois filhos de Deus; imitai Jesus Cristo, que vos chama a fazer a vontade de Deus, a aproximar-vos cada vez mais dele…; apressai-vos, correi pela estrada que vos conduz ao vosso Pai celeste…
Filhos de Deus! Deus é, portanto, nosso Pai! Ó quão grande é o homem! Considera-se afortunado e se envaidece quem pode ostentar títulos de nobreza; ora, que são todos os títulos, dignidades e honrarias deste mundo em comparação com o título de cristão, que nos torna filhos de Deus e nos permite chamar a Deus nosso Pai! … Vede aquele vaqueiro que guarda o rebanho no campo? Ele é nobre, tem Deus por pai… Vede este mendigo esfarrapado, que pede esmola à vossa porta? Ele é de nobre estirpe, porque seu pai é Deus. Ele pode dizer todos os dias e a todo instante, com a mesma verdade que o primeiro dos reis: Pai nosso, que estais nos céus…
«Como é grande, diz São Cipriano, a afabilidade de Deus! Que abundância de dignidade e de bondade é esta para conosco, pois não somente permite, mas ordena, mas quer que o chamemos nosso pai, e que realmente o seja! Jesus Cristo é o Filho de Deus, e nós temos o título de filhos do mesmo pai! Ah! quem de nós teria jamais ousado chamar Deus de seu pai, se ele não o tivesse, mais que permitido, ordenado? Devemos, pois, recordar-nos, caríssimos irmãos, e considerar que, enquanto chamamos Deus de nosso pai, devemos comportar-nos como filhos de Deus, para que, se estamos contentes por ter a Deus como pai, ele também esteja contente por ter-nos como filhos (7)».
«Eles serão chamados, diz Oseias, filhos do Deus vivo» (1, 10). Esta dignidade, esta elevação do homem, até ter a Deus por pai e ser seu filho, é quase infinita. «Que Deus chame o homem de seu filho e que o homem chame a Deus de seu pai é um favor tal que supera imensamente qualquer outro favor», dizia já São Leão (8). E por isso exorta o homem a imitar a Deus seu pai, a viver de sua vida, para levar uma vida divina, não terrena nem carnal, e assim conclui: «Reconhece, ó cristão, a tua dignidade e, feito participante da natureza divina, cuida para não recaíres em tua antiga baixeza por uma conduta depravada e corrompida (9)». «Vindo de uma estirpe escolhida e real, continua o citado padre, corresponde à tua destinação, ama o que é agradável a teu Pai, procura que haja entre ti e ele semelhança de pensamentos, afetos e obras, para que ele não tenha de dirigir-te aquela censura de Isaías: Criei e elevei filhos, e eles me voltaram as costas» (Is 1, 2). Praticai aquele ensinamento de Cristo: «Sede perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celeste» (Mt 5, 48).
Notai o que diz o Evangelho de São João: «O Verbo deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus; deu-o àqueles que não nasceram do sangue, nem do impulso da carne, nem da vontade do homem, mas de Deus» (Jo 1, 12, 15); dá-o àqueles que são semelhantes ao Unigênito de Deus, a quem o Pai disse desde toda a eternidade: «Tu és meu Filho, hoje te gerei» (Sl 2, 7).
Os cristãos não são filhos de deuses mudos e mortos, não são filhos dos ídolos, mas filhos do Deus verdadeiro, do Deus vivo, do Deus que é a vida por essência, a vida divina e incriada, vida que ele lhes comunica. Nesta geração e filiação, o pai é Deus; a fecundidade é a graça preveniente; a mãe é a vontade que consente e coopera com essa graça; a família que dela nasce são os justos; a alma dessa família é a caridade. O modelo desta filiação está na filiação do Verbo de Deus: pois, assim como Deus Pai gera ab eterno um Filho que lhe é consubstancial e igual em tudo, assim gera no tempo filhos que são, pela graça, aquilo que o Unigênito de Deus é por natureza; como se depreende daquela passagem de São Paulo aos Romanos: «Aqueles que Deus conheceu em sua presciência, também os predestinou a serem conformes à imagem de seu Filho, para que ele seja o primogênito entre muitos irmãos» (Rm 8, 29).
