Tesouro n.º 91 · Volume II

GRAÇA GRAZIA

17 seções · 88 parágrafos · pp. 1067–1091 do PDF · português, com o original italiano a um clique

1. A GRAÇA E SUAS ESPÉCIES

A palavra graça vem do latim gratis datum, dado gratuitamente, e a Igreja a define como um auxílio sobrenatural que Deus nos concede para que façamos o bem e evitemos o mal. Os teólogos distinguem muitos gêneros de graças, aos quais dão nomes e definições especiais; mencionaremos os principais.

A graça divide-se em habitual ou santificante, e atual. A graça habitual é aquela que permanece em nós e nos conserva na amizade de Deus. Ela jamais se encontra num coração manchado por culpa grave. A graça atual é um socorro que Deus concede com maior ou menor frequência.

A graça atual divide-se ainda: 1° em graça do espírito, ou graça de luz, e em graça da vontade, ou graça de ação. 2° Divide-se em graça operante e cooperante, que excita, ajuda, previne e acompanha; em graça suficiente e graça eficaz. A graça operante é um socorro que Deus põe em nós sem nós. A graça cooperante é aquela que opera com o concurso de nossa vontade. A graça excitante é semelhante àquela que opera; ela nos anima e nos impele a fazer determinado bem e a evitar determinado mal. A graça que ajuda é semelhante àquela que coopera. A graça preveniente é aquela que precede outra graça ou o livre consentimento da vontade. A graça que segue ou acompanha é aquela que se une a outra graça ou ao livre consentimento da vontade.

A graça suficiente é aquela que, embora possa obter o efeito para o qual é dada, fica, contudo, privada dele por causa da malícia e da fraqueza da criatura. A graça eficaz é aquela que alcança seu fim e produz seu efeito…

2. JESUS CRISTO, AUTOR DA GRAÇA

«Ah! se conhecesses o dom de Deus — dizia Jesus à Samaritana — e quem é aquele que te pede de beber, talvez tu mesma lho pedirias, e ele te daria água viva… Todo aquele que bebe desta água torna a ter sede; mas quem beber da água que eu lhe darei jamais terá sede… Antes, a água que eu lhe der se tornará nele uma fonte de água que jorra para a vida eterna (Jo 4, 10, 13, 14)». Outra vez clamava no templo: «Quem tem sede, venha a mim e beba» (Id. 7, 371). Ele mesmo, o divino Salvador, comparava-se depois à videira, à árvore cujos ramos e sarmentos têm seiva na medida em que a extraem do tronco. Exortava, portanto, os seus fiéis a manterem-se bem unidos a ele; pois, assim como o sarmento não produz fruto algum se for cortado da videira, também eles nada podem fazer de bom para a vida eterna se se separarem dele. Mais ainda, ameaça-os de que serão lançados ao fogo, como um ramo ou sarmento seco (Jo 15, 1-6).

Diz Santo Agostinho: «Quando Deus recompensa os nossos méritos, que outra coisa faz senão recompensar os seus dons? (1)»; isso mesmo canta a Igreja numa de suas orações: «Ao coroar, Senhor, os nossos méritos, coroais os vossos dons (2)».

«Tudo o que recebemos de bom, todo dom perfeito vem do alto — ensina São Tiago — e desce do Pai das luzes, junto do qual não há mudança nem sombra de variação» (Tg 1, 17). São Paulo, anunciando que apareceu no mundo e se manifestou a todos os homens a graça do Salvador (Tt 2, 11), adverte-nos de que a salvação, em virtude da fé, nos vem da graça e não de nós mesmos, porque é dom de Deus. ― Por isso Santo Agostinho exclamava: «Dai-me, Senhor, aquilo que ordenais; depois ordenai-me tudo quanto quiserdes (3)».

A mesma coisa indicava Isaías, dizendo que «se haveriam de tirar com alegria as águas das fontes do Salvador» (Is 12, 3); a isso preludiava Davi com estas palavras: «Vós, Senhor, preparastes, na vossa bondade, o necessário para o pobre» (Sl 67, 11).

Toda a glória das maiores obras do cristão deve ser referida a Jesus Cristo, que é a causa inteira de tais obras; estas, embora realizadas livremente pelo homem, em virtude de sua natureza e de seu livre-arbítrio, recebem, contudo, toda a sua dignidade da graça de Jesus Cristo. Assim, por exemplo, uma obra de caridade recebe do homem o seu caráter de liberdade; é uma obra livre, não necessária, não forçada, mas de Jesus Cristo obtém ser sobrenatural, agradar a Deus e merecer a glória eterna. Somente a Jesus Cristo, portanto, são devidas o louvor, a glória e a ação de graças: Ele cede liberalmente ao homem que age todo o proveito, o mérito e o valor da boa ação, mas reserva para si toda a glória, segundo o que disse por meio de Isaías: «Não darei a outros a minha glória» (Is 48, 11). Por isso lemos no Apocalipse que os vinte e quatro anciãos depunham suas coroas aos pés do trono, cantando: Digno sois, ó Senhor nosso Deus, de receber a glória, a honra e o poder, porque criastes todas as coisas (Ap 5, 12).

Todos os sofrimentos, as lutas e as vitórias dos santos devem redundar em honra do Rei do céu, porque diante dele deve dobrar-se todo joelho no céu, na terra e no inferno, segundo a expressão do grande Apóstolo (Fl 2, 10).

A graça em geral e todas as graças em particular pertencem de tal modo própria e necessariamente a Jesus Cristo, que ele é, por antonomásia, o anjo da nova Aliança, porque, 1° apagou a cólera e removeu a inimizade de Deus contra o homem. Ele é, pois, o anjo da aliança, isto é, da reconciliação, chamado por isso por Isaías: «Príncipe da paz» (Is 9, 6), e por São Paulo: «Nossa paz» (Ef 2, 14). Com efeito, quando estávamos mortos pelo pecado, ele nos chamou a uma vida nova em si mesmo, perdoando-nos as nossas culpas e apagando a sentença de condenação contra nós; ele a revogou e aboliu, pregando-a na cruz (Cl 2, 13-14).

2° Jesus Cristo estabeleceu uma nova aliança — estando dissolvida a mosaica — entre Deus e os homens, em virtude da qual Deus se compromete para com os cristãos a dar-lhes a graça e a vida eterna; e estes, por sua vez, se obrigam para com Deus a crer em Jesus Cristo, seu Filho, a obedecer-lhe, a praticar a sua lei e a imitar a sua vida…

3° Ele desceu do céu à terra como um anjo e revestiu-se da carne humana, para unir em si o barro ao Verbo, a terra ao céu e o homem a Deus, pelo vínculo da união hipostática, com a natureza humana que tomou no casto seio da imaculada Virgem Maria, sua mãe, formando assim a mais estreita e íntima aliança…

4° Na última ceia, na véspera de sua morte, ele fez o seu testamento, expressão de suas últimas vontades, e o sancionou com a instituição da Eucaristia, dizendo: «Este é o sangue da nova aliança» (Mt 26, 28).