«Todos aqueles, continua a dizer o Apóstolo, que são movidos pelo Espírito de Deus, esses são filhos de Deus. Vós não recebestes novamente o espírito de escravidão para viver no temor, mas o espírito de adoção dos filhos, em virtude do qual clamamos: Abba, Pai. Porque o próprio Espírito dá testemunho ao nosso espírito de que somos filhos de Deus. Mas, se somos filhos, somos também herdeiros; herdeiros de Deus e coerdeiros de Jesus Cristo; contanto, porém, que com ele padeçamos, para sermos com ele glorificados» (Rm. 8, 16-17).
Para aprofundar e compreender melhor esta adoção do homem por parte de Deus, é preciso observar que nela não nos são dadas somente a graça, a caridade e os demais dons do Espírito Santo, mas nos é dado o próprio Espírito, que é o primeiro dom e o dom incriado concedido por Deus aos homens. Poderia Deus, na justificação pela graça e pela caridade infundida, tornar-nos somente justos e santos; e isso já teria sido uma graça assinaladíssima e um imenso benefício de Deus, ainda que não nos tivesse adotado como filhos; mas sua bondade não se contentou com tal favor; quis tornar-nos tão justos que pudesse adotar-nos como filhos. Poderia, além disso, realizar tal adoção dando-nos somente a caridade, a graça e os dons criados — favores certamente imensos; mas a infinita benignidade de Deus dignou-se acrescentar a si mesma aos seus dons e santificar-nos e adotar-nos consigo mesma, de modo que o Espírito Santo, por sua própria vontade, se acrescentou aos seus dons; de modo que, ao dar-nos a graça e a caridade, dá-nos também a si mesmo pessoal e substancialmente, segundo aquelas palavras do Apóstolo: «A caridade de Deus foi derramada em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado» — (Rm. 5, 5). Por isso o mesmo Apóstolo chama-o «Espírito de adoção» (Rm. 8, 15). Esta é a suma estima que Deus fez de nós, e esta é também a nossa suprema grandeza e elevação: que, ao recebermos a graça e a caridade, recebamos ao mesmo tempo a própria pessoa do Espírito Santo, que, unindo-se por si mesmo à caridade e à graça, habita em nós, adota-nos, vivifica-nos e diviniza-nos.
Mas isso não basta: o Espírito Santo, descendo pessoalmente a uma alma justa, conduz consigo as outras Pessoas divinas, das quais é inseparável. Portanto, a augustíssima Trindade inteira vem pessoal e substancialmente à alma que é justificada e adotada; e, enquanto essa alma persevera na justiça, Ela habita nela como em seu próprio templo, segundo aquele texto de São João: «Deus é caridade; e quem permanece na caridade permanece em Deus, e Deus nele» (I, 4, 16); e aquele outro de São Paulo: «Quem se une a Deus forma com ele um só espírito» (1Cor. 6, 17). Foi precisamente isso que Jesus Cristo pediu a seu Pai na oração que fez na véspera de sua paixão: «Que todos sejam uma só coisa, como tu estás em mim, ó Pai, e eu em ti; que também eles sejam uma só coisa em nós» (Jo 17, 21). Estas palavras são explicadas por São Cirilo (lib. II in Ioann. c. XXVI), por Santo Atanásio (Orat. 9, cont. Arian.), pelo Toledo e por outros neste sentido: que todos participem do mesmo espírito, que é uno; que estejam unidos a ele e, por ele, às outras Pessoas divinas; que todos juntos não formem senão uma só coisa nele, de tal modo que todos sejam como se não fossem senão um só, e isso no Espírito Santo; assim como as três Pessoas divinas não são senão uma só, em uma única natureza divina.
Assim, na justificação e adoção da alma, são-nos comunicadas a graça e a caridade, e o Espírito Santo e toda a Santíssima Trindade se unem substancialmente aos seus dons, para nos unir substancialmente a si, santificar-nos, adotar-nos e divinizar-nos. Por meio dessa adoção, recebemos, em primeiro lugar, a suprema dignidade da filiação divina, para que sejamos verdadeiramente filhos de Deus, não somente acidentalmente pela graça, mas também substancialmente por natureza, e sejamos como deuses; pois Deus nos comunica e nos dá realmente a sua natureza. Recebemos, em segundo lugar, na qualidade de filhos, o direito à herança celeste, à bem-aventurança eterna e a todos os dons de Deus, nosso Pai. Recebemos, em terceiro lugar, uma admirável dignidade de obras e méritos; isto é, nossas obras revestem-se de suprema dignidade, adquirem um valor, um preço, um mérito imenso e plenamente proporcionado e conveniente à sua recompensa, que é a vida e a glória eternas, por serem feitas por quem é verdadeiramente filho de Deus e derivarem, de certo modo, do próprio Deus, do Espírito divino que habita em nós, que as inspira e nelas coopera.
Do que dissemos segue-se, em primeiro lugar, que a justiça inerente, ou a graça santificante pela qual somos justificados e adotados como filhos de Deus, não é uma simples qualidade, como pensa alguém, mas compreende várias coisas: a remissão dos pecados, a fé, a esperança, a caridade e outros dons; mais ainda, o próprio Espírito Santo, autor dos dons, e, portanto, a Santíssima Trindade, pois o homem recebe todas essas coisas na justificação infusa, como ensina o Concílio de Trento (Sess. 6, c. VII).
Segue-se, em segundo lugar, que se enganam aqueles que creem que, na justificação e adoção, o Espírito Santo não nos é comunicado em sua substância e em sua pessoa, mas somente quanto aos seus dons. Com efeito, São Boaventura diz que o Espírito Santo acompanha pessoalmente os seus dons e se torna posse absoluta das almas justificadas e adotadas (In I Sentent. d. 14, art. 2, q. 1). A mesma coisa afirma o Mestre das Sentenças (Lib. 1, dist. 14, C. 15), seguindo Santo Agostinho e outros doutores. Concordam com essa opinião Escoto, Gabriel, Marsílio, Vázquez, Valença e Suárez, que a considera doutrina certa e cita, em seu apoio, São Leão, Santo Agostinho e Santo Ambrósio. São Tomás também diz expressamente (1-1 q. 45, art. 3 et 6 e q. 38, art. 8) que o Espírito Santo é dado a todos os justos, não somente quanto ao efeito, mas em sua própria pessoa.
Resulta, como terceiro corolário, que a nossa adoção, embora una em si mesma, é contudo dupla quanto à virtude. Pela primeira, somos adotados como filhos de Deus mediante a caridade criada e a graça infundida na alma, e esta é uma imensa participação na natureza divina. Pela segunda, recebemos o Espírito Santo e a natureza divina mediante a graça e, em virtude dela, somos divinizados e adotados como filhos de Deus. Ora, essa dupla adoção tem seu princípio aqui embaixo, pela graça, e seu cumprimento no céu, por meio da glória eterna, da visão beatífica e da posse inadmissível de Deus.
Finalmente, da doutrina exposta deduz-se que, assim como Jesus Cristo é Filho de Deus por natureza — enquanto Deus, em virtude da geração eterna; enquanto homem, em virtude da união hipostática —, assim também nós somos filhos adotivos de Deus, mas de maneira muito mais nobre e mais real do que a adoção entre os homens. Com efeito, os filhos adotivos dos homens não recebem fisicamente nada do pai adotante, senão uma denominação moral e legal, pela qual lhes advém o direito à herança; nós, porém, recebemos de Deus a graça e, com a graça, a própria natureza de Deus; e, assim como entre os homens tem verdadeiro nome de pai aquele que comunica a outro a sua própria natureza, gerando-o, assim Deus é chamado Pai não somente de Jesus Cristo, mas também de nós, porque nos comunica, por meio da graça, a sua natureza, que comunica a Jesus Cristo por meio da união hipostática, e desse modo nos torna verdadeiros irmãos de Jesus Cristo.
Daí se pode compreender quão grande benefício é o da filiação e adoção divina. E, no entanto, quão poucos conhecem essa dignidade infinita em seu verdadeiro aspecto! Mas ainda mais poucos são os que nela refletem e a estimam em seu justo valor. Todo homem deveria admirar, cheio de reverência, tamanha nobreza e grandeza; os doutores e pregadores deveriam pôr em plena luz a excelência do cristão, para que os fiéis compreendessem que são templos vivos de Deus, que trazem o próprio Deus em seu coração e que, por isso, têm o dever de caminhar com Deus, de conversar dignamente com tão ilustre hóspede, que está sempre a seu lado, que está em toda parte, que tudo vê e jamais os abandona por um só instante.
Com toda razão, o grande Apóstolo escrevia aos Coríntios: «Porventura não sabeis que os vossos membros são templo do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus, e que não pertenceis a vós mesmos? Pois fostes resgatados por grande preço. Glorificai, portanto, e levai Deus em vosso corpo» (1Cor. 6, 19-20).