5° Jesus Cristo, na qualidade de anjo do Testamento, trouxe do céu esta aliança aos homens; consolidou-a na terra durante trinta e três anos, com suas fadigas, seus suores, seus discursos, suas viagens, seus trabalhos, com a fome, a sede, o frio e o calor; e, por fim, não somente a confirmou e selou com o seu sangue, mas também a adquiriu para si e a tornou sua, pagando o preço necessário para uma reconciliação tão grande e para uma aliança tão íntima; preço equivalente e aceitável em toda justiça, e esse preço vale para todas as nações, por todos os séculos, ainda que o mundo durasse milhões de anos, e também por toda a eternidade. Com efeito, os santos no céu participarão dessa aliança pela glória na eternidade; Jesus Cristo levou-a ao paraíso e ali foi por ele confirmada, tendo em vista a glória celeste. Por isso, tendo concluído essa aliança, subiu primeiro, glorioso, ao céu, chamando para lá os seus fiéis e dizendo-lhes que o seguissem…

3. NECESSIDADE DA GRAÇA

É sentença peremptória de Jesus Cristo que, sem ele, ninguém pode fazer coisa alguma (Jo 15, 5). A tal ponto, diz o Apóstolo, que não somos capazes, por nós mesmos, de produzir um pensamento que valha, mas a capacidade nos vem de Deus (2Cor 3, 5).

«Sabeis o que temos de nosso, diz Santo Agostinho; nada mais que o pecado e a mentira. E, se algum clarão de verdade e de justiça se encontra em nós, nós o haurimos daquela fonte à qual devemos aspirar no deserto deste século, para que, revigorados por alguma gota, não desfaleçamos pelo caminho (4).» «Porque a vontade do homem, acrescenta o Crisóstomo, nada pode se não for auxiliada pelo socorro sobrenatural (5).»

O pecador permanece esmagado sob o pecado como sob o peso de uma montanha; está aprisionado e não pode sair do cárcere, nem sacudir de si o peso, nem romper as cadeias, sem a graça de Deus. «É necessário, diz São Bernardo, que a unção espiritual da graça fortaleça a nossa fraqueza, que Jesus alivie, com a graça que se encontra na religião, as muitas e variadas cruzes que estão ligadas à observância da lei divina e da penitência cristã; pois não se pode seguir Jesus Cristo sem cruzes, nem suportar a dureza das cruzes sem o alívio da graça (6).» «Assim como, diz Santo Agostinho, jamais se viu cavalo ou leão domar-se a si mesmo, mas, para domá-los, é necessária a ação do homem, assim também o homem não se doma a si mesmo, mas é necessária a ação de Deus (7).» Não é a natureza, mas a graça que opera no homem…

«A alma, escreve o mesmo doutor, é a vida do corpo; Deus é a vida da alma (8); e a graça é a alma da alma (9); portanto, assim como o corpo morre quando é separado da alma, também a alma morre quando é separada de Deus (10).» Pode-se dizer que a graça é a respiração da alma, e a respiração da alma lhe é tão indispensável quanto a respiração do ar para o bem-estar do corpo; e aquilo que a respiração opera no corpo, a graça o opera na alma; pois ela não encontra mérito algum no homem, mas produz todos eles (11).

O homem cai sem Deus, mas não se levanta novamente senão socorrido por Deus. O homem não necessita de Deus nem de seu auxílio para pecar mortalmente e precipitar-se no inferno, mas jamais se levantará do pecado mortal, nem sairá do inferno sem a graça divina. Que mais? O homem não somente não pode levantar-se sem Deus, mas tampouco caminhar ou mover o passo… «Se o Senhor, dizia Davi, não edifica ele mesmo a casa, em vão trabalham nela os construtores; se o Senhor não guarda ele mesmo a cidade, inutilmente vigia aquele que a guarda» (Sl 126, 1-2). Assim aconteceu precisamente aos apóstolos no mar de Tiberíades, onde, depois de terem trabalhado a noite inteira lançando as redes, não haviam conseguido apanhar nada; mas, logo que se puseram ao trabalho, confortados pela palavra de Jesus Cristo, fizeram uma pesca tão abundante que as redes se rompiam com o excessivo peso (Lc 5, 5,6). Também a Esposa do Cântico confessa que precisa ser ajudada a seguir o seu amado, por meio do perfume de seus perfumes, e por isso lhe pede (Ct. 1, 3). Tampouco nós podemos caminhar, correr, voar pela estrada da virtude, pelo caminho do céu, se não somos atraídos pelo perfume da graça divina.

4. A GRAÇA NÃO DESTRÓI O LIVRE-ARBÍTRIO

A graça atrai livremente e não necessariamente. Com efeito, ela nos atrai e conduz, como observa São Cirilo, por meio das admoestações, da doutrina e da inspiração que continuamente nos faz sentir (12). E Santo Agostinho explica assim a questão: «Não julgueis que sois atraídos contra a vossa vontade; o espírito é conduzido pelo amor; não a força, mas o amor leva a agir. Com muito maior razão devemos dizer que o homem é atraído a Jesus Cristo, porque o homem tende à verdade, à felicidade, à justiça, à vida eterna, e Jesus Cristo é tudo isso. Essa violência é feita ao coração, não à carne. Por que, pois, vos perdeis? Crede, e vireis; amai, e sereis atraídos. Não imagineis que essa violência seja dura e penosa; ela é doce e suave; é a própria doçura que vos atrai. Porventura a ovelha não é atraída quando, tendo fome, vê diante de si a erva que lhe é oferecida? Eu, por mim, creio que ela de modo algum é arrastada contra a vontade, mas é o desejo, a vontade, que a conduz. O mesmo se dá convosco: vinde a Jesus Cristo; e, se não vos sentis atraídos, pedi para ser atraídos» (Serm. II de Verbo Domini).

Aos que objetavam: mas, se toda ação vem de Deus, se a sua graça faz tudo, em vão me exortais, em vão me intim dais e aterrorizais, em vão me ordenais obedecer; São João Crisóstomo respondia com a Escritura que Deus, no princípio, criou o homem e o deixou entregue ao poder de suas próprias decisões; pôs diante dele a água e o fogo, dando-lhe a faculdade de estender a mão para aquilo que mais lhe agradasse; propôs-lhe a vida e a morte, o bem e o mal, prometendo dar-lhe aquilo que escolhesse por seu livre-arbítrio (Eclo. 15, 14, 17-18). E recordava-lhes também aquele texto do Deuteronômio (30, 13-16): «Considera que hoje pus diante de teus olhos a vida e os bens, a morte e os males, para que ames o Senhor teu Deus e vivas» (Homil. ad pop.). O homem deve, pois, corresponder à graça, se quiser que ela opere nele…