«Lembra-te, dizia São Leão Magno, lembra-te, ó cristão, de que cabeça e de que corpo és membro. Lembra-te de que, arrancado ao império das trevas, foste transportado para a luz e para o reino de Deus. Pelo sacramento do batismo, tornaste-te templo do Espírito Santo; cuida para não expulsar, pelo pecado, de teu coração tão ilustre hóspede e para não te submeteres novamente à escravidão do demônio; porque custaste o sangue de Cristo, que te julgará segundo a justiça, tendo-te redimido por misericórdia (10)».
Diz Santo Agostinho: «O primeiro nascimento vem do homem e da mulher; o segundo vem de Deus e da Igreja.
Estes são os nascidos de Deus; por isso Deus habita em nós. Admirável mudança! Deus se fez carne, o homem se tornou espírito! Que prodígio e que honra são estes, ó meus irmãos? Elevai a vossa alma a esperar e abraçar aquilo que é o único objeto desejável; renunciai às cobiças do século. Fostes comprados por grande preço; por vós o Verbo se fez carne; por vós aquele que era Filho de Deus se fez filho do homem, para que vós, que éreis filhos dos homens, vos tornásseis filhos de Deus (11). Depois, em outro lugar: «Os homens são filhos dos homens quando se comportam mal; são filhos de Deus quando praticam o bem. Deus transforma os filhos do homem em filhos de Deus, porque fez do Filho de Deus o filho do homem. Vede se é grande esta participação na divindade! O Filho de Deus se fez participante de nossa condição mortal, para que o homem mortal participasse de sua natureza divina. Imensa caridade nos demonstra aquele
Deus que nos promete a divindade! (12)». E Santo Ambrósio diz: «Deus coloca no número de seus filhos aqueles nos quais vê a imagem de seu Filho» (De Fide, lib. 5, c. 3).
Conhecendo, pois, a nossa grandeza, direi com São Cirilo de Jerusalém: governemo-nos espiritualmente, para nos tornarmos dignos da adoção de Deus; porque aquele que é governado pelo Espírito de Deus é filho de Deus. Façamos assim, para não termos de ouvir: Se fôsseis filhos de Abraão, faríeis as obras de Abraão. Demos glória ao nosso Pai celeste com santas ações, a fim de que os homens, vendo a nossa boa conduta, sejam levados a louvar o nosso Pai que está nos céus (Catech. VII).
São Cipriano servia-se deste argumento para afastar os fiéis de Cartago dos espetáculos profanos. «Pode acaso deixar-se atrair pelas obras dos homens aquele que pensa ser filho de Deus? Ah! Cai do ápice de sua grandeza aquele que se deleita e se deixa arrebatar por outra coisa que não Deus (13).» E em outra passagem: «Porque amamos a Deus, nosso Pai, devemos comportar-nos como filhos de Deus, para que, se nos gloriamos de ter Deus por Pai, Ele também se alegre de nos ter como filhos. Governemo-nos como templos de Deus, e manifeste-se que Deus habita em nós; para que, tendo começado a ser celestes e espirituais, não nos ocupemos senão de objetos espirituais e celestes (14)».
«Não sabeis, escrevia São Paulo aos Coríntios, que sois o templo de Deus? Que o vosso corpo é a morada do Espírito Santo, que está em vós e que recebestes de Deus?» (1Cor 3,16; 6,19). Sois edifício não do homem, mas de Deus e, por conseguinte, um templo não profano, mas santo, no qual Deus habita por meio da fé, da esperança, da caridade e, com todos os seus dons, Ele mesmo permanece em pessoa. Sois os tabernáculos de Deus, os vasos consagrados a Deus… Não profanemos, pois, jamais este templo, porque «aquele que viola o templo de Deus, diz o mesmo São Paulo, será exterminado por Deus; porque santo é o templo de Deus, e este templo sois vós» (1Cor 3,17). Jesus Cristo habita em nós, como um filho em sua própria casa (Hb 3,6).
Lembrai-vos de que «já não sois estrangeiros nem peregrinos, mas concidadãos dos santos e membros da família de Deus» (Ef 2,19). Concidadãos dos anjos, dos patriarcas, dos profetas, dos apóstolos, dos mártires…, gozais dos direitos de cidadãos na Igreja de Jesus Cristo; pertenceis à casa, à família de Deus. Deus é vosso Pai, a Igreja e a Virgem Maria são vossa mãe, os bem-aventurados do céu são vossos irmãos. Sois da família do Rei-Messias, Deus e homem, membros da república cristã, na qual tendes direito aos sacramentos da Igreja, a todos os dons de Jesus Cristo, e estais inscritos no rol dos cidadãos, dos herdeiros da glória eterna. A cada um de vós foi designado um anjo que o proteja; foi dado o nome de um santo, para que lhe sirva de guia e conforto: nada vos falta… Não sois, porventura, sumamente nobres, grandes e felizes!
Membros de Cristo, como nos chama São Paulo (1Cor 12,27), somos filhos de Deus; «mas, se somos filhos, somos também herdeiros; sim, herdeiros de Deus e coerdeiros de Jesus Cristo» (Rm. 8,17).
«Não pertenceis a vós mesmos, dizia São Paulo aos Coríntios, porque fostes comprados por alto preço. Glorificai e levai Deus em vosso corpo» (1Cor 6,19-20). E qual foi esse preço? Diz São Pedro: «Não fostes resgatados com ouro ou com prata, mas com o precioso sangue de Cristo, como de cordeiro imaculado e incontaminado» (1Pd 1,18-19). São João dizia a Jesus Cristo: «Foste imolado e nos redimiste com o teu sangue» (Ap 5,9).
Magnífico e precioso é o sol, belas são a lua e as estrelas, mas não custaram o sangue de Jesus Cristo… Rica é a terra, fecundo é o mar, mas Jesus Cristo não derramou por eles o seu sangue. Somente o homem teve como preço o sangue de um Deus; somente pelo homem morreu Jesus Cristo! Tão grande, tão nobre, de tão alto valor é o homem, que todo o ouro, toda a prata, todos os tesouros do mundo não igualam o seu valor; pois, para encontrar um preço que lhe fosse equivalente, foi preciso buscá-lo não entre as criaturas, mas no sangue de um Deus! Se, pois, colocarmos numa balança, de um lado, o homem e, do outro, o sangue de Jesus Cristo, veremos que o preço do homem equivale ao sangue de Jesus Cristo; e, se é impossível estimar em seu justo valor o sangue de um Deus, também é impossível calcular o preço do homem; vós valeis tanto quanto vale o sangue de Jesus Cristo.
O homem, criado à imagem de Deus, já é uma espécie de divindade; mas principalmente em sua regeneração, por meio de Jesus Cristo, torna-se Deus, participa da natureza divina.» O Verbo se fez carne (Jo 1,14). Eis o homem divinizado…
«Devemos congratular-nos, dizia Santo Agostinho, com a natureza humana, porque o Verbo a revestiu de tal modo que a colocou imortal no céu, e porque a argila foi elevada a sentar-se à direita do Pai. Quem não se alegrará com a sua natureza, tornada imortal em Jesus Cristo, e não esperará ver também em si mesmo o mesmo prodígio, pela virtude de Jesus Cristo?» (Serm. de Nativ.). «Ah, sim, Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus; e, para que o homem comesse o pão dos anjos, o Senhor dos anjos se fez homem (15)».
O Nazianzeno ensina a mesma coisa: «O Verbo do Pai se fez homem e assumiu a nossa condição, para assim unir o homem a Deus. De uma parte e de outra, há um só Deus, um Deus feito homem, para fazer de mim, mortal, um Deus (16). Jesus nasceu na carne, para que nós nascêssemos no espírito; nasceu no tempo, para que nós nascêssemos na eternidade; nasceu numa estrebaria, para que nós nascêssemos no céu (17)». E antes dele, Santo Atanásio havia escrito: «Assim como o Senhor se fez homem, revestindo um corpo humano, assim nós, homens, somos divinizados pelo Verbo de Deus, desde que Ele foi recebido na carne (18)».
Na encarnação, o Verbo eterno uniu a si a humanidade como esposa, para unir-se e desposar todo o gênero humano; e para nos tornar, de mortais, imortais; de terrenos, celestes; de homens, converter-nos em deuses, segundo a expressão de São Bernardo (19). «Por isso Deus se fez homem, para fazer do homem um Deus». São Leão também escreve: «Jesus Cristo se fez filho do homem, para que nós pudéssemos tornar-nos filhos de Deus (20)». Cristo Jesus quis, em sua carne e em seu sangue, tornar-se nosso irmão. Com efeito, como observa Santo Agostinho: «Aquele que chama Deus de seu Pai necessariamente chama Cristo de seu irmão (21)».