A graça toca e solicita a vontade do homem, para que ele consinta livremente em seguir a graça e coopere com ela, mas de modo algum a força… Estas palavras do Apóstolo: «É Deus quem opera em nós o querer e o realizar, segundo a sua benevolência» (Fl 2, 13), são explicadas pelo Crisóstomo e pelos demais doutores católicos neste sentido: Deus ajuda, aumenta e põe em ação a prontidão e a disposição da vontade para fazer o bem… «Deus, escreve Santo Agostinho, move e dá impulso, contanto que o homem queira livremente arrepender-se, amar e fazer qualquer outro bem (13)». Deus excita e concede a graça para queiramos; cabe a nós, de nossa parte, corresponder à graça…

Deus opera em nós, com sua graça, o querer, mas de modo diferente daquele que empregou ao criar o céu e a terra etc. Ao criar o céu e a terra, impôs-lhes a necessidade de existir; ao passo que faz a vontade humana produzir uma ação livre por meio da persuasão, dos atrativos, das doces solicitações, das carícias, da bondade, do temor, da força interior e das suaves consolações. Ele opera não fisicamente, mas moralmente…

A Igreja ensina, com Santo Agostinho, que todo início da boa vontade, da fé e da salvação provém da graça preveniente e perseverante. Deus faz queiramos e que cumpramos aquilo que queremos (De grat. et lib. arbit.). Deus opera em nós o fazer, continuando a conceder-nos a mesma graça com que operou o querer. Quando um ato exterior é difícil, como o martírio, então ele comunica a força para agir, confirmando e animando o homem com uma nova graça.

São Bernardo, falando da graça e do livre-arbítrio, explica de modo admirável como Deus opera em nós estas três coisas: o pensar, o querer e o fazer. Opera em nós, sem nós, a primeira coisa, que é o pensar; opera em nós, conosco, a segunda, isto é, o querer; opera em nós, por meio de nós, a terceira, que é o fazer. Quando, porém, sentimos que essas coisas acontecem invisivelmente em nós, guardemo-nos de atribuí-las ou à nossa vontade, que é enferma, ou a uma necessidade divina, que não existe, mas somente à graça de que estamos repletos. É a graça que desperta o livre-arbítrio quando infunde em nós o desejo; cura-o quando transforma o afeto; fortalece-o para conduzi-lo à ação; conserva-o para preservá-lo da queda. Opera em união com o livre-arbítrio, que ela previne e precede para despertar o pensamento; depois o segue e acompanha no restante, que é o querer e o fazer. Precede no pensamento para fazê-lo cooperar no querer e no fazer. Portanto, o começo pertence todo e somente à graça; o querer e o fazer acontecem pela graça e pelo livre-arbítrio, não separados, mas unidos; ambos operam ao mesmo tempo, não alternadamente, no querer e no fazer. A graça não trabalha por si mesma, nem o livre-arbítrio por si mesmo; mas ambos agem sobre o todo, cada qual com sua ação própria (14).

«Pela graça de Deus, confessa de si o Apóstolo aos Coríntios, sou o que sou, e sua graça não foi estéril em mim; antes, trabalhei mais do que todos eles, não eu sozinho, mas a graça de Deus comigo» (I, 15, 10). Não dizem claramente estas palavras de São Paulo que a graça e a vontade operam juntas e de comum acordo?

«Atrai-me, exclama a Esposa do Cântico, e eu correrei atrás de teus passos, atraída pelo perfume de teus perfumes» (Ct. 1, 3). Ah, sim! Conduzi-me, Senhor, com vossa graça, dos vícios à virtude, da ignorância à fé e ao conhecimento de vós, da carne ao espírito, da tibieza ao fervor, do princípio ao acabamento da obra, das coisas fáceis e pequenas às grandes e heroicas, dos afetos terrenos aos celestes, do temor ao amor, da volúpia à mortificação da carne, à cruz… Somos atraídos e conduzidos pela graça não por meio de correntes ou açoites, mas pela força do amor, segundo as palavras do profeta Oseias: «Eu os atrairei a mim com os laços com que se atraem os homens, com os vínculos do amor» (Os 11, 4). Por isso Santo Agostinho sentencia: «Amai, e sereis atraídos (15)».

Deus nos deu o livre-arbítrio e concede-lhe cooperar com a graça, a qual o desperta para fazer o bem, e Deus coopera conosco por meio da graça… O livre-arbítrio sozinho nada pode; a graça não força ninguém; a graça e o livre-arbítrio, unindo-se, fazem o bem; esse bem é meritório pela graça e pela cooperação voluntária com a graça…

5. POR QUE DEUS DÁ A GRAÇA

Deus concede sua graça por puro amor para conosco… Deus opera em nós o querer e o fazer, por meio de sua graça, para que sua boa vontade se cumpra em nós, por nós e para Ele; para que vivamos santa e felizmente aqui embaixo, e Ele possa recompensar-nos na eternidade, sendo essa a misericordiosa vontade de Deus ao conceder-nos suas graças… Ó céu! Que vergonha para a preguiça humana! Deus está mais disposto a dar-nos a graça do que nós a recebê-la; empenha-se mais em chamar-nos à salvação eterna do que nós em caminhar para o céu. Quando dá, dá do que é seu e com prazer; quando se recusa a dar e pune, recusa-se e pune com pesar; e somente em nós encontra os motivos para agir assim…

Há em Deus uma inclinação infinita, um imenso desejo de comunicar-se, que provém da infinita perfeição e da plenitude de seu ser; plenitude tão grande que ele se empenha em derramá-la nas criaturas e especialmente nos homens, embora a conserve sempre inteira, por mais que dela comunique. «Deus é nas criaturas inteligentes o que o sol é nas coisas sensíveis», diz o Nazianzeno (16). Portanto, assim como o sol espalha por toda parte os seus raios para iluminar, aquecer, vivificar e fecundar, sem por isso perder nada de seus raios, assim Deus espalha os raios de sua beneficência sobre todas as criaturas, sobre todos os homens, para iluminá-los com as luzes de sua sabedoria; inflama de seu amor os anjos e os homens; vivifica-os para a vida da graça e da glória, sem diminuir em nada sua infinita plenitude. A encarnação, as provas, a pregação, os milagres, a paixão, a morte, os sacramentos, a missão do Espírito Santo, o cuidado especial de toda a Igreja e de cada fiel são efeitos da solicitude de Deus para conosco. «Pelas entranhas da misericórdia de Deus, visitou-nos aquele que se levanta nas alturas do Oriente», cantava Zacarias, pai do Batista (Lc 1, 78).

«A graça de Deus, escreve Santo Próspero, reina por meio da persuasão, das exortações, dos bons exemplos, do temor dos perigos, dos milagres, das inspirações, dos conselhos, da fé, da inteligência que concede, dos ardores com que acende o coração» (De Vocat. gent. lib. 2, c. X). Sim, a graça nos é dada para iluminar o espírito, estimular a vontade, purificar a alma, inflamar o coração de amor, semear a vida de boas obras e conduzir à visão e ao eterno gozo de Deus no reino da glória…

«A graça, diz Santo Agostinho, nos é dada para que queiramos, e é ela mesma que começa em nós o bem; quando queremos, ela realiza em nós aquilo que começou. Ela nos previne para nos curar, acompanha-nos para conservar em nós a saúde espiritual; previne-nos para nos chamar, segue-nos para nos glorificar; previne-nos para fazer que vivamos piamente, acompanha-nos para nos fazer viver eternamente com Deus (17)». Em suma, a graça nos é dada para que conheçamos, amemos e sirvamos fielmente a Deus nesta vida e o possuamos para sempre na eternidade. É-nos dada para o nosso bem temporal e espiritual, no tempo e na eternidade.

6. POR QUE DEUS CONCEDE MAIS GRAÇAS A UNS DO QUE A OUTROS

«Por que um é atraído pela graça e outro não? pergunta Santo Agostinho, e responde: não o sentencies, se não queres errar (18)». E desde quando Deus está obrigado para com o homem? … Ele é senhor de seus dons e livre para dá-los a quem quer… Ele nada deve ao homem; aliás, dá com usura àquele que corresponde fielmente às suas graças… Há muitos ingratos, incrédulos, ímpios e empedernidos; a estes Deus não deve senão castigos… Eles abandonam primeiro a Deus; e Deus se retira e os abandona; não têm senão aquilo que merecem… Acaso quereríeis obrigar Deus a dar alguma coisa àquele que não reza, que antes se recusa a rezar-lhe? … àquele que desejaria viver sempre para pecar sempre? … Deve Deus alguma coisa àquele que abusa de tudo? «A graça não é concedida senão àquele que vigia sobre si mesmo», diz o Crisóstomo (19). «E quem és tu, ó homem, pergunta São Paulo, para ousares pedir contas a Deus? Porventura já se viu um vaso dizer ao oleiro: Por que me moldaste assim e não assim? Está no arbítrio do oleiro fazer da mesma argila um vaso para uso honroso e um vaso para uso vil» (Rm. 9, 20-21).

«Deus, como observa Santo Agostinho, retribui mal por mal porque é justo, bem por mal porque é bom; bem por bem porque é bom e justo; a única coisa que não faz é retribuir mal por bem, pois não é injusto (20)» … É certo que, por toda a eternidade, nenhum réprobo poderá jamais dizer: Eu me perdi irremediavelmente, não por minha culpa, mas por culpa de Deus. Será antes constrangido a confessar que se condenou por sua própria culpa: estaria no céu, se o tivesse querido. Deus não condena senão aqueles que merecem ser condenados, assim como jamais nega o paraíso àqueles que o conquistam. Por que nos lamentarmos? A nossa perdição vem de nós (Os 13, 9) … Esforcemo-nos por conhecer, amar e servir a Deus com toda a alma e com todas as forças, e estejamos certos de que estaremos entre os eleitos…

7. DE QUE MODOS DEUS NOS COMUNICA AS GRAÇAS

De quatro modos Deus se aproxima do homem e lhe comunica as graças:

1° Iluminando a mente, para que veja aquilo que é preciso conhecer…

2° Por meio da instrução, para que saiba aquilo que deve praticar…

3° Pela recuperação ou pelo aumento da amizade de Deus…

4° Pelo deleite interior das coisas espirituais… Estes são os principais meios com que Deus atrai a si o homem e lhe comunica as suas graças.

8. DESEJO QUE JESUS CRISTO TEM DE COMUNICAR SUAS GRAÇAS

Para persuadir-nos do vivo e imenso desejo de que arde Jesus Cristo de nos dar as suas graças, basta recordar a encarnação, a vida, os sofrimentos e a morte… Este seu vivo desejo é expresso naquelas suas palavras aos apóstolos: «Eu ardia de desejo de comer convosco esta Páscoa» (Lc 22, 15), e naquelas outras que dirigiu aos judeus: «Se alguém tem sede, venha a mim e beba» (Jo 7, 37). «Eu vim trazer ao mundo o fogo da caridade; e é meu máximo e único desejo que ele se acenda» (Lc 12, 49). E que outra coisa queria dizer aquela sua palavra pronunciada na cruz — Sitio (Jo 19, 28) — senão isto: tenho sede da fidelidade e da correspondência dos homens às minhas graças? … Não é Deus quem nos diz pela boca do Sábio: «Dá-me, meu filho, o teu coração» (Pr. 23, 26); e no Apocalipse: «Eis que estou à porta e bato: se alguém ouvir a minha voz e me abrir, entrarei em sua casa e cearei com ele, e ele comigo» (3, 20)?

9. ABUNDÂNCIA DE GRAÇAS

«Em Jesus Cristo habita corporalmente toda a plenitude da divindade, e nele fomos preenchidos» (Cl 2, 99-10). Ora, se fomos preenchidos da divindade, é claro que abundam em nós todas as graças, pois temos em nós o autor de todas elas, que, como diz São Tiago, as distribui largamente a todos, sem censura (1,5). Por isso, os Atos dos Apóstolos observam que a graça se manifestava abundantemente nos cristãos (At. 4, 33), e São Bernardo confessa que Jesus Cristo se lhe havia comunicado por inteiro e se havia colocado todo a seu serviço (21).

São Tomás ensina que Deus dá com liberalidade e generosidade, não por preço; dá universalmente, não a um só, mas a todos…; dá com profusão…, com bondade, sem lançar em rosto o dom (3 p. q. art. 9). Santo Ambrósio nos assegura que Deus recompensa as nossas boas obras muito mais abundantemente do que elas merecem. Deus, dizem concordemente os teólogos, pune menos do que o homem merece, mas recompensa além de todo mérito. Esta doutrina concorda com aquelas palavras do apóstolo Pedro: «Esforçai-vos sempre mais, irmãos, por tornar firme, por meio das boas obras, a vossa eleição e vocação; pois, fazendo isso, jamais caireis. E assim vos será aberta uma entrada abundante no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo (2Pd 1, 10-11)».

Ah, sim! todo homem pode dizer com o Salmista que Deus o preveniu com as bênçãos de sua clemência (Sl 20, 3), e que sua alma se enriqueceu com os favores divinos (Sl 112, 5). Quem não é ingrato aos benefícios de Deus deve convidar quantos conhece e encontra a ouvir o relato das admiráveis graças de que o Senhor o cumulou (Sl 65, 15), e exclamar: «Que darei eu ao Senhor em retribuição de tantos bens com que me enriqueceu? (Sl 115, 3).

Deus pode verdadeiramente dizer que «embriagou as almas abatidas e saciou as famintas» (Jr 31, 25); e em todos os que querem se cumpre aquela palavra de Isaías: «Já não sentirão fome nem sede, porque o Deus misericordioso os dessedentará nas fontes das águas» (49,10); daquelas águas de que dizia a Esposa dos Cânticos: «A fonte de vossos jardins é um poço de água viva que se precipita (sobre mim) do Líbano (da eternidade)» (Cant. 4, 15).