Com razão Clemente de Alexandria afirma que Jesus Cristo, em sua encarnação, transformou a terra em céu e fez dos homens outros tantos anjos, ou antes, outros tantos deuses (Adhort. ad Gent.). É precisamente isso que São João quer significar com estas palavras: «Deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus. E o Verbo se fez carne» (Jo 1,12-14); e assim as explica Orígenes: O Verbo se encarnou, mas por nós, os quais, sem a encarnação, de modo algum poderíamos ser transformados em filhos de Deus. A salvação desceu para subir novamente com os salvos. Os homens foram transformados em deuses por aquele que fez de um Deus um homem. E habitou em nós, isto é, possui a nossa natureza, para nos tornar participantes da sua (22)».
Satanás, para enganar nossos primeiros pais, dava-lhes a esperança de poderem tornar-se deuses (Gn 3,5). Ora, ele profetiza sem querer, e sua profecia se cumprirá com a encarnação do Verbo: será apanhado em sua própria armadilha, e sua mentira, tornando-se, em sentido contrário ao que ele pretendia, uma realidade e a mais estupenda das verdades, converter-se-á em sua vergonha, confusão e derrota. Assim Deus zomba do demônio e tira o bem do mal. O Filho de Deus quis, ao revestir-se de carne humana, que o homem, o qual ambicionava tornar-se Deus, se tornasse tal e o fizesse sem delito. A essa divinização do homem, por meio da encarnação do Verbo, aludia o Salmista quando dizia dos homens: «Vós sois todos deuses e filhos do Altíssimo» (Sl 81,6).
Assim é, com efeito, se é verdadeira a sentença de São Cipriano, segundo a qual «Deus se mesclou ao homem; Cristo quis ser aquilo que é o homem, para que o homem pudesse ser aquilo que é Cristo (23)». E o é, de fato, com uma união tão íntima que, como diz Santo Agostinho, todos os homens, tendo Cristo por cabeça, formam Jesus Cristo (24). Por isso, cada um pode dizer com São Basílio: «Pela imagem de Deus impressa em minha alma, recebi o uso da razão; mas, tendo-me tornado cristão, torno-me semelhante a Deus (25)».
Se Jesus Cristo saiu dos dias da eternidade para entrar nos dias do tempo, como se exprime um profeta, fê-lo para que nós saíssemos dos dias do tempo e entrássemos nos dias da eternidade». «Ele desceu, diz Santo Agostinho, para que nós subíssemos e, participando da natureza dos filhos dos homens, adotou os filhos dos homens, para torná-los participantes de sua natureza. Ó homens, não desespereis de poder tornar-vos filhos de Deus, pois o próprio Filho de Deus se fez carne (26)».
Diz São Bernardo (Serm. sup. Missus): «A majestade onipotente, ao revestir-se de carne humana, realizou três coisas, ou uniões, das quais nunca se fizeram nem jamais se farão sobre a terra outras maiores e mais inauditas; com efeito, na encarnação aparecem unidos e mesclados Deus e o homem, uma mãe e uma virgem, a fé e o coração humano; estupendas, inefáveis são essas mesclas; e quem não considera um dos maiores milagres que coisas tão diversas, tão separadas, tão distantes entre si, se tenham unido em perfeita harmonia?». Depois, a propósito daquelas palavras aos apóstolos: «Permanecei em mim, e eu em vós» (Jo 15,4), o mesmo doutor irrompe nestas exclamações: «Ó sublimidade! Ó grandeza da mais sublime autoridade: que o homem habite com os anjos, que a terra e o pó se elevem até o céu, que o homem saído do lodo seja associado à companhia dos anjos! E mais ainda, coisa incrível: que a criatura habite no Criador, aquilo que foi feito naquele que o fez; o redimido, no Redentor; o servo, no senhor; o pecador, naquele que é justo por essência; o lodo, no Onipotente; o transitório, no imutável; o temporal, no eterno; a miséria, no sumo bem! Ó céu, que grandeza indizível: habitar naquele que torna eternamente feliz, que santifica tudo o que é santo, que é a verdade, a vida, a glória eterna, a alegria do mundo, a beleza do céu, a suavidade do paraíso, a bem-aventurada eternidade e a eterna felicidade, isto é, o Senhor Jesus!».
Nós nos tornamos participantes da natureza divina, diz São Pedro (II, 1, 4). A alma ornada com a graça de Deus é uma rainha infinitamente bela, superior em beleza não somente a todas as criaturas, mas ainda à beleza criada dos anjos; pois, por meio da graça, participamos da natureza divina e, por consequência, participamos de modo excelentíssimo e estreitíssimo da suma e sobrenatural beleza de Deus, que supera imensamente toda beleza natural e criada.