Deus alimenta os cristãos com seu Evangelho, com sua doutrina, com seus favores, com a santa Eucaristia; protege-os nas tentações; se eles se confiam a ele e o seguem, se querem cooperar com sua graça, saem vencedores de todas as tentações, não padecem mais nem fome nem sede… Quem pode contar as graças que Deus concede ao homem? Graças temporais…, graças espirituais…; graças interiores…, graças exteriores…; graças da criação…, da redenção…, da providência…, dos sacramentos…; graças para o corpo, para a alma, para a mente, para o coração, para a memória, para a vontade; graças no tempo…, graças na eternidade…, graças universais…, graças particulares…, graças a cada instante, de tal modo que Deus pode dizer a cada um de nós aquilo que disse ao povo judeu: «Que mais havia de fazer à minha vinha, que eu não lhe tenha feito?» (Is. 5, 4).

10. A GRAÇA É UM ENXERTO DIVINO

A comunicação da graça tem grande semelhança com o enxerto das plantas; porque 1° assim como se faz o enxerto de uma árvore de boa espécie num ramo de árvore silvestre e estéril, para que produza frutos saborosos e deliciosos, assim a graça comunicada do céu a nós, rebentos silvestres e estéreis, faz-nos produzir frutos abundantes e excelentes de boas obras. 2° Toma-se o ramo de uma árvore de boa espécie para enxertá-lo numa de má qualidade; assim a graça vem de Deus, virtude e santidade por essência, ao coração do homem de natureza corrompida… 3° Na planta silvestre corta-se um ramo, que é substituído por outro produtivo; assim a graça corta de nós a parte do velho Adão e põe em seu lugar o novo, isto é, Jesus Cristo… 4° A gema que se insere na árvore recebe a mesma seiva e se une perfeitamente a ela; assim, pela graça, somos incorporados a Jesus Cristo, unidos, transformados nele, divinizados… 5° O ramo é enxertado na árvore para que participe de sua seiva; a graça nos é dada para que absorva em nós tudo o que pertence à natureza… 6° O enxerto deve ser feito na primavera, enquanto as árvores estão em seiva; nenhum tempo da vida é mais propício para o enxerto da graça no coração do homem do que o da juventude… 7° A planta deve ser fendida até a medula, se se quer que a árvore tire proveito do enxerto; assim a alma deve abrir-se até o coração, por meio do amor de Jesus Cristo, para que possa unir-se a ele e formar um só coração. Assim como a medula se confunde com a medula, assim o nosso coração se une ao coração de Jesus Cristo por meio da graça… 8° Assim como se faz uma incisão na árvore para o enxerto, assim é preciso cortar, eliminar, arrancar as paixões do nosso coração, se queremos que nele viceje o enxerto de Jesus Cristo… 9° O enxerto é diligentemente envolvido e protegido do frio, do calor, dos ventos e dos insetos nocivos, e chega-se até a cobri-lo de barro; assim a alma deve abraçar-se a Jesus Cristo e ser defendida contra todas as tentações de tibieza, de gula, de orgulho, de luxúria etc., por meio da meditação do nosso nada, do barro de que somos compostos, das misérias humanas, da morte, dos pecados cometidos… 10° O enxerto é feito no alto da planta; a graça deve dominar todos os nossos pensamentos e atos… 11° A árvore silvestre e estéril, que pouco ou nada produzia, e aquilo pouco tinha sabor amargo e nenhum valor, em virtude do enxerto legítimo produz frutos belos à vista e doces ao paladar; assim a graça deve produzir em nós frutos de bons exemplos… 12° A planta adota o enxerto; por meio da graça, Deus nos adota como filhos… 13° O enxerto une-se indissoluvelmente à árvore; o coração deve vincular-se inseparavelmente à graça…

11. A GRAÇA É COMPARADA À PUPILA DO OLHO

«Ele cuidará da graça como da pupila de seus olhos», lemos no Eclesiástico (17, 18). Bela e verdadeira é esta comparação da graça com a pupila do olho! Com efeito, em primeiro lugar, na pupila se reflete vivamente a imagem da beleza e da bondade do olho; e a graça é o mais esplêndido reflexo da beleza e da bondade de Deus, pois é a mais pura participação da divindade… Em segundo lugar, a pupila constitui o ornamento e o brilho do rosto; a graça é o ornamento e a dignidade da alma; se se tira ou se fere a pupila, o homem fica cego; se se tira a graça, cega-se e, mais ainda, mata-se a alma… Apagai o sol no firmamento durante o dia, apagai a lua e as estrelas durante a noite, e o céu se torna escuridão e trevas; tirai a graça de uma alma, e destruís o sol e as estrelas do espírito; não lhe restam senão densas trevas na inteligência e na razão, uma noite sombria e eterna pesa sobre a alma privada da graça, porque esta é para ela o que o sol é para a terra e para o mundo…

12. EXCELÊNCIA DA GRAÇA

A graça é a fonte da glória, da qual procede e à qual conduz… «A água que eu vos darei, diz Jesus Cristo, é fonte de água que jorra para a vida eterna» (Jo 4, 14). O Redentor chama sua graça de água viva, porque vem do céu, que é a vida, e conduz ao céu. A graça é um rio que deságua no oceano da bem-aventurança eterna: «Quem beber desta água, é palavra de Jesus, jamais terá sede eternamente» (Jo 1V, 13).

Embora nossas obras não tenham nenhuma proporção com a glória celeste, enquanto são obras do homem, todavia a têm de certo modo, enquanto são obras da graça de Jesus Cristo; pois a graça é, tanto por sua natureza como pela promessa de Deus, a semente da glória. «Por meio da graça, diz São Jerônimo, o homem deixa de ser fraco e vão e se torna, por assim dizer, um deus (22)». Por isso São Paulo afirma: «O que para mim era lucro, considerei-o perda por Cristo. Além disso, cheio do conhecimento sobremodo excelente de Jesus Cristo, nosso Senhor, por amor dele despojei-me de tudo; considero esterco e julgo perda todas as coisas, para ganhar Cristo» (Fl 3, 7-8). São Pedro desejava aos fiéis que neles aumentassem a graça e a paz no conhecimento de Deus e de nosso Senhor Jesus Cristo, para que soubessem como tudo o que diz respeito ao poder divino em relação à vida e à piedade nos foi dado por meio do conhecimento daquele que nos chamou por sua própria virtude e glória e que cumpriu, com suas graças, as magníficas e preciosas promessas feitas a nós, para que nos tornássemos participantes da natureza divina… (2Pd 1, 4).

Deus comunica-se a nós por meio de sua graça e dá a si mesmo ao justo; por essa comunicação, eleva a alma até si, transforma-a e diviniza-a. Somente Deus possui essencialmente a natureza divina. Os fiéis e os justos dela participam por meio da graça, não essencialmente nem pessoalmente, mas em parte acidentalmente e em parte substancialmente.

1° Acidentalmente, pelo dom da graça santificante, que é acidental no justo, isto é, que nele existe, mas poderia não existir sem que sua natureza fosse aniquilada. Em virtude dessa graça, participamos da natureza divina de modo estreitíssimo e quase infinito. Com efeito, a graça é coisa tão nobre e excelente que está infinitamente acima da natureza dos homens, e não se pode encontrar, segundo o parecer unânime dos teólogos, substância criada que seja da mesma natureza que a graça, pois a graça participa da divindade em grau mais elevado, num grau tão sublime que a ele não chega coisa alguma nem natureza alguma criada.

Por meio da graça, o homem é, pois, elevado à ordem não angélica, mas divina; torna-se aliado e participante da natureza divina. Não se pode dar ao homem participação maior na divindade do que aquela que ocorre por meio da graça, exceto a participação de Deus por meio da glória; esta, porém, só se realiza quando já ocorreu a participação na divindade pela graça.

Meditem os pecadores nestas sublimes verdades, para que vejam o que perderam ao perder a graça por um prazer vil, por um interesse miserável, e se esforcem sem demora por recuperá-la; meditem-nas os justos, para não negligenciarem nada do que é necessário para conservá-la, fortalecê-la, aumentá-la e aperfeiçoá-la em si mesmos.

2° Os justos participam da natureza divina não somente acidentalmente, em virtude da graça santificante, mas também substancialmente, em virtude da própria natureza divina que lhes é comunicada e pela qual são adotados por Deus como seus filhos, como herdeiros e como deificados. Para compreender esta verdade, notai em primeiro lugar que a justificação formal e a nossa adoção consistem inteiramente na virtude e na graça que nos é dada e que se identifica conosco, a qual contém em si e traz consigo o Espírito Santo, que é o autor da caridade e da graça. Com efeito, a graça que adota não pode existir separada do Espírito Santo, nem a adoção do Espírito Santo pode ser separada da graça, do mesmo modo que não se podem separar o sol de seus raios, nem os raios do sol. De fato, o Espírito Santo, pela caridade e pela graça, justifica-nos formalmente, habita em nós, vivifica-nos e adota-nos. De fato, a justiça inerente, ou a graça santificante, não é uma simples qualidade, mas compreende várias coisas inestimáveis, como, por exemplo, a remissão dos pecados, a fé, a esperança, a caridade e, numa palavra, o Espírito Santo, autor de todos os dons. Na justificação infusa o homem recebe todas estas grandes coisas, diz o Concílio de Trento, sessão 6, capítulo VIII.

Notai, em segundo lugar, que, na justificação e na adoção, não somente a caridade, a graça e os dons do Espírito Santo são dados ao homem, mas ele recebe, além disso, a própria pessoa do Espírito Santo e, por consequência, toda a divindade, isto é, toda a Santíssima Trindade; de modo que a divindade se encontra realmente e pessoalmente presente na alma do justo, com os seus dons e por meio dos seus dons, e habita substancialmente nessa alma como em seu próprio templo, une-se a ela, diviniza-a, e isto é um favor, uma dignidade e uma fonte de felicidade de certo modo infinita…

Dessa comunicação da própria pessoa do Espírito Santo e de toda a Trindade, segue-se a suprema elevação, ou, diríamos, a divinização da alma, e, portanto, uma adoção perfeitíssima e divina, não somente pela graça, mas também pela substância divina. Por isso, São Basílio disse que os santos são deuses, por causa da morada que o Espírito Santo mantém neles (Homil.).

A graça é uma imensa participação da santidade e da beleza de Deus… «Eras, diz Santo Ambrósio ao homem, um tronco seco em Adão; mas agora, pela graça de Cristo, foste transformado em uma árvore fecunda de excelentes frutos (23)».

Ouvi os elogios que o Sábio faz da graça: «Eu a antepus aos reinos e aos tronos, e estimei as riquezas como menos que pó em comparação com ela; não a igualei à pedra preciosa, porque o ouro, em seu confronto, vale um punhado de areia, e a prata, em comparação com ela, é lama» (Sb.VII. 8-9). «Ela é mais preciosa que todos os diamantes; todos os tesouros e as riquezas do mundo não igualam o seu valor» (Prov. 3,15).

A graça é, pois, o tesouro dos tesouros; é a participação da natureza divina no mais alto grau, isto é, tanto quanto a criatura pode dela participar, não somente naturalmente, mas também sobrenaturalmente…

13. PODER E MARAVILHAS DA GRAÇA

Jesus Cristo caminha sobre as águas e também sustenta nelas Pedro; acalma a tempestade e, num abrir e fechar de olhos, leva a barca para a terra. Por meio de sua graça, Jesus Cristo opera em nós os mesmos prodígios: faz-nos calcar aos pés o mundo, acalma as tempestades das tentações, da concupiscência e das paixões, e acolhe-nos no porto da salvação eterna. Ah! se a graça de Jesus Cristo habita em nosso coração, em breve nos encontraremos onde queremos chegar, isto é, no céu… De que poder, de que eficácia não deve ser a graça daquele Jesus Cristo que, na cruz, fez de um malfeitor um santo e transformou, num instante, Saulo, de furiosíssimo perseguidor, em zeloso e operosíssimo apóstolo?

A água remonta até o nível de sua fonte; assim também a água da graça, que desce do céu à alma justa, impele a alma com tal ímpeto e eficácia que a eleva até seu divino Criador; pois, sendo a graça a fonte da glória, toma o homem e o transporta consigo à glória. A graça é um rio de água viva, e quem navega nele deve chegar ao porto da vida eterna.

«Para que o esplendor das revelações não me encha de orgulho, diz o grande Apóstolo, foi dado à minha carne um aguilhão, o anjo de Satanás, que me esbofeteia. Por isso, supliquei ao Senhor que ele me fosse tirado; e ele me respondeu: Basta-te a minha graça, porque é na fraqueza que se manifesta a força. Portanto, de bom grado me gloriarei na minha enfermidade, para que em mim se manifeste a força de Cristo… Somos atribulados em tudo, mas não desanimamos; somos golpeados, mas não prostrados; perseguidos, mas não abandonados; feridos, mas não mortos» (2Cor 12, 7-9; 4, 8-9); e a Timóteo: «O Senhor me acompanhou passo a passo e me sustentou com a sua força, para que por meu intermédio se cumprisse a pregação entre as nações: ele me arrancou das fauces do leão» (Tm. 9, 17).

As almas piedosas, sustentadas pela graça, suportam suas aflições e adversidades com mais facilidade e coragem do que os maus suportam a sua pretensa felicidade…

Falando São João Crisóstomo da graça do Espírito Santo no dia de Pentecostes, diz: «A graça despoja da malignidade e reveste de mansidão, tira a escravidão e dá a liberdade; por isso a terra foi transformada em céu, pois que estrelas podem comparar-se aos apóstolos?» (Serm. I de Pentec,), E em outro lugar afirma: «A graça de Deus é o refúgio seguríssimo e a torre inexpugnável (24)».