A propósito daquelas palavras do profeta Baruc: «Depois disso, ele foi visto sobre a terra e conviveu com os homens» (3,38), que São João mostra cumpridas naquela sublime passagem: «E o Verbo se fez carne e habitou entre nós» (1,14), São Cipriano, arrebatado de espanto, exclama: «Que podes desejar de melhor, ó homem? Antes se dizia a Deus: o homem pertence a Vós; agora se diz ao homem: Deus pertence a ti. Ó homem, tu bastas a Deus, e Deus basta também a ti» (Serm. de Ascens.). «Reconhece, ó cristão, diz Santo Ambrósio, a grandeza, a sabedoria, a nobreza do teu nome. O Cristianismo implica a imitação da natureza divina; se, portanto, és cristão, imita Jesus Cristo; não ostentes um nome vão e inútil, mas honra-o com as virtudes; mostra-te digno de um nome tão grande, praticando obras dignas dele; corresponda a tua vida a tal nome, para que não haja em ti um nome vão e o teu delito não se torne enorme» (De degnit. sacerd.).
O cristão que procede de outro modo traz um nome mentiroso; não possui do cristão nem o espírito, nem o coração, nem o pensamento, nem o afeto, mas somente a aparência; não é cristão. Diga, pois, o cristão consigo mesmo: pertenço a uma estirpe divina, o Filho de Deus é meu irmão, meu mestre, meu senhor; devo, portanto, viver divinamente, para ser outro Jesus Cristo. Pois nós somos, segundo diz São Pedro, sacerdócio régio, nação santa, povo adquirido» (I, 2, 9).
- Para vestir o nosso corpo, basta a pele dos animais…; mas, para vestir a alma, que é espiritual, ela necessita de Jesus Cristo… São Paulo diz: «Revesti-vos de nosso Senhor Jesus Cristo» (Rm. 13, 14). «Todo aquele que foi batizado em nome de Cristo, repete aos Gálatas, revestiu-se de Cristo» (Gl. 3, 27). «Revesti-vos do homem novo, escreve aos Efésios, que foi criado segundo Deus, na justiça e na santidade da verdade» (Ef 4,24). Toda outra veste que não seja Cristo é indigna de nossa alma… Do esplendor e da magnificência de semelhante veste, avaliai a grandeza e a nobreza do homem…
«Jesus Cristo, como afirma o Apóstolo, morreu por todos, a fim de que aqueles que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para aquele que morreu e ressuscitou por eles» (2Cor 5,15). Pois, se morremos com Jesus, cremos que também viveremos com ele. Considerai-vos mortos para o pecado, mas vivos para Deus em Jesus Cristo (Rm. 6,8-11). Por isso, afirma que Cristo é a sua vida (Fl 1,21); e uma vida tão íntima, tão total, que se pode dizer com razão que já não é Paulo quem vive, mas Jesus Cristo quem vive em Paulo. Jesus Cristo é, assim, a vida do cristão, e o cristão deve viver de Jesus Cristo tão intimamente que, se não vive dessa vida, está morto…
Qualquer pedreiro basta para construir uma casa que abrigue o nosso corpo; uma cabana coberta de palha serve suficientemente para essa necessidade, e, em pouco tempo, um caixão e uma sepultura constituirão toda a sua morada… Mas, para a alma, é necessário um palácio não construído pelo homem, mas pela mão de Deus…
Os arquitetos mais engenhosos não podem elevar para a alma uma morada que seja digna dela…; é necessário, portanto, o arquiteto do céu…; o homem sente necessidade de ter como morada a própria casa de Deus…; Jesus Cristo tomou para si o encargo dessa construção quando disse: «Eis que vou preparar-vos uma morada» (Jo 14,2).
Para alimentar o corpo, bastam alguns cereais dos campos…; mas, para alimentar a alma criada à imagem de Deus, requer-se a graça de Deus… Ela necessita do corpo, do sangue, da alma e da divindade de Jesus Cristo: «Comprometo-vos com a minha palavra: se não comerdes a carne do Filho do homem e não beberdes o seu sangue, não tereis a vida em vós» (Jo 6,54). Podeis compreender a vossa grandeza? Ela é tão sublime que exige um Deus por alimento; e, sem esse alimento, sem o pão eucarístico, não viveis… Ah, sim! Vós somente, ó meu Deus, sois o alimento de minha alma. Assim demonstrastes quão grande fizestes a criatura racional; tudo o que é menos que Vós, tudo o que não sois Vós, não basta para nutri-la nem para saciá-la; ela, portanto, não basta a si mesma…, e toda abundância que não sois Vós, ó meu Deus, é miséria, fome, indigência (27).