«Ao primeiro resplandecer da graça numa alma, escreve São Gregório, ela se sente imediatamente radicalmente transformada, de tal modo que deixa no mesmo instante de ser o que era e se torna o que não era (25)». E, para confirmar sua observação, diz em outro lugar que teria os exemplos de Davi, de Amós, de Daniel, de Pedro, de Paulo e de Mateus; mas, para isso, a palavra não lhe basta, tão surpreendente é ver a graça do Espírito Santo apoderar-se de um jovem que se entretém com a harpa e fazer dele um salmista; pousar sobre um simples pastorzinho e transformá-lo em profeta; descer sobre um jovenzinho e constituí-lo juiz dos anciãos; chamar um pescador e estabelecê-lo como sublime pregador; derrubar um perseguidor e elevá-lo a doutor das nações; escolher um publicano e convertê-lo em evangelista (Homil. in Evang.).

«Que prodígios opera a graça! exclama Santo Agostinho. Aquele homem que ontem víeis entregue à devassidão, hoje o vedes sóbrio e mortificado; ontem impudico, hoje modesto e casto; ontem blasfemador, hoje louvador de Deus; ontem escravo perdido da criatura, hoje servo zeloso e fervoroso do Criador. De que procede uma mudança tão inesperada, uma diversidade tão prodigiosa? Da graça» (In psalm. LXXXVIII).

Pedro, sem a graça, é vencido pela voz de uma criada; com a graça, sai triunfante dos reis, dos príncipes, dos impérios… Aquilo que é impossível para a natureza torna-se não apenas possível, mas fácil, pela graça… Ela chama, exorta, excita, inspira, impele, anima, conforta, consola, fortalece… De um homem carnal, terreno, escandaloso, forma um anjo de pureza, um modelo de santidade. Eis a Madalena…, Santa Maria Egipcíaca…, Santo Agostinho…, e uma centena de outros. «Ah! é realmente verdade que, se o Senhor rega uma alma com a sua graça, como diz São Jerônimo, ela prontamente germina e floresce como o lírio; lança profundas raízes como o cedro do Líbano, o qual, quanto mais se eleva, tanto mais penetra no solo as suas raízes, para desafiar a força do impetuoso aquilão» (Epist.).

Assim que a graça se manifesta numa alma, ei-la fundir-se como cera ao fogo, chorar os seus desvarios, abandonar-se resignada em Deus, tornar-se doce e mansa, arder de amor celeste. Então as montanhas do orgulho se derretem, os rios da vaidade e da ambição desaparecem, as chamas da impureza se tornam gelo, as estreitas gargantas da pusilanimidade, do temor e da acídia se fecham e permanecem cheias… A graça transforma um leão, um tigre, em um cordeiro; a graça muda um gavião em uma pombinha…; de um réprobo faz um eleito; de um demônio, um anjo; de um monstro de iniquidade, uma esplêndida imagem de Deus… E é a graça que povoa a terra de santos e o céu de bem-aventurados… Doce, admirável e consolador é contemplar as maravilhas operadas pela graça nos mártires, nas virgens, nos justos de todos os séculos.

14. UTILIDADE DA GRAÇA

Jesus dizia à Samaritana: Se conhecesses o dom de Deus, tu o procurarias e pedirias! (Jo 4, 10). Ah, se conhecêssemos a graça, as suas vantagens, oh! como ardentemente a desejaríamos, quão prontamente a procuraríamos, como nos esforçaríamos por alcançá-la, conservá-la e aumentá-la! Oh! como toda e qualquer outra coisa nos pareceria vil e desprezível!

A graça torna indiferentes àquilo que o mundo tem de mais lisonjeiro, atraente e sedutor. Quando se umedecem os lábios na água sagrada da divina graça, já não se tem sede do mundo, nada se deseja senão o céu… A graça dá a vida e a imortalidade…; produz a paz…; a grandeza da alma…; a alegria nas tribulações…; a esperança da glória… «Fazer coisas heroicas, sofrer com fortaleza gravíssimas adversidades, é próprio não dos romanos, mas dos cristãos», dizia um autor, aludindo ao feito de Cévola (26).

Pela graça nos tornamos amigos de Deus, somos adotados como seus filhos e gloriamo-nos de ter a Deus por pai… Pela graça, estamos em comunhão com a Santíssima Trindade, com a Santa Virgem, com os anjos e com todos os bem-aventurados… Pela graça, participamos de todos os méritos de Jesus Cristo, de todos os favores anexos ao santo sacrifício que se oferece sem interrupção no mundo inteiro; dos méritos de todos os santos… Pela graça, asseguramos para nós a recompensa da vida eterna.

Grandes e inestimáveis vantagens a graça traz ao homem: 1° Expulsa e destrói o pecado mortal, que é a sua suma desgraça… 2° Torna a pessoa agradável a Deus… 3° Faz o homem reto, santo, inocente, justo, semelhante a Deus, a quem submete a inteligência, a vontade e todas as suas demais faculdades… 4° Faz-nos filhos de Deus, seus herdeiros, co-herdeiros de Jesus Cristo, templos do Espírito Santo, membros de Cristo… 5° Traz consigo todas as virtudes e os dons do Espírito Santo… 6° Torna a alma mais esplêndida que o sol, mais bela que a lua, pura como os anjos; terrível para todos os seus inimigos… 7° É a semente da glória; assim como da semente nascem as plantas, as flores e os frutos, assim da graça nasce a felicidade e a glória eterna… 8° A graça fecha o inferno, abre o céu, dispõe de Deus como lhe agrada.

Pode-se dizer da graça aquilo que Salomão escreve sobre a sabedoria: «que conduz o justo por caminhos retos, mostra-lhe o reino de Deus, dá-lhe a ciência dos santos, faz prosperar o seu trabalho e abençoa os seus empreendimentos» (Sb 10, 10). «E, juntamente com ela, vêm todos os bens» (Ib. 7, 11).

«Deus visita a terra de nossos corações, diz o Salmista, fecunda-a e embriaga-a de bens. A chuva benéfica de suas graças faz germinar todas as virtudes na alma e a enche de alegria» (Sl 61, 5, 9-11). «O leite de vossas graças, ó Senhor, podemos dizer com a Esposa dos Cânticos, é mais delicioso que todo vinho precioso» (Cant. 1, 1). Ah, sim! Os seios espirituais da graça nutrem a alma e a enchem de consolações; assim como as crianças encontram todo o seu alimento e a sua felicidade no seio de suas mães, de modo que não procuram nem desejam outra coisa, assim é com a graça, da qual se pode dizer: «Quem de mim se alimenta terá sempre fome de mim; quem de mim bebe terá sempre sede de mim» (Eccli. 24, 29). Com efeito, quanto mais as almas fiéis saboreiam as delícias e as suavidades da graça, tanto mais sentem crescer em si o desejo delas. É próprio das delícias espirituais aumentar a avidez em quem as saboreia; as graças aumentam o desejo, saciando-o.

A graça suaviza os sofrimentos. «Aqueles, diz São Bernardo, que aborrecem e fogem da cruz veem a cruz, mas não a unção da cruz. Vós que amais a cruz sabeis, por experiência, que a cruz é destiladora de doçura e mel, porque ungida pelas graças do Espírito Santo, que vos ajuda» (Serm. in Cant.).

São Paulo dizia: «Em meio a todas as minhas tribulações, sinto meu coração transbordar de alegria e júbilo» (2Cor 7, 4). A graça, com efeito, transforma o fel em doçura, enquanto as doçuras do mundo transformam o mel em amargura. Basta uma gota de graça para transformar em mel um mar de fel; basta uma gota de volúpia carnal para fazer da vida inteira um cálice de amargura.

15. PRESTAÇÃO DE CONTAS QUE SE DEVE DAR DAS GRAÇAS

Contra aqueles que não se importam com as graças de Deus, Jesus Cristo pronunciou uma terrível sentença: «A quem muito foi dado, muito será pedido; a quem se confiou mais, mais se exigirá» (Lc 12, 48). Lembrai-vos da parábola do servo infiel e daquelas palavras: «Dá-me conta da tua administração» (Lc 16, 2), que nos ensinam que, se nada é tão importante quanto aproveitar-se da graça, por outro lado nada prejudica tanto quanto abusar dela. «À medida que aumentam os dons, diz São Gregório, cresce também a matéria da qual se deverá prestar contas (27)».

Fiquem escritas com caracteres indeléveis em nosso coração aquelas palavras de São Paulo aos Hebreus: «É coisa dificílima, para não dizer impossível, que aqueles que uma vez foram iluminados, receberam o dom perfeito, tornaram-se participantes do Espírito Santo, provaram as doçuras da palavra de Deus e as virtudes do século vindouro, e depois caíram, retornem outra vez à penitência, crucificando novamente em si mesmos o Filho de Deus e expondo-o à ignomínia; pois a terra que bebe a chuva que frequentemente cai em seu seio e produz ervas úteis para aquele que a cultiva recebe a bênção de Deus; mas, se produz espinhos e abrolhos, é reprovada e próxima da maldição; e o seu fim é o fogo» (6, 4-8).

16. É PRECISO APROVEITAR AS GRAÇAS

«Aquele que nos criou sem nós, não nos salva sem nós (28)», diz Santo Agostinho, e com razão; porque ninguém se salva senão por meio da graça, mas a graça não salva senão na medida em que se corresponde a ela e dela se tira proveito. Por isso, São Paulo escrevia a Timóteo: «Cuida de não negligenciar a graça que está em ti, e que esta advertência jamais te caia da memória; mas põe nela toda a tua alma e todo o teu cuidado, para que o teu progresso seja manifesto a todos» (1 Tm. 4, 14-15). E recomendava aos Hebreus que ninguém viesse a perder a graça (Hb 12, 15). Esta era a saudação de São João, o voto de São Pedro aos primeiros fiéis: «Estejam convosco, escrevia ele à casa de Eleita, a graça, a misericórdia e a paz» (11, 3); e este encerrava a sua segunda epístola dizendo: «Crescei na graça e no conhecimento de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo» (2Pd 3,18). Com efeito, quem não tira proveito, perde; dizia São Leão (Serm. de Pass.), e quem nada ganha, perde alguma coisa.

Não imitemos a Jerusalém cega em tirar pouco proveito das graças, para que não aconteça que Jesus Cristo tenha também de chorar a nossa perda e nos dirija aquelas palavras, ao mesmo tempo repreensão e sentença: «Ah! se ao menos neste dia, que ainda te é concedido, conhecesses o que poderia trazer-te a paz! mas agora tudo está oculto aos teus olhos» (Lc 19, 41-42).

«Bem-aventurado aquele que me escuta, diz a graça, e aquele que permanece à espreita às minhas portas para ouvir as minhas palavras! Quem me encontra, encontra a vida e obterá a salvação do Senhor. Mas quem me ofende, prejudica a sua alma; e quem não me ama, vai ao encontro da morte» (Pr. 8, 34-36).

E quem não tirará proveito da graça, se der ouvidos aos ardentes convites que Deus lhe faz por meio de seus profetas? Ouvi, por exemplo, o que diz Isaías: «Quem tem sede venha à fonte; quem está na indigência apresse-se, compre e sacie-se; vinde e comprai, sem desembolsar preço, vinho e leite. Escutai-me, alimentai-vos do bem, da graça, e a vossa alma se embriagará de delícias. Escutai-me e vinde a mim, escutai-me e a vossa alma viverá, e eu estabelecerei convosco uma aliança eterna» (Is 55, 1-3).

17. MEIOS PARA OBTER E CONSERVAR A GRAÇA

1° É preciso ter grande desejo dela: «A graça, como nos assegura o Sábio, previne aqueles que a desejam, para mostrar-se a eles em primeiro lugar. Quem se levantar de madrugada para procurá-la não terá de se cansar para encontrá-la, porque já a encontrará sentada à porta de sua casa» (Sb 6, 14-15). São Paulo desejava-a ampla e abundante sobre todos os cristãos, dizendo: «A graça de nosso Senhor Jesus Cristo esteja com todos vós» (2Ts 3, 18); e com isso deu-nos o exemplo de desejá-la para nós mesmos; porque, segundo diz a Sabedoria, todos os que tiveram sede e invocaram o Senhor sempre encontraram a água que os dessedentou (Sb 11, 4).

2° É preciso rezar para obtê-la, conservá-la e aumentá-la. «Peça-a a Deus, sugere São Tiago, que lha dá em abundância» (Tg 1, 5). Assim fez a Samaritana, que prontamente disse a Cristo: «Dai-me, Senhor, dessa água, para que eu nunca mais tenha sede» (Jo 4, 15). Assim fizeram aqueles dos quais conta o Salmista que «pediram e receberam do céu o alimento; tendo sede, rezaram, e o Senhor fez brotar para eles uma fonte no deserto» (Sl 104, 39-40).

3° É preciso vigiar; porque a graça, diz o Crisóstomo, é dada somente aos vigilantes (29). Por isso, São Paulo diz aos Efésios: «Despertai, vós que dormis, levantai-vos dentre os mortos, e Cristo vos iluminará com a sua graça. Cuidai, pois, irmãos, de andar com prudência, não como insensatos, mas como sábios» (Ef 5, 14-16).

4° É preciso evitar o pecado ou dele sair, porque o pecado é o único obstáculo à graça. A graça não pode coexistir com o pecado, assim como a noite com o dia, a vida com a morte.

5° É preciso buscar a graça na sua própria fonte, isto é, nos sacramentos.

Fonte: I tesori di Padre Cornelio a Lapide S.J., tratti dai suoi Commentari sulla S. Scrittura; dall'ab. Barbier, per uso dei predicatori e delle famiglie cristiane. Prima versione italiana dal francese, del sacerdote Francesco M. Faber. Parma, Pietro Fiaccadori, 1869 (3 volumes), em domínio público. Tradução para o português brasileiro do Lírio Católico, feita a partir do italiano; o original de cada seção abre pelo botão Italiano ou fica ao lado do texto pelo botão Ver original em italiano.