O homem sente em si a necessidade de viver imortal, indestrutível, e Deus o criou assim (Sb 2, 23); e, ao sair deste mundo, irá para a casa de sua eternidade (Ecl. 12, 5). Aquilo que termina não foi, pois, feito para o homem; logo, o homem foi feito para Deus, que jamais termina…
O homem formado à imagem de Deus, o homem de valor infinito, o homem rei, servo de Deus, filho de Deus, morada de Jesus Cristo, herdeiro do Onipotente, coerdeiro do Salvador; o homem que custou o sangue de um Deus, que participa da natureza de Deus, que é feito Deus pela encarnação do Verbo, o homem que deve ter por veste, por alimento, por vida, Jesus Cristo, e por habitação o paraíso; o homem que necessita da imortalidade, o homem que é tudo isso, o homem a quem são necessárias todas essas coisas, demonstra ser um ente de nobreza e grandeza quase infinitas.
Ah! se tu aprendesses, ó homem, a ler os títulos de tua nobreza e grandeza, se tu te conhecesses, como respeitarias a ti mesmo, como te julgarias feliz, como te esforçarias por tornar-te digno de teu sublime destino, de tua alta vocação! Oh! como desprezarias todo o resto, tão inferior e tão indigno de ti! E como terias a peito o negócio de teu excelso fim, que é conhecer, amar, servir a Deus e chegar ao porto da eterna salvação! Mas tu és cego, surdo e mudo neste ponto; tu te assemelhas àquelas estátuas de que fala o Salmista, que têm boca e não falam; têm olhos e não veem; têm ouvidos e não ouvem; têm nariz e não cheiram; têm mãos e não tocam; têm pés e não caminham; têm garganta que não produz som (Sl 113, 13-17). Ó homem aturdido e infeliz, bem se pode dizer de ti: «O homem, em meio à sua grandeza, não compreendeu sua condição; colocou-se no nível dos animais e tornou-se semelhante a eles» (Sl 40, 8, 12).
O homem não é tão nobre, grande e poderoso como vimos, senão pela virtude de Deus; deve, pois, apegar-se a Deus, e somente a Deus, com todas as forças de sua alma… Lembre-se de que não vive senão para conhecer, amar e servir a Deus, para obter a graça neste mundo e a glória no outro. «Não te esqueças, ó homem — diz São Gregório de Nissa —, de que foste criado para ver e contemplar a Deus, e não para rastejar sobre a terra; não para viver como os irracionais, seguindo as paixões, mas para levar uma vida celeste, para subir ao céu» (Orat. 2, in Psalm. XXXIII). «Ó alma — exclama Santo Agostinho —, ó alma feita à imagem de Deus, resgatada pelo sangue de Jesus Cristo e desposada com ele pela fé, filha adotiva do Espírito Santo, adornada de virtudes, destinada a viver com os anjos, ama aquele que tanto te amou; ocupa-te daquele que tanto pensou em ti; busca aquele que te busca; ama o teu amante divino; vigia com o teu Deus, que mantém continuamente os olhos abertos sobre ti; trabalha com ele, porque ele trabalha por ti; sê pura com aquele que é a pureza por essência, santa com o Santo dos santos» (Confess.).
São Paulo dizia aos Colossenses: «Assim como recebestes o Senhor Jesus Cristo, caminhai sobre suas pegadas, enraizados nele, edificados sobre ele, fortalecidos na fé» (Cl 2, 6-7). Notai aqui três excelentes meios que São Paulo propõe sob a forma de três comparações, para que pertençamos verdadeiramente a Deus. Ele compara Jesus Cristo e a fé nele: 1° a uma estrada na qual é preciso caminhar: in ipso ambulate. 2° A uma raiz à qual devemos permanecer unidos, ou melhor, na qual devemos ser enxertados e radicados. 3° A um fundamento sobre o qual devemos ser edificados: superaedificati in ipso. É necessário caminhar sobre as pegadas de Jesus Cristo, manter-nos unidos a ele e sobre ele elevar a construção de nossa vida, pela prática das virtudes… Pois, diz São Bernardo: «As virtudes são estrelas, e o homem é o firmamento dessas estrelas» (Moral. c. XXIV).